Arquivo da categoria: Histórico de vida

Um pouco da história de minha vida – em Brasnorte – MT (3)

 
 
A vida na roça.
 
Alguns anos depois daquelas imagens postadas no artigo anterior, a vista era essa.
Galinheiro e galpão, feitos depois.
O garnizé chamado KIKO.
Alguns anos depois, a situação vista nas fotos anteriores, o aspecto do local de nossa moradia havia mudado sensivelmente. Não estava tudo pintado e brilhando, mas no lugar da quantidade imensa de troncos e galhos escuros de carvão, havia muito verde por todos os lados. 
 
Na imagem acima, o galo Kiko, presente de um amigo (presente de grego), procurando lugar para se aboletar  e dormir ou ficar sossegado. Ele era acostumado a dormir na cabeceira da cama do antigo dono. Por isso falei que foi um presente de grego. Demorou um pouco para se acostumar a dormir com as outras galinhas. Deixou uma grande descendência, especialmente em inúmeros filhos e filhas mestiços. Ele não perdoava uma franga. Emplacava todas. As filhas eram poedeiras diárias, embora os ovos fossem bem menores, produziam em uma grande quantidade. 
Vaca Laranjinha e sua filha, separadas pela cerca.

 

Como o professor de mais alta classificação da escola, dentro da carreira do magistério do estado do Mato Grosso, comecei tendo um vencimento mensal equivalente a perto de 15 salários mínimos. Com a introdução do famigerado mínimo de referência não tardou mais de dois anos para esse mesmo salário estar reduzido a pouco mais de cinco salários mínimos. Com a troca de governo em 1990, começaram a ocorrer ainda atrasos no pagamento e chegou ao ponto de ficar reduzido à pouco mais de dois salários mínimos. Nesse momento valeu fazer um pequeno sacrifício, contar com ajuda financeira dos meus pais para adquirir mais duas vacas para produção de leite. Também fizemos uma horta cercada de tela, adquirida de uma pequena indústria surgida na vila. Ali cultivávamos toda sorte de hortaliças, usando a irrigação nos meses de estiagem. Vendíamos tudo que produzíamos, menos nos meses de chuvas, quando as precipitações torrenciais empastavam as plantas sensíveis e nada se produzia. As vacas, em número de três, davam bastante leite que era vendido em litros de vidro, bem limpos e sempre retornados. Também fazíamos queijos e doce de leite do que nada sobrava. Havia necessidade desses produtos. Praticamente tudo nesse setor agrícola era proveniente de fornecedores de São Paulo e Paraná. As enormes distâncias tornavam alguns produtos inviáveis e outros tinham um acréscimo de custo significativo.  
 
Ao final de 1987 eu concorri ao cargo de Diretor da escola e fui eleito para o biênio 1988/89, voltando depois à sala de aulas. Já no ano de 1989 os professores entraram em greve por reivindicações salariais, sendo que o período letivo terminou em princípios de 1990. Assumiu no meu lugar o cargo de diretora a professora Leonor Gomes da Silva. Já estava funcionando a prefeitura e começava aos poucos a implantar a estrutura administrativa própria. Tudo estava por fazer, por construir. Veículos por adquirir, máquinas rodoviárias, ambulância, hospital, faltava de tudo. 
 
Em meio a essa crise de salário, não havia como investir na chácara. A muito custo conseguira adquirir uma vaca que nos supria o leite necessário para alimentação. Tinha o nome de Pintada. Era mocha, branca e vermelha, de raça holandesa. Por sorte uma excelente produtora de leite. Dava o suficiente para nosso consumo, vender alguns litros e ainda fazer um queijo vez ou outra. Até mesmo um doce de leite. Quando o salário na escola atingiu seu nível mais crítico, meus pais me deram uma ajuda e consegui comprar duas novas vacas. Uma era a Laranjinha da foto acima e a outra a Malhada, na foto abaixo. 
 
Décio Junior, Augusto Mathias e Anselmo Daniel, junto à Pintada. 
Além de produzir muito leite, Pintada era extremamente mansa. Uma aquisição de ocasião, pois ela estava maltratada, magra, cheia de carrapatos e verminose. Em pouco tempo se recuperou, voltando a sua plena forma. Com a aquisição das duas vacas com auxílio financeiro dos meus pais, a produção de leite aumentou melhorando a nossa renda com a venda in natura e na forma de queijo, ou doce de leite. 
 
Estábulo das vacas.
 Também foi feito uma cerca de tela para uma horta. Raspamos os menores vestígios de estrume das vacas, do galinheiro e do pequeno chiqueiro para adubação. Isso ajudou a, no período da seca, produzir uma razoável quantidade de hortaliças. Era alface, rúcula, feijão vagem, rabanetes, tomates e outras variedades. Tudo isso era levado para a vila e vendido, não sobrando nada. É preciso dizer que, nessa época, a maior parte das hortaliças consumidas no lugar era levada dos estados do sul como São Paulo, Paraná e outros. É fácil imaginar o custo que isso acrescia a esse importante item na alimentação da população. Com isso, tudo que fosse possível produzir nessa área, tinha mercado garantido. Se houvesse apoio adequado, as chácaras existentes no entorno da área urbana, teriam possibilidade de abastecer esse mercado com folga. Infelizmente esse apoio não existia naquela época. 
Pintada pastando tranquilamente.

 

Malhada e o tourinho para reprodução.

