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Gaúcho de São Borja! – Capítulo III

  1. Margarida Maria Vargas.

 

 

Antes de Fulgêncio tomar parte do conflito contra Francisco Solano Lopes, houvera tempo de nascer a única filha do casal, Margarida Maria Vargas. O pai partira para a guerra quando a menina contava com algumas semanas de vida. Dessa forma, ela muito pouco, praticamente nada, sabia dele. Crescera aos cuidados da mãe e sob a tutela constante de uma criada de confiança, a Siá Balbina. Era de idade indefinida e vivia na fazenda desde que Carlota podia se lembrar. De uma dedicação canina à família, era parte dela como os móveis, mesas, cadeiras e outros objetos. Tomava conta da pequena Margarida tal qual fosse uma joia rara.

É fácil entender que a menina cresceu com algumas regalias nem sempre disponíveis na infância. Mesmo assim, havia muitas limitações causadas pelo estado de beligerância em que vivia o país, a escassez de alguns mantimentos, obrigando a fazer um controle rigoroso para evitar a falta do essencial. Estava com a idade de 8 para 9 anos quando Francisco foi guindado ao cargo de capataz. Em seus folguedos gostava de ver os peões lidando com o gado, assistir às sessões de doma de potros, sempre com Balbina nos seus calcanhares. Cedo reparou no garboso capataz que a mãe nomeara. Percebia que se tratava de um homem ainda jovem, mas de um senso prático admirável. Tinha sempre uma maneira mais suave e justa de resolver qualquer diferença porventura existente em qualquer situação.

Em uma dessas ocasiões, Francisco observou a menina olhando fixamente para ele e decidiu conversar com ela. Falaram de amenidades, mas ela não se deteve muito tempo no assunto. Em instantes estava indagando sobre vários assuntos relativos ao trabalho, causando espanto em Francisco. Mesmo assim, respondeu com a maior delicadeza deixando-a encantada com sua polidez. Passou a nutrir sincera admiração pelo jovem capataz. Sua tenra idade ainda não lhe inspirava outra forma de sentimento com relação ao homem, salvo a admiração por alguém que ela via como uma espécie de irmão mais velho. Ela nem irmão ou irmã tinha, todavia imaginou que, se tivesse, ele seria daquele jeito.

As conversas entre eles foram ficando mais frequentes. Com o tempo passando, não tardou a ter início o desenvolvimento das características femininas da criança. Ela chegava a puberdade. Seu corpo começou a sofrer transformações que, de início a incomodavam, pois implicavam em roupas que não serviam mais, seu andar ficou desajeitado, sensações estranhas fervilhavam em seu íntimo e ela não lhes conhecia o significado. Ao perceber as mudanças, Balbina tentou explicar com seu jeito simples o que acontecia e ela no começo ficou satisfeita. Um dia decidiu perguntar à mãe o que significava toda essa mudança.

A mãe Carlota, andara bastante ocupada em administrar a fazenda no aspecto financeiro, esquecendo-se quase completamente de que tinha uma filha, em vias de se transformar em menina moça. Parou por um instante, chamou Margarida para sentar-se numa confortável poltrona e calmamente explicou à garota o que estava ao seu alcance entender naqueles dias iniciais. Satisfeita com os esclarecimentos, levou ainda a promessa de novas conversas quando houvesse alguma coisa em que tivesse dúvidas.

Sabia agora que estava se tornando mulher. Em algum tempo não seria mais uma menina e, ao término desse processo, poderia ser mãe. Estaria apta a casar-se, ter filhos e, portanto, ter sua própria família. Inicialmente sentiu-se encantada com as novidades que aprendera.

Essas informações foram penetrando aos poucos na cabeça ainda infantil, que iniciava a transição para a adolescência e uma infinidade de sonhos povoou sua imaginação. Como seria o seu marido que um dia seria seu companheiro? Ficou pensando nos peões que viviam com as famílias nas fazendas e eles foram passando um a um diante de sua mente. De repente uma figura se destacou e ela sentiu o jovem corpo estremecer. Tivera a visão de Francisco, garbosamente vestido em seus trajes típicos, convidando-a para dançar. Um devaneio prolongado levou-a ao momento em que ele pedia à sua mãe permissão para ficarem noivos. Via-se caminhando para o altar da pequena capela nos domínios da fazenda. Lá estava à sua espera Francisco, vestindo um traje muito bonito, perfeitamente barbeado, com o bigode bem aparado. Um peão idoso a levava pelo braço, em substituição ao pai que perdera tão criança.

Espantou os sonhos e voltou à realidade. Continuou vivendo sua vida de criança/adolescente e notava a cada dia alguma coisa diferente. Seus pequenos seios começaram a intumescer, ficando por vezes levemente doloridos. Notou umas penugens surgindo em torno dos órgãos genitais e foi perguntar à mãe se isso era normal. Sentiu-se insegura especialmente com relação às sensações de dor. Poderia significar alguma doença e ela sentia verdadeiro pavor disso. Nunca ficara realmente doente. Apenas um ou outro desarranjo estomacal devido a algum exagero de alimentação, alimentos indigestos e apenas isso. Um resfriado leve, mas nem febre tivera, que pudesse lembrar. Uma dor mesmo de verdade ela nunca conhecera.

Os anos passaram, Margarida virou mocinha e depois se transformou em uma jovem mulher, no pleno vigor de seus 15 anos. O processo de transformação, da menina que fora, em mulher, estava quase completo. Sua altura era média, cabelos castanho escuros, longos e levemente ondulados. O rosto ovalado, denotando uma descendência espanhola presente nas gerações passadas. Chegou o dia em que faria sua estreia nos fandangos realizados na fazenda e propriedades vizinhas. A mãe, agora em situação financeira estabilizada, fez questão de prover uma indumentária adequada para a ocasião. Ordenou a contratação de um grupo musical da cidade, especializado em músicas típicas. O galpão estava com assoalho novo e iria ser inaugurado naquele fandango. Não desejava ver a filha, ao final do baile, completamente empoeirada por dançar no chão batido.

O baile começou e, em dado momento, Margarida e mais cinco mocinhas das redondezas, bem como filhas dos peões, foram apresentadas à comunidade. Pediu-se aos músicos para tocarem uma valsa no capricho e as “debutantes” dançaram com os pais. Margarida, na falta do pai, convidara Francisco para dançar com ela. Ele inicialmente tentara se esquivar, mas ela, com seu jeito meigo, embora convincente e firme, fez com que aceitasse.

Estava de roupa nova, especialmente comprada para a ocasião e os dois dançaram lindamente. Carlota ficou encantada com o belo par que seu capataz formava com a filha e sentiu que, não ficaria surpresa se dali resultasse algo mais que uma mera dança de baile de quinze anos. Mas, deixaria o tempo correr. Não sentia pressa em ver a filha casada. Era jovem e tinha muito que aprender sobre prendas domésticas. Não que pensasse em vê-la labutando numa cozinha igual criada, mas era necessário saber fazer. Só assim saberia comandar as empregadas que viesse a ter no futuro.

O baile terminou depois de muitas danças, sendo que, em diversas ocasiões, Francisco a convidara novamente e ela não recusara. Sentia-se flutuar quando ele a conduzia com seu passo firme, seu corpo forte e flexível, mesmo nos passos das danças mais complicadas. Chegou à sala, com o rosto afogueado devido ao calor e ao esforço das seguidas vezes que dançara, tanto com Francisco, como os outros rapazes que a haviam convidado. O cansaço era tanto que mal teve forças para retirar os sapatos, trocar o vestido, fazer uma ligeira higiene noturna. Caiu na cama, praticamente dormindo.

Dormiu um sono agitado por sonhos românticos. Ora era um jovem desconhecido que a levava pela mão, ora outro, mas no fim sempre o rosto se transformava no de Francisco. Em certo momento ficou plenamente acordada e ficou imaginando se estaria ficando seriamente apaixonada pelo capataz. O que sua mãe pensaria disso? Aceitaria receber o capataz como genro? Tinha elevada estima por ele, mas, daí a tornar-se membro da família, era uma grande distância. Estava divagando. Daria tempo ao tempo. No momento oportuno, conversaria com a mãe e ela lhe ajudaria a tomar a decisão acertada. Confiava cegamente na lucidez das decisões maternas.

Seria tarefa da mãe decidir essa questão? Não era a ela que cabia tomar a decisão final nesse assunto? Bem, estava cansada. Deixaria para pensar no dia seguinte ou depois de alguns dias. Por ora, precisava recuperar as energias despendidas no baile que fora deveras divertido. Nunca sentira nada igual. Agora era mulher, era uma prenda e poderia ser requestada por qualquer peão guapo que aparecesse nas redondezas. Havia muito que viver antes de qualquer decisão mais séria com relação ao resto de sua vida. Estava no limiar de sua existência. Por que se preocupar já com casamento? Filhos? Família? Não que isso estivesse fora de suas cogitações, mas não para o momento imediato. Era um projeto de longo prazo.

Na manhã seguinte, estava ali, curiosa e perguntadeira sua querida Siá Balbina. Estava bem idosa, as consequências de uma vida longa e trabalhosa estavam visíveis em suas juntas deformadas, seu rosto enrugado. Somente os olhos vivos, atentos e perspicazes, não haviam mudado. Bastou olhar para sua “menina”, era como ela a chamava, e percebeu que havia no rosto um brilho diferente. Era ar de coração apaixonado, disso não tinha dúvida. Não fez, no entanto, perguntas. Queria esperar que a menina falasse espontaneamente. E lhe daria tempo para isso. Ajudou-a a levantar, escolher a roupa para vestir depois de lavar o rosto e pentear os cabelos sedosos. O tempo passou e Margarida nada falou, deixando Balbina cada vez mais curiosa.

Em determinado dia da semana seguinte, surpreendeu-se ao ver sua pupila caminhar, de modo bem fagueiro, uma flor no cabelo, um vestido leve e florido, rumando na direção da mangueira, onde Francisco estava supervisionando a apartação de bezerros para engorda. Ela se aproximou como quem não quer nada, e ficou observando em silêncio. Num momento de relaxamento entre um comando e outro aos subalternos, Francisco reparou em Margarida e lhe disse sorridente:

  •  Bom dia senhorita!
  •  Bom dia, Francisco!
  •  Como vai minha prenda?
  •  Eu vou bem e você?
  •  Estou ótimo. Só está um pouco quente. É bom se proteger ali na sombra ou vai queimar a pele.
  •  Estou precisando tomar um pouco de sol, ou vou ficar branquela igual leite.
  •  Mas não carece de tomar sol demais, senhorita. Nós também vamos parar logo. O sol está muito forte e os animais ficam muito cansados.
  •  Vou sentar ali naquele banco para observar.

Francisco, em alguns minutos, terminou o serviço com o gado, foi até um tanque próximo, lavou o rosto, molhou o cabelo e passou os dedos à guisa de um pente. Colocou de volta o chapéu e veio sentar-se próximo à Margarida, depois de lhe pedir licença. As mãos e o rosto ainda estavam molhados.

  •  Nem precisa pedir licença, Francisco. Você é da família.
  •  Nem me fale em algo assim, senhorita. Conheço meu lugar e não quero faltar-lhe com o respeito.
  •  Não é necessário ser tão formal. Eu quero ser seu amigo. Quase não tenho com quem conversar e sinto falta de alguém que sente, converse comigo. Alguém diferente da mãe, Siá Balbina. Elas quase não me deixam respirar.
  •  Elas vão ficar tristes se a ouvirem falar isso.
  •  Vão não. Eu explico a elas e vão entender.
  •  Eu não quero complicações. Estou muito satisfeito com meu trabalho.
  •  Fica tranquilo que não vou lhe causar embaraços. Até mais tarde, que deve estar na hora do almoço. Acabei de ouvir Siá Balbina chamando. Até logo.
  •  Inté, senhorita.

Margarida levantou, deu adeus com a mão e foi para casa, onde, de fato, o almoço estava servido. Lavou as mãos e o rosto rapidamente indo sentar-se para a refeição.

  •  Onde foi que você esteve, Margarida? – Perguntou Carlota.
  •  Estava lá perto da mangueira vendo a apartação de bezerros.
  •  Acho que nossa menina está de olho enrabichado, sinhá Carlota.
  •  Nem fale uma coisa dessas Siá Balbina. Eu ainda sou criança.
  •  Criança você não é mais faz muito tempo, Margarida.

Dali em diante ocuparam o tempo em saborear a refeição que estava muito bem preparada. Depois foram até seus aposentos para alguns minutos de repouso e mais tarde retomaram os afazeres rotineiros.

Gaúcho de São Borja! – Capítulo XVI

 

Amanhecer em São Borja.

 

Instalações ficam prontas.
Nos arrozais os peixes cresciam a olhos vistos. Já eram visíveis nadando aos cardumes por toda parte. As bocas pareciam não parar de abocanhar pequenos bichinhos, praticamente invisíveis. Ficava fácil de imaginar o dano que alguns deles poderiam causar ao arroz, diminuindo seu desenvolvimento pleno, reduzindo no final a produtividade. Enquanto isso as obras da empresa de engenharia avançavam rapidamente. A estrutura estava pronta, faltando apenas o acabamento. Isso estava sendo facilitado agora que o telhado estava colocado. Assim, mesmo em dias chuvosos era possível continuar trabalhando sem problema. O final de janeiro estava perto e faltavam alguns pequenos detalhes. Testar as instalações de água, aguardar a secagem de rebocos e pisos recentemente preparados.
Gaudência, diante disso, dirigiu-se ao representante local da empresa venderora dos equipamentos. Indagou da disponibilidade deles para realizar a instalação. Na semana seguinte poderiam vir para realizar a última etapa, antes de poderem iniciar a implantação da ordenha mecânica. Em minutos o representante falava com a matriz na capital. Informou o número do pedido, confirmou os ítens adquiridos, encontrando tudo em ordem. Desligou e dirigiu-se ao cliente:
– Até no máximo dia 10 de fevereiro estará tudo instalado. Devem despachar as máquinas antes do final do mês pela ferrovia e os técnicos vem depois de caminhonete. Está bem assim?
– Ótimo. Até lá o cimento seca direito e não vai haver mais problema. Estou ansioso por ver isso tudo funcionando, mas sei que tem necessidade de esperar até ficar pronto.
– Isso é assim mesmo, Gaudêncio. Todo mundo quer ver as novidades implantadas e funcionando. Não é só você que passa por isso.
– Eu não quer atropelar as coisas, pois isso pode causar mais danos do que esperar mais um pouco.
– Está certo.
– Me avise quando chegarem as máquinas ou vocês providenciam o transporte até a fazenda?
– Nós cuidamos disso. Não se preocupe.
– Até logo e obrigado.
Saiu dali e foi resolver um compromisso no banco. Na verdade queria verificar a disponibilidade do dinheiro para cobrir os custos financiados pelo banco. Não que o valor fosse ser depositado em conta, mas saber se estava tudo em ordem para que o valor fosse creditado à empresa vendedora no momento da conclusão da instalação. Estava tudo certo. O contrato for a assinado, os cadastros todos preenchidos, dados da empresa vendedora informados. Bastaria levar o comprovante de entrega do material e sua instalação e o dinheiro seria liberado.
Saindo do Banco ele foi até o colégio ver a situação de sua matrícula para dar continuidade nos estudos. Aproveitara todos os momentos livres nos últimos meses para estudar, revisar os conteúdos. Além disso literalmente devorara uma porção dos livros que haviam sido de sua madrinha. Além do primeiro, encontrara um mais interessante que o outro. Em várias ocasiões se pegou pensando que estivera perdendo tempo por uma porção de anos. Aqueles mesmos livros que agora devorava avidamente, haviam estado ali, na mesma estante durante praticamente toda sua vida e só agora lhes dera importândcia. Mas não adiantava chorar o tempo perdido. Urgia não perder mais dali por diante.
As matrículas estavam abertas e ele providenciou a sua. Encontrou com a secretária que lhe emprestara as apostilas para revisar o conteúdo e lhe falou de seus progressos. Ela lhe deu boas vindas ao colégio e parabenizou pelo fato de também ter se interessado pela leitura. Ali estava um excelente sinal. Sem dúvida iria fazer progressos rapidamente. Era mais que notório que o interessi do aluno pelos conteúdos representava mais de meio caminho andado rumo ao aprendizado. Ele se despediu para retornar à fazenda, depois de passar pela casa do padrinho que lhe pedira para olhar se tudo estava em ordem por lá. Fazia dias não vinha para a cidade.
A governanta lhe pediu algumas coisas que ele providenciou no comércio para abastecer o que estava em falta. Depois, já um pouco passado da hora do almoço, tomou o caminho de casa. Almoçaria em casa, pouco importando se fosse preciso requentar a comida. Não seria a mesma coisa que sentar-se para comer no momento de tirar as panelas do fogo, mas não havia como fazer tudo na hora desejada. Ao chegar a mãe o esperava com um prato ainda quente na beira do fogão a lenha. A fome estava grande e ele sentou-se sem cerimônia. Maria Conceição recomendou que comesse mais devagar. O prato não fugiria dali.
– Tem razão mãe. Às vezes me ponho a comer depressa, pensando que vou terminar antes e dar tempo de fazer mais coisas.
– Não adianta nada. Comer depressa causa é indigestão depois. E então como fica?
            Passou a comer mais devagar, mastigando bem os alimentos. Ao terminar, sentiu-se refeito e o alimento não estava pesando no estômago. Sentou-se alguns minutos e respondeu às perguntas da mãe que queria saber em que pé estava a instalação das máquinas. Satisfeita a curiosidade da genitora, ele foi cuidar dos afazeres. Primeiro passou pela casa grande, trocando a roupa que usare na ida a cidade, por outra mais adequada às andanças pela fazenda. O padrinho igualmente queria saber como estava a entrega e ele lhe satisfez a vontade. Por fim Joaquim quis ir junto percorrer a propriedade. Ficara por algumas semanas na cidade no começo do ano e viera no último final de semana.
            O resto da tarde foi gasto em vistoriar o desenvolvimento do arroz. A presença dos peixes era importante no controle dos insetos nocivos, até mesmo algumas plantas ficavam mais controladas. Cada vez se convenciam mais do acerto de sua decisão em trazer os alevinos. Ao mesmo tempo a associação dos pescadores estava procedendo à adaptação de um prédio antigo e sem uso para ali processar o pescado que seria oriundo das fazendas de arroz. As mesmas instalações serviriam para armazenar os excedentes de peixe pescado no rio em ocasiões especiais. Isso tornaria a possibilidade do abastecimento ao longo do ano mais uniforme. Haveria variação das espécies, mas não faltaria o peixe.
            Até aquele momento, em algumas ocasiões, era preciso trazer o produto congelado de longe. O frete elevava o custo e consequentemente o consume caia muito. Dessa forma a vida financeira dos pesacadores oscilava continuamente, nunca passando muito tempo em equilíbrio razoável. O Banco do Brasil havia usado uma linha de crédito especial para que fosse possível fazer as instalações e modificações necessárias. Grupos de pescadores e seus familiares, foram treinados para assumir as tarefas específicas dessa nova atividade.
            Tinham intenção de percorrer as áreas de pastagem, mas anoiteceu antes que tivessem tempo de faze-lo. Fariam isso na manhã seguinte. Haviam se entretido apreciando a beleza do viço e excelente sanidade observado na plantação do arroz. A área destinada à forragem das produtoras de leite também haviam vistoriado. O plantio de milho e outras forrageiras como sorgo, havia ocorrido um pouco mais tarde. No entanto haveria tempo para o corte e produção de silagem. Isso garantiria a alimentação dos animais no período de pastos deficientes. Teriam uma manutenção do nível de produção de leite no inverno. O veterinário e também o agrônomo do sindicato rural haviam contribuido com orientações para levar isso tudo a efeito.
            No dia 02 de fevereiro receberm o aviso do representante de São Borja de que as máquinas estavam na estação de carga/descarga. Fariam o transporte no dia seguinte ou no máximo até o dia 05. Igualmente lhes foi informado que no dia 04 a equipe encarregada da instalação estaria chegando para fazer sua parte na transação. Um caminhão trouxe o equipamento. Um trator, equipado com concha de carregadeira, foi usado para facilitar a retirada de cima do veículo. Mesmo havendo trabalhadores suficientes para fazer o trabalho, o uso da máquina tornou o processo mais fácil e seguro.
            Como as obras de engenharia haviam sido executadas em conformidade com as recomendações do fabricante, foi possível colocar as máquinas de imediato no lugar da instalação. Isso facilitaria o trabalho dos técnicos e apressaria a conclusão de sua tarefa. No próprio dia 03 ao entardecer, o grupo chegou e foi acomodado em quartos existentes na casa grande. Ficaram satisfeitos pois assim não teriam que ir e voltar da cidade, ganhando tempo com isso.
            Realmente, em pouco mais de três dias estava tudo instalado. Fizeram os testes costumeiros e avisaram aos proprietários de que no dia seguinte poderiam fazer a primeira ordenha mecânica. Os empregados foram avisados e em princípio, todos ficaram prontos a receber as instruções de uso dos novos equipamentos. Quando se iniciuou o procedimento, os animais estranharam primeiro o novo local onde iriam ser tratados e submetidos ao processo de retirada do leite. Depois chegou o momento de colocar as teteiras em lugar das mãos. Era preciso imobilizar as pernas para evitar os coices e danos nos equipamentos. Faixas para isso acompanhavam a ordenhadeira.
            Deram um pouco de trabalho, mas sendo de índole em geral pacífica, não foi difícile fazer a transição. Elas, desacostumadas à novidade, custavam um pouco para soltar o leite. Depois que superavam essa rejeição, tudo começou a fluir naturalmente. Sem dúvida havia alguns animais menos dóceis que davam mais trabalho, mas nada que impedisse a realização da ordenha ao final. Quando viu o leite colocado no resfriador, de onde seria transferido para o veículo de transporte, Maria Conceição não quis acreditar. Em muito menos tempo, sem quase nenhum esforço, um volume de mais de 1200 litros de leite estava ali, pronto para lhe ser dado destino.
            Procedeu-se à destinação das quantidades necessárias para atender a todos os trabalhadores, além de confecção de algumas peças de queijo, muito apreciado. Mesmo assim sobravam perto de 1000 litros. Esse volume, reunido ao tirado na noite anterior e guardado no resfriador já em uso, daria mais de 2000 litros. Em alguns meses, com a entrada em produção das novilhas compradas, esse volume seria significativamente reforçado. Os técnicos ainda permaneceram mais dois dias no local, acompanhando a adaptação dos animais e dos trabalhadores ao novo modo de proceder. Depois que tudo estava fluindo normalmente, eles se despediram e retornaram à capital. Antes tinham mais duas fazendas para fazer a amesma instalação. Uma delas em Uruguaiana e outra na região de Santa Maria, já no caminho de volta.      
            Quando tudo ficou estabelecido, os melhor adaptados ao novo modo de ordenha, foram efetivados nessa tarefa. Os demais temeram ser demitidos, chegando a ficar grandemente preocupados. Mas antes que isso acontecesse, alguns dos mais antigos foram aposentados e os demais foram realocados em novas tarefas. Houve quem fosse treinado nas tarefas de operação de máquinas como tratores, trituradores para silagem e outras. Também foram treinados, especialmente mulheres, para atuar na produção dos queijos. Gaudêncio tinha como objetivo produzir uma variedade de queijo colonial com qualidades especiais. Isso requeria especialização de funcionários.
            Dessa forma Maria Conceição teve seus temores removidos. Ninguém perdera o emprego. Os poucos que tinham alcançado idade para aposentadoria e tempo de contribuição suficiente passaram a perceber sua aposentadoria. Além disso lhes foi concedido o direito de permanecerem vivendo nas casas que ocupavam. Todos eles tinham filhos ou filhas trabalhando em algum serviço dentro da propriedade. Dessa forma passavam a fazer parte do serviço em suas casas, aliviando o fardo dos outros membros. Assim ficavam com atividades, compatíveis com suas forças. Isso era resultado da implanação do INPS. Além disso tinham direito ao FGTS, permitindo que dispusessem de um pecúlio para suprir alguns anseios há muito acalentados.
            Em poucos dias tudo retomou sua rotina. As vacas não mais estranhavam o local, nem o uso das teteiras. Pareciam até mais calmas agora, não sofrendo com as constantes trações para baixo por parte de alguns ordenhadores. Em alguns dias, houve até um pequeno aumento na produção.
            Nesse meio tempo, as semanas passavam e os cachos de arroz começavam a “engordar”. Os grãos inicialmente magros, aos poucos ficavam recheados. Mais alguns dias e começaram a pintar levemente de dourado. Em pouco os campos se cobriram de uma cor amarelada. Era hora de começar a retirar a água das áreas mais adiantadas e assim deixare a área pronta para a colheita. Do contrário as máquinas teriam problemas em se movimentar para fazer o trabalho. Na fazenda Santa Maria e também na Santana, havia ainda outro problema. A água que seria retirada, implicava na remoção de muitas toneladas de peixes ali colocados alguns meses antes na forma de minúsculos pontos. Agora estavam medindo entre 15 e 20 cm de comprimento.
            Era a primeira vez que isso seria feito e logicamente requeria um período de aprendizado. Nas semanas anteriores Gaudêncio viajara para uma fazenda em Uruguaiana que usava a técnica e o arroz ficara maduro um pouco antes. Foi aprender como seria mais adequado fazer esse trabalho. Levou consigo dois auxiliares para poderem trabalhar em mais de uma equipe. Os pescadores estavam esperando para fazer o processamenrto. Se preciso fosse, trabalhariam em turnos alternados, durante as 24 horas do dia. Depois dos primeiros dias e alguns pequenos acidentes, dominaram o procedimento e toneladas atrás de toneladas os peixes foram levados para o frigorífico dos pescadores.
 
