Arquivo mensais:Abril 2015

Na senda dos monges! – Capítulo XII – Conquistando seu espaço.

  1. Conquistando seu espaço

 

            Nos dias que seguiram à união de João Maria e Lua Serena, usando o machado que estava nos alforjes, depois de colocar um bom cabo, começaram a construir a nova cabana. Trovão Distante quis que fosse mantida a velha cabana para ele e se construísse a nova para o casal.  Começaram por providenciar troncos de coqueiros para as paredes e a estrutura da cabana em que iriam viver nos próximos anos. A jovem esposa demonstrou habilidade no manejo das ferramentas e foi de grande ajuda. Poucos dias foram suficientes para construir um abrigo, bem mais amplo. Tinha a divisão para acomodar o idoso Trovão Distante, bem como o casal. Com pedras construíram o fogão onde os alimentos seriam preparados e cujo calor amenizaria os rigores do inverno. Aproveitando a mesma estrutura foi preparado também um forno para assar pão e outros alimentos.

            Com a cabana pronta, fizeram um reconhecimento geral nos bosques de ilex paraguariensis, para produzir erva mate. Localizaram um ótimo suprimento de plantas nativas que permitiriam produzir um volume considerável do produto. Com isso e a coleta dos pinhões, poderiam conseguir a condição de adquirir alguns animais e começar a formação de um pequeno plantel de vacas, tanto para leite como para corte. O cavalo tordilho era, por ora, o meio de locomoção. Não longe da cabana havia um córrego com volume de água suficiente para acionar os monjolos que João tencionava construir. Assim poderiam secar a erva mate e entregar o produto moído em lugar de apenas preparado para moagem no destino. Teria maior valor agregado.

            Tudo exigia tempo. Era preciso andar devagar, pois ele ainda estava em convalescença e sentia o cansaço tomar conta do corpo, depois de um dia inteiro de trabalho. Depois de iniciar trabalho, até o velho Trovão distante se animou a ir até o local onde a erva era sapecada e preparada em fardos para secagem. Estavam na época apropriada, quando não havia brotos novos, fornecendo uma erva de sabor mais suave. Os fardos iam sendo preparados e colocados no local de secagem. Nos dias de chuva, trabalhavam na confecção dos monjolos e cocho um grande tronco oco encontrado nas redondezas. Precisava ser bem trabalhado internamente para não desprender partículas de madeira que iriam se misturar à erva alterando o sabor. Quando a instalação dos pilões, movidos a água do córrego ficaram prontos, a primeira remessa de folhas e finos galhos estava seca. Era possível começar a moer.

            Era preciso ficar de plantão na beira do cocho para repor e misturar as partes menos moídas levando a uma moagem uniforme. Revezavam-se nessa tarefa, de modo que em poucos dias estavam com um belo suprimento de erva pronta para ser levada ao lugar mais próximo para tentar vender. Uma canoa havia sido escavada de um tronco adequado e transportado para a beira de um afluente do Rio do Peixe que passava perto. Dali alcançariam o curso maior e poderiam descer até um povoado que sabiam existir alguns quilômetros corrente abaixo. Deixaram Trovão Distante e Tordilho bem supridos de mantimentos, além de estarem em bom estado. Partiram na esperança de voltar em no máximo dois dias.

            Uma corredeira existente antes de alcançarem o Rio do Peixe quase frustrou seus planos, fazendo naufragar o barco. Valeu a experiência de Luz Serena. Na volta precisariam encontrar uma maneira de subir ou encontrar outro caminho mais curto para chegar à cabana. Ao chegarem no povoado, encontraram um grupo de tropeiros que agora faziam transporte de erva mate e pinhão para o litoral catarinense e outros levavam o produto para o Rio Grande do Sul. Para surpresa de João Maria, entre os componentes do grupo encontrou um jovem que iniciara nas tropeadas ainda no tempo que ele fizera suas últimas viagens. Foi um encontro emocionante. A família de João considerava-o morto em algum canto do sertão catarinense, uma vez que não voltara com a tropa de Gumercindo Saraiva.

            Ficou sabendo que a revolução terminara com a vitória dos pica-paus, Gumercindo fora assassinado à traição logo depois de voltar da expedição ao Paraná. Dessa forma, a venda da erva que trazia estava garantida. Apresentou a nova esposa e negociou com o chefe da comitiva. Conseguiu um bom dinheiro, com o qual comprou alguns produtos que precisavam, especialmente querosene, sal, açúcar, farinha. Depois de levar Luz Serena com tudo que adquirira, faria um giro na redondeza, em busca de uma vaca para comprar. Até mesmo uma cabrita serviria para terem um pouco de leite. O fato de produzir a erva já pronta para consumo, despertou o interesse de comerciantes do lugar. Fizeram ofertas de crédito para adquirir suprimentos que seriam descontados em futuras entregas de produtos. Ele agradeceu, mas preferiu não fazer dívidas.

            Queria ter liberdade de negociar com quem oferecesse melhor condição, sem estar atrelado a ninguém por compromisso de débitos previamente assumidos. Despediu-se do antigo companheiro, tendo antes escrito uma carta para a família, explicando como e onde estava. No momento que fosse possível faria uma visita e decidiriam o que fazer em termos de futuro. Embarcaram na canoa e subiram, agora remando com vontade redobrada, procurando chegar à desembocadura do pequeno rio. Chegaram ao pé da corredeira e ali procuraram um ponto para aportar. Enquanto ele descarregava os mantimentos, Lua foi buscar Tordilho para conseguirem transportar tudo. Seria necessária a ajuda do nobre animal, pois de outra forma poderiam perder o que tanto trabalho custara.

            Com a farinha, o sal, o açúcar e demais temperos os alimentos passaram a ter outro sabor. Um jogo básico de panelas também estava incluído, uma pequena lata de banha para usar na preparação dos alimentos. Iria ensinar Lua a cozinhar como ele gostava. Apreciava os acepipes que ela preparava, mas a culinária indígena era limitada e ele fora criado com alguns requintes há tempos não disponíveis. O velho Trovão Distante lembrou de sua juventude quando conhecera comida do homem branco e apreciara. A vida limitada ali naquele recanto privara-o desses luxos. Poderia agora ir para junto dos antepassados, pois tivera novamente o prazer de degustar alimentos com temperos do homem branco.

            Sem demora os trabalhos foram recomeçados. Depois de um mês e meio tinham nova carga para levar ao povoado. Dessa vez transportaram tudo até o local em que ficava a canoa e ali embarcaram. Não queriam correr o risco de perder tudo na corredeira. Nem sempre teria a mesma sorte da primeira vez. Não convinha arriscar. O barco, leve e veloz, desceu rio abaixo, ficando apenas alguns centímetros fora d’água. Suficiente para não molhar o interior. Em poucas horas estavam no destino e procuraram negociar o suprimento de erva, bem como os pinhões e frutas que levavam.

            Fizeram bom negócio, pois havia um chefe de tropa do RS disposto a adquirir todo suprimento. Tivera contato com o amigo e sabia da possibilidade de conseguir ali um produto de boa qualidade. Logo depois de ancorarem no porto improvisado, haviam efetuado a venda de tudo que traziam. As compras que tinham necessidade eram de menor monta e sobraria dinheiro para procurar uma vaca, talvez uma novilha. Pediu informação e soube que, a menos de meio caminho da cabana, havia um pequeno proprietário que provavelmente estaria disposto a lhe vender uma vaca. Agradeceu e ao amanhecer do outro dia estavam remando há mais de duas horas rio acima. Por volta do meio da tarde chegaram ao pé da corredeira. Para sua surpresa encontraram Trovão Distante levando Tordilho pela brida. O idoso, parecia rejuvenescido e caminhava ereto, embora devagar. No começo da noite estavam em segurança na cabana.

            João preparou-se para seguir na manhã seguinte na direção que lhe haviam fornecido. Queria encontrar a propriedade e, se possível, trazer uma vaca para iniciarem sua criação. Ao clarear do dia estava pronto e iniciou a viagem. Vadeou o riacho pouco acima e desceu pela outra margem. A floresta de araucárias, tendo os faxinais nas partes que as separavam de pastos nativos, eram relativamente fáceis de serem percorridas, exceto em alguns lugares. Desceu até a proximidade do Rio do Peixe e depois seguiu o curso desse. Pouco antes do meio dia, alcançou um descampado onde havia uma pastagem e ali havia diversas cabeças de gado pastando.

            Um cão latiu acusando sua presença e ele seguiu devagar, tomando cuidado para não ser tomado por ladrão de gado. Vinha com o intuito de comprar. Seguiu pela beirada, na direção de uma pequena fumaça divisada ao longe, atrás de um bosque de pinheiros entremeados com erva mate. Em alguns minutos encontrou uma casa rústica, rodeada de mais algumas instalações de mesmo estilo. Mais um cão latiu, fazendo aparecer uma mulher de meia idade, saída de dentro de casa. Saudou-a amistosamente, dizendo:

            – Bom dia, senhora!

            – Bom dia! O que o senhor deseja?

            – Eu moro alguns quilômetros rio acima e estou procurando uma vaca para comprar. Me informaram no povoado rio abaixo que aqui eu iria encontrar.

            – Vai precisar falar com o Chico, meu marido. Ele volta daqui a pouco. Foi com os filhos limpar terreno para plantar milho e feijão depois do inverno.

            – Posso apear e esperar por ele?

            – Chegue para a varanda aqui e tome assento. Quer um pouco de água?

            – Aceito. Estou caminhando desde cedo.

            – Pode soltar o cavalo aqui no pátio ele não vai fugir. Ali atrás tem água onde ele pode beber.

            – Vou levar ele até lá e depois solto. Ele está com mais sede que eu, pois veio fazendo força, enquanto eu vim montado.

            Levou o Tordilho até um cocho com água onde ele bebeu à vontade. Soltou-lhe o arreio e retirou para deixar que descansasse melhor. Voltou para a varanda, sentando-se. Logo a dona da casa veio trazendo uma grande caneca cheia de água fresca. Bebeu com vontade e em alguns minutos ouviram vozes de gente conversando. Eram o marido e os filhos voltando do trabalho. Em instantes eles entraram pela porta dos fundos. A mulher os esperava e informou da presença de João. Logo estavam ali o marido e os quatro filhos. A única filha estava no interior da casa. Depois dos cumprimentos e apresentações, todos sentados, foi o momento de João indagar do dono da casa:

            – Me informaram no povoado que talvez o senhor tivesse uma vaca para vender. Moro alguns quilômetros rio acima, junto com um velho índio e sua neta. Estou começando uma vida nova, depois de quase morrer.

            – Mas que foi que lhe sucedeu, homem?

            – Eu fazia parte da tropa de Gumercindo Saraiva na revolução dos maragatos e na retirada fui ferido. Consegui chegar até ali, mas quase morto. Uma bala no quadril com alguma coisa de ruim quase me matou. O velho índio tirou a bala e conseguiu me salvar a vida, depois de um mês ardendo em febre e delirando.

            – O velho Trovão Distante?

            – Ele mesmo e a neta Lua Serena. O senhor conhece?

            – Conheço sim. Mas pensei que tivesse morrido há anos quando andou por aí um pessoal caçando bugres para escravo.

            – O resto da família morreu ou foi levada.  O velho e a neta sobreviveram.

            – Aquele índio é gente boa.

            – Eu agora sou marido da neta e assim ele é meu avô também.

            – Vai começar uma posse. Ali onde eles ficavam tem terra boa, bastante erva mate e pinhão. Vai fazer uma bela propriedade.

            – Estou sentindo falta do leite e depois de vender umas partidas de erva e pinhão, acho que tenho dinheiro para comprar uma vaca.

            – Vou ter que perguntar para a mulher veia se ela deixa vender uma vaca. Zilda, vem aqui um pouco.

            – O que foi Chico?

            – O homem quer comprar uma vaca. Podemos vender uma para ele?

            – Acho que pode sim. Aquela que criou perto do Natal. Não essa última que essa tenho muito gosto nela.

            – Vamos lá ver as bichas, enquanto a mulher termina de aprontar a boia. Depois vamos comer e voltar a trabalhar.

            Levantaram e caminharam por alguns minutos chegando ao lugar onde estavam as vacas. Eram mansas e foi possível colocar a corda na que lhe apontaram. O animal caminhou calmamente até o lugar onde foi amarrada. Ele a examinou detidamente, até chegar à conclusão de tratar-se de um animal saudável e aparentando ser de boa qualidade. Desejou saber se era mansa para tirar leite e Chico lhe alcançou uma caneca para isso.

            – Mas ela não dá coice?

            – Não. Pode sentar e tirar o leite.

            Realmente pode constatar que era possível tirar o leite da vaca, sem precisar amarrar-lhe as pernas. Isso era um fator importante, pois Lua Serena iria querer tirar leite e não tinha nenhuma prática no assunto. Resolveu perguntar o preço e esperou ansioso pelo veredito. Temia não dispor do dinheiro suficiente, mas ficou satisfeito ao ouvir o que disse o proprietário.

            – Não vou lhe arrancar o fígado por mode uma vaca. Uma caneca de leite faz muita falta numa casa. Vou lhe fazer um preço camarada.

