Um pouco da história de minha vida – em Brasnorte – MT (2)

 

Fachada da Estação Rodoviária de Cuiabá em fevereiro de 1987.
Área de saída e chegada de passageiros da rodoviária de Cuiabá.
Mais área de saída, pontos de taxi na rodoviária.

 

Deixando tudo por um sonho!
 
Depois do que eu escrevi no outro artigo, preparei a ida para o Mato Grosso. Deixei tudo que tinha aqui em Curitiba, partindo ao encontro de um sonho. Meus empregos ficaram para trás. Num primeiro momento levei comigo apenas o filho mais velho Décio Adams Junior. Aqui permaneceram Rita minha esposa e os filhos gêmeos Augusto Mathias e Anselmo Daniel.Tínhamos colocado à venda nossa casa. Assim que o negócio fosse concretizado, eles seguiriam ao nosso encontro. Embarcamos num ônibus da União Cascavel, hoje EUCATUR. Passamos por Cascavel, Mal. Cândido Rondon, Guaíra e seguimos para Cuiabá – MT. Ao chegarmos a rodoviária, tivemos oportunidade de ver o ambiente mostrado nas fotos abaixo. 
 
Área de circulação de passageiros, indo para as plataformas de embarque.
Área de espera pelo momento do desembarque.
 Chegamos ao anoitecer e naquele momento nada poderíamos fazer. Antes de viajar para Brasnorte, teria que passar pela Secretaria de  Educação, encaminhar minha posse. Procuramos um pequeno hotel nas proximidades da rodoviária. Era barato e não tínhamos que carregar muita bagagem que ficou protegida no guarda volumes da rodoviária. 
 
Na manhã seguinte procurei a secretaria da educação para tratar dos trâmites para a posse. Recebi uma lista bem grande de exames médicos a fazer, com os respectivos endereços. Sem conhecer absolutamente nada da cidade, andamos os dois de um canto a outro, procurando onde tínhamos que ir. Entre idas e vindas, consegui concluir tudo antes do final de semana. Levei os resultados ao lugar indicado e ali recebi a informação de que teria que retirar o documento para tomar posse na DREC em Diamantino, apenas na semana seguinte. Era sexta-feira antes do Carnaval. Ficar uma semana inteira na Capital não estava nos planos. 


Fila para compra de passagens.
Plataforma de embarque.
Embarcamos num ônibus da empresa TUT Transportes e seguimos para Tangará da Serra. Passamos por Jangada, Barra do Bugres e chegamos em Tangará da Serra. Dali embarcamos em outro carro da mesma empresa, adaptado ao tipo de estrada que enfrentaríamos. Era a estação das chuvas e as estradas não asfaltadas estavam em péssimo estado que poderão ver nas fotos que virão logo a seguir. A viagem de 340 km demorou mais de 12 horas. Havia momentos em que tínhamos a impressão de que os feixes de molas do veículo subiriam pelo assoalho acima, tamanhas eram as pancadas das rodas nos buracos existentes na estrada. Chegamos com a estrada molhada pois chovia praticamente todos os dias. 
 
No ponto de parada encontramos um táxi que nos levaria até a fazenda de meu irmão Agileu, onde chegamos em torno do meio dia de sábado. Ali chegando, encontrei minha irmã Elvenete, o cunhado Romeu e a filha Kelly ou Kátia, não lembro direito qual das duas era nessa época. Passamos o final de semana na fazenda e na terça-feira de carnaval aproveitei a carona para ir até Rondonópolis, de onde voltaria a Cuiabá na quinta feira para pegar meu documento. Décio Adams Júnior ficou na casa do tio aguardando minha volta.
 
Praça no centro de Cuiabá
Prédio da administração estadual no centro de Cuiabá.
O mesmo prédio, visto de outro ângulo.

 

 

Praça em frente ao mesmo edifício.

 

 

Vista do cerrado a partir da área de embarque da rodoviária.

