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Na senda dos monges! – Capítulo IV ( Arraial do Campestre).

Nascer ou por do sol no botucaraí.
Botucaraí, na Candelária – RS.
  1. Arraial do campestre.

 

O ano de 1847 estava findando e Afonso se sentia bom. Zulmira e a mãe Salviana insistiram que continuasse a visitar regularmente a fonte do monge. Temiam que a doença voltasse e depois ficasse mais difícil ou impossível de curar. No primeiro domingo de dezembro, bem cedo, embarcou numa charrete que os novos patrões haviam conseguido para ele, pois andar a cavalo com aquela perna rija era bem desconfortável. Ao seu lado ia a esposa solícita, acompanhando o marido. Ele era seu herói, depois da participação na guerra e não aceitava de modo algum que ele lhe fosse levado. Sobrevivera a dois ferimentos e estava superando uma doença normalmente considerada incurável.

Ninguém havia atestado, mas tinham praticamente certeza de que o mal que afetara os pulmões de Afonso era a tísica. Doença para a qual ainda não existia cura na medicina. As águas santas do campestre e do Botucaraí haviam operado o milagre. Saíram bem cedo e chegaram em torno de 10 horas. O movimento em torno da fonte era intenso. Era preciso esperar a vez para conseguir se lavar, colher água limpa para beber nos próximos dias e assim completar o processo de cura. Passaram praticamente o resto do dia ali, até retornarem em tempo de chegar à fazenda antes do escurecer. Nesse dia o monge estava no outro morro, onde também encontrara uma fonte de iguais propriedades. Muita gente havia ido lá e encontrado os mesmos resultados.

 

O que impressionava era o tamanho da povoação que se erguera nos arredores do morro. Um imenso arraial para abrigar alguns milhares de doentes que ali permaneciam para completar o seu processo de cura na água. De dois em dois dias o monge vinha e passavam um bocado de tempo em oração, ou ouvindo as palavras do santo homem. Sabia falar da bondade divina com palavras simples, embora um pouco misturadas com sua língua de origem, o italiano. Dessa forma tudo que dizia calava fundo na alma daquela gente, mesmo os de melhores condições econômicas que igualmente acorriam em busca da solução para seus males. O monge criou um grupo entre os seguidores mais próximos, encarregado de administrar o lugar.

Sem um mínimo de ordem e regras não haveria modo de funcionar aquele ajuntamento de gente. Havia pessoas de Buenos Aires, Montevidéu, Assuncion Paraguai e até do Rio de Janeiro. Ficavam ali irmanados em torno do monge, ansiando pela cura de suas doenças, as mais variadas possíveis. Sempre que alguém se sentia em condições de voltar para sua terra, os demais se alegravam com isso e se convenciam mais firmemente que também alcançariam o resultado procurado. O fato de haver delegado alguns poderes a seus seguidores, deixou autoridades da província, delegados de polícia e administradores das cidades preocupados. Temiam a formação de um foco de rebelião contra as autoridades constituídas.

Dessa forma era constante a vigilância de homens ligados ao governo imperial, por intermédio do presidente nomeado para a província. Um médico veio analisar as águas para comprovar se eram detentoras de propriedades curativas. Depois de examinar com os recursos de que dispunha, concluiu que eram apenas potáveis, enviando um relatório detalhado e acusando o monge de charlatanismo, curandeirismo, entre outras acusações. Enquanto isso os jornais propalavam listas de pessoas curadas e descreviam seus males pretéritos. Pessoas ditas de “bem”, ou honestas, escreviam missivas aos jornais relatando os prodígios presenciados ou vividos nas águas santas. Notícias essas que começaram a ser transcritas nos jornais da capital do Império, Rio de Janeiro.

Os encarregados de administrar o arraial, recebiam frequentes doações de pessoas mais abastadas após os banhos e infusões feitas com as águas santas. Esses recursos eram aplicados na melhoria das instalações, sua ampliação e na construção de uma ermida no alto do Morro do Campestre e posteriormente no Botucaraí.