Arroz no ponto de colher.

 

Arroz amadurecendo.
 
 
 
Quando foi a hora de iniciar a colheita, o solo estava seco o suficiente para as máquinas poderem entrar na área. A colheita foi farta. Os cachos estavam pesados e as colhedeiras enchiam caçambas e mais caçambas do precioso cereal. Os caminhãos se revezavam em transportar o produto para os silos onde ficaria armazenado até o processamento pelas indústrias. O carnaval dera à família do general ocasião para voltar à fazenda. Gaudêncio deixou para viajar à capital por ocasião da páscoa. Até lá o arroz estaria colhido em sua maior parte. Estava, paralelamente, envolvido agora com a sua presença às aulas.
 
Colheita em andamento. Ainda se vê água no solo.

 

Arroz sendo colhido e ao lado os canais de irrigação.

 

Moderna ceifedeira de arroz.
 
            Notou com satisfação que ao seu lado estavam homens, rapazes, moças e mesmo senhoras com idades variando de 16 a algo em torno dos 40 anos de idade. Uma verdadeira miscelânia de idades. Isso deixava o problema da sua adaptação ao ambiente escolar, relegado à insignificância. Não era nem o mais jovem, muito menos o mais velho na sala. Em poucos dias estavam integrados, considerando-se, antes de mais nada, todos colegas. Tinham deixado a formação escolar de lado em sua época própria e agora corriam atrás do bonde. Era frequente ouvir a expressão: Antes tarde que nunca.
            Como em todas as turmas, existem os elementos destoantes. De 35 integrantes da turma, havia quatro que gostavam de questionar tudo, contestar, inquirir por quê estudar essa ou aquela disciplina; por quê não estudar aquela outra, para que serviria determinado assunto, onde seria usado. Dessa forma irritavam os professores e também os colegas. Era necessária muita paciência para se acostumar com a constante perturbação que esses elementos causavam. Em questão de poucos dias os professors de pulso mais firme haviam conseguido colocá-los em seus lugares. Já os mais frágeis nesse particular começaram a apelar para aplicação do regulamento da escola. Avisavam uma vez, duas vezes e na Terceira convidavam o alauno a se retirar da sala.
            Em geral isso resultava em suspensão por um dia, dois dias, com o documento sendo afixado no edital para todos verem. Gaudêncio sentia vontade de pegar os jovens, tinham todos menos de 20 anos, pelo gasnete e lhes aplicar umas boas palmadas no traseiro. Foi preciso controle para não extrapolar suas atribuições ali. Não estava na fazenda, onde os peões lhe obedeciam sem discutir. Era um igual e não poderia se salientar. Tentou mesmo conversar com eles tentando levá-los à conscientização, mas pouco adiantou. Por alguns dias até ficaram mais sossegados, mas depois voltavam à velha rotina. O mês de março passou e chegou abril. Nas primeiras semanas era a semana santa. Havia aulas só até a quarta feira.
            Na quinta feira cedo, Gaudêncio estava no aeroporto para ir à capital. Estava com saudades de sua amada. O mesmo acontecia com ela. Pelo menos duas vezes por semana se falavam por telefone, mas nada é igual a presença física da pessoa amada. Os pais lhe havia desejado boa viagem, dado sua benção e o padrinho o deixara no aeródromo. Pouco depois do meio dia estava no apartamento, sentado serenamente e almoçando com a família de Ângela. Estava disposto a falar com ela naquela ocasião sobre o noivado. Se ela aceitasse a levaria a uma joalheria para comprar as alianças e um anel de noivado. Faria o pedido aos pais oficialmente na noite de Páscoa.
            Os dias foram curtos para matar a saudade e depois de irem a uma joalheria na manhã de sábado, os dois estavam aparentemente cheios de segredos sobre o que haviam feito durante o passeio. Ângela todavia havia contado a novidade à mãe e recebera dela total apoio. O único que parecia estar por for a do assunto era o general. À noite todos se dirigiram à igreja mais próxima e assistiram à celebração da ressurreição. Terminada a cerimônia, chegaram à casa pouco antes da meia noite.
            Haviam comido uma refeição leve antes da ida à igreja. Ao retorno os aguardava uma ceia de alimentos frios, acompanhados de uma taça de champanha. Foi nesse momento que Gaudêncio resolveu fazer o pedido ao pai da amada. Tomado de surpresa o general olhou de olhos arregalados por um instante. Volveu os olhos para a esposa depois para a filha como a interrogar o que deveria fazer. Dona Lourdes falou:
            – Não vai responder ao Gaudêncio, meu bem?
            – A sim! Fiquei tão surpreso que esqueci de responder.
            – Ele está esperando pela sua resposta. Vai dar ou não sua permissão?
            – Dou sim, com certeza. É que essa é a primeira vez que pedem minha filha em noivado. Vamos celebrar a essa oportunidade.
            As taças foram enchidas novamente, as alianças foram colocadas nos dedos da mão direita. Depois, antes de ser erguido o brinde, o noivo retirou do bolso um outro estojo e o entregou à noiva, dizendo:
            – Quero deixar uma lembrança inesquecível para Ângela, minha querida noiva.
Ela abriu o estojo e retirou de dentro o belíssimo anel de diamantes, finamente trabalhado. As pedras faiscavam sob à lus das velas que iluminavam o ambiente nesse momento. O anel foi colocado no dedo da outra mão e exibido para todos verem. Só então ergueram o brinde, desejando vida longa ao casal, muita felicidade e no futuro casamento.
Depois disso atacaram os alimentos que estavam postos na mesa e aguardavam os comensais. Eram apenas os quatro. A parte social ficaria para o almoço de domingo que passariam no clube. O general havia reservado churrasco para a família e os demais sócios ficavam orgulhosos sempre que podiam contar com a presença de seu comandante. Foram dormir mais tarde. Na manhã seguinte não haveria necessidade de levantarem muito cedo. Não precisariam se preocupar em preparar o almoço. O café poderia ser apenas um leve belisco para não estragar o apetite no almoço.
Dormiram e levantaram já em torno das 09 h da manhã. Dona Lourdes havia preparado um bule de café, fervido um litro de leite. For a na esquina buscar um pão fresquinho da panificadora que ali havia. Os três sentaram e precisaram se conter para não exagerar no desjejum. O general vestiu sua farad de gala para esse dia. Estariam reunidos também alguns oficiais das outras armas como aeronáutica, marinha e brigade militar. Era pois dia de trajar roupas de acordo com a ocasião. Os outros três, dado o clima já mais ameno nessa época, vestiram roupas sem exagero, mas condizentes com situação.
Às 11 h 30 minutos chegaram ao clube. A maioria dos oficiais das várias unidades militares estava no recinto quando o quarteto fez sua entrada. Foram cumprimentados com deferencia por todos e não tardou para as amigas mais chegadas de Ângela vissem a aliança na mão direita e o anel de noivado na esquerda. Foi cercada e cumprimentada de todos os lados. O almoço, apesar de ser servido o tradicional churrasco gaucho, foi festivo. Os enormes espetos eram carregados por vigorosos garçons por entre as mesas, convenientemente distanciadas para não criar problemas de locomoção. Ainda havia muita carne para ser consumida, mas ninguém mais tinha lugar no estômago para tanto. Sem esquecer que ainda havia a sobremesa por ser servida.
Dessa forma, por volta de quatro horas da tarde a família chegou de volta para o apartamento. Gaudêncio tinha marcado sua passagem para a segunda feira na primeira hora depois do almoço. O feriado chegava ao fim e os, agora noivos, se despediram prometendo não demorar demais em se casarem. Simplesmente não saberiam mais viver longe um do outro por muito tempo. Gaudêncio contara orgulhoso seu êxito na escola. A forma como mergulhara nos livros de literatura e isso o deixara encantado. Teria muito a recuperar do tempo perdido nos anos vindouros.
Os dois foram ao aeroporto acompanhados da mãe dona Lourdes, para fazer companhia à filha na volta. Beijaram-se ternamente no momento da separação e acenaram na hora de entrar na aeronave. Levariam no coração a lembrança daquele momento. Serviria de console até o próximo encontro.

Gaúcho de São Borja! – Capítulo XV

Rodoferroviária de Santiago.

 

Praça Getúlio Vargas em Santiago-RS.

 

Batalhão de logística em Santiago.

 

Novidades II
Os minúsculos alevinos colocados nos arrozais, funcionando como açudes ou tanques de criação de peixes, em poucas semanas estavam com o tamanho multiplicado de modo fantástico. Eram agora visíveis aos cardumes percorrendo os intervalos entre as plantas de arroz, comendo aqui, ali e deslocando-se igual riscos brilhantes ao sol. Foram inúmeros os visitantes a virem ver conhecer a mais recente curiosidade de que havia ouvido falar. Ao verem os peixinhos ficavam se indagando qual teria sido o tamanho com que tinham sido colocados ali. Ao lhes ser informado serem há poucas semanas do tamanho que os tornava quase invisíveis, custavam a acreditar.
 
Na ocasião do Natal as obras de engenharia estavam chegando à metade do tempo previsto no total. Se o clima ajudasse, isto é, não chovesse excessivamente, para final de janeiro, início de fevereiro estariam prontas. Nessa ocasião seriam entregues as máquinas e feita sua instalação. As tubulações de água e esgoto estavam em fase de conclusão. A área de pastagem na outra margem do rio estava sendo preparada. O capim seria plantado ao mesmo tempo da forrageira encarregada de fornecer o volumoso para o primeiro inverno. As cercas estavam sendo construidas, utilizando-se palanques feitos de concreto, em substituição aos tradicionais de madeira. Como essa estava ficando escassa, o uso do concreto crescia ano a ano. Tinha além de tudo a vantagem de resistir à corrosão ou apodrecimento.
 
Gaudêncio passou o Natal e Ano Novo em Porto Alegre, tendo aproveitado para conhecer o litoral nos dias entre as duas datas. A família do general aproveitava um hotel mantido pela associação dos militares para seus membros. O custo da estadia ficava bem mais em conta, além de contarem com a segurança garantida por uma pequena guarnição military. Ficava sediada ali, em forma de rodízio entre as várias unidades do exército sediadas na região. Voltou bastante bronzeado, causando espanto entre os demais habitantes da fazenda. Era habitualmente Moreno mas aqueles dias na praia haviam deixando em sua pele um tom bem mais acentuado de bronze.
 
Durante aqueles dias a intimidade entre ele e Ângela havia aumentado sensivelmente. No entanto, quando ele percebeu, um gesto mais ousado despertou uma reação inesperada da moça. Afastou-o suavemente e o olhou de frente:
– Meu amor, você é o homem com quem quero dividir minha vida. Eu te amo muito, mas, aprendi uma coisa em minhas andanças pelo país de norte a sul, onde meu pai era transferido. A mulher precise se tornar menos dependente do homem, precise lutar por seus direitos, inclusive o direito de escolher o dia em que irá se entregar ao homem escolhido. Desde muito tempo decidi que, vou me deitar com um homem, apenas depois de casar. Por isso, se você quiser continuar comigo, precise aceitar isso. Do contrário, terminamos aqui, antes que cheguemos a um ponto em que seja mais difícile.
 
Gaudêncio foi tomado de surpresa. Não tivera intenção de faltar com o respeito, apenas um gesto de carinho mais íntimo. As palavras firmes de Ângela, calaram fundo em sua alma. Sabia agora claramente que tinha diante de si uma mulher de valor. Se soubesse merecer seu amor, teria uma companheira para o resto dos seus dias. Deixara bem claro qual era sua posição. Pensou um pouco e falou:
– Querida Ângela! Eu lhe amo demais, para fazer qualquer coisa que possa magoá-la. Vou lhe mostrar que sou digno de seu respeito e admiração. Saberei esperar o momento para sermos marido e mulher, dividirmos nossas vidas em todos os sentidos. Vou querer ter uma porção de filhos.
– Quer dizer que você falou sério ao meu pai que não me queria para carreira, só para umas crias?
– Meu bem, me perdoe. Aquilo foi uma desculpa para que seu pai não me botasse para correr sem ao menos ter falado com você.
– E quem quase lhe pôs para correr fui eu. Onde já se viu uma coisa dessas. Eu não sou uma potranca que você emprenha e espera ela criar.
– Que coisa mais infeliz eu fui dizer naquela hora. Poderia ter posto tudo a perder.
– Na hora eu pensei: vou mostrare a esse gaudério grosso quem vair dar umas crias a ele aqui.
– Mas depois mudou de ideia, não mudou?
– Se não tivesse mudado, nós não estaríamos aqui conversando, seu bobo.
– Sorte minha. Quase eu entorno o caldo todo.
 
Era tarde e a temperatura amainara. Era hora de irem dormir. Um beijo prolongado selou aquele momento de amor e amizade. Ardiam de desejo um pelo outro. Porém era preciso serem cautelosos e não deixar seus impulsos leva-los a um ponto em que não saberiam mais resistir. Tinham um objetivo. Formar uma família e viverem felizes por longos anos, se Deus assim permitisse.
 
– Eu sei que vocês homens sentem necessidade de deitarem com uma mulher de vez em quando. Vou entender se você não arrumar encrenca, sabe. Deixar alguém gravida por aí, isso eu não aceito.
– Obrigado por sua compreensão. Mas pensando em você, não tenho vontade de estar com nenhuma outra.
– Só não vou aceitar mais nada disso depois que casarmos.
– Nem teria mais sentido, minha prenda.
– Quem avisa amigo é e não merece castigo. Depois não vale dizer que não sabia ou coisa assim.
– Estou bem avisado. Pode deixar que não vou esquecer.
– Durma bem, amor.
– Você também e sonhe comigo.
 
Foram para seus quartos e dormiram a noite inteira. Cada um em sua cama acalentava o dia em que estariam juntos, casados e poderiam se amar com toda liberdade. As cartas tinham sido postas na mesa e o jogo aceito. Acaso Gaudêncio não concordasse com o que Ângela propusera, estaria agora se encaminhando para um hotel ou outro lugar, talvez rumando para casa. Realmente, suas palavras naquela manhã em que vira da praça em frente aquele vulto de mulher, seu coração disparou e ali mesmo disse para si mesmo: Essa vai ser minha mulher. Cumpriria a risca essa decisão e, no que lhe dizia respeito, não havia até o momento motivos para arrependimento.
 
A manhã seguinte era a última que estariam na praia, pois à tarde retornariam a Porto Alegre. Tinham combinado passar a noite de Ano Novo com os amigos do general na sede urbana do clube de oficiais. Nessa ocasião seria feita a apresentação do candidato a gênro do comandante da região militar aos membros do alto oficialato da capital. Provavelmente naquele lugar estaria reunida a maior coleção de dragonas estreladas em muitos quilômetros ao redor. Muitos provavelmente estariam em trajes civis. Alguns porém fariam questão de irem em seu fardamento de gala.
 
Chegaram pelo meio da tarde. Como não iriam permanecer em casa, não havia preparativos a fazer para comemoração. Isso ficava a cargo dos servidores do clube, comandados pelos membros da diretoria. Houve tempo para um prolongado cuidado com a aparência. As mulheres, mãe e filha, ficaram no caminho de casa em um salão de beleza para passarem por uma sessão de pedicure/manicure, além de um penteado no cabelo. Quando chegaram em casa os dois, general e Gaudêncio estavam terminando de tomar banho e fazer as barbas. Havia tempo para tomar umas cuias de mate, poise les se vestiriam em poucos minutos, coisa que as mulheres demorariam pelo menos uma hora, se não mais.
 
Gaudêncio não fez comentários, pois, apesar de apreciar sua amada ao natural, sem nenhum enfeite ou adereço, precisou reconhecer que ela estava esplendorosa. Um penteado bem trabalhado a deixara com ares de rainha. Seria notada de longe em qualquer lugar. À sua natural estatura acima da média, somava-se sua beleza em que se misturavam traços espanhóis com um leve toque mouro. Isso tudo formava um conjunto incomparável. Os dois se entretiveram tomando mate e falando amenidades enquanto viam na TV as notícias sobre a chegada do Ano Novo nos países orientais, onde agora eram 7/8 horas da manhã de primeiro de janeiro de 1978.
– Vocês vão ficar aí mateando até quando? Nós estamos quase prontas. Andem, vão se vestir de uma vez.
 
Levantaram e foram cumprir a ordem recebida. Haviam esquecido de colocar o vestuário apropriado. O calor forte não convidava a se encher de roupas. Quanto menos melhor. Tinham que fazer um tributo ao novo ano que se iniciaria em poucas horas. O pior de tudo era a gravata e Gaudêncio se perguntava por que diabos não poderia vestir sua roupa de gaudério, uma bombacha folgada, com a bota, um lenço Colorado no pescoço. Seria bem mais confortável que a camisa impecavelmente branca, apertada no pescoço e por cima a gravata com aquele nó complicado. Sempre se atrapalhava. O lenço era tão mais fácil de colocar.
 
Lembrou em tempo, antes de se por a resmungar, de que não estava nos pagos. Aqui era a casa do general, pai da sua amada e teria que se mostrar a altura da posição. Apresentar-se de qualquer maneira, resultaria num falatório danado e não queria causar desgosto à família de Ângela. Com alguma dificuldade terminou de dar o nó na gravata que Ângela terminou por arrumar, pois tinha ficado com o nó meio torto. Antes do baile e comemoração da passagem de ano, haveria o jantar festivo, com início às 22 horas. Estariam terminando de jantar quando ocorreria a queima de fogos já tradicional em toda parte.
 
Na chegada houve um sem número de apresentações, era coronel, tenente coronel, major e mesmo general de perder a conta com suas esposas, filhas, filhos e mesmo netos. Apertou tantas mãos que não saberia lembrar quantas foram, mesmo que as tivesse contado uma a uma. Os rostos se sucediam em rápida sequência, não permitindo ao olhar graver os detalhes e retê-los na memória. Eles provavelmente lembrariam dele, mas ele não tinha como lembrar de todos eles. O general ocupava com a família a mesa de honra, com vista privilegiada para a pista de danças e não muito próxima do palco onde os músicos afinavam os instrumentos, antes de iniciar sua função.
 
O jantar foi servido e Gaudêncio se controlou para não fazer feio diante dos demais convidados. De hábito era bem menos comedido na hora de comer, todavia a madrinha e também a mãe haviam lhe ensinado os rudimentos da etiqueta. Assim sabia se portar devidamente nas ocasiões em que isso lhe era exigido. Mesmo assim sentiu-se um pouco como peixe fora da água. Um filho de peão de fazenda, entre os oficiais de alta patente do exército, aeronáutica e marinha. Ângela percebeu que ele estava um pouco encabulado e falou baixinho:
– Relaxa, meu amor. São todos homens e mulheres iguais ao outros. A única diferença é que os homens usam habitualmente suas fardas. Não precisa ficar encabulado.
– Confesso que nunca vi tanta estrela junta. Acho que nem mesmo no céu tem tantas tão perto umas das outras.
– Seu bobo! As estrelas de põe medo? São só uns pedacinhos de metal pregados no tecido. Nada mais.
– Não é o que são. É o que representam, meu bem.
– Meu pai manda em todos eles, não esqueça.
– Eu sei, mas nunca é bom abusar da sorte.
 
No momento seguinte começou a queima de fogos e todos se posicionaram na melhor posição para assistir ao espetáculo. O clube oferecia uma boa visão de ampla área da cidade, permitindo assistir grande parte do show de fogos de artifício. Os mais finos champanhes foram abertos e as taças se encheram. Brindes foram erguidos por todo lado. Por último o presidente do clube elevou a voz e falou:
– Elevamos um brinde e saudemos o ano de 1978 que acaba de começar.
– Viva.
 
E todos beberam um generoso gole da bebida, que estava extremamente gelado. As taças se umedeciam externamente no mesmo instante que eram enchidas, devido à condensação da umidade. Enquanto a platéia bebia comemorando, a banda atacava uma música própria à ocasião. Em seguida alguns pares iniciaram a dança. Aos poucos mais e mais gente se juntou aos primeiros, enchendo o salão. Durante mais de 3 h e 30 minutos os momentos em que não havia pares rodopiando pelo salão foram raros. Apenas nos momentos de um rápido Descanso dos músicos, afinal ninguém é de ferro. Ao final, cansados de bailar, todos regressaram aos lares. O domingo traria as comemorações em família.
 
Qualquer gaucho que se prezasse teria em seu refrigerador um pedaço de costela para pendurar com um espeto sobre ou ao lado do fogo. Os acompanhamentos eram a indefectível maionese com batatas, incrementada de diversas formas. Uns lhe misturavam pedacinhos de bacon frito, outros colocavam ervilhas, milho verde, cenoura, palmito ou o que mais desse na veneta de misturar. Haveria muita cerveja gelada, ou vinho dependendo da preferência dos convivas. As crianças tomariam coca-cola, guaraná champagne antártica, gasosa, fanta, grapette, mirinda, crush, variando de casa para casa.
 
A noite passada no baile se refletiu claramente no horário do primeiro almoço do ano. Grande parte das pessoas conseguiam sentar-se para essa refeição só lá pelas 3 ou 4 horas da tarde. Era feriado mesmo e ninguém se importaria. O dia seguinte era domingo, portanto não haveria problema. Tinham mais um dia para descansar. Só no dia 03 começaria o batente, o pega pra capar. Termiandas as festas, tudo retomava o ritmo. Olhando bem, nada mudava, com exceção de que nos documentos redigidos e assinados agora trariam no lugar do ano 1978. O 1977 ficara para trás, fazia parte do passado agora.
 
Gaudêncio iria se encontrar em Santiago com o padrinho Joaquim. Iriam ver uma fazenda que dispunha de novilhas prenhes de raça leiteira para vender. Iriam conhecer os animais e talvez negociar um lote para reforçar o plantel da fazenda. O negócio havia sido combinado previamente durante a exposição próxima a Capital. Estando em vias de terminar as obras de engenharia e posterior instalação das máquinas, era hora de providenciar o aumento do número de animais. Dali a distância era bem menor, facilitando o transporte. Embarcou no domingo à noite em um ônibus que o deixaria ao amanhecer em Santiago. O padrinho também estaria chegando, porém de automóvel.
Rodoviária de Santiago.

 

Praça dos poetas em Santiago.

 

Luminária da praça.
Ao descer na rodoviária, olhou para todos os lados e não viu ninguém conhecido. O padrinho certamente saira há pouco ou talvez ainda estivesse em casa. Aproveitaria para conhecer alguma coisa da cidade. Primeiro precisava urgente de um banheiro para lavar o rosto e depois um bar ou lancheria para tomar café, comer um pão. O estômago estava reclamando. A precaução em não cometer gafes o levara a comer pouco durante vários dias. Por isso vivia na verdade com fome. Estava na hora de por o pandulho em dia. Encontrou uma lancheria ao lado da estação e ali sentou-se a uma mesa. Pediu um bule de café e outro de leite, acompanhados de bastone pão com nata e queijo. Quando terminou sentiu que tudo estava voltando ao normal.
 
Pagou a conta e levantou, se espreguiçando demoradamente. A mala fora deixada no guarda volumes. Conferiu se a plaquinha com a chave estava no bolso. Lentamente caminhou até uma praça próxima, onde alguns pombos passeavam ao sol, comendo algumas migalhas caidas no chão. Entre eles uma porção de pequenas aves como pardais, rolinhas, canarios da terra, tico-ticos e uma ou outra corruira disputavam as migalhas. Ao passar alguém o bando inteiro levantava voo, pousava pouco adiante e logo depois retornavam a faina de catar o alimento. Alguém o jogara ou deixara cair sem querer, pouco importava.
 
Havia na praça uma arborização bem cuidada, canteiros de flores, um chafariz bem no centro e na base desse um tanque onde alguns peixes ornamentais nadavam preguiçosamente. Ao vê-los ele lembrou das tilápias no arrozal. Como haviam crescido. Algumas deviam já ter uns sete ou oito centímetros. Dava impressão de que tinham recebido uma dose de fermento, de tanto que cresciam. Quando lhe haviam falado sobre isso tivera dificuldade em acreditar, mas agora estava vendo que era verdade. Provavelmente ao revê-los teriam aumentado mais um bom tanto de tamanho.
 
Em alguns minutos, cerca de 8 h da manhã, ouviu uma buzina conhecida e olhou na direção de onde vinha. Era Joaquim que lhe acenava de dentro do carro. Acabara de estacionar e estava desembarcando, vindo ao seu encontro. Cumprimentaram-se afetuosamente e desejaram Feliz Ano Novo. Joaquim sentou-se em um banco e espichou bem as pernas. Não estava habituado a dirigir por distâncias muito grandes. Viera em um tiro só da fazenda até ali. Por sorte a estrada estava em ótimas condições e gastara pouco mais de três horas para cobrir a distância.
 