            Realmente o preço era bem menos do que João ousara esperar. Não tardou e fez logo o pagamento. A vaca foi levada para perto da casa e ali foi amarrada. Convidaram o visitante para almoçar e, depois de meses, foi a primeira refeição preparada por uma mulher branca que comeu. Era fácil perceber a diferença. Em suas muitas andanças, fora acostumado a se alimentar com diversos tipos de alimentos, de diferentes temperos e origens. Depois de comer, decidiu encetar a caminhada. Levando a vaca pela corda, não poderia desenvolver muita velocidade. O bom era que agora o caminho estava conhecido e não perderia tempo com voltas inúteis.

            Depois de trazer tordilho, farto de pastar na sombra dos pinheiros e pés de erva existentes nas proximidades, colocou-lhe os arreios. Em pouco mais de cinco minutos estava pronto para partir. Despediu-se dos vizinhos amistosamente e rumou para a sua moradia. Olhou o sol e deduziu que, caminhando a passo firme, chegaria em torno do início do escurecer. Contanto que a vaca não resolvesse empacar, o que era uma possibilidade. Por sorte o animal era, além de manso, dócil e seguiu o cavalo sem estranhar. Não se enganara. Quando a luz despontava no céu, parava diante da cabana, onde Lua Serena de Trovão Distante o esperavam. Observaram a vaca, primeiro à distância, depois chegaram mais perto, ao verem João soltar o animal da cilha do cavalo e afagar seu pelo que estava suado. Era visível o cansaço do animal. Agora poderia descansar.

            Junto com Lua foram buscar um pouco de capim para dar ao animal enquanto ele sentava sobre um cepo e tirava o leite. Era pouco devido ao fato de estar cansada. Havia pastado pouco e gasto muita energia, além da transpiração. Olhos curiosos acompanharam o processo de ordenha, mas não se atreveram a tentar fazer o mesmo. O vendedor havia lhe informado que o animal estava prenhe, sendo previsto o nascimento do bezerro para o próximo ano, no final de janeiro, começo de fevereiro. Não ficariam muito tempo sem leite e logo teriam outro animal. A criação estava começando. Era preciso encontrar um lugar seguro para deixar o animal até se acostumar ao novo lar. Por sorte havia comprado alguns metros de corda na última ida ao povoado.

            Fez uma laçada na extremidade, caprichando para evitar que desmanchasse. Depois colocou a corda na cabeça da vaca. Nisso lembrou que esquecera de perguntar se ela tinha nome. Seria interessante colocar um para poder chamar e ela atenderia vindo para o lugar de costume. Isso poderia ser decidido no dia seguinte. Trovão Distante já bebera leite em sua juventude e gostou de repetir a experiência, depois de muito tempo. Luz Serena ficou um pouco temerosa, mas experimentou um pouco. O sabor era algo diferente do que até hoje bebera. Habitualmente era água ou alguma infusão de ervas por maceração ou cozimento. Logo se acostumaria ao sabor levemente adocicado, com aquele pouco de espuma que marcava o lábio superior, como se fora um bigodinho branco.

            Depois de deixar a vaca em lugar seguro, comeram carne salgada misturada com arroz e feijão. Completaram a refeição com salada de almeirão selvagem existente em abundância nas matas da redondeza. Estavam preparando canteiros para cultivar algumas outras hortaliças dando maior variedade às opções de alimentação. Depois foram deitar-se. Lua Serena tinha uma um ar estranho. João imaginou inicialmente ser devido à novidade de uma vaca, o novo ingrediente do cardápio. Quando deitaram ela se aconchegou a ele e ficou longamente fazendo carinho no seu homem, como quem apenas quer agradar. Em dado momento murmurou ao ouvido:

            – Lua Serena vai ser mãe!

            Depois de ficar por um momento silencioso, João conseguiu articular as primeiras palavras.

            – Pode repetir o que você disse? Eu não ouvi direito.

            – Lua Serena vai ser mãe! Meu sangue não desceu e hoje senti enjoos, depois vomitei um pouco. Avô Trovão Distante, sonhou na noite passada que ia ser avô outra vez e dessa vez era um pequeno guerreiro.

            – Mas isso é maravilhoso, querida. Vamos cuidar bem desse pequeno mestiço que vai nascer. Vai herdar a valentia do bisavô Trovão e do pai vai herdar uma tradição de longos anos de soldados, envolvidos em várias guerras e batalhas.

            – Nosso filho vai ser homem de paz. Não quero saber de guerra nem armas.

            – Se fosse possível viver sempre em paz, é logico que todos nós gostaríamos.  Infelizmente, acontecem coisas que obrigam os homens a lugar para defender seus bens, suas famílias e terras.

            – Bem que o monge João Maria falou que ainda iria haver uma porção de guerras por causa dos homens maus que vão vir.

            – Nem é preciso que venham de fora os homens maus. Já tem deles em quantidade suficiente aqui mesmo.

            – Mas juntando os que vem de fora com os que tem aqui, fica muito mais complicado.

            – Vamos torcer para que o nosso pequeno guerreiro possa viver sem precisar pegar em armas. Isso me deixaria muito feliz.

            Os dois se abraçaram carinhosamente e pouco depois estavam dormindo. Pela manhã, ouviram cedo o mugido da vaca, pedindo para ser ordenhada. Provavelmente também sentia fome e sede, pois o dia anterior fora cansativo e o alimento pouco. João foi cortar um maço de capim que crescia alto num ponto próximo e deu para o animal comer. Enquanto ela se punha a mastigar, ele falou:

            – Vamos escolher um nome para a vaca. Assim vamos poder chamar e ela vem.

            – Não pode ser apenas Vaca?

            – Poder pode, mas e como vamos chamar quando tivermos mais de uma? Vaca Dois?

            – Vou perguntar ao vovô. Ele sabe escolher nomes melhor que eu.

            João sentou-se para tirar o leite e ela ficou assistindo, prestando atenção como era feito. Em seu íntimo imaginava-se sentada naquele cepo e fazendo o que João fazia. Ficou pensando em alguns nomes que poderiam usar para chamar a vaca. Em dado momento falou:

            – Vou chamar vaca de Sol. Fica bom, não acha?

            – Pode ser. Um nome curtinho e bem forte. Por mim ela vai ser Sol.

            Terminada a ordenha, agora um pouco mais abundante, a vaca ficou comendo para dar conta do belo maço de capim que recebera. Os dois foram para dentro e o fogo já crepitava forte no fogão. Prepararam um mingau de leite com farinha de milho para o desjejum. O velho Trovão Distante se deliciou com o mingau. Apreciava esse alimento, pois misturava o leite da vaca com milho, um alimento altamente nutritivo. Terminado o desjejum, João falou à Lua que ela deveria agora ficar fazendo apenas serviço de casa e não se esforçar. Ele faria o serviço pesado. Pegou o facão, uma foice nova que adquirira e preparou-se para sair. Lua se postou a sua frente e falou:

            – Lua não estar doente. Lua só vai ter filho, isso não ser doença.

            – Mas tem que se cuidar e evitar esforço, pois pode se machucar e não quero perder nem Luz, muito menos o pequeno guerreiro.

            – Lua ser neta de Trovão Distante e não vai ter problema para ter filho. Neto de Trovão nascer forte e saudável.

            – Está bem. Deixo você ajudar, mas me promete que vai se cuidar para não se machucar, nem ao pequeno guerreiro.

            – Lua saber trabalhar. Lua ser guerreira forte e valente.

            – Vamos. Vovô cuida do fogo para depois fazer almoço.

            – Trovão prepara almoço. Pode deixar que disso eu cuidar.

            Foram para trabalhar. Faltava terminar o terreno onde iriam plantar feijão, milho e mandioca. As ramas estavam guardadas em lugar seguro para não serem queimadas pela geada do inverno. Com a perspectiva de mais um membro na família, era necessário plantar bastante comida. Com mandioca e milho, além de garantir alimento para eles, poderiam criar galinhas, um porquinho e aos poucos melhorar a condição geral do lugar em que viviam. Trabalharam com afinco, roçando e fazendo planos para o filho que iria nascer. João queria saber de comprar algumas roupas para proteger o corpinho frágil do bebê pois iria nascer nas proximidades do inverno seguinte. Teria necessidade de agasalhos e isso custava dinheiro. Trabalhou com mais vigor. As últimas novidades haviam lhe infundido novo vigor. Os últimos vestígios de fraqueza devidas à convalescença do tiro pareceram sumir milagrosamente.

            – Lua vai colher frutas ali na frente e trazer água para João. Precisar se alimentar e beber água.

            – Vai com cuidado, meu amor.

            Enquanto ela ia, a todo momento ele olhava na direção seguida por ela. Era todo cuidados com sua amada. Lembrava que cachorro mordido de cobra, passava a ter medo até de linguiça. Todo cuidado era pouco, sabendo do estado em que ela se encontrava. Sonhava com o dia em que poderia levar a nova esposa e filho para conhecer os pais, bem como a filha Isabel. Não tardou e viram, de onde se encontravam, a fumaça subindo firme a chaminé do fogão feita com pedras e barro. Trovão deveria estar preparando a refeição. Pela posição do sol, viram que era hora de voltar para a cabana e se alimentar. Um pouco de descanso lhes faria bem, para depois darem mais uma pegada no eito, na parte da tarde.

            Quando se aproximaram da cabana, sentiram de longe o odor forte do tempero usado pelo velho na preparação da refeição. Tinha preparado peixe assado, depois de reidratar a carne. Um caldeirão com feijão fumegava ao lado, enquanto um maço de verduras estava lavado e pronto para ser cortado. Descansaram um pouco e Lua ajudou a concluir a refeição. Quando tudo ficou pronto serviram-se e comeram com gosto. O tempero do velho índio era bom, embora fosse forte no sabor das ervas que usava, praticamente eliminava o uso do sal. Mesmo assim o sabor era ótimo. Junto com a fome, davam o retoque final no tempero.

            Ao almoço farto, seguiu-se uma hora de descanso, sendo bebericado junto um mate, tomado numa cuia com canudo de taquara. O caroço na extremidade e pequenos furos permitiam a passagem da água, sem levar junto a erva moída.

Décio Adams

decioa@gmail.com

adamsdecio@gmail.com

www.facebook.com/livros.decioadams

www.facebook.com/decio.adams

@AdamsDcio

Telefone: (41) 3019-4760

Celulares: (41) 9805-0732 / (41) 8855-6709

Na senda dos monges! – Capítulo XI – O amor renasce.

pinheiros na floresta

Floresta de pinheiros

Floresta de pinheiros.

Floresta de pinheiros 2

 

  1. O amor renasce.

 

João Maria, depois de falar da esposa perdida e da filha distante, caiu um momento em nostalgia profunda. O olhar estava distante, os pensamentos vagavam no tempo em que levara Ceci para a frente do padre e do juiz de paz e casara com ela. Já haviam se passado aproximadamente 10 anos. Haviam vivido um idílio, mas durara pouco. Sua Ceci, doce, suave e ao mesmo tempo selvagem e bela, perdera a vida ao dar à luz a pequena Isabel. Nesse momento lembrou da filha e imaginou o que estaria fazendo a essa hora. Ajudando a avó, brincando, lembrando do pai que não voltara da guerra para onde fora sem ter necessidade. Teria derramado alguma lágrima ao saber do retorno da tropa? Estaria esperando pelo milagre de vê-lo entrando pela porteira da propriedade?

Despertou do devaneio e viu Luz Serena olhando inquisitiva para ele. Apressou-se em dizer:

– Estava lembrando da minha Ceci que morreu e da filha Isabel que está com 8 anos e alguma coisa.

– Assim? – apontou Lua mostrando uma mão e três dedos da outra.

– Sim, isso mesmo.

– Sentir saudades de filha?

– Eu tinha passado alguns dias sem lembrar nem de mim, quanto mais de outras pessoas. Agora voltou tudo com mais força. Bateu uma dor aqui no peito de lembrar da minha família.

A vida lentamente começou a voltar ao corpo descarnado de João Maria. O longo período de luta contra a infecção, consumira suas carnes, deixando-o pele e ossos. Por sorte não dispunha de um espelho para se observar. Não veria o estrago feito em seu corpo forte e musculoso. Bastava olhar as mãos esqueléticas, as pernas com a pele pendurada. Transformara-se em um verdadeiro saco de ossos. Vendo-o observar o próprio corpo com ar preocupado, Luz Serena falou:

– Lua vai pescar e caçar para trazer comida boa para amigo ficar forte logo.  Poder usar cavalo para ir mais depressa?

– Se vocês se entenderam tão bem, eu já disse, o cavalo é seu. Use sem receio.

– Agora precisar comer um pouco de carne com pinhão. Ser comida forte. Logo ficar pele cheia de novo. Veneno comeu carne de braços e pernas.

– O infeliz deve ter colocado alguma coisa bem ruim naquela bala que me acertou. Quanto tempo eu fiquei aqui deitado sem ver e ouvir direito?

– Assim de luas, – disse mostrando a mão direita com um dedo levantado.

