Arquivo mensais:setembro 2014

Gaúcho de São Borja! – Capítulo IX

 

Hotel no centro de Porto Alegre.

 

 Encontrando a prenda do coração.
Tendo encontrado tudo nos conformes no escritório dos agentes, nosso estreante na cidade grande, saiu dali resolvido a marcar sua passage e voltar para os pagos. Eis que, enquanto caminhava a procura de uma agência da Varig para deixar acertada a hora da viagem, sentiu-se impressionado com um edifício de apartamentos situado bem em frente a uma praça. Era moderno, mais de 20 andares de modo a ser obrigado levantar a cabeça para ver os últimos andares. Quando baixava o olhar, ofuscado pelo sol que já ia alto, seus olhos foram atraidos como por um ímã, para a sacada do 5º andar. Ali uma jovem mulher estava apreciando os vasos com flores existentes e de vez em quando lançava um olhar para a rua mais abaixo.
Era de uma beleza incomum, foi o que o jovem observoufd. Rapidamente contou os andares, a localização da sacada bem no meio do edifício e tomou uma decisão. Iria depositar aos pés da bela prenda seu coração, sua vida, enfim seu ser inteiramente. A visão o deixara instantaneamente nocauteado. Como diziam entre os peões, o coração tinha capotado naquelas curvas suaves e sedutoras. O gaucho guapo estara literalmente “de quatro” diante de tamanha formosura.
Resolução tomada e posta em prática. Entrou pela portaria e, sem ao menos dizer nada nem perguntar por onde, foi direto até o elevador que estava casualmente aberto, entrou e apertou o botão com o número 5. A porta fechou e iniciou a subida, bem mais rápido que ele imaginava, mesmo assim a viagem até o quinto andar pareceu durar uma eternidade. No momento em que a porta abriu saltou para fora e via à sua frente uma porta com o número 501. Pela posição da sacada e do elevador, deveria ser aquele o apartamento onde morava o objeto de sua avassaladora paixão à primeira vista.
Um pouco receoso, mas sem titubear, apertou o botão da campainha por um longo momento. Enquanto isso acontecia, o porteiro tendo visto o estranho embarafustar saguão a dentro e subir no elevador, chamou dois ajudantes e os enviou em busca do intruso, porém não sabia onde tinha ido. Tiveram que observar onde o elevador parara, para só então tomar o outro ao lado e seguir. Enquanto isso o incauto e apressado Gaudêncio via a porta ser entreaberta e um rosto severo, bem barbeado, cabelo curto no estilo militar se mostrar na fresta. Uma voz impessoal perguntou:
            – Quem é o senhor? O que deseja?
            – Eu sou Gaudêncio das Neves, um seu criado. Venho lá de São Borja, mas precisamente da fazenda Santa Maria. Acabo de ver a sua filha na varanda de sua morada. Me apaixonei perdidamente por ela. Como não sou de perder tempo, decidi logo vir aqui lhe pedir a mão dela em namoro e sem muita demora a pedirei em casamento.
– Mas assim, sem sequer conhecer minha filha, sem conversar com ela, nem saber o que ela acha disso?
            – Não ai problema, meu senhor. Eu sou capaz de conquistar o amor dela em dois tempos. É apenas me dar uma oportunidade.
– Minha filha é acostumada à da cidade grande, muito mimada. Não é dada com afazeres domésticos, nunca viu uma fazenda. Ela leva vida de princesa. Creio que isso não dará certo, seu Gaudêncio.
– Nada disso é problema, patrão. Sua filha comigo não sentirá falta de nada. Não terá necessidade de trabalhar. Terá criadas para fazer os trabalhos da casa e será servida como uma rainha.
            – Tem outro problema. Ela é muito nervosa. Por qualquer motivo tem crises de neurastenia e causa sérios problemas dentro de casa.
            – Isto acaba com o casamento. O amor de um homem de verdade lhe dará o sossego e tranquilidade de que precisa. Pode deixar comigo que eu garanto a mão.
– Além de tudo isso, minha filha é acostumada a viajar todos os anos para a Europa, Estados Unidos e outros países que ela visita regularmente. Creio que isto irá lhe colocar em dificuldades.
            – Mas que dificuldades, tchê! Vou levar sua filha a todos os lugares do mundo que ela desejar visitar. Dinheiro não é problema, meu senhor. Sou herdeiro universal de Dom Joaquim Monteiro, criador de gado e plantador de arroz , dos mais ricos de São Borja. Não se consegue visitar a fazenda toda em um único dia. É muito grande. Tem inclusive parentesco distante com o Presidente Getúlio Vargas.
– Ia me esquecendo de lhe dizer. O problema mais grave com minha filha é que ela é um pouco manca da perna direita. Um probleminha de nascença.
– Mas o que tem isso? Eu não a quero para carreira. Quero apenas para tirar umas crias. O que ela tem de beleza, será suficiente para tornar sem importância qualquer outro problema que ela tenha. Eu estava na praça em frente e quando ela apareceu na varanda, eu quase tive um troço. Levei um baita susto, tamanha é a beleza desta criatura. Aceite os parabéns senhor….?
            – Sou o General Marcelino Ferreira, comandante da guarnição militar da região metropolitana de Porto Alegre.
            – Com quem o senhor está conversando papai? – ouviu-se uma voz melodiosa, vinda do interior do apartamento.
            – É bom você vir aqui ver pessoalmente. Acho que vai ser do seu interessi.
            Em instantes a dona da voz surgiu por trás do homem, perguntando:
– Mas o que está acontecendo?
            – Está aqui um homem apaixonado à primeira vista por sua pessoa. Você se exibiu na sacada e ele viu. Ficou loucamente apaixonado e está aqui pedindo a sua mão em namoro. Que lhe parece? Vamos conhecer a figura?
– Convida o moço a entrar, – disse por trás dos dois a mulher do general, senhora Lourdes, – pelo menos conversaremos e depois se vê o que pode ser feito.
Nisso os dois ajudantes do porteiro que haviam chegado quando a conversa ia a meio e ficado esperando o desfecho. Estavam prontos a agarrar o intruso e colocá-lo no olho da rua, mas diante das últimas palavras ouvidas, decidiram bater em retirada indo contar ao porteiro o que sucedia.
            – É melhor do que ficar criando discussão aqui na porta. Logo os vizinhos vão reparar e vira uma bagunça danada. – disse a filha.
            – Aguarde um instante que vamos abrir a porta. Por motivo de segurança ela fica travada por esta corrente. Cidade grande é assim mesmo.
            – Bem que me avisaram para tomar cuidado. É a minha primeira vinda a capital. Nunca saí muito longe de casa. Sou um pouco xucro, mas aprendo fácil. Em pouco tempo domino as manhas da vida daqui da cidade. Não há de ser mais difícil que domar um potro, um boi bravo.
A porta se abriu de par em par e Gaudêncio foi convidado a entrar numa sala, ricamente mobiliada, mas sem exageros de espécie alguma. Tudo tinha a medida certa. Sentou-se em uma poltrona que lhe indicaram e olhou ao redor ficando impressionado com a fineza do ambiente. Logo chegou dona Lourdes, trazendo uma cuia de chimarrão e uma garrafa térmica com água na temperatura certa de cevar o mate. Os olhos de Gaudêncio ficaram chocados com algo que viu, fazendo parte da decoração. Por toda parte escudos, símbolos diversos e as cores do uniforme do Gremio de Futebol Portoalegrense. Teria que controlar sua paixão colorada para não por a perder os pontos que conquistara até o momento. Seria como “pisar em ovos”. Um passo em falso e se quebravam todos.
– O moço certamente toma chimarrão! – disse de modo interrogativo o dono da casa.  
– Mas com certeza, tchê! Já viu um gaúcho que não aceita um amargo. Isto não existe.
            – Acho que a minha filha ainda não foi apresentada. Aliás nem o senhor disse seu nome. Falou uma porção de coisas e não disse o seu nome.
            – Eu mesma me apresento, mamãe. Sou Ângela Ferreira. E você? Creio que posso dizer assim!
            – Sou Gaudêncio das Neves, ao seu dispor, senhorita. E a senhora sua mãe, qual é o nome dela?
            – Eu sou Lourdes e fico honrada em receber em minha casa um gaúcho vestido a caráter. Já lhe disseram que lhe cai muito bem esta vestimenta típica?
– Obrigado, dona Lourdes. O senhor tem uma bela família, General.
            – Fico lisonjeado com isso. Mas ainda falta o filho mais velho. Ele está na AMAN. No final do ano que vem deve sair de lá como aspirante a oficial. Decidiu seguir os passos do pai.
            – Meus pais, trabalham desde que se casaram, para Dom Joaquim Monteiro, dono da fazenda Santa Maria. Com o tempo meu pai virou uma espécie de capataz geral. É ele que comanda todos os empregados tanto da criação de gado como do plantio de arroz. Minha mãe é a encarregada do setor de leite. Fazem queijo, requeijão, ricota e vendem leite para o laticínio.
            – Que mal lhe pergunte, como o senhor se tornou herdeiro da fazenda?
– Quando eu nasci, convidaram para serem meus padrinhos o Sr. Joaquim e sua esposa Ana Maria. Eles não tiveram filhos. Procuraram tudo quanto foi médico especialista, mas não houve jeito de nascer um herdeiro. Acabaram me adotando por assim dizer. Depois que a madrinha faleceu há um ano e meio atrás, o padrinho passou um tempo dando a impressão de que iria seguir a esposa. Foi meu pai que trouxe ele para a fazenda e lá tomamos conta dele, até ele se recuperar. Quando se restabeleceu, fez o inventário de tudo, mas não havia herdeiros de parte dela, ficou tudo para ele.
– E por não ter herdeiros lhe nomeou como tal?
– Aí está a questão. Não tendo a quem deixar sua fortuna, me nomeou herdeiro de todos os bens que possui. Hoje ele viaja para a Europa, Estados Unidos e outros países. Quem fica administrando tudo sou eu. Agora mesmo vim para a capital tratar de negócios com uma empresa de investimentos. Ele quer que eu tome conta de tudo. As vezes tenho a impressão de que ele está me preparando para depois partir. Sei que ele ainda sente muita falta da madrinha.
– Meu caro Gaudêncio! Tudo isso é muito bom, mas minha filha precisa lhe conhecer melhor, antes de eu consentir que você a namore. Podemos começar por fazermos uma visita à São Borja; conhecer sua família, seu padrinho, enfim tomarmos contato mais de perto. Até vai nos fazer bem passarmos uns dias no campo. Vivemos tanto tempo em casas do exército, rodando os quatro cantos do país e só agora, que a aposentadoria se aproxima, estamos morando em algo que é nosso. Mas viver em um apartamento é bem diferente do que num lugar aberto. Levantar e não bater com o nariz na porta do vizinho da frente, do lado.
            – Mas podemos combinar isso, general. Volto para a fazenda e deixo tudo pronto para a vossa chegada. Tenho certeza que irão ser recebidos com toda alegria. Minha mãe vai ficar orgulhosa de conhecer sua família, principalmente a senhorita Ângela.
– Mas primeiro quero ouvir a opinião das duas. Minha filha e a minha esposa, o que acham da ideia?
– Até que me atrai a idéia de passar uns dias numa fazenda, – disse dona Lourdes. – E você minha filha, que é parte mais interessada no jogo, o que acha disso?
            – Podemos ir, sem assumir nenhum compromisso prévio. Temos que nos conhecer melhor, antes de qualquer decisão que envolva tanta coisa como é o caso aqui. Alguns dias de convivência, poderão nos dar uma ideia do que pode ser esperado do futuro.
            – É uma boa ssugestão. Já resolve os negócios. Vou voltar para a fazenda. Preparo tudo e aviso vocês quando puderem chegar por lá. Mando as passagens de avião.
            – Não precisa se preocupar com isso. Basta nos avisar que iremos de carro. Sou viciado em dirigir e vai ser uma boa oportunidade de testar meu carro novo na estrada. Por ora vamos começar por almoçar juntos agora. Creio que tem água suficiente no feijão para mais um encher a barriga. – falou o general rindo alegremente.
            – Para mim serve. Está na hora do almoço e eu teria que procurar um restaurante. Vou aceitar o seu convite e aproveitamos para conversar mais um pouco.
            Enquanto mãe e filha foram até a cozinha para supervisionar a cozinheira na preparação de mais um lugar à mesa, o general convidou o candidato a genro para tomarem um aperitivo. Serviu uma dose de whisky para cada um e alcançou o copo para Gaudêncio, sentando-se com o outro na mão.
            – À sua saúde e a uma boa amizade entre nossas famílias para começo de história!
            Os copos foram levantados em sinal de brinde, depois beberam um gole cada um. Gaudêncio tivera oportunidade de experimentar da bebida, considerada coisa de grão fino, uma vez em casa de Joaquim. De sua parte preferia mesmo uma cachaça  da boa. Pensando em iniciar um relacionamento com a família do general, era importante acostumar a tomar, pelo menos de vez em quando, uma dose de whisky. Procurou sentir todas as nuances do sabor da bebida e identificar sua características básicas. Olhando novamente para os detalhes em azul, branco e preto na decoração, falou:
            – Não resta dúvida que aqui é a casa de uma família gremista!
– Sem exceção. Levei a minha Lourdes a assistir muitos jogos do Grêmio, mesmo nos estados do norte onde servi por bom tempo. A filha cresceu vestindo as cores do time e nunca pensou em mudra de cor.
            – Ontem fui assistir o jogo do Colorado com o Flamengo. Que sofrimento, mas no fim ganhamos de 1×0.
            – Colorado?
            – Sim, desde criança. Mas não sou fanático. Lá na fazenda jogamos umas peladas. Sempre dá Colorado contra Grêmio. Hoje um ganha, amanhã outro e no fim tudo termina em festa.
            – É assim que tem que ser. A torcida se resume dentro do campo, nas brincadeiras entre colegas e amigos. É uma coisa saudável. Quando degringola para o campo de ofensas e desrespeito não é mais esporte. Vira anarquia.
            – Assim mesmo que eu penso. A graça está justamente no ganha/perde, ora de um lado ora de outro.
            – Vamos junto assistir o jogo de domingo? Tem um jogo do Grêmio, amistoso com o Nacional do Uruguai. Um jogão dos bons.
            – Eu tinha pensado em viajar amanhã, mas posso deixar para segunda feira e vou assistir a esse jogo. Assim levo umas fotografias e um filme para os amigos gremistas da fazenda verem. Mostro a eles que fui assistir um jogo de cada lado. Se mostrar só o do Colorado, eles ficam magoados.
            – Sábado temos uma sessão de estréia de uma peça de teatro para ir. Vou ver se consigo mais um ingresso para podermos ir juntos.
            Gaudêncio percebeu que o general simpatizara com ele e sentiu-se mais confiante. Caberia a ele jogar toda sua sedução para encantar bela filha e assim atingir o objetivo que o levara a cometer a pequena loucura daquela manhã. Subir se autorização e tocar a campainha de um apartamento sem ao menos saber que ali morava, bem pensado era maluquice das grandes. Mas estava feito e dera resultado melhor do que poderia ter esperado. Agora era seguir em frente e ver onde iria parar tudo isso.
            O almoço foi servido e Ângela veio chamar os dois. Sentaram-se e Gaudêncio sentiu-se um pouco acanhado naquela sala de refeições requintada. Não era de todo xucro nas etiquetas, pois a madrinha lhe dera algumas lições, mas nunca tivera oportunidade de sentar-se a uma mesa tão fina. As louças todas de porcelana finíssima, talheres de fino acabamento, guardanapos impecávelmente brancos, copos de cristal. Uma garrafa de vinho tinto recem aberta estava ali para acompanhar a refeição. A comida não era nada for a do normal, embora estivesse tudo acondicionado em recipients de alta qualidade.
            Serviram-se, tomando ele o cuidado para não exagerar nas quantidades. Preferia ficar com um pouco de fome do que servir um prato cheio demais. Notou com satisfação que o general não era dado a muito requinte. Serviu-se generosamente e comeu com gosto. Provavelmente esse hábito vinha de suas estadias em acampamentos militares, onde determinados hábitos eram deixados em segundo plano. Por fim, seguindo exemplo do dono da casa, Gaudêncio repetiu e parou quando estava plenamente satisfeito. O vinho estava ótimo e tomaram até a última gota. As mulheres por sua vez tomaram pequenas porções, como convinha a uma senhora e sua filha.
            A lauta refeição foi arrematada com um cálice de licor que o general serviu para todos, sentados na sala de visitas. Passaram algum tempo conversando e em seus deslocamentos de um lugar para o outro foi possível percber uma leve claudicação de Ângela. Algo muito pouco perceptível. Praticamente não lhe afetava o desempenho em nada. Havia fotografias do baile de debutantes em que ela estava dançando, ela jogava ou jogara Voleibol. Pelo menos isso mostrava uma fotografia ampliada, onde aparecia de uniforme esportivo numa quadra desse esporte. A alegação do general de que isso seria um impedimento para o relacionamento dos dois era apenas um pretexto para despedir um inconveniente que lhe batera à porta.
            Vendo o relógio notou que o tempo passara e eram 14h. Pediu licença e se despediu, ficando combinado que iriam domingo ao Olímpico ver o jogo. Se o general conseguisse um ingresso para ele, lhe avisaria e ele os acompanharia ao teatro sábado à noite. Ao apertar a mão de Ângela, sentiu-lhe a maciez, a delicadeza, junto com um leve tremor, a sua face se cobriu um leve rubor. Ela também estava influenciada com a presença dele. Foi até a agência da Varig e marcou o seu embarque para a segunda feira a tarde. Avisou o padrinho de que passaria o final de semana na capital e chegaria segunda feira à tarde. Não deixou transparecer nada do que acontecera naquela manhã.
            Voltou para o hotel e ficou ali algum tempo vendo televisão, onde estava passando um filme que lhe interessou. Pouco anteso do jantar o general ligou para a portaria do hotel, deixando recado para ele de que havia conseguido o ingresso para o teatro. Estaria a sua espera no começo da noite de sábado. Lembrou de ir na manhã seguinte procurar a agência e adquirir os ingressos para o jogo de domingo a tarde. Aproveitou e deixou os filmes já usados para revelar e comprou outros em quantidade suficiente para registrar as diferentes etapas de seu passeio na capital.
            A cada pouco seus pensamentos voltavam para a Formosa filha do general. Conhecera inúmeras prendas de grande beleza nos campos de São Borja, mas nenhuma fizera seu coração pulsar tão intensamente quanto Ângela Ferreira. Não saberia explicar. Parecia algo mágico, místico mesmo. Bastara olhar sua silhueta contra a luz da manhã ali na sacada e sentire uma fisgada no peito. Ouvira falar de um tal de cupido que atira flechas mágicas enfeitiçando os corações dos jovens para se enamorarem. Vai ver que fora isso que acontecera com ele.
            À noite voltou ao cinema onde estivera na segunda feira e assistiu outra fita que entrara em cartaz. Caminhou pelas ruas e depois voltou ao hotel. A idéia que chegara a fulguar em sua mente no primeiro dia de procurar uma casa noturna para ver se encontrava companhia feminine, sumira completamente. Seus pensamentos estavam fixados em Ângela e ela ocupava cada momento de sua vida. Dormiu pensando nela e na manhã seguinte adquiriu os ingressos e depois ligou do hotel para a casa dos pais avisando que não havia necessidade de se preocuparem com os bilhetes. Ele os providenciara.
            Almoçou num restaurante diferente e depois caminou até o lugar do circo. Estava disposto a ver novamente as exibições de habilidades dos acrobatas e equilibristas. Era bem provável que tivesse havido alguma mudança na apresentação daquele dia. De fato os números eram ligeiramene diferentes dos que havia visto da primeira vez. Ao sair do circo passou por uma loja de roupas e comprou para si duas mudas completes de roupas. Aproveitou e também procurou umas camisas e bombachas para o pai. Um vestido para a mãe. Precisou fazer uso de sua memória visual para encontrar um número que ficasse bom nela. Era mais magra que o habitual em sua idade e não era fácil conseguir acertar o manequim. A vendedora lhe informou que era possível fazer ajustes para maior ou menor se fosse preciso e ele pagou tudo, levando o que comprara para o hotel.
            De repende lembrou que esquecera do tamanho de sua mala. Era pequena e não havia espaço sobrando. Teria que ver no sábado uma bolsa ou algo assim para acondicionar as compras. Daria um jeito. Comprara e pronto. Levaria tudo, nem que fosse preciso pagar algum excesso de bagagem no avião. Ficou assistindo televisão no hotel depois do jantar e depois foi dormir.
            A manhã de sábado passou procurando uma pequena mala para acomodar suas compras e pensou em adquirir um presente para Ângela. Mas o que ficaria bem? Uma jóia não estaria na hora, acabavam de se conhecer. Roupa? Desconhecia as suas preferências e não teria como adivinhar. Uma vendedora veio em seu socorro, sugerindo um perfume. É isso aí! Vou comprar um perfume bem suave, que combine com a suavidade e delicadeza da moça. Procurou por uma perfumaria, anexa a uma farmácia e passou mais de meia hora testando os odors de diversos frascos, até se decidir por um deles. Pediu para fazerem um pacote para presente que foi prontamente providenciado. Levou tudo ao hotel e tornou a descer para almoçar.
            A tarde passou no hotel cuidando de sua aparência. O cabelo estava bem aparado e o bigode precisou apenas de um leve retoque para deixá-lo ao seu gosto. Por volta das 5h começou a se vestir, caprichando nos detalhes. Não queria parecer afetado, mas também não convinha dar a impressão de desleixo. Ia participar de uma sessão de estréia de uma peça de teatro famosa, junto com uma família distinta. O pai da moça era general do exército, comandante da região militar. Por volta das 7h apresentou-se na portaria do edifício. Dessa vez não entrou direto. Chegou na portaria e pediu para ser anunciado. Levava na mão o pacote para presente que daria à Ângela. O porteiro comunicou-se com a família e logo o autorizou a subir.
            Pegou o elevador e alguns instantes depois chegava novamente diante do 501. Mal havia tocado a campainha e a porta estava sendo aberta. Dessa vez sem ter a corrente de segurança, pois haviam visto pelo olho mágico de quem se tratava. Ângela o convidou a entrar e ele aproveitou ali mesmo, depois de a porta ser fechada, para entregar o presente que trazia. A moça agradeceu e logo seus dedos delicados desfizeram o laço de fita e desembrulharam o conteúdo. Abriu o vidro e lhe sentiu o suave perfume. Seus olhos brilharam e ela falou:
            – Obrigada, Gaudêncio. Como adivinhou que esse é meu perfume predileto?
            – Acho que adivinhei mesmo. Tive a impressão de que ele combinaria com sua personalidade, sua delicadeza.
            – Vocês vão ficar aí na porta de conversa? Venham para cá. Vamos tomar uma refeição leve antes de irmos ao Teatro. A peça deve terminar tarde e até lá ficaremos com fome. – falou o pai chegando perto.
            – Olhe pai que perfume eu ganhei! Exatamente o que eu gosto.
            – Estou vendo que encontrou alguém de bom gosto e afinado com o seu.
            – Vamos comer pois ainda temos que terminar de nos vestir para a noite, – falou Ângela.
            Comeram pão com presunto, queijo fatiado, acompanhado de café com leite. Depois a família tratou de ultimar seu vestuário para sair. O general estava pronto, faltando apenas colocar o paletó e a gravata. Isso levaria um instante. Faltando cerca de meia hora desceram para embarcarem num taxi que os deixou à porta do teatro. A peça excedeu as espectativas de todos e em vários momentos era possível ver gente enxugando as lágrimas, tamanha era a carga emotiva do enredo. Ao saírem eram visíveis os sinais das lágrimas, especialmente no rosto das damas, onde a maquiagem ficara borrada ou fora removida pelo uso dos lenços. Ninguém se importou com isso pois voltariam para suas casas sem dar oportunidade a mais ninguém de observar o estrago.
 