 

Bezerra no seu piquete e novilha ao lado.
Nosso pasto foi ampliado, fizemos um piquete separado para os bezerros maiores e outro pequeno para aqueles em idade de amamentação. Tudo isso reunido, em pouco tempo, conseguiu melhorar nossa renda, triplicando o valor anterior. Algumas mudas de frutíferas plantadas em janeiro de 1988, cresceram rapidamente e começaram a produzir, fornecendo-nos laranjas, mexiricas ou fuchiqueiras, cajus, mangas, frutas de conde, carambolas, bananas e abacaxis em grande quantidade. No lugar onde nos foi dito ao chegarmos não adiantava plantar que nada dava, estávamos conseguindo algo mais. Evidentemente era necessário muito trabalho, cuidado, adubação com tudo que fosse matéria orgânica. Nada era queimado. Lamentávamos a necessidade de queimar o mato para abrir a roça, pois se fosse possível fazer isso de outra maneira, certamente a teríamos feito. As folhas das árvores seriam uma excelente fonte de adubo orgânico. 
 
Dois pés de manga rosa produzindo frutas.

 

Nessa imagem acima temos dois pés de manga rosa, plantados nos primeiros meses de 1988, em pouco mais de dois anos, começaram a produzir frutas. Nas imagens abaixo, um casal de cães, filhos da cadela Princesa, brincando no pasto dos bezerros. Eles vieram junto para Curitiba na nossa mudança para cá em 1993.

 

                                                           Palito e Nega brincando.
Em 1987 eu havia adquirido uma motosserra usada. Por inexperiência cometi o erro de optar por um modelo muito grande e pesado para o serviço na roça. O revendedor Stihl local, me ofereceu uma menor, também usada, mas totalmente reformada. A minha estava necessitando de reforma e assim ficou elas por elas. De brinde ganhei uma cadelinha vira latas, filhote. Ela ganhou o nome de Princesa. O que lhe faltava em qualificativos raciais, tinha em obediência e demais qualidades importantes. Dela nasceu uma ninhada de filhotes, dos quais guardamos os dois das fotografias ao lado.Em maio de 1993 chegaram, quase adultos, a Curitiba quando voltamos.  
Continua a brincadeira. 

 

Pouco tempo antes de virmos embora de lá. 

 

Vaca pintada se abrigando do calor forte à sombra de um arbusto.

 

 
No dia 23 de dezembro de 1992, terminando de colocar as telhas de uma cobertura para o novo forno recentemente feito, uma telha quebrou e eu caí. O resultado da queda foi uma luxação completa do cotovelo esquerdo e uma forte pancada na coxa esquerda. A falta de um aparelho de raio X e médico especializado, foi preciso me deslocar para Cuiabá(570 km). O acidente ocorreu próximo das 5 horas da tarde e foi conseguido um veículo para o transporte já noite fechada. A ambulância estava quebrada devido ao péssimo estado das estradas. Colocaram à disposição um carro Del Rey, dirigido pelo motorista da ambulância. Viajamos a noite inteira até Tangará da Serra, onde havia um ortopedista. Infelizmente ao chegar lá, soubemos que ele viajara de férias no dia anterior. Almoçamos e seguimos para Cuiabá, onde, depois de muita procura, encontramos uma clínica com um médico de plantão. Foi aplicada uma anestesia e o braço puxado, colocando a junta no lugar. Feita uma tala de gesso para manter a imobilização, iniciamos a viagem de retorno. Pernoitamos em Tangará da Serra, concluindo a viagem no dia de Natal.
Quando íamos sair de Várzea Grande constatou-se que o freio da roda traseira direita estava preso, provocando aquecimento severo. Foi necessário encontrar um mecânico para improvisar uma solução. A muito custo convencemos um deles a abrir mão de seu início de feriado e nos atender na oficina que ficava no lado oposto da rua, em frente de sua moradia. A solução foi desmontar, retirar o mecanismo do freio dessa roda e isolar o duto de líquido de freio. Assim, com o veículo engatando só algumas marchas, com freio em apenas três rodas, conseguimos seguir viagem. Hoje lembrando, vejo isso como uma real epopeia, coisa de loucos. 
 
Iniciei o sofrido período de manter o braço enfaixado e imobilizado. O forte calor provocava forte sudorese, provocando a formação de ulcerações na pele da parte interna do cotovelo. Era preciso higienizar com água oxigenada e aplicar líquido antisséptico, na época o temido mertiolate, ainda em plena utilização. Ao completar três semanas de imobilização era preciso voltar a Cuiabá para retirar a tala e verificar se estava tudo em ordem. Se soubesse o que seria feito, teria pedido para a Ir. Theonila retirar a tala e desenfaixar. Foi apenas isso que foi feito. Poderia perfeitamente ter economizado o custo da viagem. 
 
Ao retornar, eu estava com o braço semi travado. Endireitar nem pensar. Levaria meses para lentamente recuperar a mobilidade, mas permaneceu anos uma leve curvatura do cotovelo devida à calcificação da lesão ocorrida. No dia 23 de janeiro, meu filho Augusto Mathias, um dos gêmeos, com 12 anos de idade, foi vítima de um AVC. Ocorreu paralisia no lado direito. Quem fez o diagnóstico prévio e o tratou adequadamente, dentro das limitações hospitalares e pessoais existentes, foi um ex integrante do exército da Wermacht alemã, na Segunda Guerra Mundial. Foi cirurgião e um ferimento por estilhaço de granada, tirou-lhe a precisão da mão direita, exatamente a que usava nos procedimentos cirúrgicos. Na quinta tentativa, conseguiu fugir ao domínio de Hitler e acabou vindo para o Brasil. Não conseguiu revalidar seu diploma de médico e por isso exercia o trabalho de bioquímico. Era sua formação complementar e, mesmo sem muitos equipamentos, realizava todos os exames clínicos básicos necessários. Na ausência de outro médico(o último se demitira e fora embora), ele fez uma punção lombar e constatou que havia ocorrido uma pequena hemorragia cerebral. Casualmente tinha disponível a medicação necessária e pediu à proprietária da farmácia, Srª Terezinha Bonazza para encomendar outras doses para serem enviadas pelo ônibus. Isso foi facilitado pela existência, nessa época, de uma central telefônica. 
 