A partir de meados de 1848 os jornais da capital da província começaram a propalar notícias contrárias às águas santas e evidentemente do monge. Provavelmente movidos pelo temor de uma invasão pelo sul, vinda da República do Uruguai e da Argentina, vizinhos que não mereciam a confiança dos brasileiros nessa época. A aparente negligência do presidente da província, general Francisco José de Souza Soares de Andréa, homem de absoluta confiança do Imperador D. Pedro II, levou os jornalistas a desfazer-se em acusações ao monge, negar as propriedades das águas. Acusavam o Gen. De Andréa de negligência e indiferença com a segurança da fronteira, por não saberem as ordens que o mesmo recebera do Imperador.

Apesar disso, havia tomado a providência de mandar o médico examinar as águas. Não haviam comprovado a eficácia, mas também não indicavam perigo algum decorrente do consumo e banho nas mesmas. Dessa forma, mesmo com os jornais anunciando a ocorrência até de mortes em consequência dos banhos e ingestão das águas, o povo continuou acorrendo e o ajuntamento cresceu. Tanto no Campestre como em Botucaraí a afluência era cada vez mais intensa.

Na ermida erguida no alto do morro, foi entronizada a imagem de Santo Antão, trazida pelo monge, além de Nossa Senhora e outras imagens trazidas por devotos. No dia 17 de outubro daquele ano de 1848, casualmente Afonso decidira ir banhar-se na fonte do Botucaraí e chegou no dia precedente. Ao amanhecer, o povoado foi acordado por um tropel de cavalos que chegava. Era um destacamento de policiais, tendo à frente o delegado de Rio Pardo. Vinham mandados pelo presidente da província, para levar o monge à presença dessa autoridade.

No momento da prisão, o povo estava atônito com o que acontecia. O Santo homem nada de mal fizera, apenas orara junto com os seguidores pedindo a Deus a cura dos males de todos. Dirigira-lhes palavras de conforto e exortações à penitência pelo perdão dos pecados. Em que isso irritara as autoridades da província? Houve um começo de tumulto, pois alguns mais exaltados pretendiam impedir a prisão e isso poderia geral um problema sério. João Maria se encarregou de apaziguar os ânimos, dizendo:

– Meus irmãos, deixem-me ir para o martírio. Voltarei mais tarde, mais forte para vos ajudar a superar a dor e sofrimento.

Foi conduzido até o porto fluvial de onde o embarcaram num barco a vapor e enviaram para Porto Alegre. Lá chegando ficou detido no quartel até ser chamado pelo presidente. Mesmo não dispondo de acusações formais que justificassem a colocação do mesmo na prisão, De Andréa decidiu degradar João Maria para Santa Catarina, enviando ao Presidente dessa província uma carta de recomendação explicando os motivos de sua atitude. Disse tratar-se de pessoa em si pacata e de boa índole, recomendando pois ao colega presidente trata-lo com bondade. Unicamente não deveria permitir sua volta para o Rio Grande do Sul, devido ao temor de fanatização do povo, podendo causar perturbação da ordem pública. Dessa forma ele foi parar na ilha do Arvoredo, próxima à Ilha do Desterro.

A falta de notícias do monge venerado, não abateu o ânimo dos peregrinos que continuaram a afluir de muito longe. Nem Afonso e Zulmira deixaram de frequentar a fonte das águas santas uma vez por mês ou a cada dois meses se não fosse possível ir antes. Ele sentia-se totalmente curado e, não fosse a perna rija, certamente estaria nas invernadas, cavalgando e laçando reses como um jovem. Servia de supervisor dos trabalhos, percorrendo as diversas áreas da fazenda verificando o andamento do trabalho, sempre em sua charrete.

Um dia chegou a notícia do desterro de João Maria. Os peregrinos se uniram em oração pedindo a Deus que o libertasse e devolvesse. Mas esse desejo não se realizou. Mais tarde ele passou rapidamente pelo lugar depois de ter estado na Capital do Império, indo a caminho de Porto Alegre. Todos aqueles que haviam encontrado a cura ou pelo menos alívio para suas dores, continuaram pelo resto de suas vidas a venerar a lembrança do Santo Monge João Maria.

Entre fevereiro e maio de 1849 esteve no arraial uma poetisa, cega desde menos de dois anos, mantida por uma pequena pensão concedida pelo Imperador. Vinha também em busca de curar um mal que a afligia, encontrando alívio. Escreveu artigos e versos louvando a excelência das águas, as virtudes do Santo Monge e assim contradisse os jornalistas detratores. Muita gente preferiu dar crédito a ela em lugar dos jornalistas, todos eles tendenciosos, ligados às facções políticas que os mantinham em seus jornais. Dessa forma a romaria continuou ainda por bastante tempo, perdendo gradativamente a intensidade, mas nunca se extinguiu completamente.

