Educação no Brasil

Educação no Brasil

Um pouco de história.
          
          Sabemos dos livros de história que as primeiras escolas surgidas no Brasil são devidas à obra dos Jesuitas. A própria cidade de São Paulo, deve sua fundação à ação desses dedicados educadores. José de Anchieta é um dos seus expoentes. Em todo território podemos encontrar restos claros de sua atuação nos primórdios de nossa história, primeiramente como colônia de Portugual e menos intensa, porém não menos importante nos quase dois séculos de independência. 
           No Estado do Rio Grande do Sul fundaram o que é conhecido como os Sete Povos das Missões, tendo inclusive alcançado parte do atual território Argentino. Vamos ver se lembro dos nomes: Santo Ângelo, São Miguel das Missões, São Nicolau, São Borja, São Luiz Gonzaga, São João Batista, Caaró, Missiones na Argentina. Quem quiser ver uma galeria de imagens no buscador do google sete povos das missões e poderá observar o que ainda hoje resta do trabalho realizado ali pelos jesuitas. 
             Quando o Marquês de Pombal ocupou o posto de comando no reino de Portugal como braço direito do rei, expulsou os jesuitas e destruiu grande parte do trabalho maravilhoso feito até ali. Os índios, sem a orientação dos jesuítas, foram em grande parte dizimados de diversas formas e a área foi ocupada por colonizadores de diversas orígens. 

Vista frontal da Igreja de São Miguel. Ruina preservada como patrimônio histórico da humanidade. Estive nesse lugar.

Vista interna da Igreja de São Miguel. Paredes contem escadas para acesso aos pontos superiores. Tudo em pedra.
Ruinas de outros aldeamentos das missões.

Área de patio interno fortificado.
Painel entalhado em blocos de pedra.
Construção em dois andares.

Mais ruinas.

Ruinas remanescentes das missões.

Museu construido ao lada da ruina de São Miguel.

Imagem de Igreja restaurada.

Ruinas de Missiones, Argentina.
              Sou bisneto de imigrantes. Meu bisavô materno, Pedro Dewes, foi professor fundador(1899/1913) da primeira escola existente no hoje município de Salvador das Missões, e que tem o nome Escola Afonso Rodrigues, dado em homenagem a um dos três mártires das missões, a saber  Pe. Roque Gonzales, Pe. Afonso Rodrigues e Pe. João del Castillo.  Sua morte ocorreu em Caaró.
Santuário em homenagem aos mártires

Imagens dos três mártires, hoje santos.
Coração carbonizado de Roque Gonzales.

Marco comemorativo do local do martírio.


