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Um japonês especialista em cachaça – Capítulo IX

 

Pátio de embarque aeroporto de Lisboa.

 

 

Aviões taxiando em Lisboa.

 

 

Fachada do aeroporto de Lisboa.

 

9. Mudança total de vida.
            Enquanto aguardava pelo crédito da indenização na conta, Manoel aproveitou para percorrer o bairro da Lapa, Mooca, Bom Retiro e adjacências em busca de algo para comprar. Encontrou vários estabelecimentos à venda. Em alguns casos logo percebia que estariam além de suas possibilidades, outros, embora aparentassem menor valor, os atuais donos pediam valores exorbitantes. Houve um momento em que pensou ser necessário procurar em regiões mais distantes, pois não poderia gastar todo seu capital apenas na compra. Haveria necessidade de dinheiro para algumas reformas, adaptações e para capital de giro.
 
            Decidiu fazer primeiro a viagem à terra natal e depois, com mais tempo, poderia procurar melhor. Dirigiu-se a uma agência de aviação. Iria por esse meio para não gastar tando tempo. Mesmo aposentado, tinha certa pressa em voltar e começar a tratar de seu próprio negócio. Enquanto aguardava o dia do embarque, passou casualmente por uma rua que ainda não havia visitado. Ali deparou-se com um estabelecimento a venda. Em certo momento viu diante de si uma placa que lhe chamou atenção. Lia-se:
           VENDE-SE ESTE ESTABELECIMENTO
 
Tratava-se de um bar, com algumas mesinhas onde eram servidas refeições caseiras. O proprietário, também imigrante da terrinha, já em idade avançada, tinha decidido terminar seus dias junto aos familiares remanescentes em Tras os Montes. Ele  aqui vivia sozinho. Nunca se casara, nem tivera envolvimento sentimental. Com o que tinha guardado no banco e com o valor da venda do bar, poderia custear as despesas para viver uma vida humilde e pacata junto aos irmãos e descendentes, com os quais se correspondia regularmente. Estavam a sua espera havia já algum tempo. Não se cansavam de insistir para que voltasse.
 
Iriam passar as tardes sentados nas praças, quando o tempo permitisse, quando não, ficariam se aquecendo junto à lareira. O que não iriam deixar de fazer, seriam boas caminhadas seguidas de intermináveis partidas de gamão, dominó, trilha e xadrez ou jogando conversa fora. Não queria terminar seus dias aqui, entre amigos, porém estranhos. Estava se sentindo cada vez mais solitário.
 
Manoel pensou um pouco, entrou e foi encontrar o patrício, de nome Joaquim José Lopes. Logo conversavam animadamente sobre negócios e ao final de duas horas haviam combinado o preço e o dia em que iriam a um cartório para formalizar o negócio. A vontade de voltar para a patria fez Joaquim pedir um preço razoável, dentro das possibilidades de Manoel. Isso facilitou a realização da comprá. Para comemorar, Joaquim foi buscar uma garrafa de vinho do Porto, guardada desde longa data. Não faria sentido transportar de volta para Portugal algo tão frágil. A ocasião merecia uma comemoração e nada melhor do que um bom vinho.
 
O excelente vinho acompanhou um prato de queijo e presunto picados, regados a azeite de oliva e orégano. Quando terminaram o vinho, se avizinhava a hora em que Joaquim devia, por enquanto, dar atenção aos seus fregueses. Estes, ao retornarem para casa vindo do trabalho, passavam por ali. Jogar um dedo de prosa fora com algum conhecido, saborear uma cerveja ou então uma branquinha. Depois seguiam seu caminho para casa. Tinham que descansar do dia de trabalho, pois na manhã seguinte a labuta recomeçava.
Avião decolando em Lisboa.

 

Area de check in aeroporto Lisboa.
 
Para Manoel, era imprescindível que os fregueses ficassem contentes, pois logo seria ele que estaria atrás do balcão. Já estava fazendo planos para algumas mudanças, mas isto ficaria para o dia em que estivesse no comando. Por ora apenas haviam acertado os detalhes do negócio. Faltava, no dia seguinte, logo pela manhã, irem ao cartório, formalizar o contrato e registrar os documentos de garantia de uma parte do valor a ser pago com algum prazo. Se fosse pagar o preço à vista, ficaria completamente sem capital de giro e não seria possível tocar o negócio. Era importante reservar um tanto de capital para as mudanças que iria fazer no bar e para garantir o estoque de bebidas e demais mercadorias que iria vender.
 
O representava uma grande vantagem era o fato de que adquirira não apenas o estabelecimento, mas o edifício, incluindo uma ampla moradia no andar superior. Com calma poderia fazer uma reforma em regra e teria onde residir com a future esposa. Voltou para casa assobiando alegremente, em outros momentos cantarolava canções que lhe vinham a memória, evocando os tempos de juventude e adolescência. Antes de ir para o quarto de pensão, passou pela casa de Eduarda e lhe contou as novidades. Queria partilhar com ela sua nova fase, uma vez que, ao que indicavam os acontecimentos, ela seria a companheira de seus dias no futuro.
 
Na manhã seguinte, quando as portas do cartório de registro civil abriram, lá estavam Joaquim e Manoel, ansiosos por terminar com as formalidades e concretizar o negócio. Joaquim estava radiante, pois tivera medo de que demorasse muito para encontrar um comprador para o bar. Manoel por outro lado, estava eufórico com a perspectiva de tornar-se dono de um estabelecimento que, conforme pudera verificar, era bem movimentado. Provavelmente não ficaria milionário, mas esta não era sua intenção. Queria sim ter seu canto para viver com sua cabrocha. Já poderia pedi-la em casamento. Tomou como exemplo o caso de Joaquim, que nunca se casara e levava hoje uma vida solitária e um tanto triste. Queria voltar para Portugal em busca de companhia, alguém com quem compartilhar a solidão.
 
Explicaram ao funcionário do cartório os detalhes do negócio e este, em pouco tempo redigira os termos do contrato, bem como os anexos como Notas Promissórias, integrantes do contrato, para garantir ao vendedor o recebimento dos valores que iriam ficar para trás. Quando tudo ficou pronto, antes de assinarem, dirigiram-se à agência da CEF que ficava perto e fizeram a transferência do dinheiro da conta de Manoel para Joaquim. Com o comprovante de pagamento em mãos, retornaram ao cartório e assinaram os documentos, que ficaram devidamente registrados nos livros do estabelecimento. Saíram dali, cada um com uma cópia do contrato nas mãos e voltaram para casa. Ao se despedirem, combinaram que na segunda feira seguinte iriam iniciar a transferência do estabelecimento.
 
Enquanto isto Manoel iria conversar com o contador, para se inteirar dos aspectos fiscais que o bar envolvia. Tinha necessidade de estar a par de todos os detalhes para não ser tomado de surpresa por alguma coisa de que não tinha conhecimento. Era necessário encaminhar a mudança da razão social para o seu nome. Isto demoraria algum tempo, pois envolvia órgãos públicos, onde geralmente é preciso ter muita paciência, voltar várias vezes para levar mais algum documento que ficara faltando e por aí a fora. Em se tratando de estabelecimento que vendia bebidas e alimentos, bem como a sua intenção de instalar numa área em desuso na parte do fundo mesas de sinuca, futebol de botão, pebolim, havia alguns requisitos que precisariam ser preenchidos para que fosse autorizado o funcionamento. Não queria arrumar confusões com as autoridades. Sua intenção era trabalhar com tudo nos devidos lugares. Licenças, autorizações, atestados e qualquer coisa exigida por lei.
 
            Tratou logo de encontrar um empreiteiro para realizar a reforma. Iria demolir uma parede, para anexar ao salão do bar a área em desuso. Tudo combinado como era de seu gosto, foi dado início à reforma. Quando os trabalhos estavam encaminhados, foi em busca de um fornecedor dos equipamentos que precisava. Não demorou a encontrar uma empresa que lhe alugaria as duas mesas de sinuca, uma de futebol de botão e perolem. Providenciou cadeiras novas, mesinhas para servir bebidas, conseguidas como propaganda da distribuidora de bebidas.
Vista aérea do aeroporto de Lisboa.
Em questão de duas semanas o senhor Joaquim se despediu de Manoel e lhe desejou sucesso com as modificações que estava realizando. Depois tomou um ônibus até o porto de Santos, onde embarcou em um navio de passageiros com destino à Europa. Bem que Manoel lhe havia sugerido viajar de avião. Tinha medo deste bicho que voava. Ele é que não iria arriscar a sua vida naquilo. Era preferível demorar mais alguns dias para chegar, mas não iria por os pés em um avião. Nem amarrado, posto em uma camisa de forças ele iria entrar num troço daqueles. Voasse quem quisesse. Ele iria com o bom e velho navio que era bem mais seguro.
 
Quando as obras ficassem prontas, Manoel estaria voltando de Portugal. Estavam em meados de julho e em dois dias embarcaria para Lisboa. Dali seguiria de trem ou ônibus, o que se apresentasse mais vantajoso. Avisara antes de partir aos familiares de sua próxima chegada. Aqui ficou tudo encaminhado para ficar pronto quando voltasse. O funcionário herdado entrou em férias e voltaria ao trabalho na reinauguração do estabelecimento. Uma cozinheira havia sido contatada para preparar as refeições a serem servidas aos freguêses. Todos eles lamentaram o período em que teriam necessidade de procurar outro lugar para fazer suas refeições. Quem gostou da ideia, foram os fregueses vespertinos e noturnos. Passariam uma temporada sem lugar para ir, mas no retorno haveria à sua disposição os jogos para se entreter.
 
Havia entre os fregueses e vizinhos apreciadores desse tipo de divertimento e antegozavam as horas passadas ali, disputando acaloradas partidas com os companheiros e amigos. Havia quem se preparasse para organizar campeonatos tanto de sinuca como de pebolim. Era ótimo o fato de a venda ter ocorrido entre dois patrícios portuguêses. Assim manteria boa parte das suas características, apreciadas pelos frequentadores.
 
A viagem foi rápida. Quando menos esperava descia no aeropoerto de Lisboa, indo depois buscar sua bagagem. Em pouco tempo estava embarcando em um ônibus que o levou para o Porto. Dali tomou um trem que o deixou em Ancede. Ao chegar, caminhou alegremente para a casa de seus irmãos, onde estava também a mãe. Morava em casas pouco distantes entre si. Em mais de trinta anos, essa era a segunda vez que voltava ali. A última for a poucos anos antes. A mãe ficou preocupada com o fato de ele estar mutilado. Pensou que teria dificuldades no futuro, mas ele lhe afiançou que não tinha com que se preocupar. Estava aposentado e deixara para trás um estabelecimento em reformas, junto com uma ampla moradia. Na volta pediria a namorada Eduarda em casamento e ficariam noivos.
 
Com essas notícias a velha senhora ficou mais serena. Seu estado de saúde era deveras preocupante. Fizera bem em vir visitá-la nesse momento, pois correria o risco de não ter outra ocasião para fazê-lo. Passou um mês visitando todos os lugares de sua infância, conhecidos ainda vivos, antigos colegas, sobrinhos já casados, formados em cursos universitários. Exerciam suas profissões ali mesmo em Ancede ou lugares próximos. A família se encaminhara para uma perspectiva de vida melhor do que nos tempos de sua infância e adolescência. Infelizmente quando se está a passeio, o tempo transcorre mais depressa do que em outras condições.
 
O dia do seu embarque de retorno se avizinhava. Passou dois dias inteiros junto à mãe, como querendo compensar os longos anos de separação. Sabia que, provavelmente essa seria a última vez que se viam. O momento da partida chegou e dos olhos da senhora lágrimas rolaram. Ela também sabia que ali estava se despedindo definitivamente do filho. Era o curso da vida e não poderia ser alterado. Desejou-lhe boa viagem e sucesso em seu empreendimento. Queria ter tido ocasião de lhe conhecer os filhos, mas isso estaria fora das possibilidades. Um sobriho, levou Manoel até Lisboa, aproveitando a necessidade de se deslocar para a capital. Iria participar de um curso de aperfeiçoamento em odontologia e assim poderia dar carona ao tio.
 
Foi uma viagem diferente. O veículo era usado e de menor potência que o seu Opala, deixado no Brasil. Ficou tentando comparer o desempenho do modelo europeu com o seu, de fabricação brasileira. O que ficava evidente era o menor consume de combustível, coisa que na Europa começava a ser levado em alta conta. A necessidade de importação de petróleo, aliada à alta do produto no mercado internacional, exigia o uso comedido do produto. Pensou consigo mesmo que, graças a Deus, o Brasil caminhava a passos largos em busca da autosuficiência na produção. O preço dos combustíveis ainda estava em nível razoável.
 
Foi deixado no aeroporto pelo sobrinho que logo depois foi para o local da realização do curso de que iria participar. Manoel procurou o balcão da Varig e ali fez os procedimentos necessários ao embarque para o Brasil. Teria que fazer uma baldeação em Marraquesh, até onde iria em uma aeronave menor. Estaria embarecando pouco antes do anoitecer e seria obrigado a uma espera de três a quatro horas antes de continuar para Recife, depois Rio de Janeiro, a seguir São Paulo.
Chegando a Congonhas.

 

Decolagem em Congonhas.

 

Patio de embarque em Congonhas.

 

Área de check in em Congonhas.
 
Ao chegar aqui, encontrou os trabalhos da reforma praticamente concluidos. Faltavam apenas detalhes de acabamento, a colocação da nova placa de identificação. Procurou pelo responsável para verificar a necessidade de algum material faltante. Este lhe informou que adquiria os materiais e os incluiria no valor final do serviço, junto com os comprovantes. Adiantou os valores e Manoel considerou que não havia exagero. Já previra a ororrência dessa situação. O automóvel estava a sua espera e para matar a vontade, deu um longo passeio com Eduarda por diversos bairros. Pararam em um restaurante para almoçar e depois foram ao cinema.
 
Ao sairem da sessão da tarde, anoitecia e foram até a casa da moça. Jantou ali, contando as novidades encontradas em Portugal. O novo governo estava se empenhando em melhorar as condições gerais da economia, o que se refletia na evolução positiva da qualidade de vida da população. O objetivo dos novos governantes era inserir o país no Mercado Comum Europeu. Isso facilitaria uma porção de coisas. Havia porém alguns requisitos a serem preenchidos para ser aceito nessa organização. Tanto a Espanha como Portugal estavam nessa busca. Era possível que o ingress na comunidade aconteceria quase simultaneamente. Eram por assim dizer o mesmo território.
 
Ao ir levara fotografias de seu carro, da namorada e também do estabelecimento adquirido. Haviam ficado com a mãe e os irmãos. De lá trouxera uma porção de rolos de filme para revelar aqui. Teria o que mostrar da terra natal. O interessante era que, mesmo tendo nascido lá, sentire-se estrangeiro ao chegar. Havia se abrasileirado de tal modo que até seu sotaque característico havia se modificado sensivelmente. Era agora quase imperceptível. Sua mãe percebera a diferença tão logo lhe pusera os olhos ao chegar. No final estava novamente falando igual aos familiares, coisa que demoraria poucos dias e teria perdido novamente.
 
Aproveitou e pediu naquele dia mesmo a mão de Eduarda ao pai, Isidoro. Fez o pedido sem delongas, prometendo levar a moça no dia seguinte a uma joalheria para comprar as alianças e um anel de noivado condizente. Ela ficou encantada com o pedido e aceitou prontamente. O pai não se opôs por ver que a filha estaria em boa companhia, apesar de o noivo já ter alguma idade. O que importante era se amarem e terem garantidas as condições de uma vida material minima para não sofrerem privações. Ele mesmo trabalhara a vida inteira e teria ainda alguns anos pela frente para se aposentar. Nunca tivera sobras, mas também não faltara o suficiente para alimentar, vestir e educar os filhos.
 
A mãe sempre trabalhara, ficando inativa somente nos períodos de gestação avançada. Mesmo com os filhos pequenos, deixara-os aos cuidados da avó e retomara o trabalho em uma pequena indústria. Em mais algum tempo poderia também se aposentar, de forma que teriam uma velhice sem grandes sobressaltos. Bastaria que não os atingisse nenhuma doença grave e poderiam aproveitar os anos da velhice para gozar um pouco a vida. Isso era algo bem próximo de um ideal, nem sempre ao alcance de todas as pessoas. Para comemorar o fato de a filha caçula ser pedida em casamento, foi aberta uma garrafa de vinho. Era produção brasileira, mas de boa qualidade.
 
Eduarda perguntou se haveria quem prepararia as refeições no estabelecimento ao ser reaberto. Manoel falou que havia mantido contato com uma senhora para ocupar essa vaga, mas que poderia dispensar seus serviços se ela assim o desejasse. Ela lhe disse:
– Pensei em trabalhar junto com ela para aprender mais sobre cozinha. Depois eu assumiria o comando, quando nos casassemos.
– Tu sabes que nem havia pensado nisso. Mas é um excelente arranjá. Melhor não poderia ser, minhã querida.
– Vou pedir para sair da loja. Estou mesmo cansada de atender aqueles fregueses nada gentís que aparecem.
– Acho que freguêses chatos vamos ter também no restaurante/bar. Mas tu vais ficar na cozinha e não terás contato tão direto com os mesmos.
– Sempre gostei de cozinhar e vou me sentir melhor nesse trabalho que vendendo sapatos a filhinhos de papai, metidos a besta.
– Acho que esses não irão aparecer no nosso estabelecimento. Ali a maioria é trabalhador que mora na região e alguns amigos que vou chamar para a inauguração. Assim eles se encarregam de fazer propaganda.
– Tu não vais te arrepender das mesas de sinuca e pebolim? O pessoal começa a beber e pode se tornar inconveniente.
– Deixa comigo e com o Francisco. Ele sabe lidar com esse povo. Está no ramo faz muito tempo. Vai ser importante como auxiliar.
– Sorte ele ter ficado para trabalhar contigo.
– Eu não iria deixar ele sair. Fiz questão de pagar seu salário pelas férias que está tirando para garantir que fique comigo.
 
Era hora de voltar para seu lugar de hospedagem. Poderia providenciar nos próximos dias uma cama, colchão e guarda roupa para poder se mudar. Tinha agora onde morar, não precisaria mais pagar hospedagem. Em poucos dias inauguraria o estabelecimento e teria onde fazer as refeições. Planejava fazer a inauguração por ocasião do feriado de sete de setembro, data da independência. Haveria um clima festivo para receber os clientes no retorno. As comemorações se restringiriam ao primeiro dia, depois começariam a pagar por tudo que fosse consumido. Não era nenhum perdulário capaz de rasgar dinheiro. Queria dar as boas vindas aos antigos e novos fregueses, nada mais.
 
Ninguém vai para frente em um negócio, pondo-se a distribuir presentes, comida e bebida de graça. Estava jogando uma isca, para depois puxar o anzol e fisgar todos eles. Que eles fossem, além de fregueses, seus amigos, não havia problema nenhum. Apenas não iria misturar negócios com amizade. Faria valer o ditato: Amigos, amigos! Negócios a parte.
 
Com a aproximação da inauguração começou a receber perguntas do tipo:
– Quando vamos poder nos divertir no seu estabelecimento, Manoel?
– Estou louco para jogar umas partidas de sinuca aqui perto de casa. Não vou mais ter que andar longe para isso.
– Vou inaugurar no dia sete de setembro, na hora depois do almoço. Vou aproveitar para ter mais gente aqui, pois no dia seguinte é sábado e domingo. Assim posso ter três dias de bom movimento.
– Bem esparto você, Manoel. Estou torcendo para que o dia sete chegue depressa.
– Calma que ele chegá logo. Ainda preciso terminar algumas coisas.

 

 
Seguiam seu caminho e ele trabalhava na arrumação de tudo para o dia sete. Havia instalado sua residência no andar superior e estranhava o enorme espaço vazio. Ficou preocupado com a situação, pois a vida toda vivere sempre próximo de uma porção de gente. Houvera ocasião em que dividira o mesmo quarto com colegas nas pensões em que ficara hospedado. Precisava se acostumar à solidão. Em alguns meses estaria casando com Eduarda e iria dividir aquele espaço com ela. Aproveitaria a presença dela na cozinha para decidirem sobre as reformas e móbilia para o espaço que seria o lar deles. Esperava ter vários filhos, se Deus lhe concedesse essa alegria. Apenas lamentava não ter tido tempo de dar essa alegria à mãe.
 
O tempo correu célere e logo estava na véspera da inauguração. Todas as providências haviam sido tomadas. O estoque de bebidas, os ingredientes para a preparação dos salgados e comida estavam armazenados no depósito, ou na geladeira. Dormiu um sono agitado naquela noite, sonhando que havia esquecido alguma coisa imperdoável e se recriminava. Ao acordar percebia que tudo não passava de sonho. Na dúvida chegou a descer para conferir se estava tudo em ordem. Constatou pela enésima vez que nada faltava. Voltou para cama e dormiu. Algum tempo depois novamente o sonho do esquecimento, agora de um outro ítem. Acordou e percebeu que havia tido novo sonho. Esteve a ponto de voltar para conferir tudo novamente, mas desistiu. Estaria cansado ao extreme logo no dia da inauguração.
Máquina de fliperama.

 

Máquina de fliperama.
 
Receber os fregueses com festa, mas a fisionomia cansada e aparentando um estado de ânimo incompatível com o clima, não condizia com o que esperava que fosse. Decidiu tomar um copo de água com açúcar e dormir. Dessa vez conseguiu e dormiu até ser acordado pela campainha da porta de entrada. Era a cozinheira, Francisco e logo se juntou a eles Eduarda. Desceu rapidamente depois de se vestir, mesmo antes de lavar o rosto. Daria uma desculpa e depois tornaria a subir para terminar sua preparação matinal. Em minutos os três assumiram seus lugares e começaram a trabalhar. Havia uma porção de coisas a providenciar antes que chegasse a hora de abrir.
 
Fizeram sem demora um bule de café bem forte e aqueceram também leite. Eduarda foi até uma padaria nas proximidades e comprou alguns pães para acompanhar. Assim ao descer o aroma do café recém coado veio ao encontro de Manoel. Era isso mesmo que estava precisando para terminar de acordar, depois da noite mal dormida que tivera. Sentou-se e tomou uma xícara de café e passou manteiga em um pão, pondo-se a comer incontinenti. Francisco por sua vez estava arrumando as mesas, limpando tudo com esmero. Queria que tudo estivesse impecável no momento de abrir o estabelecimento. Manoel observou o vai vem do empregado e se congratulou pela ideia de mantê-lo a qualquer custo. Não saberia o que seria dele sem sua ajuda, pelo menos nos primeiros tempos. Era uma atividade completamente diferente em sua vida.
 
Ao terminar, perguntou à dona Arminda e Eduarda se havia alguma coisa faltando na cozinha e foi informado de que estava tudo perfeito. Se constatassem alguma coisa em falta, daria tempo de avisá-lo para providenciar. Deu um beijo na noiva, depois foi se juntar à Francisco no serviço de limpeza e arrumação do salão de jogos e refeições. Conferiu as bebidas colocadas no refrigerador para gelar. Seria imperdoável faltar cerveja gelada, gêlo para uma caipirinha, um uísque ou qualquer outro destilado que algum freguês decidisse pedir.
 
Depois de revisar tudo, com ajuda de Francisco que era mais experiente no assunto, sentou-se por um momento e olhou para as mesas, do restaurante, caminhou depois até a entrada do salão de jogos. Ali correu o olhar por sobre as mesas de sinuca, o pebolim, a um canto uma máquina de fliperama. Testou o funcionamento, colocando uma ficha na ranhura destinada a isso. Realizou uma jogada, coisa que fazia pela primeira vez e viu a bolinha ser lançada na região superior, tocar nos diversos sensores, produzindo um ruido característico. Enquanto a bolinha era lançada de um sensor contra o outro e ameaçava chegar à base, onde seria sua função usar os controles existentes na lateral para impedir a passagem. Se conseguisse lançar a bolinha de retorno à região superior, ela poderia repetir o processo, enquanto os pontos seriam acumulados no visor.
 
Na primeira tentativa conseguiu leva-la até uma lateral, de onde ela foi lançada para um ponto mais acima e dali retornou como um risco para a base. Tentou em vão evitar a passagem. Ela vinha com muita velocidade e foi cair no local apropriado. Dali seria transportada ao reiniciar o jogo colocando nova ficha. Tinha ao todo cinco bolinhas. Gastara por enquanto apenas a primeira e acabou se entretendo por alguns minutos até concluir que conseguira, para uma primeira tentativa, acumular uma soma de pontos considerável. Deixou a máquina e foi conferir as mesas de sinuca. As bolas estavam em seus lugares, os tacos colocados nos suportes e giz disponível em quantidade suficiente para muitas partidas que provavelmente seria jogadas ali, dentro de algumas horas.
 
O preço por partida no dia da inauguração estava pela metade do preço, para cativar os fregueses. Um antigo fregues lhe falara que estava tratando de organizar um campeonato e queria saber se Manoel lhe daria apoio na iniciativa. Ele concordara, apenas queria saber o que isso implicaria em seus compromissos financeiros. Precisaria apenas adquirir os troféus para os vencedores, segundos e terceiros colocados. Ele passara em uma loja especializada, fazendo um levantamento para saber quanto isso iria lhe custar. Observou que, se a quantidade de partidas jogadas alcançasse determinado número, poderia arcar com a despesa adicional, sem haver prejuízo. Havia que levar em consideração também o consume de bebidas.
 
Era hora de almoçarem para estarem prontos no momento de abrir. Isso ocorreria exatamente às 14 horas. Uma dupla de tocador de violão e sanfona haviam sido contratados para animar o ambiente nesse primeiro dia. Eles haviam chegado pouco antes e estavam a postos, os instrumentos afinados e em condições de uso. Também foram convidados a almoçar e eles não recusaram. Sabiam que depois teriam uma tarde inteira para tocar e alegrar os fregueses de Manoel. Em toda redondeza não se falava nada além da inauguração do bar/restaurante reformado. Do lado de for a começou a se formar uma aglomeração, uns conversando com os outros, olhando para os relógios à espera domomento de serem abertas as portas.
 
     Manoel não seria condescendente. Faria como prometido. Abriria exatamente no momento em que o relógio estivesse indicando 14 horas, do dia sete de setembro de 1983. Era algo que seria uma característica de seu estabelecimento a pontualidade no abrir. Não poderia garantir nada sobre a hora de fechar, pois dependeria da disposição dos freguêses em jogar e gastar seu dinheiro. Ele não seria bobo em dispensar alguém disposto a deixar seu dinheiro em sua caixa registradora. Esperava apenas que lhe deixassem algum tempo para dormir, pois precisaria estar em pé no dia seguinte pela manhã. A sorte era o ajudante Francisco que poderia ir dormir mais cedo e vir em seu auxílio pela manhã.
 

 

Para mais imagens de aeroportos, mesas de sinuca e máquinas de Fliperama, basta digitar o nome no google. Pode-se escolher os sites.
 
 
 

Um japonês especialista em cachaça – Capítulo VIII

Desfile japonês em São Paulo, bairro Liberdade.

 

Comércio de rua na Liberdade.

 

Imigrantes japoneses viajando de trem.

 

Imigrantes no abrigo de imigração em São Paulo.

 

Hospedagem no abrigo.

 

Kasato Maru, atracado no porto de Santos.

 

Cartaz de propaganda japonesa emigração.

 

8. Eis nosso
 
 japonês.
 
 
            O Brasil, desde as últimas décadas do segundo império, sofria com a falta de mão de obra para o trabalho na agricultura. Acordos internacionais restringiram a vinda de escravos da África e aqui leis restritivas como: A Lei dos Sexagenários, Lei do ventre livre, diminuiam a força de trabalho. Por outro lado a necessidade de expansão da produção exigia mais braços para o trabalho. O recurso foi estimular a imigração. Os europeus eram estimulados a virem ocupar o espaço livre, especialmente italianos, alemães, poloneses e outros. Existia uma restrição com relação aos asiáticos, por serem considerados pelos ocidentais como uma raça inferior e com religião totalmente diversa.
            O Japão abriu-se para o comércio mundial depois de 1846, com o término do Xogunato Tokugawa. Foram 265 anos de isolamento, terminando com uma agricultura limitada a produzir apenas o suficiente para o consumo, sem permitir a formação de estoques para enfrentar catástrofes. Iniciou-se uma rápida mecanização da agricultura, provocando o desemprego ou endividamento rual. Os proprietários insolventes perdiam suas terras para os credores. Isso gerou um aumento na população urbana, onde não existia emprego para tantos braços.  A solução era negociar com países com território capaz de acolher o excedente populacional.
            Houve o início de negociações com o Brasil nos anos 60/70, porém somente em 1895 foi assinado um acordo nesse sentido. Houve inclusive a lei nº 528 de 1890, assinada por Floriano Peixoto, proibindo a imigração de asiáticos. Um decreto sob o número 97, posterior, tornou essa lei sem efeito. O primeiro embarque foi suspenso na véspera, devido à queda internacional nos preços do café, motivada por uma superssafra ocorrida naqueles anos. Situação essa que persistiu até 1906. Em 1907 um pequeno grupo formado por profissionais liberais como juizes, advogados e outros, estabeleceu-se em território do Estado do Rio de Janeiro. A inexperiência, falta de apoio e aparente esgotamento do solo, levou o projeto ao fracasso.
Imigrantes desembarcando em Santos.