As curiosidades de ambos os lados foram satisfeitas e então, Joaquim falou:
– Onde está sua mala? Vamos colocar no automóvel e depois procurar a fazenda.
– Disseram que é para o sul, cerca de quinze quilômetros. Mas podemos perguntar ali na lancheria onde tomei café.
– Vamos até lá. Depois botamos o pé na estrada. O compadre Pedro vai ficar maluco com tanta coisa extra para tomar conta. Desde que você assumiu como meu herdeiro, ele ficou mais folgado. Agora fica todo atrapalhado com tudo.
– O papai é do tempo em que se fazia tudo a mão, não tinha máquinas. Isso tudo deixa a cabeça dele meio balançada.
– Nunca me arrependi de confiar nele quando assume as rédeas da fazenda com a morte de meus pais e meu irmão. Nunca me faltou em mometo algum.
– Eu sei padrinho. Apenas ele é do tempo de antes e é difícile de se acostumar com tanta novidade.
 
Chegaram ao estabelecimento e Gaudêncio perguntou pela fazenda Jacutinga. Como haviam lhes dito. A propriedade era amplamente conhecida e qualquer um na cidade saberia explicar o caminho até lá. O caminho foi explicado e até a distância conferia no geral. Agradeceu e foi até o guarda volume buscar sua mala. Cinco minutos depois os dois estavam na estrada, indo para a fazenda ver os animais. Chegaram pouco depois das 9 h e os animais estavam todos nas pastagens. Em minutos quatro cavalos foram trazidos e os dois, além do dono acompanhado por um empregado montaram. Trotaram por cerca de meia hora e avistaram um lote de uns 60 animais. A prenhez não estava tão adiantada a ponto de ser muito visível. Nem poderia ser esse o caso. O transporte colocaria em risco animais em avançado estado de gestação.
Geada cobrindo os campos em Santiago.

 

Animais de raça em Santiago.

 

Touro Red Angus em Santiago.
Olharam atentamente, vendo as características que Maria Conceição recomendara observar. Ela trazia essas informações desde sua avó. E ela sabia o que dizia. Separaram 40 animais que julgaram ser os melhores em sua opinião. Teriam certeza somente depois de estarem com bezerro ao pé, dando leite. Nem mesmo a primeira lactação poderia ser um indicativo final sobre a qualidade do animal para a finalidade. Todo negócio envolve algum risco. Haviam seguido à risca o que a comadre Maria falara. Joaquim falou ao dono dos animais:
– Vamos levar esses quarenta aí, seu José Junqueira. Como fazemos para levar elas até a estação do trem?
– Eu mando meus peões levar amanhã bem cedo. Chico! Chama mais uns dois para lhe ajudar e leva elas para a mangueira. Não deixa mais misturar com o resto.
– O Leão me ajuda a levar elas para o pastinho pequeno lá perto da mangueira.
 
Leão era um cão pastor alemão, ensinado e de grande utilidade no manejo dos animais. Um assobio foi suficiente para trazer o cão para perto e em instantes os animais em questão estavam indicados a ele. Um comando de Chico e ele se começou a latir, rodeando as novilhas que, habituadas à presença do cão, se puseram a caminho, da sede da fazenda. Lá chegando Chico se adiantou e abriu a porteira, depois ficou de lado e elas entraram rapidamente. Sem problema, nem correria. Animais de raça leiteira habitualmente são mais dóceis.
 
Chegando próximo ao galpão os visitantes e o dono desmontaram entregando os cavalos a um rapazote encarregado desse serviço. Seriam desencilhados, limpos e depois soltos no pasto. Enquanto isso os outros sentaram-se à sombra da varanda, sorvendo chimarrão e tratando da negociação dos animais. Joaquim havia desembolsado um bom dinheiro no restante das mudanças e não dispunha do total para pagar à vista. Ter tinha, mas estava aplicado em depósitos à prazo fixo, fundos de ações. Retirar esse dinheiro antes do momento certo, significaria perder os juros ou das ações os dividendos que seriam distribuidos pelas empresas algum tempo após o balanço.
 
Encaminhara um pedido de empréstimo junto ao Banco do Brasil para cobrir o que faltava. Assim as parcelas seriam amortizadas com a própria produção dos animais se tudo corresse conforme o esperado. O prazo nesse caso era mais longo. Trazia o talonário de cheques e pediu ao afilhado para preencher a folha para pagar a entrada. O restante seria pago em questão de vinte a trinta dias quando o empréstimo fosse liberado. Faria uma ordem de pagamento, não sendo necessário voltar ali pra isso. Aguardariam o dia seguinte para providenciar o embarque dos animais e depois voltariam para casa. O senhor José os convidou a passarem a noite na fazenda o que aceitaram com prazer. Era bom conhecer outras propriedades. Saber as dificuldades próprias da região, os problemas enfrentados.
 
No dia seguinte esperaram na cidade os anmais chegarem à mangueira existente ao lado da estação ferroviária. Era comum animais serem embarcados para transporte nos dois sentidos. Eram levados para Santa Maria, para o frigorífico e outras localidades. Em questão de meia hora os trâmites do embarque estavam resolvidos. O comboio deveria encostar na estação em pouco mais de uma hora, se estivesse no horário. Seriam embarcados naquela tarde mesmo. Talvez no começo da noite estariam em São Borja, na estação de cargas. Dali uma caminhada de duas horas era suficiente para leva-las à fazenda.
 
O trem parou pontualmente e os vagões de carga foram engatados rapidamente. Os animais foram tangidos por uma rampa e em menos de meia hora estavam embarcados nos vagões que foram fechados. Havia a abertura adequada para a boa ventilação, sem causar problemas aos animais. Com Gaudêncio ao volante os dois voltaram para casa. Foram providenciar uma equipe de peões para trazer as novilhas depois da descarga. Mandaram três que ficariam esperando a chegada do trem. Ao amanhecer iniciariam a caminhada. Quanto mais cedo melhor, devido ao forte calor. Os animais caminhando nessas condições ficam submetidos a um nível se stress capaz de provocar o aborto em alguns casos.
 
Os tres empregados, sob o comando do mais idoso, partiram equipados para esperar na estação de cargas, levando consigo os apetrechos para fazerem comida, tomar um mate. O inseparável poncho para se proteger do frio da madrugada e de uma chuva occasional. O comboio chegou um pouco atrasado, encostando para descarregar já depois da meia noite.
 
Os animais foram deixados para descansar até as 5h e depois foram levados para a estrada. Chegariam pouco depois do sol nascer, mesmo num passo bem moderado. Assim não sofreriam com essa caminhada. A ordenha da manhã estava terminando quando apontou o lote de animais, com seus tres acompanhantes. Uma porção de gente acorreu para ver e quem estava em seu posto de trabalho levantou a cabeça para ver de relance. Para começar, foram colocadas num cercado menor próximo do mangueirão.Maria Conceição veio olhar e aprovou os animais escolhidos. Todos eles, uns mais outros menos, apresentavam as características próprias de vaca leiteira.

Gaúcho de São Borja! – Capítulo XIV

 

 

Peixes em piracema.

 

Peixes saltam durane a piracema.

 

Chegando à corredeira na piracema.

 

 

Sol poente no outro lado do Rio Uruguai em São Borja.

 

Novidades funcionando.
O restante de novembro, depois dezembro transcorreram com muita atividade sendo desenvolvida na fazenda Santa Maria. Na segunda feira logo após o dia 15, chegaram os dois reprodutores adquiridos na feira no começo do mês. O veterinário foi chamado para proceder a um exame geral prévio, antes que fossem colocados no pasto junto aos demais animais. Ficariam em observação por pelo menos uma semana para depois de certificar-se de seu estado sanitário total colocá-los em contato com outros animais ali existentes.
O vizinho senhor Francisco repassou o valor dos alevinos que lhe caberiam no lote adquirido em conjunto. Na quarta feira Joaquim se encarregou de efetuar a ordem de pagamento para o vendedor de Santa Maria. Gaudêncio solicitara o despacho do pedido no final de semana, de modo a poderem retirar na segunda feira os tanques da estação de carga da ferrovia. Iriam transport-los para a beira dos arrozais e os soltariam. Passariam o período de crescimento e floração, granagem e maturação quando seria retirada a água para permitir a colheita. No momento da retirada da água os peixes seriam capturados e entregues às peixarias. Teriam esse tempo todo para encontrar mercado para esse pescado no momento oportuno.
Quando os outros plantadores de arroz aderissem à produção de peixes, seria necessário um local para processar e armazenar em sistemas refrigerados a carne. Haveria um volume muito grande de oferta em um determinado momento. A ausência de algum estabelecimento apropriado faria com que houvesse superoferta, jogando os preços por terra e mesmo causando a aperda de boa parte da produção. Tudo isso era assunto de debate entre Gaudêncio e Joaquim. Atrairiam outros rizicultores para a atividade e formariam uma associação ou cooperative para tomar a seu cargo o processamento desse pescado todo. Estimavam a produção em muitas toneladas de pescado annual.
Havia a preocupação com a atividade dos trabalhadores na época entre um pico de produção e outro. O período deveria ser ocupado com atividades afins, dentro do ramo de alimentos que pudessem abosorver toda essa mão de obra. Do contrário ficariam a braços com um enorme problema. Deveriam pois pensar na solução desses problemas desde já. Depois de ter o fato diante dos olhos, na forma de imensa quantidade de pescado para dar destino, seria tarde para pensar em soluções. Combinaram conversar com os industriais do arrooz, veterinários, agrônomos e gerentes bancários.
Em determinado momento durante essas conversações Pedro Paulo estava presente e falou:
– Vocês não podem se unir à cooperative de pescadores do rio? Tem muito dia que eles não pegam nem resfriado. Uma reserve de peixe congelado para abastecer o mercado seria muito bom para eles.
– Compadre, você teve uma ideia brilhante. Nem pensamos nessa possibilidade. Vamos conversar com eles na primeira oportunidade.
– Vamos esperar os alevinos chegarem e convidamos eles para virem ver a soltura no arrozal. Assim eles saberão que em algum tempo teremos peixes para vender a eles. Terão carne de peixe em abundância e quando os demais plantadores de arroz aderirem a esse procedimento, poderão exportar para outras regiões.
– Viu só! Veio também tem ideia boa de vez em quando.
– E quem falou o contrário, pai? O senhor tem mais que dar sua opinião para ajudar.
– As veiz eu não falo pra não passar por intrometido.
– O que é isso, compadre? Intrometido você! Nem pensar numa coisa dessas.
– Hoje é sábado e devem estar embarcando os bichinhos lá em Santa Maria. Segunda feira vão estar na estação de carga e vamos ter que buscar eles.
– Será que a gente consegue encontrar o encarregado ou gerente da cooperativa dos pescadores hoje ou amanhã?
– Vamos ter que procurar e ver. Se encontrar, convidar ele e mais alguém para virem ver a soltura dos filhotes.
– Agora é quase noite. Vamos ter que fazer isso amanhã cedo sem falta. Assim eles vão ter tempo de se preparar.
– Dependendo do caso podemos buscare les e trazer aqui. Depois a gente leva para casa outra vez.
– Isso é o de menos, Gaudêncio. Pode ser que eles tenham carro próprio.
– Caso não tenham, a gente resolve essa parte. É de nosso interesse.
– Seus faladores! Venham sentar para almoçare, – falou Maria Conceição, metendo o dedo na conversa.
– Chegou a hora melhor do dia. Vamos comer a comidinha da comadre Maria Conceição.
– Tem nada de especial hoje, compadre.
– Vindo de suas mãos comadre, até feijão e arroz vira banquete.
– Compadre está elogioso hoje. Que será que ele pretende?
– Pretendo nada não. Apenas sou justo com uma cozinheira de mão cheia como você comadre.
– A comadre vai ficar com ciumes lá do céu.
– Fica não. Ela lhe tinha tanta afeição quanto eu.
– Venham sentar e chega de trololó.
Os três levantaram e foram se lavar antes de irem para a mesa. Sentaram-se e a dona da casa colocou sobre a mesa as travessas fumegantes de alimentos recém cozidos. Era nada mais que um assado de contrafilé, um prato de aipim branco, bem cozido, arroz de pilão bem soltinho, sem faltar o indefectível feijão. Para acompanhar tudo um bom prato de salada, tendo repolho, pepinos azedos e tomates. Na geladeira havia algumas garrafas de cerveja para acompanhar o excelente repasto.
Terminado o almoço foram até a parte atrás da casa, onde sob uma árvore frondosa de Santa Bárbara havia postes para colocação de redes. Essas já estavam postas em seus lugares e ali se deitaram para fazer a digestão. Durante alguns minutos rolou conversa sobre a produção de peixes. Logo estavam os três dormindo ressonando levemente. Maria conceição, depois de lavar e guardar as louças, veio ocupar também sua rede e riu baixinho ao ver os três já dormindo a sono solto. Pedro Paulo entreabriu os olhos e viu quem era que estava ali. Logo prosseguiu em seu cochilo.
Algum tempo depois acordaram e em dado momento Gaudêncio propôs:
– Não seria bom procurar hoje os caras da cooperative? Vai que amanhã eles vao para algum lugar, visitar um amigo ou parente e a gente não acha eles.
– Estava tão bão esse soninho aqui na sombra, – falou Joaquim.
– Padrinho pode ficar aqui que eu vou.
– Vamos todos juntos no meu carro. Assim comadre sai um pouco.
– Só se eu der um recado para o Antônio. Se ele cuidar da ordenha eu vou junto sim.
– Acho que estamos de volta até lá. Mas pode avisar o Antônio. Fica perto daqui mesmo.
– Esperem aqui que eu vou lá falar com ele.
Maria saiu dali e foi direto à casa do auxiliar que estava também levantando da sesta naquele momento. Imediatamente se prontificou a cuidar do serviço. Maria poderia ir sossegada que ele tomaria conta de tudo. Voltou para casa e foi trocar de roupa. Estava com roupas de trabalhar dentro de casa. Em poucos minutos estava pronta para partir.
– Podemos ir seus palermas.
– Opa, pisaram no meu calo, – falou Joaquim.
– No meu também, – disse Pedro Paulo.
– Engraçado! Não senti nada. Acho que no meu ela não pisou.
– Vai pegar o carro. Pelo menos dirigir você pode. E para de contar vantagem.
Todos riram com gosto e esperaram Gaudêncio trazer o automóvel. Ele não se fez de rogado e dois minutos depois estacionava o veículo diante dos três. Saltou e veio abrir as portas para que embarcassem. Fechou uma a uma e sentou-se ao volante. Dali a pouco estavam viajando em boa velocidade para a sede do município. Sem pestanejar ele levou o veículo diretamente ao porto. Se existia um lugar onde deveriam saber do paradeiro dos homens ligados à cooperative de pescadores, era ali. Depois iriam até a casa onde moravam. Isso provavelmente seria perto dali.
 
Pintado pescado em São Borja.
Peises nadando na água cristalina.
Um belo exemplar da espécie Piapara.
 
Não foi difícil saber o endereço e foram até a casa indicada. Ficava na primeira rua à esquerda, duas quadras a frente, uma casa azul claro. Só havia uma casa com essa cor nas proximidades e não poderia ser outra. Parou o carro e bateu palmas. Em alguns segundos um homem moreno, levemente barbado, falou da soleira da porta:
– Se achegue. Aqui não tem taramela nas porta.
– O senhor é da cooperative de pescadores?
– Sou eu sim. Tem também o Tonhão e o Chico. Eles mora aqui perto.
– Nós somos da fazenda Santa Maria. O senhor Joaquim, proprietário, meu pai, Pedro Paulo, capataz geral e minha mãe, Maria Conceição. Eu, por bondade de padrinho, sou o herdeiro da fazenda.
– A m’o de quê devo sua visita?
– Nós viemos propor um provável negócio para a cooperative.
– Negócio para a cooperative! Qui é qui nóis pescador pode faze pra fazendeiro? Vão comprar peixe para os peão?
– Ao contrário. Nós vamos aproveitar o arrozal irrigado para criar peixe. A tal de Tilápia. Vem do estrangeiro, cresce rápido e tem uma carne apreciada.
– Tendi! Qui nóis vai faze com esses peixe?
– Quando for a hora de colher o arroz os peixes vão estar no tamanho ideal para abate. Vai ser uma grande quantidade e será preciso processar tudo, congelar para vender no comércio aos poucos.
– Mais nóis num temo onde armazená uma grande quantidade. De onde vamo arranjá dinheiro pra instalá esses congelador?
– Isso a gente resolve em conjunto depois. Nós vamos receber, junto com o vizinho os alevinos para soltar no arroz, na segunda feira. Eles vem de Santa Maria de Trem. Queríamos que o senhorr e mais alguém estivesse junto para ver e dizer aos companheiros que os peixes são realidade. Não é conversa fiada.
– I com’é qui nóis vamos chegá na sua fazenda?
– A gente providencia transporte. Isso pode deixar por nossa conta.
– Rosinha! Rosinha! – voltou-se para o interior chamando por alguém com esse nome.
– Qui foi pai?
– Vai até a casa de Tonhão e Chico. Pede pra eles vim cá um bocadinho.
Depois de dar umas boas pitadas em um palheiro que estava queimado a meio, o dono da casa convidou:
– Mas cheguem e tomem assento.
Subiram na varanda e sentaram-se em algumas cadeiras um tanto velhas, parecendo não suportarem os pesos dos visitants. Elas resistiram valentemente. O gerente também se sentou e logo Rosinha, a filha, voltou avisando:
– Tonhão já vem. Chico num tá em casa, pai.
– Está bem. Vai ajudar sua mãe no serviço.
A menina sumiu atrás da casa, ouvindo-se um murmúrio vindo da região posterior da construção. Alguns minutos se passaram e o denominado Tonhão chegou, cumprimentando:
– Boas tardes!
– Sente-se amigo. Temos visita importante hoje, home.
– Tô vendo. I isso quer dizer o que?
– Eles qué qui nóis vai na fazenda do seu…Joaquim na seguda pra m’o de ver eles sorta uns tal de, como é mesmo o nome que o moço falo?
– Alevinos, são os filhotes de peixes.
– Sim, eles compraro filhotes de peixe e vão sorta no arrozal irrigado. Quado for hora de colher os peixe vão tá grandinho e precise ter onde carnea, congelá pra m’o de conservá a carne.
– Arre! Essa agora! Fazendeiro vai criar peixe também! Essa é boa, compadre.
– Nóis tem algo a perdê, Tonhão?
– Acho qui não. Só do dimirado dessa novidade.
– Não demora e todos os arrozais vão estar cheios de peixes. Quando isso acontecer vai haver tanta Tilápia para congelar que vai precisar de um bom frigorífico.
– Olalá! Como é qui nóis entra nessa história?
– Aí está a questão. Nós queremos aproveitar o espaço ocioso no arrozal irrigado e também proteger as plantas de algumas pragas de insetos. Vocês vão ser beneficiados podendo processar e armazenar o pesccado. Depois comercializar, abastecendo a região e os municípios vizinhos.
– Mais como nóis vamo ter dinheiro para esses congelado que vai precisarr? Isso não vai se pouca coisa.
– Se interessar, nós nos encarregamos de ajudar a cooperative a conseguir o financiamento para fazer os investimentos. Também vamos assumir o compromisso de conseguir mais fazendeiros para produzir peixes também. Assim teremos uma produção muito grande. No intervalo vamos ver o que se pode fazer para manter a mão de obra em atividade. Vai precisar de muitas mãos para esse trabalho.
– Quando memo que temo que ir na fazenda?
– Segunda feira pela manhã eu passo aqui de carro e lelvo vocês, depois trago de volta, – falou Joaquim.
– Podemo ir, Tião. Mais sem compromisso por enquanto.
– Tá certo, Tonhão.
– Vocês vão ter o tempo para apresentar a proposta aos demais membros da cooperative e nos dar a resposta. Vamos providenciar no Banco do Brasil um financiamento para o que for preciso.
– Vois mecês tomam um chimarrão?
– Obrigado, seu Tião. Mas vamos andando. Minha mãe é a encarregada de coordenar a ordenha das vacas na fazenda e não quer chegar atrasada.
Despediram-se dos dois pescadores, embarcaram no automóvel e iniciaram o retorno. Como Maria Conceição há muito não vinha para a cidade, decidiram dar um passeio adicional pela cidade, mostrando as novidades surgidas nos últimos tempos. Afinal a cidade estava em franco crescimento, ocorrendo instalação de novas indústrias de arroz e outros estabelecimentos comerciais. Era o progresso chegando dia a dia.
Pararam em uma sorveteria para tomar um sorvete. Amenizaria o calor forte que fazia nos dias finais de novembro. Ao primeiro sorvete seguiu-se um segundo e depois voltaram calmamente para a fazenda, tendo dado antes uma passada pela casa de Joaquim na cidade. Avisou a empregada que viria dormir ali na noite de domingo, para não tomá-la de surpresa. A distância foi percorrida sem problemas em tempo de alcançar a fazenda Santa Maria nos momentos finais da ordenha da noite. Estava tudo em ordem e foram para casa, deixando as providências finais com o leite a cargo dos empregados.
Na segunda feira cedo, Joaquim estava na casa de Tião para levar os dois representantes da cooperative a fazenda. Para sua surpresa o Chico, ausente na tarde de sábado, também viera e iria junto. Era visivelmente o mais entusiasmado. Percebera ali a possibilidade de um crescimento acentuado na capacidade da cooperative. Os assossiados poderiam ter uma participação pessoal no trabalho de processamento do pescado na época adequada. Estava convencido que, os demais companheiros, lhes fosse apresentada a ideia de maneira correta ficariam igualmente animados. A quantidade de pescado disponível no rio não aumentava e cada dia havia mais pessoas pescando. Essa tendência não iria retroceder com certeza. Por isso uma luz no final do túnel deveria ser recebida com os braços abertos.
Como estavam prontos, embarcaram e iniciaram a viagem. Iriam até a estação de cargas da ferrovia para assistir ao transbordo dos tanques para os caminões que os transportariam para as fazendas. Um deixaria sua carga na Santa Maria e o outro na fazenda de seu Francisco, a Santana. Os visitantes não poderiam estar presentes nos dois lugares mas bastaria verem a soltura dos muitos projetos de peixer que eram visíveis dentro dos tanques. Era impossível fazer uma contagem nem ao menos estimativa da quantidade existente em cada tanque. Os tres pescadores quiseram saber a quantidade de filhotes existente em cada tanque. Não havia como contar e precisariam acreditar nas palavras do vendedor. Era provável que essa contagem se fazia de uma maneira aproximada.
O certo é que havia uma quantidade inimaginavel de pequenos pontos que nadavam no interior da água dos tanques. Estavam ali desde a tarde de sábado e poderiam permanecer sem maiores problemas até a manhã de terça feira. Portanto estavam com folga na margem de tempo disponível. Depois da colocação dos tanques nos caminhões esses iniciaram uma viagem vagarosa para seus destinos. Demoraram em torno de duas horas para chegar e eram 11 horas na chegada. Foi considerado conveniente manter os veículos à sombra até as primeiras horas da tarde. A totalidade dos trabalhadores dos arrozais estava aguardando a hora de participarem da soltura. Era uma novidade e não a perderiam de modo algum.
O almoço foi servido mais cedo nesse dia e depois foram para os locais em que fariam a soltura. Sendo a primeira vez tudo era aprendizado. Demoraram mais tempo devido à falta de prática de parte de todos. Até mesmo os pescadores participaram entsiasmados do trabalho. Os pequeninos bichinhos pareciam ficar admirados com a súbita disponibilidade de espaço e principalmente alimento em quantidades nunca vistas. Sem demora começavam a se alimentar de pequenas partículas, provavelmente algas e outros seres minúsculos que faziam parte de sua dieta. No momento em que o sol chegou perto do horizonte todos haviam sido soltos e os tanques vazios foram deixados depois nas plataformas da estação. Seriam embarcados de volta para Santa Maria e serviriam em outros momentos para novo envio de alevinos. Estava iniciada mais uma novidade na fazenda Santa Maria.

Em uma semana, mais tardar duas, a construção da estrutura para instalar as máquinas ordenhadeiras. Era tudo novidade que ia se espalhando na região, atraindo frequentemente pessoas curiosas, fazendeiros vizinhos que vinham saber das novidades implantadas por Joaquim e seu herdeiro.

Posta de peixe assada.

 

Dourados assados na brasa em São Borja.

 

Gaúcho de São Borja! – Capítulo XIII

Assando costelas em fogo de chão, modo típico de fazer churrasco do gaúcho.

 

Outro posicionamento dos espetos para o fogo de chão.