         Tendo imigrado, proveniente da Alemanha, Pedro Dewes não tinha certamente domínio da língua portuguesa. Suas aulas eram ministradas no idioma alemão, uma vez que os moradores eram praticamente todos dessa origem. Minha mãe, nascida em 1929, foi alfabetizada em alemão, tendo somente no último ano recebido as aulas em português. Era isso que ocorria em grande parte do interior gaúcho e acredito em muitos lugares nos demais estados. Na ausência de quem estivesse habilitado, não querendo ver os filhos totalmente analfabetos, os colonos pagavam mensalmente uma taxa, o professor habitualmente tinha uma casa e um pedaço pequeno de terra para cultivar, que eram de propriedade da comunidade. Da mesma forma os núcleos poloneses tinham suas escolas. Somente na era Getúlio Vargas as escolas no interior passaram a ter obrigatiriedade de ministrar suas aulas em português. 
        Meu professor primário de saudosa memória, Aloísio Rockenbach, não tinha sequer o curso ginasial. Isso no entanto não lhe desmerece o trabalho. Ao contrário, enaltece, pois lembro que ninguém saia do quarto ano primário sem conhecer a taboada pelo menos até 10. Sabíamos fazer corretamente as quatro operações, noções de porcentagem, juros e tal. São coisas que hoje muitos não dominam perfeitamente depois de nove anos de ensino fundamental, alguns inclusive com ensino médio concluido. Vendo algumas pérolas das redações encontráveis nas provas do ENEM, sinceramente, até o cabelo do relógio fica arrepiado.
             Fui ter aulas com um professor formado em um curso do então denominado “Ginásio Normal”, no quinto ano, em 1960, na Linha Silva Jardim, numa Escola Normal Isolada. O nome do mestre era polonês Estanislau Subutscki. Assim completei minha formação considerada primária, ficando habilitado a prestar o exame de admissão ao ginásio. Isso ocorreu nos primeiros dias de janeiro de 1961, no Seminário São José na cidade de Cerro Largo. Os resultados obtidos foram considerados fracos para enfrentar de cara o ginásio, sendo aconselhável fazer um ano de admissão e só então ser promovido a “ginasiano”. Isso naquele tempo, no interior era considerado algo além de um ingresso na faculdade nos dias atuais. Quem tivesse em seu histórico um diploma de curso ginasial, era considerado de nível acima do normal. Estava logo abaixo de médico, advogado, padre e estava apto a ocupar qualquer posto que quisesse pleitear. 
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;         No final da década de 50 havia sido retirada a obrigatoriedade do estudo de Latim nas escolas do país e foi implantado o sistema de aprovação por média. Isso foi devido à gritaria geral dos estudantes que começavam a se organizar em assossiações ou grêmios estudantis, fazendo pressão sobre os órgãos governamentais. Quero deixar claro que essas “benesses” me alcançaram em parte depois de algum tempo. Os primeiros anos foram feitos, tendo médias mensais, inclusive com leitura de notas e classificação em ordem decrescente dessas médias. Havia depois o exame semestral, antes das férias de inverno, com peso 2(dois) no final. Para encerrar o ano, havia o exame anual em que era cobrado o conteúdo do ano inteiro. O peso desse exame era 3(três) ou 4(quatro). Não lembro bem. Quem não conseguisse média final 5(cinco) enfrentava antes do início do ano letivo seguinte uma prova de segunda época, ou ficava reprovado. No ano de 1964, finalmente foi adotada a aprovação por média. A média necessária era 7,0(sete) + 1,0, isto é, com oito notas mensais, tinhamos que alcançar 57,0 pontos para sermos aprovados por média. Quem não alcançasse essa pontuação, fazia exame final com todo o conteúdo, sem direito a aulas de revisão nem nada. Apenas uns dias para estudar e fim de papo. A última chance continuou sendo a segunda época. 
             O estudo do Latim, sendo essencial para a Igreja Católica, continuou obrigatório. Tanto que ao egressar no começo da 4ª série, eu já sabia “latir” razoavelmente bem. Sabia traduzir até alguns trechos de Júlio César com perfeição. Isso foi de grande importância para a minha vida. Ao contrário do que muita gente pensa, estudar latim é uma forma de desenvolver a capacidade de raciocínio. Por ser uma língua considerada morta e de estrutura complexa, com suas declinações, ausência de preposições e pronomes, pelo menos na forma como nós usamos hoje. A forma peculiar de posicionar os vocábulos, exige boa desenvoltura intelectual. Foi isso que levou à abolição desse estudo nas nossas escolas e também começou o declínio da qualidade do ensino em geral. 
              Falei aqui do que aconteceu no Rio Grande do Sul, pois foi lá que nasci e fiz meus primeiros anos de escolaridade. Penso que no restante do país não deve ter ocorrido nada muito diferente, guardadas as peculiaridades das procedências dos imigrantes que ocuparam os diversos territórios de norte a sul. No próximo artigo, vou falar da Lei 5692, que estabeleceu as novas diretrizes e bases do ensino brasileiro, sob a batuta de Jarbas Passarinho, então Ministro da Educação durante o governo do regime militar. Se não me falha a memória de momento, o presidente era Arthur da Costa e Silva. 

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