Os que haviam sido curados, traziam filhos, irmãos, netos e amigos para se tratar nas águas santas. Dessa forma a lenda se propagou através dos tempos.

Os filhos mais velhos de Afonso e Zulmira, que haviam recebido em cumprimento à promessa do avô os nomes de Roque e Júlio, atingiram idade adulta. Há vários anos estavam no trabalho da fazenda, mas ainda considerados “guris”, até que um dia Roque enfrentou um peão mais velho afirmando:

– Eu não sou mais guri, entendeu!

– Olha só o franguinho! Querendo cantar de galo, hein?

– Tenho vinte anos e já sou homem. Olhe a barba na minha cara. Eu o desafia para uma prova de laço, de corrida de cavalo ou até uma briga no braço, mas não me chame mais de Guri.

Estavam a ponto de começar a brigar quando Afonso chegou e viu o que acontecia. Ouvira as últimas palavras do filho e logo perguntou:

– O que está acontecendo aqui, meu filho?

– Estou cansado de trabalhar igual homem e ser tratado como guri. Esse aí sempre quer que eu lhe limpe as botas ou faça o serviço sujo que ele não quer fazer. Para mim chega, pai.

– Calma menino!

– Também não sou mais “menino”! Sou homem e meu nome é Roque.

– Sabe seu Afonso, ele ficou ofendido à toa. Eu apenas estava brincando. Pode deixar que não vou mais fazer nenhuma brincadeira que ele não goste.

– Então apertem as mãos e estamos conversados. Não quero mais saber de alterações por aqui. Entendido?

O peão mortificado, veio e estendeu a mão ao jovem. Depois de um segundo de hesitação e um olhar severo para o pai, apertou a mão do outro, com o olhar fixo e ainda com um pouco de rancor. Em nome da convivência, aceitou as desculpas que o outro pediu e trocaram depois um abraço.

Depois daquele dia, nem mesmo Júlio, quase dois anos mais novo, mas mais encorpado e forte, foi chamado de guri. Se o irmão, mais franzino peitara o peão mais velho e se dispusera a enfrenta-lo numa briga, que dizer do outro, significativamente mais forte e ágil. Dessa forma tornaram-se peões da fazenda em igualdade de condições aos demais. Participavam dos fandangos e festas na fazenda, bem como nas redondezas. Não tardou e Roque encantou-se por uma jovem filha do capataz da fazenda vizinha. Depois de alguns encontros em que dançaram e conversaram, foi o momento de dar um passo em frente. Iria pedir permissão ao pai para começar o namoro.

Num domingo de 1850, trajou-se com todo garbo e seguiu a trote pela estrada. Chegou próximo ao entardecer e encontrou a sua eleita a espera. Avisara o pai de sua vinda e o mesmo estava sentado numa pequena varanda da casa que habitava, tomando mate com a mulher. Convidado a sentar-se, puxou um banco e tomou assento. Um mate lhe foi alcançado e enquanto sorvia os goles, introduziu o assunto:

– Senhor Jerônimo e dona Zilda, eu gosto de sua filha e queria lhes pedir permissão para iniciarmos o namoro.

– E de onde é que tu vens, meu rapaz?

– Sou filho do administrador da fazenda de seu Gumercindo, o Afonso Silva Batista e minha mãe se chama Zulmira.

– Conheço teu pai e também a fama que conquistou no tempo da revolução farroupilha. E tu trabalhas na fazenda?

– Sim, sou peão. Me encarrego das invernadas de recria, ajudo na apartação dos bezerros desmamados, marcação e topo qualquer serviço.

– Muito bom. Um homem capaz de ganhar o sustento para a mulher e os filhos que vierem. Tu tens permissão para namorar nossa filha, não é minha velha?

– É um belo rapaz, meu velho. Nossa filha fez uma boa escolha, acho eu.

– Só nada de liberdades antes da hora. Minha filha é donzela e assim deve chegar ao altar para ser entregue ao futuro marido. Se eu notar qualquer coisa errada, se prepara que nós vamos brigar feio.