No domingo pela manhã, às 10 h, foi possível a um avião monomotor aterrissar na pista existente ao lado do perímetro urbano. Embarcamos o menino e voamos para Cuiabá, onde foi internado no Hospital Geral. A internação correu por conta da Previdência do Estado, por eu ser professor concursado da escola. Foi examinado por um neuro-cirurgião, um cardiologista e nem sei mais que outros médicos. Exames de sangue, raios X, tomografia craniana, ecografia cardíaca, foram pedidos e feitos. O cardiologista não encontrou nenhum problema e o neuro foi incompetente para interpretar corretamente a tomografia. Na próxima sexta-feira, após 5 dias internado, recebeu alta e fomos para a casa de um casal, amigos de nossos parentes aqui de Curitiba, que veio nos visitar e dar apoio. Deveríamos voltar em 60 dias para uma revisão. O único medicamento receitado foi o melhoral infantil, usado para manter maior fluidez do sangue. Exatamente o oposto do recomendado. Se houvesse novo rompimento de vaso sanguíneo no cérebro, ele teria convulsões e poderia morrer, sem termos tempo de prestar socorro. 
 
Não confiando no diagnóstico, fui até o escritório da Madeireira Morada do Sol, empresa sediada em Brasnorte e consegui emprestado o dinheiro necessário para adquirir as passagens dele e de minha esposa Rita para Curitiba. Embarcaram na madrugada de domingo para segunda-feira e chegaram aqui próximo do meio dia. Imediatamente foi conseguida consulta com o neurologista pediátrico Dr. Afonso Antoniuk Filho. Ao olhar a tomografia prescreveu imediatamente um anticonvulsivante para prevenir qualquer evento sério desse tipo. Ele se tratou, conservou algumas pequenas sequelas, mas recuperou os movimentos básicos, a fala e vive normalmente. Hoje conta com 34 anos, completados em 13 de setembro passado. 
 
Visita do cunhado Edegar Baldin e Sonia, com os filhos Edegar Junior e Isabel, ao final de 1991.
Caixa d’áuga, abastecida por encanamento vindo da vila, fornecido por poço artesiano. 
Outra vista da caixa d’água.

 

Vista de dentro da varanda, de um campinho de futebol e voleibol, onde os meninos, amigos e eu brincávamos.
 

Postagem original feita em dezembro de 2014.

Revisado em Curitiba, 15 de dezembro de 2019.

Décio Adams

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Um pouco da história de minha vida – em Brasnorte – MT (2)

 

Fachada da Estação Rodoviária de Cuiabá em fevereiro de 1987.
Área de saída e chegada de passageiros da rodoviária de Cuiabá.
Mais área de saída, pontos de taxi na rodoviária.

 

Deixando tudo por um sonho!
 
Depois do que eu escrevi no outro artigo, preparei a ida para o Mato Grosso. Deixei tudo que tinha aqui em Curitiba, partindo ao encontro de um sonho. Meus empregos ficaram para trás. Num primeiro momento levei comigo apenas o filho mais velho Décio Adams Junior. Aqui permaneceram Rita minha esposa e os filhos gêmeos Augusto Mathias e Anselmo Daniel.Tínhamos colocado à venda nossa casa. Assim que o negócio fosse concretizado, eles seguiriam ao nosso encontro. Embarcamos num ônibus da União Cascavel, hoje EUCATUR. Passamos por Cascavel, Mal. Cândido Rondon, Guaíra e seguimos para Cuiabá – MT. Ao chegarmos a rodoviária, tivemos oportunidade de ver o ambiente mostrado nas fotos abaixo. 
 
Área de circulação de passageiros, indo para as plataformas de embarque.
Área de espera pelo momento do desembarque.
 Chegamos ao anoitecer e naquele momento nada poderíamos fazer. Antes de viajar para Brasnorte, teria que passar pela Secretaria de  Educação, encaminhar minha posse. Procuramos um pequeno hotel nas proximidades da rodoviária. Era barato e não tínhamos que carregar muita bagagem que ficou protegida no guarda volumes da rodoviária. 
 
Na manhã seguinte procurei a secretaria da educação para tratar dos trâmites para a posse. Recebi uma lista bem grande de exames médicos a fazer, com os respectivos endereços. Sem conhecer absolutamente nada da cidade, andamos os dois de um canto a outro, procurando onde tínhamos que ir. Entre idas e vindas, consegui concluir tudo antes do final de semana. Levei os resultados ao lugar indicado e ali recebi a informação de que teria que retirar o documento para tomar posse na DREC em Diamantino, apenas na semana seguinte. Era sexta-feira antes do Carnaval. Ficar uma semana inteira na Capital não estava nos planos. 


Fila para compra de passagens.
Plataforma de embarque.
Embarcamos num ônibus da empresa TUT Transportes e seguimos para Tangará da Serra. Passamos por Jangada, Barra do Bugres e chegamos em Tangará da Serra. Dali embarcamos em outro carro da mesma empresa, adaptado ao tipo de estrada que enfrentaríamos. Era a estação das chuvas e as estradas não asfaltadas estavam em péssimo estado que poderão ver nas fotos que virão logo a seguir. A viagem de 340 km demorou mais de 12 horas. Havia momentos em que tínhamos a impressão de que os feixes de molas do veículo subiriam pelo assoalho acima, tamanhas eram as pancadas das rodas nos buracos existentes na estrada. Chegamos com a estrada molhada pois chovia praticamente todos os dias. 
 