Teatro Renascença.
 
            Gaudêncio se despediu à porta do edifício, deixando combinada a hora de irem no domingo para o estádio. Dona Lourdes falou:
            – Por que não vem almoçar com a gente? Depois podemo sir mais tranquilos para o estádio. Chegando mais cedo, pode-se escolher melhor o lugar para ver a partida.
            O convite foi aceito e todos seguiram para ter uma noite de sono, embalada por lembranças da peça de teatro assistida há pouco.
            No domingo às 10h 20 min. Gaudêncio chegou à casa do general. O clima era todo em azul, branco e preto, até a toalha de mesa, os guardanapos, os copos continham o símbolo. Sentiu-se encolher, mas não diria nada. Haveria tempo para mostrar, na hora oportuna, sua preferência pelo Colorado. Almoçaram e depois de um pequeno Descanso seguiram para o estádio. Chegaram com mais de hora e meia de antecedência. Entraram, escolheram o lugar para sentar e ali ficaram esperando. Haviam levado sanduiches e garrafas de água para suportar o calor da tarde que seria forte e demorado. No meio de uma multidão azul, o tempo passou rápido e quando viram os times haviam feito o aquecimento e faziam agora sua entrada para a partida.
 
Povo na rua em dia de jogos dos dois clubes.
 
            O resultado não importava muito a Gaudêncio, mesmo assim, acabou torcendo pelo time brasileiro. Naquele momento era Brasil contra Uruguai. Ganhar dos estrangeiros sempre era bom.
            O jogo terminou com um empate em 2×2 e os torcedores não ficaram plenamente satisfeitos. Mesmo assim não haviam sido derrotados, pois ultimamente vinham sofrendo com uma série de derrotas inaceitáveis. Diante disso um empate com o Nacional do Uruguai, tinha um sabor menos amargo. Melhor teria sido a vitória, mas na impossibilidade e tendo em vista o equilíbrio havido durante o jogo, era um resultado satisfatório.
            Retornaram para casa, despediram-se e combinaram comunicar-se para marcar a data em que a família visitasse a fazenda. Gaudêncio voltou para hotel onde preparou suas malas. Não iria sair muito cedo para o aeroporto, mas dormir bastante estava a lhe fazer falta. Andara abusando durante a semana, deitando tarde e levantando cedo. Jantou no hotel e depois de olhar o fantastico na TV, foi dormir. Levantou pela manhã a tempo de tomar café. Depois fechou a conta, pediu a um carregador para levar as malas para um taxi e foi para o aeroporto. Almoçaria por ali mesmo e logo embarcaria no avião. Não queria chegar atrasado e não havia mais nada a fazer.
            Pontualmente às 16 h o avião tocou a pista de pouso do aeródromo de São Borja. O padrinho Joaquim o esperava no saguão e o abraçou carinhosamente. As bagagens foram levadas para o automóvel e voltaram para casa.

Gaúcho de São Borja! – Capítulo VIII

 

 

 

 

Área de manobras e cargas.

 

 

Vista do Salgado Filho.

 

 Conhecendo a capital
Num belo dia de sol, Gaudêncio das Neves, depois de sofrer um pouco durante os momentos mais críticos de um voo num avião comercial, desembarcou no aeroporto Salgado Filho, na capital Porto Alegre. Era seu primeiro voo mais longo. Havia feito algumas experiências em voos panorâmicos sobre as fazendas da região, em companhia do padrinho Joaquim. O aparelho em que agora voara, era equivalente a uma porção daqueles em que tivera oportunidade de fazer sua estréia nos ares do Rio Grande.
Estava pilchado com seu traje típico e olhou assustado para a quantidade nunca imaginada de aviões, as dimensões do aeródromo, o pátio de manobras e estacionamento. Tudo era gigantesco. Estava acostumado às amplidões do pampa, onde as coxilhas se estendem a perder de vista, alternando pastagens, capões de mato, plantações e aqui ou ali uma sede de fazenda. O aeroporto de São Borja, mesmo não sendo pequeno, parecia um campinho de várzea perto de um Beira Rio, Olímpico ou Maracanã. Orientado pelos funcionários da companhia aérea, dirigiu-se para a área de desembarque, onde recebeu sua bagagem. Após perguntar pela saída, encontrou finalmente um taxi que o levou para o hotel previamente reservado pelo padrinho.
Entrou no hotel, olhando curiosamente para todos os lados. Suas estadias anteriores em hotéis haviam ocorrido em lugares menos imponentes. Era ali que Joaquim se hospedava nas raras ocasiões em que vinha para a capital. Era suficientemente bom para satisfazer as exigências de um homem rico, não excessiamente sofisticado. O registro foi preenchido, um adiantamento de duas diárias foi exigido e depois encaminharam o hóspede para o seu aposento. Localizava-se no 7º andar, com vista para a Av. Farrapos. Era estranho observar os carros e as pessoas dali de cima. Os primeiros se assemelhavam a chapas mais ou menos planas que deslizavam pelas ruas. Já as pessoas pareciam bonecos, tendo em destaque a cabeça e os braços, deslocando-se pelas calçadas. Aqui e ali se viam toldos de vendedores de rua. Carrinhos de cachorro quente, sanduiches e outras iguarias.
Guardou suas roupas no guarda-roupa, os objetos de uso na cômoda, onde havia um amplo espelho. Foi até o banheiro e aliviou a premência de suas necessidades fisiológicas. Olhou no relógio e viu que era hora de ir almoçar, do contrário perderia a hora e depois teria que esperar a janta, ou então comer alguma coisa num boteco. Conferiu se tinha no bolso os documentos, dinheiro e objetos de uso constante, depois desceu e pediu informação na portaria. Indicaram lhe um restaurante situado a duas quadras dali, onde poderia encontrar uma refeição de seu gosto. Sua forma de trajar denunciava a orígem e indicava o tipo de lugar escolheria para almoçare.
Chegou lá e encontrou uma churrascaria bastante movimentada. Apesar de já serem 13h 15 min, ainda estava cheio, tendo poucas mesas livres. Escolheu uma que dava visão de todo o ambiente e uma parte da rua. Queria saborear a refeição enquanto prestava atenção no movimento geral, nas atitudes dos demais clientes, o movimento da rua. Estava em viagem de aprendizado, portanto tudo que fosse novidade lhe interessava nesse sentido. Um garção lhe trouxe o cardápio e ele não demorou na escolha. O prato principal seria a costela no espeto, tendo por acompanhamento um pouco de salada, arroz, feijão e algum petisco como uma linguicinha, um miudo de frango.
Enquanto esperou correu o olhar por sobre todo povo sentado, ocupado em dar conta de seus pedidos, mantendo com os companheiros de mesa frações de conversa em momentos de interrupção da mastigação. Em seu íntimo ficou pensando no fato de que, na hora de comer, não existe grande diferença entre ricos, pobres, humildes, letrados ou qualquer outra diferenciação. O importante era colocar a comida para dentro, mastigando e engolindo num vai-vem ininterrupto. Seu pedido chegou e interrompeu seus devaneios, pondo-se também a fazer o mesmo que os demais faziam. A carne estava muito boa e esqueceu completamente seus pensamentos de há pouco. A preocupação principal era dar cabo daquele naco de costela, duas linguiças e um pouco de feijão com arroz que pusera no prato. O espeto com carne passou mais uma vez e deixou uma segunda porção, ao cabo da qual ele sentiu que estava farto. Comer mais seria exagero e poderia passar mal.
Pagou a conta, mas antes pediu o cafezinho. Enquanto aguardava o seu “pretinho fresco passado no saco”, pegou um palito e discretamente removeu de entre os dentes alguns nacos de carne que ali haviam ficado presos. Depois saiu caminhando lentamente pela rua, observando todos os pormenores. Estava na capital e ali, como em qualquer outra cidade, havia detalhes característicos próprios, dificilmente encontráveis em outra. Queria reter o máximo de informações na mente. Era segunda feira e o encontro com os agentes financeiros do padrinho estava marcado para a manhá de terça. Tinha pois a tarde livre para passear, conhecer o que desse tempo de ver. Voltou ao hotel, trocou de roupa, colocando uma que chamasse menos atenção.

Beira Rio, vista interna.
Vista aérea do Beira Rio.


Desceu e perguntou se era muito longe dali o estádio do Beira Rio, bem como do Olímpico. Era torcedor do Colorado, mas não do tipo fanático. Respeitava a liberdade de cada qual ter sua preferência. Afinal, o que seria dos outros clubes, se todos resolvessem torcer para o mesmo? Não teriam de quem fazer troça nos casos de vitória ou derrota. Nem mesmo adversário teriam mais, uma vez que isso implicaria na extinção dos outros. Tinha por lema: “Na hora do jogo, torcer até ficar rouco e quase sem fôlego. Depois, confraternizar pouco importando que havia sido vencedor.” Foi informado que poderia tomar um ônibus na esquina e desembarcar ao lado do Beira Rio. Depois num outro coletivo chegaria ao Olímpico. Estava munido da filmadora Super 8 do padrinho, adquirida na recente viagem à Europa. Registraria as imagens de sua visita aos dois monumentos dos maiores clubes de futebol do Rio Grande do Sul.
Decidiu por tomar um taxi, pois assim chegaria mais depressa e poderia dedicar mais tempo a visita que iria fazer. Saiu para a rua e logo um veículo era parado ao seu sinal. Embarcou e deu o endereço onde queria ir. Partiram e em cerca de vinte minutos era deixado diante do estádio conhecido como o Gigante do Beira Rio. Havia visto fotografias de página interia nos jornais, imagens na TV a cores na casa do padrinho, mas nada poderia dar a noção exata da majestosidade do imenso bloco de concreto e aço que via a sua frente. Caminhou lentamente ao redor, olhando cada detalhe, sempre de camera em punho, ou batendo instantâneos para o álbum que faria da viagem. Demorou cerca de uma hora até se dar por satisfeito. Quando pudesse viria assistir a um jogo, de preferência um Grenal. Seria a realização de um sonho acalentado há muito tempo.
Vista aérea do Olímpico Monumental.
Olìmpico Monumental, vista interna.






Tomou outro taxi, rumando para o Estádio Olímpico. Lá chegando, seus olhos também se admiraram da imponência da obra. Forçoso era reconhecer que o estádio do principal adversário de seu Colorado, também tinha sua grandiosidade. Nova sequência de filmagens, fotografias e novas sequências de filme. Teria muito que mostrare ao pai, aos amigos, aos peões com quem convivera durante os anos de sua infância e adolescência. Entre eles havia os colorados como também os gremistas. Chegavam a formar dois times para disputar peladas nas tardes de domingo ou feriado, numa área que for a limpa e era própria para jogar uma bola.