– O senhor e senhora podem confiar em minha pessoa. Sou homem de respeito. Aprendi a trabalhar e respeitar os mais velhos e as mulheres desde pequeno.

– Então estamos combinados. Avise quando for hora de casar e espero que não demore demais.

– Creio que para o final do ano, começo do ano que vem a gente pode tratar desse assunto.

Com um gesto, indicou à filha que sua autorização estava concedida e os dois saíram a passear de mãos dadas enquanto ainda havia luz. Logo a noite começou a cair e eles voltaram para a varanda, depois sentaram no interior. A mãe estava preparando o jantar e a filha foi lhe dar ajuda, que foi dispensada.

– Vai conversar com seu namorado. Precisam se conhecer direito, antes de qualquer outro passo mais sério.

– Está bem mãe! Eu queria ajudar a senhora. Obrigada.

Voltou para junto de Roque e sentou-se. Este ouvira as palavras trocadas entre mãe e filha, apesar de serem ditas em voz baixa. O início da conversa começou acanhada, como soe acontecer nessas ocasiões. Aos poucos começaram a trocar algumas confidências, contar algumas coisas de suas vidas na infância e adolescência e o clima ficou mais descontraído. Logo conversavam animadamente sobre vários assuntos.

No momento oportuno a mãe chamou:

– A comida está na mesa. Venham jantar, do contrário esfria.

– Vamos comer pois a mãe detesta esperar com a comida na mesa.

– Isso eu acho que é assim em todas as casas. Minha mãe e a irmã fazem o mesmo. Ficam danadas da vida se a gente demora um pouco a ir para a mesa.

– Quer lavar as mãos?

– Quero sim.

– Venha por aqui.

Saíram para a parte posterior onde estava um lavatório, com sabão, água e toalha para se enxugar. Lavou as mãos e passou uma água no rosto, depois de correr o pente no cabelo. O espelho estava pouco iluminado, mas foi suficiente para ver que estava apresentável. Foi para a copa/cozinha, onde um fumegante assado de costela estava sobre a mesa, junto com pão, salada e arroz.

– Sente-se, meu rapaz, – convidou o futuro sogro.

Não esperou segunda ordem e sentou-se. Esperou a sequência do ritual. Precisava descobrir os hábitos da família para não fazer nada errado. Uma gafe cometida no primeiro encontro seria lembrada para o resto da vida, mesmo que fosse na brincadeira. Não queria dar chance ao azar. Por sorte a família era de pouca cerimônia. Praticamente igual à sua casa e não encontrou dificuldade em se adaptar.

O jantar transcorreu com pouca conversa. Todos ocupados em mastigar a carne saborosa e os acompanhamentos. Quando já estavam na metade, Jerônimo falou para a esposa Zilda:

– Minha prenda velha! Traz um daqueles litros de vinho lá da adega!

Mãe e o filho, mais novo que Alice, o nome da moça, foram até o porão da casa e logo voltaram com o litro pedido. Zilda passou um pano úmido que pegou no balcão ao lado do fogão e removeu um pouco de poeira acumulada no vidro do recipiente e depois o depositou delicadamente sobre a mesa. O menino, Joaquim, trouxe o saca rolha e entregou ao pai. Este se ocupou por um minuto com a operação de remover a rolha muito bem colocada no litro. Logo que ela cedeu, um aroma de vinho colonial, forte e encorpado, mas muito agradável se espalhou pelo ambiente. Copos já tinham sido postos na mesa e foram enchidos até pouco além da metade.

Feito isso, Jerônimo levantou o seu e falou:

– Um brinde aos namorados. Que sejam felizes e que logo tenhamos um casamento para fazer uma grande festa.

Os copos tilintaram e todos beberam um generoso gole da bebida que fazia por merecer. Depois seguiram o jantar, entremeando as garfadas com algumas palavras esparsas. Quando terminaram, Zilda ainda trouxe uma travessa de pudim de leite, de muito bom aspecto. Ao experimentar, o sabor confirmou a suspeita de Roque. A provável futura sogra não ficava devendo nada à sua mãe Zulmira nas artes da cozinha. Se a filha saísse à mãe, estaria bem servido no quesito cozinha. Ele aprendera a preparar um arroz tropeiro para os momentos de aperto na lida do campo, quando não era possível ir até em casa. Mas era só isso. Tirando assar um belo churrasco, entendia nada de preparar comida.