 

Passageiros do Kasato Maru no porto de Santos (desembarque)
 
            Em 1908 o navio Kosato Maru, desembarcou 781 imigrantes no porto de Santos. Era o primeiro contingente significativo de trabalhadores vindos do oriente. Seguiram-se outros grupos até 1914, quando ocorreu uma interrupção até 1917, quando terminou a Primeira Guerra Mundial. Nesse período, especialmente nas décadas de 20/30 ingressou no Brasil um enorme contingente de imigrantes japoneses. Muitos deles vinham pensando em fazer fortura e voltar para o Japão. Por isso sequer se preocuparam em aprender o idioma.
            As dificuldades de adaptação ao clima, remuneração reduzida e o trabalho pesado, levaram muitas famílias a abandoner o campo nos primeiros anos. Já um bom grupo conseguiu estabelecer com os proprietários parcerias que ao final de um período de sete anos lhes dava direito a um pequeno pedaço de terra, além de serem donos de tudo que produzissem além do café que tinham que formar. Sendo a primeira safra de sua propriedade. Assim, após alguns anos, começou a existir em todo interior um considerável grupo de pequenos proprietários de terras.
 
Familia de imigrantes cultivando sua terra.

 

Imigrantes peneirando café.

 

Imigrantes derrubando mato.

 

Imigrangtes capinando cafezal.
 
            Era de esperar que os donos não iriam entregar a eles as melhores terras, destinadas às seus cafezais. A vantagem dos agricultores japoneses era serem acostumados a trabalhar em locais difíceis. O território de sua patria é em grande parte acidentado, com pouco solo fértil e em grande parte de difícile cultivo. Assim, optaram por plantar bananas, abacaxi, arroz e outras culturas, que ofereciam retorno em menos tempo que o café.
            Hiromoto Sakaguti, casado com Sakira Kumabe, Hiroji Fujita, casado com Kisoku Yamashita, estavam entre esses. Junto com os filhos que nasceram depois de virem trabalhar aqui, trabalharam por mais algum tempo para os patrões no café, enquanto faziam suas lavouras de subsistência. Logo perceberam a carência de hortaliças no mercado da capital paulista. Culturas essas de ciclo curto, com retorno em tempo curtíssimo, além de exigirem pequenas áreas. Dessa forma tinham, em pouco tempo, uma considerável quantidade de produtos para colocar no mercado. A dificuldade maior era a intermediação dos grandes atacadistas.
            Um grande contingente de imigrantes que haviam deixado os cafezais, estava instalada na região do bairro da Liberdade, até hoje reduto da população de descendência nipônica. O filho caçula de Hiromoto, Kenji, casou-se com Kimiko Fujita, filha do casal amigo vindo no mesmo navio para o Brasil. Desde muito havia demonstrado pouco interesse em cultivar a terra, menos ainda trabalhar para os fazendeiros de café. Procurou no bairro japonês da capital e ali estabeleceu uma pequena mercearia. Isso no ano de 1937. Com um caminhão ford usado, trazia do interior as hortaliças, bananas, abacaxis e outros produtos. Em pouco tempo o movimento de seu estabelecimento cresceu sensivelmente.
            Numa de suas passagens pelo Mercado Municipal, travou conhecimento com alguns comerciantes nipônicos ali estabelecidos. Lembrou de lhes oferecer a possibilidade de fornecer os produtos que trazia do interior. Poderia oferecer um preço mais acessível do que eles pagavam aos atacadistas além de remunerar melhor os produtores. A possibilidade de obter produtos melhores e com preço mais acessível, além da voz do sangue, estabeleceu o relacionamento quase que imediatamente. Em poucos dias estava empenhado em viajar constantemente para o interior para buscar produtos. Seu veículo era pequeno e trazia uma pequena quantidade de cada vez.
 
Comércio japonês em São Paulo(Liberdade)

 

Liberdade hoje.
 
            Logo conseguiu economizar algum dinheiro e negociou um veículo de maior capacidade, além de ser mais novo. Trazia a dupla vantagem de transportar mais e as panes eram menos frequentes, aumentando sua capacidade de atendimento. A concorrência com os grandes atacadistas gerou alguns atritos, mas um advogado residente nas vizinhanças o ajudou a remover os obstáculos. Dessa forma o crescimento da mercearia foi uma consequência imediata, tornando-se em pouco tempo um estabelecimento de maiores proporções. Um dos principais fornecedores de alimentos à população do bairro da Liberdade.
            O português aprendido na escola e a convivência diária na capital, ajudaram-no a dominar suficientemente o idioma. Tinha desde criança propensão aos números, auxiliando-o a fazer o controle de seus negócios, gerenciar os preços e lucros. Os filhos Toshiro, Hideki e Nagori frequentaram a escola pública e mais tarde ingressaram em escolas pagas pelos pais. Dessa forma alcançaram condições de ingressar na universidade. Caminho seguido por todos. Toshiro cursou química, Hideki formou-se em Biologia e Nagori completou o curso de direito.
            Toshiro ingressou em uma empresa de produtos químicos para agricultura. Sua área de atuação era o nordeste e dessa forma passava a maior parte do tempo viajando pelo interior nordestino. Ali não havia muito que fazer com produtos químicos, devido à precariedade do clima. Os moradores dali tinham grandes dificuldades de obterem o suficiente para alimentar suas famílias. Dessa forma as vendas que conseguia realizar restringiam-se às regiões metropolitanas, além de alguns poucos fazendeiros que haviam conseguido implantar sistemas de irrigação.
            Desde criança tivera facilidade em gravar os sabores de alimentos e bebidas. Conhecera diversas variedades de saquê, produzido no interior paulista por alguns agricultores, em pequenos alambiques. Aprendera a degustar e identificar as características de sabor, textura, envelhecimento das bebidas. Em suas andanças pelo nordeste teve oportunidade de experimentar diversas variedades de cachaça. Algumas apreciadas em grandes regiões, outras de alcance local. Sua memória prodigiosa registrara o sabor e o nome, bem como o tempo de envelhecimento de cada uma.
            Um sucesso considerável, apesar das dificuldades regionais, levou a indústria a trazê-lo para estados sulinos, onde percorreu o interior do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul. Depois foi a vez de trabalhar em São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais. Ao longo de mais de 20 anos percorreu estradas do interior, enfrentando toda sorte de dificuldades, poeira, calor, frio, chuva e outros obstáculos. Sempre tinha um sorriso no rosto e onde chegava não tardava em conquistar admiradores. Alguns o chamavam de japonês sorridente.
Quando foi trazido para uma posição de chefia na capital, havia percorrido um equivalente a muitas voltas ao redor do globo terrestre. Veio concluir sua vida de trabalho na sede da indústria, onde usou de sua vasta experiência no campo, em todos os estados do país, para dirigir a equipe de trabalho, visando atender as características regionais. Não era possível ter a mesma política de preços, quantidades de produtos para os diferentes estados. Cada região tinha necessidades diferentes. Os parasitas não eram os mesmos, as carências minerais e doenças eram outras. Isso exigia medicamentos diferentes, suplementos diversos. Sem contar com a variedade de raças animais com características próprias.
Dessa forma a empresa conseguiu uma maior penetração no mercado em expansão. Viajou algumas vezes para regiões de expansão recente da agricultura e pecuária, indo verificar pessoalmente as condições locais, para depois sentar com a equipe de planejamento e traçar as diretrizes a serem aplicadas.
Enquanto isso acontecia, Manoel continuou em sua trajetória de trabalho e economia. Sua incursão no campo do mercado de ações tiveram algum sucesso e ele diversificou suas aplicações. O crescimento intense da Petrobrás e do Banco do Brasil, além de outras empresas de destaque, permitiu a formação de um pecúlio considerável. Em 1976 recebeu de Ancede a comunicação do falecimento do pai. Ao receber a notícia, o sepultamento havia ocorrido algumas horas antes, não permitindo sequer a tentative de viajar para o funeral. Projetou ma visita à família para o ano seguinte, no período de suas férias. Em meados de 1977 viajou para Portugal, onde há três anos havia sido deposto o regime do successor de Salazar e começava a reinar um clima de otimismo. Passou os dias com sua mãe, já idosa e doente.
Verificou que a família no todo estava em boas condições e poderiam se manter adequadamente. Não era necessário enviar ajuda, mas também não dispunham de condições para lhe fornecer nenhum auxílio. Sua vida dependia de suas próprias forças. Ao contar à mãe o montante de suas economias, ela ficou admirada. Nenhum de seus irmãos conseguira reunir nada parecido. Mesmo assim aconselhou-lhe a seguir assim e procurar uma mulher para se casar. Já estava na casa dos 40 anos e deveria constituir sua família, para não ser pain a idade de ser avô. Ele prometeu pensar no assunto.  
Junto com suas economias, sabia que era participante do programa de Fundo de Garantia desde sua criação e mais recentemente do PIS. Quando se aposentasse poderia usar esses fundos para adquirir imóveis, montar seu próprio negócio ou viver de rendas se soubesse aplicar de maneira adequada no mercado financeiro. Isso era projeto para dali a uns quinze anos. Antes, se quisesse se aposentar, poderia fazê-lo mas perderia uma parcela significativa de seu rendimento inicial, devido à proporcionalidade.
A vantagem do FGTS era que o saldo poderia ser usado em qualquer época na aquisição de imóveis residenciais. Estava ficando cansado de viver, há muitos anos em pensões e pousadas. Mudara várias vezes, fizera uma experiência de morar em forma de república junto com outros colegas solteiros. Isso se mostrare também um problema. Havia sempre quem gostasse de levar vantagem sobre os companheiros. Em 1980, ocorreu a eleição de João Batista Figueiredo em substituição a Ernesto Geisel para ocupar a presidência da República, pelo colégio eleitoral. Eleição da qual o povo não participava. A eleição era indireta. O congresso nacional, maioria da ARENA, votava maciçamente no candidato oficial das forças armadas. O candidato do MDB era mero coadjuvante, para legitimar o processo como democrático. Estava longe disso na verdade.
Nessa época começou o movimento operário pela renovação política. O embrião do partido representative dos trabalhadores nasceu, vindo posteriormente a ser consolidado na forma do PT. Figueiredo implantou a “abertura política” na forma de uma gradual liberalização do regime, resultando no movimento das “Diretas Já”. Com isso ocorreu em 1985 a eleição de Tancredo Neves e José Sarney para presidente e vice respectivamente. Em todos esses momentos Manoel se manteve atento, mas nunca se envolveu diretamente nas manifestações. Em 1983, ocorreu uma explosão de uma caldeira em local próximo ao de trabalho dele.
O impacto derrubou a parede e parte do teto, ficando vários dos companheiros de trabalho presos sob os escombros. Depois de um trabalho árduo dos bombeiros, conseguiram resgatar todos com vida, sendo que apenas um estava em estado crítico. Sofrera traumatismo craniano e corria risco de vida. Depois de socorrido, Manoel foi levado para o Hospital da Beneficiência Portuguesa, onde foi submetido a uma série de exames. Constatou-se que não sofrera nenhum problema na cabeça, torax ou coluna. Apenas o pé esquerdo fora parcialmente esmagado por um pedaço de concreto que o atingira. Além disso o dedo inficador da mão direita for a decepado, deixando os demais ilesos. Tinha algumas outras escoriações, porém nada de sério.
Após algumas tentativas de salvar o pé, os medicos lhe comunicaram que seria necessária a amaputação dos dedos e uma parte do pé. Ficaria em condições de caminhar, embora com alguma dificuldade. No primeiro momento ficou abalado, mas vendo o estado de outros que precisavam amputar um braço, uma perna, consolou-se. Fora beneficiado pela providência divina e sua lesão era de menor monta, perto de outros deitados em leitos ao seu lado. O pé foi amputado e uma semana depois recebeu alta. Foi preciso usar um par de muletas por alguns dias, depois apenas uma e finalmente conseguia caminhar, claudicando levemente.
Durante seu período de internamento os funcionários da empresa haviam feito visitas frequentes para verificar sua situação. Era lamentável o ocorrido e estavam a disposição para qualquer necessidade. Manoel comunicou o fato à família só depois de já estar recuperado. A mutilação do pé permitiria que ele continuasse trabalhando, porém a falta do dedo iria dificultar suas ações profissionais. Dessa forma o advogado que o procurou logo depois da alta lhe informou que poderia se aposentar por invalidez. A mutilação acidental lhe permitiria aposentar-se sem perder nada em seus vencimentos. Poderia sacar seu fundo de garantia, o saldo do PIS além de receber uma indenização considerável.
Embora isso lhe sugerisse que o plano que fizera para dali a dez ou mais anos, poderia ser realizado imediatamente. De certo modo a mutilação sofrida o beneficiara. Mesmo assim teria preferido seu corpo inteiro e continuar a trabalhar. Gostava do que fazia. Cada peça terminada era como um filho colocado no mundo da mecânica. Não raro se via imaginando os lugares diversos em que estariam todas as peças que haviam saído prontas de suas mãos ao longo dos anos. Tentava imaginar a montanha de aço que seria possível formar com todas as suas peças produzidas.
Fazia uma ligeira conta do número médio diário e os dias de cada semana, era possível fazer uma estimativa do total que havia usinado em todos esses anos. Era possível haver coisas em que pusera a mão em todos os cantos do país e até mesmo no exterior para onde haviam sido exportados veículos. Preferiu se concentrar no presente. Precisou se acostumar a escrever em o dedo indicador o que levou algum tempo. A letra saia um pouco irregular na primeira carta que se animou a escrever. Endereçou-a ao irmão, pois sabia do estadode saúde debilitado da mãe. Se ela recebesse a notícia assim diretamente, poderia inclusive sofrer de um acidente vascular, ou cardíaco, levando-a a morte. Se ocorresse sua aposentadoria, antes de se estabelecer com algum negócio em definitive, faria uma visita à família. Estivera há algum tempo flertando com uma jovem, filha de um patrício. Talvez fosse o caso de levar isso mais a sério e talvez casar-se com ela.
Primeiro esperaria o desenrolar dos fatos. Enquanto esperava o processo de aposentadoria encaminhado pela própria empresa, encontrou-se com a jovem Eduarda de Almeida. Tentou seconder sua mutilação mas não teve êxito. Ela logo percebeu e, em lugar de o rejeitar por causa disso, se compadeceu de sua condição. Começaram a namorar e ela o apressentou aos pais. O fato de estar em vias de se aposentar era favorável, pois a moça era filha única. Os pais gostariam que ela ficasse morando nas imediações em que residiam. Manoel deixou tudo em suspenso, esperando pelo desfecho do seu processo.  
            Qualquer decisão mais importante seria tomada depois disso definido. Passou o tempo reaprendendo a pedalar, agora com o pé esquerdo faltando uma parte, exercitou bastante o corpo. Ingressou em uma auto-escola para ver se poderia tirar a carta de motorista, mesmo depois da mutilação sofrida. Com um pouco de esforço achava que seria possível. No começo sentiu dificuldade por ter a tendência de usar a ponta do pé, agora inexistente, para acionar o pedal da embreagem. Aos poucos acostumou-se a usar mais a parte posterior, próxima do calcanhar. Nos calçados enchia a ponta com jornal, de modo a disfarçar a lesão. Quem o visse caminhando, apenas claudicando um pouco, dizia que tinha algum problema de quadril ou mesmo de joelho.
            Depois de algum tempo, poucos dias antes de fazer a perícia para deferir ou não sua aposentadoria, realizou com êxito o exame de motorista e menos de uma semana depois recebia em seu endereço o documento que o habilitava a dirigir veículos automotores pequenos. Não poderia dirigir caminhões ou ônibus. Poderia mudar de categoria depois de permanecer na inicial durante cinco anos. Não tinha essa pretensão. Um automóvel ou caminhonete era mais que suficiente para ele. Com certeza não nutria o desejo de sair pelas estradas do país ao volante de um caminhão de cargas.
            Quando se submeteu à perícia, tinha em mãos o atestado médico indicando as lesões sofridas e em poucos minutos estava aprovado seu processo. Poderia esperar pela correspondência que lhe levaria o resultado final e a agência bancária para poder receber seus vencimentos. Também havia sido avaliado o dano sofrido e estabelecida a indenização correspondente. Levou um leve susto quando soube que receberia pela parte do pé e o dedo decepado o valor equivalente a 150 vezes o seu salário no momento do acidente. Isso significaria um montante bem além de tudo que conseguira economizar até o presente momento, mesmo com seus investimentos na bolsa de valores, onde nunca deixara de ter algum lucro, mesmo nos momentos mais críticos. Não perdere dinheiro, quando muita gente amargava sérios prejuízos em diversas ocasiões. Isso era um fato importante.
            Decidida a questão de sua aposentadoria, procurou uma agência de automóveis. Olhou bem os novos, experimentou pois agora era motorista habilitado e podia testar o que tinha intenção de comprar. Também foi aos revendedores de usados, com um ou dois anos de uso. Comparando a diferença de preço e as possíveis despesas de manutenção com os usados, chegou à conclusão de que era mais vantajoso adquirir um novo. Verificou seu saldo na CEF e constatou que poderia comprar vários automóveis e ainda sobraria um bom dinheiro. Decidiu-se pela comprá de um da marca Chevrolet, modelo Opala, quatro cilindros e duas portas. Ficou indeciso com a cor e por fim optou por um de cor bege. O branco era muito suscetível à sujeira, aparecendo qualquer coisa que houvesse.
            Havia feito uma transferência da conta poupança para a conta corrente e pagou com um cheque. Na própria agência fez contato com um despachante para encaminhar o emplacamento, bem como um seguro total, para se precaver contra roubos e eventuais acidentes. Feito isso, saiu passeando alegremente com seu automóvel. Parou diante de um estúdio fotográfico e pediu ao profissional para tirar diversas poses com ele ao lado do carro, sentado ao volante, embarcando e desembarcando. Feito isso ficou satisfeito e continuous. Foi fazer uma visita à dona Marinês, agora idosa e tendo posto a pensão aos cuidados de uma neta. Ficou contente ao ver o antigo inquilino. Lamentou o fato de ter sofrido o acidente, mas se alegrou com sua aposentadoria a significativa indenização que iria receber.
            Levou a velha senhora a dar uma volta em seu carro, depois a deixou novamente em casa. Voltou ao pensionato onde morava atualmente, depois passou na casa da namorada Eduarda para lhe mostrar sua aquisição. Levou a família para passear no final de semana em Santos. Procurou pelo antigo companheiro, mas ficou sabendo que o mesmo viera a falecer alguns meses antes. Deixara a esposa e três filhos já crescidos. Viviam e trabalhavam no mesmo estabelecimento, um pouco ampliado com que o amigo havia iniciado tantos anos antes. Hospedaram-se em um hotel de porte médio, passearam na praia, tomaram banho de mar e no domingo à noite retornaram a capital.
            Na segunda feira recebeu o aviso do dia em que seria depositado em sua conta bancária, bem como o dia em que seria depositado o montante da indenização. Pouco depois foi até a empresa se despedir dos antigos colegas, rever os funcionários administrativos com quem havia tido contato. Agradeceu pelo bom relacionamento que haviam lhe dispensado durante os longos anos de convivência. A partir de agora viveria uma vida diferente. Sabia que sentiria saudades das máquinas suas companheiras por tantos anos. Mais de uma vez haviam sido substituidas por outras mais modernas ao longo de sua vida profissional desenvolvida toda ali na mesma empresa. Eram praticamente vinte e cinco anos.

 

            Poderia começar a procurar uma casa para comprar, ou um negócio que estivesse à venda. Poderia ser uma mercearia, um bar, ou uma loja de aviamentos ou coisa semelhante. Tinha tempo para procurar. Não necessitava ter pressa. 
 
Barri da Liberdade nos dias de hoje.

 

Imigrantes cultivando batatas.

 

Família de imigrantes cultivando bananas.
 

Um japonês especialista em cachaça – Capítulo VII

 

Jornal do período pós renúncia de Janio Quadros.

 

7.  Trabalho 

duro, economizando.
Manoel começara a controlar seus gastos desde a chegada ao solo brasileiro. Mesmo nos momentos mais difíceis, evitava gastar além de um determinado valor. Uma parcela, por menor que fosse, era colocada mensalmente em uma conta bancária. Ao se demitir do porto levara uma boa economia para São Paulo, pensando em conseguir se manter, caso fosse necessário, por até um ano ou mais. O momento econômico do país, mesmo com algumas dificuldades em determinados setores, era favorável. A indústria crescia a taxas consideradas elevadas e ele era uma peça dentro dessa indústria. Terminou 1958 em plena atividade como metalúrgico. O saldo de sua conta poupança só fizera crescere durante o ano que demorara para concluir o curso que se propusera.
Com a bicicleta que compraro, passou a percorrer os quase 3 km da pousada até a indústria pedalando. Notou sem demora que isso ajudava a melhorar sua disposição durante o dia, além de economizar o custo das passagens de ônibus. Isso ajudava a reforçar o montante que economizava mensalmente. O salário também havia crescido sensívelmente e assim viu sua poupança crescer rapidamente. Impávido assistiu alguns amigos e colegas aventurar-se na comprá de um “Fusca”, carro agora produzido no Brasil pela Volkswagen. Era sem dúvida o veículo que rapidamente se tornou popular. Levava a vantagem de ser pequeno, econômico, manutenção baixa, além de um custo inicial de menor monta.
Sentiu o verme da cobiça roer suas entranhas, imaginando que poderia passear de carro, visitar outras cidades nos finais de semana e feriados, nas férias. Mesmo com o surgimento das facilidades de crédito para financiar, em até 24 meses, resistiu. Não era uma necessidade de primeira ordem. Haveria tempo para ter seu automóvel. Tinha seu projeto de vida estabelecido há anos e se manteria fiel a ele. Quando fosse dono de seu próprio negócio, teria como adquirir um carro, do tipo que quisesse e na hora que desejasse. Sua bicicleta por ora fazia o serviço principal e para as distâncias maiores havia os ônibus e trens à disposição.
Uma vez por mês passava um domingo na pensão de dona Marinês, revendo alguns hóspedes antigos que ali permaneciam, a própria dona. Passou a simpatizar com o time do Corintians e vez por outra assistia uma partida. Sempre escolhia um lugar sossegado para ficar e assistir sem se meter em confusão. À exceção da prisão no porto por ocasião da comissão de negociação, até o momento não se metera em confusão. Já estava há vários anos no país e cada vez sentia-se mais seguro. De Ancede vinham notícias de que seus irmãos haviam conseguido, mesmo com sacrifício, concluir seus estudos alcançando posições que lhes garantiam razoável nível de vida. Isso ajudada a deixá-lo despreocupado com relação ao sustento dos pais. Sempre indagava se havia alguma necessidade, pois poderia ajudar em caso de emergência.
Os anos passaram, Manoel fez no SENAI mais dois cursos. Um na área de estamparia e outro de usinagem fina. Este último lhe trouxe na própria empresa a mudança de nível, com o consequente aumento da remuneração. Conquistara algo importanto que ouvira um professor chamar de “empregabilidade”. Em situação de emergência, teria como habilitação para se candidatar a mais de um tipo de emprego, aumentando suas chances de não ficar desempregado no caso da ocorrência de qualquer anormalidade no atual.
Ao final de cada ano fazia o balanço de suas economias. Em deterrminado dia ouviu falar de gente aplicando dinheiro na bolsa de valores. Havia que falava maravilhas. Era fácil de ganhar dinheiro rapidamente, chegando a dobrar o capital no decurso de alguns meses. Sentiu-se tentado. A cautela o aconselhava a ir devagar. Perguntou a todos os conhecidos e as respostas foram as mais variadas. Desde quem desse total razão a quem louvasse o investimento em ações, até outros que falavam da possibilidade de perda do capital, ou boa parte dele. Sentiu vontade de saber detalhes sobre o funcionamento dessa forma de investir.
Comprou jornais e revistas de economia, lendo as páginas que tratavam do assunto. Em questão de um ano, pouco mais, estava completamente enfronhado no Sistema de funcionamento do mercado de ações. Eram na verdade papéis representativos do capital de empresas denominadas Sociedades Anônimas. Qualquer um que dispusesse de dinheiro para investir poderia comprar ações. O aumento da procura, devido ao crescimento de uma empresa, prometendo assim pagar polpudos dividendos, fazia o valor desses papéis crescer. Quem possuisse um determinado número de ações, compradas a preços mais baixos, vendendo-as, obtinha um lucro significativo.
Ficou sabendo que havia quem especulasse e até mesmo usasse de artifícios para provocar quedas, podendo assim comprar ações a preços menores. Depois com tudo voltando ao normal, seriamvendidas com um lucro significativo. Percebeu com facilidade que, quem não estivesse atento, poderia perder muito dinheiro. Começou a ouvir falar, leu a respeito de empresas especializadas em investimentos em ações. Mediante uma comissão sobre o valor aplicado, se encarregavam de gerenciar os investimentos de seus clientes. Imaginou como poderia confiar em uma empresa privada ao ponto de lhe entregar o dinheiro tão árduamente ganho e economizado. E se usassem de frauds para alegar que não houvera lucro e sim prejuizo? Seria preciso um estudo muito detalhado antes de embarcar nessa viagem. Ainda era cedo para pensar nisso.

Santinho de campanha de Jânio Quadros.  Seu símbolo a vassoura.


Em 1960 foi inaugurada a nova capital do país Brasília. As eleições apontaram Jânio Quadros como preferido dos eleitores para a presidência em substituição a Juscelino Kubitscheck, tendo como vice João Goulart, pertencente ao partido oposto PTB. O governo de Jânio durou pouco e ele renunciou no dia 25 de Agosto de 1961. Foram menos de seis meses de governo. Estabeleceu-se um clima de agitação no país inteiro, uma vez que as forças armadas se opunham à posse de João Goulart, vulgo Jango, tido como comunista. Por sinal estava em visita à China naqueles dias. Com a instauração do regime parlamentarista, aprovado às pressas no congresso nacional, Jango tomou posse. Seu primeiro ministro foi Rainieri Mazili.

O país desacostumado com o novo regime não conseguiu deslanchar. As oposições eram enormes, intrigas, perturbações diversas, por fim em começo de 1963 foi realizado um plebiscito em que o povo optou pelo retorno ao presidencialismo. Jango deixou de ser mera figura decorativa. No âmbito das empresas da nascente indústria nacional, ocorreram manifestações de reivindicações diversas. Benefícios adicionais, problemas de periculosidade, insalubridade e evidentemente reajustes salariais condizentes com a época, quando crassava o flagelo da inflação. Isso corroia o poder aquisitivo dos trabalhadores, impedindo a realização de uma poupança forte.

