Educação do Brasil! – Evolução dos títulos no decorrer do tempo.

Títulos ao longo do tempo.

Decadas 50/60/70, do século XX.

            Quando iniciei minha vida no mundo do conhecimento, era habitual chamar de Doutor aos médicos, tanto que o termo por muitos anos foi para mim sinômimo de médico. Talvez isso seja em parte devido ao fato de ter nascido no interior, frequentado escola rural, sem contato com o mundo. O primeiro rádio que conheci foi comprado por meu avô Mathias Dewes por volta de 1955/56. Jornal não existia, revista então, nunca havia visto. 
               Nos anos 60 aos poucos evolui, estudei em colégio interno e o horizonte ficou mais amplo. Fiquei sabendo que advogado e engenheiro também recebiam o título de doutor. Nessa época havia o hábito de usar o termo Mestre, para se referir ao professor de modo mais respeitoso, ou então a alguém que fosse um professor com mais fama, muitos anos de experiência. Em meio a década de 70, mais precisamente 1976, fiz uma prova de concurso para seleção de professores que iriam elaborar os materiais didáticos e depois lecionar em uma escola de primeiro grau em processo de criação. Pertence ao hoje conhecido nacionalmente Grupo Positivo. A escola é o Positivo Junior. Concorria eu para a cadeira de matemática e depois ficamos sabendo que a prova havia sido elaborada por um professor que recebera recentemente o título de Doutor em matemática no Rio de Janeiro. Algo raríssimo naquele tempo.