Não esqueceu de elogiar o jantar, especialmente a sobremesa. Fez uma especial menção ao vinho oferecido pelo Sr. Jerônimo. Assim pouco depois retomaram a conversação, pois Zilda recolhera a louça dizendo:

– Pode deixar a louça por minha conta filha. O Joaquim só me ajuda a enxugar.

Jerônimo acendeu um cigarro de palha que enrolou com fumo picado e uma palha que retirou de um compartimento da guaiaca. Deu algumas baforadas e foi para a varanda. Disse que iria respirar o ar da noite. Gostava de fazer isso antes de ir para a cama. Os namorados também sentaram no banco da varanda, pois ali fora estava mais fresco do que dentro de casa. Ainda era final de verão e à noite custava a baixar a temperatura. Logo Jerônimo lhes disse boa noite e se retirou para dormir. Jogara bocha a tarde inteira e estava cansado.

Zilda sentou-se um pouco para conversar, perguntar dos pais de Roque e Joaquim ficou ali quieto, ouvindo. A um sinal da mãe, disse:

– Boa noite, Roque. Eu vou dormir. Amanhã tem lida cedo.

– Boa noite, Joaquim. Durma bem.

Zilda também demorou pouco, ficando os dois jovens ali, sozinhos no ar agora mais fresco da noite. Conversaram mais um pouco e também Roque se despediu para percorrer alguns quilômetros até chegar em casa. O cavalo estava amarrado ali perto em um eito de grama, com o arreio apenas afrouxado. Em dois minutos reapertou a barrigueira e estava pronto para montar. O belo animal, sentindo que era hora de voltar para casa, deu um princípio de relincho, mas se conteve a um afago do dono.

De um salto estava na sela e falou:

– Fica com Deus minha prenda. Domingo que vem eu volto.

– Boa noite, querido.

Deu de espora e o cavalo saiu num galope leve. Alice ficou olhando o vulto sumir na distância e também foi para cama. Estava namorando um belo rapaz. Já despertara a inveja das amigas quando dançara com ele no primeiro fandango. Imagine agora que começara o namoro sério. Pudera perceber nas atitudes de Roque tratar-se de um homem de princípios e tinha quase certeza que não tardaria e estariam na frente do altar para se casarem. Sentiu um leve arrepio percorrer sua espinha, diante da lembrança de que, iria se entregar de corpo e alma ao seu amado.

Ouvira muitas histórias, algumas bem tristes, outras não. Tentara conversar com a mãe mas ela não era de muita conversa sobre esses assuntos. Talvez agora que estava namorando ela aceitasse abrir a guarda e revelar alguns segredos que, de outra forma, só descobriria depois de casar. Sentia-se como que dando um passo no escuro, sem saber o que poderia esperar. Era bastante comum os homens daquele tempo serem pouco carinhosos, tratando as esposas com certa rudeza, especialmente na hora da intimidade. Talvez fosse por falta de jeito, ou então por medo de mostrar fraqueza. Qualquer coisa que conseguisse saber a mais sobre esses fatos, depois do casamento, ajudaria a enfrentar com os pés no chão o momento crucial.

Com Roque namorando a filha do capataz, o patrão deste logo botou um olho comprido no guapo rapagão que vinha ver a filha de Jerônimo. Imaginou se ele teria mão firme para assumir o comando de seus peões na fazenda que herdara da mãe, ali perto. O capataz estava idoso e estaria melhor na função de administrador. Teria necessidade de um homem forte e disposto, capaz de comandar a peonada. Entre eles não havia nenhum com capacidade de liderança para colocar nesse posto. Teria que encontrar alguém para esse lugar. Decidiu sondar Jerônimo sobre o candidato a genro. Talvez pudesse começar durante como experiência até tomar pé da situação e então assumir o cargo.

Esperaria um mês para ver se o namoro tomava rumo e então falaria. Assim se supetão poderia até interferir com o relacionamento e estimava a filha do capataz. Não queria perturbar seu começo de namoro. Na fazenda Ribas, Afonso conversou com os filhos sobre o posto de capataz que iria sugerir aos patrões e os dois ficaram receosos de serem considerados jovens demais pelos peões mais antigos para ocupar função tão importante. Roque achou que Júlio estava melhor qualificado para a tarefa por ser mais forte e corpulento.