Havia passado um mês inteiro estendido ali, entre a vida e a morte, enquanto os dois benfeitores se desvelavam em lhe prestar os todos os cuidados que sabiam prover. Felizmente, alguma coisa que o velho índio fizera, talvez combinado com seu físico forte e sempre resistente, haviam operado o milagre de sua recuperação. Os demais integrantes da tropa provavelmente estariam combatendo em alguma incursão nos campos do Rio Grande. Para ele a guerra estava terminada. Precisava, antes de pensar em qualquer coisa, recuperar as forças. Comeu com nova disposição a comida que a jovem Lua Serena lhe ofereceu. Era uma mistura de carne seca com pinhão socado no pilão, encostado a um canto. Nunca experimentara essa mistura, mas percebeu que era um alimento substancioso. Depois de comer um pouco, sentiu que fazia peso em seu estômago e não deveria exagerar. Estava a tempo demais se alimentando de modo frugal, quase nada.

– Ficar com vovô Trovão Distante. Lua ir pescar e caçar. Na volta trazer frutas e pinhão.

– Vou tratar de me recuperar e ajudar você a caçar, pescar. Deve ser bom. Posso ensinar atirar com espingarda. Mais fácil caçar.

– Fazer muito barulho e assustar outros animais. Eles ir embora e depois não ter mais caça.

Ela saiu e de um salto montou no lombo do tordilho que pastava ali perto. Sem nada, em pelo e sem rédeas, conduziu o animal pela trilha, sumindo na distância. A comida ingerida, além de pesar no estômago despertou uma soneira que logo o derrubou na esteira, voltando a dormir. O velho índio, fumando seu cachimbo serenamente, olhou confiante para o homem. Sua “medicina” fizera o milagre em nome de Tupã. Depois de umas boas baforadas, levantou e foi até a fonte com a cabaça, voltando de lá com água fresca. Tomou de uma outra cuia pequena para beber uma porção de água. Sorveu vagarosamente o líquido cristalino. Era remédio puro. Água brotada da fenda de uma rocha, protegida da erosão e outras formas de contaminação. Era sempre gelada. Entrava no corpo como um elixir renovador.

Imagens do vale do rio do peixe.

Imagens aéreas do vale do rio do peixe.

fotoriodopeixe

Rio do peixe em época de cheia.

 

João acordou vendo o velho bebendo água e sentiu sede. A comida despertou nele sensação de falta de água. O corpo requeria a reposição do líquido, consumido em longos dias de agonia. Pediu água e o velho lhe alcançou uma cuia cheia. Bebeu sentindo como que uma regeneração do organismo. Aquele líquido puro, desceu e foi absorvido sem demora. Logo depois teve vontade de beber mais um pouco, ao que o velho consentiu. Depois de beber a segunda porção, o idoso falou:

– Agora chega. Não poder beber muito água de uma vez. Ficou muitos dias tomando só pouquinho de chá. Se tomar muito, pode fazer mal, doença pode voltar.

– Eu sei, Trovão Distante. Quando a gente fica muito tempo sem beber água, precisa beber de pouco cada vez, até repor o que está faltando.

– Vejo que você ser experiente. Viver bastante em contato com terra e natureza.

– Passei a vida em contato com a natureza. Passei muitas vezes aqui por perto tocando tropa de mulas para São Paulo.

– Você ser tropeiro?

– Agora não mais. A construção de estradas de ferro acabou com o comércio de mulas em São Paulo.

– Você falar “cavalo de aço que corre sobre trilho”?

– Esse mesmo. Aqui também vão construir uma assim. O projeto está pronto e até o contrato já foi feito. A revolução atrasou tudo, mas depois vai ser construída a estrada de ferro por aqui. Vão acabar com a maior parte dessa floresta que existe aqui.

– Até lá Trovão Distante vai estar com antepassados. Vida de Trovão está quase no fim.

– Não fale uma coisa dessas. Luz Serena ainda precisa do senhor por muito tempo.

– Luz Serena ser mulher forte e valente. Vai saber viver sozinha quando eu for para junto de antepassados. Acho que ela gostar de amigo. Como ser seu nome?

– Meu nome é João Maria. Foi meu avô que escolheu esse nome para mim. Havia um monge que andou por lá onde ele morava. Descobriu uma fonte de água que é remédio. Meu avô voltou da guerra doente e a água da fonte curou ele. Viveu mais quarenta anos depois daquilo.

– João Maria? Homem que tinha dedos de mão esquerda com defeito?

– Sim, meu avô sempre falou disso. O senhor conheceu o Monge?

– Ele passar por aqui. Dormiu aqui perto de fonte. Ensinou uso de ervas a Trovão. Era homem muito bom e sabia muita coisa.

– Quem diria que eu iria encontrar aqui alguém que conheceu o Santo Monge João Maria! Eu sou João Maria em homenagem a ele. Ninguém sabe onde ele foi parar. Não se sabe se morreu, se foi embora, se voltou para Itália, onde nasceu.

– Aqui passou dois dias e foi para onde sol vai dormir. Falou que queria encontrar montanhas altas que tem longe e viver em paz por lá. Estava cansado de muita gente perto.

– Então ele passou por aqui antes de chegar em Santa Maria. De lá acho que foi para Argentina e Paraguai. Depois nunca mais se ouviu falar dele. Várias vezes apareceu alguém dizendo que era João Maria voltando como prometeu. Mas logo ficava provado ser tudo mentira.

– Monge João Maria ser único. Conhecer muito homem branco, nenhum era igual ele. Eu acho que era enviado de Tupã.

– É o que todos dizem. Vocês chamam Tupã, nós chamamos Deus, mas é tudo a mesma coisa.

– Tupã ser criador de tudo. Fazer sol, luz, terra, plantas, animais e homens. Colocar homens brancos em outro mundo, mas eles veio aqui tomar terra de índio. Agora tem pouco índio, branco matou quase tudo.

– Isso é muito triste. Poderíamos viver todos juntos e nos respeitar. Mas os brancos realmente fizeram muita maldade contra seu povo.

– Agora não ter mais nada para fazer. Logo índios desaparecer. Sobrar bem pouco e não demora acaba tudo.

– Acho que vou dormir mais um pouco. Estou tão fraco.

– Descansar bastante. É só o que precisa fazer agora, além de comer bem.

Deitou e dormiu por um longo tempo. Enquanto isso o velho índio intercalava momentos de cochilo em seu banco diante da cabana, onde o sol derramava seus raios tépidos de outono. De vez em quando deitava um olhar para o convalescente para verificar se estava tudo bem com ele. Constatando que o mesmo dormia placidamente, sem inspirar mais cuidados depois da longa batalha, voltou ao seu cachimbo a intervalos regulares. Quando o sol ainda ia alto, o ruído do galope leve do tordilho anunciou a volta de Lua Serena. Chegava trazendo uma penca de peixes que conseguira fisgar, uma paca e uma cutia penduradas de cada lado do animal, além de um sortimento de frutas e um bornal cheio de pinhões. Teriam alimentos para mais de dois dias.

pinheiros_em_dia_de_sol.au7pynhuz8ggg0ksk00swso4s.801di6u7wqo0w0w8w8coswgk0.th

Pinheiros em dia de sol.

 

João acordou e viu o cavalo trazendo a sua bela benfeitora. Ao ver o dono, o animal se aproximou e o cheirou inteiro, como para confirmar tratar-se do seu dono. Ele acariciou o animal carinhosamente, conversando com ele. Logo Lua chegou perto e perguntou:

– Ele contar que salvou minha vida hoje?

– Tordilho é um animal muito inteligente e manso. O que aconteceu?

– Cobra venenosa estava esperando no caminho. Ele sentiu cheiro e não chegou perto. Cobra veio para mais perto mas ele fez volta, encontrando desvio para passar longe dela.

– Bom garoto! Lua Serena agora é sua dona. Ela e o avô salvaram minha vida.

A jovem fez um carinho na crina do animal e ele apoiou o focinho em seu ombro, demonstrando quanto apreciava seus afagos.

– Estou vendo que você conquistou ele definitivamente. Nem precisa de rédeas ou sela para montar. Ele sabe onde ir e o que fazer.

– Ele ser muito inteligente. Animal de grande valor.

– Cavalo amigo de homem.

– O cavalo e o cão são amigos do homem. Não sei qual deles é mais amigo.

– Cão ser amigo, mas não ter utilidade de cavalo. – falou Trovão.

João Maria quis levantar e ajudar a limpar a caça e os peixes, mas Luz Serena não permitiu. Ele ainda não tinha forças para trabalhar. Poderia, se conseguisse, levantar e dar alguns passos ao redor da cabana. Conversar com o cavalo e leva-lo para pastar. Em poucos minutos ela se desincumbiu da tarefa de preparar a carne dos peixes e das caças para a refeição da noite, além de guardar o excedente para os dias seguintes. Sempre era importante ter uma reserva para suprir as necessidades básicas num dia de pouca sorte ou na ocorrência de algum imprevisto.

O tordilho pastou, depois foi até pouco abaixo da fonte onde a água formava um pequeno poço e bebeu avidamente. Estava com sede, depois de horas trabalhando, levando a jovem amazona de um lado para outro. Ele a aceitara como se soubesse que estava empenhada em providenciar alimentos, ervas e raízes para cuidar do seu dono. Agora estavam tão ligados como se tivessem crescido juntos. Depois de caminhar por um bom tempo nos arredores, João sentiu-se cansado e voltou para seu lugar de dormir. Deitou-se e cochilou um pouco. Quando acordou sentiu o cheiro de peixe sendo assado e Lua Serena estava socando pinhão para fazer farinha. Seria servida junto com o peixe assado na refeição da noite.

pinheiros

Copadas de pinheiro.

pinheiros na floresta

Pinheiros na floresta.

 

 

 

 

 

 

 

Ao tentar levantar-se e ir beber um pouco de água ela lhe alcançou rapidamente a cuia, dizendo:

– Precisa descansar. Lua alcança água para você. Vovô contou que você tem nome de homem bom que passou aqui faz muitos anos, bem antes de Lua nascer.

– Sim. Meu nome é João Maria, em homenagem ao Santo Monge João Maria.

– Vovô Trovão fala sempre que esse homem dormiu aqui dois dias, bebeu da fonte e falou que ser fonte abençoada.

– Então foi João Maria que me guiou para aqui. A água ajudou a me curar. Em toda parte onde ele passou deixou uma fonte abençoada, que serve para curar várias doenças.

– Família viver aqui perto de fonte muitos anos antes e depois. Sempre beber água dessa fonte.

– Quem iria ficar satisfeito era meu avô, mas ele faleceu há 10 anos. – Mostrou as duas mãos com os dedos estendidos.

Ela fez sinal de ter entendido. Raramente ela fixava os olhos nele, salvo quando ele estava olhando para outro lado. No princípio João pensou dever-se isso ao seu aspecto pouco agradável, magro e ressequido como estava. Nem sequer desconfiava dos sentimentos que agitavam o coração e a mente da jovem mestiça. Ele sentia seu instinto masculino levemente excitado diante da juventude exuberante dela. Todavia aprendera que era preciso respeitar a hospitalidade, especialmente de quem salvara sua vida e assim permaneceu impassível. Enquanto isso ela se movia graciosamente de um lado para outro, sempre empenhada em colocar tudo ao alcance dele e do avô. Era possível sentir, quase ao ponto de tocar, o imenso amor e dedicação que ela devotava ao ancião.

Sua dedicação a ele devia ser decorrente da alegria sentida ao descobrir que ele recuperara a saúde, depois das longas semanas de delírios e momentos de pouca esperança. Enquanto ela se desdobrava no serviço, João procurou saber mais sobre a vida da família de Trovão e Lua. Haviam vindo de um aldeamento nas proximidades do Rio Uruguai, há muitos anos, mas um desentendimento com o padre os levara a mudar com todo o grupo familiar para aquela região, onde encontraram caça, pesca e demais fontes de alimentação em abundância. O idoso fez com a mão sinal de que viviam ali há mais de 50 anos.

Há cerca de quinze anos, um grupo de homens armados, viera e atacara a aldeia, matando a maioria, levando os homens fortes amarrados, estuprando as mulheres e depois matando-as. Ele, já idoso, protegera a neta criança, ficando escondido em uma caverna existente ali perto. Quando saíram de lá, encontraram somente morte. Com muito esforço haviam providenciado o sepultamento dos entes queridos. Das cabanas destruídas, reuniram o que era possível aproveitar e passaram a viver ali. Luz Serena crescera e aprendera a caçar, pescar, colher ervas, raízes, frutas e pinhão. Era assim que viviam desde aquele dia. Nunca mais haviam tido contato com outros homens brancos, até o dia de sua chegada ali. Nem indígenas haviam encontrado.

Era um milagre terem sobrevivido pro tanto tempo ali, distantes de tudo e todos. Tendo somente um ao outro para tomarem conta. Logo o ancião iria para junto dos antepassados e Lua Serena ficaria sozinha no mundo. Um olhar significativo do ancião, despertou em João um sentimento de compaixão. Percebera no olhar uma espécie de pedido de ajuda. Como que dizendo, cuide de minha neta quando eu partir dessa vida, ou ela vai ficar sozinha para o resto da vida.