Primeiros atos do governo militar.
Mais um Ato Institucional editado


Nas frequentes assembléias realizadas no âmbito da indústria, em locais públicos por convocação dos sindicatos, Manoel se mantinha em posição de aparente neutralidade. Embora concordasse com os motivos das manifestações, trazia vivoss na mente os maus momentos que passara na prisão na cidade do Porto. Não tinha intenção alguma de passaar por nada semelhante. Os colegas o instavam a tornar-se membro da diretoria do sindicado e ele sempre declinava dos convites. Poderiam contar com ele em tudo, menos em manifestações envolvendo qualquer forma de violência, ou como integrante de mesa diretiva dos sindicatos. Aceitara em Santos participar da comissão de negociação e logo na primeira reunião fora parar na cadeia.
É certo que não ficou lá por muito tempo. Nem chegou a depor e já haviam sido liberados pela pressão dos colegas reunidos diante da delegacia de polícia. Na mesma época em que aqui ocorriam disturbios diversos, em Portugal, sua terra natal, também existiam movimentos quase que constantes, visando interromper o longo período salazarista. Vez ou outra tinha ocasião de ver algum programa de televisão, ainda incipiente. Nessas ocasiões era possível ver os oponentes do regime em ação, sendo presos, interrogados e colocados na prisão. Dava graças a Deus por não estar por lá, pois não saberia se teria o sangue frio suficiente para suportar. Rezava diariamente pela proteção de seus familiares.
Ele aqui tratava de se manter distante de confusão. Conseguira tornar sua situação de residente permanente no país e até cédula de identidade, título de eleitor havia tirado. Era agora um cidadão brasileiro como outros que aqui haviam nascido. Havia frequentes passeatas dos trabalhadores, mas pouco organizadas, por falta de uma direção central. Algumas tentativas de criar uma espécie de Central Sindical não dera em nada, apesar dos esforços de alguns batalhadores intrépidos. Em mais de uma ocasião Manoel sentiu vontade de se integrar nos movimentos sindicais. Somente a lembrança dos maus tratos sofridos em Portugal o mantinham em sua neutralidade.
No dia 31 de março de 1964, ocorreu um movimento dos militares, em reação a algumas decisões de Jango, levando esse a renunciar. Depois viajou para o Uruguai onde pediu asilo politico. Os generais comandantes formaram uma junta governamental, depois indicaram um presidente. Muitos integrantes dos partidos de esquerda acabaram se exilando em vários países, outros tiveram seus mandatos cassados, perderam os direitos politicos. A promessa inicial era por “ordem na casa” e devolver o poder aos civis. Na prática esse estado de coisas se estendeu por mais de vinte anos. Apenas em 1985 foi eleito um presidente civil, Tancredo Neves, tendo por vice José Sarney.
Voltando ao nosso personagem, notamos que, depois da tomada do poder pelos militares, ele se tornou ainda mais retraido no tocante a movimentos sindicais e manifestações públicas. Não esquecia que, apesar de ser agora cidadão brasileiro, não deixava de ter orígem portuguesa e isso poderia depor contra sua permanência no país. Continuava constantemente a fazer suas economias, procurou estudar a fundo o funcionamento do mercado de ações. Em dado momento, depois de o clima politico ter se acomodado a um nível aceitável, experimentou fazer um pequeno investimento no mercado. Procurou o gerente da Caixa Econômica e pediu orientações. Não tendo as informações, encaminhou o cliente ao departamento apropriado e lá ele pode estreiar sua atividade de acionista.
Para começar comprou um lote de ações da Petrobrás e outro do Banco do Brasil. Nada muito vultoso, mas eram os papéis que no momento estavam tendo maior procura. Isso ocorreu ao final de 1966. Quando começou o ano de 1967, ocorreu a publicação dos balanços e depois a distribuição de dividendos, além de bonificações na forma de novas ações, representando aumentos de capital. Com isso, a procura ficou menor que a oferta e os valores cairam, levando Manoel a ficar momentaneamente desesperado. Perdera em poucos dias praticamente 25% do seu capital. O gerente da Caixa o tranquilizou:
– Isso é consequência das novas ações postas no mercado. Logo elas voltamo a subir e você vai ver. Seu ganho vai dobrar em pouco tempo.

Forças de segurança em ação na rua.
Generais do começo do regime militar.


Com essa informação ele se tranquilizou e ficou acompanhando a evolução. Depois de uns dois meses percebeu uma lenta recuperação dos valores dos papéis. Mais investidores queriam comprar e o preço subiu. Foi bem além do valor em que estavam quando ocorrera a queda. Aos poucos Manoel aprendeu que nesse setor não se podia ter pressa. Investir em ações era para esperar ganhos a longo prazo. Quem quisesse resultados imediatos, tinha que investir suas economias em outrass aplicações. Por isso Manoel continuava a investir cada mês sua parcela na poupança. Quando tinha um excedente e o valor das ações estava mais baixo, adquiria mais alguns lotes. Assim, ao longo de quase dez anos, juntou um bom volume em títulos.
Havia constantemente mulheres interessadas em namorar Manoel. Ele manteve alguns breves relacionamentos, mas nada definitive. As jovens logo falavam em noivado e casamento. Nessa hora ele inventava um motive qualquer e tirava o time de campo. Ainda não tinha alcançado seu objetivo. Casaria apenas depois de se tornar senhor do próprio nariz, tivesse seu próprio negócio. Ao se tornar independente teria as condições necessárias para constituir família, ter filhos, antes não. Foi em 1968 que, durante uma manifestação do sindicato, ele estava participando, mas sem ultrapassar qualquer limite legal. Em dado momento porém, uma tropa de choque cortou o avanço dos manifestantes, cercando-os por todos os lados.
Um grande número de participantes foi levado para cadeia, entre eles Manoel. Durante algumas horas passou diante de seus olhos como um filme, aquele mês passado na cadeia há quase vinte anos. Estava completando 34 anos nessa época. Os detidos iam sendo chamados em grupos e interrogados. Aqueles que pudessem comprovar residência, emprego fixo e não tivessem anotações criminais em seu passado, seriam liberados. Enquanto isso a angústia corroeu o íntimo de Manoel. Quem poderia ser chamado, a quem avisar para tomar providências? Tinha os amigos, colegas, mas nem sabia onde eles estariam. Talvez também tivessem sido detidos, esperando a mesma sorte que ele.
A prisão ocorrera ao anoitecer e somenta às 3 da madrugada ele foi chamado. Tinha em seu poder a identidade de imigrante português, título de eleitor, Carteira de Trabalho e Previdência Social. Casualmente uma carta do irmão que recebera no dia anterior estava em seu bolso. Ali estava o endereço e poderiam verificar com o dono do estabelecimento onde se hospedava sua residência ali há quase dez anos. Na CTPS havia a anotação de seu trabalho, com tudo atualizado. Quando o interrogador o perscrutou, percebeu que ali estava um homem firme, porém amedrontado. Talvez tivesse em seu passado alguma coisa que lhe fizesse associar o ambiente policial com lembranças desagradáveis.
Iniciou-se um longo interrogatório. Apresentou todos os documentos, respondeu a todas as perguntas, verificaram sua ficha criminal e ao final de duas horas, não haviam conseguido associa-lo a nenhuma atividade fora da lei. Era um trabalhador honesto, apenas reclamando de melhores condições de salário, trabalho e outros benefícios. Isso não o tornava um criminoso. Mesmo assim, o intgerrogador, pensando que ele tinha algo no seu passado que conseguira seconder, retomou as mesmas perguntas, refez o mesmo interrogatório, apenas variando as formas. A tudo ele respondeu calmamente, embora sentisse um sour gelado escorre-lhe pelas costas. Pensava na hora de entrar no serviço. Até aquele dia não tivera uma única falta. Seria essa a primeira?
Faltando quinze minutos para as seis horas, finalmente foi liberado e pode pisar a calçada da rua em frente ao local. Respirou profundamente, acalmou o coração de batia descompassado, depois dirigiu-se a um ponto de ônibus. Conseguiu se informar sobre qual deveria tomar para chegar ao trabalho. Usaria o jaleco que estava no armário para não faltar. Antes de entrar, passou por uma padaria nas proximidades, pediu um café bem forte, um par de pães com manteiga, mortadela e queijo. Depois de comer, sentiu-se mais apto a enfrentar o dia de trabalho. Foi para a fábrica e depois que ocupou seu local de trabalho observou que vários colegas haviam faltado. Isso não era normal. Provavelmente estavam ainda as voltas com as autoridades.
Durante o dia, ouviu comentários diversos, relativos ao movimento do dia anterior. Soube que havia diversos colegas presos e seriamente complicados em consequência de ações violentas no decorrer da manifestação. Procurou saber apenas a situação em que eles estavam, em dizer que passara a noite na delegacia. Se não estivessem sabendo, não seria ele que iria contar. Ao ser detido estava inclusive caminhando para se retirar e voltar para a pousada. Não negaria se alguém o tivesse visto no grande grupo de pessoas levadas para a detenção, mas não iria se denunciar gratuitamente.
O chefe de equipe, ao final do expediente pediu um minute para lhes falar sobre o ocorrido na noite anterior. Comunicou oficialmente que ao todo dez funcionários da indústria estavam na detenção até o momento. Um advogado constituido pela empresa estava verificando a situação individual e a possibilidade de fornecer apoio jurídico para libertar os detidos. Era confortador saber que o empregador se preocupava com os trabalhadores ao ponto de fornecer amparo jurídico nessas situações. Imaginara que, se ficasse detido, teria que amargar sua situação, sem esperança de ajuda.

Voltou para seu quarto, tomou um banho prolongado, tentando remover o cheiro de delegacia que parecia estar impregnado em suas roupas. Esfregou a pele vigorosamente para não deixare qualquer vestígio das horas passadas na cadeia. Sabia que isso não ajudaria muito, pois o problema não estava em sua pele, nem em seu corpo, mas sim na mente. O trauma do passado insistia em atribular seu presente. Os companheiros de pousada, conhecidos há vários anos, perguntaram pelo seu paradeiro na noite anterior. Ele deu sorriso maroto dando a entender que fora se divertir. Não tinha importância que pensassem que ele estivera em um lugar de mulheres. Ser homem lhe permitia esses deslizes, sem ser cobrado por isso.

Manifestações de rua antes do golpe militar.
Manifestações de artistas contra censura.


Sentou-se para jantar, mas estava pensativo e novamente quiseram saber o que acontecia. Dessa vez foi preciso ser mais cuidadoso. Falou que estava preocupado com uma dor que sentia no ombro desde uns dias. Teria que procurar um médico para averiguar do que se tratava. Era uma mentira plausível e poderia usar uma visita rotineira ao médico da empresa para conseguir uma pomada qualquer e assim confirmar a história. Não demorou e estava na cama, dormindo. Queria recuperar as horas de sono perdidas na noite anterior. Dormiu mas seu sono foi agitado pelos fantasmas do passado. Via diante de seus olhos ora o interrogador da noite passada, ora voltava aos dias na prisão do Porto. Acordou suado e foi devagar até a sala de refeições onde tomou um copo de água. Voltou para cama e dessa vez dormiu mais serenamente.
Na manhã seguinte estava com o rosto recomposto. Bem cedo estava pedalando sua bicicleta até a fábrica. Ali encontrou dois dos colegas que haviam faltado no dia anterior e lhe contaram que só ao anoitecer haviam conseguido sair da detenção. Haviam sido surpreendidos num momento impróprio da manifestação. Sua atitude havia sido interpretada como hostil às tropas de segurança. Dessa forma fora preciso receber a ajuda do advogado da empresa. O pior de tudo é que havia ficada registrada sua detenção. Isso ficaria constando em sua ficha por muitos anos, se não para o resto da vida. Eles haviam visto que ele também tinha ido participar. Não for a detido?
– Escapei por pouco. Percebi a tropa vindo de longe e sai de fininho. Por isso consegui escapar dessa.
– Sorte sua. Esses caras não brincam. Houve gente que apanhou e está lá até hoje. Os caras do sindicato estão todos em cana até agora. Vão demorar alguns dias a sair.
– Por isso eu não quero saber de participar da diretoria. Me convidaram várias vezes, mas não quero saber.
– Temos que dar apoio a eles. Dão a cara ao tapa pela gente. É preciso pensar em algo para ajudar, – disse outro colega.
– Mas como a gente consegue ajudar?
– Não sei, mas vamos pensar em alguma coisa. Talvez indo até a sede do sindicato a gente consiga saber algo mais.
– Fica onde essa sede?
– Fica na capital. Eu moro perto. Vou ver se dá tempo de passar lá hoje depois do expediente.
– Isso João. Amanhã você conta pra gente o que podemos fazer.
– Eu não quero saber de cadeia. Sei que ali é complicado. Para entrar é fácil. Sair é que são elas.
– Você tem razão, colega. Precisamos ajudar nossos companheiros, sem nos expormos a algum risco.
Nisso o portão foi aberto e todos começaram a entrar apressados. Precisavam passar pelo relógio de ponto, depois vestir os uniformes e ir para o setor de seu trabalho. Sem esquecer uma passada rápida pelo banheiro. Não ir poderia significar a necessidade de deixare o local de trabalho antes da hora e isso refletia no desempenho da produção do dia. Caminharam rapidamente, deixando qualquer conversa para mais tarde, na hora do interval ou depois do almoço. Haveria então um período um pouco maior para trocar ideias.
Em poucos minutos as máquinas começaram a ronronar, produzir ruidos de metal sendo cortado pelas ferramentas, ou desgastado pelas lixas e polidores. O acabamento final era de extrema importância. Manoel estava há quase cinco anos no setor de usinagem fina. Seu objeto de trabalho eram os diversos tipos de engrenagens. Havia diferentes modelos e tamanhos. Cada máquina usava essas peças em tamanhos próprios. Havia a necessidade de todo cuidado para não esquecer os diferentes padrões, medidas e formas. Ele costumava ter um dos índices mais elevados de aproveitamento. Raríssimas vezes ocorria de uma de suas peças ser rejeitada no controle de qualidade. Isso lhe valera algumas gratificações e prêmios por eficiência.

Temera no dia anterior pelo seu rendimento. Tomara cuidado redobrado. Melhor ter uma ou duas peças a menos de produção ao final do dia, do que ter algumas refugadas. A produção um pouco menor era menos prejudicial do que a rejeição de peças defeituosas. Graças a Deus, não havia nenhuma informação de peças rejeitadas em seu escaninho, onde eram deixados os avisos que a empresa usava para comunicações com os empregados. Tudo correra melhor do que poderia ter esperado.

 

Imagem de jornal no início do regime militar.

 

Manifestante portando cartaz de protesto.

Fotografias baixadas de sites da internet relativos à época dos anos 60, governo Jânio, parlamentarismo e regime militar.

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Um japonês especialista em cachaça – Caítulo VI

 

Estádio do Pacaembu, fachada.

 

Vista aérea do Pacaembu.

 

Panorâmica do Pacaembu.

 

6. Operário orgulhoso.
Na sexta feira Manoel estava no laboratório pegando os resultados e foi até o consultório do médico. Passou por um exame geral, não sendo constatada nenhuma enfermidade que se pudesse detectar com o exame feito. O exames de sangue e raio-X atestavam que não sofria de deficiência nos components do sangue, não era anêmico, não tinha tuberculose ou outra doença do pulmão. Por isso o médico lhe escreveu um atestado com o qual teria garantido o acesso ao emprego que tanto se empenhara em conquistar. Ainda não havia decidido se iria mesmo mudar-se para São José dos Campos, próximo à indústria. Isso ficaria para a semana seguinte.
No final de semana foi assistir a um jogo de Palmeiras e Coríntians no estádio do Pacaembu. Havia ido no sábado pela manhã até uma agência onde adquirira o ingresso. Achou por bem evitar usar uma camisa de qualquer um dos times, uma vez que poderia ocorrer de acabar no meio da torcida contrária e isso seria uma temeridade. Ouvira falar da grande rivalidade entre as torcidas desses clubes. Os irmãos perguntavam sobre os estádios e times do Brasil. Ele prometera assistir a um jogo e relatar a experiência na próxima carta. No sábado depois do almoço foi até a oficina onde encontrou seu Chico a sua espera. Acertaram as contas relativas aos últimos serviços que fizera antes de ser chamado para o novo emprego.
Saiu dali com o saldo de suas comissões e ainda uma pequena gratificação, dada por Chico. Além disso era sempre bem-vindo, se por acaso precisasse fazer um bico num dia de folga ou algo assim. Bons mecânicos eram sempre bem aceitos em toda parte. Não existiam ainda cursos que ensinassem o serviço. Era no dia a dia das oficinas que os profissionais eram formados e aqueles que tinham interesse, eram atentos aos detalhes, logo se destacavam. Chico lhe desejou sucesso no novo trabalho.
No domingo à tarde, munido de uma camera fotográfica portátil, extravagância que cometera em nome da sua nova condição de metalúrgico, foi para o Pacaembu. As torcidas entravam separadas, para evitar tumultos já antes do ingresso no estádio. Entrou pelo lado da torcida alvi-negra, indo sentar-se em um lugar bem retirado, o mais no alto da arquibancada. Seu desejo era ficar o mais possível afastado de qualquer confusão. A cantoria das massas torcedoras, separadas por um alambrado além de um espaço deixado vazio, não paravam de cantar, rufar tambores, tocar cornetas e agitar bandeiras.
Não perdeu tempo, pondo-se a registrar da maneira que sabia as imagens que conseguia captar em sua camera. Estava preparado com filme sobressalente para o caso de querer bater mais chapas, ou alguma não ficar bem focalizada. Deixou a maior parte das chapas de que dispunha para serer usadas durante o jogo. Mandaria revelar tudo, separando as melhores imagens para enviar aos irmãos em Ancede, Portugal.
Pacaembu em dia de jogo.
 
A partida ia começar e a entrada dos times foi saudada com uma gritaria ensurdecedora das torcidas. Uma aplaudindo e apoiando, enquanto a adversária vaiava o time que entrava. Depois a cena se repetia, ao entrar o time adversário. Nessa época era comum os times entrarem separadamente em campo. O jogo começou e era bem disputado. Teve que reconhecer que era bem disputado. Não fora sem motivo que recentemente o Brasil se sagrara campeão da Copa do Mundo na Suécia. Os craques brasileiros jogavam de uma maneira de encher os olhos. Era uma opção para ocupar os domingos a tarde, quando não estivesse empenhado em outra atividade. Valia a pena assistir um belo jogo de futebol.
Os lances de ataque e defesa se sucediam de lado a lado. Os dribles, as roubadas de bola, algumas trombadas mais rudes que eram apontadas como faltas a serem cobradas pelo time que sofrera o lance. Os goleiros se empenhavam em evitar que a bola entrasse nas metas sob sua responsabilidade. Quase ao final do primeiro tempo ocorreu um lance de falta a favor do Coríntians nas proximidades da área do Palmeiras. A barreira foi formada, os restantes jogadores se dispuseram em posições estratégicas e por fim o juiz autorizou a cobrança. O jogador encarregado do lance, foi de uma felicidade tal que fez a bola descrever uma caprichosa curva por cima da barreira, indo encontrar a rede de proteção no canto oposto ao que o goleiro se preocupara em guarnecer pessoalmente.
A cobrança da falta fora perfeita. A trajetória da pelota foi tal que se transformou em um lance indefensável. Nesse momento o juiz apontou o centro do gramado e a torcida alvi-negra estrugiu em delírio. Do lado de verde reinou silêncio, onde pouco antes eram ouvidos gritos de vaia ao cobrador e aos adversários. Pouco depois a primeira etapa foi encerrada, seguindo-se um período de pessoas se movimentando para irem ao banheiro, tentativas de lançamento de objetos de um lado a outro entre as torcidas nos pontos em que ficavam mais próximas. Manoel nunca havia ido assistir a um jogo de futebol em um grande estádio. Imaginou por que razão os torcedores queriam se agredir mutuamente. Não havia liberdade de escolha? Cada um torcia pelo time que mais lhe agradasse. Não fazia sentido querer negar aos outros a livre escolha.
Ficou consigo a pensar na incongruência da situação. O que seria do time que sempre fosse vencedor, que tivesse todos os torcedores? Não tendo torcedores, o time deixaria de existir. Deixando de existir, o outro não teria mais adversário e também perderia o sentido de existência. Na sua concepção imaginava que depois do jogo deveriam se reunir e comemorar a vitória ou lamentar a derrota, mas sem maiores consequências. O bom do esporte era exatamente o fato de que, ora um ora outro poderia ser vencedor. Bastava por vezes um lance de sorte para definir o resultado de uma partida. Os treinamentos, a busca por jogadores mais talentosos, tinham como objetivo melhorar o desempenho do time de um clube. Era esse o motivo dos torcedores pagarem o ingresso para assistir às partidas. Prover recursos aos dirigentes para pagar pelos direitos dos clubes detentores de contrato com os jogadores. Assim poderiam ter os mesmos em seus plantéis.
Quando o jogo terminou, haviam acontecido mais dois gols, sendo um segundo do Coríntians, dessa vez em jogada vinda da esquerda para o meio da área. Ali um jogador habilidoso dera um único toque na bola que for a parar no fundo das redes. Novamente a torcida alvi-negra foia o delírio enquanto a de verde iniciou algumas vaias ao próprio time. O treinador palmeirense fez duas substituições em sua zaga, além de uma outra no ataque. O time ficou mais consistente, conseguindo evitar as sucessivas investidas alvi-negras e organizar por suas vezes alguns ataques. Por diversas vezes o goleiro corintiano foi obrigado a realizar defesas espetaculares.
Diz o ditado que água mole, em pedra dura, tanto bate, até que fura. Foi o que aconteceu nessa partida. De tantas tentativas, finalmente, agora já aos 44 minutos da segunda etapa, um atacante palmeirense deu um drible fenomenal no zagueiro corintiano e chutou da entrada da área, no canto contrário ao daquele em que o goleiro estava mais perto. A bola sacudiu a rede e agora foi a vez da torcida verde levantar e vibrar. Mas o tempo estava se esgotando rapidamente. Havia mais três minutos de acréscimo devido às interrupções do jogo em várias ocasiões. O time verde se empenhou ao máximo para conseguir a igualdade no placar, mas o alvi-negro se manteve intrépido na defesa. Chutavam a bola para o lado que o nariz estivesse apontado. Seguiam uma expressão segundo a qual nessa hora: “Chuta para o mato, que o jogo é de campeonato”.
Quando soou o apito final, houve um princípio de tumulto no qual alguns torcedores tentaram atingir os adversários, mas um contingente de policiais estava ali para impedir a briga. Houve muitos que sairam resmungando e gritando ameaças, outros fazendo gestos relativos à vitória por 2 x 1 do time corintiano. Enquanto isso Manoel esperou pacientemente até que o clima amainasse e só então iniciou o deslocamento na direção da saída. Do lado de fora, o policiamento estava empenhado em manter os torcedores o mais separados que fosse possível. Mesmo assim seria impossível manter a distância entre eles, na medida em que se afastassem do estádio.
Geralmente ocorriam alguns incidentes de agressões após as partidas, pois havia quem não se satisfazia em caçoar dos adversários derrotados. Tinha necessidade de manifestar de modo físico sua superioridade e isso sempre descambava em violência, não raramente até ferimentos com armas. Um fato extremamente lamentável. Por maior que fosse o empenho das autoridades, não se conseguia evitar esses fatos. Tendo esperado o tempo adequado Manoel finalmente embarcou em paz no ônibus e foi para a pensão. Levava consigo a camera e o cartucho com o filme todo exposto que havia trocado pelo outro. Aproveitaria para tirar algumas poses no dia seguinte no novo emprego e depois mandaria revelar os dois de uma vez.
Chegou à pensão e ali havia entre os hóspedes tanto corintianos quanto palmeirenses. Mas esses não eram exaltados e sequer haviam ido ao estádio. Tinham ouvido o jogo pelo radio de dona Marinês, instalado na sala de refeições. Ao verem Manoel, trazendo a camera na mão, quiseram saber de onde vinha e ele lhes contou do jogo que for a assistir. Logo choveram perguntas diversas que ficaram na maioria sem respostas. Ele não sendo torcedor de nenhum dos times, apenas um espectador interessado em apreciar o espetáculo, não reparara em determinados detalhes.
Expressou sua estranheza com as agressões entre as torcidas, as atitudes literalmente beligerantes demosntradas por muitos dos presentes. Isso tornava a presença de pessoas com filhos ou familiares, idosos um ato temeroso. Havia o risco de sofrer agressões, ser pisoteado em caso de tumulto ou correria.
– É por isso que a gente não vai ao estádio, Manoel.
– Eu fui hoje por ter prometido aos meus irmãos em Portugal umas fotografias de um jogo aqui no Brasil. Depois do campeonato mundial na Suécia, o povo de lá está muito interessado em saber como é o futebol do Brasil.
– Conseguiu tirar boas fotos?
– Creio que sim. Não tenho prática com essas máquinas. Vamos ver o que vai sair. Quero mandar umas para meus irmãos e contar sobre o jogo.
– O jogo como foi na sua opinião?
– Gostei. Os dois times jogaram bem. Apenas o primeiro gol do coríntians foi de falta e uma cobrança perfeita. O goleiro não tinha nada a fazer. O segundo gol foi o mais bonito, pois foi uma jogada rápida e bem feita.
– E o gol do Palmeiras, como foi?
– Uma jogada de craque do palmeirense. Nem deu para ver direito como ele passou por aquele adversário. Sei apenas que passou e chutou de maneira indefensável no canto esquerdo do goleiro, longe das mãos deste.
– Se tem mais uns minutos de jogo, o verdão arrancava o empate.
– Acordaram tarde demais, – falou um corintiano.
– Se houvessem empatado, não seria um resultado injusto. Mas jogo é jogo e não tem muita lógica, – falou Manoel.
 
Vista da Vila Belmiro em Santos.

 

Outra vista da Vila Belmiro.

 

Vista aérea da Vila Belmiro.
 
Continuaram a defender cada um o seu time, caçoando dos derrotados, estes lembrando de outras ocasiões em que a vitória sorrira ao time verde e assim passou o tempo. Não tardou e o jantar foi servido. Alguns hóspedes que tinham viajado para cidades vizinhas, voltaram e se juntaram aos que estavam presentes. Formaram-se grupos diversos, onde as conversas giravam ou em torno do jogo do Pacaembu, outros falavam de um encontro entre São Paulo e Santos na Vila Belmiro, resultando em empate. Manoel passou por todos os grupos, trocou algumas palavras e foi deitar cedo. Queria levantar cedo para não perder a hora de entrar.
O primeiro dia seria provavelmente de recepção, apresentação dos documentos, a identificação dos locais de trabalho, os chefes de setores, normas internas da empresa, equipamentos de segurança. Ainda não existiam muitas leis regulamentando os aspectos de segurança, mas as empresas por sua própria conta mantinham seus próprios sistemas internos. Estava em jogo o uso de máquinas de altíssimo custo e precisariam ser usadas de modo adequado. Qualquer descuido poderia significar danos ao equipamento, como também acidentes com os trabalhadores. Isso sempre representava uma série de transtornos.
Durante o sono teve sonhos agitados, misturando cenas do estádio com o que viria a ser seu local de trabalho a partir da manhã seguinte. Quando percebeu era hora de levantar e ainda estava um pouco sonolento. Teria que tomar uma xícara de café bem forte para ficar bem desperto. Pegou a pasta em que colocara todos os documentos que precisariam ser entregues e desceu para a sala de refeições. O café acabava de ser coado e exalava um odor característico. Pegou uma xícara e pediu um pouco de café para tomar sem açúcar mesmo.
Tomou pequenos goles da bebida escaldante até sorver a última gota. Sentiu que os sentidos ficavam mais alertas e logo estaria em forma para enfrentar seu primeiro dia de trabalho, no novo emprego. Sentou-se à mesa onde já estava colocado o pão ainda quentinho que o padeiro entregara. Um bule com leite, geléia, um pote com manteiga, e o açucareiro. Serviu o leite e depois que dona Marinês trouxe café, colocou um pouco misturado ao leite. Gostava, como ele dizia”, de leite com café, apenas o suficiente para dar uma ligeira cor. Tomava-o sem açúcar desde criança.
Passou manteiga no pão, um pouco de geléia e comeu, mastigando bem. Depois pegou outro pedaço de pão e repetiu a operação. Era aconselhavel reforçar o café, pois não sabia a que horas teria oportunidade de comer alguma coisa novamente. O primeiro dia era uma incognita. Antes de sair, relembrou se não esquecera nada e foi buscar a câmera para tirar algumas fotos do local e de seus colegas de setor. Estava orgulhoso de sua nova condição. Dava mais um passo no caminho da realizção de seu sonho. Disse adeus a dona Marinês e saiu. Em quinze minutos chegava ao local de embarque no transporte que o deixaria logo depois no ponto para seguir até a fábrica.
Como havia saido um pouco mais cedo, chegou faltando ainda vinte minutos para a hora da entrada em serviço. Foi dos primeiros a chegar. Havia colegas de trabalho no ônibus em que viera, outros vinham caminhando pois moravam nas proximidades, ou haviam descido de transportes coletivos em outros pontos. Em poucos minutos formou-se uma aglomeração razoável diante do portão de entrada. Do lado interno foi notada a movimentação dos encarregados de abrir e liberar o acesso ao recinto da indústria. Era uma entrada especial, diferente da de clientes, fornecedores ou outros visitantes. Formaram uma fila dupla, sendo orientados para terem em mãos os documentos solicitados anteriormente.
 
Sendo dos primeiros a chegar, Manoel era o terceiro de uma das filas e logo a entrada foi liberada. Caminharam por uma passagem e chegaram a um balcão onde havia quatro funcionáarios para receber e conferir os documentos. Depois de passar por essa etapa, foram dirigidos a uma sala maior onde eram separados em seus grupos. Aos poucos ia conhecendo quem seriam seus colegas de trabalho. Os outros grupos estariam trabalhando ali, apenas em setores diversos. Inicialmente as conversas foram poucas. Eram todos desconhecidos e era preciso se conhecerem para estabelecer conversações. Começaram a se apresentar enquanto esperavam e aos poucos um murmurio se fez ouvir no recinto que em pouco tempo se encheu de gente. Em dado momento um homem de seus quarenta anos, chegou junto ao grupo de Manoel e falou:
– Bom dia pessoal!
– Bom dia, – ouviu-se um pouco mais que um murúrio.
– Eu sou Paulo de Oliveira e vou levar vocês ao setor em que irão trabalhar. Parece que o grupo está complete. Vou fazer a chamada para verificar.
Começou nomeando um a um em ordem alfabética. Eles por sua vez respondiam com um “presente” decidido. Não queriam ser tidos como tímidos ou desinteressados. Não havia faltado nenhum dos chamados.
– Muito bem. Me acompanhem até a sala de uniformes para escolherem seus jalecos. Tomara que ninguém precise de tamanho especial, – disse correndo o olhar pelo grupo. – Parece que não vai acontecer isso. Devemos ter um par para cada um.
 
