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Reflexão em tempo de epidemia

Cada macaco no seu galho.

Em época de recolhimento compulsório, proporcionado pela eclosão da pandemia do Corona Vírus, também chamado Covid-19, cujo nome é SARS-Cov-02, não estou me sentindo afetado grandemente. Desde agosto de 2011, quando sofri um acidente, sou amputado e passo grande parte do meu tempo recluso em minha casa. Estou apenas um pouco mais limitado. Mantenho-me ocupado elaborando apostilas de física e matemática, integrados com as postagens dos meus blogs do mesmo assunto. Também tenho alguns livros publicados, todos produto surgido no período pós acidente. Estou me sentindo tranquilo e não me estresso.

Tudo isso me faz pensar e tenho lido muitas matérias envolvendo diversas classes de trabalhadores. Me chama atenção um problema que está em muita evidência nos últimos anos. Estou falando da classe dos empresários e da classe dos trabalhadores. Olhando de fora, é algo de percepção bastante fácil o que acontece nos embates entre as duas categorias. De um lado os patrões, buscando apenas os seus lucros, nem que seja necessário levar o trabalhador à miséria e talvez a morte. Usam de seu poder econômico para pressionar os políticos, em busca de vantagens sempre maiores, em detrimento dos trabalhadores. Pergunto-me se eles imaginam ser possível um mundo em que só haja empresários! Para quem irão produzir, a quem irão vender seus produtos e serviços?

Do outro lado estão os trabalhadores, aglutinados em seus sindicatos, para conseguir ter mais força e assim barganhar algumas migalhas. Nos últimos anos temos assistido a um verdadeiro massacre por parte do nosso governo, aliado ao congresso e mesmo as altas cortes do judiciário. Primeiro foi a reforma trabalhista, que flexibilizou, com a promessa de uma possível geração de empregos, diversos dispositivos que garantiam direitos dos trabalhadores. As garantias se foram e os empregos longe de surgirem. Neste momento, com a pandemia tomando o país de assalto, podemos prever um período mais negro no horizonte de nossa economia.

Não estou me posicionando nem a favor de um lado, tampouco do outro. Vejo o empresário e o trabalhador como as duas faces de uma mesma moeda. Um mundo sem empresários, não se sustenta. As fábricas e outros empreendimentos são necessários. Os trabalhadores por sua vez são imprescindíveis. O maior empreendimento não funciona sem a presença dos servidores, nome aliás um tanto indevido. Há muitos lugares em que se usa a palavra “colaboradores” para designar aqueles que são assalariados ou prestam serviços. Em lugar de se digladiarem e gastar energias preciosas em embates desgastantes sobre salários, direitos e obrigações, deveriam sentar e dialogar. O empresário deveria olhar o trabalhador como seu parceiro. Seus esforços somados transformam o mundo, melhoram a qualidade dos produtos e serviços, aumentam a rentabilidade dos empreendimentos. Então pergunto por quê se tratam com tanto desprezo em muitas situações?

O trabalhador necessita do empresário, pois é ele que lhe provê o emprego. Não vou dizer que é o empresário que lhe paga o salário. O salário eu vejo como a participação de quem produz no resultado de seu trabalho. Por outro lado fica ao empresário o lucro sobre seu investimento, que, diga-se de passagem, é geralmente desproporcional ao que é destinado ao sustento e manutenção dos empregados.

É com júbilo que venho observando há alguns anos a atitude de empresários com uma visão diferente em seus empreendimentos. Os colaboradores, são vistos com respeito e tratados com dignidade, tornando sua vida mais amena. Um trabalhador satisfeito, desenvolve suas atividades com maior disposição, produz mais e melhor. Ao final, tanto um lado quanto outro tem a ganhar com toda certeza. Infelizmente esses ainda são uma ínfima minoria no mundo como um todo, muito pior no nosso Brasil. Assistimos durante os últimos quatro anos um rosário de projetos aprovados, onde se penaliza cada vez mais os trabalhadores, sobrecarregando-os com contribuições e minimizando-lhes os direitos. Direitos ou vantagens conquistadas ao longo de décadas com muita luta, negociação e apelos ao bom senso de empresários e políticos. Com pouco tempo muito disso virou pó, foi meramente suprimido, contra o desejo dos trabalhadores. Tudo em nome de um deus, denominado mercado, que supostamente se encarregaria de regular tudo e equalizar as diferenças. E o que assistimos? Dia após dia as riquezas de nosso país são dilapidadas, entregues por valores irrisórios aos magnatas vorazes do exterior, incluindo-se aí governos, megaempresas e conglomerados financeiros diversos. Para nosso povo trabalhador, restam, se é que restam, migalhas.