No ponto de parada encontramos um táxi que nos levaria até a fazenda de meu irmão Agileu, onde chegamos em torno do meio dia de sábado. Ali chegando, encontrei minha irmã Elvenete, o cunhado Romeu e a filha Kelly ou Kátia, não lembro direito qual das duas era nessa época. Passamos o final de semana na fazenda e na terça-feira de carnaval aproveitei a carona para ir até Rondonópolis, de onde voltaria a Cuiabá na quinta feira para pegar meu documento. Décio Adams Júnior ficou na casa do tio aguardando minha volta.
 
Praça no centro de Cuiabá
Prédio da administração estadual no centro de Cuiabá.
O mesmo prédio, visto de outro ângulo.

 

 

Praça em frente ao mesmo edifício.

 

 

Vista do cerrado a partir da área de embarque da rodoviária.

 

 
Na quinta-feira peguei meu atestado de aptidão física para assumir o cargo de professor para o qual fora nomeado em virtude da aprovação no concurso. Retomei o mesmo percurso, dessa vez sozinho, chegando na tarde de sexta-feira à fazenda do meu irmão. Na segunda-feira ele nos trouxe para a vila, trazendo na camionete C-10 todos nossos pertences. Havíamos levado ferramentas para iniciar a abertura da chácara que meu pai me autorizara ocupar, próxima à vila(800 m). Conseguimos uma casa desocupada, mas sem móveis. O clima quente favorecia e tínhamos levado cobertores, uma rede e assim nos viramos. As refeições fazíamos na casa das irmãs da Divina Providência que prestavam serviço à comunidade. 
 
Eis uma amostra do que eram as estradas da região na época das chuvas que duram mais de seis meses. Trechos que em condições normais são percorridos em algumas horas, podiam  demorar até mesmo dias. Frequentes quebras de veículos transformavam a vida dos caminhoneiros em um verdadeiro inferno. Os ônibus não ficavam para trás. Abaixo uma estrada de interior, pouco mais que uma trilha e servia aos proprietários de terras para chegar à sua propriedade. Uma vez ali instalados, percorriam quilômetros e mais quilômetros para chegar ao núcleo urbano projetado, mas  quase inexistente. Na estação das chuvas, abundantes poças de água e lama se formavam, tornando a passagem uma verdadeira odisseia. 

 

 
 
Ao lado mais uma amostra da quantidade de caminhões de diversos portes, veículos pequenos enfrentando o lamaçal em que se transformavam as estradas na época das chuvas. Em meio a essa situação chegamos para iniciar nossa vida em Brasnorte. 
 
Iniciei minhas aulas na escola e meu filho foi matriculado na quarta série do primeiro grau. Na escola encontrei como diretora a professora Marlene Neumann de Oliveira, seu marido Augusto Oliveira, Ironi Zancanaro, sua esposa Letícia, Célia Barranco Pssamani, Marlene Debo, Celina Silva da Cruz, Delcina, Antônia Doralice Silva, Antônia Aparecida Pereira Prado, a esposa do senhor Marcelo Pietsch e sua filha. Havia chegado naquele início de ano o professor Tadeu Kapron, também de matemática, mas tendo diploma de magistério e Décio Junior se tornou seu aluno. É natural de Cândido Godoi, de onde eu vim muitos anos antes. Na secretaria trabalhava Mônica Debo, casada com o funcionário do posto local da Emater, Mato Grosso, conhecido por Edinho. Alguns nomes não lembro agora. 
 
Havia necessidade de ir até Diamantino na DREC para assinar o termo de posse. As dificuldades desse deslocamento permitiram que fizesse isso algumas semanas depois, sendo que viajei de carona com o vereador Adão Passamani. Viajamos num dia de feriado em março. No dia seguinte assumi meu cargo e descobri tardiamente que, em lugar de ficar a semana inteira perambulando por Cuiabá, atrás das consultas e laboratórios para realização dos exames, poderia ter ido diretamente até ali e resolvido tudo no mesmo dia. Uma lamentável falta de comunicação. Mas isso é passado. Havia iniciado o serviço de roçar o mato na chácara onde iríamos morar. A viagem de volta foi feita de ônibus, passando por Alto Uruguai, Arenápolis, Nortelândia, uma outra cidadezinha menor e Tangará da Serra. No meio do caminho para Brasnorte havia um posto de parada, uma ou duas casas além de um posto de combustíveis. Ali hoje existe a cidade de Campo Novo do Parecis. Já em 1993 quando encetamos o caminho de retorno a Curitiba, por razões médicas, ali existia uma florescente área urbana, emancipada há algum tempo.  
 
Poucas semanas depois de nossa chegada, veio para Brasnorte uma caravana enviada pelo Governador eleito no anto anterior para implantar o que denominavam Conselho Municipal. Embora ainda não fosse município, mas o processo estava encaminhado e foi concluído em 1988, sendo realizadas as primeiras eleições municipais, foi incluído no projeto. Lembro da reunião no então Clube Guarantã. Pareceu-me uma iniciativa de futuro e me lancei de corpo e alma na participação, tendo sido eleito secretário e Ezequias Vicente da Silva Presidente. Norberto de Paula, mais conhecido como Nenti, era o vice-presidente. Seria uma instância onde haveria a participação popular nas tomadas de decisão importantes para a comunidade. Eu disse “seria”, pois lamentavelmente o ideal estava muito além da realidade que surgiu. Os integrantes do partido governante se apossaram das posições de poder e passaram a comandar tudo, como se governantes fossem. A vida dessa entidade foi curta, pouco mais de um ano. O povo desestimulado por ficar em posição meramente figurativa, deixou de participar. 
O conselho se reunia mensalmente, sempre aos domingos pela manhã após o culto na igreja, ou em algumas ocasiões extraordinárias quando algum motivo justificava tal ação. Lia-se a ata da reunião anterior, submetendo-a a aprovação dos presentes. Eventualmente havia correções a fazer que eram apresentadas e anotadas, para posterior lançamento. Depois eram apresentadas as proposições e ocorria alguns pronunciamentos a favor ou contra, antes de realizar a votação. Raramente havia uma rejeição do que era proposto, tornando um tanto monótonas as reuniões. 
Via de regra havia aprovação quase unânime, fato que torna as decisões um pouco temerárias, haja visto que a unanimidade costuma ser tida como “burra”. Decisões tomadas sem um debate detalhado, tem pouca ou nenhuma consistência. Mas o tempo passou e o plano promissor virou poeira, em parte por conta dos planos econômicos federais, feitos sem um planejamento efetivo. Planos editados em decisões quase “monocráticas”, geralmente fadados ao fracasso. Junto com isso outros planos, nos escalões inferiores da administração pública, eram afetados e terminavam por fazer parte da história dos fracassos. 
 