 

Começam as mudanças.
Quando chegaram em São Borja, Joaquim e seu afilhado, vinham entisiasmados com as negociações levadas a efeito na feira. Traziam na bagagem as especificações técnicas necessárias da parte de engenharia, visando a instalação das máquinas adquiridas. Teriam pela frente um período de intensa atividade. Uma empresa do ramo de construço precisaria ser contratada para executar as obras. Não era possível entregar essa responsabilidade a alguém sem a habilidade necessária. Pequenos detalhes poriam a perder um investimento alto, levando ao fracasso ou pelo menos, mau funcionamento. Chegaram na tarde de sexta-feira. Assim qualquer providência precisaria esperar pela segunda.
Passaram o sábado e domingo tomando conhecimento dos acontecimentos na fazenda. Evidentemente repassaram as vivências de ambos na capital e na feira. Todas as novidades foram contadas. A filmadora de Gaudêncio registrara o que de importante haviam vivido. Iriam fazer uma tarde de domingo replete de filmes para todos os interessados verem, depois de passar pelo laboratório para revelação e fazer alguns ajustes de edição. Teriam material para mais de duas horas.
Maria Conceição quis saber sobre as ordenhadeiras e lhe foram mostrados folhetos explicativos, detalhes de funcionamento e ela queria saber como faria tudo isso funcionar. Recebeu palavras tranquilizadoras quanto a isso. Haveria pessoas treinadas para lhe repassar todas as informações com todos os detalhes. A empresa vendedora não se limitava a isntalar o equipamento e depois deixar os compradors se virarem por sua conta e risco. Mesmo assim a todo momento ela tinha mais uma pergunta, uma nova dúvida. Sentia como se lhe estivessem tirando o chão sob os pés. Era uma mudança grande e ela temia não estar a altura da nova tarefa que teria pela frente. Depois de muita conversa finalmente sua angústia amainou e ela pode continuar a vida sem problemas.
O arroz semeado semanas antes já estava com alguns centímetros de altura, cobrindo de um verde uniforme os enormes campos das áreas mais baixas da fazenda Santa Maria. Eram elas as adequadas para a irrigação. Em mais alguns dias seria iniciada a irrigação. O solo seria inteiramente coberto de água, fazendo as plantas crescerem. Quando estavam falando desse assunto, Gaudêncio teve um momento de hesitação, parecendo estar com o olhar fixo em alguma coisa distante. Os demais ficaram em expectativa para ver o que estaria acontecendo. Pouco depois teve como que um sobressalto e se deu conta de que estivera como que ausente em espírito.
Olhou ao redor e perguntou:
– O que foi gente?
– Nós é que queremos saber. Você ficou olhando para um lugar só, parecendo paralisado, pensamentos longe. Está se sentindo bem, filho?
– Estou sim. Não aconteceu nada. É que tive uma espécie de visão. Imaginei se não seria possível encher esses arrozais de pequenos peixes logo que a água cobrir o chão. Eles iriam crescem como cogumelo e estariam bem grandinhos na hora que o arroz estivesse pronto para colher.
– Essa agora! Mais uma para botar fogo nas ideias! E onde iríamos arrumar tanto peixe?
– Esse é o problema, mas não é impossível. Li numa revista num dia desses que já tem lugar que isso é usado. O peixe é uma tal de Tilápia. Não é muito grande, mas come tudo que é bichinho, inclusive os que atacam as plantas, crescem rápido e é bem saboroso.
– E onde se poderia conseguir sabe como isso funciona?
– Preciso encontrar a revista para ver o lugar. Esqueci de anotar.
– Os agrônomos ou veterinários talvez saibam algo a respeito. – sugeriu Pedro Paulo.
– Espera aí, pai. Acho que sei onde procurar.
– E dadonde, filho? – disse a mãe.
– De verdade, mãe. Foi na feira que eu vi e tem no meio de todos aqueles folhetos que li sobre a história dos peixes. Depois vou olhar e procurar como se pode faze isso.
– Não acha mudança demais de uma vez, filho?
– Mãe, se puder melhorar a produção de arroz e ainda tirar um lucro com os peixes, não vai ser ótimo?
– Estou vendo que meu tempo passou mesmo. Estou é ficando velho de verdade. Esse menino cada dia traz uma novidade e pior é que não pode dizer nada contra, pois é verdade. Havia ouvido uma conversa sobre isso lá no clube, mas não dei importância.
– Vamos nos informar direito e se for bom, por quê não aproveitar?
– Verdade mesmo. Dinheiro nunca é demais, inda mais se pode ser ganho sem precisar investir mais quase nada. É apenas o custo dos filhotes de peixe.
– Isso não deve ser muita coisa.
– Temos que ver isso, padrinho. Parece que é comprador por milhar e não custa muita coisa mesmo.
– Vamos para cama gente. É sábado, mas amanhã vamos ter muito movimento por aqui.
– Tem razão, compadre. Vai ter missa cedo na capela, depois o churrasco para benefício da escola. Isso dá bastante que fazer.
Deixaram Pedro e Maria, voltando para a casa grande. Antes de dormir, Gaudêncio procurou em um maço de folhetos trazidos da exposição até encontrar um específico. Lhe havia sido entregue no stand da Emater. Falava sobre a novidade que alguns rizicultores estavam implantando. A criação de peixes em consórcio com o arroz irrigado. Ali estavam especificados os dados disponíveis até o momento. Com um custo adicional insignificante, podiam ser produzidas uma porção de toneladas de peixes de ótima qualidade, trazendo como benefício ainda a proteção das plantas contra uma porção de insetos aquáticos nocivos ao arroz.
Leu tudo atenciosamente, releu e assinalou as partes mais importantes. Teria argumentos para convencer o padrinho e também aos pais da validade da ideia. O unico inconveniente era não existir ali perto um produtor de alevinos, os filhotes do peixe. Precisariam ser trazidos da região de Santa Maria e talvez isso tornasse a questão mais complexa. Eles sobreviveriam ao transporte? Valia a pena se informar. Não custaria mais do que um pouco de tempo. Se não fosse possível, ficaria como projeto para o futuro.
No domingo, um vizinho veio participar da celebração da missa e durante o churrasco que seguiu, estavam conversando, quando Gaudêncio tocou no assunto. O vizinho disse que também estava interessado e poderiam trazer os peixinhos em conjunto. Assim aumentaria a quantidade a ser trazida e certamente interessaria mais ao vendedor, caso tivesse disponibilidade para fornece-los. No folhetos havia até o telefone do produtor de alevinos.
Ao chegarem em casa Gaudêncio decidiu ligar para o número e, mesmo sendo domingo, conseguiu falar com o dono do criadouro. Ficou sabendo que existia uma quantidade para atender quase a totalidade da área conjunta das duas propriedades. Se usassem uma densidade menor de animais por área, era provável um pequeno ganho no tamanho dos peixes ao final. Combinou ligar novamente e confirmer a eventual aquisição. O bom era que poderiam ser despachados port rem em tanques sem problema e da ferroviária serem transportados de caminhonete ou caminhão. A questão que o preocupara mais no final não era nem um pouco complicada.
Antes de deitar, bateu à porta do quarto de Joaquim e este falou lá de dentro:
– Gaudêncio, é você?
– Sim, padrinho. Sou eu. Possos entrar um instante?
– Entra. A porta está destrancada.
Entrou e encontrou o padrinho confortavelmente recostado nos travesseiros, com os olhos um pouco sonolentos, mas desperto o suficiente para ouvir o que o afilhado tinha a dizer. Deveria ser minimamente importante para lhe vir falar a essa hora da noite.
– Fala, meu caro. O que é que te aflige?
– Ao contrário. Nada me aflige. Estou é contente. Acabo de falar com o dono do criadouro de alevinos em Santa Maria. Ele tem os filhotes sobrando e podem ser despachados port rem, em tanques especiais. Chegam sem nenhum problema.
– E o preço?
– O frete fica quase mais caro que os peixinhos. Mesmo assim chegam bem barato. Dá para tirar no final da temporada um valor em peixes mais ou menos igual a vinte vezes o custo dos peixinhos.
– E você encomendou?
– Combinei ligar para confirmar se nós resolvermos comprar. Tenho que falar também com o vizinho e ver se ele quer a parte dele. Para nós é um pouco demais. Se comprar tudo que ele tem, faz um desconto especial.
– Com certeza é a sobra e se não vender, não tem o que fazer com eles. Mesmo assim é ótimo isso.
– Amanhã ligo para o vizinho e pergunto. Melhor, dou um pulo lá, na hora que formos a cidade para tratar da contratação da construtora. Não vamos perder tempo e mandar trazer esses bichinhos. O investimento é insignificante.
– Você não sossega. Agora vai dormir, senão amanhã vai estar com cara de sono o dia inteiro.
– Já estou indo. Boa noite e desculpe vir lhe incomodar.
– Incômodo algum, meu jovem.
Saiu e foi até a escrivaninha onde o livro estava um pouco além da metade. Pegou e leu avidamente um bom número de páginas até os olhos pesarem e dar cabeçadas, quase dormindo sentado. Fechou o livro e deitou. Minutos depois estava dormindo tranquilamente.
A construtora que aceitou executar as obras na fazenda, iria preparar um ante-projeto, depois de fazer um levantamento no local. Era necessário conhecer as características do solo, o nível, localização de fontes de água para abastecer a bomba de lavagem dos pisos e demais partes da isntalação. Joaquim ficou na cidade e Gaudêncio retornou, passando pela fazenda vizinha para tratar do assunto dos peixes. O proprietário acabara de voltar de uma volta pela propriedade e o recebeu calorosamente:
– Seja bem vindo, Gaudêncio.
– Boa tarde, seu Francisco.
– Que bons ventos o trazem?
– Vim ver se o senhor quer mesmo os peixes. Falei com o homem e ele tem exatamente a quantidade que precisamos para nossas propriedades. O despacho é feito por trem em tanques especiais. Se nós arrematarmos o resto ele nos faz um desconto de 30% para não ficar com sobra pequena.
– E isso trocado em dinheiro, quanto fica?
– Uma ninharia, seu Francisco.
Falou o valor e o vizinho concordou que era barato mesmo. Se o resultado fosse bom, seria um excelente reforço de caixa ao final da cultura. Daria ao menos para pagar o custo da colheita, se não desse bem mais que isso.
– Vou querer sim. Pode mandar vir. Só temo que combinar para pegar tudo e trazer lá da estação para cá.
– Podemos mandar descarregar no posto aqui perto. Menor distância até as propriedades.
– Boa lembrança. Fica bem pertinho.
– Vou confirmar e pedir para enviar daqui a uma semana. Até lá dá tempo de colocarmos água nas plantações.
– O meu essa semana eu coloco água. Tá no ponto.
– O nosso em parte também. O último ainda falta crescere um pouco mais.
– Não tem problema. Uma semana para lá ou para cá, não será problema.
– Ficamos combinados, seu Francisco. Eu aviso na hora de mandar o dinheiro e receber os bichinhos. Vamos ver o que da isso. Diz que tem gente ganhando bastante dinheiro com isso. Tem tudo para dar lucro.
– Qualquer coisa que der lucro já ajuda. Ao menos cobre as despesas com o plantio do arroz. O resto fica no caixa.
– Vou indo, pois ainda tenho o que fazer antes da noite. Até outro dia.
– Inté. Vá com Deus.
Embarcou e rumou para a Santa Maria. Quando chegou o grupo da ordenha estava em plena atividade. Os peões do gado guardavam os cavalos, davam o trato para a noite, verificavam água e depois iam para suas casas, ou para o alojamento dos solteiros. Encontrou o pai e esse perguntou:
– E compadre? Ficou na cidade?
– Ficou. Fazia dias que andava aqui e sentiu vontade de ficar um pouco por lá.
– Acertaram os ponteiro com os home da construção?
– Amanhã, ou depois eles vem ver o lugar, medir, fazer as contas e tudo mais. Daí vem o ante-projeto, projeto e construção. Vai um bom tempo até ficar pronto. Não é coisa de um dia para o outro.
– Isso era de imaginar.
– Também vai ficar uma jóia. Espere para ver pai.
– Sua mãe ainda está com a pulga atrás da orelha. Tem um medo danado de que vão demitir gente que trabalha com ela.
– Só vai sossegar quando tudo ficar pronto e o pessoal colocado em outro lugar. O padrinho vai conversar com o contador para ver se não tem algum dos mais antigos em tempo de aposentar.
– Nem venha me falar nessa tal de aposentadoria. Isso é coisa para velho, mas daqueles de cuspir a dentadura.
– O senhor ainda é um groto pai. Ninguém está pensando em lhe aposentar.
– Pode até me aposentar, mas eu continuo trabalhando.
– Quando chegar o seu tempo, vai ficar contente de ficar um pouco de folga. Quem sabe já vou ter providenciado uns dois ou três netos para ocupar sua vida.
– Isso vai ser uma alegria para eu e a veia.
– Se a mãe lhe escuta, chamando ela de veia, vail he dar umas vassouradas.
– Dá nada. Só meaça, mas dá mesmo que é bom, nada.
– Não abuse. Vai que ela se enfeza.
– Quem é que vai se enfezá?
– Brincadeira, mãe. Eu estava provocando o pai aí e saiu essa frase aí. Não tem nada.
– Eu conheço voces dois. Se não conhecesse, comprava pra mim.
Riram a valer e foram até a casa onde havia água quente e uma cuia de chimarrão logo estava em uso. Os dois homens combinara iniciar a irrigação do arrozal plantado primeiro no dia seguinte. Assim iriam ter tudo pronto para quando viessem os peixinhos.
– Você encomendou?
– Vou só confirmar hoje à noite. Dentro de umas duas semanas estão aqui. Até lá temos que por água no arroz todo. Vamos encher isso tudo de peixe.
– Acho que vou ficar velho e caduco sem ter visto de tudo nesse mundão de Deus.
– O negócio é aproveitar tudo que pode ser feito. Se é possível produzir arroz e peixe ao mesmo tempo, vamos fazer isso.
Na terça feira, por volta das nove horas, chegou uma caminhonete da construtora, trazendo o engenheiro e três ajudantes para fazer o levanamento do terreno onde seria executada a obra de instalação do equipamento de ordenha. Fizeram sondagem de solo para poderem calcular os alicerces, verificaram o desnível do terreno. Era possível trazer por declive natural a água até um reservatório ao lado das instalações. Evitaria o gasto de energia para bombeamento do líquido. Isso ficaria restrito a dar pressão suficiente para fazer funcionar o esguicho de limpesa das instalações após o uso. A higiene era fundamental.
Antes do entardecer tinham feito todas as medições necessárias e retornaram à cidade. Demorariam cerca de uma semana, talvez dez dias para elaborar um anteprojeto, antes do definitivo. Gaudêncio ficou contente em saber que não precisariam instalar uma bomba para trazer a água. A gravidade a traria até um ponto de onde seria distribuida para as diversas finalidades. Serviria inclusive para manter os bebedouros nos estábulos e mangueiras sempre abastecidos de água limpa e fresca. Os animais eventualmente confinados ali não seriam submetidos à sede por ficarem ali algumas horas. É sabido que a fome é menos difícile de suportar que a sede.
Os alevinos haviam sido encomendados e teriam que fazer o pagamento na semana seguinte. Bastava ir até a agência do Banco do Brasil e fazer uma ordem de pagamento via telefone. Em no máximo meia hora o dinheiro estaria na conta do favorecido. Depois, uma simples ligação telefônica, confirmaria o envio do pedido. Em no máximo trinta e seis horas depois do despacho eles estariam chegando ao destino.
Seu Francisco faria o repasse de sua parte na segunda feira, ou mais tardar terça. O domingo seguinte teria outro feriado antes. O dia 15 de novembro, comemoração da proclamação da República. Gaudêncio combinou com os peões e trabalhadores do setor rizícola projetar naquele sábado a tarde os filmes que fizera da feira, bem como os anteriores por ocasião dos jogos do Internacional e Grêmio que ainda não tivera tempo de mostrar. Encomendara algumas caixas de cerveja e mandara por para gelar, além de uma carne para ser assada e degustada durante o evento. Todos trabalhavam dedicadamente e mereciam receber um agrado vez ou outra.
Joaquim chegou na véspera do feriado trazendo algumas informações interessantes. Conversara com o contador que fizera um levantamento superficial. Pelas contas havia entre os trabalhadores da fazenda meia dúzia que atingiria a idade e o tempo de contribuição para se aposentarem no ano seguinte. Se quisessem continuar trabalhando, não haveria problema. Em caso de doença ou qualquer outra dificuldade, poderiam se aposentar e viver sem problemas dali por diante. Entre eles não havia quem quisesse se aposentar, iriam trabalhar enquanto o corpo permitisse. Só mesmo doentes, optariam por algo assim.
 Durante a projeção dos filmes, a parte mais divertida foi quando passavam as cenas dos jogos. No primeiro, os torcedores colorados, entre eles Gaudêncio, vibravam com cada lance mais agudo do time do coração. Já os gremistas torciam pelos atacantes do Flamengo e roiam as unhas a cada lance perdido pelos atacantes, desarmados pelos zagueiros. Quando ocorreu a inversão e começou a partida entre Grêmio e Nacional de Montevidéu. Agora o que se via eram os de camisas azul listradas de preto e branco que ficavam crispados com os lances de ataque do adversário, e gritavam em apoio aos lances do time de azul. Depois foi apresentada a filmagem feita do movimento na feira. Não havia uma imagens de todos os eventos, mas os stands mais importantes estavam todos ali. O show de adestramento de cavalos, montaria de touros, alguns desfiles de animais de raça, inclusive os reprodutores que estavam para chegar na fazenda.
Era possível ouvir exclamações de admiração vindas de todos os lados diante da visão dos novos equipamentos, cada ano mais modernoss, maiores e eficientes. Os fabricantes se esmeravam em acompanhar todos os passos tecnológicos que surgiam a cada ano. Quem não fizesse esse acompanhamento, ficava relegado a segundo plano na hora de vender seus produtos. A concorrência não perdoava.
Depois dos filmes a carne estava assada, foi servida com acompanhamento de pão e cerveja. Todos comeram com gosto e beberam moderadamente. Isso mesmo por que o patrão não exagerava nesse quesito. Não havia interessi algum em eventuais desentendimentos sob efeito do álcool, algo sempre possível de acontecer. Os efeitos do álcool bloqueavam o auto-controle e uma palavra dita na hora errada, podia causar um quebra páu. Além dos problemas imediatos, restariam desavenças posteriors a ser contornadas. Era preferível evitar essas situações desagradáveis.
O domingo seria de jogos pelo Campeonato regional de futebol e alguns dos mais jovens faziam parte de um time integrante da liga municipal. Habitualmente um bom número de peões e trabalhadores aproveitava a folga domingueira para assistir a esses jogos. Quando acontecia de a partida ser realizada em local próximo principalmente. Era o caso dessa vez. O mais inflamado torcedor do time estava fazendo a lista dos interessados em transporte para o local do jogo. Iriam em um ônibus habitualmente usado no transporte de alunos para a cidade no período noturno. O dono, visando ganhar algum dinheiro extra, fazia esse transporte por preço módico. Unia o útil ao agradável sendo ele mesmo torcedor.

 

O churrasco terminou quando já havia passado da hora do jantar. Desse modo todos chegaram em suas casas sem vontade de comer mais nada, no máximo tomar uma xícara de café antes de ir dormir. Queriam descansar dos trabalhos da semana e estar descansados para torcer no domingo. 

Vai uma costela bem assada aí?
Costelas sendo assadas.

Mineiro sovina! – Capítulo XIV

 