– Vocês dois tem capacidade. Para mandar importa o que se tem na cabeça e isso os dois tem de sobra, – falou Afonso.

Decidiram esperar a volta dos irmãos Ribas para tratar desse assunto. Também ali havia falta de um homem com liderança para comandar os peões. Os dois filhos tinham essa capacidade, segundo a opinião do pai. Restava convencer um deles a aceitar o cargo.

Os dias passaram e chegou novo domingo, com nova visita, dessa vez mais cedo. Haveria um arrasta pé no galpão da fazenda e queria participar. Alice por sua vez queria mostrar às demais sua nova situação. Era agora namorada do garboso peão que todos já haviam visto várias vezes. Durante esse encontro, o dono da fazenda veio ver o divertimento dos seus empregados e os visitantes. Talvez até se animasse a sacudir o esqueleto um pouco, apesar do reumatismo que judiava os ossos.

Estando ali, deu de cara com Roque e Alice o apresentou ao patrão do pai. Entabularam conversa e a certa altura o homem perguntou de chofre:

– Tu aceitarias o posto de capataz na minha outra fazenda?

Tomado de surpresa o rapaz ficou sem saber o que responder e disse:

– Eu preciso pensar. Acho que sou muito novo e inexperiente para essa tarefa.

– Conheço a fama de teu pai, rapaz. Sei também que você e teu irmão Júlio, trabalham desde criança naquela fazenda quando o pai estava na guerra contra os imperialistas.

– Sim mas ainda assim continuo tendo apenas 21 anos. Isso é pouco para assumir o cargo de capataz.

– Digamos que você faria uma experiência de uns seis meses ou pouco mais como auxiliar do capataz que está lá. Ele está um pouco velho e quero passar ele para a função de administrador. Herdei a fazenda e preciso por aquilo para frente, ou então desanda tudo por lá.

– Posso conversar com meu pai primeiro e lhe dar a resposta em outro dia?

– É claro que pode, meu rapaz. Gostei de ver tua prudência. Um outro qualquer já teria dito sim de primeira, só pensando no salário maior e no poder de comandar.

– Meu pai me ensinou depois que voltou da guerra que para comandar precisa ser experiente e pensar na frente. Tem que estar sempre alguns passos adiante dos que irão obedecer. Meu avô dizia a mesma coisa, pois foi capataz também.

– Então! Você vem de uma família de gente acostumada a comandar grupos de trabalhadores. Isso está no sangue.

– Pode ser, senhor.

Nesse momento começou uma música depois de um intervalo para descanso e pediram licença para dançar. Divertiram-se para valer a tarde toda e na hora do encerramento estavam cansados, além de empoeirados, pois o chão era de terra, não tinha assoalho. Chegaram na casa de Jerônimo e este olhou de modo estranho para Roque, que ficou pensando o que significaria aquele olhar diferente. Quando terminavam de jantar, ficou sabendo do motivo:

– Eu soube que o patrão nosso, falou contigo para ser capataz na outra fazenda que ele tem aqui perto. Vai aceitar?

– Estou em dúvida, pois ainda sou muito novo. Não sei se vou dar conta de tanta responsabilidade.

– Só essa ponderação já te recomenda, pois mostra prudência. Se fosse alguém irresponsável, aceitaria e pouco se importaria com o resultado. Trataria os peões com severidade e qualquer coisa usaria da sua posição de autoridade para queixar-se ao patrão.

– Deus me livro, seu Jerônimo.  Não aprendi a fazer isso. Nem meu avô, nem meu pai me ensinaram ser assim. E eles foram capataz quase a vida toda.

– Aí está a resposta. Filho de peixe, nasce peixinho. Filho de capataz, nasce para ser capataz.

– Sei não! Isso me assusta um pouco. Meu pai também está querendo que eu ou meu irmão assumamos o posto de capataz da Fazenda Ribas, mas estamos em dúvida.

– Você já tem nova chance. Deixa teu irmão ser capataz lá e tu vens para cá. Assim quando se casarem já terão onde morar e tudo mais.

– Vou pensar no assunto. Conversar com a Alice também e ver o que ela acha.

– Ela, acho eu, vai ficar contente. A madrinha dela é esposa do dono da fazenda vizinha. Assim poderá visitar a madrinha mais vezes.

– Vamos ver isso com calma.