As vitórias se alternavam ora para um lado, ora para outro, mas sempre no final matavam a sede com uma ou duas grades de gasosa, quando não umas Serramaltes, Brahmas, Casco Escuro ou coca-cola. Sempre resultavam alguns esfolões, vez ou outra um tornozelo inchado, até mesmo um braço quebrado durante uma queda ou choque no calor da disputa. Poderia mostrar a todos que não se importara em visitar apenas o estádio de um dos dois clubes. Levaria imagens dos dois e assim ficaria em bons ares com uns e outros. Terminada sua incursão aos estádios, verificou no relógio de pulso, presente do padrinho trazido da Europa, que já eram 5h30min. Não teria mais tempo para dar um passeio até o rio Guaiba. Deixaria para outra hora, pois havia visto do algo, na hora em que o avião estava fazendo a aproximação para pousar no aeroporto. Fora uma vista impressionante.
Retornou ao hotel e decidiu tomar banho, barbear-se com capricho. Queria fazer bela figura e não podia descuidar da aparência. Ao desembarcar do taxi viu ao lado do hotel a existência de uma barbearia e foi até lá para aparar o cabelo, dar um jeitinho no bigode, do qual se orgulhava bastante. Teve que agurdar alguns minutos até ser atendido. O professional que o atendeu foi gentil e realizou seu desejo de fazer um corte de cabelo que melhor se ajustasse ao tipo do cliente. Deu pequenos retoques no bigode e colocou nas mãos de Gaudêncio um espelho para observar de perto. Olhou demoradamente para sua imagem, conferiu o cabelo e se deu por satisfeito. Pagou o serviço, deixando uma gorjeta e voi para o hotel. Estava barbeado e de cabelo cortado, faltava apenas o banho.
De banho tomado, uma roupa nova tirada do guarda-roupa, agora desamassada depois de ficar pendurada no cabide durante a tarde. Vestiu-se com calma, calçou o sapato e desceu para jantar no próprio hotel. Uma refeição leve para a noite era suficiente. Ainda sentia o peso da carne ingerida no almoço. Enquanto esperou a refeição, pensou no que faria na primeira noite na capital. Pensou em procurar uma boate para tomar contato com a vida noturna, mas sua inexperiência o colocaria em risco de passar por experiências desagradáveis. Na manhã seguinte tinha compromissos importantes e não seria conveniente se apresentar de ressaca ou quem sabe coisa pior. Quando o garção trouxe a comida, perguntou de modo discreto sobre um cinema nas redondezas. Queria ver um bom filme para depois ir dormir uma boa noite de sono.
O interpelado lhe disse que o melhor cinema das proximidades ficava na rua paralela, descendo uma quadra. Pelo que sabia estavam levando uma fita muito boa. Um bang-bang inédito, e ouvira falar muito bem. No que lhe dizia respeito, aconselharia o amigo a assistir.
Agradeceu e se pos a comer com calma. Tinha tempo suficiente. Eram agora pouco mais de sete horas e o filme teria início somenta as 8 h 30min. Poderia gastar todo o tempo necessário para a sua refeição e depois ir até o cinema. Terminou de comer e pediu um café. Tomou a bebida e levantou-se para sair. Em pouco mais de dez minutos ele se encontrava diante do moderno cinema, onde em grandes cartazes era anunciada a fita que estaria sendo exibida em sessões contínuas naquele e nos próximos dias. Havia uma fila onde as pessoas ficavam para adquirir seus ingressos. Gaudêncio não esperou e entrou na fila. Pouco depois recebia o bilhete e foi para a porta de entrada. Ao chegar no interior, mantido em semiobscuridcade, procurou um lugar para sentar. Escolheu a posição que permitiria boa visão da tela e sentou-se no assent confortável.
Alguns minutos depois o filme começou. Gaudêncio procurou manter o controle, pois era a primeira vez que estava em uma sala de cinema de semelhantes dimensões. Prestou atenção aos demais assistentes para não cometer gafes, dizer algo inadequado, rir nas horas indevidas. Se divertiu bastante e após duas horas, que passaram sem perceber, levantou satisfeito e voltou para seu quarto no hotel. Ali chegando aproveitou para ver a última edição do jornal que estava passando na TV na sala de estar no hall. Depois subiu e foi dormir.
Terça feira cedo estava a caminho do endereço da empresa de investimentos, localizada a alguma distância, para ter o seu primeiro contato com o mundo dos investimentos. Ia imaginando o que iria encontrar. Chegou e foi introduzido na sala do agente de Joaquim sem demora. Ouviu por mais de meia hora o homem discorrer sobre diversos investimentos do padrinho. Falou de ações, Petrobrás, Banco do Brasil, depósitos a prazo fixo, investimento em fundos de ações, e uma enorme variedade de nomes que eram desconhecidos até aquele momento. Recebeu um relatório da rentabilidade dos últimos seis meses de todos os investimentos, percebendo que dinheiro gera dinheiro, bastando ser aplicado de maneira conveniente. Claro que havia riscos. Para evitar isso existiam pessoas especializadas em fazer o acompanhamento diário e orientar os investidores na sua tomada de decisões. Ao final da manhã, em torno das 11 horas, a entrevista foi dada por encerrada. Gaudêncio não fez alterações significativas pois temia tomar, por inexperiência, decisões erradas e causar prejuízos. O padrinho o deixare tranquilo nesse particular, mas fazia questão de não ter essa responsabilidade.
Quando estivesse mais inteirado de tudo, poderia começar a tomar algumas decisões mais audazes. Pensou na sugestão de Joaquim sobre voltar a escola. Estava com 23 anos e iria fazer figura estranha no meio da juventude, mas isso pouco importava. Sabia que não seria o único nessa situação. Era bastante comum as pessoas descobrirem a encessidade de estudar e retornarem aos bancos escolares. Queria poder julgar melhor por seu próprio entendimento. Mesmo os profissionais mais conceituados estavam sujeitos ao erro e também a ações menos honestas. Sem fazer julgamentos, mas sendo cauteloso, preferia errar por sua própria cabeça do que pela dos outros.
Ao sair, cabeça meio tonta de tanto ouvir números e nomes, cifras e percentuais, caminhou algumas quadras e no meio do caminho encontrou um amplo terreno sem construções. Bem no meio estava armada a lona de um circo, pelo que se podia visualizar, em boa situação. Devia ser uma apresentação digna de ver. Fora assistir diversas sessões de circo em São Borja em ccomapnhia da madrinha e padrinho. A diferença era que aqui o tamanho da lona do circo dava o equivalente a pelo menos umas duas ou mesmo três das que apareciam na cidade natal. A portaria ficava próxima à rua e por toda parte cartazes anunciavam os horários das sessões e os preços. Decidiu almoçar e depois assistir a sessão da tarde. Provavelmente estaria cheio de crianças e adolescents, mas isso não importava. Tinha quase certeza que nesse horário seria mesmo mais divertido.
Encontrou um restaurante a la carte nas proximidades e almoçou. O cardápio constava de uma feijoada e isso lhe atiçou o apetite. Gostava do prato, frequentemente preparado por Maria Conceição, sua mãe nos anos antecedents. O odor vinha da cozinha próxima até as narinas de quem passava na porta. Sentou-se e fez o pedido. Em pouco chegou uma generosa terrina cheia de feijão com os tipos de carne próprioss do prato. Em pequena travessa veio arroz, farinha de mandioca e salada. Era comida suficiente para satisfazer alguém com fome de leão. Certamente haveria sobras a recolher após deixá-lo satisfeito.
Ao sair do restaurante, caminhou até uma praça que ficava perto, sentou um pouco na sombra esperando a hora de ir tomar seu lugar no circo. Alguns minutos antes foi até a bilheteria, adquiriu o ingresso e foi ao local de acesso. Entregou o bilhete e entrou, encontando um lugar em uma cadeira, lugar mais confortável que havia adquirido. Um toca discos estava rodando um LP de Teixeirinha. No picadeiro dois palhaços faziam evoluções, contavam piadas e aprontavam estrepolias diversas, mantendo os assistentes já sentados entretidos com suas ações.
A sessão foi deveras divertida. Nos momentos das apresentações de trapézio os peitos se comprimiam com o receio de uma queda. A equipe era muito boa. Faziam numerous de alta complexidade. Exigiam alto grau de agilidade e força física. Os equilibristas também eram formidáveis. Os números com elefantes, com tigres e leões eram igualmente de forte emoção. O tempo passou sem perceber e ao sair do interior, Gaudêncio constatou que eram quase cinco horas. Iria para o hotel e depois sairia para jantar. Talvez aproveitasse para ir a um teatro. Ouvira dizer que uma companhia estrangeira estava se apresentando no teatro municipal. Pediria informações a respeito no hotel. Chegou e logo obteve a informação que desejava.
Depois de jantar pegou um taxi e foi até o teatro. A fila par aquisição de ingressos era um pouco grande e pensou em desistir. Enquanto esperou um pouco, decidindo o que fazer notou que a fila estava andando bem depressa e resolveu enfrentar. Alguns minutoss depois chegava ao guichê e adquriu o ingresso. O preço era alto, mas o padrinho lhe dissera que deveria tomar um “banho de cultura” para aos poucos se ajustar a sua nova posição. Entrou e aos air tinha plena convicção de que valera a pena. A peça representada era de autoria de Scheakespeare e a companhia espanhola. Ficara emocionado nas cenas mas fortes.
Na volta ao hotel viu na televisão a informação de que no dia seguinte, quarta feira á noite haveria jogo no Beira Rio. O seu Colorado iria enfrentar o Flamengo do Rio de Janeiro. Os amigos e conhecidos o chamariam de bobo se contasse não ter ido assistir ao jogo, estando na capital. Procurou se informar sobre a disponibilidade de ingressos e lhe foi informado que era possível adquiri-los ali perto em uma agência conveniada. Teria apenas que esperar a manhã seguinte quando o local abrisse o expediente. Subiu para dormir e descansou das andanças do dia. Não fizera nenhum esforço, mas rira a valer no circo e pouco antes no teatro for a levado aos extremos da emoção. Isso deixava uma leve lassidão aos membros, prevendo por isso uma boa noite de sono.



 Guaiba, ao fundo Porto Alegre.
Outro ângulo, mais abrangente do Guaiba.

 
Na manhã de quarta feira foi comprar sua entrada para assistir ao jogo da noite e depois foi de taxi até as margens do rio Guaiba. Andou de canoa durante algum tempo, sentindo o balanço da água, depois caminhou ao longo da margem e encontrou um local meio ao ar livre onde podia comer peixe frito. Sentou-se e pediu uma porção. Depois pediu uma segunda e mais uma Terceira. Gostava muito de peixe e como não estava comenda nada além disso, a carne leve não lhe pareceu excessive. Depois de satisfeito, iniciou o retorno, caminhando. Pensou ser possível voltar a pé, mas chegou o momento em que cansou e não queria chegar de pernas moles ao estádio para o jogo. Fez sinal a um taxi e voltou ao hotel. Vestiu uma camisa do time do coração, uma calça leve com calçado combinando. Jantou mais cedo e foi para o estádio.
Com o ingresso na mão chegou ao portão de entrada e logo estava no interior. Levava consigo a filmadora e a camera fotográfica. Mostraria imagens do jogo para provar que não era conversa sua quando contasse ter assistido ao jogo. Sentou-se em um lugar que considerou adequado. Faltava ainda pouco mais de uma hora para o incício da partida, mas as arquibancadas estavam bastante ocupadas. Alguns setores estavam ainda vazios, mas os que chegavam primeiro escolhiam os lugares considerados melhores para assistir o espetáculo. Os últimos teriam que se contentar com o que restasse livre.
Gaudencio se prevenira com uma garrafa de água e alguns biscoitos para o caso de a fome atacar. O jogo começou. Era decisive no Campeonato Nacional daquele ano e os dois times lutavam pela vitória. O placar não sofreu movimentação até o minute final do primeiro tempo. O juiz apitou e encerrou o jogo. Restava esperar pelo segundo tempo para haver uma decisão. No interval foram trocadas algumas palavras com os circundantes. Ao saberem de onde ele era, lhe deram boas vindas e quiseram que participasse da torcida organizada. Prometeu pensar no assunto. Não estava interessado em arrumar compromissos que não saberia se teria como honrar. Quando o cronômetro indicava 43 minutos do segundo tempo ainda estava em 0x0. Nesse momento uma falta cometida por um zagueiro do Flamengo nas proximidades da área e o juiz marcou. 
A barreira foi formada, os jogadores se postaram para a continuação da jogada após a cobrança da falta. Mas o encarregado da cobrança foi perfeito em sua tarefa. Mandou a bola no canto esquerdo do goleiro, naquele lugarzinho que dizem ser o dormitório da coruja e a assistência explodiu em delírio. Colorado estava à frente no marcador: 1 x 0. Houve os acréscimos e o jogo foi encerrado aos 49 minutos do segundo tempo. A vitória fora suada mas valera a pena. Pouco importava ganhar de 1, 2 ou mais. Bastava ganhar o jogo e isso havia ocorrido. A volta para o hotel foi demorada devido à grande movimentação de pessoas na rua. 
 
         No outro dia voltou ao escritório dos agentes financeiros para saber se tudo estava em conformidade com o que ficara combinado.

Mineiro sovina! – Capítulo IX.

 

Entrega das intimações
Três semanas depois de encaminhados os processos, foi marcada a audiência para eventual conciliação ou julgamento da matéria. Em havendo evidências para o proferimento de sentença, o Meritíssimo Juiz da vara cível proferiria a sentença, da qual caberia recurso, para produção de novas provas de ambas as partes litigantes. Não havendo recurso, a sentença seria executada e o processo arquivado como concluido. As intimações às partes e testemunhas foram emitidas, havendo um prazo entra a data de intimação e a realização da audiência, visando permitir à parte demandada constituir sua defesa, arrolar testemunhas e provas em seu favor.
A entrega das intimações precise ser realizada em mãos pelo oficial de justiça. Como ambas as partes residiam na mesma redondeza, um mesmo oficial foi encarregado da entrega de todas as intimações. Chegou primeiramenete na casa de Onofre, onde não encontrou dificuldade em realizer sua tarefa. Ao contrário, o mesmo ficou contente em saber o dia em que seria feita justiça em seu favor, disso tinha certeza. Depositava no doutor José Silvério uma confiança quase cega. Faria o possível e o impossível para ganhar essa causa em seu favor.
Quando chegou na propriedade de Jerônimo de Alcântara, a situação ficou complicada. Ao ver o veículo com placa oficial o proprietário ficou de cabelo em pé. Ouvira murmúrios de que o vizinho havia contratado advogado para questionar seu direito ao uso da água da vertente, próxima da divisa. Sempre desconfiara de que aquela demarcação realizada anos antes, no tempo de seu pai, quando ele era criança, não for a feita com lisura. Quando teve oportunidade contratou um agrimensor que fez, sem avisar o vizinho, uma nova demarcação e agora a vertente estavam em seus domínios.
Acolheu o oficial com a carra amarrada, esperando para ver o que viria. Ao saber do que se tratava, ficou furioso. Deu um berro e imediatamente um par de capangas surgiu ao seu lado, perguntando o que acontecia e ele lhes dissect:
– Botem para correr esse oficialzinho de justiça. Não vou assinar intimação alguma e quero ver quem vai me obrigar.
– Senhor, não precise de violência. Nós vamos embora e o senhor receberá de outra forma essa intimação.
Deu meia volta, embarcou no jipe e voltaram para a cidade. Alguns dias depois, duas viaturas da polícia militar, transportando um contingente de oito soldados e um sargento, escoltaram a viatura do oficial de justiça ao patio da fazenda de Jerônimo. Os policiais ficaram aguardando, mantendo as armas ao alcance das mãos, enquanto o oficial fazia a entrega da intimação. Diante dessa demonstração de força, Jerônimo manteve a custo a raiva, e assinou a intimação. Havia nesse interim procurado um advogado que lhe aconselhara receber por bem a intimação, do contrário iria responder por mais um ato delituoso. Desacato à autoridade, por ter usado a intimidação diante do oficial de justiça. Tinha que cuidar para não complicar mais o que parecia não ser tão simples como ele pensare que fosse.
Depois de assinar a intimação, o sargento desceu da viatura e chegou perto, dizendo:
– Senhor Jerônimo, eu trago uma ordem de prisão contra sua pessoa, emitida pelo Exmo. Juiz da vara cívil, por desacato a autoridade do oficial de justiça no dia em que veio lhe entregar a intimação que agora o senhor recebeu. O senhor me acompanha por bem, ou vou ter que usar a força?
Olhou ao redor e ali estavam os soldados com as mãos prontas para empunhar as armas em defesa de seu chefe.
– Eu vou, mas no meu automóvel.
– Alguém vai levar seu automóvel e o senhor nos acompanha na viatura. Quando o Juiz lhe liberar vai voltar com quem lhe for buscar.
– Mas sargento…
– Nada de mas, senhor Jerônimo! Nem meio mas! Ou prefere ser algemado agora mesmo?
– Casimiro, pega aqui as chaves e os documentos do auto. Venha atrás da gente para me buscar. Aliás já passa logo no doutor Paulo e peça para ele providenciar minha soltura.
– Pois não patrão. Vou levar o Chico comigo para não ir sozinho.
– Mas não siga muito perto das viaturas. Mantenha pelo menos cem metros de distância, – falou o sargento.
Todos embarcaram, fizeram a volta e rumaram para a cidade. Em poucos minutos era possível ver, seguindo atrás dos veículos oficiais, a caminhonete de Jerônimo, indo em sentido da cidade. Quem passava pela estrada ficava achando estranha a presença de Jerônimo do veículo policial e os empregados dirigindo sua caminhonete. Não tardou a notícia chegar aos ouvidos de Onofre e este se rachou de dar risada. Ficara sabendo que o vizinho botara para correr o oficial de justiça na primeira vez e agora estava levando o que merecia. Aprenderia a respeitar autoridade.
Chegaram ao forum e levaram Jerônimo direto para a ante-sala do gabinete do juiz. Foi anunciada a sua presença e logo o magistrado mandou que o fizessem entrar. Era um homem bem menos arrogante e altivo que estava ali. Mantinha-se de cabeça baixa esperando o veredito do juiz. Este folheou uma pequena pasta e, puxando os óculos sobre a ponta do nariz, encarou o homem a sua frente e falou:
– Então esse é o homem que não recebe intimação das mãos do oficial de justiça? Chama os capangas e manda por para correr a autoridade! Que tal fazer isso agora, aqui na minha frente, senhor Jerônimo! Vamos, comece.
Diante do mutismo do homem, o juiz tornou a falar:
– Engraçado, parece que o gato comeu sua língua agora, ou a perdeu na estrada! Eu devia lhe botar na cadeia por trinta dias pelo menos, seu Jerônimo. Mas como tem pouco mais que isso para providenciar sua defesa no processo de litígio de divisas e outras pendengas, vou fixar sua fiança. Providencia um advogado para trazer o dinheiro e depois o libero. Levem ele para a sala de detenção provisória até que o advogado venha livrá-lo dessa enrascada.
– Meu advogado daqui a pouco estará aqui. Pode fixar a fiança que e providencio o dinheiro.
– Já vou fazer isso, mas não quero lhe ver mais na minha frente antes do dia da audiência. Agora pode ir e se controle, ou mando lhe aplicar um corretivo.
Em questão de meia hora o advogado, doutor Paulo de Andrade, chegou e recebeu das mãos do juiz a fiança estipulada. Foi falar com Jerônimo e lhe disse:
– Fique calmo e vamos logo providenciar esse dinheiro. O senhor escapou liso. Esse juiz é severo e não gosta de ser desobedecido. Onde foi que estava com a cabeça ao botar para correr o oficial de justiça?
– Nem eu sei direito, doutor! Me deu uma raiva naquele dia e não me controle. Quando vi já tinha feito.
– Isso poderia ter custado bem mais caro, seu Jerônimo.
– Posso fazer um cheque para retirar no banco antes que feche?
– Faça logo pois não demora para fechar o expediente.
O cheque foi preenchido, sendo acresdido do honorário do advogado. Ele tivera que interromper uma entrevista importante para atender a emergência do cliente. Não faria isso sem cobrar seu trabalho.
Quando o dinheiro da fiança chegou às mãos do juiz, feito o recibo, imediatamente foi dada a ordem de soltura do detido. Os capangas aguardavam do lado de fora com a caminhonete para levar o patrão para casa. Estavam assustados, pois nunca haviam passado por uma situação dessas. O mais perto que haviam chegado de um juiz era alguns quilômetros de distância. Hoje tinham ficado a espera diante do forum, vendo entrar e sair grupos de policiais, viaturas adentrando o patio, homens de terno e gravata chegando e saindo. Queriam rapidamente sair dali e voltar a sentir-se em seu elemento, bem longe daquele lugar.
Jerônimo não estava para muita conversa. Apenas respondeu com monossílabos às perguntas dos capangas que logo notaram e se mantiveram em silêncio. Não era aconselhável perturbar o patrão quando estava enfezado. Os dias seguintes foram de intensa movimentação na propriedade de Jerônimo. Foram frequentes visitas ao advogado, levando testemunhas, documentos solicitados pelo advogado, para preparar adequadamente a defesa. O tempo era escasso, pois a teimosia do acusado, consumira preciosos dias que teriam sido importantes na preparação da defesa.
Nesse meio tempo, Antônio B. Lemos visitou, em companhia de José Silvério, a fazenda de Onofre, para fazer o levantamento detalhado de todos os quadros de Isabel. Ao todo catalogou 112 peças, incluindo os que estavam na casa, enfeitando as paredes. Foi preciso identificar cada um com um nome e foi Isabel que teve a tarefa de fazer a escolha dos nomes. Muitos eram óbvios devido ao objeto retratado, outros ao contrário, exigiam uma denominação diferenciada para evitar a repetição de nomes. Fez uso de indices numéricos para tal. Cada um recebia, junto ao nome, a data de conclusão. Dessa forma formou-se um acervo bem seleto. Nada havia a excluir, mesmo os produzidos logo no início da atividade. Permitiam traçar a trajetória evolutiva da artista.
Com um catálogo de fotografias detalhadas em mãos, Antônio procurou os proprietários da galeria e negociou o evento. Conseguiu uma semana livre em um prazo de 90 dias. Levou Isabel para assinar o contrato com a galeria e patrocinadores. Foi estabelecido um valor mínimo para cada peça a ser exposta e feito o mapa da exposição. Ao entrar o visitante encontraria os trabalhos de início da carreira e aos poucos vinham os de datas mais recentes, até o dia mais próximo da data do evento. Instada por Antônio ela levou uma tela inacabada e cada dia dava algumas pinceladas dando a impressão de um trabalho em construção. Dessa forma era comum os visitants encontrarem a pintora com o avental, pincéis e tintas em punho, dando algumas pinceladas.
Enquanto aguardavam a realização do evento, eram feitos contatos com outras galerias, principalmente da capital e muitos machand’s confirmaram a presença para conhecer a nova artista. Alguns expoentes do mundo artístico confirmaram presença na noite de inauguração, o que viria abrilhantar a noite. Nos dias subsequentes haveria horários de visitação no período da manhã, tarde e começo da noite.
As semanas passaram rapidamente e o dia da audiência se aproximava. Num dia desses, Onofre se viu frente a frente com o vizinho Jerônimo, aos air de uma agência do Banco do Brasil. Onofre ia passar sem dizer palavra. O vizinho o interpelou:
– Está imaginando que vai ganhar a causa, coronel? Pode esquecer. Meu advogado vai dar uma surra no seu, aquele molecote, filho do dono da mercearia e vai arancar de você uma boa indenização.
– Tem certeza?
– Se tenho! São favas contadas. Depois vou dar uma festa em comemoração, paga com seu dinheiro, coronel de meia pataca.
– Veremos, Jerônimo. Tenho mais o que fazer. Passar bem vizinho.
O que Jerônimo não sabia é que Onofre, com o mapa e laudo da demarcação feita anteriormente, fora ao cartório e registrara o documento. Dessa forma ele passara a fazer parte da documentação da propriedade e nele estava claramente especificada a localização da vertente motivadora da discórdia. O doutor Paulo, recebendo um mapa inverso, datado de época mais recente, mas sem o devido registro, tinha absoluta certeza de que a causa estava ganha. Disso resultava a certeza de Jerônimo quanto ao resultado do julgamento que resolveria a questão.
Antes de empreender o retorno, Onofre passou no escritório e contou a José Silvério o encontro que tivera com o seu desafeto. Foi aconselhado a não revidar nenhuma provocação. Até mesmo os seus empregados deveriam reagir a eventuais agressões provenientes de empregados de Jerônimo. Qualquer ato impensado viria prejudicar o resultado do processo. Seria preciso manter a serenidade, mesmo a custa de muito esforço. Havia a possibilidade de ser contratado algum pistoleiro para executar alguma forma de vingança, antes ou depois do julgamento. Era recomendavel não sair sozinho da propriedade e nem percorrer sem acompanhante os seus domínios. Infelizmente ainda não era possível confiar inteiramente nos trâmites da justiça. Uma bala perdida, disparada de tocaia era capaz de causar muito mal e depois não haveria sentença que desse resultado.