Foi nesse momento que João se deu conta da realidade. Os olhares furtivos de Lua Serena, poderiam estar significando algo mais do que apenas curiosidade ou pena. Ele poderia ser considerado sua tábua de salvação contra a solidão total e absoluta ali naquela distância.  Avaliou demoradamente a hipótese de desposar a jovem. Não seria assim tão fora do padrão, uma vez que fora casado com uma mestiça e fora imensamente feliz, embora por pouquíssimo tempo. Esperaria algum sinal mais concreto da parte dela ou do ancião, embora ele não fosse lhe pedir diretamente para desposar a neta. Podia perceber que sua presença estava trazendo nova esperança ao coração cansado do velho Trovão Distante.

Os dias passaram e João, a cada dia, sentia-se mais forte. Já conseguia caminhar distâncias maiores sem ficar extenuado. A alimentação natural e rica em proteínas proporcionada pela caça e pesca de Lua, operou verdadeiro prodígio. Menos de um mês depois estava sentindo as forças voltarem. A barba crescera e julgou ser chegada a hora de raspar os pelos e assim ver como estava o rosto. Se a pele estava ficando novamente esticada ou se ainda estava toda enrugada. Procurou entre os pertences no canto onde estava a cela e demais acessórios, e encontrou o seu pente, além da navalha para se barbear. A lâmina não era usada há longo tempo e precisava ser amolada adequadamente.

Lua, vendo-o fazer aquilo ficou curiosa. Ao olhar pra o espelho viu o próprio rosto e se assustou. Vira o rosto refletido na superfície da água e agora via-o em um objeto. O avô logo percebeu o que estava causando alvoroço na neta. Conhecia espelhos desde jovem, mas nunca lhe haviam feito falta. O rosto foi ensaboado com abundância, usando um pedacinho de sabão que encontrara junto dom os demais utensílios. Depois se barbeou cuidadosamente, para não cortar a pele em alguma dobra ainda existente. Em alguns minutos estava com o rosto limpo e constatou que sua aparência estava quase normal. Pequenas rugas haviam aparecido, mas provavelmente isso era consequência da idade.

Ao ver o rosto barbeado, Lua sentiu o coração disparar. Ele estava muito mais atraente e sentiu-se encabular. Os olhos atentos de Trovão perceberam o estado de espírito da neta. Decidiu dar uma ajuda para que os dois pudessem se entender. Sugeriu que ele a acompanhasse na coleta de frutas que faria naquela tarde. Tinham carne para dois dias e não havia como conservar por mais tempo. A caça abatida antes da hora, serviria para estragar e não eram predadores, caçavam apenas o necessário para se alimentar. Lua decidiu fazer a coleta nos locais mais próximos onde há dias não colhia frutos nem catava pinhões.

Caminharam lentamente até os enormes pinheiros onde as pinhas estavam suspensas nos altos galhos, estourando a qualquer momento, despejando uma verdadeira chuva de pinhões sobre o solo. Nos mesmos lugares era possível caçar pacas e cutias que vinham comer pinhões. Nesse dia espantaram várias delas. Enquanto catavam pinhões espalhados no chão, nos pinheiros ao lado, três ou quatro daquelas bolas estouraram e ouviu-se um pequeno temporal de caindo no chão. Havia ali pinhões em quantidade suficiente para sua alimentação por vários dias. Era época de colher sempre um pouco a mais e assim fazer uma reserva para os meses em que não haveria pinhas maduras.

As vestimentas exíguas de Lua, deixavam boa parte da pele de seu corpo jovem à vista. Ao se abaixar para coletar os pinhões não pode deixar de notar suas cochas e nádegas lisas, bem torneadas. Os seios ainda em crescimento eram firmes e bem formados, tendo os mamilos bem típicos da raça indígena. O bico não ficava muito destacado e ele precisou virar de lado para não ficar vendo o tempo todo aquele corpo atraente. Ela não tardou a perceber que ele evitava olhar para ela e decidiu tirar a prova. Parou diante dele e indagou:

– Você achar Luz Serena bonita?

Tomado de surpresa ele não soube o que dizer de imediato. Ficou atrapalhado e tentou desviar o olhar novamente. Foi então que ela disse:

– Você não quer olhar para mim. Ou achar eu feia ou ficar com vontade de deitar comigo.

– Você é muito bonita, Luz Serena. Eu tenho por você e seu avô o maior respeito e não quero causar desgosto nem a você, nem a ele.

– E gostar de Lua Serena ser desrespeitar vovô Trovão?

– Não é isso. Eu não quero fazer nada que possa dar desgosto a vocês.

– Você ter vontade de abraçar Lua Serena?

– No nosso povo, todo homem tem vontade de abraçar uma mulher bonita. Mas isso nem sempre é conveniente. Pode dar problemas.

– Eu não ter mãe, pai, nem irmão. Não existe por aqui homem para mim, só você. Eu quero você. Você quer Lua?

Sem saber o que dizer João se aproximou da jovem mulher, cujo corpo fremia de desejo, olhou fundo em seus olhos negros e perdeu o controle de seus sentimentos. Logo estava abraçando ternamente aquele corpo jovem, beijando-a avidamente e ela lhe correspondia. Mesmo nunca tendo visto um beijo, a natureza lhe ensinara o que deveria sentir e fazer. As roupas começaram a cair ao chão e logo estavam deitados sobre uma cama de folhas, de onde haviam sido retiradas as grimpas de pinheiro. A inexperiência da jovem mandava ter calma e prudência. Não queria lhe causar traumas na primeira experiência íntima. Acariciou com mãos ávidas todos os pontos de sua pele e por último chegou aos genitais. Não precisou de muito para sentir que ela estava toda úmida de excitação.

Calmamente livrou-se também das últimas peças de roupa e possuiu-a com paixão. Sentiu um pouco de dificuldade para penetrar o corpo virgem, mas um golpe mais firme rompeu a membrana e ela gemeu de leve. Logo depois os corpos se moviam em harmoniosos movimentos. Ela era um pequeno vulcão. Parecia ter herdado o instinto selvagem da raça indígena, mas também a voluptuosidade das mulheres latinas. O tempo passou e eles se amaram várias vezes até ficarem exaustos. O riacho ficava perto e foram até lá se lavar cuidadosamente. Voltaram abraçados para o lugar onde estavam suas roupas e se vestiram.

Trataram de coletar rapidamente os pinhões que estavam espalhados por todo lado. Depois passaram por uma moita de bananas e colheram um cacho bem maduro. O facão de João foi útil ao cortar de um golpe o tronco da bananeira, segurando o cacho pela extremidade. Assim evitou que ele se espatifasse no chão. Chegaram de volta à cabana, carregados de frutos e pinhões. Descarregaram tudo e comeram algumas bananas que estavam mais maduras. O velho Trovão parecia adivinhar o que acontecera. Olhava fixamente para eles sem dizer palavra. Aguardava que lhe contassem a verdade e João decidiu não perder tempo. Fora precipitado, mas, vivia sem mulher a muito tempo e não soubera resistir aos encantos da jovem neta do seu benfeitor.

Ela ao contrário, parecia mais faceira do que sempre. Parecia um passarinho saltitante e alegre ao se ver livre da gaiola. Sentou-se diante de vovô Trovão Distante e falou:

– Eu faltei com meu dever para com sua hospitalidade, meu amigo.

– O que aconteceu?

– Eu fiz de Luz Serena minha mulher. Peço que abençoe nossa união. Prometo cuidar dela até o último dia de minha vida.

– Que Tupã abençoe vocês dois e me providenciem um bisneto, antes que eu vá para junto dos meus antepassados. Luz Serena! Vem aqui do lado do teu marido.

Ela não se fez de rogada e logo estava ao seu lado. O ancião levantou-se e eles ficaram ajoelhados diante dele. Colocou as mãos sobre suas cabeças e falou algumas palavras em Guarani, do que João não entendeu nada, mas imaginou ser uma espécie de oração dirigida à divindade venerada pelo seu povo.

– Agora vamos comer uma fruta para comemorar união de vocês. Que tenham muitos filhos e netos, para fazer ressurgir uma parte do meu povo. Agora vocês vão dormir junto. Precisamos fazer cama maior para vocês.

– Os pelegos da minha sela e vão servir para forrar o lugar.

– Vamos fazer uma outra cabana para vocês. Essa é muito pequena.

– Mas isso tem tempo nos próximos dias. Eu já posso ajudar. Meu facão e um machado que tenho vão ser úteis.

– Aqui ter bastante palmitos e coqueiros. Vamos ter a cabana pronta em dois dias. Se vocês já deitaram juntos hoje, não vão precisar de cama juntos hoje. Podem esperar até amanhã.

João pensara que iria se ver em apuros diante do ancião e correra de forma tão fácil, como se isso fosse esperado por ele. Em questão de horas passara de um estranho em convalescença, para a condição de marido da jovem, consequentemente neto do ancião. A noite passou tendo os dois aconchegados sobre a esteira onde os pelegos haviam sido estendidos. Sentir o calor do corpo jovem deixava seus sentidos em permanente revolução. Se amaram mais de uma vez durante a madrugada e ela, embora tivesse tido seu primeiro contato íntimo há menos de 24 horas, se portava como uma mulher experiente. Amanheceram abraçados e enrolados em panos, mas totalmente nus.

Antes de Trovão acordar levantaram e foram para a fonte se lavar e vestir. Não queriam perturbar o sossego do idoso. Enganavam-se pois ele estivera ouvindo os ruídos e gemidos a noite toda. Sabia o que sucedia ali ao lado e dava graças por saber que a neta amada estava agora sob a guarda de um homem forte, valente e de coração nobre.

Décio Adams

decioa@gmail.com

adamsdecio@gmail.com

www.facebook.com/livros.decioadams

www.facebook.com/decio.adams

@AdamsDcio

Telefone: (41) 3019-4760

Celulares: (41) 9805-0732 / (41) 8855-6709

Na senda dos monges! – Capítulo X , O fim do império do Brasil.

  1. O fim do império do Brasil.

proclamação da república.

Proclamação da República.

 

Em 1888, quando estava retornando da segunda viagem da temporada, chegou a notícia da abolição definitiva da escravidão no Brasil. Em 13 de maio a Princesa Isabel, filha e regente em lugar do pai D. Pedro II, que estava em uma de suas muitas viagens ao exterior, promulgou a Lei Áurea. Ficava definitivamente extinta a escravidão no Brasil.  Não sendo proprietária de escravos, essa lei em nada afetou a vida da família Batista. Antônio e Isabelita haviam vindo morar na propriedade, enquanto o tio João ocupava o posto de administrador na Estância Ribas.

Desde o final da Guerra do Paraguai, os ideais republicanos vinham ganhando impulso. Em 1870, logo ao findar da guerra, foi lançado o Manifesto Republicano. Em todas as capitais e cidades de maior importância foram fundados clubes republicanos, junto com jornais que tinham a mesma orientação ideológica. Os militares, no contato com os colegas de Uruguai e Argentina, onde o governo era republicano, sentiam-se desprestigiados pelo governo imperial. Em todo período, jamais um militar ocupou o cargo de Ministro da Guerra, ficando portanto sempre subordinados a ministros civis. D. Pedro II demonstrava uma pequena predileção pela marinha, deixando os militares numa posição de inferioridade.

A gradual redução do número de escravos, obrigou os fazendeiros a buscar mão de obra em outras áreas, tornando o custo da produção mais alto. O comércio de mulas na feira de Sorocaba vinha decaindo anualmente, com a construção de diversas ferrovias. Dessa maneira os tropeiros viram reduzido seu mercado e sentiram a necessidade de mudar de atividade. No dia 14 de novembro de 1889, foi assinado o decreto, dando ao Engenheiro Teixeira Soares a concessão para construção e exploração por um longo período de uma ferrovia, começando em Itararé – SP e terminando em Santa Maria da Boca do Monte, no RS. O próprio Teixeira Soares, responsável pela construção na década anterior da ferrovia Paranaguá/Curitiba, fizera anos antes o levantamento e um traçado prévio da nova ferrovia a ser construída. Com isso o trabalho dos tropeiros ficaria definitivamente substituído.

Não bastassem todos os problemas enfrentados pelo governo imperial, ainda havia o fato de um isolamento político em relação ao resto da América do Sul, por ser a única monarquia do continente. A isso se tinha que somar uma lenta rebeldia dos prelados católicos contra a instituição do padroado, herdado de Portugal. O catolicismo era a religião oficial e assim os padres, seus superiores os bispos, eram em verdade assalariados do governo. Dessa forma, para que uma bula papal tivesse vigor no império, era essencial que passasse pelo aval do monarca. A lenta infiltração da maçonaria nas fileiras políticas, levou dois bispos a se rebelar, pedindo ao papa a excomunhão dos membros das lojas maçônicas. O resultado foi uma disputa, conhecida como questão religiosa pois o alto escalão do governo era todo composto por maçons.

O último sustentáculo do império ruiu com a abolição da escravatura. Os fazendeiros, revoltados com o fato de não receberem uma indenização equivalente ao custo dos escravos libertados, tornaram-se republicanos de última hora. Um boato foi lançado sobre uma ordem de prisão contra o Marechal Manuel Deodoro da Fonseca, convencendo-o a aceitar colocar-se ao lado dos republicanos. Mesmo gravemente doente, saiu de madrugada, próximo ao raiar do dia, dirigiu-se até a Praça da Aclamação. Ali estava aquartelada uma unidade militar e lhe foi oferecido um cavalo. Ele montou, retirou o chapéu e exclamou:

– Viva a República.