Nas primeiras eleições foi eleito prefeito o senhor Ezequias Vicente da Silva. Na verdade no lugar faltava por assim dizer tudo em termos de infra-estrutura para qualquer tipo de atendimento em geral. No decorrer de 1988 foi instalada uma unidade da CEMAT, com motores diesel para gerar energia que abasteciam durante o dia até meia noite as necessidades de energia elétrica. Foram perfurados, ao lado da central elétrica, poços artesianos para prover o abastecimento de água potável, antes precário, praticamente inexistente. Havia um poço, mas pouco profundo, não tinha capacidade de abastecer todos. Era um racionamento severo de água, absoluta falta do líquido precioso. Os mais abastados como os comerciantes, açougue e mais uns poucos, dispunham de seus próprios geradores para fornecer energia elétrica e proporcionar as comodidades que isso traz. Os demais usavam lampiões a gás e se viravam assim mesmo.  
 
Trabalhamos duro durante aqueles meses antes de chegarem as férias de meio de ano. O negócio da venda da casa infelizmente não se concretizou. Assim continuávamos os dois sozinhos lá, enquanto Rita e os gêmeos permaneciam aqui. Havíamos terminado a roçada e derrubada de um hectare de mato, exatamente a parte que fora desmatada antes e voltara a crescer mato novamente. Vejam as fotografias tiradas antes de viajarmos para Curitiba, matar a saudade. 

Na noite em que embarcamos, contratei um trabalhador que prestava esse tipo de serviços, a roçada e derrubada de mais um alqueire de mato. Enquanto vinhamos passear, a parte derrubada terminaria de secar, ficando pronta para queimar ao retornar.  

 

Para nossa surpresa, quando retornamos alguém havia ateado fogo, queimando o mato antes da hora. Assim houve partes em que a queima ficou boa, outras queimou mal, devido ao fato de a secagem não estar completa. A roçada da parte nova, estava em estágio avançado, sendo que logo foi feita a derrubada, dando tempo para secar antes do início forte da estação das chuvas.
 
Na continuidade começamos a cortar os galhos e troncos carregando-os para linhas, formando leiras e deixando a terra livre para o plantio. Logo após o retorno contratei com um antigo colega de Seminário, morador e dono de uma pequena serraria, denominada Pica-pau para serrar a madeira necessária a construção de nossa casa. As toras foram retiradas da área que estava sendo derrubada em acréscimo a que havia sido queimada.
 Os troncos e galhos que se pode ver predominantemente nessas fotos, são de uma madeira muito leve e de nenhuma utilidade prática, mas de crescimento muito rápido, era denominada de Imbauva. Em outras regiões costuma receber a denominação de Cacheta. Extremamente leve e mole, não tem utilidade para tábuas ou vigas. É usada para caixas de frutas, onde o uso é único e depois é feito o descarte. 
 

 

Enquanto a madeira para construção era serrada, o mato derrubado secava, durante todas as tardes passávamos na coivara cortando e carregando galhos, troncos, pedaços carbonizados. Amontoávamos tudo que podíamos para deixar o terreno limpo ao máximo. Ao voltarmos à tardinha, estávamos completamente enegrecidos pelo carvão. Mal se via o branco dos olhos. 
 
 
 

 

Chegou o dia de queimar a área nova e passamos a tarde nessa tarefa. Tínhamos que cuidar para o fogo não se espalhar pelo mato contíguo à área. Houve partes novamente que não queimaram muito bem, mas não havia mais como esperar, pois as chuvas começavam a ficar mais frequentes. Agora havia mais uma tarefa a fazer. Plantar a semente de Brizantan, capim para a pastagem que desenvolve bem na região. Não usamos a área inteira para isso.
 
Preparamos uma estrada de acesso ao local escolhido para construir a casa e ali começamos a fazer a colocação dos pilares que serviriam de apoio à construção. 
 
Igualmente plantamos um pedaço em arroz, um outro de mandioca, mudas de bananeira, abacaxi, sementes de caju foram enterradas na beira da estrada, o chamado cará-moela plantado ao lado de montes de galhos e imbaúbas. O tempo passou depressa e o Natal se aproximava. Nossa comunicação com Curitiba era feita por intermédio de um rádio existente numa serraria(Morada do Sol) que tinha escritório em Várzea Grande, de onde a comunicação era completada com uma ligação telefônica a cobrar. 
 