 

Onofre falou que já adotara desde algumas semanas, especialmente quando soubera do episódio do oficial de justiça posto a correr pelo vizinho, a providência de estar sempre acompanhado de pelo menos um de seus tabalhadores. Não convinha se expor sem necessidade. Talvez depois da sentença, com algum tempo para digerir a questão, o vizinho viesse a se tornar menos agressivo e truculento. 

Mineiro sovina! – Capítulo VIII

 

Foto de uma fazenda típica de Minas Gerais.

 

Processo é encaminhado
Naquela noite, antes de adormecer, José passou um longo tempo lembrando do rosto, silhueta, os longos e sedosos cabelos de Isabel. O conjunto era estonteante e ele estava irremediavelmene apaixonado. Fez um propósito firme de fazer o máximo empenho em todas as causas que ficassem sob sua responsabilidade. Alcançaria sucesso e posição de destaque dentro da empresa. Isso o colocaria em posição vantajosa do ponto de vista da opinião de coronel Onofre. Não teria como se opor ao romance, dele José Silvério, com a bela filha. Em especial colocou como questão de honra alcançar uma sentença favorável ao cliente no processo que iria encaminhar no decorrer dessa semana.
      Um ganho de causa, com sentença vantajosa para Onofre, daria ao advogado um trunfo importante na consecução de seu objetivo maior: conquistar as boas graças da filha. Não esqueceria de mandar reveler as fotografias na manhã seguinte, pois queria tê-las em mãos para serem anexadas ao processo como prova documental das transgressões cometidas pelo vizinho de seu cliente. Havia aproveitado para fazer uma sequência de exposições, gastando todo o filme. Assim teria imagens para lembrar do lugar onde a razão de suas aspirações afetivas passava seus dias. Pensando em tudo isso, adormeceu e sonhou com encontros românticos, passeios no cafezal, exposições de arte na capital, sendo a estrela a pintora que conhecera naquele dia.
      A manhã de segunda feira o encontrou a postos no seu gabinete, cuidando de alguns processos prontos para encaminhamento, faltando apenas revisar, evitando alguma falha eventual que passara despercebida. Logo cedo, pediu a secretária para chamar o contínuo. Quando o jovem se apresentou colocou em suas mãos o filme e pediu que o levasse ao laboratório mais próximo para reveler. Insistiu para que pedisse urgência no trabalho, pois havia ali provas importantes para um processo. O rapaz saiu e em questão de meia hora entregou à Roberta o comprovante de entrega do filme para processamento. Ficaria pronto ao final da tarde de quarta feira. Havia pedido que fosse terminado antes, mas não houvera jeito.
      Um pouco contrariado José, pensou um pouco e concluiu que, se deixasse tudo pronto, faltando apenas anexar as imagens, poderia encaminhar o processo na quinta feirra. Com um pouco de sorte dentro de uma semana ou no máximo duas, a data da audiência estaria fixada. As intimações seriam expedidas e entregues, para que ninguém pudesse alegar ignorância do fato.
      Em meio a uma série de processos, uns em fase de instrução, outros coletando documentos e informações, estava agora o processo de Onofre Pires contra Jerônimo de Alcântara. Os nomes das testemunhas do queixoso haviam sido arrolados e identificados, indo fazer parte do processo. Inicialmente teria algumas páginas com a descrição dos fatos relatados e constatados in loco pelo advogado, tendo como prova as fotografias tiradas.
      Pontualmente na tarde de quarta feira os negativos e uma cópia de cada uma das fotografias chegaram às mãos de José Silvério. O processo estava pronto, faltando apenas anexar as imagens. Apressou-se em fazer sua parte e encaminhou à secretária para concluir a montagem do processo. Olhou rapidamente as demais fotografias e depois guardou tudo em sua pasta para ver mais detalhadamente à noite quando estivesse em casa. 
            Antes de fechar o gabinete, teve tempo de revisar o processo, aliás eram dois. No primeiro estaria em julgamento o ato de violação do limite das propriedades e no outro um pedido de indenização pelos danos causados nos cafeeiros pelos animais de Jerônimo. Onofre fazia questão absoluta de ser indenizado até o ultimo centavo. Onde já se viu perder algumas sacas de café por causa das vacas do vizinho. Era causo fora de questão. Mostraria ao turrão do vizinho o quanto doia desrespeitar a propriedade alheia.
            No outro di aos processos, junto com vários outros, seguiu pelas mãos do contínuo, para o cartório do distribuidor público. Dali seriam encaminhados para as respectivas varas de justiça, muito embora não houvesse grande diversidade de juízes. Cada um deles acumulava mais de uma vara. O número de processos a serem julgados não era ainda tão elevado, permitindo aos três magistrados da comarca dar conta da tarefa.
            Nos momentos de relativa folga, José Silvério aproveitava para investigar a questão das pinturas de Isabel. Contatou vários amigos, ligados ao setor artístico para obter informações sobre eventuais especialistas na área de pintura na cidade. Ficou sabendo que existiam alguns, mas entre eles havia dois apenas que tinham algum renome no ramo. Os outros eram mais agenciadores de exposições do que experts em pintura. Pediu a quem lhe deu essas informações o endereço, telefone e alguns detalhes pessoais para poder fazer um contato mais personalizado. Julgou que, se a conversa fosse mais informal, teria meior chance de conseguir que um deles ao menos, se dispusesse a fazer uma avaliação dos quadross de Isabel.
            Se houvesse necessidade aproveitaria o final de semana para fazer uma visita pessoal aos dois. Isso permitiria formar uma opinião melhor sobre a capacidade de cada um. Na sexta feira conseguiu falar, primeiro com um deles e depois com o outro. Expôs a questão e encontrou receptividade de parte de pelo menos um deles, enquanto o outro ficou numa posição de neutralidade. Não se negou, mas não ficou entusiasmado. Sabendo que o interlocutor era membro do escritório de advocacia que os representava em algumas situações legais, predispuseram-se a recebê-lo em sua casa. Seria bom se tivesse uma ou duas amostras para levar. Dependendo da primeira impressão, fariam uma avaliação mais abrangente num momento posterior.
            As visitas ficaram marcadas para sábado à tarde. José aproveitaria a manhã par air até a fazenda e traria dois ou três quadros que Isabel se dispusesse a ceder. Assim teria, já na segunda feirra, uma ideia da opinião que os dois especialistas faziam do trabalho. Ele mesmo os achava encantadores, mas havia que levar em conta o fato de seu envolvimento emocional na questão. Isso altera a percepção da realidade. Não estava predisposto a notar imperfeições, falhas na execução das técnicas de pintura e outros pequenos detalhes.
            Ao chegar em casa na sexta à tarde, conversou com o pai sobre a possibilidade de usar o automóvel no sábado pela manhã. O pai quis saber qual era o objetivo e ele falou de que se tratava, recebendo de volta um olhar interrogador, como que a dizer:
            – Você está ficando apaixonado pela filha de seu cliente. Tome cuidado.
            Ficou com as chaves e documentos do automóvel desde aquele momento. Pretendia sair bem cedo e nesse momento o pai estaria provavelmente envolvido no processo de abrir o mercado. Qualquer coisa seria suficiente para atrasar e sabia da preocupação do seu genitor em ser pontual. Costumava abrir às 7 h 30 min, nem mais nem menos. A noite transcorreu sem novidades e sábado, logo aos primeiros raios de sol, o Ford Corcel GT, iniciava nova viagem até a fazenda de coronel Onofre. José ia alegre, cantarolando canções da bossa nova, Roberto Carlos, Ronie Von, Vanderleia e outros. Assim, quando menos esperava, chegou ao portal de acesso à fazenda. Percorreu a alameda ladeada de cafeeiros, onde agora estava ficando visível o avanço na maturação ocorrido ao longo da semana.






Cafezal florido.
Ladeiras cobertas de cafeeiros.
Cafezal sem fim, cobrindo morros e baixadas.
Montanha ao fundo e plantio nas proximidades.


            Estacionou na mema posição em que deixare o veículo no domingo e desembarcou. Logo se fez ouvir a voz de Onofre, parado na varanda que dizia:
            – Uai, doutor! Mas já de vorta?
            – Bom dia, coronel. Vim lhe comunicar que os processos já foram para as mãos do juiz e vamos aguardar a marcação das datas, expedição das intimações e tal.
            – E os retrato que tirou, ficaram bom?
            – Ficaram perfeitos. Acho que não vai sobrar dúvida quando o juiz pegar nas mãos. Mas só podemos cantar vitória depois da sentença.
            – Qui espero seja favorável!
            – Vai ser favorável, sim coronel.
            – Vem pra dentro. O café tá saindo agorinha mesmo do coador.
            Entraram e logo saboreavam uma ótima xícara de café fumegante. Quando Isabel trouxe o bule e as xícaras, ele aproveitou para dizer:
            – Em primeiro lugar, bom dia senhorita.
            – Bom dia doutor! Como tem passado?
            – Tudo ótimo e trago boas notícias para seus quadros.
            – Sim!
            – Vim ver se pode me emprestar dois ou três que estejam prontos para server de amostra para dois especialistas no assunto. São de Sete Lagoas mesmo.
            – Vamos ter que escolher. Tem uma porção ali no depósito. O difícil é escolher os menos ruins.
            – Não pense assim, senhorita. Pense em escolher os melhores. Pensamento positivo faz bem.
            – Vou ver com a mãe. Ela vai me ajudar a separar uns.
            – Não podem ser muito grandes para caber no carro.
            – Grandes mesmo só pintei os dois que estão na sala da lareira. Os outros são todos pequenos ou médios.
            – Se quiser, posso ajudar na separação. Apesar de não entender muito do assunto, posso ser uma opinião mais isenta.
            – Eu vou lhe chamar, depois que limparmos um pouco o lugar. Com licença, vou falar já com a mãe.
            José lançou um olhar para as paredes da sala de refeições onde se encontravam e percebeu novas nuances nos detalhes dos quadros ali expostos. Estava vendo de outro ângulo e isso lhe fez ver coisas que não percebera no domingo anterior. Estavam mais vigorosos os traços. As pinceladas pareciam mais perfeitas do que conseguia lembrar de ter visto antes. Até dava impressão de terem sido retocados desde a primeira vez que os vira.
            – O doutô fico mermo impressionado com os qudro de mia fia. Eu também gosto, apenas não tinha pensado em ser isso um meio de ganhar algum dinheiro.
            – Sou suspeito em falar, mas creio que cada um deles vale bom dinheiro, principalmente no momento em que a autora ficar conhecida no meio artístico.
            – Mas isso não vai faze ela viajar mundo, atrás de exposição?
            – E que tem isso, coronel? O mundo está cheio de gente que viaja levando seu trabalho para todos os lugares. É o mundo moderno. Estamos em l977 e o homem já foi até na luz.
            – Voismecê me conte outra, que nessa eu não credito não! Isso é tudo inventação desses americano. Só pra faze inveja nos russo.
            – Mas eles foram mesmo. Tem filme mostrando tudo. Trouxeram até umas pedras de lá.
            – Pedras da lua! Mais essa agora. Já num tem pedra qui chegue aqui na terra, tem que buscar umas na lua.
            – Não é por isso. É para estudo, análise de composição. Ver se lá tem os mesmos minerais que aqui na terra.
            – I pudera ser deferente? Homessa! Materiar é tudo a mesma coisa, num importa de onde vier.
            – Mas é possível existirem diferenças, detalhes não vistos aqui. É preciso investigar.
            Nisso dona Maria Luiza chegou à porta e falou:
            – Bons dias doutor. Que bons ventos o trazem aqui hoje?
            – Bom dia dona Maria. Eu vim dizer ao coronel que os processos estão na mão do juiz. Também vim ver se Isabel quer me emprestar uns dois ou três quadros para levar aos especialistas. Eles queremo ver para fazer uma avaliação prévia.
            – Ela está no depósito lhe esperando. Venha comigo, deixe o Onofre um pouco aí.
            Seguiram por uma porta lateral, passando por uma área coberta e logo à frente encontraram uma porta, onde já havia uma porção de quadros encostados, enquanto Isabel trazia mais dois para colocar ali. José olhou para dentro e viu ali uma quantidade enorme de quadros. Deveriam ser fruto de anos de trabalho incessante. Ficou admirando um a um os que estavam ali a mostra e, para ser sincere, ficou com uma dúvida atroz sobre qual escolher para levar. Cada um trazia novos detalhes. Os motivos eram variados sendo que em todos estava presente o vigor do traço da mão de Isabel. Pareciam traduzir simultaneamente a leveza e a força existente naquelas mãos. Como era necessário escolher, sugeriu alguns, meio a esmo e pediu que Isabel fizesse a seleção final. Por ele levaria todos eles, mas não tinha espaço para tanto e combinara levar no máximo três.
            Feita a separação, fizeram o envolvimento dos mesmos em mantas de lá para poupar de eventuais atritos e choques. Depois levaram até o carro, onde foram colocados no porta malas, tomando precaução para não ficarem encostados em nada que os pudesse danificar. O espaço que sobrou nos lados foi preenchido com acolchoados e assim evitariam o deslizamento uns sobre os outros. Depois de se certificar da imobilização total das obras, o porta malas foi fechado e José despediu-se de coronel Onofre, Isabel e dona Maria Luiza. Queriam que esperasse pelo almoço, mas não haveria tempo. A primeira visita estava marcada para as 14 horas e não queria se atrasar.
            Sem mais demora pegou a estrada e seguiu para casa. Chegou pouco antes da hora do almoço. Deu tempo de mostrar aos pais os trabalhos de Isabel. Ficaram vivamente impressionados com a beleza e imaginaram como ficariam bem uns quadros daqueles na sala de estar, próximo à mesa de jantar e outras dependências. José recolocou tudo no devido lugar e deixou assim. Almoçaram e pouco depois ele se dirigiu ao encontro do primeiro endereço constante em sua agenda. Era relativamente perto e se deparou com uma casa ampla, mas despretensiosa à primeira vista. Só depois de ver os detalhes se percebia a harmonia do conjunto.
            Foi recebido amavelmente por um homem de cabelos grisalhos, ostentando no rosto os sinais da idade. Deveria estar beirando os sessenta anos de idade, mas ainda dono de um admirável vigor físico. Caminhava com desenvoltura e convidou José a entrar. Após a troca de algumas amabilidades, foi o momento de apresentar o trabalho que vinha trazer. Foi até o automóvel e o dono da casa estava ao seu lado, curioso por ver o que dali sairia. Viu com satisfação o cuidado com que os quadros estavam acondicionados, demonstrando a preocupação com a manutenção da integridade física deles.
            José retirou o primeiro quadro e o passou às mãos do dono da casa, que o levou para dentro, colocando-o em um cavalente existente num canto da sala. José chegou com o Segundo que foi colocado em outro cavalete, ao lado do primeiro. Depois foi buscar o último que foi colocado no canto oposto. Enquanto isso o dono da casa ficou observando detidamente o primeiro, depois o segundo e por ultimo do terceiro. Caminhou até ficar a dois passos de cada um e mirou demoradamente os traços firmes, o contraste das cores, a suavidade do conjunto. Fez o mesmo com os outros dois, depois sentou-se na poltrona, em frente de José. Perguntou há quanto tempo a autora pintava e a pergunta foi negativa pois José esquecera de perguntar. No entanto era possível depreender que isso era algo que Isabel fazia desde vários antos precedentes, pois no canto inferior direito, abaixo da assinatura constava a data de conclusão.
            Um deles era de 1971, outro de 1975 e o outro de 1977. Portanto há pelo menos seis ou sete anos ela se dedicava a arte da pintura. Quis saber onde fizera seus estudos e as respostas foram vagas, pois não houvera tempo de entrar em muitos detalhes a respeito da vida de Isabel. O especialista foi bastante objetivo em fazer sua avaliação. Disse:
            – É nítidamente perceptível a evolução da técnica da autora. Temos aí três trabalhos de um intervalo de vários anos e sem dúvida o último é bem mais perfeito que o primeiro. Isso ao contrário do que possa parecer em primeiro momento, é sinal de que ela está cada dia evoluindo, aperfeiçoando a técnica. O traço fica mais definido, a harmonia aumenta. Para encurtar a conversa, ela é uma artista de futuro sem sombra de dúvida.
            – Fico satisfeito com isso. Quer dizer que valeria a pena tentar levar a coleção inteira ou parte dela para uma exposição em uma galeria, primeiramente aqui em Sete Lagoas e depois talvez na capital.
            – Estou disposto a organizer essa exposição. Queria apenas ter acesso ao acervo complete para fazer uma seleção dos melhores trabalhos e mesmo fazer um escalonamento por época. Evidenciar a trajetória evolutiva do artista é importante num primeiro momento. Pelo que me disse, ela é totalmente desconhecida.
            – Sim. Os únicos quadros expostos estão na casa da fazendo do pai, próximo a região dos lagos.
            – Faz ideia de quantos trabalhos ela tem ao todo?
            – Não tive tempo de contar, mas pelo que observei no espaço em que estão guardados, devem ser perto de cem, se não mais.
            – Ufa! Isso é coisa. Como ela nunca tentou uma exposição?
            – Sabe como é. O pai é fazendeiro, daqueles severos ao máximo. Ela é um pouco tímida. Tinha vontade de ser arquiteta, mas o pai só deixou ela cursar magistério. Ela aproveitou e fez o curso de pintura. É onde ela busca compensação da frustração de não poder fazer o que realmente queria.
            – Perdemos uma arquiteta, mas ganhamos uma ótima pintora. Quem pode saber o que é melhor!
            – Vamos combiner o seguinte. Eu falo com ela e inform sobre sua impressão. Talvez o senhor gostaria de escrever algumas linhas dizendo a ela de sua intenção?
            – Só um instante. Já faço isso e o senhor leva a ela minha proposta.
            – Enquanto isso eu torno a acondicionar os quadros no carro.
            – É uma pena, mas eu até gostaria de ficar com um deles pelo menos.
            – Eu agendei com outro especialista e tenho que levar a ele. Não sabia qual seria sua avaliação e por isso não posso deixare de levar. Mas depois eu converso com ela e podemos chegar a um acordo.
            José acomodou os quadros novamente, tomando cuidado para não esquecer de nenhum canto descoberto ou desprotegido. Nisso o homem lhe estendeu um envelope onde estava a folha de papel timbrado transmitindo à Isabel o desejo de organizar uma exposição com seus trabalhos. Agradeceu a atenção e se despediu. Havia cerca de uma hora até o momento marcado para a segunda visita. Essa transcorreu de modo semelhante à primeira, com a diferença de que o novo especialista era sensivelmente mais jovem. Tinha preferência por trabalhos em linha mais modernista, menos conservadora. Gostou dos trabalhos, apenas deixou clara sua predileção por pinturas mais abstratas, naturezas mortas e coisas assim. José agradeceu a atenção e, levando sua preciosa carga, voltou para a casa dos pais.
            O envelope que levava não estava fechado e ele olhou o que o homem escrevera. Em letra bem traçada dizia primeiramente sentir-se encantado em servir de intermediário para encaminhar tão promissora artista ao mundo da pintura. Depois detalhava os passos que deveriam ser seguidos para a realização de tale vento. José mostrou aos pais e à irmã a carta, depois a guardou cuidadosamente. Tinha motivo para nova viagem até a fazenda e faria isso no dia seguinte. Tinha receio de deixar os quadros no carro ou guardados em algum lugar. Eles poderiam sofrer algum dano e não se perdoaria por isso. 
            Por isso, na manhã seguinte refez o caminho e, quase à mesma hora de sábado, chegou à fazenda. Sua volta em tão curto espaço de tempo, causou estranheza, mas ele logo avisou;
            – Venho trazer boas notícias para Isabel.
            – Bom dia, doutor, – disse Maria Luiza.
            – Bom dia, senhora.
            – Isabel! Isabel! – chamou virada para o interior da casa.
            – O que é mãe? – indagou essa chegando à porta.
            – Escuita o que o doutor tem para dizer pra você.
            José pegou o envelope e o estendeu à jovem. As mãos trêmulas pegaram no objeto com respeito, abriram e retiraram uma fina folha de papel, onde leu palavras de elogio e proposta de realizer uma exposição. Estava assinado com um belo Antônio B. Lemos.
            O primeiro impulse foi gritar, mas se conteve e estendeu a folha para a mãe. Esta demorou um pouco a ler, pois era pouco menos que analfabeta e havia muitos anos não lia nada, além de uma ou outra bula de remédio, isso quando a lia. Depois de decifrar a mensagem, olhou firme para a filha e falou:
            – Eu não falei! Um homem entendido ia dar valor ao seu trabalho.
            Nisso Onofre veio saindo do interior e falou:
            – Uai! O doutor tá querendo afundá o trilho da estrada aqui di casa!
            – Quero não, coronel. Vim devolver os quadros de Isabel e trazer a boa notícia para ela.
            – Boa notícia? Qui é qui o senho tá dizendo?
            – Um dos especialistas ficou encantado com os quadros de Isabel. Quer conhecer todos eles, classificar em ordem de data, depois fazer uma exposição. Primeiro em Sete Lagoas e dependendo do resultado, levar para Belo Horizonte.
            – Oi! Nossa fia ficano famosa, muié! Entonce quer dizer que us quadro qui ela pinta tem valor! Mia Nossa Sinhora!
            – Fique contente, coronel. Estamos diante de uma grande artista.
            – Mais hoji sinhor vai almuçá cu a gente! Ah si vai!
            – Pensando bem, não tenho pressa em voltar para casa. Não vai ter problema nenhum em voltar mais tarde.
            – Vamu prosear aqui na varanda enquanto as miué prepara a boia.
            – Vou primeiro descarregar os quadros. Eu trouxe para evitar acontecer algum dano a qualquer um. Ah! Ia esquecendo Isabel. O seu Antônio Lemos queria ficar com um dos seus quadros. Não deixei pois tinha que levar para o outro. E depois isso vocês acertam depois quando forem preparer a exposição.
            – Minha nossa! Imagine um quadro meu, na sala de um especialista em arte!
            – Vai se acostumando, senhorita. Vai ter muito mais que isso no futuro.