Proclamacao-da-República

Imagem comemorativa da proclamação da república.

Desdeu do cavalo e voltou para casa, onde ficou em sua cama da qual saíra contrariando ordens médicas. Em poucas horas formou-se um governo provisório, tendo como presidente o próprio Marechal.  Mal. Floriano Peixoto ficou como vice, os ministros Benjamim Constant, Quintino Bocaiuva, Rui Barbosa, Campos Sales, Aristides Lobo, Demétrio ribeiro e o almirante Eduardo Wandenkolk, todos eles integrantes da maçonaria.

Pouco antes de iniciar o retorno de Sorocaba, João Maria foi surpreendido pela notícia da proclamação da república, sendo o Imperador enviado para a Europa, longe do país que tanto amava desde criança. Era sua pátria. Os pais eram portugueses, mas ele nascera brasileiro e vivera a vida inteira como tal. Sua maior mágoa foi sem dúvida a privação do direito de viver em sua terra natal.

proclamacao-da-republica-1

Assinatura da primeira constituição repúblicana.

A República surgiu prometendo muitas mudanças, mas o começo foi bastante conturbado. Não existia uniformidade de ideias. Em cada província, agora chamada Estado, havia formas de pensar a organização do governo com características diferentes. Faltavam elementos capazes de tomar as rédeas do poder e administrar o imenso país. Até ali, quem ocupava os cargos administrativos era monarquista e não era tido como alguém de confiança. Sendo militar, pouco afeito à vida civil e suas peculiaridades, além de doente, Deodoro da Fonseca, primeiro presidente, não resistiu muito. Menos de um ano depois da promulgação da primeira constituição republicana e realização da eleição, ele renunciou. Em seu lugar tomou posse Mal. Floriano Peixoto, mesmo contrariando as disposições constitucionais. Implantou uma ditadura militar, dissolveu o congresso e ficou conhecido como o Marechal de Ferro, tamanha era sua rigidez de conduta e intransigência.

As dissidências frequentes levaram a várias trocas de ministérios, algumas revoltas. Outro problema sério foi a consolidação dos governos estaduais, sendo que em vários deles ocorreu uma sucessão de governantes em regime de alta rotatividade. No Rio Grande do Sul, Júlio Prates de Castilho, unido com Pinheiro Machado e Assis Brasil, formaram o Partido Republicano Rio-Grandense.  Na oposição estava o Partido Federalista do Rio Grande do Sul, tendo no comando Gaspar da Silveira Martins, monarquista liberal. Júlio de Castilhos conseguiu aprovar uma constituição estadual, redigida por ele mesmo, sendo em seguida eleito presidente do estado.

foto-439f-1024x667

Começo do movimento federalista.

  Em 1893, eclodiu a Revolta Federalista. De um lado estavam os revoltados cognominados maragatos, usando como identificação os lenços brancos amarrados ao pescoço. Também eram chamados de gasparistas por serem aliados de Gaspar da Silveira Martins. Defendiam a implantação de um governo parlamentarista, nos moldes do segundo império, dando maior autonomia aos governos estaduais.  Os adeptos de Júlio de Castilho, chamados castilhistas e aliados ao governo central, eram chamados também de pica-paus ou ximangos e se identificavam pelo uso de lenços vermelhos.

Boa parte dos caudilhos do estado fazia parte do grupo dos federalistas e tinham propriedades no território do Uruguai, usando esse fato para arregimentar homens e armas longe dos olhos dos castilhistas. Um dos primeiros combates fortes ficou conhecido como cerco de Bagé. O caudilho Gumercindo Saraiva, comandando cerca de três mil homens, todos excelentes combatentes à cabalo, hábeis no manejo da lança, espada e facão, deslocou-se para Dom Pedrito. Dali realizava ataques relâmpagos às posições castilhistas, causando instabilidade entre as tropas leais ao governo.

estado_maior_de_zeca_neto

Estado maior de Zeca Neto

Alguns meses antes, haviam surgido rumores na região de Passo Fundo e Soledade sobre a reaparição do Santo Monge. O que era um pouco difícil de acreditar, pois o homem, se ainda estivesse vivo, deveria estar beirando 90 a 100 anos de idade. As descrições e maneiras de agir eram bastante semelhantes ao que os mais idosos, contemporâneos de João Maria no Botucaraí e Campestre, costumavam contar. Em pouco tempo tornou-se voz corrente entre o povo mais humilde a volta do monge. Ele, segundo contavam, prometera voltar, apenas ninguém sabia quando. Com o encerramento das tropeadas para Sorocaba, a atividade da propriedade da família Batista sofreu uma queda significativa. As mulas eram somente para uso próprio e agora predominava o gado de corte.

Quando Gumercindo Saraiva passou nas proximidades com sua tropa, João Maria teve um surto de patriotismo às avessas. O governo republicano se instalara prometendo melhorar tudo e até o momento nada disso acontecera. Os federalistas tinham razão. Certo que não haveria mais como restaurar a monarquia, trazendo a família de D. Pedro de volta, mas a forma de governar poderia ser semelhante. Os estados tendo maios liberdade de ação, poderiam estimular o progresso em suas regiões. De um momento para outro, selou seu melhor cavalo, levou consigo um velho fuzil, uma espada que pertencera a Antônio na Guerra do Paraguai e se apresentou ao comandante.

Foto antiga dos combatentes do Cerco da Lapa, 1894.

Defensores da Lapa – PR.

Não tardou e estava engajado na tropa, especialmente pelo fato de saber ler e escrever, o que era coisa rara na época. Ficaria sob as ordens praticamente diretas do comandante. Ficou encarregado de redigir os documentos, correspondências que fosse necessário enviar. Recebeu o posto de tenente, para dar maior respeitabilidade perante os demais homens. Dessa forma, os meses finais de 1893 encontraram João Maria, a caminho do Paraná. Em diversas ocasiões encontraram tropas pica-paus e se bateram em renhidos entreveros. O terreno não favorecia nem a uns nem outros, todavia os maragatos estavam mais habituados ao combate a cavalo, encontrando pela frente, em geral, tropas de infantaria.

Maragatos em Urussanga - SC

Maragatos em Urussanga – SC

De combate em combate, chegaram em princípios de janeiro às portas da antiga Vila do Príncipe, agora denominada Lapa. Ali encontraram renhida defesa das posições pelas forças comandadas pelo General Carneiro. Eram 639 militares além de um pequeno número de voluntários. Defenderam por 26 dias a posição, sem ceder, contra um contingente de aproximadamente 3000 combatentes. A feroz resistência deu ao governo de Floriano Peixoto tempo para organizar o contra-ataque, sendo que, ao final o comandante Coronel Carneiro tombou ferido e morreu sem saber que havia sido promovido a General por ato de bravura. Os sitiantes tomaram a Lapa e avançaram contra Curitiba, que também foi tomada, porém por pouco tempo.

Coronel Gomes Carneiro

Coronel Gomes Carneiro, defensor da Lapa.

Impedidos de prosseguir, e desgastados pelo longo sítio mantido antes de tomar a Lapa, Gumercindo bateu em retirada. Nessa retirada, muitos homens se perderam, foram perseguidos e mortos. Gumercindo retornou ao Rio Grande do Sul, onde continuou a luta. Na véspera de um ataque, no dia 20/08/1894, foi alvejado à traição e morreu.

Durante a retirada das terras de Curitiba, João Maria seguido por um pequeno grupo de homens, pegou um caminho, imaginando encurtar a distância e se perderam. Continuaram em frente, esperando encontrar Gumercindo mas adiante, mas foram surpreendidos por um piquete de cavalaria e perseguidos. Com pouca munição e bastante cansados, foram tombando um a um e João Maria, vendo que restava somente ele, conseguiu alcançar um capão de mato onde pretendia se esconder ou ao menos despistar os perseguidores. Pouco antes de conseguir ficar oculto, um tiro o atingiu no quadril, do lado direito. Reparou que não fora um ferimento grave, mas precisaria encontrar ajuda para pensar o ferimento.

ft-lapa

Ruina da Lapa, restante do Cerco durante revolução federalista.

Por enquanto o mais importante era conseguir colocar entre ele e seus perseguidores a maior distância possível. Caminhou vagarosamente pelo mato, sem fazer ruído e se escondeu no fundo de um valo, sob uma pedra que se projetava para cima. Os perseguidores passaram a poucos passos sem perceber sua presença, pois o cavalo, que ele mesmo domara, sabia estarem em perigo. Manteve-se imóvel sem fazer o menor ruído. Ouviu os homens falando entre eles, retornaram por outro lado, um pouco mais longe de onde estava e no final desistiram, dizendo:

– Um deles escapar não é problema. Pegamos os outros todos.

– Mas eu sei que acertei ele na hora que entrou no mato. Ele não está longe.

– Mas procuramos por tudo e nada. Deve ter parte com o demo.

– Vai ver que tem mesmo. Se não morreu agora, vai morrer no caminho que ainda tem pela frente. Por esses sertões, onde vai conseguir ajuda?

Era realmente uma questão séria. Ferido, sozinho, distante de qualquer ponto de referência ou gente conhecida, precisaria poupar suas energias ao máximo para resistir à caminhada. Outra saída seria encontrar um caboclo morador desse sertão e pedir ajuda. Eles habitualmente conhecem bastante o uso de ervas para curar feridas, seria uma coisa providencial se encontrasse alguém. Lembrou do tempo que tropeava e lhe veio à memória a existência, alguns quilômetros para frente, de uma pousada. Talvez ainda houvesse quem ali vivesse, mesmo com o fim das tropeadas.

Começou a se mover, sentindo um pouco de dor no ferimento. Um pouco adiante, parou na beira de um riacho cristalino para beber água e dar de beber ao animal. Sentou-se à sombra de um arbusto e removeu as roupas no local ferido. A bala entrara pelas costas e não saíra. Isso era ruim. Se tivesse saído, a ferida teria menos chances de arruinar do que com ela ali, alojada. O corpo reage aos resíduos de pólvora provocando inflamação e isso poderia trazer complicações sérias. Arrumou as roupas de modo a não cobrir o ferimento e amarrou um lenço que sobrara no alforje em torno da cintura para proteger o lugar.

Tentou montar. O cavalo se afastara alguns metros e pastara o capim bem viçoso que ali crescia. Viu ali perto, na vegetação que crescia ao longo do pequeno curso d’água um pé de goiaba e havia frutos maduros. Lembrou que estava a horas sem comer e foi até lá, pegando uma porção deles para comer na hora e outros para ter o que ingerir no caminho. O cavalo parecia agradecer pelo capim que lhe era disponibilizado. Estavam agora sozinhos. O grosso da tropa certamente estava longe e os companheiros que o haviam seguido ficaram tombados. Esperava que os inimigos se dignassem a dar sepultura a eles.

O sol diminuiu a intensidade e ele começou a sua caminhada. Deixou o cavalo andar a passo, pois assim sentia menos a ferida. Os olhos estavam fixos à frente, buscando um lugar onde pudesse encontrar abrigo até se recuperar. Talvez um bugre ou caboclo que topasse retirar a bala de seu quadril e assim apressar a cicatrização. Depois teria tempo para retornar ao sul. Nesse momento lhe ocorreu que, os irmãos e demais familiares, ao saber do retorno de Gumercindo, sem que ele estivesse com eles, iriam supor que haveria morrido. Se não se cuidasse era o que aconteceria em poucos dias.

Caminhou por aquele dia, dormiu em um abrigo abandonado na beira da trilha e seguiu caminho na manhã seguinte. Por horas não encontrou vivalma. Quando a noite se aproximava, viu ao longe uma fumacinha subindo. Parecia ser uma chaminé, ou uma fogueira. Tentaria chegar perto, sem levantar suspeitas. As roupas que o identificavam como maragato haviam ficado para trás, ou estavam tão danificadas que estavam irreconhecíveis. Em meia hora sentiu o cheiro da fumaça e carne sendo assada. Nessa hora também sentiu a primeira fisgada na ferida, dando sinal de que ela estava infeccionando. Continuou caminhando, sentindo os sinais da febre aparecer. O rosto ficou afogueado, um suor gelado escorreu pela espinha e temeu pela sua vida.

Se o morador ou autor da fogueira não lhe pudesse fornecer ajuda, estaria em maus lençóis. Cavalgou mais alguns minutos e deparou com uma cabana rústica, de onde se elevava por uma chaminé de pedras, uma pequena coluna de fumaça. Parou a alguns metros da porta e chamou:

– Ó de casa! Ó de casa!

Aguardou um instante e na porta iluminada pelos últimos raios solares, apareceu uma figura de mulher. Era jovem, tinha traços indígenas, mas as características não eram totalmente nativas. Parecia uma mestiça. O que estaria fazendo essa mulher ali no meio daquele sertão, aparentemente sozinha?

O primeiro gesto que ela teve foi de empunhar uma lança bem grande, disposta a se defender. Rapidamente ele levantou as mãos e falou:

– Eu estou ferido. Venho em paz. Estou precisando de ajuda.

– Quem é filha?

– Um homem e está ferido, diz ele.