Exposição se aproxima.
        Diante da proposta trazida por Estevão, José Silvério sentiu necessidade de visitar seu cliente. Mandar recado e pedir que ele viesse até o escritório, estando ele ainda em recuperação das consequências do atentado, era inconveniente. Também estava com vontade de rever a bela Isabel. Saber em que estágio estava a questão da exposição de seus quadros. Até mesmo ouvir sua voz melodiosa lhe fazia bem. Verificou sua agenda para o outro dia. Remanejou uma entrevista que estava marcada para as últimas horas da tarde para um pouco mais cedo.
            Com isso poderia sair às 4 h e haveria tempo de discutir com o coronel a questão do acordo proposto e também matar a vontade de ver a filha. Fazia esforço para colocar maior empenho nos aspectos profissionais da visita, mas não conseguia êxito por muito tempo. Logo a imagem inconfundível de Isabel ocupava seus pensamentos e ficava difícil concentrar-se em outra coisa. Pegou em sua gaveta, numa caixa trancada à chave, algumas fotos da moça e assim passou um tempo contemplando os traços delicados, que em sua opinião eram perfeitos. Pouco lhe importaria se outrem tivesse opinião diferente. Para ele era a mulher ideal, perfeita.
            Na manhã seguinte, uma quarta feira, tinha um cliente detido para entrevistar e preparar sua defesa na audiência preliminar com o juiz, além de um cliente que viria para tratar de outra questão de litígio de divisas. Assim a manhã passaria voando. Logo depois do almoço tinha a entrevista remanejada que seria, em vista do andamento do processo, coisa rápida, mas tinha que encaminhar alguns documentos de processos em andamento. Não costumava deixar que ficassem acumulados papeis em sua mesa, esperando destino. Se isso acontecesse, uma hora se veria enterrado em uma pilha de papéis e teria dificuldades para por tudo em ordem. Evitava assim o risco de deixare documentos sem o devido encaminhamento, que resultaria em prejuizos no resultado dos processos.
            Às 4 horas avisou que visitaria o cliente na fazenda. Voltaria ao escritório na manhã seguinte. A família estava avisada de sua pequena viagem, sendo provável que retornasse tarde, ou talvez passasse a noite na fazenda. Dependeria de um convite do coronel. Evitaria forçar uma situação que poderia se voltar contra ele na questão de aplainar o caminho para o coração de Isabel.
            Sentou-se ao volante de seu Opala, modelo especial de luxo, recentemente adquirido e percorreu calmamente os poucos quilômetros até a fazenda. Chegou faltando um pouco para as 5 h da tarde e encontrou o coronel sentado tranquilamente na varanda, em sua rede. Vira a pequena nuvem de poeira levantada pelo automóvel e ficara atento para ver de quem se tratava. Ao se aproximar logo percebeu ser o carro do advogado. Empertigou-se na rede e ficou a espera. Logo lhe acorreu a lembrança da ação cuja sentença lhe for a favorável e do inquérito do atentado. Ficou curioso em saber de que assunto o advogado vinha tratar.
            Deixando o belo carro, todo branco com frisos cromados, estacionado à sombra de uma frondosa mangueira, sem frutas nessa época. Se estivesse com carga alguma poderia se desprender e causar danos à lataria do veículo. Nesse momento não corria esse risco. Ao chegar perto da varanda, foi saudado alegremente:
            – Uai! Que ventos lhe trazem aqui hoje, doutor?
            – Vim trazer novidades, coronel.
            – Venha sentar-se aqui e vamo conversa então. Fiquei curioso sobre que novidade o senhor vem trazer.
            Subiu um degrau e sentou-se em uma cadeira de vime que havia ali, à distância conveniente do coronel. Este permaneceu sentado, apenas estendeu a mão ao recem chegado em cumprimento.
            – Pois então, coronel. As novidades são notícias de seu vizinho Juvenal.
            – Qui é que ele está inventando agora?
            – Para lhe dizer sinceramente, eu também não sei ao certo. Mas ontem o advogado dele, doutor Estevão me procurou para fazer uma proposta. Contou uma história engraçada e confesso, fiquei com a pulga atrás da orelha. Mas a decisão é sua e vim lhe contar o que aconteceu. Depois o senhor decide se aceita ou não. Isso é coisa sua. Não quero influenciar. Não me sinto confortável em fazer isso.
            – Uai, home! Desembucha logo então. Aceita uma xícara de café, um biscoito?
            – Pensando bem, não comi nada depois do almoço, um café com biscoito vai cair bem, enquanto conversamos.
            – O Lourdes! …. O Lourdes! Isabel!
            – O que foi meu velho? – perguntou da porta a esposa, atraida com o chamado dele.
            Nisso viu o advogado e cumprimentou:
            – Boa tarde, doutor José Silvério. Como tem passado?
            – Trabalhando bastante. Mas isso faz parte do negócio.
            – Ajuda a tornar a vida melhor eu penso.
            – Exatamente, dona Lourdes. E a senhora como vai?
            – Vou bem graças a Deus. Agora mais tranquila com o fim dessa pinimba com o processo.
            – Ele ainda não terminou totalmente. Mas pode ser que acabe logo.
            – Isso seria ótimo. Essa angústia de não saber o que vai acontecer me deixa muito aflita. Esse atentado sofrido pelo Onofre então, foi a gota d’água para completar.
            – As coisas vão melhorar.
            – O Lourdes! Serve um café aqui pro doutor e traz também uns biscoitos ou um pedaço de bolo.
            – Esperem só um cadinho. Vou providenciar. Dá licença.
            Ela se dirigiu para a cozinha e se pôs a preparar o café, separar os biscoitos, bem como alguns pedaços de bolo que fizera há pouco. De passagem avisou Isabel no atelier que o doutor estava ali. Ela prometeu vir cumprimentá-lo, tão logo terminasse umas coisas que estava fazendo.
            Enquanto o café era providenciado, José Silvério narrou ao coronel o teor da proposta de acordo que recebera e expos suas dúvidas quanto à mudança de atitude do oponente. Ao que o coronel falou:
            – Quem conheceu o pai dele, não diz que esse é filho dele. Homem honesto, trabalhador, direito nos negócios dele, estava ali. O filho parece fruto que caiu e rolou para longe do pé. Devia ser uma ribanceira forte para haver tanta distância.
            – É uma coisa realmente estranha. Os filhos normalmente saem bastante aos pais, salvo algumas excessões. Talvez estejamos diante de uma delas.
            – Lembro como se fosse hoje o pai reclamando dos descaminhos do filho. Quando tinha uns 16 para 18 anos, começou a fazer estrepolias junto com uns maus elementos mais velhos, gente de má conduta mesmo. Diversas vezes o pai teve que tirare le de apuros. Sempre aconselhou e inclusive botou de castigo. Mas diantou não. Parecia que tinha o tinhoso no couro. Não obedecia, fugia de casa e voltava a fazer das suas. Quando o pai morreu, pouco antes ele voltou para casa. Parecia adivinhar que o velho estava no fim. Veio e assumiu a fazenda. Logo deixou claro seu mau gênio.
            – Quanto tempo faz isso, coronel?
            – Coisa de cinco a seis anos se estou bem alembrado.
            – O pai tinha muitas dívidas?
            – Tinha algumas, principalmente por conta dos prejuízos causados pelo Jerônimo. Um par de processos em que foi condenado tendo que pagar indenização. Foi então que eu emprestei aquele dinheiro de que falou na audiência.
            – Em sua opinião ele pode ter se arrependido? Ter lembrado dos conselhos do pai e estar mudando de verdade?
            – Sei não, doutor. Nois costumamo dizer qui pau que nasce ou cresce torno, num endireita.
            – Isso diz o ditado popular. Mas há casos em que a pessoa envereda por um caminho errado e um dia acorda, muda de atitude, passando a ter comportamento exemplar.
            – Contece, mais é dificil. Eu inté qui torço pra qui ele se endereite. Era tão bão no tempo do pai dele. Des que ele veio tocar a fazenda, virou um inferno. Nunca mais tive sossego de verdade.
            – Imagino, coronel. Eu vou deixar o senhor pensar bem no assunto e decidir o que pretende fazer. Vou seguir suas determinações à risca.
            – Vamo tomar um café e comer uns biscoito, antes que esfrie.
            Serviram-se de café que acabara de ser colocado numa mesinha à sua frente, junto com uma luxuosa travessa replete de biscoitos e uma tigela com pedaços de bolo. Comeram alguns instantes em silêncio, que foi quebrado por José Silvério:
            – Esses biscoitos de dona Lourdes são impagáveis. Muito bons. O bolo então é uma delícia.
            – Sempre falo pra Lourdes. Ela me pegou foi pelo estômago e ela diz qui usou a arma que tinha, pra mode mi pega.
            – Além de tudo tem senso de humor invejável.
            – Sempre fois assim. Num tem tempo triste com ela. Memo nas hora mais dificil, ela consegue ficar animada, fazer a gente rir e esquecer um pouco as preocupação.
            – Feliz do senhor em ter uma companheira dessas. Conviver com alguém sempre triste, lamentosa deve ser complicado. Sei minha mãe e pai são parecidos nesse sentido. Um anima o outro nos momento de dificuldades.
            – Eu sempre digo que tenho tudo que pedi a Deus. Meu cafezal, uma muié qui nem a Lourdes, e a fia Isabel. Posso pidi mais arguma cosa? Ach’qui não.
– De fato, preciso concordar com o senhor.           
– É bom saber que o senhor está feliz, pai. – falou Isabel que estava parada à porta da varanda.  
– O fia! Tu tava aí? Num tinha percibido.
– Boa tarde, doutor. Como vai o senhorr?
– Eu estóu ótimo, senhorita. E a exposição, quase tudo pronto?
– Parece que sim. Mas sempre aparece alguma coisa a mais. Acho que nunca se consegue lembrar de tudo, mas tudo mesmo. É bem complicado esse mundo da arte.
– Não é só o mundo da arte. Em toda atividade há os problemas. Mas a superação deles traz no final a alegria da vitória.
– Parabéns pelo seu trabalho na defesa de papai. Soube que foi brilhante!
– Obrigado. É bondade de coronel Onofre.
– Bondade nada! Pura verdade, das verdadeiras mesmo.
– Fico lisonjeado com isso. Senhorita precisa de alguma ajuda, algo que eu possa fazer para facilitar as coisas?
– O organizador está providenciando tudo. Nunca vi alguém com tanta energia, apesar da idade. Parece que tem um motorzinho nele. Não para. Toda hora lembra de algo, apresenta de uma novidade.
– Precisando é só falar.
– O senhor já fez muito me pondo em contato com ele. Espero contar com sua presença na inauguração da exposição.
– E eu iria perder essa oportunidade? Estou curioso por conhecer seus trabalhos um por um. Só vi alguns e foi suficiente para ficar encantado.
– Dentro de quatro semanas é o grande dia. Deve vir gente de Bel Zonte, São Paulo e até Rio de Janeiro. Imagina! Vou ficar perdida no meio de tanto grão fino.
– Vai é brilhar igual uma estrela no meio de uma porção de planetas.
– Agora é o senhor que está exagerando. Mas obrigado pelas suas palavras. Vou buscar o álbum de fotos que foi feito. Foram mandadas cópias para um monte de gente importante e veio uma porção de cartas elogiando, confirmando presença.
– Se me fizer o favor, eu agradeço. Vai ser diferente de ver os quadros ao vivo, mas serve de aperitivo.
Ela levantou e foi até o atelier, voltando em seguida trazendo um álbum volumoso com fotografias ampliadas dos quadros. José Silvério abriu e começou a admirar os trabalhos um a um, soltando um assobio, arregalando os olhos a cada página que virava. Podia-se ver a história artística da jovem. Nítidamente era possível ver o crescimento, apesar do vigor presente desde o princípio. A cada quadro a harmonia do traço, o contraste de cores, enfim o aperfeiçoamento acompanhava a evolução da primeira à última imagem.
– Só de ver o álgum já fico emocionado. Estou imaginando o que dirão os críticos, os apreciadores de arte quando virem seu trabalho na galeria. Já há preços mínimos estabelecidos?
– Sim. Estabelecemos algo não exagerado, para evitar espantar os possíveis compradores. Mas não vai ser colocado a mostra, somente vai ser informado aos interessados em adquirir. Dependendo do efeito isso poderá ser modificado no decorrer da exposição.
– Boa ideia, pois se a aceitação for elevada, é possível pedir algo a mais, pois certamente haverá quem pague o preço.
– Vou querer que escolha um para ser seu presente, doutor.
– Eu estava pensando em economizar para comprar um ou dois ao menos. Vou esperar vê-los na exposição e iluminados adequadamente para fazer a opção.
– O papai está cada vez mais envaidecido com isso. Até parece que o pintor é ele.
– I num era pra ficar orgulhoso? De um dia pro outro toda hora tem gente estranha aí vendo, saindo admirada e falando um montão de coisa. Só podia ficar estufado iguar sapo boi.
– Até eu ficava envaidecido no seu lugar, coronel. Acho que vou andando. O senhor me avisa de sua decisão em relação à proposta do Jerônimo e se for o caso, marcamos um encontro para acertar os ponteiros.
– Mas o senhor não espera a janta? Temo inté um quarto de hospede e pode dormi aqui. Manhã cedo volta pra cidade.
– Não quero incomodar, coronel.
– Incomodo nada, doutor. Senhor é de casa. Vai sê uma honra lhe dar pouso por uma noite. Fia, avisa a sua mãe que o doutor vai pousar aqui. Manda por mais água no feijão.
– Um convite tão gentile u não posso recusar. Mas preciso sair bem cedo amanhã para não chegar atrasado ao escritório.
– Vai ver como nois levanta cedo aqui no mato. O galo canta e nóis alevanta.
Isabel pediu licença e foi até a cozinha, ficando por lá. Ajudava a mãe nos afazeres de preparar a janta. Levou com ela o bule com o resto frio do café, os biscoitos e bolos sobreviventes. Era ótimo respirar o ar do anoitecer ali em meio à natureza. Os cafeeiros estavam terminando de florir e o perfume ainda era perceptivel no ar. Isso dava ao lugar um aspecto peculiar. Era diferente de outras propriedades com criação de animais que tivera oportunidade de visitar. Não havia cheiro de sour, estrume e tal. Não que esses fossem essencialmente desagradáveis, mas as flores deixavam um aroma levemente adocicado no ar.
José Silvério instigou o coronel a contar causos dos tempos de antigamente e ele prontamente atendeu ao seu pedido. Estava próximo dos 60 anos e tinha em sua memória muitas histórias para contar. Contou de como era o trabalho nos tempo de sua infância. Tudo era manual, mais rústico e difícil. Mas era a forma conhecida de fazer tudo e ninguém reclamava. Hoje, com boa parte modificada para automatização, máquinas assumindo o trabalho mais monótono e demorado do processo de produção, havia quem reclamasse das tarefas minimamente cansativas. Precisavam estar aí antigamente para ver como é que a coisa ia.
Uma história puxa a outra e mais outra. O tempo passou e quando viram, a janta estava na mesa. Lourdes veio chamar e permaneceu um momento à porta ouvindo, antes de falar:
– Deixa um pouco de histórias pra contar depois e venham jantar.
– Uai! Mais já tá na hora? Tinha nem reparado que o tempo passou.
– É, coronel. Contando histórias o tempo voa sem a gente ver. Igual o vento. Quando vê, já foi.
– Mas vamo si lava e depois come.
Levantaram e foram até o lavatório instalado ao lado da cozinha para lavarem as mãos. A casa fora construida em tempos passados, ficando devendo um pouco no quesito funcionalidade. Mas coronel Onofre nem queria ouvir falar em trocar de casa. Essa estava é muito boa. Por quê mudar?
Sentaram-se, agradeceram a Deus pelo alimento e começaram a refeição. Nada de especial e as palavras do coronel de botar mais água no feijão faziam sentido. Realmente havia feijão, arroz e salada, além de pão, queijo, nata e melado. Praticamente tudo produto da terra, produzido ali mesmo ou nas redondezas. Comeram devagar, intercalando garfadas de comida com algumas palavras, mais histórias iam sendo contadas, comentários tecidos, observações feitas.
Sentaram-se na sala, onde havia um toca discos e também um televisor. O coronel aderira à modernidade, instalando uma antenna parabólica próximo da casa e também puxara a rede de energia elétrica, tornando as coisas mais fáceis. Assistiram ao noticiário e depois de mais um pouco de conversa, José acompanhou Isabel até o atelier para ver o trabalho inédito que estava elaborando para apresentar na exposição. Não constaria no catálogo. Era algo desconhecido até do organizador. Ele o veria no momento de levar para a galeria.
Era diferente de tudo que produzira até ali. Estava enveredando por uma nova vertente. Pensava em acompanhar a tendência atual da pintura. Faltava uma boa parte do trabalho, mas era possível antever o efeito final. Seria um impacto diferente sobre os críticos e aficionados do mundo da pintura. Isabel explicou as ideias que tinha em mente para a conclusão do trabalho e deixou José de boca aberta. Pelo que ouviu, percebeu que o resultado seria realmente surpreendente. Demonstrou claramente com o brilho no olhar o que sentia.
– O que achou da ideia, doutor?
– Vai ser um sucesso, senhorita.
– A ideia é surpreender. Estou iniciando uma nova fase em meu trabalho.
– Com jeito de ser arrasadora essa sua nova fase. Imagino o que virá no futuro.
– Vou me esforçar para corresponder às espectativas. Tenho que lhe agradecer sempre pelo fato de levar meus trabalhos para serem vistos.
– Isso vai ser orgulho para mim. Ter descoberto um talento tão promissor é compensador o suficiente.
– Vou descansar, pois passei o dia em pé pintando, ou ajudando a mãe na cozinha. Quase não tive tempo de sentar hoje.
– Precisa dar descanso às pernas para não sentir os efeitos mais tarde.
– Costumo fazer pequenas caminhadas a cada duas ou três horas. Movimentar o sangue para não inchar os pés.
– Isso mesmo. Não se descuide e sofrerá menos daqui a alguns anos.
Ao retornarem à sala o coronel tivera tempo de trocar ideias com a esposa Lourdes e falou:
– Doutor! Pode marcar o encontro com o homem, mas no seu escritório. Em outro lugar eu não confio. Vou dar um voto de confiança a ele, mas nunca é demais ser prevenido.
– Com certeza, coronel. Precaução nunca é demais. Em se tratando que gente de passado pouco recomendável, mais cuidado ainda é necessário. Vou marcar a data e lhe mando aviso. Dependendo do caso, venho aqui lhe avisar.
– Estou esperando que a telefônica puxe a linha até aqui para por um telefone. Faz falta.
– Certamente. O telefone poupa muito tempo, evita despesas.
– Enquanto não vem esse dia, temo que levar como dá.
– Tudo ao seu tempo. Um dia ele chega e a coisa se resolve.
– Hora de velho ir para cama. Se quiser ver o filme que vai passar, fica a vontade.
– Acho que vou dormir cedo. Tenho um livro comigo. Leio um pouco e logo adormeço.
– Boa noite, doutor.
– Boa noite, coronel.
Mãe e filha ficaram vendo o começo do filme. José lhes fez companhia e depois foram dormir. Logo cedo estavam todos em pé e por volta de 7 h 30 min. estavam de café tomado. José embarcou no seu carro e percorreu a estrada para Sete Lagoas. Chegou em casa e rapidamente tomou banho, trocando de roupas. Tinha audiência naquele dia e não convinha chegar diante do juiz de roupa amassada. A apresentação pessoal era muito importante. Não podia descuidar desse particular.
Ainda pela manhã ligou para o colega Estevão e agendaram o encontro entre os dois vizinhos para a terça feira da semana seguinte. Daria tempo de avisarem aos clientes e estes se fazerem presentes no escritório da Advogados Associados. José antegozava o momento de rever Isabel. Não se importava com o fato de se necessário levar o recado ao coronel pessalmente. Bendita telefônica que ainda não puxara a linha até lá. Isso lhe dava uma desculpa para visitar a fazenda.
O final de semana chegou depressa entre audiências, entrevistas, pareceres e montage de processos. No sábado à tarde, após tomar banho, barbear-se e passear um pouco pela cidade, enveredou pela estrada, indo parar na fazenda. Por sorte encontrou o coronel antes de ele sair com a família para visitar um primo alguns quilômetros dali. Ficariam na outra propriedade, retornando somente no domingo a tardinha. Entregou o recado e logo depois voltou para casa. Vinha um pouco frustrado por não ter tido tempo para gozar da presença de Isabel por um período maior do que alguns minutos apenas. Era parte do processo. Ela não estaria sempre ao seu dispor.
Passou a noite de sábado em casa, conversando com os pais e vendo televisão. Nas últimas semanas deixara a desejar em sua atenção à família. Precisava cuidar para não esquecer de quem lhe dera tudo o que era. Boa parte do mérito era seu, mas as condições para por tudo em prática, havia sido providas pela família. Nunca deveria olvidar tal fato.

Mineiro sovina! – Capítulo XIII

 

Prisão do mandante.
        Terminada a audiência e proferida a sentença, doutor Estevão preparava seus papéis e bloco de anotações para se retirar, junto com o cliente. O favorecido com a sentença, seu advogado e testemunhas haviam saido. Nesse momento três policiais militares, sob o comando de um sargento se postaram nas proximidades, em posição de quem aguarda uma ordem da autoridade. O juiz Dr. Osmar, olhou fixamente para Jerônimo e sua voz foi ouvida:
            – Senhor Jerônimo, seus problemas apenas começaram. O senhor está preso sob a acusação de ser o mandante do atentado ocorrido contra a pessoa de seu vizinho Senhor Onofre Pires.
            – Eu não tenho nada a ver com isso, doutor.
            – Os executores do atentado confessaram e ambos disseram que quem os contratara era o senhor. O seu advogado poderá procurar os seus direitos, mas nesse momento o senhor irá daqui para a cadeia. Sargento, pode prender o acusado.
            Os policiais se aproximaram para cumprir a ordem do magistrado. Nesse momento o advogado se interpôs e dirigindo-se ao juiz falou:
            – Permite uma palavra, meritíssimo?
            – Depois no meu gabinete. Agora seu cliente irá para a detenção.
            – Meu cliente se compromete a comparecer para depoimento e não se ausentar enquanto o inquérito não estiver concluido.
            – Ele fugiu e se escondeu por mais de uma semana. Tentamos exaustivamente encontrá-lo sem resultado. Poderia ter se apresentado antes e poderia ter obtido o benefício legal. Por ora ele é considerado fugitivo e não há como atender ao seu pedido.
            Estevão voltou-se para Jerônimo e falou a ele:
            – Acompanhe os policiais e não crie problema para não agravar a situação. Vou ver o que consigo fazer para tirá-lo da cadeia.
            – Eu sou inocente, doutor.
            – Não teime e faça o que eu disse. Se tentar resistir, vai apenas piorar as coisas.
            Diante da situação Jerônimo estendeu as mãos e permitiu ser algemado. Naquele momento seu íntimo fervia de ódio. Sair escoltado e algemado do forum, não estivera em seus planos. Seus homens poderiam reagir e isso o preocupava. Pediu:
            – Doutor Estevão! Por favor avise meus homens que estão lá fora para ficarem quietos e voltar para casa.
            – Faço isso aos air. Vou na frente.
            Os policiais esperaram um pouco dando tempo a que o doutor Estevão chegasse a área exterior e desse o recado aos homens do fazendeiro. Era uma medida preventiva. Não tinham nenhuma chance de enfrentar uma porção de peões armados e dispostos a defender o chefe. Poderia resultar uma carnificina. O resultado seria altamente imprevisível. As pessoas residentes e em trânsito pelo lugar não deveriam ser expostas à nenhum risco.
            Ao julgarem que o recado for a dado e o risco era mínimo, iniciaram o deslocamento até o exterior, no patio do forum, embarcando numa viatura. Dali sairam sem demora rumo a delegacia, onde eram esperados por uma equipe de interrogatório a quem entregariam o detido.
           