 

 
Na quinta-feira peguei meu atestado de aptidão física para assumir o cargo de professor para o qual fora nomeado em virtude da aprovação no concurso. Retomei o mesmo percurso, dessa vez sozinho, chegando na tarde de sexta-feira à fazenda do meu irmão. Na segunda-feira ele nos trouxe para a vila, trazendo na camionete C-10 todos nossos pertences. Havíamos levado ferramentas para iniciar a abertura da chácara que meu pai me autorizara ocupar, próxima à vila(800 m). Conseguimos uma casa desocupada, mas sem móveis. O clima quente favorecia e tínhamos levado cobertores, uma rede e assim nos viramos. As refeições fazíamos na casa das irmãs da Divina Providência que prestavam serviço à comunidade. 
 
Eis uma amostra do que eram as estradas da região na época das chuvas que duram mais de seis meses. Trechos que em condições normais são percorridos em algumas horas, podiam  demorar até mesmo dias. Frequentes quebras de veículos transformavam a vida dos caminhoneiros em um verdadeiro inferno. Os ônibus não ficavam para trás. Abaixo uma estrada de interior, pouco mais que uma trilha e servia aos proprietários de terras para chegar à sua propriedade. Uma vez ali instalados, percorriam quilômetros e mais quilômetros para chegar ao núcleo urbano projetado, mas  quase inexistente. Na estação das chuvas, abundantes poças de água e lama se formavam, tornando a passagem uma verdadeira odisseia. 

 

 
 
Ao lado mais uma amostra da quantidade de caminhões de diversos portes, veículos pequenos enfrentando o lamaçal em que se transformavam as estradas na época das chuvas. Em meio a essa situação chegamos para iniciar nossa vida em Brasnorte. 
 
Iniciei minhas aulas na escola e meu filho foi matriculado na quarta série do primeiro grau. Na escola encontrei como diretora a professora Marlene Neumann de Oliveira, seu marido Augusto Oliveira, Ironi Zancanaro, sua esposa Letícia, Célia Barranco Pssamani, Marlene Debo, Celina Silva da Cruz, Delcina, Antônia Doralice Silva, Antônia Aparecida Pereira Prado, a esposa do senhor Marcelo Pietsch e sua filha. Havia chegado naquele início de ano o professor Tadeu Kapron, também de matemática, mas tendo diploma de magistério e Décio Junior se tornou seu aluno. É natural de Cândido Godoi, de onde eu vim muitos anos antes. Na secretaria trabalhava Mônica Debo, casada com o funcionário do posto local da Emater, Mato Grosso, conhecido por Edinho. Alguns nomes não lembro agora. 
 
Havia necessidade de ir até Diamantino na DREC para assinar o termo de posse. As dificuldades desse deslocamento permitiram que fizesse isso algumas semanas depois, sendo que viajei de carona com o vereador Adão Passamani. Viajamos num dia de feriado em março. No dia seguinte assumi meu cargo e descobri tardiamente que, em lugar de ficar a semana inteira perambulando por Cuiabá, atrás das consultas e laboratórios para realização dos exames, poderia ter ido diretamente até ali e resolvido tudo no mesmo dia. Uma lamentável falta de comunicação. Mas isso é passado. Havia iniciado o serviço de roçar o mato na chácara onde iríamos morar. A viagem de volta foi feita de ônibus, passando por Alto Uruguai, Arenápolis, Nortelândia, uma outra cidadezinha menor e Tangará da Serra. No meio do caminho para Brasnorte havia um posto de parada, uma ou duas casas além de um posto de combustíveis. Ali hoje existe a cidade de Campo Novo do Parecis. Já em 1993 quando encetamos o caminho de retorno a Curitiba, por razões médicas, ali existia uma florescente área urbana, emancipada há algum tempo.  
 