Um ruído se fez ouvir, a lança permaneceu levantada, pronta para atacar e depois um homem idoso, deveria ser septuagenário ou algo assim, emergiu da cabana. Era na verdade o avô da jovem. Haviam sido atacados por posseiros em busca de erva mate, pinhão e os pais haviam sido mortos. Conseguira se esconder com o avô e agora estavam ali, sobrevivendo com o que ela conseguia caçar, pescar e colher de frutas, além dos pinhões na época apropriada. O pobre homem não poderia mais ir em busca do alimento, embora parecesse bem forte. O corpo estava encurvado pelo peso dos anos, mas o olhar permanecia vivo, perscrutador.

Depois de entregar a ela suas armas e se apresentar de mãos limpas, permitiram que se aproximasse da cabana. O ferimento foi lavado com água trazida de uma fonte próxima. A temperatura baixa do líquido, ajudou a refrescar sua pele, baixando a febre. O olhar do idoso logo detectou o que acontecia:

– Bala ficou em ferida! Pólvora fazer corpo criar inflamação. Amanhã precisa tirar bala ou homem vai morrer.

Ao ouvir falar em morte, João Maria sentiu um calafrio. Seria sua sina morrer ali, no meio do nada, perdido em um recanto do sertão? Sobre um fogo um caldeirão fervia um cozido de carne. A jovem conseguira caçar um cateto e parte da carne estava sendo cozida. O restante estava acondicionado para conservar até o dia seguinte, com sal e ervas aromáticas colhidas na floresta. O estado febril não deixava João Maria sentir fome, mas a jovem insistiu em faze-lo ingerir um pouco de caldo. No começo pareceu não ter sabor, mas aos poucos percebeu o efeito das ervas usadas para temperar e uma sensação confortável invadiu suas entranhas. Logo caiu em um sono profundo, deitado sobre uma esteira colocada num canto da cabana.

Durante a madrugada a jovem por diversas vezes molhara suas faces e membros para baixar a febre. Por ordem do avô preparara uma infusão de uma mistura de raízes maceradas. Depois de algumas horas era hora de beber o líquido. O gosto era forte e amargo, mas decidiu confiar na sabedoria do velho indígena. Ele mesmo estava vigilante, observando as reações do doente. Sob os cuidados dos dois desconhecidos o dia amanheceu e a febre havia tido uma ligeira melhora. Comeu alguns pinhões e frutos silvestres, seguidos de nova porção da infusão das raízes amargas. O idoso levantou, também comeu um pouco, bebeu água trazida pela neta da fonte.

Pegou uma pequena faca e a amolou cuidadosamente com uma pedra. João Maria lançou um olhar receoso para aquela lâmina, imaginando qual seria a sua finalidade. Pouco depois, o idoso mandou colocar água sobre o fogo para ferver. Depois falou:

– Vou preparar um chá para lavar ferida depois que tirar bala. Vai doer um pouco, mas depois melhora. Pior seria se fosse ferida de flecha com veneno. Se veneno ser forte e pegar no lugar certo morre logo. Não tem tempo de salvar.

– O senhor vai tirar a bala? Vai ter que cortar?

– Depender. Se bala está muito fundo, precisar abrir um pouco para conseguir tirar. Você homem valente, guerreiro forte, não vai chorar como mulherzinha.

Diante dessa afirmação, João Maria engoliu o medo, morderia os lábios, a língua e aguentaria o que fosse preciso para tentar sobreviver.

Quando a água ficou quente, um punhado de ervas e raízes foi colocado em infusão enquanto a água esfriava. Quando o líquido ficou bem escuro com a absorção das substâncias das plantas, o velho começou a coar o líquido, vertendo-o em uma cabaça bastante grande. A medida que a água na vasilha ia sendo transferida para a cabaça, o momento crucial se aproximava. Terminada a operação, o velho testou o fio da faca, passou-o em uma raiz e depois o molhou no líquido.

– Vamos tirar bala! Ficar virado de lado para poder ver bem ferida.

João Maria virou-se ficando na posição mais confortável possível e se preparou para o próximo passo. Em segundos sua sorte seria decidida. Sua recuperação dependia das mãos desse homem idoso. Pelo rosto do homem percebeu que a ferida estava com aspecto bem feio. A bala parecia ser do tipo que fragmenta e havia rasgado a pele onde penetrara. Um pouco da água, ainda morna, foi despejada sobre a área ferida e aos poucos sentiu um leve amortecimento. Sentiu as mãos apalpando a região e logo uma dor mais forte assinalou o momento em que os dedos pressionaram o local onde o projétil estava alojado.

– Estar bem fundo. Mim precisar cortar um pouco para conseguir tirar. Vamos despejar mais um pouco de água e fazer tomar um pouco para diminuir dor.

Uma cuia com um pouco do chá foi aproximada de sua boca, e sentiu a boca ficar amortecida na medida em que ingeria o líquido. Logo um torpor se espalhou pelo corpo e ficou mais relaxado. Não imaginava o que havia ingerido, mas parecia uma benção, pois aparentava que a dor sumia aos poucos. Depois de esperar por alguns minutos, o velho pegou de sua faca, fez uma incisão em cruz sobre o ferimento, aumentando a área de abertura. Depois, com o dedo ágil procurou até localizar o projétil. Uma leve fisgada fez João gemer de dor, mas ouviu a risada do velho.

– Este ser bala suja. Ter pontas para machucar mais, fazer estrago maior. Dentro tem tipo de veneno. Vamos lutar para vencer veneno que branco usou. Mim não saber qual é, mas conhecer muitas ervas para curar venenos.

A palavra veneno e bala com pontas fez João lembrar dos projéteis que ao atingirem obstáculos se fragmentam, transformando-se em estilhaços de aço que estraçalham os tecidos. A possibilidade de terem usado projéteis envenenados lhe fez perpassar um calafrio pelo corpo. Se fosse um veneno conhecido pelo velho índio ele teria melhores condições de curar a ferida. Não sabendo do que se tratava, restava tentar tudo que sabia e torcer para que não fosse um veneno letal. Como já estava ferido a praticamente dois dias, não deveria ser algo tão terrível, mas poderia ser uma doença difícil de curar.

Agora uma compressa de folhas amassadas com raízes foi colocada sobre o ferimento. Em alguns minutos ele dormiu profundamente. Enquanto isso a jovem saiu para procurar frutas frescas e mais alguma caça, talvez um peixe no rio distante um quilômetro da cabana.  O velho acendeu um cachimbo feito com bambu e ficou fumando lentamente enquanto observava o paciente. Depois de algum tempo a febre retornou e João começou a delirar. Havia água fria numa cabaça grande e o velho começou a molhar o rosto e os braços do doente. Com muito esforço, a temperatura baixou um pouco.

Ao entardecer a jovem voltou trazendo um par de belos peixes que conseguira fisgar com sua lança especial e uma porção de frutas colhidas na mata. João estava acordado e recebeu de suas mãos pedaços de fruta.

– Precisa comer para vencer veneno. Se não comer ficar fraco e morrer – disse ela suavemente.

Como poderia uma criatura tão jovem e suave na aparência, dizer essas coisas com tamanha serenidade? Devia ser a forma de vida que levava desde o nascimento. Comeu um pouco e voltou a dormir. Antes de se prepararem para passar a noite, o emplastro foi renovado, fizeram-no beber mais uma porção do chá anestesiante, depois de tomar um pouco de caldo com farinha de pinhão. Alguns pedacinhos de carne desmanchando de tanto cozinhar vieram misturados e ele apreciou a mistura. Depois que bebeu o chá não tardou a dormir. Acordou a certa altura da madrugada com a jovem aplicando água fria em sua testa e braços. A febre estava alta novamente.

Amanheceu sentindo-se enfraquecido. Parecia ter enfrentado uma jornada de vários dias de caminhada ininterrupta. Os braços pareciam de chumbo, as pernas pareciam pedras. O velho refez o emplastro, trocando uma parte dos ingredientes, pois percebera que o efeito não havia sido o esperado. Assim passaram-se vários dias, tantos que João perdeu a conta. Não saberia mais dizer quanto tempo ficara deitado ali, até que um dia viu no rosto do velho um sorriso de satisfação. Era sinal de que a crise havia sido superada.

– Homem branco vencer veneno. Agora precisa se alimentar bem para ganhar força.

– Tem certeza que o perigo passou?

– Sim. Já começar a sarar. Em uma semana estar fechada ferida e ficar só cicatriz.

– Se não fossem vocês dois, eu a essa hora teria virado comida de urubu ou bichos do mato.

– Você ser forte. Esse ser grande sorte. Índio velho não conhecer veneno usado em bala.

– Mas conseguiu me curar. O senhor é um grande curandeiro.

– Lua Serena ter mérito. Ela caçar e pescar para alimentar todos nós.

– Onde está ela?

– Logo voltar. Foi caçar e buscar frutas. Um pouco de pinhão, palmito.

– Nunca vou poder agradecer a vocês o suficiente pelo que fizeram por mim.

– Basta nunca atacar meu povo, defender famílias índios contra brancos malvados.

– Isso é uma barbaridade que eu nunca pratiquei. Fico com nojo quando ouço contarem essas coisas feitas por gente de minha raça.

– Agora descansar um pouco. Já falou bastante. Depois precisa comer bastante para ganhar força.

Voltou-se para o lado e em segundos estava dormindo serenamente. Pela primeira vez dormia sem o fantasma da febre pairando sobre seu corpo. A crise estava superada e bastaria agora refazer as forças e poder voltar para casa. A jovem índia Lua Serena voltou pouco depois e começou a preparar os alimentos que conseguira trazer. Recebeu com satisfação a informação de que o paciente finalmente vencera a crise que, por várias vezes parecia ser insuperável. Aproximou-se dele e surpreendeu um sorriso amplo no rosto do homem que conhecera vivendo um momento crucial da vida. Um ferimento à bala, arruinara e por pouco não lhe levava a vida. Vira-se sentindo um aperto no coração ao pensar na possibilidade da morte do homem.

Não sabia o que isso significava, mas desconfiava que estava ficando inclinada pelo homem branco. Não sabia o que o avô diria se ficasse sabendo disso. Eram os últimos sobreviventes da sua tribo e não teria homem de sua raça para dar continuidade ao ciclo da vida. Sabia que isso fazia parte da vida das pessoas quando atingem a idade adulta. Terem filhos e cria-los para ficarem em seu lugar quando deixassem essa vida. Também não sabia o que ele diria sobre esse assunto. Talvez nem quisesse saber dela, por ser descendente de indígenas. A mãe era mestiça, filha de branco com índia e isso a tornava parcialmente branca. Não era totalmente índia.

Preparou a comida e ficou contente ao ver o paciente tentar sentar-se para comer. Estava fraco, mas com a ajuda que ela lhe deu, conseguiu sentar-se e comer normalmente pela primeira vez em quase um mês, desde que ali chegara montado em seu cavalo. O animal estava sendo bem cuidado e alimentado nos capinzais existentes nas proximidades. Estava liso e manso. Chegara a montar nele e dar algumas voltas pela redondeza. Assim conseguia ir mais rapidamente até os locais de pesca e coleta de frutos para alimentar aos três.

Durante a refeição João lembrou do animal, ao ouvir seu ruído do lado de fora. Ao ouvir prestou atenção e ouviu:

– Seu cavalo estar aí fora. Bem forte e gordo. Andei nele para ir pescar e caçar. Também colher pinhão e frutas.

– Eu pensei que ele nem estava mais por aí. Isso é ótimo. Que bom saber que vocês se deram bem.

– Ele ser muito manso e um ótimo animal. Entender tudo que eu falar para ele.

– Vejo que você fala com os cavalos e eles entendem. Fico contente com isso. Ele agora é seu.

– Ele ser seu. Vai precisar dele para voltar para sua casa.

– Minha família deve pensar que eu estou morto. Nem vão notar se eu não voltar. Minha filha vai ficar com muita saudade.

– Você ter uma filha?

– Fui casado com uma descendente de sua raça. Minha filha é Isabel. A mãe era Ceci.

Ela sentiu um pequeno impacto com essa informação. Ele tivera uma mulher, mas pelo jeito ela morrera ou fora embora. E dissera que ela também era mestiça. Tinha uma chance de ganhar seu coração e assim formar uma família com ele. Poderiam se estabelecer ali mesmo, extrair erva mate para vender, coletar pinhões e vender. Começou a sonhar.

Décio Adams

decioa@gmail.com

adamsdecio@gmail.com

www.facebook.com/livros.decioadams

www.facebook.com/decio.adams

@AdamsDcio

Telefone: (41) 3019-4760

Celulares: (41) 9805-0732 / (41) 8855-6709

Na senda dos monges ! – Capítulo IX – Dominando as letras e números!

 

Sala_dos_Tropeiros_do_Museu_GT

Carreta usada na época dos tropeiros, peça do museu

2-feira-de-sorocaba-tropeiro-getulio-delphim

Gravura da Feira de Sorocaba, de Getúlio Delphim.