Casario de fazenda.
Rocha pura com formato estranho em Minas Gerais.


Gaúcho de São Borja! – Capítulo VII

 

   Fatalidade atinge Joaquim
A madrinha de Gaudêncio, dona Ana Maria, alguns dias depois do aniversário de dezoito anos dele, sofreu um AVC. Foi socorrida no hospital e após uma semana de internamento na UTI, sucumbiu a sucessivos eventos de mesma origem que a acometeram. O marido Joaquim, ficou arrasado, permanecendo longo período recluso em casa, quase vindo a perecer de inanição, pois não se alimentava, apenas chorando a finada esposa. Em uma visita que fez a casa do patrão, em busca de determinações relativas aos negócios da fazenda, Pedro Paulo viu seu estado e prontamente o levou a um médico.
Por recomendação deste, Pedro levou Joaquim para a fazenda, instalou-o na casa grande e assumiu todos os cuidados que deveriam ser dispensados ao mesmo. Cercado de cuidados e estimulado pela presença do afilhado, cheio de vida, contando novidades todo dia e instando-o a cavalgarem juntos, pescarem na represa e outras atividades, fizeram Joaquim reagir e recuperar-se em pouco tempo.
            Nesta época Gaudêncio foi convocado a cumprir com seu dever de cidadão e passou um ano prestando o serviço militar, na unidade de Cavalaria Mecanizada sediada em São Borja. Suas habilidades na montaria facilitaram em muito a vida na caserna. Para ele os cuidados com cavalos não ofereciam o menor segredo. Inscreveu-se no curso para cabo, foi aprovado e obteve boas notas nas avaliações a que foi submetido. Foi com muito orgulho que num dia destes se apresentou em casa, usando a farda militar onde ostentava as divisas de cabo.
Ao completar seu tempo de serviço, foi-lhe ofertado a oportunidade de permanecer engajado e seguir carreira no exército. Havia aprendido muito, gostava da vida na caserna, mas não tinha pretensões de fazer carreira ali. No dia previsto, foi desligado e recebeu o Certificado de Reservista, na graduação de cabo. Havia acumulado diversos elogios ao longo dos onze meses e alguns dias que ali havia permanecido. Por isso recebeu das mãos do comandante um diploma de Honra ao Mérito. O pai encheu-se de orgulho, assim como a mãe. Mandaram fazer uma moldura e o documento ficava a mostra na sala da casa em que viviam.
            Logo que estava em condições de ir e vir sozinho para a cidade, Joaquim voltou de lá trazendo um documento que entregou a Gaudêncio, dizendo:
            – Abra e leia este documento. Terminei hoje o inventário pela morte de Ana Maria e aproveitei para fazer o meu testamento.
            – E que isto tem a ver comigo? – indagou Gaudêncio.
– É isso que você vai ver. Abra o envelope e leia com atenção.
            Gaudêncio abriu e tirou de dentro uma folha de papel. Desdobrou e leu o que nela estava escrito. Seus olhos se foram arregalando à medida que lia o conteúdo. Quando terminou a leitura, olhou para o homem que aprendera a amar, quase como um pai. Estava pasmo com o que acabara de ler. Naquela folha de papel estava escrito o testamento de Joaquim. Nele, em palavras claras e sucintas, ele, Gaudêncio das Neves, era declarado herdeiro universal e único de seu padrinho. Precisava de tempo para assimilar a idéia. Decidiu perguntar:
            – Por que eu, padrinho?
            – E por que não você, pode me dizer? Não tivemos filhos, apesar de todas as tentativas. Foi um sonho frustrado. Você é nosso afilhado, filho de meu braço direito na fazenda. Não vejo alguém melhor para deixar minha herança. Tenho certeza de que vai ficar em boas mãos.
            – Mas o senhor não tem outros parentes a quem queira deixar alguma coisa pelo menos? Fico pensando que não mereço tudo isso.
            – Os parentes que tenho, tanto meus como os de Ana Maria, já tem mais do que precisam para viver e acabariam por dividir a fazenda em pedaços. O pior é que iriam acabar brigando, fazendo confusão, inimizades e isso eu não quero de jeito nenhum. Quero que ela continue sendo uma única propriedade, sem divisões.
            – Vou demorar um pouco para digerir essa novidade. Preciso me acostumar com a ideia.
            – A partir de hoje, você passa a me ajudar na administração. Vou lhe passar uma procuração para resolver a maior parte das questões relativas a bancos, fornecedores, compradores. Também vai ter que aprender a lidar com os pagamentos dos empregados. Os impostos e encargos sociais. Terá que se entender com os contadores, fiscais de todo tipo, entre eles alguns bem safados, que se deixam comprar por qualquer merreca. Terá muito que aprender. Principalmente a lidar com gente e esta é a parte mais difícil. Lhe aconselho estudar um pouco de psicologia ou então procurar um profissional do setor para orientar em algumas decisões.
– Estou imaginando a cara do meu pai e da mãe, quando souberem dessa novidade.
            – Vamos até lá contar para eles? Eles merecem saber. Afinal de certo modo isso afeta a eles também. Quero pedir que jamais deixe seus pais sofrer qualquer privação. Nunca encontrei um servidor mais fiel e dedicado que seu pai. Sua mãe então, é impossível encontrar alguém que a iguale. Superar então, seria um milagre.
            – Pode ficar tranqüilo padrinho. Isso não vai acontecer. Eles são o que de mais importante eu tenho na vida. Vamos até lá em casa que eles devem estar tomando café a esta hora.
            Ao chegarem a casa encontraram realmente Pedro Paulo e Maria Conceição saboreando uma xícara de café com leite, pão com manteiga e mel. Quando viram os dois chegarem, Pedro Paulo gritou:
            – Entrem e venham tomar um café com a gente.
            – Boa tarde compadre! Boa tarde comadre! – disse Joaquim, adentrando a cozinha da casa e puxando uma cadeira para se assentar.
            – Pai, mãe! Vocês precisam ver o que o padrinho fez.
            – Mas fala aí, tche! O que foi que o compadre aprontou? – perguntou Pedro Paulo.
            – Nada de mais, compadre. Primeiro me sirva uma xícara de café, comadre. Me alcance uma fatia desse pão que você faz como ninguém. Um pedaço de queijo também vai bem.
– Leia esse documento, papai, – disse Gaudêncio.
            – Para isso preciso de meu óculos. Alcança para mim, meu filho. Já leio mal e mal. Sem óculos, enxergando as letra embaralhado, não tem jeito mesmo.
            – Está aqui, meu pai.
            Maria Conceição, depois de colocar diante de Joaquim o café, o pão e o queijo, também se aproximou para ver o documento. A primeira palavra que apareceu destacada no alto foi : TESTAMENTO.
            Leram com avidez e seus olhos foram se arregalando à medida que liam as palavras contidas no documento. Ao terminarem a leitura, seus olhos se voltaram interrogativos para Joaquim. Este foi logo dizendo:
– Não venham me dizer que eu não posso ou não devo fazer o que fiz. Vocês são meus empregados de confiança durante toda vida e o Gaudêncio é meu afilhado. Não tive a sorte de ter um filho. O Pai Velho lá de cima não me deu esta graça. Não ia repartir meus bens entre uma porção de gente. Não quero saber de divisão da fazenda. Assim, deixo amparados vocês dois, um bom herdeiro para a propriedade e a certeza de que irão tratar bem todos os empregados. Aliás é a minha recomendação. Não sejam condescendentes com os malandros, mas procurem sempre ser justos. Esta sempre foi uma das minhas preocupações e nunca me arrependi. As poucas vezes que tive problemas, consegui sempre dar um jeito e nunca foi preciso tomar medidas drásticas.
            – É muita bondade de sua parte, compadre.
– Eu vou começar a treinar o meu herdeiro a partir de agora. Quero que logo ele assuma a maior parte das funções. Me sinto cansado e acho que vou viajar um pouco, conhecer o mundo, coisa que sempre quis fazer com a Ana Maria. Infelizmente não deu tempo de realizar esses nossos sonhos. Ela me deixou antes da hora, – e seus olhos se encheram instantaneamente de lágrimas.
            – Não há ninguém em toda a fazenda que não tenha sentido o passamento da comadre, – disse Ana Maria
            – Em homenagem a memória dela vou visitar preferencialmente os lugares que ela mais desejava conhecer. Sei que vai doer, mas eu devo isso a ela. Antes porém vou iniciar o Gaudêncio nas atividades de administração da fazenda. Também com o telefone hoje em dia, é fácil tirar as dúvidas que surgirem, enquanto eu estiver viajando. É bom ele se acostumar a tomar decisões. No fim das contas ele tem você, Pedro para lhe passar orientações quando for preciso.
            – Compadre, eu não tenho palavras para agradecer a consideração que nos tem demonstrado durante tantos anos. Agora isso. Fico sem palavras. Se essa é sua vontade e não existe nenhum problema que venha atrapalhar, não posso fazer nada.
            – Nosso filho é maior de idade e pode decidir por ele mesmo. Nem temos mais como interferer nos assuntos dele, além de aconselhar. Se ele aceita ser seu herdeiro, que seja feita a vontade dos dois.
            – Não existe nenhum motive que me impeça de fazer esse testamento. Não há o que temer. Por isso vamos seguir em frente. No máximo no próximo ano quero começar as minhas viagens. Vou gastar um pouco do dinheiro que ganhei em todo esse tempo e ainda vai sobrar muito para depois. Você Gaudêncio, se prepara para dançar miudinho nos próximos meses.
As próximas semanas foram repletas de novidades. Joaquim levou Gaudêncio a todos os setores da fazenda e o apresentou como herdeiro. Dentro de pouco tempo ele estaria assumindo boa parte das responsabilidades administrativas. Iria prestar contas a ele, Joaquim. A maioria dos trabalhadores o conhecia dos tempos de menino, quando andava por todas as partes, participando dos trabalhos, fazendo estripulias e se dispondo sempre a ajudar quem estivesse precisando. Todos aceitaram com alegria a novidade. Teriam no comando um homem que conheciam muito bem, com ele haviam brincado, participado de fandangos, rodeios e outras atividades. Sabiam de sua boa índole e confiavam que, ao assumir as funções novas, não haveria mudanças significativas no espírito que reinava entre patrão e empregados.
Foram aos bancos, onde passou a ter conta corrente para movimentar o seu dinheiro. Teria de agora em diante uma mesada generosa. Assinaria cheques, requisições e outros documentos em nome de Joaquim. Para isso, foram a um cartório onde lavraram uma procuração de plenos poderes que lhe permitiria realizar, sem problema, todas as transações necessárias ao bom andamento de tudo, em especial na ausência de Joaquim.
            Após quatro meses de treinamento, Gaudêncio dominava a maior parte dos encargos que doravante lhe competia assumir. Sendo assim, não foi surpresa quando Joaquim anunciou:
– Hoje comprei as passagens para a Europa. No final do mês, embarco para Portugal, Espanha, Itália e por lá decido para onde mais vou. Vou sem roteiro fixo. Quero passear sem pressa e usufruir ao máximo dessa viagem. Deixo aqui tudo em suas mãos e dos seus pais. Vou me comunicar por telefone com vocês toda semana.
– Pretende ficar quanto tempo fora, padrinho?
            – Não sei. Como disse, não tenho roteiro fixo e posso ficar um mês, também pode ser que fique mais tempo ou menos. Depende do quanto eu gostar daquilo que for encontrando pelo caminho.
– Vá com Deus, padrinho. Faremos tudo para cuidar bem de tudo. E, na sua volta, estaremos lhe esperando para conhecer as novidades que tiver encontrado por lá.
            – Com certeza, vou tranquilo. Confio em você e em seus pais. Vou precisar ir a capital para tirar o passaporte. Dizem que pode demorar alguns dias. Por isso vou amanhã mesmo. Não quero ter surpresas de última hora. Tudo deverá estar pronto no dia do embarque. Em Porto Alegre vou adquirir uma mala adequada, algumas roupas. Não vou levar muita coisa. Posso comprar por lá o que estiver faltando. É para isso que serve o dinheiro. Vou gastar um pouco antes que chegue minha hora de subir para o andar de cima. Quem pode saber o dia de amanhã!
            – Concordo plenamente com o senhor. Não adianta nada acumular dinheiro, sem usufruir do que ele pode comprar de bom e agradável. Não vale a pena viver só para trabalhar, sem realizar os sonhos que se tem. Esse mundo de Deus está aí para ser conhecido. Quem tem condições financeiras para tal, tem mais é que procurar conhecer o máximo das belezas que existem por aí. As que Deus criou e as que o homem com sua inventividade construiu.
Joaquim demorou uma semana em Porto Alegre, onde já aproveitou para fazer uma pequena revisão médica, comprou algumas roupas novas, mala e bolsa para viagem. Não deixou de procurar uma boa máquina fotográfica, pois a que tinha estava ultrapassada há bastante tempo. Ao retornar encontrou o afilhado em plena atividade.
Ele assumira com todo o empenho a administração da fazenda e pusera em prática algumas idéias que discutira com o padrinho, para melhorar o fluxo dos trabalhos. Estava eufórico pois estavam dando certo e até seu pai havia ficado admirado com a habilidade demonstrada pelo filho. Isto demonstrava que havia feito uma escolha adequada ao depositar nele sua confiança.
            No dia estipulado, Gaudêncio acompanhou Joaquim até o aeroporto onde embarcaria para a capital. De lá seguiria para o Rio de Janeiro e faria a conexão com a Europa. Dois dias depois da partida, um telefonema no meio da manhã, trouxe as primeiras notícias de Joaquim. Havia desembarcado em Lisboa e estabelecera um roteiro para percorrer os locais interessantes do país. Iria contratar um motorista e guia que o levaria num carro alugado para tal finalidade.
Previa uma semana de estadia, talvez um pouco mais. Sem sombra de dúvida iria ver Fátima e outros locais mais recomendados. Coimbra, Tras dos Montes e outras cidades históricas.  Depois seguiria para a Espanha. Queria assistir à uma tourada, visitar os castelos medievais, da época dos mouros e das cruzadas. Gaudêncio ficou emocionado ao conversar com o padrinho. Informou a ele que na fazenda estava tudo correndo bem, os bezerros nascendo, o arrozal crescendo e começando a granar. O pai e a mãe sentindo saudades dele, Joaquim. Não deixavam de falar nele nenhum dia, várias vezes por dia até.
Enquanto Joaquim passeava pela Europa, Gaudêncio assumia plenamente as funções administrativas. Comportava-se como verdadeiro proprietário, coisa que aliás seria quando o padrinho fosse para junto de sua esposa Ana Maria. Coisa que ele esperava demorasse bastante. Queria ter sua companhia por muito tempo. Era, depois dos seus pais, a pessoa mais importante de sua vida. Talvez um dia encontrasse uma prenda que lhe arrebataria o coração, tal como a madrinha tinha arrebatado o coração do padrinho. Provavelmente ela iria ocupar o primeiro lugar em sua vida. Se Deus lhe abençoasse teria filhos e estes iriam ficar em um lugar especial junto com aquela que viesse a escolher como esposa.
As semanas viraram meses e quando viram, Joaquim já estava passeando há três meses pela Europa. Estava terminando de visitar a Inglaterra, estivera na França, Suíça e Alemanha. Mas anunciou que no dia seguinte tomaria providências para o seu retorno ao Brasil. Estava com saudades da terra natal, de um bom chimarrão, um churrasco e uma boa prosa à beira do fogo de chão. Em especial quando animado por um bom gaiteiro. Se além disso houvesse um violeiro, ficava melhor ainda. Iria avisar a data do seu embarque e a previsão de chegada em casa. Deixaria para outra ocasião a visita a outros lugares que ainda não visitara.
Essa notícia, correu célere no dia seguinte. Por volta do meio dia, praticamente todos na imensa propriedade, desde os mais velhos até as crianças sabiam do retorno próximo do patrão. Gaudêncio avisou que fariam uma festa para recepcionar o viajante. Evidentemente após lhe dar um dia ou dois de descanso. Tinha certeza de que o padrinho, apesar de se divertir a valer na viagem, chegaria cansado e gostaria de um período para repousar. Só depois iriam tratar de coisas de trabalho, festejos e comemorações.
            Os dias passaram rapidamente e logo estavam, Gaudêncio e o pai Pedro Paulo, esperando a aterrissagem do avião que trazia Joaquim em sua última etapa da viagem. Mal tiveram paciência de esperar o desembarque. Logo viram a figura esbelta e elegante de Joaquim descendo a escada do avião. A vontade de Gaudêncio era correr ao encontro do padrinho, mas os funcionários do aeroporto não permitiram que ultrapassasse a porta de acesso ao pátio. Teve que se contentar em aguardar que os passageiros chegassem ao saguão e só então pode correr e abraçar a quem dedicava uma afeoção especial.
O viajante correspondeu ao abraço do afilhado e também do compadre. Estava realmente com saudade das pessoas que há muitos anos faziam parte de sua vida. Nunca havia se ausentado tanto tempo. Tinha vontade de sair correndo e olhar todos os recantos de seus domínios, ver como estavam bonitos os arrozais maduros, quase na hora da colheita, os bandos de bezerros atingindo o ponto de desmame, os vaqueiros cuidando do gado nas invernadas, tangendo grupos de animais no manejo de pastagens.
Acabara ficando mais tempo do que pretendia, pois se encantara com tantas belezas, monumentos, a criação de gado confinado, devido a escassez de espaços amplos para pastoreio, o cultivo em terrenos inclinados, irrigação por gotejamento e outras novidades que tivera ocasião de ver ao vivo e a cores. As montanhas com as neves em seus picos, fosse no inverno ou no verão, as ferrovias modernas, túneis intermináveis por baixo das montanhas. Teria muito a contar e também muitas fotografias para mostrar. Acabara comprando por lá uma filmadora e o respectivo projetor. Isto lhe permitiria dar uma idéia melhor daquilo que vira em sua viagem. Trazia em sua bagagem uma boa quantidade de filmes em que registrara as coisas mais importantes, os monumentos e belezas naturais que visitara. Deram uma rápida passada pela casa na cidade para deixar algumas coisas da bagagem e também cumprimentar os serviçais que ali labutavam.
            Em seguida rumaram para a fazenda, onde os esperava Maria Conceição, com uma chaleira de água quente e uma cuia de chimarrão. Depois dos abraços e boas vindas, sentaram-se e saborearam o mate, enquanto Joaquim dava alguns informes sobre suas andanças nas terras européias. Trouxera uma lembrança para cada um. Tinha em suas malas muitas coisas que iria distribuindo aos poucos. Faria isso com toda calma. O afilhado, a comadre e o compadre poderiam lhe dar uma grande ajuda nessa tarefa. Teriam condições de dizer a quem conviria dar cada item que havia em suas malas.