            – Viu lá, coronel? Estão levando o seu vizinho para a delegacia.
            – Naquele jipe? Esse juiz é porreta!
            – Ele não é sopa. Tem a mão pesada, quando se trata de punir transgressors da lei.  
            – Preciso lhe dar os parabéns, doutor. O senhor foi brilhante. Não deu chance ao advogado dele. Ele pensou que tinha um trunfo com aquele mapa falso, mas se deu mal. Vi a cara do juiz quando olhou para os dois papéis.
            – Montamos um processo perfeito e não havia como perder a questão.
            – O senhor acaba de merecer cada centavo que vou lhe pagar pelo serviço. Será meu advogado de hoje para frente.
            – Obrigado, coronel. Vamos para o escritório. Depois tenho algumas providências a tomar para amanhã.
            Onofre chamou o empregado mais categorizado informando que acompanharia o doutor José Silvério e deveriam segui-los de longe. Em pouco tempo voltariam para a fazenda.
            Já no gabinete de José, sentaram-se e Onofre puxou do bolso o talão de cheques.
            – Pode falar quanto lhe devo, doutor.
            José tinha na gaveta uma anotação das custas, discriminando cada parte. Despesas com material, taxas, distribuidor público e demais gastos, acrescido dos honorários considerados justos para o caso. Estendeu o papel ao cliente que o pegou para ler. Estava ali discriminado tudo que teria que pagar. Franziu o cenho e depois se pos a preencher um cheque, assinou, destacou do talonário. Estendeu ao advogado que o recebeu e olhou de volta inquisitivo. O valor constante no documento era maior que o total das despesas.
            – A diferença é uma gratificação especial para seu trabalho muito bem feito.
            – Eu já cobrei o que era justo, coronel. Isso não é certo.
            – Quer que eu faça dois cheques, separando a gratificação?
            – Não é isso. É que não acho certo receber mais do que é a conta.
            – Considere um presente. O Jerônimo vai ter mesmo que me pagar esse gasto.
            – Digamos que isso seja um adiantamento pelo próximo serviço, coronel.
            – Estamos certos então. Vou andando para chegar em casa de dia claro. Não gosto de andar por aí de noite.
            – Leve lembranças a dona Lourdes e a senhorita Isabel.
            – Pode deixare que me encarrego disso. Elas vão ficar satisfeitas com o resultado da audiência. A Isabel anda entusiasmada com a exposição. Já tiraram um monte de retrato, fizeram um álbum complete para divulgação.
            – A exposição tem tudo para fazer sucesso. O próximo passo vai ser levar tudo isso para a capital. Depois quem sabe, São Paulo, Europa, Estados Unidos.
            – Vamos devagar, doutor. Não ponha minhoca demais na cabeça de minha filha.
            – Não é minhoca. É a verdade. O senhor vai ver. Vai ter uma filha sendo projetada no mundo da pintura. E não falta muito. No mês que vem e pronto. Passa rápido.
            – Passar bem, doutor. Vou indo.
            – Se cuide, coronel. O senhor foi ferido há poucos dias.
            – Pode deixare que a minha Lourdes cuida disso como se eu fosse uma criança.
            – Ela tem razão em cuidar bem. Sabe o valor que o senhor tem.
            O coronel foi encontrar seus homens do lado de fora. Em segundos todos embarcaram nos veículos e foram embora. Iam atentos a qualquer coisa diferente que fosse vista nos lugares que poderiam servir de tocaia. O coronel escapara barato da primeira vez. Numa segunda tentative poderia não ser tão bem sucedido. Tinham por ele muita consideração e estima. Mas a viagem transcorreu sem maiores novidades.
            José Silvério foi até o gabinete do director da empresa de advocacia e foi cumprimentado pela bela vitória no tribunal. Tinha sido arrasador na montage e preparação do processo. Não diexara nada escapar, fechara todas as saidas e o resultado estava ali. O cheque foi entregue e a diferença de valor explicada. O chefe concordou em que essa diferença lhe cabia por seu desempenho. Fariam a separação do percentual que cabia à empresa, sendo o restante creditado nos haveres de José. Trocaram algumas informações sobre processos em dandamento e José voltou a sua sala. Ainda tinha trabalho por fazer.
            Para sua sorte a audiência não se estendera além do normal e podia perfeitamente concluir seu trabalho pendente até o momento de voltar para casa. Não teria necessidade de fazer serão, ou levar processos para casa. Queria comemorar com a família aquela vitória. Havia atuado em diversos processos naqueles últimos meses e em sua maioria obtivera êxito no que se tinha proposta. Apenas em dois casos os clientes haviam ocultado informações importantes e isso causara uma sentença desfavorável. Se houvessem sido francos, ele teria como encontrar uma forma de amenizar o dano, mas a ocultação apenas fizera ele perder a causa.
            Mesmo sendo sua remuneração básca garantida por contrato, era frustrante receber uma sentença contrária do esperado. Fazendo um balanço até aquele dia, tivera muito mais êxitos do que fracassos. Até mesmo esses não eram consequência de sua inaptidão, mas de falta de sinceridade dos clientes no relatar os fatos em discussão.
            Encontrou os pais em casa e os convidou para irem a um restaurante jantar. Queria oferecer uma refeição diferente aos familiares depois da vitória daquele dia. Foi cumprrimentado e em pouco tempo estavam a caminho de uma casa típica que servia comida ao puro estilo mineiro. Comeram e beberam vinho até sentirem uma leve tontura. No retorno para casa, José foi especialmente cauteloso no dirigir. Sabia que a bebida inibe os reflexos e não queria terminar o dia com um acidente. Percorreu a distância até a casa com redobrada precaução. Chegaram sem contratempos e foram dormir.
            No dia seguinte todo o escritório estava ciente da fragorosa vitória de José na questão do litígio de divisas entre os fazendeiros. Cada um dos colegas fez questão de vir até ele cumprimentar pelo feito. Estava alcançando uma notoriedade considerável em um curto espaço de tempo. Habitualmente os novos membros da equipe alvançavam resultados mais expressivos após um ou dois anos de prática. Estavam diante de um craque do direito. Os donos do escritório conversaram e decidiram indicar seu nome para atuar em causas consideradas complexas. Haveria sempre a possibilidade de um resultado, se não de vitória, mas de minimização de prejuizo, tendo alguém de maior habilidade na linha de frente do processo.
            Enquanto isso doutor Estevão quebrava a cabeça, lendo e relendo sentenças e mandados judiciais antigos para vislumbrar uma brecha que permitiria tirar Jerônimo da prisão. Sabia que dependia de sua soltura a obtenção de seus honorários e também deveria providenciar o recurso ou então tentar um acordo, ulterior à audiência e pagar as custas do processo de ambos os lados. Com ele na prisão, não havia como receber. Não lhe seria permitido ir ao banco sacar dinheiro, nem teria nas mãos talonário de cheques para fazer o pagamento.
            Depois de muito estudar, ler todos os processos que dispunha ao alcance das mãos, uma luz brilhou no seu cérebro. Proporia ao juiz a realização de um depósito em dinheiro como garantia de que o cliente não se furtaria às sessões de audiência e nem se ausentaria da região. Ligou ao Dr. Osmar e agendou um encontro para conversarem. Um pouco a contragosto o magistrado acedeu ao seu pedido e ele foi para lá esperançoso. Falara com Jerônimo sobre sua ideia este não gostara muito da coisa, mas concordara, pois não tinha vocação para passarinho. Não suportava gaiola.
            Com os trunfos na mão, Estevão foi até o forum onde iria se encontrar com o juiz ao final do expediente. Esperou um pouco e depois foi levado à presença do homem. Foi prudente na exposição do assunto e tentou ser persuasivo ao máximo. Com calma explicou que o cliente tinha necessidade de ter o mínimo de liberdade para poder administrar sua propriedade. Caso contrário não teria como sequer arcar com as custas do processo, pagar a indenização determinada. Tampouco teria como se defender da nova acusação. No final saiu de lá com um mandado de soltura, assinado por Dr. Osmar, mas deixava um documento assinado responsabilizando-se pelo preso, bem como pelo depósito do valor combinado em nome da justiça, como garantia, além da fiança que for a fixada.
            Chegou na delegacia com os documentos e em alguns minutos saia dali com Jerônimo. Embarcaram no automóvel do advogado e foram para a fazenda. No caminho Estevão repetiu pela enésima vez os compromissos assumidos e, caso Jerônimo lhe criasse problemas, ele seria o primeiro a providenciar para que fosse preso novamente. Poderia procurar outro advogado para prover sua defesa nesse caso de atentado. Jerônimo escutou quieto, remoendo intimamente a raiva. Aos poucos se tranquilizou e lembrou das palavras que seu pai costumava dizer:
            – Filho, quem anda direito, não tem o que temer. Já quem faz o mal aos outros, acaba fazendo isso a si mesmo. Seja sempre honrado e direito.
            Ele em seus anos de juventude se deixara desencaminhar por más companhias e assim prosseguira até hoje. E estava colhendo o que plantara. A imagem do pai não lhe saia da cabeça. Pelo menos o doutor Estevão conseguira livrá-lo da cadeia e poderia por os pensamentos em ordem depois de dormir direito naquela noite, coisa que não conseguira na cama desconfortável da cadeia. Chegaram na propriedade por volta de nove horas da noite e os peões vieram saber das novidades. Estevão estranhou a calma e serenidade de Jerônimo ao falar com o capataz. Parecia mudado e ficou de sobreaviso. Estaria ele articulando alguma artimanha?
            Entraram e a cozinheira que estivera igual barata tonta na ausência do patrão, se apressou em providenciar alguma coisa para os dois comererm. Estevão não recusou pois estava há horas sem por nada no estômago. Comeram e depois sentaram para conversar mais um pouco. Tudo foi repassado novamente e Jerônimo entregou a Estevão um cheque para cobrir as despesas iniciais e falou:
            – Estive pensando na vinda para cá e lembrei de meu pai. Eu parecia ver o rosto dele me falando para andar direito, não fazer mal aos outros e eu não quis ouvir. Hoje estou pagando o preço.
            – E isso significa o que, Jerônimo?
            – Vou me esforçar para mudar. Primeiro preciso entrar num acordo com o coronel Onofre para acertar essa questão da indenização. O juiz pegou pesado, mas se a gente negociar talvez possa redizir isso, num acordo por for a.
            – Não sei, amigo. Mas podemos tentar.
            – Será que ele aceita retirar a queixa do atentado?
            – Duvido muito, mas não custa nada tentar. O pior que pode acontecer ouvir um não e pronto.
            – Preciso mudar, ou vou acabar mofando na cadeia e a fazenda vai para o barro.
            – Isso é verdade. Sem a mão firme do dono não vai para frente.
            – Eu quero acertar as contas com a justiça e depois andar direito. Será que o agrimensor já foi embora?
            – Acho que sim.
            – Tive medo que o juiz mandasse prender ele também. Paguei para ele falsificar aquele mapa.
            – É o que eu desconfiava e ficou demonstrado na audiência pelos depoimentos e documentos do coronel.
            – Pensei que um documento novo ia enganar ele. Mas não caiu na cilada. Ainda bem, pois seria mais um peso na consciência.
            – Se o juiz queria mandar prendê-lo perdeu a chance, pois duvido que ele ainda esteja na cidade. Deve ter saido dali voando, depois de ver a coisa preta.
            – Se ele quiser algum tipo de acerto depois me entendo com ele. Não vai poder pedir muita coisa, pois também agiu errado. Eu paguei e ele executou o serviço.
            – Por isso pensei que ia sobrar para ele no dia, mas parece que Dr. Osmar não estava interessado em peixe miudo.
            – E ele me pescou direitinho. Mas vamos combinar uma coisa. Procura o advogado do coronel e propõe um acerto dessa indenização. Depois sonda sobre a retirada da queixa, assim meio por cima para não ofender o homem.
            – Amanhã cedo vou começar por acertar as questões de dinheiro e depois dou um jeito de falar com o doutor José Silvério. É advogado novo, mas tinhoso que só. Ganhou quase tudo que é causa que pegou. É o caçula dos Advogados Associados, mas pelo tipo já dá sova até em gente escolada de anos.
            – Então tem que ser mais cuidadoso ainda. Vai com calma para não espantar a caça.
            – Quer dizer que é sincera sua intenção de mudar de vida?
            – Sincera. Tão sincera como nada que eu disse antes em minha vida. Estou falando de meu futuro. De repente me dei conta de que o futuro ia ser pior do que isso. Apenas dois dias na cadeia foi bastante.
            – Não garanto conseguir livrar sua cara nesse outro processo. Atentado, tentativa de homicídio é coisa grave, homem.
            – Eu sei, eu sei. Mas não tem como voltar atrás. O que está feito, está feito. Temos que encontrar um meio de sair da melhor maneira desse atoleiro.
            – Espero que o juiz acredite na sua boa vontade. Isso será meio caminho andado. Se ele “comprar” sua disposição, temos uma boa chance de amenizar a situação.
            – Estou disposti a conversa pessoalmente com o coronel, se for preciso. Só não sei se ele vai aceitar se encontrar comigo. Deve estar mais ressabiado que bicho acuado.
            – E com razão. Quem levou um tiro foi ele e teve sorte de ser na perna. Se pega mais para cima, a coisa ia complicar para ele.
            – Graças a Deus. Assim temos uma possibilidade de dar um jeito. Se o homem more, adeus. Nem sei o que ia dar em mim. Se tivesse que ficar alguns anos na cadeira, morria muito antes de terminar o tempo.
            – Ótimo, Jerônimo. Eu vou indo, pois tenho muito trabalho para amanhã. Pense bastante e se continuar com as mesmas intenções mande me avisar.
            – Carece não pensar mais. Estou decidido.
            – Então boa noite. Qualquer coisa diferente mande me avisar. Não me faça nenhuma surpresa nem bobagem.
            – Pode deixar doutor. Aprendi a lição. Não quero mais desse remédio.
            – Vou ter prazer em ser seu advogado depois dessa mudança. Com certeza as causas vão ser mais fáceis de ganhar do que essa que perdemos.
            – Essa não tinha chance desd’um começo, acho eu.
            – Olhando agora, só se pode chegar a essa conclusão. Na forma como me foi apresentada, parecia favas contadas.
            – O errado fui eu. Fui falso, menti, fiz coisa errada e é justo pagar por isso, por mais que doa no bolso. Na cara também. Mas vou ter que encarar o povo e ir em frente.
            O doutor Estevão embarcou em seu carro e dirigiu aliviado pelo caminho de retorno para casa. Ainda tinha algumas dúvidas se o cliente iria mesmo mudar de vida. A modificação havia sido um tanto brusca e poderia ser que na manhã seguinte tivesse mudado compeltamente de opinião. Dormiu aliviado e logo cedo estava na rua correndo para dar conta de tudo que tinha a fazer no dia. Passou no escritório, conferiu com a secretária a agenda do dia para não deixar passar alguma audiência que tivesse marcada. Não podia dar-se ao luxo de perder clientes. Por sorte aquele dia não tinha nenhum compromisso no forum.
            Depois de cuidar das questões relativas ao dinheiro, sentou-se em sua sala e procurou na lista de telefones o número da Advogados Associados. Discou e depois de três toques do aparelho, a secretária atendeu:
            – Alô, advogados associados, boa tarde!
            – Boa tarde, senhorita. Seria possível falar com o doutor José Silvério?
            – Quem devo anunciar?
            – Eu sou doutor Estevão, ele me conhece.
            – Vou ver se pode lhe atender. Aguarde um momento.
            Levantou o interfone e apertou a tecla correspondente à sala de José e logo ouviu:
            – Sim, Roberta.
            – O doutor Estevão está ao telefone e quer falar com o senhor. Posso passar a ligação?
            – Pode passar.
            (Que será que o advogado do vizinho de coronel Onofre iria lhe propor?)
            – Doutor Estevão? Doutor José vai falar com o senhorr.
            Transferiu a ligação e José Silvério atendeu:
            – Alô!
            – Doutor José! Sou seu oponente de outro dia. Poderíamos nos encontrar para conversar?
            – Sobre o que seria?
            – Meu cliente, senhor Jerônimo, quer fazer um acordo com o coronel Onofre.
            – Mas por que ele não falou na hora da audiência?
            – Ele estava muito brabo e não pensava direito. Hoje consequi livra-lo da cadeia e ele está mais calmo. Decidiu mudar de vida e quer um acordo par acertar todas as contas.
            – Mas isso não devemos tratar por telefone. Me procure amanhã, ao final da tarde, aqui na minha sala. Sabe o endereço, ou não?
            – Sei sim, colega. Por volta das cinco horas?
            – Isso mesmo. Vou deixar minha agenda livre para não ter nada a incomodar.
            – Obrigado, colega. Não irá se arrepender de me receber. Me tornei seu admirador, pode ter certeza.
            – Até amanhã, então, doutor Estevão.
            O telefone foi desligado e José Silvério permaneceu alguns minutos pensativo. O que teria feito o homem tão arrogante e autoconfiante mudar radicalmente de opinião? Poder-se-ia confiar nessa mudança? Não caberia nem a ele decidir. O seu cliente iria tomar essa decisão e ele apenas serviria de mediador. O que não lhe entrava na cabeça era o fato de que o homem rejeitara qualquer possibilidade de conciliação e agora a propunha, quando a sentença estava lavrada, aguardando eventual recurso.
            Decidiu sentar com o superior e se aconselhar. Estava literalmene perplexo diante dos fatos. Levantaram todas as hipóteses possíveis, analisaram todos os ângulos e mesmo assim não puderam tirar um consenso. Teriam que palmilhar o caminho com todo cuidado possível. O chefe, em longos anos de exercício do direito, vivenciara diversas situações, umas até bastante difíceis de entender. Porém nunca se deparara com nada assim. Uma mudança tão radical era um bocado difícile de engolir. Deveria existir uma motivação forte por trás disso ou então ali havia uma grande e sutil armadilha. O advogado não era dos mais renomados na cidade. Atuava de modo geral em causas de menor relevância, defendendo pessoas de reputação duvidosa, ou então de menor poder aquisitivo. A prudência recomendava cautela.
            Na hora marcada, lá estava o Dr. Estevão Camposd, disposto a dialogar com seu colega Dr. José Silvério. Vinha a mando do cliente, objetivando uma negociação extrajudicial. objetivava conseguir um acerto mais vantajoso na solução da pendência criada com a sentença imposta pelo juiz.
– Boa tarde, caro colega! – cumprimentou.
            – Boa tarde. Sente-se por favor, – indicou uma poltrona confortável. – Bons ventos o tragam a esse humilde escritório.
            – Quanta modéstia. Se isto aqui é um humilde escritório, imagino o que seria um escritório luxuosamente instalado. Creio que não devemos mais desperdiçar nosso tempo com rodeios. Estou aqui, trazendo uma proposta do meu cliente, dirigida ao seu cliente em vista da solução satisfatória da pendência entre eles.
            – Concordo e sou todo ouvidos. Faça o obséquio de apresentar a proposta. Mas aviso que não será possível um acerto aqui, sem a aquiescência do meu cliente.
            – Evidente. Estou ciente disso. Meu cliente está passando por um mau momento financeiro. A queda no preço da arroba do boi gordo, somada com alguns insucessos com investimentos feitos na bolsa de valores, deixaram o Sr. Jerônimo impossibilitado de fazer frente as despesas com a indenização e demais custas. Ele propõe pagar a indenização de forma parcelada em doze vezes. Vencendo a primeira em cento e vinte dias. A questão dos limites poderá ser resolvida dentro de aproximadamente seis meses.
– Está bem. Entrarei em contato com o coronel Onofre e o informarei da resposta. Talvez possamos combinar um encontro numa das propriedades para dirimir essas divergências. Quem sabe conseguimos reconciliar esses vizinhos. Não faz muito sentido brigarem por questões tão pequenas. Em situações de emergência, podem ser os primeiros a prestar auxílio, providenciar socorro.
            – Quanto a isso, não sei se há alguma chance, mas nada custa tentar. Vou aguardar suas notícias. Já é tarde e ainda tenho algumas coisas a fazer. Até mais ver, colega.
            Estendeu a mão que foi apertada calorosamente. Depois saiu e disse adeus à secretária. Roberta olhou interrogativamente para José que logo depois apareceu na porta, parecia dizer:
            – O que aconteceu com ele? Chegou com cara de desconfiado e arredio. Ao sair estava que era só sorrisos.
            – Ele veio propor um acordo do cliente dele com o meu, o coronel Onofre.
            – O do atentado.

 

            – Esse mesmo. Não sei, mas vamos ver o que o coronel decide sobre isso. 

Gaúcho de São Borja! – Capítulo XII

Vista aérea da Expointer (Esteio, RS)
Bandeiras nacional e estadual na Expointer.

 

Outra tomada da mesma vista.

 

Parque de exposições e arredores.

 

   Preparando as mudanças.
O dia seguinte foi repleto de atividades na fazenda. O gado requeria seu manejo constante. Havia vacas parindo precisando de atendimento, lotes de novilhos a serem separados, levados para pastos menos batidos, um sem fim de cuidados. O plantio de arroz precisava ser concluido com o adubo e a semente descarregados naquela manhã. O dia terminou deixando muito por fazer nos próximos. Depois da ordenha, tendo Gaudêncio novamente presente, prestando atenção em tudo. Isso levou Maria Conceição a pensar sobre o assunto.
O que estaria levando o filho a tomar aquela atitude? Dava a impressão de ter algum plano em mente. Estava amadurecendo alguma coisa. Aprendera a respeitar Pedro Paulo quando se encontrava em situação semelhante. No momento certo falaria e lhe daria ciência de seus pensamentos. No momento do chimarrão antes do jantar, conversavam sobre os trabalhoss do dia, quando em dado momento Gaudêncio falou:
– O padrinho gostou da ideia de modernizar o nosso sistema de ordenha das vacas. Peguei informações hoje com o veterinário e fiquei sabendo coisas bem interessantes.
– Que história é essa filho? – quis saber Pedro Paulo.
– Eu tinha falado com a mãe sobre o assunto. Li outro dia numa revista lá na cooperative sobre ordenhadeira mecânica e fiquei curioso. Hoje dei um toque no padrinho e ficou interessado.
– E isso funciona? Ouvi dizer que dá muito problema essas tal de máquina de sugar leite dos tetos das vacas.
– Tem as técnicas a seguir, os cuidados de higiene que precisam ser seguidos e tudo sai direito. O padrinho vem no fim da semana e vamos conversar melhor sobre isso.
– Você me prometeu que não vai ter gente demitida. Cada um dos meus ajudantes é quase como um filho para mim. Não vai me mandar um mundareu de gente embora que aí eu vou junto.
– Eu prometi e está prometido, mãe. Pode ficar tranquila.
– Mas vai ter que construer instalação nova para isso, ou não? – perguntou Pedro.
– Tem sim, pai. Mas isso um engenheiro projeta. Até mesmo a firma que vende as máquinas fornece o básico.
– E compensa gastar um dinheirão nisso? Não é pouca vaca para tanto investimento?
– Eu estou matutando uma maneira de aumentar nosso plantel de vacas. Se o padrinho concordar, nós transformamos aquela área de invernada que fica meia abandonada lá do outro lado do rio, fazemos um lugar fácil de atravessar e podemos colocar mais umas 40/50 vacas para dar leite.
– Não é muito isso, filho? Nós vamo dar conta de tanta teta?
– Nós não mãe, mas as máquinas sim.
– Bem filho. Estou aqui para trabalhar e vocês é que planejem aí essas mudanças. Vamos jantar que está pronto.
Sentaram-se e jantaram, continuando a comentar o assunto das mudanças no setor leiteiro da fazenda. Ao terminarem a refeição, prosearam mais alguns minutos e foram para as suas camas. Gaudêncio estava ansioso por ler mais umas páginas do livro. Estava no ponto em que Ana Terra e junta a uma caravana e deixa para traz o lugar onde nascera. Queria saber o que aconteceria na continuação. Voltou rapidamente para a casa grande e serviu-se de um copo de vinho. Enquanto lia bebericava a bebida. Ficou de olho no relógio para não passar da hora. Era muito bom ler, mas não até tarde demais. Enfrentar o dia de trabalho com sono era péssimo.
Na manhã seguinte estava em pé logo cedo. Foi assistir à continuação do plantio de arroz que fora interrompido por falta de sementes e adubo. Graças a Deus o tempo estava ajudando. Com mais alguns dias toda área estaria plantada, permitindo então um pouco de descanso. Antes disso os tratores roncavam dia e noite, com os operadores se revezando. Haviam montado uma verdadeira operação de guerra para conseguir terminar o plantio. Um alojamento e cozinha haviam sido montados perto da área para que os trabalhadores não precisassem se deslocar longe.
A reposição de semente e adubo nas plantadeiras funcionava que nem linha de montagem. O operador nem desligava a máquina, descendo apenas para beber água, comer alguma coisa e fazer suas necessidades. Ao voltar tornava a embarcar e voltava ao eito para continuar semeando. Gaudêncio imaginou uma foma de evitar que fosse necessário deslocar a máquina até o depósito e depois voltar. Deu ordem aos operadores que estavam de folga para trazerem ali os tratores mais antigos que não eram usados no plantio. Serviriam para puxar as carretas com sementes e adubo para uma posição mais próxima de onde os outros estivessem plantando. Isso pouparia um tempo precioso.
Foi obedecido e logo ficou visível o aumento do rendimento do serviço. Se continuassem no rítmo em que estavam, era provável terminarem um ou até dois dias antes do previsto. Realmente foi isso que aconteceu. Ao meio dia, terminaram o serviço e havia previsto que isso aconteceria na noite seguinte apenas. Fora a estratégia de Gaudêncio que fizera a diferença.
No sábado anterior Joaquim viera para a fazenda e permanecera ali até o término do plantio. Falara com o afilhado que providenciou carne para a feitura de churrasco em abundância para todos os trabalhadores. Nesse meio tempo passaram algumas horas trocando ideias sobre o assunto que estava ocupando os pensamentos de Gaudêncio. As tais ordenhadeiras. Falou ao padrinho de suas ideias para dispor de mais pasto e poder colocar uma quantidade maior de animais na produção de leite. Valeria mais a pena comprar uma máquina maior, proporcionalmene mais barata, desde que houvesse leite para tirar.
Aproveitaram para irem até o local que ele tinha em mente transformar em pastagem. Olharam detalhadamente, percorreram de lado a lado, observando os detalhes do terreno, as dificuldades que iriam encontrar. Tudo pesado, colocando os pros e contras, valia a pena tentar fazer o que estava sendo sugerido. Joaquim vira na televisão que nas proximidades de Porto Alegre seria realizada uma grande exposição de gado. Tanto de corte como de leite. Nessas ocasiões também são apresentados equipamentos úteis nessas atividades. Seria interessante fazerem uma visita a esse evento.
A data marcada era logo depois do feriado de início de novembro. Uma ideia fulgrou na mente de Gaudêncio. Poderia visitar a namorada e aproveitar para ir até a feira. Levaria a família junto e passariam lá um ou dois dias, vendo tudo, conhecendo equipamentos e animais. Propôs o plano a Joaquim que gostou e falou:
– É conveniente irmos juntos a essa feira. Podemos até negociar vacas, máquinas e tal ali mesmo. Sempre tem preços especiais, facilidades de financiamento. Vamos sim.
– Eu vou antes do feriado para visitar a Ângela. Vamos juntos de avião mesmo. Eu tenho uns amigos por lá e me ajeito enquanto você namora.
– Combinado padrinho. Eu peguei um livro na estante que era da madrinha e comecei a ler. Sabe que estou gostando um bocado. Nunca imaginei ser tão bão ler.
– E como andam os estudos para voltar a escola?
– Estou pra lá da metade das apostilas. Está cada vez mais fácil. Foi o tempo de tirar a poeira e ferrugem para tudo voltar, mais fácil que antigamente.
– Isso é bom. Estou vendo que vai se sair bem na escola.
– Acho que quando a gente sente vontade de aprender, fica mais fácil. Antigamente eus ó queria saber de montar a cavalo, correr pelos campos, ver o arroz crescer. Como eu gostava de catar ovo de Quero-quero. Eles ficavam uma fera comigo e com os moleques que iam junto.
– Os tempos mudam, Gaudêncio.
– E como. Só de pensar em coisa de uns meses para trás e hoje, quanta diferença.
– Agora você está virando homem de verdade. Esta amadurecendo para a vida.
– Isso deve de ser verdade, padrinho. Um ror de coisas que eu gostava, hoje não me atrai mais. Tem coisas mais importantes para me ocupar.
– Principalmente um belo rabo de saia, com um lindo par de olhos e uma vasta cabeleira.
– Também, mas não é só. Por exemplo essa questão da ordenha. Me deu assim meio que de repente. Via a mãe e os ajudantes naquela lida diária de expremer as tetas das vacas e me deu uma dó.
– Mas foi assim desde o começo do mundo. Hoje temos essas coisas modernas. Imaginou plantar todo aquele mundo de arroz com matraca?
– Virgem Maria! Nem pensar.
– O trator e a semeadeira tornaram tudo muito mais fácil.
– E as ceifadeiras então? Uma delas faz em horas o serviço de centenas de homens trabalhando dias sem parar.
– O mundo de hoje exige que seja feito assim. Na moda antiga não dá mais. Tem gente demais no mundo querendo comer, mas não quer plantar.
– Dá licença que eu vou ler um pouco e depois dormir. Boa noite. A benção padrinho!
– Deus lhe abençoe e boa noite.
Foi até seu quarto, pegou o livro e leu algumas páginas, porém logo os olhos pesaram e decidiu deixar o resto para outro dia. Deitou e dormiu. O feriado seria dali a duas semanas e pouco. Caia numa quarta feira. Joaquim se encarregou de providenciar as passagens no voo da tarde de terça feira. Ângela foi avisada da chegada, perto do anoitecer e ficou ansiosa esperando a primeira visita do namorado depois da estadia na fazenda. Providenciou para que tudo estivesse em ordem. O quarto em que ele iria ser hospedado foi limpo e arrumado. Foi com a mãe ao supermercado fazer as compras dos mantimentos que julgou necessários. Sabia que o padrinho do namorado viria junto, mas ficaria em casa de amigos. Estava animada com a promessa de passar um ou dois dias na feira agropecuária na semana seguinte.
O feriado foi aproveitado para passearem por diversos lugares da capital. Almoçaram num restaurante à beira do Guaiba, degustando diversos pratos de peixe. Depois, aproveitando o fato de a maioria da população procurar os cemitérios para prestar homenagem aos entes queridos que ali repousavam, passearam pelo centro sem grandes problemas. As ruas estavam pouco movimentadas, retornando à uma aparente normalidade após as 18 horas. O dia seguinte era sábado, de modo que muitos aproveitavam para, depois da visita ao campo santo, viajarem para o litoral. Iriam aproveitar o tempo ensolarado para descansar nas belas praias.
Ângela e Gaudêncio foram ao cinema onde assistiram a um filme estrelado por Gianni Morandi, ator e ator do cinema italiano. Voltaram emocionados e antes de entrarem no edifício, trocaram o primeiro beijo. Começavam a ficar profundamente apaixonados. Iriam sentir falta da mútua presença nos dias em que ficariam afastados depois da volta dele para a fazenda. A noite passou e no sábado era inagurada a feira na cidade vizinha. A distância era pequena. Combinara com Joaquim encontrarem-se antes de se dirigir para lá. O padrinho alugara um carro e seguiriam juntos. Os pais de Ângela iriam somente no domingo. Um amigo vinha lhes fazer visita no sábado.
Máquinas na Expointer.

 

Maquinas e veículos.

 

 

Vista do entorno do parque de Esteio.
Exposição de cuias para chimarrão.
 