Indústria metalúrgica moderna.

 

Outra visão de indústria metalúrgica.
 
Enquanto eles saiam os outros grupos também procediam à chamada para conferir a presença dos novos contratados. Ao chegarem à uma sala cheirando a tecido novo, havia vários roupeiros encarregados de trazer os jalecos. A experiência adquirida em empregos anteriores os habilitava a determinar a olho o número do candidato a sua frente. Em poucos minutos todos eles dispunham de um par de jalecos e um cadeado numerado com chave. O número correspondia ao armário que seria de uso pessoal de cada um. Ali ficariam guardados seus pertences pessoais, bem como o jaleco ao sair ao final do expediente.
Na sala contígua ao local em que iriam trabalhar, estavam os armários e ali vestiram os jalecos. Se algum não servisse, deveriam voltar ao local da distribuição para efetuar a troca. Manoel experimentou os seus, movimentou os braços e todos os sentidos percebendo que não havia problemas para fazê-lo. Haveria um tempo para se acostumar ao uniforme. Era ótimo, pois aprendera no curso do SENAI a necessidade do uso de vestuário apropriado, diferente do que costumavam usar na vida diária. O melhor seria usar por baixo uma camiseta ou outra roupa de malha, para não tolher os movimentos. Fechou os demais pertences no armário e foi para perto do senhor Paulo a espera do passo seguinte. Em poucos minutos o grupo todo estava ali, exceto um colega mais magro que trouxera os jalecos de tamanho maior que o seu número e fora fazer a troca. Logo voltou e se juntou a eles, quando foram levados para um amplo salão onde se encontravam enfileirados um grupo de máquinas de mesmo modelo.
Eram praticamente iguais a um que tivera oportunidade de manejar durante o curso no SENAI. Seria facílimo o início do trabalho, pois em minutos estaria senhor da máquina que lhe caberia usar. Receberam a chave para acionamento da respectiva máquina. Deveriam deixar tudo em ordem ao final do expediente, pronto para reiniciar o trabalho no horário seguinte. Essa chave ficaria em poder de cada um, até o dia em que deixasse a empresa. A máquina ficaria sob a responsabilidade do operador. Sua manutenção e eventual interrupção do uso, no caso de apresentar problemas de funcionamento. Feitas essas recomendações, cada um recebeu uma folha com as especificações técnicas graficas e escritas de uma peça. Eram pré moldadas na fundição e que precisavam ser usinadas para deixá-las nas especificações da montadora.
O ganho no final do mês seria influenciado pelo desempenho de cada um. Deveriam se preocupar com a perda de tempo, mas também com a percisão na execução do serviço. Cada peça refugada pelo controle de qualidade representaria perdas para o responsável. Significava que deveriam trabalhar diligentemente para render o máximo, mas igualmente estar atentos às medidas. Alguns do grupo fizeram perguntas que o senhor Paulo respondeu atenciosamente. Depois foram liberados para iniciarem o trabalho. O almoço seria ali mesmo na indústria. Saberiam depois a localização do refeitório. Talvez o primeiro dia não trouxesse um almoço primoroso, pois a equipe também estava iniciando naquele momento, embora tivessem recebido treinamento na semana anterior.
Em poucos segundos os enormes tornos começaram a ronronar e foram verificados todos seus comandos antes de iniciarem a execução do serviço. As ferramentas de corte foram conferidas uma a uma. Depois começou-se a ouvir o ruido das ferramentas cortando o aço. Uma pequena pilha de finas ritas metálicas enroladas foi se formando aos pés de cada máquina. As máquinas eram novas e facilitavam o trabalho. A fundição era de boa qualidade, não exigindo habilidades especiais. Sempre existia o risco de haver rebarbas de metal restantes de defeitos de fundição, o que representava um atraso na execução do serviço de torno. Cada peça pronta, era colocada em uma bancada existente a retaguarda do operador.
O grupo começou a operar quase no mesmo rítmo. Apenas dois colegas tiveram alguma dificuldade com as máquinas, pois haviam aprendido a operar máquinas ligeiramente diferentes o que exigia algum tempo para se adaptar. Haviam iniciado o trabalho em torno de 9 h e às 10 h 15 min, sou uma sirene, avisando que era hora de um pequeno interval de quinze minutos. Suficiente para irem ao banheiro e tomar um copo de café com biscoitos servidos na sala ao lado. Nas bancadas estavam empilhadas algumas peças usinadas. No momento da interrupção para o almoço seriam removidas, anotadas na ficha de cada operador e etiquetadas.
Dali seguiriam para o controle de qualidade, para depois seguirem até a expedição. Manoel foi ao banheiro e tomou seu café, sentindo-se aliviado da tensão anterior. O batismo de fogo havia passado. Sentia-se agora dono do lugar. Estava senhor da sua máquina. Ele a operava com perfeição. Ao seu lado os companheiros, quase todos oriundos dos diversos cursos do SENAI, estavam em igualdade condições com ele. Os seus movimentos pareciam quase sincronizados, diferindo por frações de segundos. Quando um se virava para colocar uma peça na bancada, logo os outros também faziam o mesmo.
No momento em que soou novamente a sirene cada um tinha em sua bancada um bom número de peças prontas. Foram levados ao refeitório onde o cheiro de comida despertou o apetite de todos. O cheiro percebido quando ainda estavam a uma distância de 50 metros do lugar, deixava saber que a refeição seria de boa qualidade. Um almoço excelente foi servido. Carne com molho, arroz, feijão e saladas diversas, completadas com sobremesa. Sem esquecer o refresco à escolha de cada um.
Manoel num primeiro momento ficara pensando em ir almoçar na rua e na visita durante a semana anterior indagara nas redondezas da existência de restaurantes populares. Agora via que o almoço era servido na própria empresa e isso o deixava mais tranquilo. Nenhuma empresa quereria ter seus operários doentes por conta de alimentação inadequada ou com problemas. Almoçaram e depois foram espairecer por pouco mais de meia hora, antes do reinício do trabalho. O total do às 12 horas, sendo que cinco minutos antes soara a sirene. Era o tempo para que cada um juntasse em um recipiente as aparas metálicas acumuladas sob a máquina. Elas seriam prensadas e enviadas novamente para a fundição. Não havia como desperdiçar o metal.
Quando deu 13 h 20 soou a sirene chamando para se apresentarem às dali a dez minutos nos postos de trabalho. Alguns projetos de amizades, conversas haviam sido iniciadas. Era uma convivência, projetada para ser prolongada, que se iniciava. Sem demora cada um se encaminhou para seu lugar de trabalho, passando pelos banheiros antes. Às 13 h 30 soou a sirene para início do turno de trabalho. Cada um acionou sua máquina e deu início ao turno de trabalho. As peças a serem usinadas eram as mesmas e continuariam sendo por aquele e mais dois dias pelo visto. Aos poucos os operários se habituaram e dominaram melhor as suas máquinas, conseguindo acelerar sua produção, sem descuidar dos detalhes.
Às 15 h soou a sirene novamente para os quinze minutos de intervalo, o cafezinho e uma ida ao banheiro, se necessário. Havia é claro um grande filtro com água para matar a sede. O ambiente era levemente climatizado para evitar a transpiração excessiva dos operários. As bancadas já apresentavam um bom número de peças usinadas e e a pilha de peças a trabalhar existente ao lado de cada máquina parecia não diminuir sensivelmente. Era um trabalho aparentemente monótono, porém exigia atenção constante para evitar falhas. Nisso residia a necessidade de boa preparação técnica dos operadores. O controle emocional e capacidade de manter a concentração eram fundamentais.
E quando menos esperavam, soou o sinal de encerramento do expediente. Tinham os dez minutos para proceder à limpeza do local e deixare a máquina em condições de uso na manhã seguinte. As ferramentas usadas eram devolvidas para passarem pela equipe de afiação. Na manhã seguinte teriam à disposição novo kit para usar naquele dia. O que se viu nos rostos daquele grupo de operadores ao deixare o lugar de trabalho. Antes de saírem ouviram uma rápida preleção de seu Paulo sobre o primeiro dia de trabalho. Em sua maioria haviam tido um ótimo desempenho. As dificuldades iniciais de alguns estavam superadas e tudo prometia fluir sem problemas dali por diante. Desejou-lhes bom descanso e os liberou.
A maioria saiu dali orgulhosa. Esse emprego representava o começo de uma vida de trabalho ou o reinício de uma carreira interrompida por um motive qualquer. Os colegas mais próximos se despediram entre si e Manoel foi até a pousada para combinar sua mudança para ali no final de semana. Queria fazer isso com calma, sem atropelos. Seria perfeitamente viável percorrer a distância até à capital nos dias dessa primeira semana. Depois veria a possibilidade de adquirir uma bicicleta e percorrer a distância da pousada até a indústria pedalando. Demorou cerca de meia hora para chegar ao estabelecimento e não teve dificuldades em deixar combinado o aluguel de um quarto com café da manhã e jantar.
Estava orgulhoso de seu trabalho e fez questão de apresentar o crachá que lhe haviam entregue ao sair. Era agora operário da indústria de peças que iniciara suas operações naquele dia. Depois de combinar tudo, voltou até perto da indústria e tomou o ônibus para voltar à capital. Chegaria um pouco atrasado na pensão. Teria que comer alguma coisa que tivesse sobrado do jantar, salvo o caso de dona Marinês ter guardado um prato para ele. Isso não tinha importância. Comeria o que houvesse ou iria até um bar e comeria um salgado. Um dia não fazia mal algum. Os outros seriam diferentes.
A semana transcorreu sem novidades. Cada dia a camaradagem entre os colegas aumentava, encontravam-se ao chegarem pela manhã, sorriam e se davam palmadinhas nos ombros. Depois ficavam por horas sem trocar palavra praticamente enquanto prestavam atenção máxima nas ferramentas que cortavam o aço, transformando peças brutas fundidas em aço, em algo bem acabado. Sentiam satisfação em ver as aparas de metal caindo e formando aquela pilha característica no chão. Eram o resultado que sobrava do seu trabalho. Em outra ocasião esse mesmo metal poderia estar novamente em suas mãos na forma de outras peças, de outras formas sendo trabalhadas para uso posterior.
A primeira semana chegou ao fim e todos se despediram para o descanso merecido. No sábado Manoel fez sua mudança para a nova moradia. Um colega de pensão foi com ele ajudando a carregar parte de suas bagagens. Assim ficaria sabendo onde o amigo estaria morando a partir daquele dia. Manoel despediu-se de dona Marinês. Já fizera o acerto com a dona do estabelecimento e agradecera o grande carinho que lhe dispensara. Depois de se instalar na nova moradia, levou o colega para almoçarem juntos. Depois procurou e encontrou uma loja que estava aberta e adquiriu uma bicicleta. Aprendera a andar anos antes, mas fazia tempo que não pedalava. Aproveitaria o resto da tarde e o domingo para lembrar como se fazia e não ter problemas na segunda feira.
Não precisou de muito tempo para sentir-se dono da situação e o resto do dia, bem como o domingo para passear por todos os lados, explorando os bairros de São José dos Campos, sua nova cidade. Encontrou um laboratório fotográfico e lá deixou os filmes que estavam totalmente utilizados. Ficariam prontas na semana seguinte. Quando fosse retirar poderia escolher as fotografias de que quisesse cópias e elas seriam providenciadas. Haveria tempo para fazer isso após a saída do trabalho que ocorria às 17 h 30. Indo de bicicleta chegaria antes de fechar o estabelecimento. Então poderia mandar aos irmãos as fotos do jogo de futebol e também de seu novo local de trabalho.

Pedira ao chefe para bater uma pose mostrando ele em ação no torno, outra no refeitório, no patio de recreio e diante da fachada da indústria. Queria que a família sentisse orgulho de seu sucesso na nova patria. 

Indústria metalúrgida nos primórdios.

 

Peças diversas feitas em cobre.

 

Um japonês especialista em cachaça – Capítulo V

Vista aérea do centro de São Bernardo do Campo

 

Vista ampliada do sentro de SBC

 

Vista Terraço Itália, anos 50/60

 

5. Operário industrial.
Com uma semana de espera veio uma correspondência da indústria. Estava sendo convocado para providenciar a documentação complementar e assumir sua vaga. Ao ler a carta, Marinês observou o rosto se abrir num sorriso largo. Começou a rodopiar, como se estivesse dançando e jogando os braços para o alto. Ela não sabia do que se tratava e ficou olhando, a espera de uma explicação, se é que ela viria.
 
Quando se cansou de rodar e rir sem parar, Manoel deparou com a senhoria olhando para ele interrogativamente. Controlou os últimos acessos de riso e vibração para dizer:
– Estou contratado, dona Marinês. Vou ser operário da indústria. Olhe aqui a carta me chamando para providenciar os documentos, – mostrou a carta que a pobre senhora mal conseguia decifrar. Lia mal e a vista já cansada, sem óculos completava a questão.
– Seu Manoel, não consigo ler sem óculos. Mas é ótimo para o senhor. Vai ser onde o seu novo emprego?
– Ali em São Bernardo do Campo.
– Isso quer dizer que o senhor vai mudar daqui, pois morar mais perto ajuda muito.
– Vou ver isso depois. Por enquanto fico aqui. Se resolver mudar, eu aviso com antecedência. Não se preocupe, dona Marinês. A senhora não merece que ninguém faça sacanagem.
– Nem todos pensam assim. Obrigada.
– Vou passar lá hoje mesmo para ver o que falta na documentação. Provavelmente terei que passar por um exame médico e coisas assim.
– Mas o senhor está vendendo saúde. Pra que exame médico?
– Coisas que a lei exige. Se depois de sair do emprego se queixar de que adquiriu alguma doença em consequência do trabalho, tem como provar o contrário, se havi alguma coisa antes de iniciar.
– O mundo cada vez fica mais moderno. Mais antes não tinha dessas coisas.
– Mas hoje tem e eu não acho ruim. É até muito bom, pois nos garante em caso de demissão.
– Isso é verdade. Sem comprovante, não há o que dizer em contrário.
– Até mais tarde, dona Marinês. Vou passar na oficina dizer que não vou mais trabalhar e vou até o escritório da indústria, aqui mesmo na capital. Não ficá longe.
 
Foi ate´seu quarto, trocou a camisa para estar em condições de tirar fotografia se fosse necessário e saiu. Ao chegar à oficina, um pouco depois da hora, vestido em trajes diferentes, Chico Cearense soube da novidade. Ficaria sem o principal ajudante que aparecera em muitos anos de trabalho ali naquele lugar. Mas era o sonho dele e teria que seguir em busca de realizar esse projeto.
 
– Estou vendo que foi chamado para a indústria. Parabéns!
– Como o senhor soube?
– Chegou atrasado pela primeira vez em mais de um ano e vestido desse jeito! Até parece que vai tirar fotografia ou fazer exame de fezes.
– Ora pois, pois, seu Chico! Fazer exame de fezes! Será que até isso vou precisar fazer?
– Nós temos o costume de falar que alguém vai tirar fotografia ou fazer exame de fezes quando se veste de modo diferente do habitual.
– Ah! Pensei que iam querer a ver meu cocô! O senhor estar a mangar comigo.
– Vai em paz, Manoel! Que Deus lhe acompanhe, lhe abençoe e torne realidade seus sonhos.
– Obrigado, seu Chico. Foi um ano ótimo que passei aqui, mas quero subir um pouco, crescere. Acho que me entende.
– Entendo sim. Por mais que lamente perder sua ajuda valiosa, desejo tudo de bom e melhor para você. Passe aqui no final da semana para acertarmos as nossas contas. Pode ser?
– Não tem problema. Passo sábado depois do almoço.
 
Caminhão da indústria nacional FNM

 

Estacionamento de Fuscas

 

Vespa com rodinhas de apoio

 

Primeiros caminhões reboque de carreta

 

Rei das estradas nos tempos mais antigos, caminhão Scania Vabis (maçarico)
 
Saiu e foi até o ponto de ônibus. Em quinze minutos embarcou e depois de meia hora descia a poucos metros do escritório da indústria ali na capital. Chegou e havia alguns outros candidatos esperando para fazer a mesma coisa que ele. Esperou cerca de meia hora e foi atendido. Realmente, teria que trazer até o final da semana, ou o mais tardar até dois dias depois do início que seria na segunda feira seguinte, os documentos constantes de uma pequena lista:
 
– Carteira de Trabalho e Previdência Social.
– Exame de sangue.
– Raio X do torax.
– Atestado médico de seu estado de saúde.
– Duas fotografias 3×4 cm.
– Diploma de habilitação em torno, que seria anotado e devolvido.
– Documento de identidade. 
Junto com isso recebeu uma requisição ao laboratório, outra ao médico para fazer, por conta da indústria, os exams necessários.
 
Munido das requisições, passou num fotógrafo ali perto e providenciou as fotografias. Ficariam prontas dali a dois dias. Depois foi até o laboratório onde marcaram os exame para a manhã seguinte. Um pouco adiante conseguiu passar no consultório médico antes do encerramento do expediente. Tinham uma vaga para o final da tarde de quinta feira. Marcou a consulta e seguiu a pé por um trecho, apreciando a área da cidade que lhe era pouco conhecida. Depois tomou o ônibus e retornou para as proximidades da pensão.
 
Ao chegar, os colegas de moradia já sabiam da novidade e lhe deram as congratulações. Ele lhes mostrou a carta, as requisições dos exames, a lista de documentos. Para celebrar saiu e foi até um armazem nas proximidades onde comprou alguns litros de vinho de boa qualidade. Iria comemorar com os amigos sua nova condição. Se não estivesse bêbado, mais tarde escreveria uma carta à família, comunicando as novidades. Fazia quase um mês que não escrevia e estranhava a demora em receber resposta da última missiva. A pedido de Manoel dona Marinês preparara uma refeição especial, usando alguns ingredientes trazidos pelo mesmo.
 
Embora a comida na pensão fosse sempre elogiada, um incremento era bem vindo para variar. Naquela noite não sobrou nada, nem para tratar o cachorro, exceto os ossos existentes na carne servida. Depois de algumas garfadas, Manoel levantou, chamou a atenção de todos e falou:
 
– Meus amigos, companheiros de jornada aqui na pousada de dona Marinês. Estou contente por realizar meu sonho de ingressar na indústria como torneiro mecânico. Começo segunda feira que vem. Por isso, quero que tomem comigo um copo de vinho em comemoração. Temos aqui algumas garrafas que vamos abrir. Espero que todos aproveitem e se alegrem comigo.
– Viva o Manoel!
– Viva! Ip! Hurra! Ip! Hurra!
Uma Sonora salva de palmas ecoou pelo salão de refeições. As rolhas das garrafas iam sendo removidas e os copos servidos. Quando todos tinham diante de si a bebida, Manoel tomou do seu e falou novamente:
– Um brinde ao futuro do Brasil!
 
Todos ergueram seus copos, que tilintaram ao se chocarem de leve entre si. Depois cada um bebeu um generoso gole da bebida. Era realmente um vinho encorpado, de sabor marcante e bem ao estilo dos vinhos portuguêses. Depois do brinde, quem estava em pé tornou a sentar-se e a refeição continuous alegre. Dois hóspedes chegaram um pouco atrasados, mas logo estavam a par da situação e se integraram ao pequeno banquete. Evidentemente houve quem tivesse bebido um pouco além da medida, ou era fraco para bebidas alcoólicas e algumas risadas um pouco fora de tom começaram a ecoar no recinto. Nada porém fora das medidas.
 
Quando as garrafas estavam vazias, alguém sugeriu sairem em busca de mais bebida, porém Manoel obstou dizendo ser suficiente para uma noite. Não valia a pena estragar um motivo de alegria e festa, em algo que poderia virar tristeza e arrependimento. Os estômagos forrados, um pouco de tontura provocada pelo álcool do vinho, não tardou a fazer os efeitos previsíveis. Um a um começaram a se retirar em direção aos respetivos aposentos. Quando o último se retirou, Manoel deu a Marinês uma pequena soma em dinheiro que guardara, em agradecimento pelo esmero na preparação da refeição.
– Nem precisa. Você comprou os ingredientes. Eu apenas precisei preparar o que ia fazer de qualquer maneira.
– Fica como um presente. A senhora tem sido como minhã mãe aqui no Brasil. Sempre escrevo para ela e falo da senhora. Hoje vou escrever contando as novidades, para por a carta no correio amanhã, logo cedo.
– Seus pais devem ficar com muita saudades, com você assim longe de casa. Não tem irmãos?
– Eu sou o caçula. Tenho dois irmãos e duas irmãs, todos mais velhos que eu.
– Devem estar casados, com filhos.
– Um dos irmãos e uma irmã estão casados. Os outros dois estão noivos e pretendem se casar no próximo ano.
– Não ficá com saudades da família?
– Saudades eu sinto, mas estou em busca do meu sonho. Em Portugal está muito triste. A ditadura salazarista é um regime que não deixa liberdade, o povo está cada vez mais na miséria e ninguém consegue tirar aqueles crápulas do poder. As forças armadas e de segurança estão por toda parte. Não se pode dizer um ai que eles já sabem e quere saber o que foi.
– Nossa Senhora! Ainda bem que aqui a ditadura não durou muito tempo. Acho que começou quase no mesmo tempo que em Portugal.
– E lá pelo andar das coisas ainda vai durar alguns anos. Só depois que o Salazar morrer vai haver alguma chance de mudança. Isso se os capangas dele não assumirem e continuarem com a coisa.
– Nosso presidente é bem dinâmico. Está construindo a nova capital lá no estado de Goiás, implantando indústrias, o Getúlio criou a Petrobrás que começa a crescer. Isso é muito bom. Acho que dessa vez o país sai do buraco e se desenvolve.
– E eu espero crescer junto com ele. Foi por isso que vim aqui para o Brasil.
– Quanto tempo já está aqui?
– Quase quatro anos. Cheguei pouco antes da morte do Presidente Getúlio. Trabalhei mais de dois anos no porto de Santos, como estivador.
– Então é isso que lhe deu esses braços fortes, esse peito largo. Carregar aqueles sacos de café e outras mercadorias exige muita força.
– Mas cansa demais. Não iria aguentar por mais tempo e vim embora logo que vi uma chance.
– Aqui está começando com o pé direito. Já tinha um bom trabalho na oficina do seu Chico Cearense e agora vai para a indústria de peças de automóveis.
– Vamos em frente com força e coragem, dona Marinês. Acho que também vou para meu quarto. Ainda quero escrever para minhã família e depois dormir. Amanhã tenho exames de sangue logo cedo. Tenho que sair daqui em jejum e só tomar café depois de tirar sangue.
– Boa noite. Também vou dormir depois de arrumar umas coisas aqui na cozinha.
– Boa noite.
 
Foi para seu quarto e sentou-se à escrivaninha para escrever. Mal começou e os olhos pesaram. Pensou que não haveria mal algum em escrever essa carta na noite do dia seguinte. Estaria melhor disposto e não correria o risco de escrever errado, ou ter que recomeçar. Amasou a folha de papel que estava usando, jogando-a no lixo, depois de rasgar. Não tinha escrito nada importante ainda, mesmo assim não era conveniente expor sua vida familiar a alguém que por acaso pegasse aquele papel nas mãos.
 
Deitou-se depois de escovar os dentes e tomar banho. Estava suado e dormiria melhor depois de uma boa chuveirada. Meia hora depois estava deitado, agradeceu mentalmente à Deus, à Nossa Senhora de Lourdes pelo sucesso que estava tendo na terra que escolhera por nova patria. Em instantes dormia a sono solto. Mal a aurora pintou o horizonte de tons alaranjados e já estava em pé, preparando-se para sair. Deveria chegar cedo para dar tempo de fazer a coleta de sangue e depois bater a chapa de raio-X. Demoraria em torno de 30 a 40 minutos no transporte e assim chegaria perto de sete e meia.
Discos de vinil, 78 rpm

 

Telefone de mesa antigo

 

Telefone de parede anos 50

 

Primeiros televisores.

 

Disco Trio Surdina

 

Adicionar legenda
 
 
Depois o dia era seu. Poderia desfrutar como lhe aprouvesse. Ao sair disse adeus a dona Marinês que já estava em pé na cozinha preparando o desjejum dos hóspedes, alguns já sentados tomando café. Cumprimentou a todos e saiu. Com um pouco de sorte chegou antes das sete e meia, quando a fila para a coleta de material dos exames ainda era pequena. Uma funcionária passou perguntando o tipo de exames e distribuia senhas para servirem na ordem de chamada. Em poucos minutos as portas foram abertas e entraram numa sala de espera não muito grande. Quem chegasse depois teria que esperar do lado de fora até liberar espaço ali dentro.
 
Os números começaram a ser chamados e logo foi a vez de Manoel. Estava levemente apreensido pois era a primeira vez que coletava sangue para exames clínicos. Imaginou se iria doer na hora da picada da agulha, mas seus braços tinham veias bem salientes e visíveis, o que tornou o processo muito fácil. Quando ainda esperava sentir a dor, foi avisado de que terminara a coleta. Recebeu um comprovante que lhe permitiria retirar o resultado na tarde de sexta feira.
 
Passou no balcão de informações de onde foi encaminhado ao outro setor onde faria o raio-X. Também isso era a primeira vez que fazia e ele ficou imaginando como seria. Que raio de máquina era essa que, pelo que vira outros mostrarem,  tirava como que uma fotografia do interior do corpo, mostrando os ossos, e alguma coisa um tanto difusa dos demais órgãos. O que os medicos viam naquilo ali, não podia imagina. Os ossos sim, seria possível ver uma fratura, alguma luxação ou outra lesão qualquer. Quanto ao resto não saberia dizer. Bem isso cabia aos médicos e não a ele dizer.
 
Ali o processo também era rápido. Havia duas portas e eram chamados alternadamente de uma ou de outra. Era de supor que houvesse dois equipamentos fazendo os exames. Notou que os de um lado demoravam menos que do outro e foi nesse que chamaram sua senha. Depois ficou sabendo que na outra porta entravam os que iam fazer exames de quadril, coluna, pois a máquina nesse caso tinha uma configuração diferente. Ao entrar, lhe indicaram uma espécie de placa metálica, tendo à frente um objeto alongado, com a ponta apontada para o seu peito. O operador inseriu um objeto em formato de quadrilatero na parte posterior da placa, pediu que inspirasse profundamente e segurasse o ar. Postado atrás de um biombo, ouviuse um leve ruido e pronto.
 
Agora deveria ficar de frente para a placa, com os braços bem abertos, encostando o máximo possível e o resto se repetiu. Depois disso estava pronto. Também alí recebeu o comprovante para retirar o laudo junto com os exames. Estava liberado. Não for a nada do que imaginara. Apenas desconhecia o motive de o operador se seconder atrás daquele biombo. Anos mais tarde soube que isso era para não se expor ao raio-X, a cada exame realizado. Isso poderia trazer danos à sua saúde. O paciente ficava exposto apenas ao raio naquele momento do exame e depois ficaria meses, talvez anos sem repetir a exposição. O operador sofreria a exposição dezenas de vezes todos os dias. Aí é que estava o dano.
 
Ainda eram nove e meia da manhã. Não longe dali encontrou um café, onde sentou e pediu uma xícara de café com leite e um pão com manteiga. Estava com fome e o estômago roncava pedindo alguma coisa para digerir. Depois disso pegou um ônibus e foi para os lados da indústria onde iria trabalhar. Estava disposto a conhecer previamente o local que seria sua casa por assim dizer, nos próximos anos se tudo corresse de acordo. Serviria para avaliar a conveniência ou não de mudar-se para as proximidades da fábrica, se é que havia alguma pensão ou mesmo um alojamento compartilhado com colegas na redondeza.
 
Teve que mudar duas vezes de ônibus para chegar ao destino. Isso tornava a questão complicada, pois, salvo existisse uma linha que fizesse o percurso em trajetória mais direta, seriam mais de três horas por dia para ir e voltar do trabalho. Ao chegar nas proximidades da imensa fábrica recém instalada, pronta para entrar em operação sentiu um orgulho inexplicável. A partir da próxima segunda feira faria parte daquilo ali. Seria uma peça na engrenagem, mas isso já bastava. Fazer parte daquele enorme progresso que se deixava antever. Decidiu indagar ali se existia uma linha de transporte que o deixasse perto da pensão, em menos tempo.
 