Em certo dia, já ao final das aulas em dezembro, tentei contato e não consegui. Imaginei imediatamente que os três, Rita e os filhos, estavam a caminho de Brasnorte. Era dia 23 de dezembro, meu aniversário e havíamos sido convidados para almoçar na casa da professora Antônia Aparecida Pereira Prado. Ao terminar o almoço, corremos para a parada de ônibus e logo o veículo encostou. De imediato vimos, iniciando a descida de seu interior dos nossos entes queridos. Não passaríamos o Natal sozinhos. Daí por diante a família estaria reunida, após longos meses de separação. A casa ficou para trás, aos cuidados do meu cunhado Ângelo Armindo Conti, que passou a morar nela enquanto nós estivemos em Brasnorte. 
 
Durante os meses que passamos sozinhos, tivemos sempre o apoio das irmãs da Divina Providência Theonila, Leonila e Ana, de saudosa lembrança. Nos serviam de companhia, consolo nas horas tristes e apoio nas dificuldades. Eis abaixo a fotografia dessas pessoas sumamente importantes em nossa vida. Em pé à esquerda Ir. Theonila, agachada Ir. Ana e em pé à direita, Ir. Leonila. Olhem que belíssimo mamoeiro carregado de frutos saudáveis plantado no terreno da casa em que as irmãs viviam. Theonila era encarregada do posto de saúde, sendo muitas vezes solicitada sua presença em comunidades de toda região. Seus longos anos de experiência em hospitais de Santa Catarina, servia para mitigar em parte a ausência de profissionais médicos. 
Ainda estamos no começo. Na sequência virão outras postagens de continuação. 

 A postagem original foi feita em dezembro de 2014. Hoje, 15 de dezembro de 2019, estou fazendo uma remodelação, inserindo alguns trechos omitidos na primeira versão. 
Curitiba, 15 de dezembro de 2019.

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Um pouco da história de minha vida. – em Brasnorte – MT( 1 ).

Cachoeira no Rio Sacre Coeur em Brasnorte.
Vista aérea de Brasnorte nos dias de hoje.
Praça de Brasnorte hoje.(Fotografias baixadas da internet, no site da Prefeitura Municipal)

Minha vida em Brasnorte – MT.

No final da década de 70, início dos anos 80, iniciou-se o enchimento da represa da Usina Hidrelétrica de Itaipu, na divisa entre Brasil e Paraguai, represando as águas do Rio Paraná. Com isso, parte da terra pertencente a meu pai, irmãos e uma porção de outras pessoas na região, foram submersas ou ficaram dentro de uma faixa considerada de conservação. Isso gerou uma indenização em dinheiro. De posse desse capital, meu pai investiu uma parte no restante da propriedade, mas um grande percentual foi usado para adquirir uma área de terras mais de 250 alqueires, na Gleba do Rio do Sangue, no estado do Mato Grosso. Posteriormente denominada Brasnorte. Destinava-se essa área para ser dividida entre os cinco filhos ainda não proprietários de terra que eram: Clicério Tomé, Tito Jorge, Terezinha Marisa, Elvenete e Décio(eu). Feita a divisão e aprovada pelo INCRA, foi lavrada a escritura no nome de cada um de nós.
Este era o folheto de propaganda distribuído pela colonizadora da área, decantando as virtudes e maravilhas da floresta, suas riquezas inigualáveis em todos os sentidos. As imagens mostradas eram de um lugar em plena fase de implantação, viveiros de mudas para plantio de café, seringueiras e uma área urbana projetada, em fase avançada de urbanização, dadas as circunstâncias de ser em meio à floresta amazônica.
No jornal Folha de Londrina era veiculada propaganda constantemente, convidando os colonos paranaenses e de outros estados sulinos a participarem desse grande empreendimento. Os interessados em conhecer a colonização eram levados em aviões para lá, era-lhes mostrada uma demarcação e algumas coisas realmente existentes. Muitos foram convencidos a entrarem na aventura. Um deles foi meu irmão Agileu Aloísio, com sua esposa Catarina e filho Evandro Luis, mudando-se para lá em 1982/83. Logo a seguir chegou meu pai e também comprou a terra que repartiu entre nós. Eu era nessa época professor do CEFET-PR, UCP(hoje PUC-PR), e CEP – Colégio Estadual do Paraná.
 O que os colonos encontraram, foi um projeto de área urbana, com algumas ruas abertas com trator de esteira, um hotel construído, uma ou outra casa e o resto era mato. Cada comprador tinha direito a um lote urbano, porém antes de poder pensar em construir sua casa era preciso retirar o mato. Depois providenciar a madeira serrada. A matéria prima existia, o problema era transformá-la em tábuas, vigas, ripas, portas, janelas. Formou-se um imenso espaço cheio de lonas, servindo de abrigo inicialmente. A carne era conseguida caçando e pescando
nos rios existentes na região. Nem sempre era fácil pegar o peixe. As águas eram transparentes, dificultando a fisgada.
Aos poucos foi posta em funcionamento uma escola, depois convertida em Escola Estadual Ewaldo Meyer Roderjan. Muitos colonos tinham suas terras situadas muitos quilômetros mato adentro e as estradas eram precárias, quando não meras picadas ou mesmo inexistentes. O tempo passou e um grande número dos que inicialmente moraram na área urbana, fizeram suas moradias na área de terras. Assim estavam junto do seu lugar de trabalho, tendo apenas que se deslocar vez ou outra para a “vila” em busca de suprimentos.
Em julho de 1985 viajei para lá a fim de conhecer o lugar e visitar meu irmão. Era o período da estiagem(seca), quando as estradas eram transitáveis, apenas bastante poeirentas e cheias das chamadas “costelas de vaca”. Uma especie de ondulação, tipo marola, que é formada pelo acúmulo de areia em alguns pontos, provocando uma trepidação quase insuportável. Era uma realidade totalmente diferente do que eu conhecera na infância na roça, e depois na região de Foz do Iguaçú e São Miguel do Iguaçú. No entanto pensava que seria um período inicial para adaptação e aos poucos o progresso chegaria naquele lugar. Já vira isso ocorrer em outros lugares. Todo começo é difícil, ainda mais levando em consideração as distâncias a percorrer até encontrar ajuda e socorro, que eram grandes, somando-se à isso a precaridade das vias de comunicação (estradas). Havia o recurso de pequenos aviões aterrissarem em uma pista de pouso e decolagem existente, mas era limitado a transporte de pessoas e cargas mínimas.
Eis um trecho da estrada entre Brasnorte e Juina no período da seca. Dá para ter uma ideia do estado que estava a roupa, o corpo, enfim tudo que estivesse nos veículos ao final da viagem. Cheguei em Tangará da Serra e ali pedi informação sobre o modo de seguir. Casualmente encontrei com o Senhor Ivani Ferrari, que estava ali de carro, um corcel II, e me ofereceu carona. Aceitei, pois o ônibus demoraria muitas horas para sair e provavelmente eu chegaria apenas na manhã seguinte. Assim cheguei a casa de meu irmão antes da meia noite.