 
Chegaram cedo para estarem presentes ao ato inaugural da feira. Houve show de músicas típicas, danças, desafio de repentistas, uma banda fez uma apresentação de meia hora. Era um evento grandioso e tudo que de mais moderno existia no mercado relacionado com o setor estava repesentado. Os maiores criadores e produtores do estado estavam presentes, mostrando seus produtos, competindo pelos prêmios nas diversas categorias de animais. O espaço onde estava instalada a feira era enorme, sendo necessário um bocado de tempo para percorrer todos os setores.
A grande variedade de produtos expostos atraia tanto curiosos, quanto interessados em sua aquisição. Paralelamente estavam presentes postos de atendimento bancário para encaminhar financiamentos pelos agentes financeiros públicos e também os privados. Disputavam os potenciais clientes, distribuiam farto material de propaganda, brindes, cafezinho, a indefectível cuia de chimarrão não poderia faltar. Uma incontável quantidade de grupos se formava ao longo dos corredores, cada um querendo chegar na vez primeiro para tomar uma cuia. Até as indústrias de erva-mate estavam presentes, divulgando seus produtos, fazendo degustação e distribuindo pequenas embalagens com os produtos, suficientes para fazer um mate.
O sábado foi consumido em apenas percorrer as principais áreas da exposição. Queriam localizer os seus pontos de interesse pra nos dias subsequentes sentar com os possíveis vendedores e negociar, fazer propostas, discutir condições. Mas antes de nada queriam conhecer todos os detalhes de tudo que lhes interessava adquirir. Teriam a semana inteira pela frente para isso. Pedro Paulo e Maria Conceição se encarregariam de cuidar de tudo na fazenda. Podiam pois gastar o tempo necessário para a realização eventual de negócios, ou pelo menos deixá-los entabulados.
A noite de sábado pegou aos três bastante cansados e cuidaram de ir para cama cedo. Queriam estar bem dispostos no domingo para ver o resto da feira e depois começar a procurar o estabelecimento de negociações. Haviam se enganado, pensando que faltava pouco para ver. Quando se deram conta era meio dia e ainda não haviam tido oportunidade de procurar os vendedores de equipamentos que lhes interessavam. Em um restaurante ao ar livre almoçaram um bom assado de costela em fogo de chão. Logo depois de se sentirem satisfeitos, partiram para o lado dos vendedores de equipamentos.
Havia duas marcas de ordenhadeiras e seus acessórios. Vários tamanhos e modelos, com os preços igualmente variando em diversos níveis. Os vendedores se esmeraram em atendê-los, explicando, demonstrando e fazendo cálculos para aquisições à dinheiro, financiado por banco ou diretamente com a empresa. Sairam do primeiro e foram ao segundo. As ações se repetiram com poucas variações. Ainda tiveram tempo de ver máquinas de cortar e picar forragem para preparação de silagem. A produção de leite habitualmente caia nos meses de inverno, devido ao empobrecimento das pastagens devido ao frio. Isso implicava na necessidade de prover forragem de volumosos e assim manter a produtividade num bom nível.
Ao se retirarem no início da noite estavam carregados de prospectos, folhetos, cartões de visitas, orçamentos, com todas as informações que necessitavam para efetuar as possíveis compras. A segunda feira seria dedicada a procurar um reprodutor ou dois para o gado de corte. Queriam ver também a disponibilidade de novilhas em ponto de cobertura ou mesmo cobertas para ampliar o plantel de matrizes leiteiras. Um reprodutor de alta linhagem também era interessante para alcançarem um padrão de maior produção por cabeça. Isso significava lucro futuro. A era das chamadas vacas “pé duro” estava ultrapassada. O mesmo trato consumido por uma delas alimentava uma outra de alta produtividade. Evidentemente os animais de raça exigiam um cuidado maior do ponto de vista fito-sanitário, mas sua produção maior compensava essas necessidades.
Na segunda-feira Ângela não os acompanhou. Tinha aulas da escola de magistério que frequentava. O final do segundo ano estava se aproximando e exigia caprichar para não perder o nível de seu rendimento alcançado até aquele momento. Haveria tempo de se verem à noite. Poderiam assistir uma sessão de teatro, ver um filme na televisão e mesmo conversar. Tinham tanto a se dizer, ouvir de suas vidas, seus sentimentos. Era importante terem esses momentos de tranquilidade para se conhecerem suficientemente. Se houvesse disposição para seu relacionamento evoluir de simples namoro, transformando-se em noivado ou talvez casamento, o máximo de conhecimento que tivessem um do outro era fundamental.
Ângela, apesar de sua juventude, havia sido muito bem orientada pelos pais. Sabia o que buscava para sua vida. Não dava valor a futilidades. Depois de um dia intenso de conversas, observação, propostas e contrapropostas, voltavam novamente com as mãos cheias de papéis, fotografias e folhetos. Joaquim deixou Gaudêncio na portaria do edifício e foi descansar. Ângela estava na sacada quando o carro parou e ela viu saltar o seu amado. Imediatamente desceu pelo elevador e encontrou Gaudêncio no momento que ele entrava pelo saguão.
– Boa tarde meu bem!
– Boa tarde, querida! Só não estou em condições de lhe abraçar. Passei o dia no meio de vacas, touros e novilhas. Devo estar cheirando a qualquer coisa, menos perfume.
– Até que nem é tão forte assim.
– Mas estou louco por um banho e roupa limpa.
– Vai querer ir a algum lugar ou prefere ficarmos em casa?
– Deixe-me pensar um pouco. Logo depois do banho eu decido. Nesse momento meu cérebro nem está funcionando direito. Está quente e o dia inteiro no meio daquela multidão, deixa a gente grudento.
– Deixe-me ver se fico grudada.
– Não faça isso, amor. Estou sujo e você está cheirando a flôres. Sua roupa limpa.
– Posso trocar de roupa depois, se essa ficar suja.
– Coitada da sua lavadeira!
– Quem faz esse serviço é a máquina de lavar.
– Está aí uma coisa que vou providenciar para minha mãe. Ela já tem tanto trabalho e uma máquina de lavar roupas, virá a calhar para aliviar a carga.
– Ótima ideia, amor. Fiquei com pena dela e das empregadas encarregadas de lavar a roupa quando estivemos lá. Não falei nada, pois não era de minha conta.
– Mas você tem razão. Preciso remediar essa falha logo.
Chegaram ao apartamento e nosso enamorado foi tomar seu banho e trocar a roupa. Ao sair do quarto, vinha com aparência mais suave e aliviada.
– Está se sentindo melhor agora, amor?
– Nem te conto! Parece que tirei uma tonelada das costas.
– Venha aqui na sala. Papai fez chimarrão. Quer que você experimente e diga se fez certo. Estamos aderindo ao hábito. Papai tomava chimarrão quando era menino, mas depois ficou muitos anos no norte e perdeu o hábito.
– Vamos lá. Deve estar bom para a primeira vez que faz.
Foram até lá e encontraram o casal as voltas com a cuia de chimarrão. Queriam voltar ao velho hábito, abandonado por força das circunstâncias da vida. Os jovens sentaram e o general estendeu a ele a cuia recém servida. Havia um leve travamento, mas uma pequena movimentação da bomba, foi suficiente para fazer o líquido fluir facilemente. Saborearam alegremente a bebida enquanto dona Lourdes ia e voltava da cozinha onde preparava o jantar. Gaudêncio decidiu não sair, para estar mais descansado no dia seguinte. Conversariam até sentirem vontade de dormir e iriam para a cama.
Depois de algumas rodadas da cuia, a refeição ficou pronta e deixaram a cuia de lado para irem matar a fome. Gaudêncio se dispôs a ajudar Ângela no lavar e enxugar da louça. Com alguma relutância a mãe da jovem aceitou e piscou discretamente para a filha, como quem diz, aproveita para descobrir como ele se comporta numa situação dessas.
Não era novidade para ele lavar ou enxugar louça. Desde menino fizera isso inúmeras vezes para ajudar a mãe. Não era rara a ocasião em que se encarregara de fazer ambas as tarefas quando a mãe estava ocupada com alguma outra coisa, ou mesmo cansada por algum motivo qualquer. Enquanto Ângela lavava ele enxugava cuidadosamente cada peça, colocando-as sobre a mesa, para depois serem guardadas em seus respectivos lugares.
Depois disso, sentaram-se na sala onde os pais estavam vendo TV. Estava sendo transmitido o programa Fantástico. Assistiram até o final e foram dormir. Os namorados tiveram seu momento de liberdade e puderam se dedicar a algumas carícias mais ousadas, embora mantendo o decoro e respeito. Ambos sabiam que se ultrapassassem determinado limite poderiam perder o contrôle e esse não era o objetivo. Conversaram longamente, contando passagens de suas vidas, momentos alegres outros menos, que deixaram marcas em suas almas. Suas reações diante dessas situações mostravam um ou mais aspectos da personalidade que tinham. Esse conhecimento ajudaria a harmonizer sua convivência.
Quando eram 11 h 30min, depois de um prolongado beijo carinhoso, se desejaram bons sonhos e foram dormir em seus aposentos. Na manhã de terça, Gaudêncio tomou café da manhã com o general, despediu-se deles e desceu para encontrar o padrinho. Iria enfrentar mais um dia na feira em busca de animais e equipamentos para aprimorar a produção na fazenda. Quando a noie chegou, tinham adquirido um reprodutor da raça nelor de boa progênie e um outro da raça gir. Haviam visto o resultado do cruzamento de vacas holandesas com touros gir e o resultado eram animais de maior rusticidade, bom potencial de produção leiteira e ainda uma conformação de carcaça mais em acordo com o preferido pelos frigoríficos para o abate.
Os bezerros machos tinham que ter alguma destinação. Quanto maior fosse o valor de mercado depois de grandes e gordos, melhor seria. Decidiram deixar para comprar as fêmeas nas propriedades situadas em pontos mais próximos da fazenda. Evitavam com isso o custo excessivo com o transporte e ainda os riscos que isso implicava. Encontraram expositores até vindos do Uruguai. Traziam animais de raça principalmente holandesa e jersey. Ficava evidente que eles teriam maior dificuldade em se adaptar às condições existentes no campo gaucho. Faltava concluirem a negociação dos equipamentos e deixaram isso para o outro dia.
Naquela noite os namorados acompanharam os pais dela ao teatro para assistir a uma peça apresentada por uma companhia espanhola que estava excursionando pela capital. O enredo era de um dramaturgo espanhol. Era um misto de drama e comédia. Havia momentos de hilariedade alternados com outros de intensa comoção diante das cenas trágicas. Havia um raro equilíbrio entre os dois extremos, dando ao espetáculo um viés de bom gosto e criatividade. Voltaram para casa conversando alegremente sobre as cenas mais marcantes. A duração era um pouco alongada e ao chegarem foram logo dormir.
A terça-feira seria de provas na escola e Ângela estaria livre por volta das 10 horas. O pai falou que viria para casa e levaria a esposa e a filha até a feira. Naquele dia ocorreria a competição de montaria e adestramento de cavalos. Ângela era aficionada dessa modalidade e queria assistir. Assim poderiam se encontrar e passar algum tempo juntos se Gaudêncio já tivesse terminado as negociações que pretendiam fazer nesse dia.
Naquela manhã receberam uma proposta interessante. As vendas de máquinas ainda não atingia o nível esperado e os vendedores apresentaram preços mais acessíveis. Em pouco tempo fecharam o negócio de compra da máquina a ser instalada na fazenda. Faltava a máquina de preparar silagem. Ao lado da empresa das ordenhadeiras havia também uma outra que vendia esse equipamento. A compra foi fechada e a entrega seria feita em dois meses na fazenda. O preço foi financiado pelo Banco do Brasil, com prazo facilitado.
Desfile de amazonas no dia da mulher em Esteio.
Cavaleiros e suas montarias na pista de adestramento.

 

Entrada da pista de adestramento.
Com todos os negócios fechados, os dois foram encontrar a família de Ângela junto ao local das apresentações de hipismo. Gaudêncio passou um longo momento admirando a bela silhueta de sua amada. Ela por sua vez estava empolgada vendo as evoluções que os cavaleiros faziam na pista, de tal modo que demorou a perceber a presença do rapaz. Ruborizou violentamente e pediu desculpas.
– Você quando fica empolgada se torna mais bonita ainda. Eu estava apreciando seu entusiasmo. Estou vendo que vai ser mais fácil se acostumar a viver na fazenda do que imaginei.
– Eu amo animais, especialmente cavalos. Eles são meus preferidos.
– Vou lhe dar um de presente. Assim quando for passear na fazenda poderemos cavalgar. Se não souber eu ensino.
– Ela aprendeu a cavalgar quando era menina. Agora faz algum tempo que não tem oportunidade de exercitar-se na montaria.
– Pena não saber, pois poderíamos ter remediado isso quando estiveram lá.
– Fica para a próxima.

 

Assistiram ao final das apresentações e antes de voltarem para casa, assistiram a um show de músicas típicas. Enquanto viam o espetáculo, aproveitaram para comer num lugar que estava armado ali mesmo, perto do palco. Depois de encerrado o show voltaram para casa. Na quinta feira marcariam as passagens para retornar. Estavam for a há mais de uma semana. 

Gaúcho de São Borja! – Capítulo XI

 

Silos e indústrialização de arroz em São Borja.

 

Instalações industriais de arroz.

 

Sala de controle eletrônico de qualidade.

 

   Mudança radical de vida.
A confirmação do namoro com Ângela, provocou uma mudança radical na vida de Gaudêncio. Até aquele momento não havia demonstrado inclinação para retomar os estudos. Logo na terça-feira procurou as escolas na cidade em busca de informações sobre sua situação e da possibilidade de retorno aos bancos escolares. Havia concluido o quinto ano. Desistira de continuar ao ter que enfrentar o exame de admissão ao ginásio. Julgara muito complicado tudo isso e optara por aprender tudo o que fosse possível do serviço da fazenda. Agora, não estava arrependido, mas disposto a recuperar o tempo perdido.
As mudanças introduzidas na estrutura do Sistema educacional pela LDB nº 5692 em 1969, eliminaram o exame de admissão e assim poderia ingressar sem problemas na quinta série do ensino fundamental. Foi aconselhado a fazer uma revisão dos conteúdos, já um pouco esquecidos das series iniciais. Indagou da forma que poderia usar para fazer essa revisão. Quem o orientava era a secretária da escola e ela disse:
– Espere um instante. Vou ver se encontro uma coisa.
Levantou-se e foi até uma prateleira, onde havia um grande número de volumes, de diverentes formatos, pastas, livros de registros e, num canto, algumas brochuras. Procurou entre elas e em pouco tempo tinha nas mãos dois volumes do antigo curso de admissão ao ginásio. Um era de ciências e matemática, o outro de português, história e geografia. Voltando ao seu assento falou:
– Olhe o que encontrei. Essas são duas brochuras do antigo curso de admissão ao ginásio. Tem o resumo de tudo que precise dominar para acompanhar as matérias da quinta série. As matrículas serão feitas no mes de janeiro. Lhe empresto essas, mas quero que me devolva. Tem valor histórico.
– Eu devolve sim. Se me emprestar vou estudar muito para não fazer feio depois entre a garotada.
– Você não vai estudar com garotos. Os alunos do turno da noite são na maioria de sua idade ou pouco menos. Não vai sentir-se muito deslocado.
– Melhor assim. Pensei que ia ficar no meio de um bando de meninos de 12 anos ou pouco mais. Pelo visto não sou o único que não quis estudar antes e decidiu depois que era preciso.
– E como tem gente nessa situação. Muitos não estudaram por não ter oportunidade ou algum outro motivo.
– Obrigado pelas informações, dona?
– Sou Marlene Dornelles da Costa. Pode sempre contar com nosso apoio. Seu padrinho, o senhor Joaquim, é bem conhecido nosso. Em várias ocasiões nos valeu com sua ajuda.
– Folgo em saber disso. O padrinho tem um coração maior que o próprio peito. Nunca nega ajuda quando pode.
– Leve lembranças a ele e dona Ana Maria.
– A madrinha infelizmente é finada. Faz pouco mais de dois anos.
– Que pena! Seu padrinho deve ter sentido muito a falta da companheira. Eram inseparáveis.
– Ele esteve bem mal po runs par de meses. Meu pai tirou ele da casa da cidade, levou ao médico e depois cuidamos na fazenda. Por sorte se recuperou, viajou e voltou bem disposto. Agora nem se nota que tenha passado tão mal.
– Muito bem, Gaudêncio.
– Vou indo, pois tenho o que fazer e a senhora também deve de ter. Passar bem, dona Marlene.
– Igualmente.
Levantou, estendeu a mão em despedida, depois se retirou. Passou por uma livraria/papelaria e comprou cadernos, lapis, borracha e apontador. Começaria naquela noite mesmo a estudar. Faria um grande esforço para sair-se bem no próximo ano. Ao chegar em casa apresentou o que trouxera e Joaquim lhe parabenizou pela decisão firme. Comentou:
– O que o amor não é capaz de fazer!
– Serviu para me acordar. O senhor tinha me dado uma palavra sobre isso e agora sei que tinha razão.
– Tem meu apoio total.
– Vou repassar os plantios de arroz. Tenho que ver como estão os terrenos na preparação. Não podemos perder tempo com atrasos.
– Isso é por sua conta. Conto com seu bom senso e cuidados.
– Vou passar depois na casa do papai e mamãe e contar que vou ser estudante agora.
– Eles vão ficar contentes com isso. Nunca quiseram que você largasse da escola.
– Agora terão um presente, mesmo um pouco atrasado.
– Antes tarde que nunca.
Gaudêncio levantou e foi cuidar de suas ocupações. Percorreu a fazenda no jipe que usava para isso e distribuiu algumas ordens que julgou necessárias. Depois retornou, passando pela casa onde moravam os pais. Levava com ele os materiais adquiridos.
Maria Conceição e Pedro Paulo viram com satisfação a disposição do filho com relação aos estudos. Mesmo que não viesse a se formar numa faculdade. Bastava ter uma formação melhor e assim estar preparado para enfrentar a vida que anteviam diante do início de namoro com a filha de um general. Certamente haveria oportunidades em que viria a se encontrar com outra classe de autoridades civis e militares. Não seria de bom tom que o namaorado, talvez noivo e depois marido, da filha do militar pecasse pela falta de traquejo tanto social como cultural.
Naquela noite ligou para a casa do general e falou com Ângela. Informou-a de suas decisões tomadas naquele dia e ouviu dela um caloroso elogio. Conversaram por alguns minutos e se desejaram mutuamente bom sono. Ainda não usavam palavras mais íntimas, uma vez que estavam nos passos iniciais de seu relacionamento. Talvez no princípio de novembro, por ocasião do feriado de finados, ou então na proclamação da república, Gaudêncio aproveitaria para fazer uma visita à namorada. Avisaria sobre a viagem quando estivesse decidida a data.   
Os dias subsequentes correram sem novidades e nosso jovem enamorado aproveitou as horas disponíveis para iniciar os estudos das apostilas que receber emprestadas. O começo foi um pouco complicado, mas não demorou para que tudo começasse a fluir mais facilmente. Estava movido pelo interesse. Sem dúvida um forte fator motivador no processo de aprendizagem. Percebeu com satisfação que, assuntos antes vistos como complicados, lhe pareceram simples. Boa parte da aparente complexidade que se antepunha anos antes havia deixado de existir. Comentou com Joaquim e ele lhe disse:
– Infelizmente não posso lhe valer de muita coisa nesse particular. Mas sei que quando estamos motivados tudo parece mais fácil. A falta de vontade é um obstáculo quase impossível de superar.
– Deve ser isso. Estou achando tudo tão fácil. Acho que vou até escrever uma carta para a Ângela para treinar minha letra e a escrita.
– Uma boa ideia. Cartas dão mais emoção que uma ligação por telefone.
– O senhor me ajuda? Nunca escrevi nenhuma carta antes.
– A bem me lembrar, não sei se eu fiz isso alguma vez.
– Vou fazer do jeito que sei. Se ela responder, uso a carta dela como modelo para as próximas.
– Começando a usar a cabeça para pensar, não apenas para carregar chapéu.
– Que é isso padrinho?
– Estou apenas brincando. Usar de exemplos e modelos para aprender a fazer coisas novas faz parte da vida.
Foi para a escrivaninha onde estavam seus materiais de estudos e começou a escrever uma carta para a namorada. Recomeçou umas duas ou três vezes, até que saiu alguma coisa que o deixou satisfeito. Havia ali na escrivaninha alguns envelopes. Subscreveu um deles, colocou a carta, depois lacrou com um pouco de cola. Na próxima ida para a cidade seria colocada no correio. Talvez o padrinho pudesse fazer isso para ele. Ia sempre a cidade encontrar os amigos de muitos anos. Fazia uso de sua situação, facilitada com o herdeiro assumindo as tarefas de aministração, junto com o pai Pedro Paulo.
A carta foi colocada no correio e em questão de duas semanas recebeu a resposta. Trazia palavras carinhosas escritas por Ângela, além de um pouco de seu perfume impregnado no papel. Ficou emocionado, guardou a carta e releu diversas vezes, antes de sentar para escrever nova missiva. Tomava gosto pela coisa. Era bom ter em mãos uma folha de papel onde a pessoa amada deixara registrados seus sentimentos, seu perfume. Era possível imaginar o rosto da amada ali diante dele, com a boca pronunciando as palavras uma a uma, na medida em que lia.
Voltou a escrever, tomando cuidado para não cometer alguns erros havidos na primeira. Ângela não comentara nada, provavelmente por delicadeza, mas tinha auto crítica suficiente para observar que os cometera. Dessa vez precisou recomeçar apenas uma vez e ficou satisfeito com o resultado. Dessa vez ele mesmo levaria o envelope ao correio, aproveitando para isso sua ida ao comércio de sementes e adubos na manhã seguinte. Iria até o colégio dar conta à Marlene de seus progressos. Estava muito satisfeito com seu progresso e queria dizer a ela que sua ação ao lhe emprestar as brochuras não fora sem resultado.
Ao chegar a cidade passou primeiro pelo posto dos correios e foi ao colégio. Feito isso tinha tempo de sobra para negociar a entrega de sementes e adubos para o plantio do arroz. Haviam aumentado a área de cultivo em cerca de 40%, implicando num acréscimo de insumos para cobrir a ampliação de área. Voltou quando entardecia. Almoçara com o padrinho que se encontrava na casa da cidade. Viria para a fazenda no final de semana para matar a saudade segundo suas palavras.
Ordenha manual.

 

Ordenha mecânica.
Visão de outro ângulo da ordenha mecânica.
Ao chegar em casa, encontrou a mãe as voltas com algumas vacas do plantel com problemas de inflamação nas tetas. Provavelmente alguma falta de cuidado com a higiene dos ordenhadores havia provocado o problema. O fato de deixar leite sem tirar, era causador frequente desse efeito. O fato de ter descido e não tirado, provocava uma solidificação do líquido. O resultado era um endurecimento e consequente inutilização da teta, caso não fosse tratado com urgência. Foi preciso chamar às pressas o veterinário que atendia os animais da fazenda nas emergências.
O avançado da hora não permitia que se fizesse grande coisa naquele momento. O profissional prometeu vir na manhã seguinte, ao clarear do dia, trazendo os medicamentos necessários ao tratamento. Como medida preventiva prescreveu os procedimentos que ajudariam a manter o processo parado, não permitindo que se alastrasse. Tudo foi seguido à risca, dentro do que o doutor mandara.
Jantou com os pais e depois voltou a casa da sede, onde ficou algum tempo estudando. Aproveitava para ler tudo que fosse texto que lhe caia sob os olhos, percebendo que poderia obter informações preciosas com a leitura. Lamentou a quantidade de tempo perdida anteriormente. Poderia nessa hora estar muito à frente do ponto em que estava. Deixou de lado os pensamentos negativos, pois não seriam capazes de trazer o passado de volta. Era preciso prevenir para no futuro não cometer o mesmo erro. Até mesmo uns livros que a madrinha deixara e que nunca mais haviam sido abertos, começaram a chamar sua atenção.
O que estaria escrito naqueles volumes de muitas páginas, com títulos aparentemente estranhos? Sentiu-se atraido a pegar um deles começar a ler. Passou alguns minutos olhando as lombadas, regularmente limpadas da poeira que se depositava sobre elas, tentando imginar qual era o mais indicado para começar. Em determinado momento deparou com um que, tinha escrito em destaque Ana Terra. Não era dos mais volumosos e deveria ser bom para começar. Pegou o volume e leu nas primeiras páginas, vendo que se tratava de obra escrita por Érico Veríssimo, compatriot, residente em Porto Alegre.
Leu o prefácio, agradecimentos, dedicatória do autor, introdução e depois chegou ao primeiro capítulo. Ficou impressionado com a quantidade de informações que havia obtido apenas lendo essas páginas iniciais. A curiosidade falou mais forte e começou a ler com avidez. Aos poucos o enredo o envolveu e sentia a emoção crescere na medida em que avançava página após página. Queria ler mais depressa, mas ainda sentia a dificuldade decorrente dos longos anos de inatividade a que submetera seu intelecto. Haveria de ficar mais rápido com o treino. Percebeu que havia palavras que lhe eram desconhecidas, mas conseguia lhes adivinhar o significado dentro do contexto. Isso com certeza contribuiria para melhorar seu vocabulário, expandiria sua capacidade de entendimento. Tão absorto ficou na leitura que não percebeu o tempo passar e já era mais de meia noite. Fechou o livro à contragosto. Deixou marcada a página onde parara, colocando um pedaço de papel.
Deitou e dormiu em seguida. Antes de clarear o dia estava de pé para receber o veterinário. Queria estar presente para ver o que precisaria ser feito e determinar aos empregados que deveriam ter mais cuidado no futuro. Boas vacas de leite não se consegue do dia para a noite. Era por isso necessário preservar as que tinham para não deixar cair a produtividade. A reposição ao longo dos anos tinha que ser feita. Exigia tempo para criá-las ou dinheiro para adquirir novas.
Os animais foram tratados com cuidade e verificou-se que o problema ainda estava em estágio inicial. Se os procedimentos fossem seguidos à risca, não haveria perdas da produtividade dos animais. Apenas alguns dias o leite das tetas doentes deveria ser descartado. Não Servia sequer para alimentar outros animais domésticos. Causaria danos digestivos e isso seria maléfico, além de implicar em novos tratamentos a serem dispensados aos mesmos.
Depois de tudo resolvido, pagou ao veterinário o preço da visita, bem como o custo dos medicamentos usados. Recebeu a receita para adquirir as medicações que teriam que ser usadas por uma semana para completar o tratamento. Iria depois do almoço buscar tudo para ter à mão na hora da ordenha da noite. O veterinário se despediu e voltou para a clínica que tinha na cidade, junto com a farmácia de produtos. Esperaria pelo cliente para lhe passar algumas instruções complementares.
Maria Conceição ficou contente ao saber que suas vacas não haviam sofrido danos definitivos e voltariam em alguns dias ao nível normal de produção. Era extremamente cuidadosa e passou a ser mais severa com todos os procedimentos na hora da ordenha. Em conversa com o filho, este aventou a hipótese de instalarem uma máquina de ordenha para automatizar o processo. Ela o olhou com os olhos esbugalhados:
– E isso existe, filho?
– Se existe, mãe! É claro que existe. Tem lugares em que as pessoas não pegam no úbere das vacas. Uma máquina suga o leite e o manda para um recipiente bem grande. Depende do número de animais, tem máquinas maiores e menores.
– Tenho medo dessas coisas modernas. Será que as nossas vacas, acostumadas à ordenha manual, vão acostumar com essas coisas modernas?
– Vou me informar com o doutor quando for lá comprar os remédios. Acho que é hora de modernizar essa parte da propriedade. O arroz já é semeado e colhido por máquinas. Depois vai para o secador. Não se perde mais um grão por problemas de umidade, chuva e tal.
– Fala com o homem e depois conversamos com compadre Joaquim.
– O padrinho deixa por minha conta. Se o veterinário aconselhar, convenço ele fácil, fácil.
– Mas isso vai exigir novas instalações. Não vai causar demissão de trabalhadores?
– Estamos fazendo tudo dentro das exigências da lei. Se for preciso demitir alguém, ele vai estar amparado no FGTS, INPS e tudo mais.
– Eu fico com dó de ter que mandar alguém embora.
– Vou procurar fazer tudo do melhor jeito possível, para não ter que demitir ninguém. Podemos aproveitar quem não tiver mais o que fazer aqui em outro serviço. Há de se dar um jeito nisso, mamãe.
– Vai com cuidado, filho.
– Daqui a pouco eu volto com os remédios.
Arroz no ponto de colher.