Ficou sabendo que entraria em operação no dia seguinte, experimentalmente, uma nova linha que faria o percurso de modo direto, até o centro da capital. O ponto final ficava pouco distante da Estação da Luz. Era preciso saber o tempo que seria gasto nesse percurso para avaliar se valeria a pena permanecer na pensão de dona Marinês ou mudar-se para um lugar mais próximo da indústria. Viu por ali alguns ciclistas e lhe ocorreu que, dependendo da distância, poderia comprar uma bicicleta para ir e vir pedalando. Economizaria o dinheiro da passagem, já que nessa época ainda não existia o “vale transporte”, coisa surgida bem mais tarde.
 
Na dúvida, indagou na região sobre a existência de pensões e pousadas. Recebeu algumas indicações e decidiu investigar depois de almoçare. Comera pouco no café da manhã e estava com fome. Encontrou um pequeno restaurante de um nordestino, onde comeu comida típica, com bastante pimenta. Apreciava o ardido da pimento e não estranhou. Conversou com o proprietário, falando que até os últimos dias trabalhara com um cearense dono de uma oficina na região do Brás. Agora iria trabalhar na indústria instalada ali perto.
 
– Eu estou pensando em construir aqui nos fundos do terreno algumas peças para alugar. Acho que vai haver bastante procura, depois que essas fábricas começarem a funcionar. Vou esperar um pouco ainda, mas é bem possível que faça isso.
– Serei um possível candidato a vaga. Moro numa pensão lá no Brás e estou vendo que vai ser demorado vir todos os dias de ônibus de lá até aqui e voltar.
– Vai gastar para lá de três horas, somando tudo.
– Esse tempo ficá melhor aplicado descansando, passeando ou mesmo estudando.
– Pretende estudar, mesmo empregado, trabalhando?
– Vou ver se consigo fazer as duas coisas.
– Aqui perto estão construindo uma escola do SENAI. Acho que é isso. Maria! Oh Maria!
– Que foi? – falou a mulher saindo por uma porta que dava para a cozinha.
 – A escola que estão construindo ali perto daquela outra escola, é do SENAI?
– É sim. Pelo menos isso está escrito numa grande placa que tem na frente.
– Eu acabei de fazer curso no SENAI. Mas eles tem uma porção de outros e posso fazer, para o caso de não ter vaga de uma especialidade, tenho outra opção.
– Sabes, tu és bem sabido, bichinho. Fazer curso para o caso de perder o emprego numa fábrica, pode arranjar numa outra com outro trabalho diferente. Isso é boa ideia, não sabe?
– Costuma-se dizer que alguém prevenido vale por dois.
– Verdade verdadeira, home!
Conjunto habitacional moderno.

 

Vista recente de SBC

 

Ponto de ônibus anos 50.
 
Nisso veio a comida e Manoel se pôs a comer com vontade. A inatividade fizera a fome ficar um pouco disfarçada, mas ao sentir o cheiro da comida voltou com toda força. O dono foi atender a outros fregueses que vinham chegando. Eram trabalhadores das redondezas. Vinham de oficinas, escritórios e balcões de lojas para comer, ter um pequeno descanso e depois voltar para o expediente da tarde. Manoel saboreou com prazer o prato variado que pedira e regou tudo isso com uma garrafa de cerveja. Não tomaria vinho, pois queria andar pelas redondezas em busca de pensões e pousadas. O vinho o deixaria sonolento e desatento. Não era conveniente.
 
Ao terminar a refeição pagou com gosto e deixou uma gorjeta que achou generosa, despediu-se e saiu. Andou a procura das pensões e pousadas que lhe haviam indicado e encontrou uma pensão, com aparência de ser limpa. Os hóspedes que estavam à vista eram de aspecto digno e provavelmente de boa convivência. Indagou o preço, as condições e deixou dito que, se decidisse, voltaria nos próximos dias em busca de hospedagem. Continou a procurar, mas os demais lugares eram mal conservados, com aparência de sujos, hóspedes mal encarados. Ou ao contrário, eram muito bons, porém os preços também condiziam com isso.
 
Tinha como objetivo economizar o máximo que podia. Não era seu projeto de vida ser empregado para o resto da vida. Mesmo sabendo da possibilidade de se aposentar, não confiava nesse Sistema. Quem garantiria que, quando chegasse a hora de usufruir do benefício, não teriam mudado as regras, o dinheiro das contribuições sumido e os beneficiários ficariam na mão? Melhor ter seu pecúlio, depois montar seu próprio negócio, nada muito grande. Não era ambicioso a esse ponto. Queria ser dono do seu próprio nariz e isso seria conseguido economizando trodos os meses uma boa parcela dos seus ganhos. Se houvesse chance de fazer horas extras ele faria, sempre que possível. Geraria excedente para ser economizado.
 
Em seu íntimo pensava no dia em que seria dono de um estabelecimento. Pensava no nome, na fachada, até o ramo de negócio era ainda uma incognita. Não sendo coisa de urgência, teria tempo suficiente para pensar sobre tudo com vagar. Em dado momento pensou em casamento, mas isso representava atraso na realização de seus planos. Deixaria para pensar em ter uma família quando se estabelelcesse com seu próprio comércio. Daí sim poderia dar a uma mulher a vida que julgava digna de uma companheira do homem. Os filhos teriam o que de melhor lhes pudesse proporcionar. Com esses pensamentos chegou de volta às proximidades da indústria e ali embarcou de retorno à capital. Pela sua avaliação, com uma bicicleta faria o percurso da pensão que lhe agradara em no máximo quinze minutos. Bem melhor do que ficar três horas diárias sacolejando dentro de um ônibus.
 
Antes de embarcar no ônibus, perguntara ao porteiro da indústria se haveria lugar para deixar uma bicicleta durante o expediente, ao que esse perguntou:
– Pretende vir de bicicleta da capital?
– Não meu amigo. Estive vendo uma pensão aqui perto e posso vir de bicicleta, se puder guardar em algum lugar.
– Tem o estacionamento e ali há onde guardar uma bicicleta. Acho até que estão pensando em fazer um lugar especial pra elas.
– Obrigado amigo. Vou procurar uma de boa qualidade para comprar.
– Compre lá na capital que encontra mais barata.
– Com certeza. Até segunda feira, amigo.
– Até segunda, cumpanheiro.
 

 

O relógio lhe indicou o tempo da viagem de retorno. Uma hora e vinte e cinco minutos. Restavam ainda umas dez quadras para percorrer a pé e isso resultaria em mais de três horas, quase três e meia todos os dias. Não haveria alternativa. O jeito era mudar, mesmo lamentando deixar a pensão de dona Marinês. Não poderia se dar ao luxo de ser sentimental se quisesse manter o foco no seu objetivo. Teria sempre um lugar onde ir passear nos finais de semana, rever os amigos, jogar conversa for a. Era útil mudar de ares de vez em quando. 
 

 

Aero Willys do Brasil.

 

 

Estacionamenteo de automóveis.

 

Represa Billings, com mata atlântica ao fundol

 

Loja de música anos 50/60

 

Renault Dauphine, precursor do Ford Corcel.
 

Um japonês especialista em cachaça! – Capítulo IV

Veiculos em São Paulo anos 50

 

Ônibus do transporte coletivo em SP.

 

Movimento nas ruas de SP nos anos 50.
Fotografias baixadas da página Fotos de São Paulo anos 50.

 

4. – Um bom começo, traz uma supresa 
 
desagradável.
 
            O almoço na pensão era simples mas bem temperado e nutritivo. Dona Marinês viera mocinha com os pais do nordeste e a vida dura levara-lhe os pais quando contava apenas com 16 anos. Um irmão mais velho e outros dois menores foram obrigados a dar conta de se cuidarem mutuamente. Empregara-se em um restaurante como ajudante e fizera de tudo. Começando com faxina, depois lavar louça, cortar legumes e finalmente iniciara seu aprendizado na cozinha. A cozinheira, já um pouco idosa, com gosto foi delegando tarefas à voluntariosa mocinha e assim em algum tempo tinha dominado todos os segredos que a velha senhora detinha.
 
            Um dia a cozinheira ficou doente e foi desenganada pelos medicos. Como isso aconteceu de um momento para outro sem aviso prévio, quem ficou provisóriamente no lugar da cozinheira, foi Marinês. Colocou em prática tudo que aprendera e usou a criatividade para incrementar alguns pratos, sem no entanto alterar-lhes a essência. Resultou que no final da refeição o dono do restaurante veio lhe dar congratulações pelo excelente desempenho. Vários clientes habituais haviam vindo lhe externar sua satisfação com os pratos que haviam ficado mais saborosos. Indagaram inclusive se havia trocado a cozinheira, ao que ele falou que não. Deveria ser alguma inovação da mesma.
 
            Não faria uma mudança definitive antes de saber o verdadeiro estado da antiga funcionária. Sabia que ela era idosa e poderia não resistir ao ataque de coração que sofrera. Após uma semana de internação, pequenas melhoras e recaídas depois, a velha profissional encontrou o descanso eterno. Restava ao proprietário decidir pela contratação de uma nova cozinheira ou confirmar a antiga ajudante para a posição de titular. Decidiu esperar mais um ou dois dias e observar o comportamento da jovem. Ao final da semana, antes de qualquer decisão, foi conversar com Marinês.
 
            A coitada levou um susto quando o patrão veio lhe falar novamente em questão de poucos dias. O falecimento da chefe havia deixado uma lacuna profunda e ela imaginou que havia sido considerada incompetente. Seria provavelmente despedida e teria que procurar outro trabalho. Ao contrário do que supunha, o patrão veio lhe propor algo que mudaria sua vida.
            – Marinês, você aceita ser a nova cozinheira chefe?
            – Eu, seu Júlio?
            – Sim, você. Por que a surpresa?
            – Pensei que o senhor não estava satisfeito com meu trabalho e iria me demitir.
            – Demitir você! Não notou que nesses dias houve um aumento bem grande de fregueses no estabelecimento? Desde aquele dia que vim lhe fazer o elogio a cada dia mais gente nova tem vindo comer aqui e depois veio elogiar sua comida.
            – Eu estava ocupada trabalhando e nem percebi nada.
            – Quer dizer que não tem nada contra a ideia?
            – Espero saber fazer tudo o que a Dona Joana fazia. Ela tinha muita experiência.
            – Eu acho que você soube aproveitar bem a convivência com ela e aprendeu tudo direito. Vou avisar aos demais auxiliares que a partir de hoje você é a nova cozinheira chefe. Seu salário vai melhorar bastante e espero que saiba mandar os outros fazer o serviço menos importante. Dedique sua atenção aos detalhes para que os pratos fiquem ainda melhores. Acho até que pode aprender a fazer algumas coisa novas. Vou verificar se há alguém para lhe passar umas receitas diferentes. Vamos ampliar nosso cardápio.
            – Eu nem sei o que dizer, seu Júlio. É claro que eu aceito e quero que sempre me fale se alguma coisa tiver que ser melhorada.
 
            Assim ela assumira a chefia da cozinha do restaurante e algum tempo depois ele se tornara um dos pontos mais procurados pelos comerciários, funcionários públicos, advogados e mesmo empresários que estavam na região, na hora de almoçar e jantar. A nova posição de Marinês no restaurante, permitiu ajudar mais a família e custear os estudos dos irmãos para poderem ocupar melhores posições. Um belo dia encontrou um conterrâneo muito galante, aparentava estar bem colocado na vida e se apaixonou por ele. Após alguns meses se casaram e foram morar na casa que Marinês conseguira comprar com suas economias.
 
            O mais triste da história veio depois de passados os dias de festa e comemoração. O noivo apaixonado, gentil e atencioso, sempre ostentando prosperidade, mostrou ser bem diverso, uma vez casados. Sua prosperidade era apenas de fachada, começando a ficar até tarde na cama, usando para isso uma desculpa qualquer. Logo começou a pedir dinheiro para despesas de viagem de negócios e Marinês, a princípio deu de bom grado. Um momentâneo aperto logo seria superado e tudo voltaria ao que parecera ser.
 
            No entanto esse dia de normalizer tudo nunca chegou. Ao contrário, cada vez mais o marido se tornava exigente, pedindo mais dinheiro, demonstrando um ciume doentio, querendo vigiar os passos da esposa. Isso não tardou a deixare a infeliz bastante constrangida. Tinha crises de nervosismo no trabalho, mostrava-se irritadiça com as auxiliares, cometeu alguns erros na preparação de pratos e o patrão percebeu.
 
            Veio conversar com Marinês querendo saber o que acontecia. Inicialmente ela deu a desculpa de que andava nervosa. O marido a pressionava para terem um filho e ela estava demorando a engravidar. Isso a deixava for a de seu normal. Por algum tempo isso funcionou, ela se esforçou por controlar suas reações indesejáveis e aparentemente tudo voltou ao normal.
 
            Um dia o marido veio pessoalmente ao restaurante fazer exigências à mulher. Queria que ela exigisse aumento de salário, participação no negócio, pois ela teria condições perfeitamente de buscar trabalho em um estabelecimento mais categorizado. Julio ficou indignado, pedindo de modo firme, embora comedido que ele se retirasse do recinto. Os clientes ficaram alarmados e alguns se puseram ao lado do dono para lhe garantir a segurança. Um deles saiu de mansinho indo em busca de socorro policial existente não muito longe.
 
            Alguns minutos depois uma dupla de agentes de segurança chegaram ao estabelecimento e convidaram o arruaceiro a se retirar. Diante da recusa, deram-lhe voz de prisão e o levaram ao destacamento a duas quadras dali.
 
            Quando Marinês soube como o episódio terminara caiu em uma crise de choro e desespero. O que seria de sua vida? Como poderia continuar trabalhando se o marido estava se indispondo abertamente com o patrão? Os auxiliares a confortaram e se esmeraram em seguir suas orientações para completar o serviço daquela refeição. Depois do encerramento do serviço, Júlio chamou seu advogado e debateram a atitude a tomar diante do acontecido. Marinês estava preocupada com a prisão do marido. Também temia pelo que ele faria se fosse solto. Como ele iria reagir a tudo isso? Em menos de dois anos de casamento ele se transformara de um homem gentil, suave e carinhoso em alguém irascível, cruel e malvado. Em várias ocasiões se mostrare relativamente agressivo.
 
            Ainda não a agredira para valer, mas temia que isso seria apenas questão de dias, talvez mesmo hoje. O advogado sugeriu que deixassem o arruaceiro curtir um dia ou dois na cadeia. Isso Marinês julgou ser o pior a fazer, pois demosntraria pouco caso com a sua condição. Acompanhada do homem de leis foi até a delegacia para verificar em que pé estava a situação do marido. Lá chegando, foi avisada pelo delegado que o mesmo estava na cela igual a um tigre selvagem enjaulado. Trocaram impressões sobre a melhor atitude a tomar e, a pedido de Marinês, ele foi solto. Não sem antes receber do delegado uma boa descompostura pela desordem que causara no restaurante.
 
            Na hora ele prometeu se emendar, mudar de atitude, dizendo que estivera transtornado por negócios que não haviam corrido como o esperado. Clientes que lhe haviam dado calote e coisas assim. Marinês tinha quase absoluta certeza de que isso tudo não passava de invenção. Desconfiava há algum tempo de que na verdade ele não trabalhava, apenas gastava dinheiro e talvez mesmo participasse de atividades ilícitas. Apenas não tinha provas nem certeza de nada.
 
            Saíram da delegacia e seguiram para casa. Depois que se separaram do advogado o indivíduo não tardou a voltar com suas exigências à Marinês. Queria que ela se demitasse do restaurante e ele a levaria a um amigo, dono de outro estabelecimento. Ali se tornariam sócios, ganhariam muito mais dinheiro e ele inclusive assumiria a gerência, pois o dono estava adoentado. Precisava de tratamento e repouso. A insistência foi tanta que ela por fim aceitou.
 
Carros antigos em São Paulo.

 

Desfile de Romi-Isettas em São Paulo
 
            A saída de Marinês do restaurante, deixou Júlio muito compungido. Não seria fácil encontrar alguém para substituí-la com facilidade. Uma ajudante novamente veio a resolver seu problema. Não tinha o traquejo de Marinês, mas com um pouco mais de prática daria conta do recado.
 
            Marinês foi para o novo restaurante, mas nada do que o marido falara era verdadeiro. O dono era bastante grosseiro, exigente e para falar a verdade, pouco entendia do negócio. Depois descobriu que ganhara dinheiro de maneira pouco limpa e agora queria ter seu negócio legal, honesto. Assim teria uma forma de dar uma orígem aparentemente honesta, ao dinheiro que tinha. Desconfiou que não deixara de exercer sua atividade ilícita, inclusive que o marido era cúmplice dessa ocupação. O tempo passou, uma série de desentendimentos com o patrão, levaram Marinês ao ponto de querer largar tudo e desaparecer. Em um belo dia ouviu o marido falando com o patrão e combinarem o próximo golpe. Sentiu o coração desfalecer.
 
            Então era essa a fonte do dinheiro usado pelo agora marido, no tempo de namoro e noivado, para aparentar prosperidade. Estavam metidos em roubos e receptação de mercadorias roubadas. Tinham um esquema de suborno com homens da polícia e mesmo dos escalões superiors para lhes dar amparo as atividades. Ficou apavorada com a descoberta. Durante vários dias ficou indecisa. Deveria revelar o que sabia às autoridades? Deveria ficar quieta e fazer de conta não saber de nada? Havia o risco de ir denunciar exatamente a alguém que estivesse mancomunado com a quadrilha. Isso a colocaria diretamente na boca do lobo. Em caso de descobrirem as atividades ilegais, qual seria sua defesa?
 
            Depois de muito pensar, aproveitou um momento de folga e foi falar com o Senhor Júlio. Meio sem jeito procurou contar o que ficara sabendo e revelou suas dúvidas sobre o que fazer.
            – Mas você tem certeza disso que me falou?
            – Eu ouvi eles falarem sem medo. Pensavam que eu tinha saído para fazer compras. Voltei antes e eles não perceberam. Quando terminaram eu saí de perto para não me verem. Acho que se eles descobrissem eu ali escutando, seria possível até que corresse perigo de vida.
            – Penso que deveria denunciar isso, mas sem que seu nome apareça. Me autorizas a conversar com o advogado sobre isso?
            – Eu não sei se devo, mas preciso fazer alguma coisa. Não posso ficar quieta esperando sem fazer nada. Eu também estou envolvida nisso. Afinal sou casada com um deles.
            – Volta para a sua cozinha, Marinês. Fica quieta e deixe por minhã conta. Vou conversar com meu advogado e encotraremos uma forma de ajudar você. Talvez se consiga fazer uma denúncia ou passar uma pista para autoridades superiores.
            – O complicado é saber que tem gente graúda envolvida na história.
            – Temos que tomar cuidado para que isso não caia nos ouvidos errados, que o tiro pode sair pela culatra.
 
            Marinês voltou ao novo restaurante bem a tempo de não ser surpreendida pelo marido durante a volta. Isso não podia acontecer de maneira alguma. O advogado ouviu de seu Júlio a narração da história e começou a juntar os fatos. Havia um rumor de que existia uma quadrilha dedicada a roubos, assaltos diversos, e ninguém sabia quem eram os cabeças. Os pequenos delinquentes era presos e interrogados, mas não revelavam os nomes de quem comandava o esquema. Não tardava e algum advogado apresentava um habeas corpus, conseguia impugnar os depoimentos, desqualificar as testemunhas e livravam o malfeitor. Enquanto isso a quadrilha prosseguia em atividade. Passavam alguns dias quietos e logo voltavam a agir, mudando de região, de foco de seus ataques. Assim disfarçavam bastante as pistas, dificultando sua identificação.
 
            O advogado fizera algumas indagações de modo sutil e soubera de um promotor interessado em por a quadrilha atrás das grades. Alegando um motivo qualquer agendou uma entrevista com o jurista. Depois de falar de assuntos de menor importância abordou o verdadeiro motivo que o levara ali. Narrou por alto os fatos, sem inicialmente citar nomes. Depois disso o interesse do promotor estava despertado. Indagou detalhes e pormenores. O advogado decidiu contar todos os detalhes. O homem encarregado de fazer a aplicação da lei, ouviu com atenção, anotou tudo detalhadamente e prometeu sigilo absoluto.
 
            Dispunha de maneiras de conduzir uma investigação, usando para isso homens de sua confiança nas fileiras das forças de segurança. Quando tudo estivesse descoberto e identificado, as prisões seriam efetuadas de uma única vez. Demorou alguns meses até que a equipe do promotor conseguiu levantar todas as informações. Na verdade o que parecia uma pequena quadrilha, revelou-se uma organização bem mais ampla, com ramificações em diferentes areas e escalões dos órgãos públicos. Seria uma operação bem complexa e o êxito era bem difícile, devido a impossibilidade de saber em quem seria possível confiar. Qualquer funcionário, agente ou mesmo autoridade, poderia ser um integrante da organização criminosa.
 
            No final conseguiu reunir provas suficientes para prender de uma única vez, pelo menos, a maioria dos cabeças da organização. Era claro que alguns iriam escapar, mas se conseguissem lhe quebrar a espinha dorçal, talvez depois fosse possível desmontar o resto. No mínimo demorariam muito para refazer toda estrutura. No dia que iriam realizar as prisões, a quadrilha tinha marcado mais um grande golpe. Havia um agente de confiança infiltrado e estava passando as informações de tudo. No momento da ação criminosa, os bandidos foram até certo ponto como tudo for a combinado.
 
Bondes convivendo com os carros nos anos 50 em SP.

 

Uma das primeiras trincheiras nas ruas de São Paulo.
 
            De repente apareceram veículos de policiais, agentes a pé, policiais militares de todos os lados, como um verdadeiro enxame. Enquanto os encarregados de realizar a ação criminosa foram surpreendidos e presos em sua quase totalidade, os cabeças identificados até ali, eram surpreendidos em suas casa por outras equipes e por sua vez conduzidos ao quartel general da operação. Reuniram um contingente bem maior de pessoas do que inicialmente haviam sido identificados. Foi preciso fazer uma triagem para ver quem realmente fazia parte e quem caira no meio da questão por acaso.
 
            Para surpresa das autoridades, encontraram no meio dos detidos uma porção de rostos conhecidos, ocupantes de posições dentro da administração pública e das forças de segurança. Isso ocorrera nos anos após o término da Segunda Gjerra Mundial. Os processos de investigação continuaram, os julgamentos e condenações foram extensos, alguns conseguiram ser absolvidos ou ter suas penas reduzidas. Os principais chefes eram exatamente o patrão e o marido de Marinês. Os dois se viram condenados a penas bastante longas.
 
            O que aumentara suas condeçaões foram as acusações cumulativas de assassinatos, com formação de quadrilha, roubos e assaltos. Dessa forma eles permaneceriam por mais de quinze anos enjaulados. Era possível que, se tivessem bom comportamento, em oito ou dez anos viessem a gozar de regime semi-aberto ou algo assim. O restaurante foi interditado, ficando Marinês momentaneamente sem emprego. Nessa situação encontrou-se com Júlio e ele lhe indicou um estabelecimento que estava à venda. Conseguiur vender a casa que era sua, tinha algum dinheiro guardado e o que faltou o antigo patrão lhe adiantou. Ela adquirira a pensão, onde até hoje trabalhavad, vivendo e lamentando sua má sorte.
 
            Tivera nas mãos a grande chance da vida e a desperdiçara com um homem que, ao que parecia, estaria saindo em pouco tempo da prisão. Manoel enquanto isso se tornou elemento essencial na oficina de seu Chico Cearense. O que aprendera na terra natal estava servindo para lhe garantir um meio de sobrevivência nesse início na capital paulista. O patrão estabelecia os preços dos serviços e lhe pagava uma comissão sobre o total, descontado o custo das peças. Ele desconfiava que as peças custavam menos, mas não tinha acesso à esses detalhes. Nem se preocupou demasiado com isso , pois não tinha intenção de fazer disso seu modo de vida. Esperava apenas terminar seu curso no SENAI para ir em busca de um lugar na indústria. Os meses passaram e as aulas de aprendizagem, embora exigissem bastante dos alunos, eram extremamente estimulantes.
 
            Desde criança Manoel sonhara com aquilo. Teria como participar da fabricação de peças para os automóveis que iriam ser produzidos no país. Certo que seria apenas uma peça na grande engrenagem da indústria, mas um bom número de pessoas iria rodar pelas rodovias do país, em um veículo com algumas peças que ele ajudara a fabricar. Isso o enchia de vontade para continuar a estudar e logo estaria usando um uniforme de uma grande indústria.
 
            Quando terminou o custo, tendo sido aprovado com louvor e recebido seu diploma, procurou a fábrica da Willys Overland do Brasil, mas ali não havia vagas para a sua especialidade. O encarregado da recepção lhe deu a indicação para procurar uma das indústrias de peças. Na fábrica de automóveis, na verdade apenas era feita a montagem dos carros, a solda das peças de carroceria, a pintura e por último a colocação das demais peças como eixos, rodas, Sistema de transmissão e moteres. Por último vinha o acabamento e controle de qualidade.
 
            Um pouco frustrado foi até uma das indústrias de peças. Na primeira não usavam muito serviço de tornearia, mas na segunda sim, encontrou o que procurava. Preencheu sua proposta, deixou as informações de sua habilitação e lhe prometeram entrar em contato em alguns dias. Voltou para a pensão e no dia seguinte foi trabalhar na oficina para ocupar o tempo. Tinha serviço começado e queria terminar. Um carro estava com a suspensão toda desmotada, esperando peças para substituição das que estavam desgastadas. Ao chegar o patrão o chamou e indicou onde estavam as peças que deveria usar.
 
            Eram usadas, pois o carro era mais antigo e não existiam peças novs genuinas. Tinham que recorrer aos depósitos de ferro velho que desmotavam os carros, por algum motivo destruidos ou danificados. As peças eram vendidas para usar nos veículos do mesmo modelo que estivessem precisando ser consertados. Levou todo material para perto do lugar em que iria trabalhar e começou a executar o trabalho com diligência. Em alguns momentos pediu ajuda a um rapaz ainda aprendiz, quando era necessária força auxiliar. Dessa forma, ao final do dia o serviço estava quase pronto.
 
            Chico perguntou se poderia excepcionalmente terminar o serviço, pois o dono tinha urgência. Como não tinha mais o compromisso de ir para aula à noite, continuous e quando já anaoitecia, conseguiu terminar de colocar a última peça. Conferiu tudo desde o começo e constatou que estava tudo em ordem. Nenhum parafuso ficara sem apertar devidamente, nenhuma trava faltava ser colocada. Estava pronto para um teste de rua. Chico sentou-se ao volante e fez o motor funcionar. Depois de uma tossida inicial, devido ao fato de ter ficado alguns dias parado, o motor roncou forte. Foi dada uma volta na quadra e não se verificou nenhum problema.
 
            Nisso o dono do veículo chegou, viu o serviço pronto, deu por sua vez uma volta e verificou que ficara tudo em ordem. Regateou um pouco na hora de pagar, mas no fim quitou o débito e saiu dali dirigindo seu veículo reformado. Estava pronto para mais uma longa temporada de bons serviços.
 
            Nesse meio tempo, o ex-marido de Marinês e o comparsa haviam sido liberados da prisão em liberdade condicional. Como pau torto não endireita, em poucos dias haviam articulado um esquema de conseguir dinheiro de modo fácil. Alugaram um grande galpão, meio abandonado e ali iniciaram a desmontagem de carros roubados. As peças eram vendidas nos ferros velhos, cujos donos não perguntavam da procedência. Bastava que o preço estivesse em níveis aceitáveis e o negócio era fechado. Assim começou a ocorrer um surto de roubos de carros em todo estado. Por caminhos tortuosos, placas trocadas, na calada da noite eles eram trazidos para o galpão onde um grupo de elementos se encarregava do desmonte.
 
            Em algumas horas o carro desaparecia, sem deixar vestígio. As peças eram levadas para os mais distantes recantos da capital, expostas em ferro velho. Os donos de oficinas agradeceram uma oferta extraordinária de peças para reposição nos carros que tinham que consertar. Antes chegavam a demorar vários meses até conseguirem peças e poderem fazer a manutenção. Além de tudo, os veículos desmontados ocupavam os espaços em suas oficinas.
 
            Por outro lado as autoridades policiais se viam às voltas com um crescente número de queixas de roubo de veículos, ocorridos nos mais distantes recantos do estado. Não havia uma região de concentração. Aconteciam roubos em toda parte, de modo sistemático. O que mais intrigava era o fato de que esses veículos simplesmente sumiam de vista. Por mais que se procurasse, não era possível encontrar nem rasto. Em determinado momento um agente reparou num caminhão carregado de peças de automóveis. De onde viriam essas peças?
 