Eis aí uma ponte na região. Abaixo uma visão mais recente de um local à beira de um dos rios que cortam o território.

Passei por essa ponte de ônibus e de carro em diversas ocasiões. Dava a impressão de que a qualquer momento afundaríamos nas águas do rio.

Fiquei por lá algo em torno de uma semana. Encontrei com o Senhor Ezequias Vicente da Silva, dono do cartório e um dos líderes políticos locais. Casualmente ocupava também a posição de Vice-prefeito de Diamantino, município ao qual Brasnorte era subordinada. Podem imaginar, a sede e um distrito separados territorialmente por outros municípios e uma distância de mais ou menos 500 quilômetros de estrada, na maior parte péssima. Deixei meu curriculum, cópias do meu diploma e demais certificados de cursos como Especialização em Metodologia do Ensino Superior pela UFRGS, além de vários outros cursos de 40 horas de duração. Eu seria um avanço qualitativo para a escola local, dada a quase total inexistência de professores habilitados na região. Procurei uma fotografia do prédio que então abrigava a Escola Estadual. Era todo em madeira, poucas salas de aulas, ocupava uma quadra inteira, sendo a maior parte de terra limpa, onde apenas crescia mato, uma quadra de esportes descoberta e mal conservada. No período noturno, um motor diesel acionava um gerador produzindo a energia para iluminar as salas, tudo funcionando de modo precário. Era diretora da escola nessa época a Professora Célia Barranco Passamani, esposa do vereador Adão Passamani.
Mangueira de gado do meu irmão Agileu
mangueira de gado

Algumas fotografias da fazenda de meu irmão na época de minha visita em 1985. Ainda são bem visíveis os restos da floresta recentemente removida. A pastagem começando a ficar seca devido à estiagem, obrigando a um manejo e suplementação de alimentação para manter os animais em bom estado. O reinício da estação chuvosa é sempre incerta. Por vezes já em setembro caem as primeiras pancadas de água, outras só em outubro e mesmo início de novembro. Com o passar dos anos o povo se acostumou e aprendeu a fazer uso de recursos varios para superar essas dificuldades. A fotografia acima mostra uma pequena represa onde o gado bebia e havia alguns peixes. Serviam para inserir uma variação no cardápio da família de vez em quando.

Poderíamos perguntar:  – Onde ficou o café? A seringueira?

Primeiro, o clima e o solo não é o melhor para cultivar café, nem mesmo as variedades mais resistentes. A seringueira, sofria com a falta de fornecimento de mudas e assistência fito sanitária adequada. Houve algumas tentativas de plantio, mas a maioria desistiu. Havia uma linha de crédito junto ao BB, mas era necessário ir até Juína, ou então Tangará da Serra, coisa que poderia ser algo demorado, dependendo das condições do tempo e estradas. Tudo contribuía para desestimular os menos persistentes. Mesmo os mais calejados fraquejavam em muitos momentos.

Houve tentativas de plantio de Cacau e também de Guaraná, porém nenhuma delas deu os frutos esperados. Creio mais devido à falta de assistência e orientação adequada, do que aos problemas de solo propriamente. Isso eu posso testemunhar. Bastavam alguns cuidados especiais e se conseguia produzir de tudo, praticamente. Na chácara onde morei depois, havia produção de abacaxi, bananas, frutas variadas, mandioca e hortaliças. Bastavam os cuidados que em toda parte são exigidos, acrescidos de alguma coisa específica.

Outra cultura que foi apontada como uma perspectiva de futuro era a pimenta do reino. Novamente esbarrava-se na falta de assistência, apoio e especialmente obtenção de mudas para plantar. Além disso, tratavam-se de culturas exóticas para a imensa e esmagadora maioria dos moradores que vieram se fixar na região, na esperança de dias melhores. No correr dos anos muitos deixaram o lugar indo para mais longe, como Aripuanã, Cotriguaçu. Houve também alguns que empreenderam o caminho de volta, não sem levar na bagagem uma imensa decepção, além de considerável prejuízo financeiro resultante do baixo valor das terras.

Na foto abaixo vemos um mamoeiro carregado, a produção de mangas de diversas variedades, caju cresce igual mato, fruta do conde, jacas e outras espécies de frutas. É uma área perfeitamente capaz de produzir, desde que feito o manejo adequado do solo. Em tudo faltava o apoio de agências de fomento ou se existiam estavam fora do alcance da grande parcela do povo menos aquinhoado de recursos. Tudo isso gerou certamente bastante atraso no desenvolvimento da região. A quase inexistência de infraestrutura na área de saúde e órgãos de administração pública foi outra carência fortemente sentida pelo povo. Mas os anos passaram e hoje se nota alguma coisa mais esperançosa com certeza.