 

Máquina colhendo arroz.

 

Arroz em ponto de colher.

 

 

Arroz sendo descarregado na carreta de transporte.
 
 
Embarcou na caminhonete que usava em suas idas à cidade e foi até a farmácia. Ali, depois de adquirir os produtos todos, além de alguns outros usados habitualmente no dia a dia, como mata bicheiras, carrapaticidas e outros. Aguardou um pouco para conversar com o veterinário. Quando ele ficou disponível, perguntou sobre a questão das ordenhadeiras e recebeu dele as orientações que seria necessárias. Inclusive folhetos explicativos sobre os modelos disponíveis. O custo estimativo, as instalações necessárias, todos os detalhes. Haveria é claro os cuidados higiênicos necessários. Mas ficaria bem mais prático, rápido e seguro o trabalho. As instalações não eram assim tão complexas de fazer.
Saiu dali e foi direto falar com Joaquim, levando a ele os prospectos e sua ideia de substituir a ordenha manual por máquinas. Tinha as anotações de custos, tanto do equipamento como das instalações de modo aproximado. O padrinho estava ouvindo ele falar com tamanho entusiasmo e não o interrompeu. Quando ele terminou de falar, olhou-o fixamente e perguntou:
– E você o que acha disso?
– Acho que devemos modernizar a ordenha. Não aconteceu o mesmo com a semeadura e colheita do arroz? Agora não perdemos mais colheita por excesso ou falta de chuva, nem por não conseguir secar depois de colhido.
– Olhando por esse lado, não é de todo mau. Deixe eu pesar um pouco sobre o assunto e no sábado falamos sobre isso quando for lá na fazenda.
– Está certo, padrinho. Se quiser ir falar com o doutor, ele lhe explica melhor.
– Vou fazer isso. As vacas vão ficar boas com o tratamento?
– O doutor prometeu que sim. Basta fazer o tratamento direito que não vai ter problema.
– Sorte a sua mãe estar atenta e terem tomado providências logo. Se bobeasse essas vacas iam se perder. Depois nem para criar não serviriam mais, apenas para o açougue. E o frigorífico nem quer vaca de leite.
– A mãe está preocupada com os empregados que vão perder o emprego. Prometi cuidar para que ninguém tenha que ser demitido. Quem se adaptar ao uso das máquinas fica lá. Os demais aproveitamos em outro setor.
– Comadre Maria Conceição é muito generosa. Não aceita ninguém sendo prejudicado. Mas em último caso, quem precisarr ser dispensado tem o FGTS e INPS para amaparar. Aliás tem que ver se já não é tempo de pensar em aposentar os mais idosos.
– Acho que ainda falta tempo de contribuição. Tem que ver com o contador sobre essa questão.
– Hoje não dá tempo, mas outro dia você conversa com ele sobre essa questão. Agora vou até o clube jogar um carteado e acho que você precisa se apressar para não chegar atrasado.
Clube de São Borja.
– Poxa vida! Conversando o tempo passa e eu quase perco a hora. Vou andando, padrinho.
– Vai com Deus. Dê lembranças ao compadre e comadre.
– Dou sim. Adeus.
Seguiu sem demora para casa, chegando pouco antes da hora da ordenha. Entregou à mãe todo suprimento de medicamentos necessários ao tratamento dos animais doentes e foi ver o andamento do serviço. Ficou por ali observando, prestando atenção ao trabalho de cada um. Sugeriu forma diferente de fazer uma ou outra coisa e foi aceita sua sugestão que se mostrou eficiente. Depois de tudo pronto, acompanhou a mãe até em casa, tomou café com os pais, comeu um pouco e foi para seus estudos. O que na verdade o impelia, era continuar a ler o livro que começara. Nunca lhe passara pela cabeça a ideia de que uma história fictícia, narrada num livro, pudesse prender de tal modo a atenção de uma pessoa. Antes de começar a ler, estudou mais um pouco e depois atacou com vontade.

 

Cada parágrafo, cada página trazia uma nova emoção e ele ficou empolgado. Teve que cuidar para não passar da hora, pois o outro dia seria de bastante trabalho. Os adubos e sementes seriam entregues. Fazia questão absoluta de estar presente pessoalmente para supervisionar o recebimento de tudo. 

Mineiro sovina! – Capítulo XI

Estrada na Serra do Cipó.

 

Vista Canion do Travessão.

 

Vista do Canion, com águas transparentes no fundo.
Se esconder, melhor solução.
 
Jerônimo chegou à sua fazenda. Mal apontou no patio da casa grande e alguns peões apareceram para saber o que houvera. O patrão saira sem dizer nada, nem chamar ninguém para o acompanhars e estavam apreensivos com o que poderia ter acontecido. Não deu explicações, apenas mandou todos dormirem e ficarem atentos para qualquer coisa diferente que ouvissem ou vissem. Nenhuma ação por conta própria. Deveriam aguardar ordens suas para tomarem qualquer atitude. Pouco importava o que houvesse.
Entrou em casa, sentou-se e tomou um bom copo de cachaça de sua garrafa especial guardada num canto do armário. O whisky era bom, mas perdia longe para nossa cachaça de alambique, destilada ali nas fazendas de modo artisanal e envelhecida nos barris. Havia os de sassafras e várias outras madeiras que davam uma cor especial, sem falar no sabor. O ardido da cachaça nova sumia ficando o gosto da cana, junto com um gostinho desprendido da madeira. Enquanto bebericou sua bebida pensou longamente no próximo passo a ser dado.
Sabia que os dois sacanas haviam dado o serviço completo e era quase certo que, logo cedo, nas primeiras horas da manhã teria diante da porta um par de viaturas da polícia. Viriam para prendê-lo como mandante do atentado ao vizinho ou ao menos convidá-lo a prestar depoimento. Analisou as diversas possibilidades que tinha de se safar da acusação e todas as hipóteses que a mente lhe apresentava, recaiam no mesmo lugar. As palavras dos jagunços seriam igual a duas flechas apontadas para ele. Poderia apenas negar, mas poderia haver alguém que o tivesse visto na cidade naquela noite. Nunca se sabe quem pode estar de espreita ou mesmo por acaso.
Vai que alguém o tinha visto e por puro acaso fica sabendo da encrenca. Vai lá, solta o verbo no ouvido de um policial, ou então do próprio delegado e está feita a porcaria. Depois de muito pensar, lembrou que tinha na gaveta um cartão do advogado onde estava escrito o número do telefone do escritório. Procurou e logo o encontrou. Guardou na carteira, colocou algumas peças de roupa numa sacola. Um par de sapatos, botas, um chinelo e algumas coisinhas de uso foram reunidos também. Pegou no cofre um maço de dinheiro que sempre guardava ali para as emergências, colocou em dois ou três lugares por medida de precaução. Passou na cozinha, comeu um pedaço de carde defumada, duas fatias de pão com queijo e melado, depois voltou para o carro e deu partida.
O capataz em instantes estava ao seu lado e pediu suas orientações. Adivinhava que o patrão estava em apuros e queria saber que providências deveriam ser tomadas em sua ausência. Em poucas palavras deu suas ordens, dizendo apenas que precisava se ausentar por alguns dias e não era da conta de ninguém onde estaria. Nenhuma alteração da rotina de trabalho deveria ser feita. Fizessem de conta de que ele saíra e voltaria dali a pouco. Na hora certa estaria de volta para cuidar de tudo.
– Suas ordens serão cumpridas, patrão. Vá com Deus. Qui Nos’siñora le proteja.
– Cuide de tudo aí e fique de olho aberto. Não dê bobeira.
– Pod’xa, patrão.
O carro fez um giro rápido e saiu levantando poeira pela estrada. Pegou o caminho oposto ao de Sete Lagoas e seguiu na direção das montanhas da Serra do Cipó. Tinha lá, cerca de 40 minutos de viagem, um antigo companheiro de seus tempos de rapazola. Era um pouco mais velho, mas gostava de uma arruaça. Quando cansou dessa vida, foi viver numa cabana na encosta da serra, bem retirado de toda povoaçao. Ele certamente não lhe negaria um canto por alguns dias. Poderiam caçar, pescar e comer um pouco de mantimentos que lembrara de colocar no bando de três do jipe. Percorreu a distância, em tempo menor do que normal, tão preocupado estava. Quando viu estava na picada de acesso à cabana e enveredou por ela.
Riacho cristalino na Serra do Cipó.
Rochas imponentes na Serra do Cipó.

 

Vista panorâmica, tendo ao fundo uma cachoeira na Serra do Cipó. 

 

 
 
 
Após percorrer cerca de cem metros, lembrou de voltar a pé e apagar os sinais de sua passagem por ali. Não tinha intenção de que o encontrassem. Antes de sair ligara para o doutor Estevão avisando de que iria ficar fora de circulação até a noite anterior à audiência na ação da divisa e indenização. Iria fazer contato dentro de uns dias para saber como andava o caso. O advogado quis saber onde poderia encontrá-lo em caso de necessidade. Ele falou que, quanto menos gente soubesse onde estava, melhor. Deixasse por conta dele que se garantia. Pegou de dentro de uma caixa de ferramentas uma lantern e voltou. Observou que havia sinais dos pneus na terra mais fofa no começo da trilha. Pegou um galho e com ele, assim como com os pés, apagou o melhor que pode as marcas.
Levou o galho consido e foi apagando os sinas de sua passagem até chegar no veícuo. Dificilmente alguém viria tão longe para buscar sinais da passagem de alguém. Embarcou e seguiu até a cabana. Lá chegando, o companheiro de outros tempos já estava à porta, tentando ver quem estava chegando àquela hora pertubar seu sossego. A luz de uma lanterna brilhou na escuridão, iluminando Jerônimo por alguns instantes. Quando o reconheceu, o homem se aproximou curiosos.
– Mas que mar le pergunte, cumpanheiro! Qui é que li trais aqui numa hora dessa? Coisa boa não deve di sê!
Desembarcou, estendeu a mão ao amigo e falou:
– Amigo Gonçalo! Estou precisado de uns dia de discanso e lembrei de vosmecê. Desculpe o adiantado da hora, pois tive muito trabalho na fazenda e resolve de ultima hora vir até aqui.
– Sun’ce num tá mi iscondeno nada, não é Jerome?
– Fica tranquilo, Gonçalo. Tenho la minhas pendengas, mas nada demais. Vim só descansá mesmo.
– Vo aquentá uma água, mode coá um cadim de café pra nois tomá inquanto tiramo dois dedo de prosa.
– Eu vou tirar minhas coisas e colcar aí dentro para proteger do sereno.
– Si quisé colocá o jipe ali intráis daquela pedra, ele fica fora dais vista.
– Uma boa ideia. Se algum curioso aparecer não precisa ficar sabendo que estou aqui. Melhor assim.
Descarregou suas coisas. Depois levou o jipe para o lugar indicado e colocou-o bem escondido. Só quem chegasse perto mesmo o veria.
O café foi coado e servido em canecas esmaltadas, já descascadas em vários pontos. Mesmo assim, feito da forma mais rustica e do melhor grão, torrado e moido a mão, dava um sabor inigualavel. O açucar mascavo ajudava a realçar o gosto característico. Tomaram o café e falaram do tempo, das caçadas de agora, estrepolias dos tempos antigos. O amigo Gonçalo não ficara convencido da conversa de Jerônimo e tentou em vários momentos extrair alguma informação a mais do visitante. Este, porém, sempre desviava do assunto, não dando a entender o real motivo que o levara ali.
Por fim decidiram ir dormir. Jerônimo que ficasse com seu segredo. Eram amigos de velha data e aos amigos era necessário estender a mão em qualquer circunstância. Também, quanto menos soubesse do assunto, melhor para ele. Não tinha precisão de se envolver com confusão de graça. Estava ali, distante, justamente para viver sem problemas, que tinha ele que caçar chifre em cabeça de cavalo? Devia muitos favores e poderia precisar de outros no futuro ao amigo. Era hora de pagar uma parte da conta, sem fazer perguntas demais. Dormiram e de madrugada uma forte tempestade desabou sobre aquela região.
Ao levantar e ver o resultado da noite, Jerônimo ficou intimamente satisfeito. A forte chuva deveria ter apagado os últimos vestígios de sua passagem pela picada. Poderia ficar em paz até o dia que decidisse voltar. Não poderia esquecer que a audiência estava marcada para a segunda-feira da semana seguinte. Portanto, teria uma semana e dois dias para ficar ali. Teriam tempo de relembrar todas as aventuras compartilhadas há tantos anos, quando se juntara a Gonçalo e mais dois amigos, já falecidos. Tinham tombado em um entrevero havido numa cidadezinha mais ao norte. Alias fora depois daquele acontecido que Gonçalo decidira deixar essa vida de aventuras e arruaças. Encontrou aquele recanto no meio da mata, na encosta da serra e ali vivia há longos anos.
Raramente saia para comprar alguns mantimentos, pólvora, chumbo, espoleta para a espingarda de caça, um par de botinas, umas calças de brim. Algumas camisas, um casaquinho ou dois e pronto. Tinha lá suas rendas que não contava a ninguém de onde vinham. Ninguém tinha por que saber que ele encontrara um pequeno veio de diamantes numa grota e dali levava um punhado de pedras, vendia pra um lapidador e logo sumia de vista. Seu retorno era bem planejado, chegando a percorrer léguas de trilhas, dando voltas, subindo e descendo, até chegar a sua morada.
Bastava alguém saber de seu segredo e não tardava chegaria um bando de gente em busca de pedras. Estragariam o seu recanto. Depois que ele se fosse, não se importava com o que aconteceria. Enquanto tinha precisão de ter seu canto, nao queria saber de zoeira por perto. Andava com a pulga coçando a orelha com essa vinda for a de hora de Jerônimo e só ficou quieto para não bulir com vespeiro. Desconfiava até da prória sombra, quanto mais de um amigo, cujo gênio esquentado conhecia de sobra.
Os dias passaram. Caçaram nhambus, jacutingas, tatus, um cateto. Pescaram belos peixes nas águas límpidas de um pequeno riacho que havia por perto, formado por várias nascentes que desciam das encostas e se uniam perto do sopé, formando pequenos lagos e depois continuando seu curso. Em cada um havia belos exemplares de peixes, um mais saboroso que o outro. Comeram carne de todo tipo. Assada, frita, cozida com abóbora e outros legumes que Gonçalo cultivava para o consume. Tinham feijão, a gordura era tirade das caças abatidas. Não faltava nada e a vida correu suave naquela semana.

 

Orquídea nas rochas. 

 

 

 

 

Orquídeas na Serra do Cipó.
No domingo seguinte, Gonçalo já estava pensando que a estadia do amigo iria se prolonger, quando o viu aprontando suas coisas e perguntou:
– Suncê vai imbora?
– Sim, amigo. Tenho que estar em Sete Lagoas amanhã ao meio dia. Vou falar com o Juiz, numa audiência.
– Tá certo. Eu bem que tava desconfiado de que arguma coisa num tava nos conforme.
– Eu não quis lhe contar, amigo, para não se preocupar. Hoje, no comecinho da noite, vou voltar para a fazenda e ninguém fica sabendo onde estive. Nunca vão vir aqui lhe fazer perguntas ou coisa assim.
– Eu num sei di nada, num vi nada, nem ouvi. Sô surdo, cego e mudo.
– Esse é o meu velho companheiro de farra. Vou lhe trazer um belo presente, depois que passar essa fase de minha vida. Vai ver só. Pode sentar e esperar. Talvez demore um pouco, mas na hora certa vou trazer.
– Vô faze di conta qui num ouvi.
Passaram o resto do dia conversando sobre diversos assuntos e Gonçalo não fez mais nenhuma pergunta. O amigo não queria falar e não seria ele que o perturbaria com perguntas for a de hora.
No princípio da noite, o jipe foi retirado do esconderijo, conferido se estava funcionando direito e as coisas de Jerônimo foram colocadas na parte de trás do assento. Gonçalo lhe dera um belo couro de anta que caçara tempos atrás, tirara o couro e secara. Estava bem curtido, pronto para servir de tapete em sua casa. Despediu-se do amigo, prometendo voltar quando desse e partiu. Seguiu cuidadosamente pela estrada, atento a tudo que pudesse representar algum perigo. Deu uma grande volta, de modo a chegar como se estivesse vindo de outro lado. Alguém que estivesse de espreita, nunca saberia de onde ele estava vindo. Não viu nada que chamasse sua atenção e entrou no patio de sua propriedade.
Tão logo estacionou o capataz estava ao seu lado em atitude de espera. Foi logo perguntando:
– Como tão as coisas por aqui? Tudo em paz ou houve muito fordunço?
– Sabado di manhã cedim, chego aqui dois carro de polícia. Tinha uns oito, cheio das armas, revolver, pistola e fuzir. Vinham pra mode prender o patrão. O juiz tinha mandado le buscar para interrogatório. Tinham inté um tar de mandad’e prisão contra o sinhor.
– Bem que eu imaginei que ia ser isso e me mandei na hora certa. Mas voltaram depois, fizeram muitas pergutas?
– Mandaro chamá todos peão, empregada, as muié dos peão. Fizerom monte di pregunta, mais ninguém sabia di nada. Qui é que ia responde?
– Por isso eu não dei explicações. Ninguém pode dizer o que não sabe. Eu por minha vez passei uma semana caçando e pescando. Apenas não pergunte onde, que não conto. Segredo e daqueles que si leva pro túmulo.
– Faço questão de saber nao, patrão.
– Amanhã vamos para a audiência. Prepara os peão que vão servir de testemunhas para sair logo de manhã. Vamos até a casa do advogado e de lá pro forum. Não vamo dá sopa por lá não. Quando terminar a audiência, si mandamo de volta, cada um por um caminho diferente. Quero ver eles segui todo mundo!
– Vo ordená agora memo que todos se prepare para manhã cedo. Não quero corre atrais di ninguém atrasado na hora de saí.
– Nem pensar. Quem se atrasar está despedido. Pode caçar trabaio em outro lugar.
– Boa noite, patrão. Percisa de ajuda?
– Leva lá pra dentro essas coisas ai de trás do assento. Aproveita e leva mais uns três pra fazer segurança. Não podemos saber o que vai acontecer.
– Os home andiron percorrendo tudo essas istrada por aí. Vimo as viatura umas par de veis passano na istrada. Vieron mais duas veis aqui no patio ver si o patrão tinha vortado. Cada veis era uma turma deferente de dantes.
– Eles não são facil não. Nem desistem sem mais nem menos. Esse delegado que tem aí agora é osso duro de roer. Parece ter parte c’o capeta.   
O capataz e um outro peão, pegaram as coisas do patrão e levaram para dentro de casa, deixando onde ele pudesse guardar cada um em seu lugar. Não se atreveriam a mexer e guardar. Sequer sabiam se ele ficaria em casa depois da audiência. Bem capaz de ser obrigado a se seconder outra vez para não ser preso. Agora todos sabiam do envolvimento de Jerônimo no atentado ao coronel Onofre. Ninguém no entanto ousaria dizer palavra. Em boca fechada não entra mosca, diz o ditado.
A empregada estava na cozinha e preparou uma refeição ao gosto de Jerônimo. Por ordem do mesmo, não precisava se esmerar demais. Queria comer logo e depois deitar para dormir. Os dias na cabana, por mais agradáveis que tivessem sido, haviam deixado marcas em suas costas. A cama de tarimba, pouco confortável, só o deixava dormir depois de muito virar de um lado para outro. Estava com saudades de sua cama macia e confortável.
Jantou e depois deu ordem para ser chamado cedo. Queria estar pronto e a caminho, antes que alguém tivesse tempo de perceber sua presença na redondeza. Daria tempo de chegar à cidade e ficar mocado no escritório ou na casa de Estevão.
Enquanto o mandante do atentado ficava escondido, os autores foram interrogados seguidas vezes sobre possíveis esconderijos do comparsa. Não tinham a mais vaga idéia, mas para se livrar das longas sessões de perguntas, sentados em posição desconfortável, com uma forte lâmpada brilhando diante dos olhos, inventavam possíveis esconderijos. A polícia passou a semana inteira procurando, gastando tanques e mais tanques de combustível na busca. Todos os lugares indicados pelos dois foram encontrados e se mostraram falsos. Ao serem confrontados com essa verdade, diziam que eles não haviam afirmado que ele estaria lá. Poderia estar, mas não tinham nenhuma certeza disso. Por fim o delegado desistiu. Havia notado que eles o estavam fazendo de trouxa. Não seria brinquedo dessa gente por mais nem uma hora. Mandou suspender as buscas por enquanto. O advogado havia garantido que, na segunda feira, o cliente estaria presente na audiência.
Tudo estava preparado para efetuarem a prisão no momento em que a audiência terminasse. O próprio juiz sabia do esquema de prisão, uma vez que for a ele que indeferira o habeas corpus dos dois presos e expedira o mandado de prisão contra o mandante. A hora do malfeitor chegaria no momento oportuno.
Na segunda bem cedo, quem esteve na estrada para Sete Lagoas, pode perceber um comboio de vários jipes e caminhonetes lotados de homens da fazenda de Jerônimo. Pareciam ir para alguma festa ou comemoração. Estavam vestidos, não para o trabalho, mas sim para uma visita à cidade.
Um pouco mais tarde foi a vez de um novo comboio, um pouco menor, mas também cheio de homens da fazenda do coronel Onofre. Este seguia com a filha e a esposa, em seu carro de passeio. A filha havia obtdido algum tempo antes sua habilitação de motorista e dirigia, uma vez que o pai estava com a perna ainda enfaixada devido ao ferimento sofrido. Chegaram à porta do escritório da Advogados Associados de Sete Lagoas. Os que serviriam de testemunhas entraram na sala de espera junto com o coronel e a família. Os demais ficaram sentados nos carros ou na calaçada em frente. Estavam sempre atentos a qualquer movimento suspeito.
Às onze horas o grupo inteiro foi para um restaurante para almoçare, ocupando várias mesas. Era preciso almoçar antes, pois a audiência estava marcada para as 13 h 15 min. O juiz não detestava atrasos. Um descuido poderia por todo um trabalho primoroso a perder. Faziam questão de chegar na hora estipulada. Preferível era esperar alguns minutos que chegar um sequer depois da hora. Terminado o almoço, todos sairam para os veículos, retornaram ao escritório. Quando deu 12 h 45min. embarcaram nos veículos e seguiram para o forum. Na frente ia o automóvel de José Silvério. Os ganhos no escritório haviam permitido adquirir um 0 km, financiado em 24 meses.
Pontualmente às 13 h estavam todos os envolvidos, na sala de espera. Os demais empregados ficaram nos carros, sem deixarem de prestart atenção em qualquer movimento suspeito. Traziam armas, mas não estavam à vista, para não levantar suspeitas ou acusação de porte ilegal.

Menos de cinco minutos depois chegou o comboio trazendo por sua vez Jerônimo e seu séquito. O Dr. Estevão, havia vindo um pouco na frente, mas entraram juntos. Estavam ali os dois grupos de empregados, separados por coisa de 20 m. Alguns agentes de polícia haviam sido destacados com esse intúito. Manter a ordem ali no forum, uma vez que facilmente alguma provocação causaria um tumult e não se saberia em que iria terminar.