            Decidiu seguir o veículo e viu quando ele encostou num ferro velho e ali descarregou parte do que trazia. Depois foi até outro estabelecimento semelhante e descarregou o restante. Levou a questão ao delegado sob cujas ordens servia. Relatou detalhadamente o que observara e o superior perguntou:
            – E o que tem isso? Deve ser um ferro velho vendendo para outro peças que estão sobrando, não acha?
            – Tive a impressão de que ali tem coisa errada, doutor. O motorista e o ajudante, ficavam olhando de modo estrando ao redor, como se temessem ser surpreendidos a qualquer momento.
            – Anotou o modelo do caminhão, o número das placas?
            – Claro, doutor. Até já fiz o levantamento do nome do proprietário. Está tudo aqui.
 
            Estendeu uma folha de papel em que anotara tudo que conseguira reunir. O delegado leu tudo e quando viu o nome do dono do caminhão, teve um lampejo de entendimento. O nome não lhe parecia estranho. Apenas não lembrava de onde o conhecia. Isso não seria difícile descobrir. Bastaria mandar um aviso a todas as delegacias e órgãos policiais. Em um ou dois dias teria a informação. Se o nome fosse de alguém ligado a atividades criminosas logo teria a resposta.
 
            O que ele não esperava, era que as placas levaram a um endereço e um homem que tivera seu carro furtado há algum tempo. As placas pertenciam a um automóvel de passeio e não um caminhão. Isso deixou o caso mais complicado. Significava que o tal caminhão também era provavelmente furtado e as placas eram falsas. Precisariam mandar um aviso a todas as unidades policiais para ficarem de olho nesse caminhão. Depois seria esperar pelas respostas.
            Em três dias chegou a resposta. O veículo estava naquele momento descarregando peças de automóvel num ferro velho no bairro, bem perto da delegacia. Sem demora uma equipe foi até lá para averiguar. Ao chegarem o veículo estava de saida. O motorista lançou um olhar enviesado aos agentes e seguiu seu caminho. O chefe da equipe resolveu seguí-lo e logo percebeu a tentative de despiste que ele estava usando. Quando entrou em uma rua que não tinha outra saída salvo do outro lado, depois de uma grande volta. Conseguiram avisar uma outra equipe para ficar de campana na saída da rua enquanto eles o seguiam de longe, como quem não está interessado nele.
 
            Num dado momento, o caminhão sumiu de vista, depois que passou por uma curva e nada mais era visível. A única coisa na redondeza era um velho galpão, que certamente pertencera a alguma empresa que fechara as portas ou encerrara sua atividades no local. Pararam a alguma distância e caminharam lentamente até as proximidades parando para ouvir detalhadamente. No início não ouviram nada, mas um ruido de marteladas vinha de longe, o tinido de ferramentas era levemente audível. Isso deixou os policiais em alerta.
 
            Comunicaram com a delegacia e deram conta do que acontecia. O delegado decidiu sabiamente chamar a equipe de volta. Mandaria alguém sem identificação vigiar o logal depois. Estava parecendo que estava prestes a identificar uma organização bem maior do que imaginava. Os encarregados de vigiar foram dois agentes, disfarçados de varredores, roçadores para remover o mato que crescia em alguns lugares ao longo da rua. Enquanto trabalhavam, ficavam vigiando o galpão. Durante o dia não viram nada de anormal, a não ser um outro caminhão saindo com a carroçeria coberta por uma lona. Era possível suspeitar de peças de carros escondidas debaixo do encerado.
 
            O delegado decidiu deixar outra equipe de plantão para vigiar durante a noite. Era provável que os veículos roubados eram trazidos sob o disfarce da escuridão. E foi isso que aconteceu. Em horários diversos, três carros de passeio e um pequeno caminhão entraram no galpão. O portão foi fechado e não se viu ninguém sair. Provavelmente os motoristas tinham de um lugar de saída por outro lado, para não dar na vista. Tendo essas informações em mãos, o delegado se reportou aos superiores pedindo orientações e reforços para uma ação conjunta. Desconfiava tratar-se de uma quadrilha superior às forças de que dispunha em sua delegacia.
 
            Foram feitas mais algumas diligências e fez-se um levantamento de todos os estabelecimentos de comércio de peças usadas que recebiam suprimentos provenientes desse galpão. Poderiam ter também outros lugares de fazer o desmanche. Uma vez feito o levantamento, até as oficinas que compravam as peças dos carros roubados foram identificadas. Uma delas era a de Chico Cearense, onde Manoel trabalhava.
 
            No instante em que o dono do carro embarcou para sair dali, a oficina foi invadida por um grupo de policiais, dando voz de prisão a todos os presentes. Surpresos ninguém se mexeu, pois não sabiam de nada anormal em suas vidas. Em poucos minutos estavam sendo conduzidos a delegacia mais próxima para serem interrogados.
 
            As perguntas giravam em torno da questão de compra de peças usadas em ferro velho para colocação em veículos estragados. Foram confrontados com o fato de existir uma quadrilha de roubos e desmonte de carros, para vender as peças. Nem Chico, muito menos Manoel e os outros que estavam com ele, tinham qualquer ideia desse assunto. Foram identificados e seus depoimentos anotados. Depois disso foram liberados e puderam voltar para casa. Ninguém tinha ideia do significado daquilo tudo. Chico comprava suas peças usadas há anos dos mesmos fornecedores. Realmente percebera ultimamente a existência mais abundante de peças a venda, mas jamais imaginara que isso se devia ao roubo que aumentara recentemente.
 
            Manoel chegou na pensão tarde da noite, com fome e teve que se contentar com um copo de leite que encontrou na geladeira e um pedaço de pão. Comeu e foi dormir. Na manhã seguinte decidiu dormir um pouco mais e depois foi tomar café. Enquanto comia, Marinês indagou de sua vida e ele lhe narrou o que acontecera no dia anterior. Nesse momento ela deu um pequeno “tapa” na própria testa e falou:
            – São eles!
            – Quem dona Marinês?
            – São eles. Sairam da prisão há uns três meses e já estão aprontando outra vez.
            – Continuo não entendendo. De quem a senhora está falando?
            – Do meu ex-marido e do comparsa dele. Estavam presos há mais de dez anos e agora estão soltos. São paus tortos que não endireitam nunca.
            – A senhora acha que eles tem a ver com a questão dos roubos de carros?
            – Isso começou quando? Não faz coisa de dois ou três meses?
            – Pelo que o delegado falou, sim. Mas será que eles sairam da prisão e já estão metidos em roubo de carros?
            – Sou capaz de apostar que sim.
            – Tomara que peguem eles logo.
            Ao chegar à oficina, Manoel viu a porta fechada. Uma fita amarrada e um pequeno cartaz dizia: “Estabelecimento interditado até o esclarecimento de utilização de peças de carros roubados”.
 
            Pronto. Mais uma vez via sua vida sendo envolvida de modo indireto em questões com a justiça. Só torcia para que não viesse atrapalhar seu ingresso na indústria. Investira seu trabalho, seus esforços na obtenção dos requisites para esse emprego e não queria que um envolvimento com justiça viesse atrapalhar seus planos nesse momento.
 
            Dois dias depois saiu nos jornais estampada a fotografia dos dois ex-presidiários, que estavam comandando uma organização dedicada ao roubo de carros e posterior desmonte. As peças eram vendidas aos donos de ferro velho, que por sua vez as vendiam aos donos de oficinas ou carros para aplicação nos veículos quebrados. Junto com eles um grande grupo de ladrões, puxadores, motoristas foi detido. As culpas eram menores, porém todos tinha sua participação nas ações criminosas. Até mesmo uma ou duas mortes haviam ocorrido durante as ações de roubo, quando os donos reagiram a ação.
 

 

            A sorte era que os donos de oficinas eram tidos como partícipes sem culpa, apenas tendo servido como aplicadores finais das peças. Não tinham como saber da orígem criminosa do que compravam. Os preços haviam continuado no mesmo nível de sempre, até um pouco mais caras em alguns casos. Dessa forma foram inocentados. Isso significou um imenso alívio para Chico Cearense e seus empregados. Quem mais ficou satisfeito com esse desfecho, foi Manoel. Não teria por que temer quanto ao seu ingresso na indústria. 
 
Ponte sobre avenida em São Paulo.

 

Garagem americana nos anos 50.
 

Um japonês especialista em cachaça – Capítulo III

 

Edificio da estação da luz.

 

Plataforma de embarque da estação da luz.

 

Estação da Luz lotada em dia de falhas no sistema.

https://www.google.com.br/search?q=esta%C3%A7%C3%A3o+da+luz&espv=2&biw=1093&bih=534&tbm=isch&imgil=KvRdFCKpUmkGIM%253A%253B0V-3Utrby2x2uM%253Bhttps%25253A%25252F%25252Farchitetour.wordpress.com%25252F2009%25252F10%25252F23%25252Festacao-da-luz%25252F&source=iu&pf=m&fir=KvRdFCKpUmkGIM%253A%252C0V-3Utrby2x2uM%252C_&usg=__qztLOGX-OsLaHWls1e-NbomktG4%3D&ved=0CEUQyjc&ei=qAOBVIeEF4WsyASw6IGABw#facrc=_&imgdii=_&imgrc=KvRdFCKpUmkGIM%253A%3B0V-3Utrby2x2uM%3Bhttps%253A%252F%252Farchitetour.files.wordpress.com%252F2009%252F10%252Festacao-da-luz-2.jpg%3Bhttps%253A%252F%252Farchitetour.wordpress.com%252F2009%252F10%252F23%252Festacao-da-luz%252F%3B4211%3B2805

3. – O presidente bossa nova!
Poucos meses após o desembarque em solo brasileiro os dois imigrantes viram surpresos acotecer um dos fatos mais importantes da história do país. No dia 24 de Agosto de 1954, ocoria o suicídio de Getúlio Dornelles Vargas, em pleno exercício da presidência da República Federative do Brasil. Em seu lugara assumiu o vice Café Filho                          
 
Um período agitado seguiu-se ao evento, culminando com o afastamento do presidente em exercício por motivos de saúde, tomando posse em seu lugar o presidente da Câmara dos Deputados Carlos Luz. Mais intrigas e desavenças levaram a deposição deste último e em seu lugar assumiu Nereu Ramos, presidente do Senado.
 
Com o estado de sítio instalado, o governo foi transmitido à Juscelino Kubitschek de Oliveira, tendo como vice João Goulart, em princípios de 1956. Teria início o período de governo que prometia cumprir uma etapa de 50 anos em 5. Nesse meio tempo nossos estivadores já estavam habituados ao novo trabalho. Os corpos não reclamavam mais do esforço supremo de manejar diariamente centenas, de sacas de café dos armazéns para as plataformas de carga dos navios e mesmo para os porões dos mesmos. Quando não havia carga de café a ser realizada, eram outros produtos, nessa época ainda não embalados em grandes conteiners, a serem descarregados e os braços dos carregadores eram requeridos.
 
Houve períodos em que, para vencerem todo movimento, os turnos de trabalho eram quase ininterruptos, inclusive nos sábados, nos domingos e feriados. A legislação estabelecia que deveriam ser pagos valores majorados por se trabar de horas extras trabalhadas, mas os controladores da força de trabalho procurvam abocanhar sempre uma boa fatia desse recurso. O sindicato atuava, negociava, realizava protestos pacíficos de reivindicação da implantação do que a lei mandava e os chefes relutavam em curmprir o estabelecido. Geravam com isso um clima de insatisfação entre os trabalhadores.
 
Manoel e Cláudio procuravam manter-se afastados na medida do possível desses movimentos, mas não poderiam ficar para sempre alheios. Os colegas os começaram a apontar como renegados, traidores e outros epítetos. Não restou alternativa e começaram a participar timidamente das manifestações. Aos poucos sua participação tornou-se mais ativa e chegaram a ser convidados a integrar uma comissão de negociação com os chefes. Mais afoito que o cumpanheiro, Manoel aceitou, ficando Cláudio na espera para ver o que iria resultar. Foi durante uma reunião dessa comissão para discutir os detalhes das propostas a serem apresentadas, que um destacamento de polícia invadiu o local onde estavam e levou todos para o distrito.
 
Ali começaram a interrogar um e outro. Quando chegou a vez de Manoel, quase por último, a notícia se espalhara por todo cais e uma grande aglomeração de trabalhadores se formou em plena madrugada diante do distrito. Eram mais de dois mil reunidos diante do prédio. Chegaram em silêncio e se postaram ali imóveis. Quando um grupo de agentes foi sair para cumprir uma ordem recebida, foi impedido de sair. Um deles mais afoito puxou da arma para abrir caminho a bala, mas foi contido a tempo pelo superior:
– Você está louco, rapaz? Enfrentar essa multidão! Eles nos fazem em pedaços em dois segundos e não vamos a lugar nenhum. Calma.
Um mulato enorme, membro da diretoria do sindicato, postou-se diante dos policiais e falou:
– Diga ao delegado para liberar nossos companheiros, ou nós vamos derrubar seu distrito e botar fogo. Ninguém estava fazendo nada de errado. Por quê eles estão presos?
– Nós apenas estamos cumprindo ordens. Não sabemos de nada mais.
– Mas nós sabemos quem está por trás dessa prisão. Os chefes do porto que queremo manter a gente no cabresto. Suprimindo nossos direitos para encher os próprios bolsos. Pode chamar o delegado aqui fora conversar com a gente.
– Está bem. Eu vou dar o seu recado, mas não sei o que isso vai dar.
– Nós somos muitos e vocês, por mais que tenham uma porção de armas, são poucos e não terão tempo de matar a todos. Sem contar que isso daria um sururu danado. Iria chover jornalista aqui, até deputado ia aparecer para dar palpate. É bom que isso se resolva na paz. Soltem nossos parceiros e nós vamos embora sem violência.
O comandante do grupo quis voltar com todos para o interior, mas os trabalhadores os cercaram e foi dito:
– Seus homens ficá aqui, até o senhor voltar com o delegado. Pode ir que não fazemos nada, apenas por garantia.
 
Os dois subalternos foram rodeados e ficaram sem ação. Tremiam de medo, pois nada poderiam fazer contra uma multidão daquela proporção, ainda contando com a semiobscuridade da rua mal iluminada. Quando Menoel estava sendo guiado à presença do interrogador, o agente voltou do exterior e deu o recado ao delegado. Este ouviu boquiaberto o recado dado a meia voz, arregalou os olhos e foi espiar pela janela, puxando uma pontinha da cortina. Era visível dali uma imensa multidão reunida diante do distrito.
 
Pegou o telefone e ligou para o comandante geral na capital dando conta da situação. Este por sua vez, tendo sido acordado no meio do sono, quis saber quem dera a ordem para prender o grupo de trabalhadores. O delegado não soube dizer ao certo, procurando encontrar uma boa explicação. Em verdade os chefes do grupo que controlava o trabalho no porto o haviam procurado, dizendo que era um grupo de arruaceiros e estavam combinando manifestações, com violências e tal. Por isso, pensando em se antecipar a acontecimentos desagradáveis, ele tomara por sua conta a decisão de realizar a prisão. Agora estava sem saber o que fazer. A soltura simplesmente, sem nenhuma ação como contrapartida lhe parecia inaceitável.
– O senhor prendeu trabalhadores que estavam reunidos pacificamente por ordem de quem? Minha não foi. Os chefes do trabalho no porto não são autoridades para fazer isso. Portanto solte os homens e lhes peça desculpas. Não me apareça nenhuma reclamação contra o senhor em decorrência disso, ou lhe transfiro lá para o lugar mais distante e perdido desse estado. Fui claro.
– Sim senhor! Sim Senhor!
Desligou o telefone e ficou um momento em silêncio, tentando se recompor.
– Venha aqui, Jarbas!
Jarbas era o virtual sub-delegado. Assumia o comando na ausência do delegado.
– Pois não, delegado. O que vamos fazer?
– Vamos ter que soltar os homens. O chefe de gabinete do secretário me falou que se isso der em merda, me transfere lá pro cafundó do Judas.
– Mas assim, sem mais nem menos? Nem ao menos uma boa prensa para eles aprenderem a não se meterem a besta?
– Nenhuma violência, Jarbas. Não é o seu cargo que está a perigo. Pensa você que quero ir lá para uma grota qualquer e mofar por lá um bom par de anos?
– Mas são mais de 20. Isso vai dar um sururu danado aí for a, quando eles encontrarem os colegas, não acha.
– Tem dois homens nossos nas mãos deles lá fora. Vamos levar esses daqui lá for a e os soltamos quando soltarem nossos dois. Uma troca justa. Não discuta minha ordem.
– Vamos já cumprir sua ordem.
O delegado vestiu o paletó, colocou o chapéu na cabeça e esperou até os presos serem trazidos para as proximidades da porta. Saiu e a meio caminho do portão parou dizendo:
– Os companheiros de vocês já vão sair. Podem soltar meus homens.
– Os seus homens serão soltos quando nossos companheiros estiverem aqui fora, sendo soltos também. Antes disso, nada feito.
O delegado virou-se e fez sinal ao Jarbas para trazer os detidos. Em dois minutos eles sairam um a um e ficaram formando um grupo compacto ali perto.
– Vou mandar soltar os seus colegas e vocês soltem os meus homens. Está bem assim?
– Combinado, delegado. O senhor é um homem inteligente.
Ele teve vontade de dizer umas poucas coisas, mas preferiu ficar quieto. Não poderia avaliar qual seria a reação daquela multidão, se suas palavras não fossem bem recebidas. Melhor ficar quieto e não caçar encrenca gratuita. Fez um gesto aos seus homens para que soltassem os detidos. No mesmo instante os mesmos começaram a caminhar para a saída e os dois policiais foram soltos, voltando rapidamente para junto dos colegas. Haviam passado um tempo bem cheio de temores. Se aquela turba resolvesse descontar em seus ossos o que talvez supusessem que os colegas haviam passado, não saberiam o que esperar.
A voz forte do mulato se fez ouvir:
– Nossos colegas estão livres e aqui entre nós. Vamos para casa.
– Urrrra! Ip! Urra! Viva nosso sindicato!
– Viva! – foi ouvido em altos brados.
 
A partir desse momento a multidão que se mantivera em silêncio, calada, começou a falar, quase toda ao mesmo tempo e transformaram a rua em um alarido bastante forte. Por toda parte luzes eram acesas e logo desligadas, pois ao deparar com a quantidade de pessoas na rua, os moradores ficavam assustados. Aquela quantidade de gente poderia facilmente invadir as casas e praticar uma porção de insanidades. Mas nada aconteceu, apenas uma ou outra voz mais forte falava na força dos trabalhadores que estariam cada vez mais unidos.
 
Cláudio demorou a encontrar o amigo Manoel e quis saber dele o que acontecera. O relato foi curto, pois mal haviam iniciado a reunião, quando o recinto for a invadido pela força policial e os levara para o distrito. Apenas um membro da comissão, no momento havia ido buscar um documento guardado em uma sala nos fundos, escapara da detenção e certamente for a ele que alertara os demais. Isso foi confirmado por Cláudio. Acordara com um burburinho na pensão e logo soubera que os colegas da comissão haviam todos sido presos, acusados de arruaça e ninguém sabia de mais o que. Deveriam se reunir em frente ao distrito, em silêncio. Assim havia sido feito e agora estavam ali, livres graças a Deus.
 
Já estavam há quase dois anos trabalhando no porto e a documentação de que precisavam para se locomover por todo território nacional, estava em ordem. Manoel começou a pensar seriamente em fazer um balanço de suas economias, deixar o serviço do cais, que alias já o estava cansando, para tentar uma sorte melhor em São Paulo ou uma das cidades próximas. As indústrias estavam em plena instalação e se chegasse cedo, poderia conseguir um lugar com maior facilidade. Como sempre ouvira seu pai dizer, quem chega primeiro bebe água limpa.
 
A lembrança do mês na cadeia, ainda estava viva em sua memória. Não tinha intenção de ter uma segunda dose desse remédio. Aceitara fazer parte da comissão para negociar de maneira civilizada o cumprimento das leis trabalhistas vigentes e sem mais aquela se vira detido, prestes a enfrentar mais um período de cadeia. Não era esse seu programa. Não era covarde, mas não tinha vocação para herói. Queria trabalhar, juntar sua economia, talvez adquirir um negócio próprio e levar a vida. Manteve isso consigo. O amigo continuava firme e decidido a tornar-se dono de um bar, um botequim ali mesmo em Santos. Dificilemente mudaria de opinião.
 
No interval para o almoço no dia seguinte, foi até a agência da Caixa Econômica e verificou o saldo de suas economias. Não era nenhuma fortuna. Todavia em mais um ou dois meses teria o bastante para se manter, vivendo parcimoniosamente, durante um bom tempo. Numa emergência, poderia mesmo trabalhar como mecânico, até surgir uma oportunidade de ingressar na indústria que começava a surgir nas cidades próximas da capital, principalmente São Bernardo do Campo, São José dos Campos e outras. Manteve segredo sobre suas intenções. Participou das negociações com os patrões e tiveram êxito parcial. Por algum tempo os ânimos ficariam calmos, até surgir nova motivação para mais discussão.
Antes disso Manoel prometeu a si mesmo, estaria longe dali. Iria para São Paulo, se possível encontraria uma vaga para fazer preparação em uma escola industrial e ingressaria na indústria. Seria alguém com uma ocupação menos cansativa, onde os ossos não estivessem todos doloridos ao final do dia. Era forte, seus músculos eram resistentes, mas o trabalho por horas prolongadas, sempre no limite, era extenuante. Não era isso que viera procurar. O suplemento nos ganhos conseguido reforçou um pouco sua economia. Quatro meses depois do episódio da prisão, entregou seu pedido de desligamento do sindicato e do trabalho.
 
O gerente da Caixa Econômica fez a transferência do saldo de sua conta para uma agência central da capital. Não convinha sacar o dinheiro e perder o crédito dos juros do período e reabrir uma nova. Outro motivo era carregar uma soma considerável em espécie e se expor ao risco de ser assaltado. Isso era procurar problemas de graça. Arriscou a pergunta:
– Você vai em busca de que em São Paulo?
– Vim de Portugal para encontrar trabalho. Aqui encontrei, mas não é o que eu quero. Tenho conhecimentos de mecânica. Sou jovem e posso estudar, fazer cursos industriais e ingressar na indústria que está sendo implantada.
– Com certeza, Manoel. Você vai se dar bem lá. Procure pelo SENAI. Lá eles tem cursos industriais e sempre há novas turmas sendo iniciadas. Preparam os operários para as montadoras de carros. A Willys está com uma indústria, a Volkswagen também vai construer, fábricas de peças estão surgindo por todo lado. Isso vai gerar empregos de montão.
– Eu vou fazer parte disso, pode ter certeza. Obrigado por sua gentileza e bondade, senhor. Eu havia mesmo pensado em levar meu dinheiro na mala, mas assim, ficá muito mais fácil.
– Perder os juros o user roubado? Nunca, meu rapaz. Vai que seu dinheiro suado está seguro com a gente.
 
A despedida do amigo Cláudio foi um pouco melancólica, mas ele tinha seu objetivo e não queria saber de mudar. Nada havia a fazer a esse respeito. Acertou as contas com a dona da pensão, arrumou suas roupas na mesma mala com que viera de Portugal, acrescida de uma sacola de plástico com um fecho, pois tinha agora algumas roupas a mais do que quando viera da Europa. Embarcou no trem de passageiros e percorreu a subida da serra até a capital. Algumas horas depois, desembarcou na Estação da Luz, próximo do anoitecer. A dona da pensão de Santos havia lhe indicado um endereço onde poderia se hospedar, não muito distante dali.
 
Indagou a um carregador se conhecia o endereço e ele lhe explicou como chegar até lá. Para alguém acostumado a passar horas carregando sacas de café às costas, levar a mala e sacola por uma dezena e meia de quadras até o endereço indicado, não era nada. Chegou já noite fechada, mas por sorte conseguiu um quarto pequeno, provisório. Quando vagasse um maior mudaria para lá. Pagou uma semana adiantado e se acomodou. O jantar simples foi servido e logo experimentava uma comida à moda paulista, da capital. Era pouca diferença do que costumava comer na pensão no porto. Antes de dormir escreveu uma carta para os pais, informando de sua mudança recente. Quando tivesse um endereço mais definitivo mandaria para poderem escrever a ele com mais segurança.
 
O dia seguinte foi cosumido em conhecer o centro e os bairros próximos. De onde estava hospedado, não era difícil chegar à escola mais próxima do SENAI, no bairro do Brás. Região de predominância de população de origem portuguesa. A escola Roberto Simonsen é uma das mais antigas de São Paulo. Com alegria descobriu que bastava caminhar umas poucas quadras para chegar a escola. Deu uma ou duas voltas à quadra, prestando atenção a tudo e todos. Queria familiarizer-se com o lugar, gravar na memória todos os pontos de referência para se orientar.
 
Feito isso, procurou pelo portão de acesso e foi pedir informações. Lhe apresentaram uma boa lista de opções de cursos. Havia para todos os gostos. O que lhe chamou atenção especial era um que estava habilitado a fazer, por ter trazido consigo os documento comprobatórios de seus estudos em Ancede. Haveria uma nova turma iniciando no começo do mês seguinte e as matrículas estavam abertas. Informou-se dos custos e soube que no momento os cursos estavam em sua maioria gratuitos, devido à necessidade premente de uma série de indústrias em instalação. Todas procurvam por profissionais habilitados em operação de tornos, fresas, prensas, soldagem e uma grande variedade de especializações.
 

 

Alunos em aula no SENAI
http://bras.sp.senai.br/
Ficou em dúvida sobre fazer torneiro mecânico ou soldador. Pensou um pouco e concluiu que torneiro era melhor por não oferecer os riscos da soldagem. Além de lidar com o perigo de correntes elétricas de alta intensidade, ou combustíveis de chamas a elevadíssimas temperaturas, o brilho produzido no processo era nocivo aos olhos. Mais tarde poderia fazer algum outro curso, se o momento exigisse e existisse demanda para encontrar trabalho mais qualificado em outro setor. Fez a matrícula e saiu satisfeito. Imaginara encontrar dificuldades de iniciar sua preparação e já no primeiro dia estava matriculado. Anotou tudo que iria precisar, o dia do início, os horários e o material.
 
As exigências eram poucas no quesito material. Seria conveniente ter seu próprio paquímetro e micrômetro. Seriam provavelmente os components mais caros do conjunto. A escola dispunha desses equipamentos, mas eram poucos para todos os alunos e assim teriam que ser usados escalonadamente. Isso tornava o processo mais lento. Quem pudesse disport desses materiais, levaria vantagem. Recebeu informação do local onde poderiam ser adquiridos. Iria verificar se suas posses permitiriam esse gasto. A duração do curso básico seria de seis meses e os melhores alunos poderiam fazer um aprofundamento por mais seis meses. Obteriam assim um certificado de nível acima dos outros.
 
Manoel saiu dali com o firme propósito de ser um dos primeiros. As aulas eram ministradas nos três turnos e ele escolheu o turno da noite. Assim poderia procurar um trabalho para ocupar o dia e ganhar algum dinheiro. Não sabia o que o esperava nos próximos meses e seria complicado se chegasse o dia em que não pudesse mais pagar sua hospedagem, alimentação e transporte. Aqui não teria a quem pedir auxilio. A mãe, o pai e irmãos estavam longe, impossibilitados de socorre-lo. Precisava ser previdente para não sofrer mais tarde.
 
Foi imediatamente procurar os materiais de que precisaria e no caminho encontrou uma oficina de automóveis. Perguntou pelo proprietário e logo se viu diante de um cearense, de cabelos ralos, barba por fazer e relativamente sujo de graxa. Sinal de que estava trabalhando, sem muito tempo de cuidar de seu aspecto exterior, ali lidando com peças e partes sujas dos veículos.
– Boa tarde, senhor. Eu sou Manoel Silvério Ferreira. Vim de Portugal faz dois anos e pouco. Lá eu trabalhei em uma oficina de automóveis.
– Sabe fazer o que numa oficina, bichim?
– Sei fazer de tudo um pouco. Sei limpar carburadores, regular platinados, trocar velas, rolamentos de rodas, desmotnar caixas de câmbio.
– Se estiver disposto, pode vir amanhã e vamos fazer uma experiência. Se tu tiver jeito para o negócio, tem lugar sim. Stou precisando mesmo de mais um que o serviço está aumentando cada dia.
– Fazemos um teste e depois falamos de remuneração.
– Eu sabia que ele ia falar de dinheiro. Português que não gosta dinheiro, nunca vi não.
– O senhor não pensou que ia trabalhar sem receber, pensou?
– Tô mangando com oce, Manoel. Acho que logo vão lhe chamar de Mané. Aqui todos mundo que chama Manoel acaba virando Mané.
– Isso não faz muita diferença. Então está certo. Eu venho amanhã cedo.
 