Voltei, pensando seriamente se seria conveniente trocar minha então confortável posição de professor efetivo no Estado do Paraná (CEP) e CEFET-PR(então já não trabalhava mais na UCP). Havia tido um problema sério de saúde por sobrecarga de trabalho e reduzira o número de aulas diárias. Preferível ganhar menos, mas viver mais. Tinha filhos pequenos, casa recém comprada por pagar. De nada adiantaria estar, de uma hora para outra transformado em inválido. Em vez de ganhar, dar despesas e trabalho a quem não estava em condições de ajudar(filhos pequenos) ou sobrecarregada(minha esposa). No entanto trazia comigo a vontade de oferecer aos filhos e esposa uma vida mais simples. Sentia-me cansado da vida na cidade, com sua correria, muito trabalho e pouco lazer. Também tinha o desejo de mostrar ao meu pai que era grato pelo que ele me dera, a terra. Iria cultivar e progredir, demonstrando assim a gratidão. Daria valor ao presente.
Com esses pensamentos chegou maio de 1986 e recebi um telefonema de Tangará da Serra. Era Frei Natalino Vian, capuchinho, sediado na Paróquia. Estava ao seu encargo atender aquela região inteira, percorrendo todos aqueles rincões em seu “raio”, um toyota cabine dupla, com caçamba. A cor era um marrão claro, quase da cor da terra do lugar. Esse telefonema me informou de que estariam abertas até determinado dia as inscrições para o concurso de professores em todo estado de Mato Grosso e, se quisesse ir trabalhar em Brasnorte, deveria me inscrever. Em tempo recorde arrumei o dinheiro, penhorando na CEF as nossas poucas jóias(até meu anel de formatura). Embarquei numa quarta feira à noite e cheguei em Cuiabá na madrugada de sexta-feira, em viagem ininterrupta, parando apenas para comer e respirar um pouco. Em uma ou duas horas estava novamente num ônibus que me deixou em Diamantino, às 10 horas. Para minha surpresa, ao chegar na DREC – Delegacia Regional de Ensino, fui informado de que o período das inscrições fora adiado, iniciando na semana seguinte e indo até determinado dia.

Voltei de imediato para Cuiabá. Dali consegui falar por telefone com Frei Natalino, que se encarregou de fazer a inscrição, bastando para isso enviar por correio urgentemente os documentos necessários. Embarquei para Curitiba, para não perder mais aulas. Bastavam dois dias a serem repostos, em concordância com os alunos. Poderia deixar de repor, porém sofreria duplo prejuízo. Primeiro e imediato o desconto das aulas não dadas do salário. Segundo, na hora de solicitar um outro direito, a licença prêmio, essas faltas impediriam o gozo desse benefício. Havia portanto motivo suficiente para evitar faltas desnecessárias e repor as aulas eventualmente deixadas de dar.

A inscrição foi efetuada e começou a espera pela marcação da data das provas. Final de setembro chegou a notícia e seria nos mês de outubro, apenas não lembro o dia. Novamente viajei no mesmo esquema, apenas embarcando na quinta feira à noite, chegando em Diamantino na manhã de sábado. As provas seriam realizadas na manhã de domingo. Aproveitei para conhecer o local onde faria a prova, depois deitei e dormi a tarde inteira. Viera estudando no ônibus, recordando os conteúdos pouco usados, pois lecionava mais física e estava inscrito em matemática do segundo grau. O livro usado era o de Manoel Jairo Bezerra. Pretendia passar a tarde estudando mais um pouco. O cansaço predominou e decidi tirar um cochilo depois do almoço. Dormi até perto das 8 horas da noite. Fui jantar e decidi deixar os estudos de lado. Assisti um pouco de TV e voltei a dormir. No outro dia estava cedo perto da porta de entrada. O tempo disponível para a prova era de 4 h e 30 minutos.

Foram 100 questões, sendo 20 de português, 20 de didática, 20 de psicologia e 40 de matemática. Entreguei o cartão de respostas no exato momento em que tocou o sinal encerrando a prova. Em meia hora foi divulgado o gabarito. Os cadernos de prova ficavam com a gente e conferi. Acertara 19 de português, 18 de didática e 17 de psicologia. Já das 40 de matemática, acertara 24. Aparentemente pouco, mas vinha atuando em física há alguns anos e isso fez esquecer algumas coisas. Mesmo assim, a pontuação seria suficiente para ser aprovado(50%) em todas as matérias. Almocei e fui para a rodoviária. Encontrei uma multidão de candidatos esperando ônibus para diversos destinos. Não consegui ver um único rosto sereno. O número total de acertos era, invariavelmente abaixo de 50 questões, significando que ali ninguém estaria aprovado. Não sei dizer, mas parece que o índice de aprovação geral, em todas as disciplinas foi baixíssimo. Em novembro ou dezembro saiu o resultado e, como o esperado eu fora aprovado.

No dia 02 de fevereiro saiu no DO do Estado do Mato Grosso minha nomeação para professor na Escola Estadual Evaldo Meyer Roderjan, na cidade de Brasnorte. Havia um período de trinta dias se não me falha a memória para assumir o cargo.

(Essa parte vou contar no próximo artigo).

Fotorgrafias do prédio que atualmente abriga a EEEMR. Parte dele já existia na época em que eu voltei para Curitiba em maio de 1993.

OBS.: As imagens do folheto, da página do jornal Folha de Londrina e duas fotos que vem a seguir, fazem parte da dissertação de mestrado em História, de Jonas Lemuel Kempa, disponível na internet. Basta digitar no buscador do Google o nome dele e aparece na primeira posição dos resultados.

Publicação original feita em dezembro de 2014. 

Remodelado em 15 de dezembro de 2019. 

Décio Adams

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