– Tu estás certo, rapaz. Não seja precipitado. Isso é atitude de homem equilibrado.

– Eu vou me despedir e voltar para casa, pois estou todo empoeirado. Vou ter que tomar banho para ir dormir, do contrário emporcalho toda a cama e a casa.

– Também devem estar cansados de tanto dançar. Mas isso faz bem ao espírito. A diversão faz parte da vida.

Demorou mais alguns minutos antes de ir selar o cavalo que desencilhara para não ficar no jugo por tantas horas. Era rápido em selar e em menos de dez minutos estava montado, disse adeus e voltou para casa.

No dia seguinte, depois do almoço, conversou com o pai e mãe sobre a proposta de trabalho do outro fazendeiro. Queria que eles lhe dessem uma orientação, pois decidir isso sozinho lhe pesava. Sentia-se inseguro.

– Mas onde fica essa fazenda? – perguntou Zulmira.

– Pelo que ele explicou fica pouco além da encruzilhada ali onde segue para Santa Maria. Depois tem uma estrada a esquerda e logo depois está a fazenda.

– Não é longe. Isso é bom e você tem experiência suficiente, meu filho, – falou Afonso.

– O senhor acha que devo aceitar?

– Eu acho que sim. Nem pense duas vezes.

– E a senhora, mãe, o que acha?

– Eu vou sentir saudade, mas a gente cria os filhos para a vida não para ficarem grudados na barra da saia da gente.

– E não vou fazer falta aqui?

– Aqui, se for preciso, seu irmão ocupa oposto e para o lugar de vocês a gente encontra alguém fácil.

– E eu estava numa dúvida terrível. Eu acho que vou aceitar. Ele quer que eu fique alguns meses em experiência com o capataz velho. Depois ele passa para administrador e eu ocupo o posto de capataz.

– Nesse tempo você aprende a conhecer os peões, toma pé da situação e depois assume o comando. Melhor não poderia ser.

– Foi mais fácil do que eu imaginava, tomar a decisão. Ontem quando ele me falou, fiquei todo nervoso e preocupado. Agora estou calmo e tranquilo. Parece que já estou lá fazendo o serviço.

Nisso chegou Júlio e ouviu o final da fala de Roque. Quis logo saber:

– De que vocês estão falando?

– O patrão do pai da namorada de teu irmão, convidou ele para ser capataz na outra fazenda que ele tem aqui perto.

– E você vai topar, mano?

– Vou, Júlio. Assim me enfronho na família e fica até mais fácil para depois casar com a Alice.

– Estou vendo que esse namoro está mais firme que tronco de Ipê.

– Eu estou levando a sério. Pensou que era para brincar?

– Não, mas assim depressa falar em casamento, significa que logo vou perder a companhia do mano.

– Mas vou estar a poucos quilômetros daqui. Muito fácil de ir me ver ou eu vir aqui. Aliás é o que vou fazer com frequência.

– Assim também não vai restar dúvida quanto a ser capataz aqui, não acha pai?

– Isso é verdade. Falta ver se os patrões vão aceitar você, por causa da idade.

– A gente diz para eles que sou mais velho.

– Onde já se viu isso, meu filho?

– Brincando mãe! Os patrões aceitam mais fácil que os peões. Tem alguns que poderiam ser meu pai.

– Isso não tem nada a ver. O que precisa é saber fazer o serviço e comandar.

– É verdade, pai. Tem alguns que não fazem nem ideia do que devem fazer se não tem alguém para mandar.

– Vai se acostumando, meu filho.

– Já está empregado também mano. Emprego para o resto da vida se quiser.

– Melhor que isso só sendo fazendeiro.

– Quem sabe arranja uma filha de fazendeiro para namorar e aí já sabe tudo do serviço.

– É difícil mano. As filhas de fazendeiros nem olham para nós peões.

– Depende. Tem muitas que olham. É só ter estampa que tudo pode acontecer.

– Acontece mar demora. Melhor mesmo botar os olhos mais baixo. Se olhar para cima pode tropeçar e cair.

– Mas que não é impossível acontecer, isso é verdade.

– Concordo com você e vou começar a prestar mais atenção e me arrumar melhor. No final estampe em tenho, falta só um pouco de lustro. Kkkkk.

– Viu só? Já ficou convencido.

 

Décio Adams

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