Poucas semanas depois de nossa chegada, veio para Brasnorte uma caravana enviada pelo Governador eleito no anto anterior para implantar o que denominavam Conselho Municipal. Embora ainda não fosse município, mas o processo estava encaminhado e foi concluído em 1988, sendo realizadas as primeiras eleições municipais, foi incluído no projeto. Lembro da reunião no então Clube Guarantã. Pareceu-me uma iniciativa de futuro e me lancei de corpo e alma na participação, tendo sido eleito secretário e Ezequias Vicente da Silva Presidente. Norberto de Paula, mais conhecido como Nenti, era o vice-presidente. Seria uma instância onde haveria a participação popular nas tomadas de decisão importantes para a comunidade. Eu disse “seria”, pois lamentavelmente o ideal estava muito além da realidade que surgiu. Os integrantes do partido governante se apossaram das posições de poder e passaram a comandar tudo, como se governantes fossem. A vida dessa entidade foi curta, pouco mais de um ano. O povo desestimulado por ficar em posição meramente figurativa, deixou de participar. 
O conselho se reunia mensalmente, sempre aos domingos pela manhã após o culto na igreja, ou em algumas ocasiões extraordinárias quando algum motivo justificava tal ação. Lia-se a ata da reunião anterior, submetendo-a a aprovação dos presentes. Eventualmente havia correções a fazer que eram apresentadas e anotadas, para posterior lançamento. Depois eram apresentadas as proposições e ocorria alguns pronunciamentos a favor ou contra, antes de realizar a votação. Raramente havia uma rejeição do que era proposto, tornando um tanto monótonas as reuniões. 
Via de regra havia aprovação quase unânime, fato que torna as decisões um pouco temerárias, haja visto que a unanimidade costuma ser tida como “burra”. Decisões tomadas sem um debate detalhado, tem pouca ou nenhuma consistência. Mas o tempo passou e o plano promissor virou poeira, em parte por conta dos planos econômicos federais, feitos sem um planejamento efetivo. Planos editados em decisões quase “monocráticas”, geralmente fadados ao fracasso. Junto com isso outros planos, nos escalões inferiores da administração pública, eram afetados e terminavam por fazer parte da história dos fracassos. 
 
Nas primeiras eleições foi eleito prefeito o senhor Ezequias Vicente da Silva. Na verdade no lugar faltava por assim dizer tudo em termos de infra-estrutura para qualquer tipo de atendimento em geral. No decorrer de 1988 foi instalada uma unidade da CEMAT, com motores diesel para gerar energia que abasteciam durante o dia até meia noite as necessidades de energia elétrica. Foram perfurados, ao lado da central elétrica, poços artesianos para prover o abastecimento de água potável, antes precário, praticamente inexistente. Havia um poço, mas pouco profundo, não tinha capacidade de abastecer todos. Era um racionamento severo de água, absoluta falta do líquido precioso. Os mais abastados como os comerciantes, açougue e mais uns poucos, dispunham de seus próprios geradores para fornecer energia elétrica e proporcionar as comodidades que isso traz. Os demais usavam lampiões a gás e se viravam assim mesmo.  
 
Trabalhamos duro durante aqueles meses antes de chegarem as férias de meio de ano. O negócio da venda da casa infelizmente não se concretizou. Assim continuávamos os dois sozinhos lá, enquanto Rita e os gêmeos permaneciam aqui. Havíamos terminado a roçada e derrubada de um hectare de mato, exatamente a parte que fora desmatada antes e voltara a crescer mato novamente. Vejam as fotografias tiradas antes de viajarmos para Curitiba, matar a saudade. 

Na noite em que embarcamos, contratei um trabalhador que prestava esse tipo de serviços, a roçada e derrubada de mais um alqueire de mato. Enquanto vinhamos passear, a parte derrubada terminaria de secar, ficando pronta para queimar ao retornar.  

 

Para nossa surpresa, quando retornamos alguém havia ateado fogo, queimando o mato antes da hora. Assim houve partes em que a queima ficou boa, outras queimou mal, devido ao fato de a secagem não estar completa. A roçada da parte nova, estava em estágio avançado, sendo que logo foi feita a derrubada, dando tempo para secar antes do início forte da estação das chuvas.
 