Saiu e foi até a loja onde havia os paquímetros e micrômetros disponíveis para venda. Tinha tido nas mãos esses instrumentos na oficina em Ancede, mas não sabia ainda manejá-los direito. Com certeza isso seria ensinado no curso. Ao perguntar pelos equipamentos, lhe apresentaram um de fabricação alemã e outro de fabricação Americana, tando do paquímetro quanto do micrômetro. Os de fabricação alemã, lembrou eram da marca que o dono da oficina tinha lá em Portugal. Em seu íntimo pensou em comprar um desses. Era marca conhecida. Perguntou o preço e descobriu que o dinheiro de que dispunha ali consigo era insuficiente. Teria que retirar um trocado da conta na caixa.
 
Como o curso iria inicia apenas no começo do mes, teria tempo de esperar pelo crédito dos juros e então sacar o dinheiro. Isso não lhe prejudicaria os rendimentos. Mesmo por que se iniciasse o trabalho na oficina, talvez nem precisasse disso. Poderia ganhar o suficiente para pagar pelos dois instrumentos. Agradeceu e prometeu voltar outro dia para comprar. Estava apenas verificando preços. Saiu e passou por uma papelaria onde se muniu de papel de cartas, envelopes, canetas, tinta, lapis, borracha, blocos de anotações, cadernos para não lhe faltar nada ao iniciar os estudos.
 
Chegou à pensão com um pacote e foi para seu quarto. No pacote havia o nome da papelaria e perguntaram o que significava aquilo. Estava iniciando algum curso?
– Estou sim. Matriculei-me hoje no curso de torneiro mecânico na escola do SENAI aqui do bairro. As aulas começam no início do mês.
– Vamos ter aqui mais um futuro operário das fábricas. A cidade está cheia de gente fazendo isso. O SENAI não está vencendo formar tanta gente. Abriram mais unidades em cidades como Santo Amaro, São Bernardo, São Caetano e por aí vai.
– Mas é uma boa coisa esses cursos. Assim as indústrias vão ter gente preparada para fazer o trabalho.
– A gente fica satisfeito com isso, Manoel. Precisa estudarr mesmo. Emprego vai ter à vontade. O que falta para muita gente é vontade de largar a vadiagem para ir fazer um curso, – disse a dona da pensão.
– Não olhe para mim, dona Marinês. Eu sou empregado e não estou precisando de curso nenhum.
– E eu lá falei para você? Estou falando desse bando de vagabundos que andam por aí pedindo esmolas, um prato de comida, mas trabalhar que é bom! Isso eles não querem nem ouvir falar.
– Acho que o Brasil vai ter um belo futuro. Do jeito que está indo, vai ser quase um paraíso, – disse Manoel.
– Não sei se vai chegar a tanto, mas quem quiser poderá ficar numa boa situação, isso é certo. Basta trabalhar e no final do mês o dinheirinho cai no bolso.
– Dona Marinês, me acorde amanhã cedo. Vou começar na oficina do Chico ali na rua perto da praça. Entendo um pouco de mecânica e vou ganhar uns cobres ali enquanto faço o curso. Depois vou procurar emprego melhor.
– Pode dormir sossegado que eu lhe acordo, Manoel.
– Boa noite para todos.
 
Foto do Brás antigo.

 

Prédio antigo necessitando de conservação.
 
Foi para seu quarto, ainda o pequeno pois os demais estavam ocupados. Desembrulhou os materiais e pegando do papel de cartas, pôs-se a escrever novamente para os pais. A primeira mal tinha sido postada de manhã e já tinha novidades para contar. Também escreveu para Cláudio, narrando as novidades e refazendo o convite para vir também para São Paulo. Haveria facilidade de encontrar trabalho. Seria bom estarem os dois ali juntos. Estava tendo facilidade de estabelecer relacionamentos com pessoas, mas alguém conhecido lá da terra natal era diferente.
 
Na manhã seguinte partiu cedo, levando uma roupa mais velha para ser usada na oficina e foi para lá, depois do café da manhã. Encontrou o seu Chico abrindo o portão de acesso. Morava nos fundos, em uma casinha pegada ao galpão da oficina.
– Mas e não é que o portuga veio memo!
– Bom dia, seu Francisco!
– Bom dia Mané!
Ajudou a mover as pesadas portas que fechavam a entrada, permitindo o acesso ao patio e o galpão onde estavam os macacos e elevadores para suspender os veículos ou suas peças mais pesadas.
Trocou de roupas em um quartinho no canto, guardou a roupa limpa numa bolsa e saiu, apresentando-se para trabalhar. O provável patrão lhe indicou um Jeep que estava em mau estado, colocado em um canto.
– Pode soltar o motor daquele ali. Vamos ter que desmontar inteiro e reformar. Está batendo biela, queimou junta de cabeçote. Lascou inteiro.
– Eu não tenho ferramentas.
– As ferramentas estão aqui, Mané! – indicou um quadro onde havia chaves de boca, estrela, chave inglesa, alicates de vários tamanhos e formatos, além de uma grande variedade de outras ferramentas ainda desconhecidas de Manoel.
 
Parou diante do quadro, lembrando as chaves que provavelmente iria precisar. Separou o que achou seria suficiente e levou até o veículo. Levantou o capô do motor e viu que realmente ali a coisa estava feia. Havia vasado óleo por todo lado, a correia estava arrebentada. Precisaria de uma reforma geral e em regra. Observou bem e viu que era igual a outros que ajudara a desmontr em Portugal. Poucas coisas eram diferentes. Começou por soltar as partes removíveis do motor. Retirou o distribuidor, o carburador, soltou as mangueiras do radiador, retirou o gerador elétrico, os cabos de velas, colodando tudo em uma bandeja que havia ali.
 
Depois de deixare o espaço livre para trabalhar, pôs-se a soltar os parafusos que prendiam o motor à caixa de câmbio. Para isso teve que pegar uma forração para colocar no chão pois havia parafusos acessíveis apenas pela parte de baixo. Quando terminou de soltar tudo, foi a vez de desparafusar os suportes que prendiam o propulsor ao chassi do veículo. Por volta de 10 horas chamou o dono da oficina e lhe indicou que estava pronto para ser retirado do lugar.
– Mané, ocê já terminou? Parabéns.
– Pode conferir, seu Chico.
Depois de conferir tudo, Chico falou:
– Vamos retirar esse bicho logo. Puxe a talha dali para cá. O mecanismo com correntes e polias suspenso por um trilho fixado nas vigas deslizou para o lugar. Foram fixados ganchos em pontos apropriados, formando uma alça dupla. Ali foi engatado um gancho maior e as correntes começaram a rodar, esticando o Sistema, forçando o motor para cima. Foi preciso desimpedir um ou outro ponto de enrosco e lodo iniciaram a suspensão do motor.
 
Uma vez for a do lugar, a talha foi deslizada novamente para perto de um suporte, onde depois de ajustar a algura, o motor voltou a ser aparafusado para a desmontagem antes da reforma.
– Agora quero saber se você sabe desmontar esse bicho. Posso confiar em você?
– Não tem problema, patrão.
– Acho que você vai se dar bem aqui, Mané.
– Vou pegar as chaves adequadas e guardar essas outras que usei até agora.
Chico foi atender um cliente que acabara de entrar no patio com seu veículo para ver de que se tratava e combinar o serviço se fosse o caso. No meio do caminho encontrou com o outro mecânico mais experiente e falou a ele:
– Esse portuguêsinho caiu do céu para nós, Zé.
– Ele entende do assunto?
– Soltou o motor do Jeep em um instante. Precisa ver com que eficiência.
– Vou ver de perto.
– Ele agora vai começar a desmontar o motor. É bom olhar para não fazer alguma bobagem.
– É o que pretendo.
 
Cada um seguiu seu caminho e Manoel começou o serviço de desmontagem do motor. O mecânico ficou perto, fazendo um outro serviço que trouxe para perto e enquanto ficava de olho no novo ajudante. Era admirável a destreza com que manejava as chaves, retirando os parafusos em ordem, colocando todos eles um um lugar para facilitar a remontagem posterior. Em poucos minutos o cabeçote estava solto e foi removido. As hastes do comando de válvulas foram removidas e a pesada peça colocada sobre a bancada. Um momento de descanço para ir ao banheiro e depois ele voltou para retomar o trabalho.
 
Antes de mais nada, removeu a tampa de óleo do cárter e aparou o resto de óleo que ali havia, em uma lata encontrada no canto. Feito isso soltou os parafusos que prendiam o cárter ao bloco do motor e o removeu. Era chegado o momento de remover os mancais das bielas para retirar os pistões do interior das camisas. Nesse momento Chico retornou e falou:
– Vamos colocar ele agora numa posição mais adequada. Soltando essa trava daqui, podemos girar o suporte e deixar a parte de baixo mais acessível.
 
Viraram o motor deixando os parafusos em posição que facilitava o acesso e desmotagem. Dessa forma, o serviço que Manoel pensara ser o mais difícil, se tornava relativamente fácil. Não tardou e remoreu todos os parafusos. Quando chegou a hora do almoço, faltavam apenas remover os mancais do vira-brequim, ou árvore de manivelas.
– Manoel, deixa o resto para depois do almoço. Parabéns, acho que está aprovado, pois nunca vi alguém desmontar um motor em tão pouco tempo. Você sabe o que faz.
– Esse suporte tornou tudo mais fácil. Se tivesse que ficar por baixo, seria bem mais difícile.
– Isso serve para tornar o trabalho mais confortável.
– Vou me trocar e ir almoçar.

 

– Pode ir e não esqueça de voltar. 
Bairro do Bras, foto histórica.
Tropa policial no Brás.

http://saopauloparainiciantes.com.br/2012/05/bras-dicas-para-comprar-roupa-barata-e-de-qualidade.html
 

Um japonês especialista em cachaça. – Capítulo II

 

 

 

Porto, na cidade do Porto, Portugal

 

Vista noturna, foz do rio Douro, Porto, Portugal

 

2. – Metendo-se 
 
em confusão
A convivência na oficina com pessoas de várias idades e procedências, clientes de todas as categorias, influenciaram significativamene na personalidade de Manoel. Por natureza voluntarioso, absorveu conceitos de liberdade, rebeldia e até um certo grau de violência. Era uma forma de se defender das condições do meio em que vivia. Não raro entrava em conflito com o irmãos mais velho, sendo necessária a intervenção firme de Dolores e Joaquim. Aos poucos os ânimos serenavam.
 
Quando estava para completar 18 anos, ele foi convidado por um amigo para trabalhar no porto. A oficina fazia manutenção de máquinas de barcos e a oportunidade de estar a bordo de um deles mexeu com a curiosidade do rapaz. O dono da oficina não queria que ele deixasse o trabalho, nem os pais estavam de acordo. Mas ele estava disposto a ir e foi. Começou a trabalhar, conseguindo em pouco tempo perceber que a diferença não era grande. Apenas o tamanho das peças dos motores e demais componentes eram consideravelmente maiores. Mas para tudo existe o jeito de fazer acontecer e ele logo dominou os fundamentos do novo trabalho.
 
Quando voltava para casa, coisa que não acontecia todos os dias, vinha contando as aventuras vividas no cais e nas pequenas viagens que fizera a bordo até a cidade do Porto, ida e volta. Convivia com marinheiros, estivadores e toda sorte de gente. Tudo isso vinha como que impresso em suas maneiras de agir. Adquiria o linguajar típico, começando a diferenciar-se do resto da família. Em junho de 1953, após um ano de trabalho no porto e nos navios, ocorreu uma menifestação contra o governo, conclamada pelos líderes dos estivadores, marinheiros e demais trabalhadores do porto. Ao ser convidado a participar ele aceitou imediatamente. Não iria deixar de participar. Queria ser aceitô e não ficaria for a do movimento.
 
O que ele não sabia eram as consequências que poderiam advir desse seu gesto. Seguiram para a cidade do Porto onde ocorreria a grande concentração. Avisara a família que ficaria for a por alguns dias, mas não disse por quê. Pensaram tratar-se de outra viagem a trabalho. Quando a manifestação ia a meio, discursos sendo pronunciados, palavras de ordem gritadas, bandeiras agitadas, algumas desordens praticadas por vândalos sempre presentes, as tropas de repressão apareceram. Os mais espertos, calejados de outras ocasiões, conseguiram safar-se rapidamente e ficaram apenas os inexperientes. Uma centena e meia de rapazes se viu cercada de homens, portando toda sorte de armas. Alguns gestos de reação resultaram em pancadas com cassetetes, um ou outro tiro foi disparado e logo havia alguns estendidos no chão, feridos.
 
Os demais levantaram as mãos e se renderam. Não contavam com aquilo. Tinham sido deixados abandonados igual cordeiros jogados aos lobos. Nem mesmo os companheiros de jornada, vindos de Ancede estavam ali, salvo meia dúzia de incautos igual a Manoel. Foram conduzidos para uma prisão provisória, interrogados, identificados, fotografados, ameaçados para contarem coisas de que nem eles faziam a menor ideia. Haviam vindo reivindicar melhores condições de trabalho para o povo em geral e estavam sendo acusados de atividades subversivas, guerrilha e outras tantas atividades ditas ilegais.
 
O que mais doia era o fato de estar ali na prisão, sem poder fazer contato com a família, sem roupas limpas para trocar. A comida era péssima, para dormir um mísero acolchoado servindo de cobertor e ao mesmo tempo para forrar o piso frio da cela. Dormiam amontoados o que diminuia um pouco o frio, porém, para quem estava acostumado a dormir sempre em cama limpa, bem aconchegado, isso era um martírio. Ninguém falou em avisar a família. Quando tentavam perguntar sobre isso, eram calados com ameaças de mais pancadas. Revolucionários não tinham dereito de receber visitas de familiares, pelo menos enquanto não fossem julgados e sentenciados a uma penitenciária.
 
Os que haviam induzido os companheiros de Ancede a participarem da manifestação e conseguiram escapar, aos poucos deram a conhecer o que de fato ocorrera. Não tardou e a notícia chegou à família Ferreira. Ao saberem da notícia, o irmão mais velho Joaquim Filho, aproveitando a ida à cidade do Porto para participar de um treinamento que iria fazer, levou também o encargo de saber notícias do irmão. O tempo era pouco e não foi fácil saber do paradeiro. Ninguém se dispunha a falar sobre questões de presos politicos. Era assunto considerado proibido, pois poderia render dissabores a quem deles se ocupasse.
 
Nas horas de folga, perambulou de um estabelecimento prisional ao outro até conseguir localizer o irmão. Usou de sua posição numa das vinícolas mais renomadas de Ancede para abrir caminha até ele. Encontrou-o em péssimo estado. Estava sujo, barbado, magro, com marcas de agressões típicas de tortura aplicada pelos interrogadores. Ficou sabendo que seria preciso um advogado para tentar retirar o irmão daquele lugar. Não connhecia ninguém, nem advogado na cidade. Tampouco dispunha de dinheiro para pagar o serviço.
 
Em nova visita falou que estaria voltando naquela noite para Ancede e tentaria conseguir recursos para livrar o irmão daquela encrenca. Reuniram algumas economias, pediram adiantamentos em seus trabalhos e até o patrão de Manoel no cais, tinha dinheiro a pagar a ele. Tudo isso reunido deu para juntar uma quantia que pensavam daria para pagar um advogado e assim tirar o irmão daquela enrascada.
 
A mãe Dolores ficou em prantos, imaginando o eu caçula naquele estado lastimável. Ouvira contar histórias suficientes para saber o destino reservado aos que caiam nas garras das tropas de segurança do governo. Joaquim dizia que ele estava tendo o que procurara. Bem que havia sido avisado para não se meter em encrencas, mas ele era teimoso e não dera ouvidos às palavras paternas.
Com o dinheiro no bolso, tomando cuidado para não ser roubado, Antônio foi até a cidade do Porto. Perto da cadeia havia um escritório de advocacia, bastante decrépito, mas dadas as circunstâncias, não podia escolher um que tivesse luxo na isntalação, pois certamente lhe cobraria muito caro. Após esperar por umas duas horas, conseguiu ser atendido e verificou que ali mesmo havia uma pilha enorme de processos com a mesma matéria. O Doutor José Guimarães estava reunindo todos os processos e assim daria encaminhamento de uma única vez ao Meritíssimo Senhor Juiz. Tornaria as custas menores e assim o dinheiro que Antônio levava seria suficiente, sobrando um pouco para retornarem em paz para casa.
 
Foram precisos alguns dias para que tudo tramitasse e ao final da semana, passando pelo escritório do causídico, soube que o irmão seria solto na manhã de sábado. Deveria tratar de voltar para casa o mais rapido possível, para não ser visto pelas proximidades perambulando, sob pena de tornar para a prisão. Os agentes de segurança eram terríveis. Marcavam as fisionomias e por qualquer ninharia levavam os ex-prisioneiros novamente a cadeia.
 
Nas primeiras horas de sábado Antônio estava esperando pelo irmão que saiu parecendo um farrapo humano. Passara quase um mês na prisão e isso deixara marcas. Elas certamente permaneceriam por muito tempo, possivelmente para sempre. Manoel caiu nos braços do irmão aos prantos. Antônio o amparou e ajudou a caminhar. Passaram em um local onde se vendiam roupas e adquiriram algo melhor para vestir, pois o que trazia no corpo eram frangalhos. O dono do estabelecimento ofereceu um cubículo nos fundos onde foi possível se lavar razoavelmente e trocar a roupa. Antes de irem tomar o trem para Ancede, foram comer em uma birosca nas proximidades da estação. Antônio se emocionou a ver o irmão devorar faminto até mesmo alimentos que normalmente talvez não quisesse, ou não estivesse disposto a comer. A fome é o melhor tempero.
 
Embarcaram no trem na segunda classe e voltaram. Chegaram já no começo da noite, devido às frequentes paradas no meio do caminho. A família recebeu os dois com júbilo, mas Manoel estava abatido. Mesmo a alegria de estar livre, não foi capaz de remover de seu semblante uma núvem de tristeza. Aquele período na prisão, provocara uma transformação profunda em seu espírito. Antes sempre falador e com as palavras na ponta da língua para replicar, rebater e discutir, agora estava pensativo. Falava devagar, com poucas palavras. Parecia temer dizer algo além do conveniente. Os irmãos queriam saber como fora a experiência, mas ele não tinha, pelo menos no momento, disposição de contar nada.
 
Dolores aconselhou os demais a deixarem o tempo passar. Também Joaquim deixou as reprimendas que preparara para mais tarde, talvez nunca. Parecia que o filho tivera uma dose gigantesca de algo que ninguém ali poderia lhe dar. Sentira dor, tinha marcas ainda mal cicatrizadas por todo corpo e ninguém perguntou como isso acontecera. Com certeza iriam reavivar a dor sentido no momento das agressões.
 
Depois de ficar o final de semana em casa, Manoel voltou ao cais para ver se ainda poderia trabalhar lá. Foi olhado com desconfiança. Temiam que tivesse revelado coisas que ninguém queria que fossem tornadas públicas. Infelizmente sua vaga na oficina estava preenchida. Haviam pensado que ele ficaria por muito tempo preso ou talvez nunca mais voltasse. Teve vontade de perguntar se os colegas de aventura haviam voltado, mas preferiu ficar quieto. Quanto menos mexesse nesse caso, melhor seria. Voltou para casa cabisbaixo e acabrunhado. Não tinha vontade de voltar a antiga oficina, embora soubesse que estavam necessitando de alguém como ele.
 
A necessidade falou mais alto e voltou para o antigo trabalho. O que todos estranhavam era o fato de não ser mais o rapaz alegre e brincalhão de antes. Era agora um rapaz com um olhar meio carrancudo, pouco disposto a falar, menos ainda sobre suas experiências recentes. Competente como sempre for a, fazia seu trabalho e depois se recolhia a casa dos pais. A partir de certo dia começou a passar em um boteco do caminho e tomava uma bebida, coisa logo percebida por Dolores. Ele antes não foram chegado ao álcool e agora dera para voltar um pouco alto. Tentou conversar com ele mas não houve resposta mais consistente. Pediu que o deixassem em paz, só isso.
 
Em um belo dia, depois de um ano e meio, reuniu suas roupas e demais pertences em uma pequena mala que adquirira numa loja de coisas usadas. Surpresa a mãe perguntou:
– Tu vais viajar, meu ?
– Vou, minhã mãe. Vou para o Brasil.
– Para o Brasil? Que é que tu vais fazer no Brasil?
– Ouvi dizer que lá há tempo acabou a ditadura, o governo está se esforçando por implantar reformas para melhorar a condição dos trabalhadores. Tem muita gente indo para lá, mãe.
– Mas tu vais ficar tão longe, filho! Vou morrer de saudades de ti.
– Prometo escrever sempre. O que a senhora queria e já fiz. Parei de beber, reparou?
– Reparei! Apenas não quis dizer nada para não provocar lembranças do passado.
– Isso já passou. Aprendi a lição. Vou trabalhar na indústria no Brasil. Ouvi dizer que vão instalar fábricas de automóveis, fábricas de peças e tudo isso gera muitos empregos.
– Vou acender umas velas para Nossa Senhora. Que Deus te abençoe. Já falaste para o teu pai?
– Ainda não. Vou falar hoje e amanhã embarco no trem depois da noite. Um navio vai zarpar depois de amanhã e vou me empregar como faxineiro ou coisa assim para pagar a passagem.
– Eles aceitam isso? Ouvi dizer que maltratam bastante esses que viajam assim.
– Garanto que não maltratam mais que os guardas na cadeia. Pode me acreditar que sim, mãe.
Nisso o pai estava chegando e ouviu o final da conversa. Parou na expectative de saber o que acontecia e Dolores foi a primeira a falar:
– Joaquim! Nosso Manoelzinho vai embora para o Brasil!
– Que estás a dizer, menino? Ir embora para o Brasil? Vais ffazer o que lá, se não tens diploma de nada?
– Ouvi dizer pai, que lá tem emprego sobrando. O governo mantém cursos de preparação para os que querem trabalhar nas indústrias que estão instalando.
– Minha Nossa Senhora! Essa agora! Não tiveste suficiente com a temporada na cadeia?
– Pai é exatamente isso que me leva a partir. Não passa uma semana sem que apareça um agente de segurança perguntando por mim, querendo saber onde andei e o que fiz. Não aguento mais. Vou para longe desse país, onde só vivi coisas desagradáveis.
– Não fales assim de tua patria, menino.
– Uma patria que maltrata os filhos, coloca na cadeia quem não fez nada, não cometeu nenhum crime e depois ficá perseguindo! Essa patria eu renege, meu pai.
– E te vão a deixare sair assim, sem mais aquela? Precisas de passaporte para viajar ao exterior.
– Me informei. Nos navios mercantes a gente embarca como marinheiro e vai para onde quiser. Quando chegar lá, no porto de Santos no Brasil, desembarco e me ajeito por lá. Me disseram que é bem fácil, principalmente para nós portuguêses.
– Não podes esquecer que vais estar longe e não poderemos sair correndo a te socorrer, se acontecer algo por lá. Estarás por tua própria conta.
– Tem um amigo que também vai. Estivemos juntos na cadeia e ele também não aguenta mais a presença dos molambos do governo. Vou fazer fortuna no Brasil e depois mando buscar vocês todos.
– Ai, ai, ai! Se fazer fortuna fosse tão fácil assim, muito português que foi para lá teria voltado cá de bolsos cheios, distribuindo gaita a torto e direito. Isso é história da carochinha.
– Eu vou e não volto. Só se ficar rico e então venho buscar vocês, se é que vão querer ir para lá.
– Tu já és crescido, já tens tua vida, não te posso segurar. Mas não esqueças de tomar cuidado. Viver num pais estranho não é fácil.
– Mas lá falam português que nem nós. Nem vão perceber que acabei de chegar. Depois de um tempo dou um jeito e arrumo os documentos para ficar definitivo por lá.
 
Os irmãos ficaram preocupados com a decisão de Manoel e tentaram demovê-lo de seu propósito, mas ele estava irredutível. O jeito foi deixar que seguisse sua vontade. O dia seguinte foi gasto em visitar os amigos e parentes, avós e primos para lhes dizer adeus. No começo da noite encontrou-se com o amigo Cláudio Menezes e juntos foram tomar o trem. Os familiares não os acompanharam, para não chamar a atenção. Estariam fazendo uma viagem comum. Logo estariam de volta.
 
De madrugada chegaram à estação ferroviária próxima ao cais do porto na desembocadura do rio Douro. Ficaram algum tempo até iniciar a aurora sentados em bancos, caminhando de um lado para o outro. Quando as primeiras luzes do dia se fizeram anunciar, sairam na direção do porto. Não lhes foi difícil identificar um grande cargueiro que estava atracado. Recebera uma boa carga de vinho e descarregara outra sorte de mercadorias. Dali sairia para Espanha, onde faria uma escala rápida, outra parada em Marraquesh no Marrocos e depois Recife no Brasil. Dali seguiria para o sul e pararia em Santos.
 
Porto do Marrocos.
 
Traziam um bilhete de um conhecido do porto de Ancede dirigido ao chefe do serviço de bordo do cargueiro. Em poucos minutos estavam subindo a bordo e sendo acomodados nos cubículos destinados aos serviçais. Sem demora receberam suas tarefas que deveriam ser cumpridas à risca, do contrário seriam entregues ao comandante que decidiria o que seria de suas vidas. Estavam decididos a chegar ao destino que tinham em mente e suportariam o que fosse preciso. Pior do que for a a prisão não deveria ser com certeza.
 
Ocupados com o trabalho, nem perceberm quando o barco foi rebocado para o largo de onde iniciou sua longa viagem. Na hora do almoço estavam viajando, não muito distantes da costa, pois iriam aportar no sul da Espanha. Nem pensar em descer a terra. No país vizinho vigorava o regime franquista, tão ou mais déspota que o de Salazar na própria patria. Seria o mesmo que saltar do fogo para a frigideira. Ao entardecer estavam perto do primeiro porto. A patria ficara para trás e ninguém os havia importunado. Agora era manter a boca fechada, trabalhar duro, por mais que fosse difícil. Por sorte essa viagem os levaria a liberdade, quem sabe à fortuna e uma vida melhor.
 
Enquanto o enorme navio devorava milhas atrás de milhas mar afora, os dois clandestinos, sob a proteção do encarregado de serviço, faziam as tarefas mais humildes à bordo. Não reclamavam e, nos raros momentos de folga, trocavam impressões acerca das viagens na época dos barcos a vela, séculos atrás. Hoje fariam a travessia em poucos dias, coisa que, mesmo com ventos favoráveis, demorava semanas intermináveis na era das caravelas. À noite, quando lhes era permitido tomar um pouco de ar fresco, sob a proteção da escuridão, ficavam olhando as estrelas e vendo como ia mudando a configuração do firmamento dia a dia. O momento de cruzarem o equador foi apenas lembrado, mas não puderam participar da comemoração tradicional em todos os navios. Era outro seu objetivo.
 
Porto do Recife

 

Navio atracado para carga e descarga – Recife.
 
Tão ocupados andavam que, ao menos esperarem ouviram falar que estariam atracando no Recife em poucas horas. Mesmo ali não desceram em terra. Poderiam ser descobertos e deixados por lá. Seu destino era Santos, no estado de São Paulo. Após uma escala de menos de um dia, partiram para o sul. Ao chegarem em Santos, o encarregado lhes deu um pequeno presente pelo bom serviço que haviam prestado. Na verdade tinha uma verba para contratar trabalhadores e ao fazer esse jogo com os pseudo-clandestinos, economizava um bocado. Não lhe custava dar uma gratificação a eles, uma vez que havia sido seu trabalho que garantira essa verba extra.
 
Foto do porto de Santos no século XIX, por Marc Ferrez.
 
Desceram sem problemas e se misturaram à uma multidão que por ali circulava. Encontraram sem maiores dificuldades um patrício que tinha um pequeno comércio nas proximidades. Estava na cidade há uns dez anos. Trabalhara por algum tempo como estivador, economizara bastante e conseguira comprar uma parte do bar. Com o tempo terminara comprando a outra parte e agora era dono do estabelecimento. Não ganhava fortuna, mas não passava apertos. Tinha sempre na algibeira o dinheiro para comprar o que queria, pagar suas contas, os impostos e alguma propina aos policiais para fazerem vista grossa às apostas de jogo do bicho que recebia.
 
Os dois comeram pela primeira vez comida preparada em solo brasileiro e conheceram alguns ingredientes que desconheciam na terra natal. O aipim era um deles e lhes pareceu saboroso, misturado ao arroz, feijão e com um naco de carne. Era confortador poderem conversar com alguém de sua terra, aqui distante. Ele lhes deu orientações de como proceder para se legalizarem e não terem mais problemas com as autoridades. Os nativos de Portugal eram tidos como irmãos no Brasil e por isso tinham a vida facilitada. Não lhes era exigido um visto de entrada, passaporte e depois de algum tempo, poderiam requerer sua documentação como brasileiros sem maiores problemas.
 