 

  1. Dominando as letras e números.

 

Na próxima viagem para Sorocaba, João Maria estava com dois cargueiros abarrotados de objetos para comerciar. Eram de fabricação local e não faziam concorrência com as mercadorias do dono da tropa. Integrou-se ao grupo e trabalhou com mais afinco no desempenho das suas funções de empregado. Numa das primeiras noites da viagem, reparou em um senhor já mais idoso, pouco ativo na lida com os animais, mas sempre próximo do líder da tropa. Indagou do amigo quem era aquele homem e ficou sabendo tratar-se de um homem letrado. Era versado em matemáticas, fazia todas as contas do patrão. Tinha fluência no escrever, sabia até espanhol e italiano.

– Eu bem que queria aprender a ler e escrever, fazer contas.

– Isso é coisa para poucos. Muito difícil aprender, – falou o velho tropeiro.

– Mas se começassem a ensinar a gente quando pequeno, não ia se tão difícil. Depois de burro velho é claro que fica difícil.

Sem eles perceberem o senhor Feliciano Chaves se aproximara e ouvira as últimas palavras. Ficou curioso e indagou:

– O que é que burro velho tem dificuldade em aprender?

– O João aqui disse que gostaria de aprender ler e escrever, fazer contas. Eu disse que é muito difícil. É coisa para poucos.

– Não é nada difícil. O mais importante é ter vontade de aprender. O que move o aprendizado é a vontade, a curiosidade.

– Tá vendo, seu Aparício! O homem está dizendo que não é impossível aprender ler e escrever.

– Você gastaria algumas horas do seu descanso para aprender?

– Eu até gastaria, mas quem ia querer ensinar?

– Se eu estou perguntando é por que posso mostrar como se faz. Mas precisa perseverança. Tenho comigo um bocado de papel que foi usado de um lado e ia jogar fora. Podemos usar do outro lado para você aprender.

– Podemos começar hoje mesmo?

– Hoje ainda não. Tenho umas contas para terminar para o patrão, antes de dormir. Amanhã podemos começar. Vou tratar de fazer as contas e depois vou dormir. Amanhã o dia é puxado.

O jovem ficou entusiasmado com a perspectiva de saber ler e escrever, fazer contas. Estava olhando longe, no dia em que seria comandante de uma tropa de propriedade da própria família. Se soubesse ler e escrever, fazer contas poderia negociar melhor. Não teria que depender de alguém para fazer isso por ele. Se o seu Feliciano se dispunha a ensinar essa arte, ficaria para sempre agradecido. Mal sabia ele que o bom homem estava procurando alguém para lhe ajudar. Era muito trabalho que tinha a fazer sempre no começo e final das viagens. No meio do caminho não havia muito serviço, mas na hora das vendas, novas compras, calcular os lucros, descontar os prejuízos e gastos, o pagamento das despesas. Um ajudante seria bem-vindo com certeza.

João Maria passou o tempo antes de dormir falando da expectativa de saber ler e escrever, importunando os ouvidos do companheiro de jornada. Por fim Aparício dormiu enquanto ele ainda falava. Em dado momento se deu conta de estar falando sozinho e o acampamento inteiro dormia. Puxou o poncho sobre a cabeça e também procurou conciliar o sono. Pela manhã, logo cedo estava acordado e ativo. Foi o primeiro a cuidar dos animais de montaria, dos cargueiros. Na hora do desjejum já estava levemente sado, apesar do frio da manhã. Passou o dia em atividade fabril, levando outros a perguntar o que lhe dera e ele por fim confidenciou a alguns mais chegados, que iria aprender ler e escrever.

tropeiros

Gravura de tropeiros em marcha.

 

Foi motivo de risadas gerais, especialmente dos mais velhos, mas não se importou. Mostraria a todos de que ele era capaz. Se outros podiam aprender, ele também o fariam. Ansiava pelo final do dia, quando o seu Feliciano o chamaria para a primeira lição. Depois de acomodar a tropa e arrumar o acampamento, viu o velho escriturário arrumando um cavalete e sobre ele colocar umas tábuas, formando uma pequena mesa. Já estava livre das tarefas e se aproximou perguntando se poderia ajudar, ao que ouviu:

– Venha aqui que vamos começar, enquanto o jantar não fica pronto. Vamos aprender primeiro os números, que é mais fácil.

Tremendo de emoção o jovem sentou-se e ficou esperando. Logo tinha diante de si um pequeno quadro, uma espécie de moldura, com uma placa cinza escura na parte interior. Além disso uma haste de metal com uma extremidade afilada. Era a lousa e o estilete para escrever. Iria usar a lousa antes de passar para o papel. Ali poderia escrever e apagar quantas vezes fosse necessário e só quando dominasse a arte de escrever e fazer contas, começaria a escrever no papel. Mal pode esperar pela primeira lição. O preceptor, embora não tivesse recebido nenhuma formação para o ensino, tinha o dom natural de desempenhar essa função.

Para ensinar os números usara a associação de objetos concretos com os numerais, facilitando dessa forma o aprendizado. Após uma hora e pouco, quando foram chamados para jantar, João Maria já sabia rabiscar os primeiros algarismos. Depois de comer fariam mais um pequeno avanço antes de descansar. O simples fato de iniciar seu aprendizado, deixou o rapaz eufórico. O companheiro Aparício o viu todo excitado com o que conseguira aprender naquele tempo tão curto e se convenceu de que ele realmente iria conseguir. Não imaginara que isso fosse possível para alguém depois de atingir a idade madura. Se seus ossos não estivessem já um tanto duros, talvez até se aventurasse também a aprender.

A partir dessa noite, praticamente todos os dias estava João Maria, sentado ao lado de Feliciano, muitas fezes empenhado na realização de tarefas passadas pelo instrutor, que por sua vez se ocupava em se desincumbir de suas funções. Estava entusiasmado com a velocidade que o aprendiz demonstrava ter no domínio de cada novo ensinamento. Parecia antever o que viria e logo estava desenhando os números e letras que aprendera. Mais alguns dias e já saberia ler algumas palavras, talvez escrever pequenas frases. Era encorajador assistir ao seu progresso.

2-feira-de-sorocaba-tropeiro-getulio-delphim-3

Feira de Sorocaba, gravura de Getúlio Delphim.

 

Ao chegarem em Sorocaba, depois de algumas semanas, o jovem aprendiz de primeiras letras já conhecia o alfabeto, conhecia as principais sílabas e escrevia algumas frases curtas. No meio do caminho haviam encontrado alguns exemplares de jornais velhos, folhetos de propaganda de remédios e outras coisas escritas. Tudo era guardado por João Maria. Nas horas de descanso, estava sempre decifrando alguma coisa escrita. Quando enroscava em alguma palavra mais complexa, perguntava ao mestre que se encarregava de esclarecer. Em algumas ocasiões era obrigado a ler o texto para poder explicar o significado, pois suas letras não eram lá essas coisas tão aprofundadas.

O Líder da tropa fia com bons olhos o empenho do jovem em aprender. Pensava no dia em que o velho ajudante não pudesse mais acompanha-lo nas viagens. Teria de um substituto mais jovem e preparado pelo antigo ajudante. Muitos tropeiros velhos e calejados, olhavam admirados o empenho do jovem em ler e escrever. Houve que lhe profetizasse um futuro brilhante, pois era sabido que pessoas letradas sempre tinham maiores chances de progredir do que os trabalhadores braçais. Os dias de estadia na feira foram de trabalho intenso. As continhas aprendidas na viagem foram úteis para orientar suas ações na negociação das mercadorias que trouxera.

Soube fazer o cálculo do lucro obtido e isso lhe trouxe um prazer indescritível. Havia ganho mais que o dobro do preço pago na origem. Ao começar a viagem nem imaginara que, ao chegar ao final, saberia fazer a conta do lucro obtido. Mostrou suas contas ao mestre que lhe mostrou alguns pequenos erros cometidos, de modo que o lucro era um pouco maior que que calculara. Mas era pequena a diferença. Precisava aperfeiçoar suas técnicas de cálculos. Enquanto permaneceram em Sorocaba as lições ficaram interrompidas, para serem reiniciadas logo que começassem a volta.

Ao chegar em Santa Maria, foi um João Maria eufórico que se apresentou à família. Estava sabendo escrever algumas palavras e principalmente fazer as contas mais elementares. Vendeu os produtos que comprara para trazer, entregou as encomendas recebidas e reuniu tudo, fazendo o balanço da viagem. Sentaram-se em família para fazerem um levantamento do que dispunham em capital para iniciar a abertura da área de terras requerida. Depois de somar tudo que haviam guardado, João fez uma estimativa, que em um ano poderiam começar a dar os primeiros passos. Talvez até antes, se conseguissem alguns dias de folga para irem pessoalmente fazer parte do serviço.

tropeiros2

Tropeiros atravessando rio.

 

A dificuldade era o fato de Antônio ter o ombro esquerdo imóvel e João não poder se afastar da fazenda. No final combinaram que, Antônio poderia desempenhar o serviço de capataz na ausência de João. Este e o sobrinho João Maria, iriam com dois ou três peões trabalhar na abertura do local da construção, preparação de toras para serraria e seu transporte para a serraria. Mal terminaram de fazer o serviço e já era hora de iniciar nova viagem para Sorocaba. João Maria estava ansioso por fazer nova viagem e dar prosseguimento às lições de escrita e leitura. Agora já podia aprender as contas mais complexas, como porcentagens, juros e coisas assim. Era bem mais complexo, mas com algum esforço conseguiu também aprender esses passos.

Com certeza jamais seria um erudito, mas não dependeria de ninguém para lhe fazer as coisas mais elementares, quando quisesse organizar suas próprias tropas, levando os animais produzidos na propriedade da família. Projetava transportar quantidades consideráveis de erva mate para revender e assim alavancar os negócios. Sonhava alto o rapaz. O tio ficou espantado com a rapidez que ele demonstrava em aprender os segredos da escrita, leitura e aritmética. Em alguns meses estava apto a ler com bastante fluência e redigir pequenos textos, sem dificuldade. Não perdia ocasião para ler tudo que lhe aparecesse. Bastava conter letras ou números e ele estava disposto a ver do que se tratava. Tanto empenho, só poderia resultar em um desenvolvimento fora do normal.

No tempo que tinha disponível até a próxima viagem para Sorocaba, aproveitaram e fizeram a roçada e derrubada para localizar a sede da propriedade, além de um bom pedaço de pasto, especialmente numa área onde a vegetação era menos densa, na área mais próxima da água. Ali o capim cresceria mais viçoso, devido a umidade e assim permitiria um bom desenvolvimento da criação. Alguns dias antes de iniciar a viagem, deixou o tio e os peões terminando o serviço começado e tratou de adquirir as mercadorias que levaria junto na tropa, em seus dois cargueiros. Cuidou para não misturar os objetos de comércio do patrão com aquilo que levava para seu comércio particular. Não desejava criar atritos.

tropeiros-1

Gado vadeando um curso d’água na tropeada.

 

A primavera estava próxima. Era hora de iniciar a viagem. Assim seria possível fazer até duas, antes da entrada do próximo inverno. João Maria encontrou com Feliciano que lhe estava ensinando os rudimentos da escrita e matemática. Passaram uma semana preparando a parte burocrática inerente ao total da tropa e mercadorias que seguiriam nessa remessa. Era ocasião de praticar o que aprendera e adquirir prática na elaboração do controle necessário para manter as contas em ordem. Era preciso saber o quanto havia custado cada unidade e o preço pelo qual poderia ser vendido, sem que isso significasse prejuízo. Havia que levar em conta cada tostão despendido no caminho, seja com alimentos, despesas inesperadas, pousos mais prolongados, pastagens. Tudo representava custos determinantes do resultado final de uma viagem bem sucedida.

Alguns dias antes da primavera ter início em termos cronológicos, partiram de Passo Fundo, onde haviam se reunido boa parte dos integrantes da comitiva. Um lote adicional de mulas estava esperando nas proximidades da divisa com Santa Catarina/Paraná. Pouco antes do Natal estavam chegando de retorno, trazendo as bruacas recheadas de mercadorias compradas em Sorocaba, bem como um variado sortimento de erva mate para distribuição por toda região. O clima ajudara e haviam demorado pouco em cada pouso. Apenas o suficiente para refazer os animais do cansaço da viagem, uma boa forragem de pasto para aguentar mais uma etapa e a caminhada prosseguira. A volta havia sido mais rápida do que o esperado.

Todos os momentos de folga foram aproveitados por João Maria, agora já dominando a escrita e cálculos básicos para exercitar o que havia aprendido. Quando surgiam dúvidas perguntava ao mestre Feliciano, como o chamava. Quando este também sentia dificuldades em explicar pedia ajuda ao “Pai dos Burros”, um velho dicionário que estava todo ensebado de tanto uso. Assim ia dominando aos poucos as palavras mais complexas. Era assíduo leitor de jornais obtidos em Sorocaba e deles trazia um bom sortimento, especialmente de artigos importantes que recortara. As propagandas eram menos interessantes e só serviam para fazer volume, por isso eram descartadas na medida do possível. Os outros peões ficavam ora curiosos pelas leituras que o colega fazia, ora faziam mofa de seu empenho em saber ler. Na opinião da maioria isso servia para pouca coisa.