Décadas finais 80/90 e século XXI
                 Em 1980, junto com dois colegas Hans Gerhard Peters e Gilberto da Costa e Silva, todos atuando, além do CEFET-PR, na então UCP(Universidade Católica do Paraná), hoje PUC-PR, participamos de um curso de especialização patrocinado pela universidade, sendo ministrado por equipe da UFRGS. O nome do curso Metodologia do Ensino Superior, duração de 360 horas. Fomos os primeiros professores do CEFET-PR a sermos portadores de tal título, posteriormente proporcionado a um bom número de outros colegas. 
                  Logo apareceram colegas como Jazomar Vieira da Rocha, Luiz Roberto Gomes, Nilson Marcos Dias Garcia e Pedro Sérgio Baldessar que pleitearam e conseguiram realaizar cursos de mestrado em física na USP e UFSC. Em 1987 eu me demiti do CEFET-PR e assumi o cargo de professor nível 6 na Secretaria de Estado da Educação do Mato Grosso, na cidade de Brasnorte, onde permaneci até meados de 1993. Em fevereiro de 1995, reigressei no CEFET-PR, encontrando agora um elevado número de professores com títulos de mestre, outros doutores, alguns afastados para cursar mestrado e doutorado. Iniciara-se a febre da obtenção de titulação para poder ser professor dos cursos nas escolas Federais, especialemente nos cursos de nível superior. Ocorria que cada departamento tinha autonomia para liberar ou não um ou mais de seus membros para afastamento com a finalidade de obter titulação. As aulas que caberiam aos afastados, eram assumidas pelos demais integrantes do grupo. Em vários momentos participei de decisões desse tipo. Como havia me reintegrado recentemente, não seria minha vez de pleitear um afastamento. 
              Em 1998 precisei passar por uma cirurgia de alto risco e fiquei afastado por 90 dias. Depois passei algum tempo tendo que tomar alguns cuidados. Sobreveio uma segunda cirurgia, dessa vez cardíaca e logo depois em sucessão uma de endarectomia carotídea esquerda e depois direita. O tempo passando. Eu aguardava a hora de sair para fazer mestrado, pois isso repesentaria uma diferença substancial nos meus vencimentos. Mas havia um grupo de pessoas afastadas e não havia margem para mais afastamento. Com isso, os longos anos de carga excessiva de trabalho, até 15 horas aula num mesmo dia, fizeram efeito. Senti-me cansado e tendo completado o tempo de contribuição para aposentadoria, optei por me aposentar. 
             Assisti diversos colegas de departamento, e também de outros, concluirem o mestrado, obter sua elevação na carreira, para pouco tempo depois pedir aposentadoria. Nítidamente o título usado apenas para ter uma remuneração mais polpuda na aposentadoria. Nada era revertido para a escola, para o departamento das pesquisas que o elemento desenvolveu no curso de mestrado ou doutorado. 
              Outro fato interessante é cursos de doutorado em uma área que não tem nada a ver com a atividade fim da instituição. Isso significa que nada, mas nada mesmo do que foi estudado, pesquisado trará algum benefício à atividade do titulado na instituição. Resume-se apenas ao seu novo status, uma remuneração mais “gorda” e pronto. Digo com franqueza. Eu me sentiria constrangido com essa situação. Em meu entendimento, se a instituição patrocina minha ida para um curso de mestrado/doutorado, pagando meu salário enquanto estou estudando, tenho a obrigação moral de retornar e permanecer por um tempo razoável aplicando o que fui aprender. Do contrário é nítidamente um desvio de finalidade. Para quê serviu o curso? Apenas para engordar o vencimento do beneficiado? Quem custeou esse curso? Foi o erário público e a ele deve retornar, na forma de prestação de serviços por um prazo minimamente consideravel, para que tenha valido à pena. 
               Foi isso que me impediu de ficar por mais dois ou três anos na ativa e fazer também um curso de mestrado. Temia inclusive não suporta
r a pressão e ser obrigado a interromper o curso o que seria um pouco mais frustrante. Dessa forma, fiquei alijado de ser contemplado, assim como muitos outros, com os reajustes nos proventos, que durante seguidos anos foram dados apenas aos detentores de títulos de mestre, doutor ou mesmo pós-doutor. Como se quem passou 30 anos ralando nas salas de aulas, não tivesse passado pela escola da vida e merecido com isso uma remuneração mais condigna.
               Longe de mim ser contrário à exigência de titulação para exercer as atividades de magistério nos cursos de formação superior. Isso vem trazer qualidade e eleva o nível. O que não me parece adequado é o que vemos nos dias atuais. Poderia citar páginas de exemplos de recem graduados que imediatamente começaram o curso de mestrado, sem um único dia de prática na sua área de graduação. Geralmente, quando concluem o mestrado eles já tem o doutorado engatilhado. Assim chegam ao mercado de trabalho, ostentando um título de doutor, sem jamais terem mexido uma palha no campo de trabalho. Desconhecem totalmente os níveis inferiores da atividade que vão desempenhar. Correm o risco de desconsiderar a experiência de anos de prática, em favor de seu “pseudo” conhecimento superior devido ao título que detem. Não devemos esquecer o ditado bastante conhecido que diz: Na prática a teoria é outra. 
               Há inúmeros exemplos mundo afora em que, fundadores de grandes impérios econômicos, de cunho familiar, com a finalidade de dar ao filho ou sucessor o domínio de todas as etapas dos processos da empresa. Isso foi conseguido fazendo com que ele passasse por todos os níveis de atividade, sujeito às mesmas normas e responsabilidades dos demais. Dessa forma ao atingir a cadeira de comando, tinha na mente o “mapa” de todo o sistema. Sabia como funcionava cada setor, cada departamento. Isso evitava a emissão de ordens absurdas capazes de inviabilizar grandes negócios, inclusive causando imensos prejuizos, quando não levando à ruina do que tão habilmente fora construido ao longo de décadas de trabalho dedicado e lento. 
             Para concluir, quero aqui dar minha opinião sobre como deveria ser encarada a questão dos cursos de titulação. Creio que teríamos um melhor aproveitamente desse esforço de prover titularidade aos nossos profissionais, se, após a conclusão da graduação, houvesse uma obrigatoriedade de exercer por um período mínimo de 5(cinco) anos a profissão acabada de adquirir. Após esse período o indivíduo teria direito a pleitear um curso de mestrado. Concluido o mestrado, novo período mínimo de exercício da profissão, pondo em prática, testando as hipóteses desenvolvidas no curso e então sim, tendo uma base experimental, partir para um doutorado que levaria a uma maior aplicabilidade desses cursos. O esforço seria direcionado à obtenção de frutos na melhoria de uma porção de atividades, tanto no conhecimento como nos processos nas mais diferentes áreas. Teríamos menos títulos servindo somente de enfeite em paredes, siglas Msc ou Dr colocadas diante de nomes, sem que isso tenha maior significado prático. Deixaríamos de viver de aparências. 
             Felizmente, temos inúmeros exemplos que mostram o contrário do que eu disse acima. A esses nobres profissionais, não tenho nada a reparar. Estou me referindo aos que usaram os seus títulos conseguidos em grande parte às custas de recursos públicos, apenas em benefício próprio, sem que nada tenha retornado à sociedade que lhe ofereceu essa condição e ainda por cima continua a lhe pagar um salário mais elevado pela mesma razão. 

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