 

            Depois de alguns dias disse ao afilhado que seria conveniente ele ir até a capital para tratar de alguns assuntos legais relativos as propriedades, alguns investimentos que estavam a cargo de um escritório especializado. Era importante que Gaudêncio tomasse contato logo com essas pessoas, pois seria ele que doravante iria tratar com elas e decidir sobre venda de ações, reinvestimento de capital e outras coisas do gênero.

Mineiro sovina! – Capítulo VII

 

   Tentando conquistar o “sogro”.
 
 
Enquanto coronel Onofre tirava seu cochilo, José Silvério apreciava o panorama a perder de vista dos cafezais, cobrindo encostas e baixadas. Um ou outro ponto de cor diferente, onde havia uma afloração de pedras, um morro mas íngreme e impróprio para o cultivo, quebrando a monotonia da paisagem. Maria Luiza e Isabel se ocuparam em deixare a cozinha arrumada para ser usada a qualquer momento em que fosse preciso. Trabalhavam de modo sincronizado, levando ao término das tarefas em pouco tempo.
Após a conclusão, Maria Luiza foi até o quarto e viu Onofre ressonando suavemente. Deixou-o quieto e veio até a varanda, sentando-se em uma confortável cadeira de balanço que ali estava colocada. Ao ver que o advogado estava ali e também cochilava, pensou em se retirar para não perturbar lhe o descanso. Ao se mover ele acordou e falou:
– Desculpe. Eu não havia percebido que a senhora estava aí, dona Maria Luiza.
– Tem nada não, doutor. Eu já ia me retirar para não lhe incomodar.
– Nada disso, senhora. Será um prazer conversar com a senhora. Eu cochilei um momento, mas não tenho o hábito de dormir após o almoço.
– Eu raras vezes também deito uns minutos. Geralmente aproveito para pegar um trabalho manual. Faço croche, bordado. Costuro um pouco, mas apenas o suficiente para o gasto.
– São atividades que mantem as mãos e mente ocupados.
– Minha filha é mais prendada. Aprendeu na escola na cidade a fazer pinturas. Está agora lá no atelier dela trabalhando no quadro que está quase pronto.
– Ela se formou em quê, senhora?
– Formou-se professor, mas não tem onde exercer a profissão. Só se for lá para a vila, mas é longe. O diploma por enquanto está enfeitando a parede apenas.
– Para as mulheres ainda é restrito o campo de trabalho. São poucas que conseguem ingressar em cursos mais concorridos. Acho que não é falta de capacidade, mas sim, incentive para enfrentar.
– A Isabel queria ser arquiteta, mas para isso ia precisar morar em Belo Horizonte e o pai, muito ciumento, não concordou com isso. Disse que tinha a fazenda para sustentar ela e não ia precisarr se arriscar na cidade grande. Sabe como é. Ele tem jeito à moda antiga. Filha é para a casa, depois casar, ter filhos e cuidar da casa.
– Um dia isso vai mudr. Por enquanto o quê fazer? E ela não se rebelou?
– Encontrou na pintura uma maneira de compensar a frustração. Viu os quadros na sala, na copa?
– Ví sim. São dela?
– Todinhos. Já pintava nos tempos de estudante e agora, todo dia ela pinta um pouco. Vai haver uma hora que não terá mais lugar para por tanto quadro.
– Nunca tentou expor alguns?
– Ela acha que não vale a pena. Diz que não são bons o suficiente para por no mercado de arte.
– Quem tem que julgar isso são as pessoas que vão apreciar. Geralmente quem faz, encontra defeitos em toda parte.
– Não vou lhe levar lá pois ela não gosta que perturbem quando está pintando. Quando sair de lá, pode conversar com ela e pedir para mostrar o que tem pronto.
– Nem pensar em perturbar a concentração dela. Não podemos olhar melhor os que estão da sala de estar e da de refeições? Olhei de relance antes, mas agora fiquei interessado em ver com detalhes.
– Acho que não há problema. Tem no corredor dos quartos também. Sem contar uma pilha guardada no depósito.
– Então ela produz bastante. Pelo visto é a timidez que a impede de expor seu trabalho. Dá licença que vou olhar detalhadamente esses aqui da sala.
Levantaram-se e foram até perto da lareira, onde havia uma paisagem grande, retratando a vista que estivera apreciando pouco antes, apenas num momento diverso. Os grãos de café estavam quase no ponto de colher. Um colorido de doer nos olhos de tão viva a cor. Um pequeno e delicado Isabel, colocado no canto inferior direito, identificava a autoria da pintura. José observou longamente o quadro e ficou encantado. Olhou de perto, de longe e admirou a perfeição do traço, a nitidez das cores que retratavam o vasto cafezal com os frutos maduros.
Na parede oposta outro retratava uma pessoa, de perfil, provavelmente o pai, num ponto diverso, tendo como fundo outro setor dos cafezais, porém totalmente floridos. Formavam uma vista perfeita. Ali estavam as plantas iniciando o ciclo de produção, do outro lado, no ponto de colheita. Os frutos resultantes da floração mostrada aqui. As outras paredes apresentavam pinturas menores, onde os vastos terreiros de secagem do café estavam cobertos de grãos em diferentes fases de secagem. Os trabalhadores na faina de revirar constantemente, tendo em vista a secagem uniforme e impedir a deterioração dos grãos ainda molhados. Eram pinturas dignas de nota.
Na sala de refeições, os motivos eram outros. Um apresentava uma sala com lareira, confortáveis poltronas onde algumas pessoas estavam sentadas palestrando e saboreando uma xícara de café. Até mesmo o vapor desprendido pelo calor do líquido estava representado. Em outra pintura estava a entrada da propriedade. A mesma placa de madeira que o acolhera naquela manhão ao chegar, estava ali pintada com perfeição, tendo como pano de fundo a alameda de cafeeiros, dessa vez com poucas folhas, mostrando que o quadro havia sido feito na época entre a colhaita e nova floração. Estavam admirando os belos trabalhos, quando a própria autora deles apareceu no ambiente. Ficou por instantes em silêncio, vendo o olhar fixo de José sobre um dos quadros e então falou:
– Não há muito que apreciar nesses quadros, doutor. Não passo de uma principiante.
– Pode até ser principiante, não duvido. O que não deixa dúvida é a força de sua arte. Consegue traduzir a alma do que está retratando de modo muito sutil e vibrante.
– Bondade sua. Mamãe sempre quer que eu leve alguns dos meus quadros para um especialista ver e avaliar. Não creio que valha a pena. São fracos demais. Tenho muito que evoluir em minha técnica de pintura.
– Em seu lugar daria ouvidos à sua mãe e levaria uma amostra para avaliação. Depois de ouvir a opinião de alguém especializado poderá ter uma ideia do real valor do seu trabalho.
– Acha mesmo que vale a pena?
– Só tentando para saber. Em geral somos levados por nossa humildade, timidez a subestimar nossos trabalhos. Alguém que tenha uma visão neutra poderá dar uma opinião mais abalizada, apoiada na experiência e conhecimento que tem.
– Em Sete Lagoas tem algum entendido no assunto? Nunca ouvi falar pelo menos.
– Se me autorizar posso fazer uma pesquisa e saber se existe essa pessoa especializada. Faço uma visita e vejo se ela realmene tem conhecimento ou não passa de alguém curioso, aventureiro em busca de ganhos fáceis às custas de gente desavisada.
– Está vendo filha! Não sou apenas eu que acho seus quadros lindos. Dr. José também e el epode verificar se há quem possa fazer a avaliação.
– Se não houver, podemos verificar alguém na capital. O coronel pode custear as despesas para levar o material até lá e fazer a avaliação.
– Não sei se papai vai querrer gastar dinheiro com isso. Ele gosta de ver os quadros aí, mas nunca falou em vender algum deles.
– Do que oceis tão falando? – perguntou coronel Onofre, que acabara de levantar de seu cochilo.
– Os quadros pintados por sua filha, coronel. São muito bons. Eu tinha visto antes e não sabia quem era o pintor.
– O doutor está se prontificando a intermediar com algum entendido em pinturas uma avaliação dos meus trabalhos. Pode ser preciso levar alguns para a capital.
– Uai, sô! Minha fia aparecer nas revistas e jornais, numa exposição de pintura! Sei não.
– Pode acreditar, coronel. Apesar de não ser entendido no assunto, mas posso garantir que não são de jogar fora. Creio que vale a pena verificar o valor que de fato tem.
– Seis cumbina aí. O dinheiro para a viagem eu arrumo. Só tenho uma fia e vou guardar para quem? Se é para o bem dela, num tem problema ninhum.
            – Vou me informar direito e depois aviso do que for averiguado.
            – Eu vou para coizinha fazer um café e server uns biscoitos a mode lanche da tarde, – disse Maria Luiza.  
            – Só se for para arrematar o almoço que ainda está quase inteiro aqui.
            – Vou com a senhora mãe.
            – Nóis vamo pra perto da lareira, que o frio está pegando. Parece que vai chuvê à noite.
            Em instantes estavam as mulheres na cozinha ocupadas com os apetrechos para coar o café e separar os biscoitos, além de outros doces como pé de moleque e paçoca.
            Indo para a sala de estar, sentaram-se confortavelmente diante da lareira que emitia um suave calor no ambiente. Coronel Onofre avivou o fogo e colocou mais um pedaço de lenha. Não seria necessário muito fogo. Apenas o suficiente para deixare o ambiente agradável. Ficaram alguns minutos em silêncio, antes de José Silvério criar ânimo para trazer à baila o principal motive que o trouxera ali. Não sabia exatamente como iniciar a conversa e optou por tentar cativar o candidato a sogro, com o que julgava ser algo interessante.  
Puxou do bolso um maço de cigarros, retirou-lhe o lacre e fez emergir algumas unidades pela abertura que fizera. Ofereceu um ao coronel, que o aceitou, depois retirou um para si. A seguir pegou uma caixa de fósforos, retirou um palito, riscou e acendeu o cigarro do coronel. Tomou outro palito, fez o mesmo com o seu cigarro. Após algumas tragadas, uma pequena nuvem de fumaça enchia o ambiente e ele atacou.
            – Eu vim aqui, coronel, com mais um objetivo, além de tirar as fotografias da cerca.
– Uai, sô! Qui é mais qui o senhor veio faze, doutor?
– Eu fiquei deveras impressionado com a beleza e delicadeza de sua filha, coronel. Confesso que meu coração dispara cada vez que a vejo e por isso vim lhe pedir a mão dela em namoro. Se ela me aceitar e nos entendermos, em algum tempo poderemos marcar o casamento.
            O coronel pensou por alguns instantes, olhou bem nos olhos do moço e disse:
– O senhor acha que eu sou louco?
            – Não senhor, muito pelo contrário, lhe tenho muita consideração.
– Então vou entregar uma jóia como a minha fia na mão de quem irá fazê-la passar fome! Eu não faria isso nem em sonho.
            – De maneira nenhuma. Sou advogado, estou bem encaminhado na profissão e desejo dar a sua filha a melhor das vidas que estiver ao meu alcance.
            – Vivendo como um perdulário? O senhor não vê que o cigarro é artigo muito caro para ir distribuindo por aí a qualquer um? Dispois, gastar dois paus de fósforos para acender dois cigarros, com tanto fogo ai mesmo na lareira? Não e não. Com minha fia o senhor não se casa. É mior que fique sorteira.
            – Vamos deixar esse assunto para um outro dia. Vou cuidar de alcançar sucesso na profissão e lhe mostrar que sou capaz de dar a senhorita Isabel uma vida digna. Voltaremos a falar no assunto em outra oportunidade.
            – Qui é que le parece o causo da ação contra o muquirana do meu vizinho?
            – Creio que, com as fotos que tirei, poderei instruir muito bem a petição que farei ao juiz. Quando for marcada a audiência, eu lhe avisarei.
– Desculpe o mau jeito. Sou muito observador dos detalhes. E a sua atitude hoje, demonstrou que não tem o devido cuidado com o dinheiro que ganha. Isto pode se tornar um problema com o tempo. Acaba-se gastando mais do que ganha e quando se dá conta, está enterrado em dívidas.
            – Tenha certeza que vou tratar de aprender a lição e espero que o senhor não me poupe de suas observações. Vou me tornar digno de sua confiança e então me confiará a mão de sua filha. Mas isso fica para outra ocasião.
            Nesse momento Isabel entrou trazendo o bule fumegante de café e a mãe Maria Luiza a seguia com uma bandeja onde havia biscoitos, páezinhos de queijo, paçoca e pés de moleque. Tudo foi posto sobre a mesa de centro e Isabel se pôs a server as xícaras luxuosas com o conteúdo do bule. Entregou a cada um a sua e ofereceu o açucareiro para que se servissem. Depois colocou a bandeja com os doces mais perto e pediu que se servissem do que lhes fosse do agrado. Serviu para si mesma uma xícara de café, sentou e se pos a sorver em pequenos goles. Tomava o café sem açúcar. De acordo com suas palavras não queria engordar.
            A conversa correu leve, falando de amenidades, notícias vindas recentemente da capital federal sobre o andamento do governo do General Ernesto Geisel. Pessoalmente coronel Onofre preferia que houvessem colocado no posto mais importante da nação um representante mineiro, mas nesses tempos era melhor manter o bico fechado, para não entrar mosca. Quem se aventurasse a falar demais, poderia enfrentar situações bastante desagradáveis. Isso era algo que não apetecia ao nosso coronel. Prezava sobremaneira sua liberdade, a propriedade e seus bens em geral. Pensava duas, três e mesmo mais vezes antes de dizer o que quer que fosse relacionado ao governo e mesmo qualquer autoridade.
            Após o café, alguns biscoitos, uma segunda xícara e um pé de moleque, José julgou ser hora de bater em retirada. Para uma primeira visita era bastante. Não convinha demorar demais para não dar impressão de ser aproveitador. Deixou combinado com Isabel fazer tudo para saber da existêncie de alguém capaz de fazer a avaliação de seus quadros. Se não pudesse ser em Sete Lagoas, seria na capital Belo Horizonte.
            – Bem coronel, dona Maria Luiza, senhorita Isabel. Já são quatro horas, o tempo passou depressa. Foi um prazer visitar sua propriedade. O almoço foi maravilhoso, seu café Isabel, e seus doces dona Maria, muito bons. Coronel, parabens pela propriedade e pela família. Tudo perfeito. Gostaria de ficar mais um pouco, mas quero chegar cedo em casa e me preparer para a semana de trabalho.
            – A pressa é sua, doutor. Nóis ficamo muito honrado em le receber em nossa casa. A porta está sempre aberta para os amigos.
            – Doutor, obrigada pelos elogios aos meus dotes culinários. Dê um abraço em sua mãe, seu pai e irmãos.
            – Obrigada pelo elogio aos meus trabalhos. Se conseguir um avaliador não sei como poderei lhe agradecer.
            – Imagine! É um prazer server a quem me recebeu tão gentilmente, me serviu café e comida tão bem preparados. Espero ser merecedor de estar aqui em outras oportunidades.
            Levantaram-se e sairam para a varanda. José estendeu a mão a todos, despedindo-se e depois foi até o automóvel. Em pouco estava a caminho de casa. Ia pensativo sobre as palavras do coronel. Não imaginara que o velho fosse ser tão “sovina” a ponto de considerer sua attitude como perdulária. Não era à toa que no resto do país os mineiros eram conhecidos como mão fechada. Os famosos mãos de vaca. Percorreu a distância sem pressa e antes do por do sol estacionava na garagem da casa de seus pais. Ouviu ruido de conversação ao se aproximar da porta da moradia. Uma tia, irmã da mãe e seu marido haviam vindo passear. Moravam num vilarejo a alguns quilômetros de distância. Certamente estariam se despedindo em pouco tempo. Habitualmente não gostavam de andar na estrada em horas da noite.
            Ao entrar foi recebido alegremente. A tia e o tio não o viam há bastante tempo e estavam orgulhosos do progresso que ele vinha obtendo na carreira de advogado. Congratularam-se com ele e lhe desejaram sucesso. Quiseram saber como havia transcorrido a visita que acabava de fazer ao cliente, aparentemente importante. Lhes informou brevemente o que acontecera, omitindo os detalhes que só a ele interessavam evidentemente.