Para passarem os primeiros dias ele lhes ofereceu um quartinho nos fundos do estabelecimento. O custo seria simbólico para ajudar os patrícios. Na manhã seguinte sairam em busca de trabalho, mas primeiro circularam um pouco pela cidade para conhecer, percorreram todo porto que era enorme, cheio de navios atracados, inclusive aquele que os trouxera. Estava agora recebendo um carregamento de café, destinado ao oriente. Os estivadores pareciam um bando de formigas entrando e saindo dos armazéns com os sacos cheios do grão precioso que eram depositados em uma plataforma. Logo um guindaste deixava uma plataforma vazia e içava a primeira carregada, levando-a para o interior do barco.
Enquanto isso os sacos iam sendo empilhados na outra plataforma, num rítmo alucinante. Ficaram olhando alguns minutos e imaginaram se estariam aptos a enfrentar essa faina por dias seguidos. Manoel falou:
– Se pagarem um bom salário, eu aguento. E tu Cláudio?
– Nos primeiros dias acho que o cansaço iria ser pesado, mas aos poucos a gente acostuma.
– Vamos ver se nos aceitam para trabalhar?
– Vamos.
 
Foram informados de que precisariam se cadastrar no escritório com o administrador para depois serem colocados nas escalas. Não haveria dificuldades pois estava ocorrendo uma falta no momento de trabalhadores. Dessa forma ficaria bem fácil. Procuraram o escritório e lá, depois de apresentarem seus documentos portuguêses, foram cadastrados sem demora. Isso era uma vantagem. Pelo menos para isso Portugal tinha serventia. Facilitar a entrada e encontrar trabalho no Brasil. Bendito Pedro Alvares Cabral que descobrira o Brasil, pensaram os dois. Ao sairem dali com os cartões de registro na mão e indicação de que deveriam se apresentar na manhã seguinte para o trabalho, falaram ao mesmo tempo:
– Bendito…
 
Pararam e riram, pois haviam começado a dizer a mesma coisa que lhes ocorrera no momento de verem a facilidade encontrada para entrar e encontrar trabalho no país. Sabiam de alguma facilidade, mas não tamanha simplicidade. Voltaram ao bar e contaram ao novo amigo como for a fácil todo o processo.
– Eu falei! Aqui é um paraíso, comparado com Portugal.
– Estou começando a concordar consigo, – falou Manoel.
– Se dúvida que sim.
 
Em comemoração decidiram tomar um copo de vinho. Poderiam gastar uns cobres da gratificação recebida no navio. Afinal na manhã seguinte começariam a trabalhar na nova patria de que estavam começando a gostar. Mal sabiam que o trabalho de estivador era estafante e a remuneração não era exatamente justa. Por vezes os capitães dos navios cargueiros ofereciam gratificações, para acelerar o processo de carrgamento. Mas uma grande parcela desse dinheiro ia parar nos bolsos dos mestres de grupos e os controladores do porto. Havia ali uma espécie de mafia. Não deveriam se indispor com os chefões sob pena de ficarem sem trabalho.
 
Uma vez marcados, nunca mais encontrariam serviço ali no porto. Essa foi a orientação recebida do novo amigo. Ele tivera tempo de tomar contato com esse sistema. Vira muitos bons trabalhadores ficarem dias de braços cruzados sem conseguir trabalho, até decidirem ir embora. Outros encontravam um lugar em algum barco e viajavam para outros portos em busca de meio de ganhar a vida. Assim ficaram sabendo que nem tudo eram flores na terra que os acolhia. Também havia pedras e espinhos em abundância. O segredo era evitar os espinhos e desviar das pedras a tempo de não tropeçar.
 
Os primeiros dias foram de ficarem esfalfados, voltando ao final do dia para o quartinho com as costas doidas, as pernas e braços tremendo de cansaço. O corpo todo dolorido, o estômago roncando de fome, pois até para comer havia pouco tempo. Era suficiente apenas para jogar alguns bocados de comida para dentro, beber uma caneca ou duas de água e continuar na labuta. Depois de três dias quase sem descanso, houve um dia sem navio para ser carregado. Foram avisados que deveriam descansar bastante, pois eram esperados mais de quinze grandes embarcações nos próximos dias e todas receberiam um bom carregamento de café.
 
Aquela noite foi como um apagar da vela. Os dois cairam na cama, depois de uma refeição farta e um copinho de vinho para relaxar. Dormiram até sol alto na manhã seguinte. Mas haviam recebido o pagamento de sua primeira jornada e era agradável ter aquele dinheiro no bolso. Dinheiro brasileiro, até pouco desconhecido. Era preciso se habituar a ele, aprender o valor das notas, seu poder de compra. Decidiram ambos escrever uma carta aos familiares, contando as novidades. Também foram procurar um lugar mais confortável para viverem. O quartinho era muito pequeno. Servira por alguns dias, mas agora teriam que encontrar algo mais adequado.
 
Encontraram um quarto amplo, com guarda roupa e duas camas numa pensão, a preço módico. Ali estava cheio de estivadores vindos de todos os cantos do país, especialmente do nordeste, onde o trabalho era mais escasso. Havia estrangeiros de diversas nacionalidades, falando uma algarravia de português, misturado com suas línguas nativas, por vezes difícile de compreender. Tudo isso aos poucos ia sendo apreendido e dominado. Os músculos foram aos poucos acostumados ao esforço intenso. Os braços e pernas apresentaram o efeito do exercício cosntante, ficando mais musculosas. As veias ficavam salientes e visíveis. Boa parte do tempo trabalhavam somente de calças, sem camisa. Uma espécie de touca feita com um saco vazio cobria a cabeça e parte dos ombros.
 
Dessa maneira passaram a integrar um imenso contingente de trabalhadores braçais no porto de Santos. O que mais era movimentado ali era o café, sem deixar de haver o movimento em sentido inverso de grandes quantidades de produtos industrializados, ainda vindos na maioria do exterior. Um terminal de carga de minérios também funcionava, mas era pequeno o volume em comparação com o restante. A matéria prima exportada pelo país para alimentar a indústria dos países do exterior, era embarcada em outros terminais portuários, mais ao norte. Por ali voltavam os produtos industrializados.
 
Mudaram-se para a pensão, prometendo ao patrício do bar voltarem sempre que possível para conversarem. Ainda não tinham travado conhecimento com outros patrícios em atividade no cais. Pelo visto não eram abundantes. Via de regra iam diretamente para a capital São Paulo. Era esse o objetivo que Manoel alimentava. Não sabia se Cláudio comungava essa vontade, mas de sua parte ele ficaria ali até deixar sua situação legalizada. Depois partiria para a capital, em busca de empregos mais de acordo com suas habilidades. Era mecânico e não iria passar o resto da vida carregando sacas de café na cabeça. Não era essa sua intenção.
 
Os meses correram e os dois trabalharam duro. Economizavam, cada um com seus objetivos. Cláudio queria também tornar-se dono de um bar em algum lugar da cidade, ali mesmo em Santos. Propôs inclusive a Manoel tornarem-se sócios. Manoel recusou e expôs os seus planos. Ouvira falar das escolas com cursos técnicos que preparavam os trabalhadores que seriam empregados nas indústrias automobilísticas em instalação na região metropolitan da capital. Era essa sua meta e não iria desistir.
 
          Enquanto trabalhavam, foram convidados a fazerem parte de um sindicato dos estivadores. A princípio ficaram ressabiados, pois vinham de uma experiência nada agradável com algo semelhante nas terras portuguêsas. A insistência foi tanta que acabaram se filiando e contribuindo com pequenas parcelas de seus ganhos para a manutenção do organismo. Toda semana, ou a cada duas semanas, uma porção significativa dos rendimentos era depositada em uma conta de poupança da Caixa Econômica. Cada um controlava seus depósitos e avaliava a evolução de suas economias.
 
Porto de Santos hoje.
Porto de Santos 2
Pátio de conteiners em Santos.

 

Navio movimentando conteiners em Santos.

Imagens copiadas dos sites de imagens na internet, sob o título de imagens do lugar citado.

 

Um japonês especialista em cachaça – Capítulo I.

 

Mosteiro de Santo André em Ancede Portugal (Imagen baixadas da internet)
1

 

 Bar Snocker do Portuga.
 
 
Na década de setenta do século XX, existiu no bairro da Mooca, da cidade de São Paulo, em uma rua de vocação mista, meio residencial meio comercial, um estabelecimento de nome:
BAR SNOKER DO PORTUGA
O nome doproprietário era Manoel Silvério Ferreira. Nascido em Ancede, à margem do rio Douro, no ano de 1934, logo depois da implantação do Estado Novo, também denominado Salazarismo. Regime ditatorial que sucedeu, em 1933, à um período de ditadura militar iniciado em 1928. O país viveu poucos anos no regime republicano, uma vez que a monarquia constitucionalista sobrevivera até 1912. Um golpe militar em 1928, colocou os militares no poder, que posteriormente foi transferido aos civis. Salazar serviu-se de sua posição destacada no cargo de ministro das finanças no regime militar, para assumir a presidência do conselho de ministros. Junto com Marcello Caetano e Albino dos Reis, liderarm o governo de Portugal até 1968, e continuou com Marcello até 1974.
 
Seus pais Dolores da Cruz Ferreira e Joaquim Ferreira viviam na periferia do povoado. Joaquim trabalhava nos parreirais existentes nas proximidades. Dolores, quando as condições permitiam, também trabalhava em atividades temporárias nas propriedades, especialmente nos períodos de colheita da uva e preparação do vinho. Isso tornava o nível de vida econômico da família oscilante. Manoel era o último de uma família com sete filhos, intercalados por no máximo dois anos de diferença. Dessa forma, a partir de certo ponto, a mulher estava ocupada com os cuidados da prole, além de frequentemente estar grávida. Impossibilitada de trabalhar para ajudar no sustento, Dolores via angustiada o marido aceitar todo e qualquer trabalho extra

Portugal, viveu sob o regime monárquico constitucional até 1912. Manteve até a década de 70 do século XX algumas colônias na África e Ásia. Com o fim da monarquia foi implantado o que hoje é denominado de Primeira República e durou apenas até 1928.

para garantir mais algum dinheiro. Mesmo assim as dificuldades eram grandes.

O nascimento de Manoel determinou o encerramento dessa sequência, devido à necessidade de uma intervenção cesariana. Um problema nos ovários levou o médico responsável a optar por sua remoção. Novas gestações representariam elevado risco de vida para a mulher. O regime de governo iniciado por Salazar e seus amigos, inicialmente pareceu trazer alívio às agruras dos trabalhadores em geral. Mas uma sequência de manifestações contrárias ao governo geraram o recrudescimento repressor dos órgãos encarregados da segurança. Com isso a vida seguia tendo suas dificuldades de sempre. Havia sempre o risco de, qualquer palavra dita de modo indevido, ser interpretada como ofensiva ao regime, acarretando ao emissor desagradáveis consequências.
Rio Douro, na região de Ancede, Portugal (Imagem baixada da Internet).
 
Os anos passaram e, mesmo com toda dificuldade, os filhos cresceram. Graças a Deus, tinham boa saúde, não tendo grandes dificuldades por esse lado. Quando Manoel Silvério

Notável é a semelhança dos acontecimentos ocorridos em Portugual e no Brasil, praticamente à mesma época. No final da década de 20, surgiu nos quartéis o movimento denominado tenentismo. Seu apoio foi fundamental para o golpe aplicado a Júlio Prestes, poucos dias antes de sua posse na presidência.

Os militares depuseram o presidente e instauraram um governo provisório. Convidaram Getúlio Dornelles Vargas, candidato derrotado na eleição para assumir. Até 1934 governou por decretos. Com a promulgação da nova constituição o país voltou ao regime republicano. Em 1937, o congresso foi dissolvido, proclamado o Estado Novo que durou até 1945/46, quando o poder passou ao presidente eleito nas urnas.

atingiu a idade de 10 anos, a Segunda Guerra Mundial estava em seu auge, com os aliados buscando de todas as maneiras derrotar as tropas de Hitler. Portugal se mantinha neutro, preocupado em controlar seus próprios problemas internos. O conflito que atingiu o mundo inteiro, não deixou de ter sérias influências na vida dos lusitanos. A guerra provocou escassez de uma grande variedade de produtos no mercado mundial, ocupado no esforço de guerra. Isso se refletia indiretamente na vida do povo de Portugal.

 
Manoel frequentava a escola, usando os livros e outros materiais que os irmãos mais velhos haviam usado. Pouco havia que tivesse possibilidade de ser comprado novo. Apenas o estritamente necessário. O menino era medianamente interessado nos deveres escolares. Estudava apenas o suficiente para ser aprovado. O que chamava sua atenção eram as máquinas; os equipamentos a que tinha acesso restrito devido às condições reinantes. Por isso não perdia nenhuma oportunidade de descobrir tudo que pudesse a respeito de cada uma que lhe caia sob os olhos. O pai Joaquim falou repetidas vezes que isso não lhe traria vantagens. Melhor seria tratar de ingressar em algum órgão do governo e assim garantir melhores condições de vida. Isso requeria dedicação aos estudos, coisa que não estava nos planos imediatos do menino.
 
Dolores se esmerava em supervisionar suas atividades escolares em casa. A realização dos deveres, exercícios, redações e estudar para as provas. Mal ela descuidava, estava ele examinando alguma coisa ligada às máquinas. Tinha coleções de folhetos explicativos de diferentes máquinas e equipamentos, principalmente as de guerra, tão em voga nessa época. Tudo ele queria saber e quase ninguém podia satisfazer sua vontade, por desconhecere o assunto. Os irmãos e irmãs estavam atingindo a idade adulta ou na adolescência. O mais velho Joaquim Ferreira Filho, estava cursando o ensino secundário e se preparava para ingressar num curso técnico. Visava romper o ciclo de pobreza a que a família estava fadada se permanecessem na ignorância. Não havia oportunidade de crescer,almejar uma posição melhor remunerada sem um diploma.
 
Os demais caminhavam no mesmo rumo. Apenas Manoel Silvério recalcitrava. O que ele queria era saber de máquinas. Não para ser operador de uma delas. Tinha vontade de participar da fabricação, montar, desmontar, fazer manutenção. Os pais insistiam que ali no interior não havia escola em que pudesse cursar algo nessa área. Para enviá-lo à capital ou ao Porto, onde isso seria possível, não dispunham de dinheiro. Que fizesse um esforço especial para conseguir ser aprovado em uma escola pública e com um emprego em meio expediente talvez conseguisse seu objetivo.
 
Manoel viu ali uma oportunidade e começou a dedicar maior empenho na escola. Seu rendimento melhorou, enquanto sua paixão pelas máquinas crescia. Não tardou e começou a sair a tarde, ficando horas for a de casa sem ninguém saber de seu paradeiro. As tarefas escolares ficavam para tràs e era obrigado a ficar até tarde da noite para terminar. Assim na manhã seguinte tinha dificuldades em sair da cama e depois manter-se acordado durante as aulas.
 
Um dia Dolores decidiu seguir-lhe os passos para ver onde ele passava tantas horas, quase todas as tardes. Qual não foi sua surpresa quando o viu entrar em uma oficina de manutenção de automóveis e outros veículos, além de toda espécie de máquinas existentes na época. Ficou do lado de for a decidindo o que faria. Iria lá dentro pegar o filho pelo braço e o levaria para casa? Ou esperaria para ver o que ele estava fazendo naquele lugar? Não foi preciso esperar muito. Ele havia sumido para o interior e em poucos minutos saiu com uma roupa bastante folgada, pois havia pertencido a alguém mais velho. Eram visíveis os sinais de graxa e sujeira proveniente das máquinas que eram desmontadas.
 
Apesar da pouca idade, 12 para 13 anos, ele fazia tudo com enorme cuidade e dedicação. Estava aprendendo e por enquanto lhe confiavam a desmontagem das partes menos importantes. Mesmo assim ele dedicava enorme atenção a cada gesto, cada volta de parafuso. Depois de solta a peça era removida cuidadosamente e colocada num lugar apropriado e em ordem. Assim saberia a sequência que teria que seguir para montar depois de feito o conserto. A mãe ficou um longo tempo ali observando e se retirou, voltando para casa, quando um dos donos a viu, começando a prestar atenção em sua atitude. Pensara que o filho estava envolvido em atividades menos nobres e ele estava ali, aprendendo na prática o que tanto queria saber.
 
O que causava admiração é que, ao voltar para casa, ele não trazia nenhum sinal de sujeira nas mãos ou no resto do corpo. Não lhe fez nenhuma pergunta nem falou nada. Iria conversar primeiro com o marido, explicando o que descobrira. Não tinha intenção de impedir o aprendizado do menino. Certamente precisariam conversar com o dono da oficina para que tudo ficasse dentro da normalidade. Era importante que soubessem ser ele um menino de família e não um moleque perdido, sem eira nem beira.
 
No silêncio da alcova pôs-se a conversar baixo com o marido, narrando todos os pormenores do que havia visto. Joaquim ficou um instante pensativo, coçou atrás da orelha como era seu hábito, depois perguntou:
– E tu não foste perguntar quem é o dono ou o responsábel pelo estabelecimento?
– Sabes, Joaquim! Não quis perturbar o menino. Penso que será melhor nós dois termos uma conversa séria com ele e depois ir até lá falar com quem é reponsável pelo serviço.
– Pensaste, bem! Pensaste bem! Se chegasses assim de surpresa ele poderia se assustar, ficar nervosa e mesmo se machuvar. Não imaginas o perigo que são aquelas ferramentas que usam para desmontar e montar essas máquinas.
– Não é preciso me falar, marido meu. Eu vi com estes olhos, que a terra há de comere. Tem umas chaves que são quase do tamanho dele. Mas ele as maneja como ninguém.
– Vou recomendar ao responsável para tomar cuidado. Se ele se machucare, depois ficamos nós com os cuidados para tratar dos ferimentos, ou coisa pior.
– Nossa Senhora de Lourdes que o proteja! Vou fazere uma promessa a Santinha! Acendere umas velas diante da imagem do mosteiro.
– Não adianta nada só fazer promessas, minhã querida. Precisamos tomar nossas precauções.
– Mas nunca é demais pedir a proteção do alto, marido meu.
– Ele deve estar terminando de fazer as tarefas escolares. Já é tarde. Vou na cozinha tomar um copo d’água e ver se ele já terminou. Então é isso que ele anda fazendo e de manhã tem preguiça de levantar. Não é preguiça, é cansaço mesmo.
– Os irmãos estão todos dormindo há um bom tempo. E ele não tem deixando as coisas da escola para trás. Ainda bem. Ele parece que descobriu o caminho que vai seguir.
Joaquim levantou, saiu disfarçando, como quem acabara de acordar depois de dormir um pouco e foi tomar sua água. Ao passar perto da mesa, viu o filho ainda concentrado sobre um caderno, escrevendo números, fazendo contas.
 
– Falta muito para terminares, meu filho?
– Só um pouco, pai. Logo vou dormir.
– Cuidado com a lâmpada. Confere se está bem desligada para não gastar combustível desnecessário.
– Pode deixar, pai. Eu sempre cuido.
– Durma bem depois.
– O senhor também, pai.
 
Voltou para a cama e conversaram por mais uns minutos até ouvirem o menino apagar o lampeão e ir para sua cama. Em minutos reinava silêncio total na pequena casa. O espaço era pouco, mas era o que seus recursos podiam pagar. Era preciso aguentar e buscar um meio de melhorar. Os filhos faziam planos para quando se formassem e tivessem seus empregos. Prometiam dar dias melhores aos pais. Joaquim pensava em seu íntimo, se os políticos permitissem que alguém progredisse. Pareciam cada vez mais empenhados em arrancar o máximo em impostos de todo mundo para manter sua máquina de repressão das manifestações contrárias ao regime. Havia multidões encarceradas, superlotando os presídios. Frequentemente corriam notícias de rebeliões em presídios, logo reprimidas violentamente.
Apresentação folclórica na praça, perto do Mosteiro de Santo André.
 
Não eram raros os casos de presos desaparecidos nas penitenciárias, de quem nunca mais se ouvia falar. Como tantos outros lusitanos, Joaquim sonhava com o dia em que houvesse paz no país. Não fosse preciso temer a cada dia pessoas sendo colocadas na prisão por motivos pouco mais que banais e, por vezes, voltar dentro de um esquife, ou em estado lastimável. Não era esse o sonho acalentado pelo povo do país ao dar apôio a Salazar quando havia sido implantado o regime atual. As promessas eram de um período passageiro para por ordem na casa e se passara mais de uma década, nada de ordem e a opressão cada vez mais severa. Será que os filhos teriam a chance de ver dias melhores?
 
Pensando nessas questões, dormiu devido ao cansaço do dia de trabalho árduo. Ao encerrar o trabalho na vinha, for a ganhar alguns cobres extras num serviço de limpeza do quintal de uma senhora idosa da vizinhança. Ela não lhe pagava muito, mas era alguma coisa para ajudar. Assim ajudava ela. Vivia da magra pensão que o marido, um funcionário público de baixo escalão lhe deixara ao morrer. 
 
Logo cedo, os filhos sairam para a escola, Joaquim foi trabalhar, ficando Dolores sozinha para preparar o almoço. Era o momento em que todos chegavam famintos.  Por sorte, com os trocados ganhos no serviço na tarde anterior, pode ir até uma bodega comprar alguns mantimentos. Dessa forma o sustento da família estava reforçado por alguns dias. Nem sempre isso era possível. Deu mentalmente graças a Deus e pôs-se a trabalhar.
 
Primeiro fez uma faxina na casa. Depois da noite de sono, sempre ficava alguma sugeria espalhada por todos os lados. Por volta de nove e meia, iniciou a preparação do almoço. O dia correu normal. Naquela noite, depois que os irmãos foram dormir, Maneol viu os pais sentarem-se diante dele, perto da mesa e ficou apreensivo. O que significaria aquilo? Fizera alguma coisa errada? Logo imaginou que alguém denunciara suas escapadas vespertinas até a oficina. Nem lhe ocorreu que a mãe o seguira e vira com os próprios olhos o que ocorria. Esperou alerta, pronto a se defender, ou até mesmo inventor uma pequena mentira para safar-se da enrascada.
– Meu filho, – falou Dolores. – Eu e seu pai precisamos conversar com ti.
– O que aconteceu, mãe? – indagou o menino.
– Ontem, quando você saiu daqui escondido, eu segui você.
Ele ficou vermelho igual um tomate maduro. A própria mãe desvendara tudo. Não adiantaria inventar nada. Eles sabiam de tudo e provavelmente iriam impedir que voltasse à oficina. Ficou esperando a continuação.
– Tua mãe me contou Manoel, que você está indo naquela oficina que tem perto da praça. Deveria ter avisado a mim e tua mãe do que ia fazer. Pensamos que estivesses a fazer travessuras. No fim descobrimos que estás a aprender um trabalho.
– Estou aprendendo a desmontar e montar as máquinas. Ainda não faço as coisas mais complicadas, só as bem simples.
– Mas estás a te expor ao risco de te machucares seriamente. Ou pensas que aquelas ferramentas não machucam se usadas de modo errado?
– Eu si pai. Tomo muito cuidado.
– Tu ainda és menino. Não tens força para certas coisas. Podes cair e se cortar, quebrar um braço ou perna.
– Mas isso acontece até brincando. Outro dia mesmo o Francisco da tia Maricota, quebrou o braço nas brincadeiras na escola.
– Nós sabemos disso, mas abusar da sorte não é conveniente. Achamos melhor esperar mais uns dois anos para começares a trabalhar.
O menino olhou com os olhos suplicantes para os pais e lágrimas rolaram por suas faces. Quando parecia que iria apoiar a cabeça nos braços cruzados a sua frente, olhou resoluto para os genitores e falou:
– Eu prometo não me machucar. Deixem eu continuar a ir na oficina, pelo menos um pouco todos os dias.
Os pais se entreolharam significativamente e Dolores falou:
– Vamos fazer uma experiência por mais umas semanas, digamos até o final do mes. Se nada acontecer, tu continuas. Mas se voltares machucado, acabou oficina.
– Obrigado, mamãe, papai! Prometo estudar mais ainda para não dar trabalho na escola.
– Isso é algo que nem se discute. A escola tem preferência. Se apareceres com notas baixas, reclamações dos professores ou algo assim, também terminou a história da oficina.
– Amanhã seu pai vai passar lá no final da tarde, ao voltar do trabalho para conversar com o dono da oficina. Vamos combinar dereito isso. Não é justo trabalhar de graça. Mesmo que esteja aprendendo, mas sempre faz alguma coisa.
– Assim você ganha uns cobres para comprar alguma coisinha que precise.
O menino pôs a mão no bolso e retirou algumas notas amarfanhadas. Entregou ao pai que contou e viu que ele ganhara um bom trocado. Olhou para o menino e falou:
– Aqui tem dinheiro igual a uma semana de trabalho meu. Você ganhou isso ou como veio prar no seu bolso esse dinheiro?
– Pode perguntar ao Senhor João, dono da oficina. Ele me pagou hoje as duas semanas que trabalhei lá. Já sei desmontar e montar uma porção de coisas. Mais tarde vou aprender a descobrir os defeitos e consertar. Aí vou ganhar bem mais dinheiro.
– Mas não penses só em dinheiro. Tens que pensar na vida e saúde. Tens muito que viver e não vale a pena estragar a saude ainda criança.
– Quando tenho que tirar peças muito pesadas, peço ajuda. Os outros também me pedem ajuda e assim nos viramos.
– Guarde esse dinheiro. Se a mãe precisarr, ela fala e você ajuda com alguma coisa na despesa da casa.
– Vou ficar só com uns cobres. O resto eu deixo com a mãe para comprar o que estiver faltando.
 
A mãe separou um pouco do dinheiro e entregou-o ao menino. Guardou o resteo no bolso do avental, junto com uns trocados que haviam sobrado do último serviço extra de Joaquim. Pensou no que poderia comprar para melhorar nível de alimentação da família. Quem imaginaria que o caçula, motivo de preocupação com suas ideias diferentes, começasse tão cedo a ajudar a manter a casa. 
 
Depois de conversar com os pais, o menino ficou aliviado por saber que eles aprovavam o que vinha fazendo e estes, por sua vez, ficaram menos apreensivos com as perspectivas de futuro do filho. Dava para perceber que ele aprenderia a encontrar o caminho por sua própria conta. Era o que demonstravam suas atitudes nas últimas semanas. Começara escapando da vigilância da mãe e voltara horas depois. Já havia feito isso uma ou duas vezes antes, mas voltara logo. Dera uma desculpa qualquer e ficara por isso mesmo. Finalmente estava tudo explicado.
 
O menino terminou de fazer suas tarefas, o coração aos pulos, quase não conseguiu fazer tudo direito, tamanho era seu contentamento. Os pais por sua vez se recolheram ao seu quarto, conversando alguns minutos antes de dormir profundamente. Na hora de sair para a aula, Manoel deu um beijo na mãe, outro no pai e saiu. Os dois se olharam, se entenderam sem dizer palavra. Compreendiam-se no simples olhar, dizendo por vezes mais do que muitas palavras vazias. Logo a seguir Joaquim também foi trabalhar. Dolores lavou a louça do desjejum e passou uma vassoura na casa, deixando tudo arrumado em um instante. Estava com o espírito alegre. Enquanto fazia seus afazeres pensava no quanto poderia comprar de cada ingrediente, um pouco de peixe, um bocado de carne de porco, além de outros ingredients mais baratos e duráveis.
 
O almoço parecia uma pequena festa. Os irmãos olharam para a mãe indagadoramente, como que a dizer:
– O que estamos comemorando? Papai ganhou um aumento? Ganhou na sorte grande?
Ela apenas sorriu enigmaticamente e continuou servindo os alimentos. No momento em que estava tudo pronto, nada mais se falou. Todos comeram com gosto e Manoel, sabendo que a melhoria na mesa, era decorrente do dinheiro que deixara com a mãe. Sentiu-se imensamente satisfeito. Estava dando sua contribuição na casa, apesar de sua pouca idade. Quando os irmãos e irmãs seguiram seus afazeres, ele já com a roupa trocada, saiu depois de dar um ligeiro adeus à mãe. Caminhava eufórico com a situação. Seu trabalho, ainda como aprendiz, proporcionara à toda família uma refeição bastante substancial. Poder-se ia dizer quase um banquete.
 
O tempo passou, os anos sucederam-se rapidamente e logo os filhos mais velhos estavam se formando nos seus cursos técnicos. Manoel estava agora com 15 anos. Os rumores de um retorno à guerra no resto do continente e do mundo estavam cada vez mais distantes. O menino agora já era capaz de fazer sozinho uma porção de serviços bastante complexos nos veículos e com isso seus rendimentos também cresceram. Ninguém mais ingorava a situação e ele participava ativamente das conversas sobre as despesas da casa. Fazia planos sobre seu futuro

Mausoléu de família nobre em Ancede, Portugual