Tenho esperança que após o Tsunami do Covid-19, o mundo acorde para a realidade e se transforme radicalmente. Temos, se estivermos dispostos a isso, condições de parar com o aquecimento global, de alimentar a todos os seres humanos que vivem no planeta. O mundo produz volume de alimentos e demais bens de consumo em quantidade suficiente para que nenhum ser humano ou animal passe fome. Eliminando o desperdício e realizando uma distribuição mais igualitária dos rendimentos, será possível a cada pai/mãe de família, a cada indivíduo pagar o preço justo pelo que necessita para viver condignamente, sem privações sérias. Temos como tornar a vida, o trabalho, a produção sustentável na Terra e vivermos todos muito melhor.

Comecei esse texto há cerca de um mês ou pouco mais e depois o esqueci no arquivo. Hoje o resgatei e quero complementar algumas coisas, antes de publicar. Eram algumas centenas de óbitos por conta do vírus causador da Covid-19, hoje estamos em torno dos 27 ou 28 mil, sendo o número de infectados, notificados mais de meio milhão. Se o governo estivesse disposto a agir com firmeza, promovendo a realização de testes em massa, provavelmente estaríamos contabilizando alguns milhões de infectados e quiçá uma ou duas centenas de milhares de mortos.

Nas últimas semanas a pressão dos empresários, estimulados pelo presidente da república, um literal genocida, pela abertura dos comércios tem sido muito intensa e já se notam sensíveis incrementos no crescimento da curva de avanço da epidemia. Sempre a maldição da economia, em detrimento das vidas. Parece que o dinheiro poderá trazer de volta as vidas perdidas. Até mesmo crianças e adolescentes sabem que para a morte não existe remédio. Mas para o sistema econômico, há sempre uma nova chance. Pergunto a esses ávidos por salvar seus negócios, seus comércios e indústrias, com suas gordas contas bancárias, de que valerão os milhões acumulados em bancos e guardados em cofres, se os possíveis trabalhadores e consumidores tiverem ido para a chamada “cidade dos pés juntos”? Irão vender para quem o que produzem? Quem irão contratar para trabalhar, se os empregados com experiência tiverem ido em grande número para a eternidade?

Peço que Deus ilumine os pesquisadores em suas atividades para que sejam capazes de produzir o quanto antes uma vacina contra essa verdadeira praga denominada Sars-cov-02. Também identifiquem entre os inumeráveis compostos químicos algum que seja capaz de destruir esse patógeno no organismo das pessoas, sem lhes causar danos colaterais sérios. Que seja um ou vários combinados, pouco importa. O importante é oferecer um raio de esperança aos infectados e aos seus familiares. É muito triste para alguém levar um familiar para um hospital, com problemas de respiração e saber que precisará ser colocado em um respirador mecânico. Isto se houver disponibilidade de tal equipamento. Pode ser o último momento de ver essa pessoa viva e depois somente poder imaginar uma morte horrorosa, sem poder ver nem render uma última homenagem. Caixão lacrado e sepultamento sem demora.

São situações que não nos são familiares, pelo menos em tempos de normalidade. Lembro dos comboios de caminhões militares na Itália, levando carregamentos de caixões contendo corpos de vítimas, ficando seus familiares apenas na possibilidade de ver das janelas o passar do fúnebre cortejo.

Não bastasse todo esse horror, ainda encontramos inúmeros homens e mulheres que desrespeitam as recomendações de precaução como uso de máscara, manter-se longe de aglomerações, sair de casa apenas para fazer o estritamente necessário. Se eu me cuido, certamente também estarei cuidando do próximo, pois se não me infectar, não terei possibilidade passar o contágio para outras pessoas. O isolamento social, a manutenção da distância, uso de proteção, tudo tem consequências comunitárias. Não somos ilhas e temos que nos manter suficientemente afastados para não nos destruirmos mutuamente.

Poderia passar horas desfiando argumentos e apresentando fatos, mas de nada adiantaria, pois quem não quer ouvir, ou se nega a ver, é o pior surdo ou o pior cego. Tenho que tomar cuidado para não ser levado junto com ele para o abismo.

Vamos nos cuidar, vamos ficar em casa o quanto mais tempo possível. Há coisas que podemos fazer e assim ocupar nosso tempo de modo criativo e útil. Se você acredita em oração, seja qual for a sua crença, não hesite em orar. Deus não está a postos para realizar milagres o tempo inteiro. Ele espera que façamos a nossa parte, pois o que lhe compete Ele o fará com certeza.

PS.: Hoje completam exatamente 19 anos que eu fui submetido à cirurgia cardíaca, para implantar uma ponte safena e uma mamária. Isso naquele momento era minha redenção. Hoje minha redenção é ficar em casa. Bom final de semana e isolamento produtivo.

Curitiba, 30 de maio de 2020

Décio Adams

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