 

            Em pouco os tios se despediram para retornar ao lar. Tinham alguns animais domésticos que precisavam ser cuidados antes de escurecer e o sol estava se pondo. 

Mineiro sovina! – Capítulo VI.

 

    Visitando o cliente
Domingo cedo, vestiu uma roupa elegante, sem ser formal. A visita que faria envolvia aspectos profissionais, no entanto deveria guarder uma aura de informalidade. Fez uso de um perfume discrete e marcante que lhe agradava muito. Deu um retoque no penteado, ajeitou a gola da camisa e conferiu o aspecto geral olhando-se de longe no espelho. Passou no mercado para pegar com o pai as chaves do automóvel. Aproveitou para colocar nos bolsos do blazer, um maço de cada uma das melhores marcas de cigarros e algumas caixas de fósforos. Despediu-se do pai e da mãe.
Foi até o automóvel, abriu a porta, colocou a chave na ignição, deu a partida. Aguardou alguns instantes enquanto verificava se estava tudo em ordem, o motor já aquecido, saiu dirigindo devagar, saboreando o sol radioso daquele dia, que para ele era especial. Durante cerca de quarenta e cinco minutos, percorreu estradas secundárias. Cafezais de um lado e outro ou então cercas de pastagens povoadas de animais de raça, criados na região. Em pouco, surgiu à sua frente o portal da propriedade que iria visitar. Não havia portão, mas a entrada era encimada por uma vistosa placa na qual se podia ler, entalhado em uma enorme prancha de madeira de mogno Fazenda Pires, propriedade de Onofre Pires.
Parou por alguns instantes, apreciando a soberba entrada. À sua frente se estendia, em linha reta, uma estrada bem conservada, ladeada de plantações de café em ambas as margens. A próxima safra prometia ser boa. Os cafeeiros estavam vergando os galhos sob o peso das frutas que traziam, ainda verdes, mas não muito distantes de atingir o ponto de maturação. Inspirou profundamente, premiu o acelerador suavemente e fez o Ford Corcel GT rodar em velocidade moderada para o interior da fazenda. Em minutos estava diante da imponente casa, um verdadeiro palacete, onde residia o Cel. Onofre e sua família.            Estacionou à sombra de uma árvore frondosa próxima da casa. Após desligar o motor, abriu a porta e desceu. Imediatamente ouviu a voz forte do coronel, que lhe dizia, parado na ampla varanda que circundava a frente e uma lateral da casa:
– Seja bem vindo, Dr. José. Venha tomar um café, recém coado.
            – Bom dia, coronel Onofre. Que dia lindo está hoje. Bela propriedade o senhor tem aqui. Se o resto for de acordo com o que pude ver até aqui, é uma maravilha. Só posso lhe parabenizar.
            – Bom dia, doutor., – cumprimentou o coronel quando José chegou perto e lhe estendeu a mão. – Ainda não viu nada. O que viu, é apenas uma pequena amostra do que tenho aqui. Vamos entrando, que já mandei servir o café.
Entraram e o coronel lhe indicou uma confortável poltrona, instando-o o a se sentar, enquanto ele mesmo ocupava outra igual, bem à sua frente      .
            – Isabel, minha filha, traga o café. Nosso visitante chegou. Hoje é o dia de folga dos criados, por isso é minha filha que vai nos servir o café.
Foi assim que José ficou a par do nome da filha do coronel. Quando a conhecera no escritório, não se lembrava se havia sido dito o nome da jovem. Importante era o fato de que não se lembrava do nome. Era mais provável que não havia sido pronunciado o nome dela. No mesmo instante adentraram a sala a jovem Isabel, portando a bandeja com as xícaras, açúcar e um fumegante bule de um café que espalhava seu delicioso aroma. Era sinal de que o produto usado era de excelente qualidade. Junto com a jovem, veio sua mãe, uma elegante senhora, sobriamente vestida.
            – Dr. José, esta é minha esposa, Maria Luiza. Isabel, minha, filha o senhor já teve ocasião de conhecer.
José levantou-se e apertou a mão que a senhora lhe estendia, dizendo:
            – Encantado, minha senhora. Bom dia para ti também, Isabel.
            – É um prazer tê-lo em nossa casa, doutor.
            – O prazer é todo meu, em visitar uma propriedade tão aprazível. Sua casa é decorada com muito bom gosto.
            – Boa parte disto se deve à minha filha Isabel. Recentemente fizemos uma remodelação nos móveis. Foi dela a escolha da maior parte dos móveis e dos itens de decoração.
            – O velho Onofre aqui, só era convidado a assinar os cheques para pagar as contas, sem direito a reclamar, – resmungou o coronel em sua poltrona.  
            – Pai, não reclame. Bem que o senhor gostou. Cansei de ouvir o senhor se gabar diante das visitas que recebe. O senhor fala um bocado alto. Mesmo não querendo pode-se escutar o que diz, no último recanto da casa.
            – E qual é a coruja que não gaba o seu toco? Sou igual a todo mundo.
            – Vocês dois não podem deixar as rabugices para outra hora?
            – Creio eles tem o temperamento parecido. E como dois bicudos não conseguem se beijar, fica explicada a pendenga, – disse José, enfiando sua colher na conversa.
            Acabaram todos numa sonora gargalhada.
            – Mas vamos tomar o café, antes que esfrie. O melhor café, depois de frio, fica horrível.
            – Concordo com a senhora, – atalhou José, recebendo a sua xícara das mãos delicadas de Isabel. Sorveram lentamente o líquido de aroma delicioso.
            Ao final, José falou:
– Parabéns, dona Maria Luiza. O seu café é realmente muito bom.
            – Não fui eu que fiz, foi Isabel. Pode crer, ela sabe melhor do que eu fazer um bom café. A quantidade exata do pó, a temperatura ideal da água. Ela é quem detém esses segredos.
            – Não é preciso exagerar mamãe, – replicou a jovem.
– Não é exagero. Tua mãe está com a razão. Ela te ensinou, mas você se tornou melhor do que a professora.
            – De qualquer modo, parabéns a quem fez este café. Até vou aceitar mais uma xícara. Normalmente não tomo muito café, mas este merece uma reprise, com toda certeza.
            – Pode tomar a vontade. Café é o que aqui não falta. E logo vamos ter nova safra e, pelo jeito, das boas. Deve ter visto pelo caminho a carga que tem nos cafeeiros.
            – Pois é mesmo impressionante. Os galhos estão quase quebrando de tão carregados que estão.
            – E esta é a área em que não está mais bonito. Depois iremos ver outras partes onde a carga é mais plena.
            Terminaram de tomar o café e o coronel Onofre convidou:
            – Vamos aproveitar que ainda é cedo, não está muito quente e vamos olhar o lugar que motivou a encrenca. No caminho aproveitamos para ver o cafezal que me enche de orgulho e alegria.
            – Por mim podemos ir, pois do contrário acabo bebendo o restante do bule de café e isto é muito para uma manhã.
            – Venha por aqui. Não quer aproveitar e colocar umas botas? Este seu sapato vai ficar cheio de terra, o que vai tornar difícil caminhar.
            – Se tiver algum par que me sirva.
            – Qual é o número que o senhor calça? Me parece que é do tamanho do meu.
            – Meus sapatos são número quarenta e um.
            – Pois tenho um par sob medida para o senhor.
            Saíram para os fundos da casa, onde, em uma área coberta, havia diversos pares de botas. O coronel Onofre pegou um deles e ofereceu ao convidado. Dr. José descalçou os sapatos e tratou de colocar as botas, que realmente lhe serviram perfeitamente. Enquanto isso, coronel Onofre também calçou o seu par de botas predileto. Colocou um chapéu, oferecendo um ao advogado que aceitou. Saíram e, enquanto caminhavam, o proprietário foi mostrando os detalhes de seus domínios. Passaram por um açude, onde, nas palavras do coronel, nadavam as carpas mais gordas e grandonas de toda a redondeza. Quando tinha vontade de saborear um peixe frito ou assado, era só capturar uma ou duas e estava pronta a festa.
Após meia hora de caminhada, chegaram ao ponto da divisa entre as propriedades, motivo da demanda em andamento. José fez perguntas que achou pertinentes e o coronel respondeu, explicou o que o levara a entrar com o processo. José, que se prevenira com uma pequena câmera fotográfica, bateu algumas fotografias em que ficava patente a ação fraudulenta do vizinho. Elas o auxiliariam na instrução do processo. Nelas ficava evidente que a cerca fora deslocada e também mostravam o local onde o gado do vizinho invadira a propriedade do coronel, causando danos aos cafeeiros. Havia uma meia centena deles que estavam totalmente quebrados. Para sua recuperação era necessário o corte baixo e esperar a brotação nova vir. Só depois voltariam a produzir novamente.
            – Pelas fotografias vai ser mais fácil mostrar o que motiva o pedido de indenização e a volta da cerca ao local original, – disse José ao coronel.
            – Destas coisas o senhor entende mais do que eu. Tenho certeza de que vai saber tirar uns bons cobres do muquirana do meu vizinho. Eu não quero mal a ele, mas tentei conversar e ele me mandou para aquele lugar. Disse que fosse dar queixa ao Bispo, ou então ao Papa. Pode uma coisa dessas? Me causa um prejuízo dos bons e ainda não quer nem conversar! Então vamos conversar na frente do homem da capa preta. Uai! Não é à toa que sou conhecido como coronel Onofre Pires por essas bandas. Sou de ficar no prejuizo não, sô.  
            – Os seus empregados viram os fatos e podem testemunhar em seu favor?
            – Com certeza. Posso levar uns cinco, se for preciso.
            – São mais do que suficientes, – foi a resposta de José.
            Deram mais uma volta para ver outra parte da propriedade e tomaram o rumo da casa. O sol estava ficando quente e a hora do almoço estava se aproximando. Não queriam fazer as mulheres ficar esperando por eles. Se havia algo que Onofre prezava era a pontualidade da hora do almoço. Não lhe agradava chegar atrasado para esta hora.
            Quando Maria Luiza escutou o ruído dos passos na área de serviço e a conversa dos dois homens, chegou à porta e falou:
            – Mais um pouco e eu iria atrás de vocês. O assado está pronto, as saladas temperadasa. É o tempo de se lavarem e virem para a mesa.
            – Já estamos indo, mulher. É só descalçar as botas, jogar um bocado de água no rosto e nas mãos e estamos prontos. Doutor, aqui tem sabonete, toalha e a pia. Quer lavar as mãos e passar uma água no rosto? Use à vontade. 
José lavou as mãos, enxaguou o rosto, depois se enxugou com a toalha que ali havia. Foi secundado por Onofre e em instantes adentravam a sala de refeições, luxuosamente decorada, sem exageros. Uma ampla mesa em mogno, rodeada de oito cadeiras finamente torneadas e envernizadas. Sobre a mesa uma toalha de linho fino, acabada com um barrado de crochet. Os pratos eram de fina porcelana e os talheres em aço inoxidável, encrustados de filigranas de ouro. Onofre indicou a Rodrigo uma cadeira, onde o mesmo se sentou, enquanto ele sentou-se à cabeceira.
Logo entraram Maria Luiza, trazendo um apetitoso assado de pernil suíno, seguida de Isabel com a travessa de salada nas mãos. Acomodaram o que traziam sobre a mesa, retirando-se em busca dos complementos para o almoço. Pão caseiro, uma tigela com farofa, uma jarra com vinho tinto, produzido na fazenda, com as uvas cultivadas em uma encosta pedregosa que havia perto da casa. Aipim cozido ao ponto de estar quase derretendo e também maionese feita pelas mãos de dona Maria Luiza. Após terminarem de por a mesa, as mulheres sentaram-se para almoçar.
            – Vamos nos servir, doutor. Se demorarmos a comida esfria e perde o sabor.
            – É a mesma coisa que a minha mãe sempre diz. Os comensais devem esperar pela comida e não o contrário.
            Atacaram com vontade os pratos e em questão de meia hora, sobravam apenas os restos mortais do que antes fora uma refeição primorosamente preparada, apesar da simplicidade dos pratos.
Com o término da refeição, as mulheres pediram licença e retiraram os pratos, talheres, as travessas e tigelas. Em pouco, puseram no lugar os pratos e talheres para sobremesa, que consistia de um delicioso pudim trazido pelas mãos de Isabel. Serviram-se do pudim, degustaram-no com prazer.
            – Um digno acompanhamento para uma refeição soberba. Parabens dona Maria Luiza e a você também senhorita Isabel. Obrigado pelo almoço.
            – Vamos tomar um cafezinho e depois iremos para a sala de estar. Vou lhe servir um licor, que garanto, o senhor nunca experimentou. É obra das mãos de minha querida Maria Luiza.
            O café foi servido e lentamente saboreado. Quando as xícaras ficaram vazias, dirigiram-se para a sala de estar, onde, a um canto, crepitavam algumas achas de lenha em uma lareira, apresar do clima relativamente quente da época. José Silvério, acomodou-se em uma confortável poltrona, forrada de fino couro, enquanto o Cel. Onofre foi até um barzinho, pegou uma garrafa com o licor, duas taças onde verteu um pouco do conteúdo da garrafa. Entregou uma ao advogado e, com a outra nas mãos, sentou-se em outra poltrona ao lado. Bebericaram lentamente o licor e José teve que admitir. Era de um sabor inimaginável. Dona Maria Luiza tinha verdadeiras mãos de fada. Nunca tinha provado um licor com sabor semelhante.
            – Coronel, sua senhora tem um poder mágico nas mãos. Este licor é algo que eu jamais tinha tido o prazer de experimentar. Faça o favor de lhe dar os parabéns.
            – É herança de família. Ela vem de linhagem residente nessa região há mais de dois sécculos, sempre lidando com gado, depois café e outras atividades.
            – Essa sabedoria precise ser tansmitida de geração em geração para não se perder. Seria bom mesmo escrever a receita e deixare para a posteridade.
            – Isso é lá com elas. Se tiverem vontade de fazer algo assim, tenho nada contra. Fico contente em ter aqui para meu consume. O dinheiro para viver e gastar vem do café. As outras coisas são acessórios.
            – Nem pensaria em questão de ganhos, mas em preserver o sabor que é único.
            – Depois vocês conversam e se elas quiser anotar, muito bem, doutor. Aceita deitar um pouco para uma sesta?
            – Não sou habituado, mas não faça cerimônia, coronel. Se tem o costume, faça sua sesta. Eu por meu turno me acomodo ali na varanda naquela rede. Faz tempo que não deito numa rede e aprecio o verde, o ar puro. O dia hoje está especial.
            – Pois entonce, fique à vontade, que eu vou cochilar um bocadinho. Um instante apenas que já é de hábito.
            – Descanse tranquilamente, coronel.
            – Com licença e esteja à vontade.
            Coronel Onofre foi para o quarto e se acomodou para o cochilo. Um hábito cultivado há muitos anos. José por sua vez foi até a varanda e verificou se não existia nenhum inseto ou coisa estranha na rede, depois deitou-se confortavelmente. Dali podia ver uma ampla área das plantações de café da propriedade de seu cliente. Nunca tivera oportunidade de observer os cafeeiros nessa fase de desenvolvimento. Formavamo um espetáculo belo. O verde escuro das folhas, contrastando com o tom levemente mais claro dos grãos que se destacavam ao longo dos caules de seus galhos.
            Passou um bom tempo ali, meditando sobre a vida bucólica que levavam os proprietários das fazendas de café. Havia a temporada da colheita, antecipada pela manutenção da limpeza, quando a faina era intensa. Mas nos intervalos a vida corria plácida e serena. Muito diversa da agitação urbana, onde desde o clarear do dia ao anoitecer havia sempre gente em constante movimento. Indo, vindo e um corre corre incessante. Até mesmo no período noturno havia movimento, menos intense é claro, mas, nas capitais, certos pontos em determinadas noites eram mais movimentadas que as horas diurnas.