Na continuidade começamos a cortar os galhos e troncos carregando-os para linhas, formando leiras e deixando a terra livre para o plantio. Logo após o retorno contratei com um antigo colega de Seminário, morador e dono de uma pequena serraria, denominada Pica-pau para serrar a madeira necessária a construção de nossa casa. As toras foram retiradas da área que estava sendo derrubada em acréscimo a que havia sido queimada.
 Os troncos e galhos que se pode ver predominantemente nessas fotos, são de uma madeira muito leve e de nenhuma utilidade prática, mas de crescimento muito rápido, era denominada de Imbauva. Em outras regiões costuma receber a denominação de Cacheta. Extremamente leve e mole, não tem utilidade para tábuas ou vigas. É usada para caixas de frutas, onde o uso é único e depois é feito o descarte. 
 

 

Enquanto a madeira para construção era serrada, o mato derrubado secava, durante todas as tardes passávamos na coivara cortando e carregando galhos, troncos, pedaços carbonizados. Amontoávamos tudo que podíamos para deixar o terreno limpo ao máximo. Ao voltarmos à tardinha, estávamos completamente enegrecidos pelo carvão. Mal se via o branco dos olhos. 
 
 
 

 

Chegou o dia de queimar a área nova e passamos a tarde nessa tarefa. Tínhamos que cuidar para o fogo não se espalhar pelo mato contíguo à área. Houve partes novamente que não queimaram muito bem, mas não havia mais como esperar, pois as chuvas começavam a ficar mais frequentes. Agora havia mais uma tarefa a fazer. Plantar a semente de Brizantan, capim para a pastagem que desenvolve bem na região. Não usamos a área inteira para isso.
 
Preparamos uma estrada de acesso ao local escolhido para construir a casa e ali começamos a fazer a colocação dos pilares que serviriam de apoio à construção. 
 
Igualmente plantamos um pedaço em arroz, um outro de mandioca, mudas de bananeira, abacaxi, sementes de caju foram enterradas na beira da estrada, o chamado cará-moela plantado ao lado de montes de galhos e imbaúbas. O tempo passou depressa e o Natal se aproximava. Nossa comunicação com Curitiba era feita por intermédio de um rádio existente numa serraria(Morada do Sol) que tinha escritório em Várzea Grande, de onde a comunicação era completada com uma ligação telefônica a cobrar. 
 
Em certo dia, já ao final das aulas em dezembro, tentei contato e não consegui. Imaginei imediatamente que os três, Rita e os filhos, estavam a caminho de Brasnorte. Era dia 23 de dezembro, meu aniversário e havíamos sido convidados para almoçar na casa da professora Antônia Aparecida Pereira Prado. Ao terminar o almoço, corremos para a parada de ônibus e logo o veículo encostou. De imediato vimos, iniciando a descida de seu interior dos nossos entes queridos. Não passaríamos o Natal sozinhos. Daí por diante a família estaria reunida, após longos meses de separação. A casa ficou para trás, aos cuidados do meu cunhado Ângelo Armindo Conti, que passou a morar nela enquanto nós estivemos em Brasnorte. 
 
Durante os meses que passamos sozinhos, tivemos sempre o apoio das irmãs da Divina Providência Theonila, Leonila e Ana, de saudosa lembrança. Nos serviam de companhia, consolo nas horas tristes e apoio nas dificuldades. Eis abaixo a fotografia dessas pessoas sumamente importantes em nossa vida. Em pé à esquerda Ir. Theonila, agachada Ir. Ana e em pé à direita, Ir. Leonila. Olhem que belíssimo mamoeiro carregado de frutos saudáveis plantado no terreno da casa em que as irmãs viviam. Theonila era encarregada do posto de saúde, sendo muitas vezes solicitada sua presença em comunidades de toda região. Seus longos anos de experiência em hospitais de Santa Catarina, servia para mitigar em parte a ausência de profissionais médicos. 
Ainda estamos no começo. Na sequência virão outras postagens de continuação. 

 A postagem original foi feita em dezembro de 2014. Hoje, 15 de dezembro de 2019, estou fazendo uma remodelação, inserindo alguns trechos omitidos na primeira versão. 
Curitiba, 15 de dezembro de 2019.

Décio Adams

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