Mineiro sovina! – Capítulo V

 

     O primeiro cliente
Na manhã seguinte, estava lá o Dr. José. Ansioso por receber o primeiro cliente importante. O Cel. Onofre veio acompanhado da filha. Quando deitou os olhos na donzela, teve que fazer um grande esforço para manter a calma. Ficou violentamente impressionado com a beleza da jovem. Tinha a pele branca, mas de um branco sedoso. Cabelos negros e longos, quase chegando a cintura, emolduravam o rosto de traços delicados, no qual brilhava um par de olhos verdes como nunca vira. Levava no dedo um anel de formatura do curso de magistério que concluira no ano precedente. Se iria exercer a profissão era outra questão, mas causava boa impressão na época ser professor formada.
Tão logo Roberta anunciou a presença do coronel, José foi pessoalmente até a porta para convidar o cliente a entrar no gabinete.
          Tenha a bondade coronel. Vamos entrando. A senhorita quer acompanhar seu pai? – indagou à filha.
          Vou sim. Papai as vezes tem dificuldades de se expressar e preciso ajudar nos momentos de dificuldades.
          Por favor, sentem-se.
A porta foi fechada e todos se sentaram. Dr. José em sua poltrona giratória atrás da ampla escrivaninha, o coronel e a filha em confortáveis poltronas colocadas lateralmente em frente.
          Em primeiro lugar, coronel, quero desejar boas vindas à nossa empresa de advocacia. Em que podemos servi-lo, coronel?
          Buenos dias, doutor. Estou tendo umas pinimbas com um vizinho.
          Por causa de que o senhor se desentendeu com o vizinho?
          Por mode um zóio d’água, que tem nas minha terra, quase na divisa com as dele.
          E o que aconteceu.
          Em dantes, nos tempo do pai dele, nois fizemo a demarcação e ficou tudo certo. Agora, duns tempo pra cá, ele cismou de que aquela água faz parte as terra dele e mudou a cerca de lugar. Para isso ele cortou mais de cinquenta pé di café meu.
          Mas ao menos tentou negociar com o senhor o uso da água?
          Aquilo negocia! É mais arrogante e teimoso qui mula empacada.
          A demarcação que vocês fizeram no tempo do pai dele está guardada, registrada, tudo como manda a lei?
          Fia! Pega aí na sua pasta o paper e mostra pro doutor.
A moça pegou o document e entregou a Dr. José. O document realmente mostrava claramente a localização da vertente e o lugar da divisa. Era claro que pertencia ao coronel Onofre a água. Isso não impediria um entendimento de uso do recurso hídrico pelo vizinho, mas demandaria concordância de ambas as partes o detalhamento desse uso.
          Pelo que mostra esse documento, a vertente se encontra na sua propriedade. O vizinho não pode fazer a mudança de cerca sem mais nem menos.
          Uai! I eu ia reclamar sem razão! Tivesse vindo cunversá igual gente, nóis ia si intende com certeza. Mas cortá assim cinquenta pé de café produzindo, carregadinho que é coisa linda. Vai ficá sim troco é nunca.
          O senhor tem plena razão, coronel. Nós vamos encaminhar o processo de reintegração de posse da área que ele invadiu de sua propriedade, além de outro pedindo indenização do prejuizo causado.
          Mais num dá pra fazê tudo ni um processo só? Com dois o custo é maio.
          Eu entendo coronel sua preocupação com os custos. Mas faremos uma composição para que o custo não seja nada além do razoável. Por outro lado, se o vizinho for condenado, também terá que arcar com as custas do processo e o senhor não terá despesa alguma.
          Pode cobra em dobro dele e passa metade para mim, só para ensiná esse coisa ruim.
          Existem limites estabelecidos para cobrar honorários e isso não pode ser feito. Mas sua indenização será justa pode ter certeza.
          Qui é qui temo qui faze pra mode entrar com os tais de processos?
          Vamos começar por uma procuração que o senhor vai assinar para que o escritório, representado por mim ou outro advogado possa questionar judicialmente seu vizinho. Também precisamos fazer umas cópias dos documentos. Se o senhor tiver tudo aí, eu peço à secretária para providenciar as cópias e também do modelo da procuração.
Os documentos foram apresentados e um minuto depois eram entregues à Roberta para providenciar as cópias que deveriam ficar anexas ao processo. Dr. José redigiu rapidamente uma declaração que seria datilografada e depois assinada por coronel Onofre, relatando o ocorrido em sua propriedade, motivando a petição judicial contra o vizinho. Enquanto escrevia conversava com o coronel.
Quando Roberta voltou com as cópias, recebeu o rascunho da declaração para ser datilografada. Saiu e foi providenciar o que estava sendo solicitado por seu chefe. José conferiu as cópias, apôs em cada uma delas um carimbo e uma rúbrica atestando a autenticidade das mesmas. Depois devolveu os originais à jovem sentada ali, em silêncio absolute até o presente momento. Ao receber os documentos os seus dedos esbarraram de leve na mão de José. Imediatamente sua tez se tingiu de rubro, tamanha era sua timidez.
Combinaram a forma de cálculo das custas e a época dos pagamentos. Na opinião de José, seria importante poder ver in loco as causas do descontentamento do cliente. Assim poderia formular melhor as petições ao juiz. Sugeriu uma visita à propriedade no dia mais adequado. Levaria uma camera fotográfica para tirar uns instantâneos para colocar anexos ao processo. Uma fotografia era mais eloquente que um desenho, um mapa.
            – Le aguardo lá na fazenda para o almoço de domingo, douto. Mió vim um poco mais cedo, mode nóis oia o lugar antes de cumê. Num fica longe. Se quisé, mando o motorista le apanhá lá pelas oito e meia.
            – Não será necessário. Vou no automóvel do meu pai. Ele quase nunca usa mesmo. Vai ser bom andar com ele, caso contrário vai acabar ficando enferrujado por falta de usar. Pode me esperar que apareço por lá. Já tenho anotado o endereço e conheço bem a região. Fica perto dos lagos.
            – Isso memo. Ficamo cumbinado doutô. Vou pedir pra patroa caprichar na bóia. Ela tem mão boa nos tempero.
            – Vou providenciar a preparação dos processos. Domingo faço as fotografias. Semana que vem revelo, anexo e encaminho. Em um mês ou dois vamos ter a primeira audiência.
            – Ma I demora tanto ansim? Mia nossa Sinhora! Qui coisa mais demorada essa nossa justiça.
            – Infelizmente coronel. Os juízes são poucos e estão sobrecarregados. Por isso a demora. Depois tem uns trâmites que não podem deixar de ser cumpridos; prazos legais e tal.
            – A lei protegendo os safado! Mas qui é qui si vai faze? Prazê em li cunhece, douto.
            – O prazer foi meu, coronel. Até logo senhorita!
            – Até, doutor. Vamos lhe aguardar domingo.
            – Sem dúvida. Não vou faltar.  
            Após a saída dos dois, Roberta comentou:
            – Tem um coração que balançou, aliás está balançando até agora.
            – Por que você diz isso?
            – Não pensa que sou cego. Vi muito bem como ficou quando a moça lhe estendeu a mão. Você quase desmaiou. Acho que ela também percebeu. Mas não disse nada, ela é realmente muito bonita. Demonstra que você tem bom gosto.
– Você andou vendo coisas. Não aconteceu nada demais. O pai dela é um cliente importante.
– Muito conveniente fazer uma visita à fazenda. Ocasião propícia para rever a moça, quem sabe, pedir ao pai para namorar com ela?
– Que imaginação fértil você tem, Roberta. Vai devagar. Quem cuida de minha vida sou eu. Não posso me expor a perder um cliente importante com leviandades.
            – Desculpe a indiscrição. Não é da minha conta cuidar dos seus sentimentos. Devo me ater a realizar o meu trabalho.
– Então vamos a ele. Temos vários processos para terminar. Vou dar entrada neles amanhã cedo no distribuidor.
– Verifiquei sua agenda e devo lembrar que não pode esquecer da audiência amanhã a tarde na vara de família.
            – É mesmo! Preciso ultimar alguns detalhes do processo. Vamos começar por ele agora mesmo. Depois terminaremos a montagem dos outros cinco processos em que estamos trabalhando desde a semana passada.
            Ocupados com o trabalho, não viram o tempo passar e logo estavam voltando para casa. O Dr. José, ainda ficou um pouco mais, estudando a legislação específica aplicada no processo de guarda dos filhos de um casal que havia se desquitado. Não haviam ainda chegado a um acordo aceitável no que tange à guarda dos filhos. Era a sua primeira audiência e queria estar em condições de apresentar uma boa defesa dos argumentos de seu cliente. Este reclamava do não cumprimento dos dias de visita aos filhos que haviam sido estabelecidos por ocasião da homologação do desquite.
            O resto da semana passou rápido, entre audiências, entrevistas com clientes, intermediação de acordos entre partes litigantes, redação de pareceres, estudo de casos semelhantes aos que tinha em mãos no momento. Era necessário estar sempre atualizado com a jurisprudência, as novas leis e decretos que eram promulgadas diariamente. Não tinha quase nenhum tempo para sequer conversar com o pai, a mãe e sua irmã. Teria que organizar suas atividades para fazer frente ao volume de tarefas que surgiam a cada dia.
            Conversou com o pai sobre a utilização do automóvel no domingo, para visitar o cliente fazendeiro. Em nenhum momento, deixou transparecer a paixão à primeira vista pela filha do coronel. Só iria falar a respeito disso com a família, se fosse bem sucedido com o que tinha em mente, no decurso da visita que faria à fazenda. Fizeram uma revisão no veículo, mandaram lavar e polir. Coisas aliás de que ele andava precisando.

Gaúcho de São Borja! – Capítulo VI

 

   Família Monteiro, geração 1900
            Em 1920, os filhos de Margarida e Francisco estavam casados. Júlia tinha por marido um juiz de direito, morando nesse momento em São Borja. Joana encontrara marido no filho de uma fazenda vizinha. Estava em sua segunda gravidez, torcendo pelo nascimento de um menino, pois da primeira viera uma menina.
            Júlia tivera um menino, no momento com seis anos, uma menina com quatro. Os gêmeos estavam com um ano e meio, sendo a alegria dos pais, também dos avós. Pedro casara há poucos meses. Não tinha ainda nenhum filho, mas a esposa Roseli estava em começo de gravidez. O herdeiro tinha o nascimento previsto para final de janeiro, início de fevereiro de 1921. O casal Pedro e Roseli viviamo numa casa nova construida na proximidade da Casa Grande, onde viviam Carlota, Margarida e Francisco. Por melhor que fosse o entendimento entre a nora e sogra, a convivência sob o mesmo teto sempre gera conflitos. Isso levara à decisão de morarem em casas separadas, embora na mesma propriedade.
            A natureza premiou Pedro e Roseli, trazendo em 02/02/1921 um menino. Era forte e saudável, transformando-se em motive de grande alegria dos pais. Recebeu o nome de Joaquim. Frequentemente, os domingos na fazenda eram movimentados, especialmente quando ali se reuniam as famílias das filhas para comemorar alguma dada especial, ou apenas para conviverem em maravilhosa harmonia. A amplidão dos espaços livres eram um convite aos folguedos infantis. Os pais aproveitavam para deixar que brincassem até cansarem. Especialmente os de Júlia, já com mais idade e vivendo na cidade, expandiam toda sua vitalidade, explorando todos os recantos disponíveis. Havia necessidade de vigilância constante para evitar que se expusessem a riscos sempre existentes, apesar de todos os cuidados do vovô Francisco. Ao chegar o anoitecer retornavam para suas casas, levando um grande abraço dos avós, primos e tios.
            A década de vinte transcorreu com algumas transformações políticas. Getúlio Vargas, filho de São Borja, ascendeu ao posto de president do Estado em 1928. O ano seguinte foi marcado pelo abalo no mundo econômico ocorrido com a quebra da bolsa de valores de Nova Iorque. Uma grave crise se estabeleceu no mundo inteiro, demorando alguns anos para a recuperação dos mercados. Mesmo não estando diretamente sujeito à influência da bolsa, o mundo econômico brasileiro foi atingido. Em todos os lugares os efeitos eram perceptíveis, obrigando a ajustes em diversos setores.
            As exportações de carne, arroz, couro, café e demais produtos nacionais foram afetadas. Os preços cairam, as quantidades exportadas eram de menor monta, causando uma retração geral. O mercado cafeeiro mundial em retração e ajustes, provocou uma crise no setor a nível nacional. Embora o Rio Grande do Sul não seja produtor, foi influenciado pelos resultados. Em 1930, um movimento rebelde, liderado por militares, impediu a posse de Prestes na presidência. Um governo provisório foi entregue nas mãos de Getúlio, resultando na convocação de uma constituinte, nova Constituição e depois no Estado Novo, que durou até 1945, após o final da Segunda Guerra.
            Com a idade de 24 anos, Joaquim casou-se com Ana Maria, filha única de uma família vizinha. A propriedade ficava contígua e o casal inicialmene ficou morando nas terras pertencentes aos pais da noiva. Carlota sentiu a satisfação de assistir praticamente a todos os casamentos dos bisnetos, vindo a falecer com a idade de 92 anos, em 1948.
O aparecimento do automóvel, aliado à situação financeira confortável, trouxe esse acessório para a vida dos proprietários de fazendas na região. Igualmente os aeroplanos tornaram-se bastante comuns, pois o terreno pouco acidentado das regiões campestres, facilitava a construção de pistas de pouso e decolagem. Dessa forma os proprietários mais abastados frequentemente eram vistos, viajando em seus próprios aparelhos. Via de regra eram eles próprios ou os filhos que haviam aprendido a pilotar, visto ser nessa época uma atividade menos complexa do que hoje. Consequentemente também envolvia maior nível de riscos. Os aparelhos voavam a menores altitudes, estando mais expostas aos efeitos das tempestades, sempre presentes nas camadas mais baixas da atmosfera.
Pedro aprendera a pilotar o aparelho que a família possuia e que pousava e decolava na própria propriedade. Em 1950, viajando com os pais Francisco e Margarida para Porto Alegre, foram colhidos por um forte vendaval. Antes que fosse possível encontrar um local para fazer um pouso de emergência, chocaram-se contra um morro, na região serrana. A pouca visibilidade e ação do vento desviaram-nos da rota, levando ao acidente. Quando foram encontrados, não restava nada a fazer. O choque e o incêndio que sobreveio, deixaram apenas restos carbonizados do aparelho e dos corpos.
De um momento para outro, Joaquim viu-se na posição de assumir a administração da propriedade da família. Mudaram-se para lá, encontrando uma imensa casa, onde em cada canto havia lembranças inesquecíveis da infância e adolescência. O pai e os avós foram sepultados no jazigo erigido ao lado da capela, recentemente reformada e ampliada. A mãe Roseli, bruscamente privada da companhia de Pedro, passou algum tempo em depressão. Para agravar a situação, Ana Maria não conseguia lhe dar um neto.
Uma das primeiras providências de Joaquim foi reformular profundamente a estrutura da propriedade. Encontrou um novo capataz geral. Estabeleceu chefes de setores, pois sucessivas aquisições haviam transformada a Santa Maria em uma das maiores propriedades existentes na região. Não era possível a um único homem controlar todas as atividades. Passou a ter um chefe do setor de pecuária de corte, outro da área de agricultura, assim como uma pessoa encarregada da produção leiteira. Eram atividades congêneres, mas com características diferentes. Dessa forma conseguiu imprimir um ciclo de prosperidade acentuada na propriedade.
Os investimentos e consequentemente a produção sectorial, foram otimizados, levando a um rendimento superior. Roseli, cada vez mais abalada com a morte prematura de Pedro, ficou com a saúde seriamente comprometida. Em 1952, pouco mais de dois anos após o acidente, ela sucumbiu a um ataque cardíaco, possivelmente causado por alguma falha hereditária, não detectável nesses dias. Os pais de Ana Maria haviam se casado já em idades mais avançadas e nunca haviam gozado de saúde forte. Em pouco tempo, tanto um quanto outro, partiram para a eternidade, deixando para Joaquim, além da fazenda Santa Maria, a propriedade herdada pela esposa. O trabalho praticamente duplicou e com isso as responsabilidades de seus empregados.
Entre esses encontravam-se Pedro Paulo das Neves e sua esposa Maria Conceição das Neves. Tinham se casado quando já ocupavam as posições de Capataz geral e chefe da produção de leite na propriedade. Como prividência principal, foi transferida a produção leiteira inteiramene para a propriedade herdada por Ana Maria. Obrigando dessa forma Maria Conceição a percorrer diariamente a distância, entre as sedes das duas propriedades. Não era grande, mas mesmo assim representava um pequeno transtorno. Assim Pedro Paulo e Maria Conceição foram viver na terra que antes pertencera aos pais de Ana Maria.

 

Pedro Paulo, como Capataz Geral, não tinha necessidade de estar continuamente próximo de cada setor de artividade. Para ele era mais fácil percorer uma pequena distância para ir de um lugar ao outro. Fazia parte de seu trabalho. Usava em seu deslocamento ora o cavalo ora um jipe que aprendera a dirigir. Assim chegamos ao ano de 1955, pouco depois da morte de Getúlio Vargas em pleno exercício de seu mandato como Presidente da República, para o qual for a eleito, dessa vez por sufrágio universal do povo brasileiro.

Mineiro sovina! – Capítulo IV.

 

Enfim advogado.
Quando a carteira de advogado chegou, José Silvério fez questão de ir até o gabinete do diretor geral do escritório apresentar o documento.
– Parabéns! Isso é muito bom. O número de clientes tem aumentado consideravelmente. Estava na hora de ter mais um integrante na equipe. Que possa assumir causas, defender réus e por aí afora.
            – Estou a disposição para o que der e vier. Creio que já adquiri experiência durante estes meses que aqui trabalho. Pode contar comigo.
– Vamos providenciar um gabinete para você. Hoje mesmo me reúno com os outros sócios para tratar disso. Já tenho uma ideia para isso. Tem uma peça ali no final do corredor, que está sendo ocupada como depósito. Vamos remover tudo de lá, reformar, mobiliar adequadamente e teremos onde instalar o novo associado.
– Fico agradecido. Vou me esforçar ao máximo para corresponder à sua confiança.   
            – Tenho certeza que vai ser um bom profissional. Já o conheço desde quando ainda usava calças curtas, no mercado do seu pai. Bons tempos aqueles, você não acha?
–  Com toda certeza, mas a vida segue seu curso. Agora vou para minha mesa. Um bocado de processos espera para serem analisado e elaborados os pareceres. Vou deixar a minha pauta limpa, antes de assumir novas funções.
            – Vai e faça o que tem para fazer.
Foi até a sua mesa, pondo-se a trabalhar com afinco mantendo um sorriso permanente no rosto. Não demorou e os outros funcionários notaram a euforia. Alguém comentou com a vizinha de mesa e esta resolveu perguntar:
            – José, você viu passarinho verde na vinda para cá?
            – Por que a pergunta, Roberta?
            – É que está com o rosto radiante. Dá para notar de longe. Até parece que arrumou namorada.
–  Não é nada disso, Roberta. É que hoje encontrei, na caixa de correio, um envelope que me trouxe minha carteira da OAB. Agora sou advogado de verdade, não mais apenas bacharel em direito.
            – Vamos ter que tratar você por Dr. José. Que chique. Você merece, se esforça e cumpre com suas obrigações como ninguém. Vai ser bom trabalhar perto de você. Onde vai ser o seu gabinete?
– O Dr. Arlindo vai resolver isso hoje com os outros sócios. Hão de arranjar algum lugar para me instalar. Vou ter que escolher uma secretária. Você aceita o posto, Roberta?
– Quanta honra. Se precisar, pode contar comigo, Dr. José Silvério.
            – Menos cerimônia, somos antes de mais nada amigos. Apenas muda a minha posição dentro do escritório, o resto permanece na mesma.
– Vai ser um bom chefe, tenho certeza.
Todos se aproximaram para cumprimentar o novo membro da associação de advogados. Até ali haviam sido praticamente colegas, com a diferença de que sabiam ser ele candidato a ocupar um gabinete na organização. Nas semanas seguintes a citada peça do prédio, que servia de depósito, foi esvaziada e um frenético processo de reforma teve lugar. Em duas semanas a reforma estava feita, uma ampla janela fora instalada. Vieram móveis novos, no estilo dos demais gabinetes. Quando tudo ficou pronto, foi oferecido a todos os integrantes da organização um coquetel de inauguração do novo gabinete, onde iria atuar o mais novo membro do já famoso escritório de advocacia.
Na manhã seguinte, José Silvério da Silva, entrou pela primeira vez em seu gabinete, ainda rescendendo a tinta, móveis novos e o sol iluminando o ambiente pela ampla janela. Sentiu-se realizado até aquele momento. Mas esperava muito mais da vida. Tinha objetivos elevados e iria atingir os que fosse possível, reformular os demais e estabelecer novos na medida que as coisas fossem seguindo seu ritmo próprio.
Não tentaria atropelar os fatos. Considerava que tinha a vida pela frente e a seu dispor os instrumentos para realizar seus sonhos. Logo chegou Roberta que confirmara a aceitação de seu convite para ocupar o lugar de secretária. A experiência dela na função era de grande valia.
Atendeu alguns telefonemas de clientes que haviam sido colocados sob sua responsabilidade, bem como alguns novos que tinham questões pendentes de processos judiciais e estavam sendo encaminhados para seus cuidados. Evidentemente, qualquer causa de maior envergadura, contaria sempre com o apoio dos colegas mais experientes. Mesmo em caso de dúvidas, poderia recorrer aos conselhos dos mais antigos na organização.

            Naquela tarde lhe foi passada uma causa que envolvia querelas entre fazendeiros vizinhos no tocante às divisas entre suas terras, cercas deslocadas e animais provocando danos no cafezal de um dos envolvidos. Tivera oportunidade de trocar algumas palavras com o Cel. Onofre Pires, cafeicultor da região. Ele viria no dia seguinte às nove horas, trazer documentos, relatórios e dados para promover uma ação indenizatória contra o vizinho.