Eles que ficassem com suas opiniões. Mal sabiam que ele estava conquistando seu passaporte para uma vida diferente do que vinham vivendo seu pai, tios, avô e bisavô. Tinha ambição e queria sair do lugar comum da vida de peão do nascer ao morrer. Por enquanto era peão, mas não morreria nessa condição, disso tinha certeza. O que não valia a pena era apregoar tais ideias, para não ser motivo de chacota. Já tinham suficiente para lhe amofinar a paciência com o seu desempenho na primeira noite com uma mulher. A cada pouco tempo alguém lembrava e imitava os gemidos e resmungos que haviam ouvido mantendo-se colados à parede do lado de fora do quarto.

clip_image003

Mulas de carga e parte da tropa a caminho de Sorocaba.

 

A melhor coisa a fazer era deixar que falassem sem se sentir avexado pois, quanto mais ficasse chateado, mais sentiriam satisfação em lhe apoquentar. Ficara uma dúvida em sua cabeça na forma de calcular os preços do custo final e o lucro sobre os produtos transportados. Isso envolvia questão de porcentagem e ainda não havia compreendido bem essa parte. Sempre que Feliciano dispunha de alguns minutos de tempo, lá estava João Maria a lhe interrogar como fazia essa ou aquela conta. De tanto repetir, por fim ele entendeu e nunca mais esqueceu. Muitos anos mais tarde, sabia fazer esses cálculos todos sem problemas. Em cada ocasião lembrava da paciência de Feliciano em lhe explicar. O bom homem havia viajado em companhia de tropeiros até idade avançada. Só parara quando não mais conseguia se manter sobre a sela e os olhos não mais ajudavam a enxergar os números e letras.

Tinha amealhado um pequeno pecúlio com o qual viveu até seus últimos dias, na periferia de Passo Fundo, com a esposa e uma filha viúva. Quando ele pendurou a sela e guaiaca, João Maria já havia há anos assumido por conta a condução de tropas. A propriedade de Passo Fundo estava em plena atividade, com um bom plantel de éguas e vários jumentos para fazer a cobertura. A cada ano uma tropa de mais de quinhentas mulas saia da propriedade, além de um bom lote de gado de corte para charqueada. Compravam nas redondezas e mesmo de propriedades da fronteira mais outro tanto de mulas, de modo a transportar a cada viagem em torno de 800 a 1000 animais. Nas cargueiras eram transportados artigos típicos da região com boa aceitação em Sorocaba.

No império do Brasil a escravidão negra estava caminhando para a extinção, seguindo o exemplo de outros países. Há tempo o tráfico estava proibido. Depois viera a Lei do Ventre Livre, isto é, filhos de escravos nasciam livres. A Lei dos Sexagenários, tornando livres os escravos com mais de 60 anos de idade, de modo que o número de escravos decrescia gradativamente. Em 1885, durante uma de suas primeiras viagens por conta própria, João Maria voltou e encontrou a família de luto. O avô Afonso, que tantas histórias lhes contara, ensinara a manejar o velho mosquetão até ser capaz de acertar um palito a mais de 50 metros, mesmo com o cano gasto de tanto usar, havia falecido. Adormecera igual um passarinho e esquecera de acordar na manhã seguinte. A avó Zulmira não demorou muito para seguir os passos do marido. Deixaram saudades, mas haviam vivido uma vida repleta de realizações, além de superar grande número de dificuldades próprias da época.

Em 1886, estando os primos e irmãos todos casados, restando apenas João Maria solteiro, finalmente encantou-se com uma morena, filha de mãe bugra. Em pouco tempo a levou até o padre mais próximo e pediu para que os casasse. Ao chegar em casa com a mulher na garupa, todos indagaram o significado daquilo e ele apenas informou:

– Ela agora é minha mulher. Vamos fazer uma festa para comemorar. Não precisa preocupação pois o padre já nos casou e o juiz confirmou.

Acostumados com as excentricidades do filho, Antônio e Isabelita balançaram as cabeças pensativos, concordando. Uma semana depois, os peões da propriedade, os primos e irmãos estavam reunidos para festejar o enlace matrimonial, um pouco fora dos padrões normais, mas o noivo era assim mesmo. Não se ligava muito em formalidades. Isabelita falou ao marido:

– Nós nem podemos dizer nada. Nós fugimos e casamos quando nossos filhos já tinham nascido.

– Era isso mesmo que me ocorreu antes. Quando pensei em dizer alguma coisa, lembrei de nós fugindo pelos campos da Argentina, resolvi ficar bem quieto.

O casamento acontece pouco tempo depois da viagem a Sorocaba. João Maria voltara um pouco preocupado. Os negócios não andavam muito bem por lá. Algumas linhas de ferrovia haviam sido construídas e com isso boa parte do transporte de café e outros produtos era feito por trem, reduzindo assim a demanda de animais de carga. Quem ainda procurava por eles eram os cafeicultores da região serrana de Minas Gerais, onde era preciso recolher o grão dos cafeeiros plantados nas encostas e para isso nada melhor do que uma mula.

exposicao300x225

Museu do tropeiro, cangalha e bruacas de taquara.

 

Em companhia com o pai e tio, sócios na propriedade, sentaram para confabular sobre o que fazer. As suspeitas de João Maria eram ainda pouco aprofundadas, mas ele parecia ver mais à frente. Lera nos jornais notícias cada vez mais veementes sobre pronunciamentos de abolicionistas e previa que logo a escravidão seria abolida. Com certeza isso iria provocar alguma mudança política no país. Não saberia dizer o que, mas sentia cheiro de mudança na forma de governo. Mesmo não sendo especialista em política, podia perceber nas entrelinhas dos artigos que lera, a tendência à implantação de uma República, à semelhança dos países vizinhos Uruguai, Argentina, Paraguai.

Diante do quadro exposto por João Maria, João e Antônio sugeriram mudar gradualmente de ramo, passando a criar gado de corte em lugar das mulas. Estavam mesmo precisando reformar o plantel de éguas para criar. Era ocasião de trocar as éguas por vacas e um ou dois touros. Começariam a vender carne, em lugar de besta de carga. Os lucros auferidos nos últimos anos, estavam em parte guardados para as emergências e poderiam ser perfeitamente aplicados na mudança de rumo. Decidiram manter as éguas para mais uma recria, mas começariam a procurar vacas para ampliar a criação de gado. Um lote de novilhas, em princípio destinadas ao abate, seria deixado para matrizes e assim dependeriam menos de investir capital no processo.

Em menos de dois meses a esposa de João Maria estava grávida. Sua beleza mestiça ficou ainda mais realçada, deixando o marido, um pouco madurão ainda mais apaixonado. Naquela temporada não faria a segunda viagem. Deixaria para a próxima primavera, quando teriam um lote maior e levariam tudo de uma vez, economizando dessa maneira os gastos da viagem. Logo nos primeiros sinais de arrefecimento do inverno, João Maria partiu com a tropa. Nem se empenhara demasiadamente em trazer muitos animais da fronteira, pois tinha o pressentimento que a procura iria ser pouca. Foi o que aconteceu. Conseguiu vender o que levara, mas não faltou nenhum animal. Nenhum comprador ficou sem ter suas necessidades supridas. Alguns tropeiros haviam deixado de tocar tropa, trocando por outras atividades, ou por levar apenas cargas em outros caminhos.

O retorno aconteceu na antevéspera do Natal. A esposa Ceci de João Maria, estava a poucos dias de parir. Seu ventre estava redondo, os seios entumecidos se preparando para aleitar o filho. Logo depois do Ano Novo, no dia 15 de janeiro, começou o trabalho de parto. A parteira mais próxima foi chamada e fez tudo que podia para ajudar a jovem a ter seu filho. Por mais que fizesse, ministrasse infusões de ervas para provocar a dilatação, nada parecia adiantar. Depois de quase vinte horas de sofrimento, em determinado momento ela soltou um grito surdo e emudeceu. Seu corpo jovem sofrera algum rompimento interior e ela perdera a vida. Sem hesitar a parteira fez uso de uma faca afiadíssima que carregava na bolsa, cortou a pele e o útero, retirando dali a criança que ainda estava com vida.

A mãe morta foi deixada de lado e a criança recebeu toda atenção. Depois de vários minutos ela finalmente teve um pequeno espasmo e logo soltou um gemido, querendo ser choro. Estava enfraquecida depois de ficar longo período em sofrimento sem conseguir nascer. O útero estava cheio de sangue, fazendo supor ter havido o rompimento da artéria que causara a morte da mãe. Ficou João Maria viúvo, menos de um ano depois de casar e com uma filha pequena nos braços. A avó Isabelita se prontificou a tomar conta da criança. O filho, acostumado a lidar com coisas menos delicadas, não saberia cuidar de um ser tão delicado como ela. Mesmo assim a criança era bem desenvolvida Tão logo conseguiram fazer algum alimento chegar ao seu estômago, ela começou a se refazer e o rostinho ficou corado.

João Maria pranteou a esposa por vários dias, antes de conseguir se aproximar da filha. Parecia de início estar revoltado com a criança por ter sido a causa da morte de sua mãe. Quando enxugou as lágrimas, pegou a criança no colo, aninhou-a junto ao peito e ficou longos minutos ali, vertendo lágrimas, agora de amor e ternura pela pequena. Era o fruto do amor que o unira à Ceci que tinha nos braços. Infelizmente Deus não havia permitido que ele tivesse as duas juntas. Uma partira para que a outra ficasse em seu lugar. A esposa de um dos empregados tivera filho poucos dias antes e seus peitos tinham leite em abundância. Logo lembraram dela e, em troca de uma gratificação, passou a amamentar a pequena. Vinha várias vezes ao dia dar de mamar à criança.

Em alguns meses já era possível fazer com que ela se alimentasse com sopinhas e alimentos mais sólidos, deixando de ter a necessidade premente do leite materno. Mesmo assim mamara, mas agora mais espaçadamente. Depois de alguns meses, João Maria preparou nova tropa para levar à Sorocaba. Partiu com o coração apertado, deixando para trás a filha, agora com oito meses de vida. Já sorria, se alimentava regularmente e ameaçava ficar em pé, apoiada nas perninhas. Era a alegria dos avós e do pai. Durante a viagem não passou um dia sem pensar na filha, uma porção de vezes. Fez o propósito de procurar um presente bem bonito para comprar e trazer para ela. Por mais que procurasse, nada encontrou que julgasse digno de sua pequena Isabel. Dera-lhe o nome da mãe, apenas tirando do diminutivo.

exposicao_2300x225

Roupas e apetrechos de tropeiros.

 

Ao voltar ela estava com quase um ano de vida e, a não ser por ela, a vida de João Maria parecia completamente vazia. Não sentia a antiga alegria de viver, a disposição para trabalhar por horas sem parar. A vida de Ceci, ligada a ele por um período tão curto, parecia ter levado uma parte de seu ser para o túmulo. Precisava reencontrar sua antiga disposição, afinal tinha a responsabilidade de criar a filha que ficara. Ela, tão pequena e frágil, certamente não tinha culpa alguma do ocorrido e merecia ter o melhor ao seu alcance para crescer feliz. Ao reencontrar com ela, pareceu reviver em parte, embora uma leve sombra pairasse sobre seu semblante continuamente.

O aniversário de nascimento de Isabel, era também o de morte de Ceci. Portanto a comemoração ficou para um dia posterior. Não sentia vontade de comemorar nada, logo no dia em que completaria um ano sem a sua amada Ceci. Demorara longos anos para se enamorar, mas quando isso ocorrera, fora algo avassalador como uma tempestade. O coração ficara pulando no peito igual um potro xucro, fazendo o sangue pulsar nas veias como um balão inchando e desinchando alternadamente. Havia apressado o casamento. Sempre tinha a impressão de que pressentira a perda prematura da mulher amada. Deixara em seu lugar a pequena Isabel. A única coisa que se permitiu fazer no dia do aniversário foi levar a filha no colo até a sepultura da mãe e lhe dizer calmamente:

– Querida Ceci! Aqui está nossa filha. Você a deixou comigo e vou cuidar dela para sempre. Descanse em paz meu amor.

Voltou abraçado à filha, com os olhos vermelhos de chorar, enquanto a pequena, percebendo em sua inocência a tristeza do pai, tentava fazer carinho em seu rosto. Diante desse gesto ele enxugou o pranto e falou:

– Minha filha! Somos nós dois que vamos cuidar um do outro. Sua mãe está lá no céu, junto com Deus e Nossa Senhora. Vai ficar olhando por nós enquanto vivermos nessa terra.

Logo a menina começou a caminhar, exatamente no dia de seu aniversário. Esse gesto fez João Maria recobrar a alegria. Em seus passinhos vacilantes, mesmo assim parecia ter a graça e leveza do andar de Ceci. Os avós Antônio e Isabelita estavam eufóricos com o progresso da neta. Ela lhes dizia que, a mãe não pudera ficar com eles, mas ela estava ali e merecia a comemoração de sua data natalícia. Mas era tarde para organizar qualquer coisa. Preparariam um almoço especial para o dia seguinte e convidariam os padrinhos, primos e demais crianças para estarem presentes. Assim foi feito.

Depois do almoço um bolo foi cortado, refrescos foram distribuídos entre os presentes e, na ausência de presentes, ela ganhou muitos abraços e beijos. Estava comemorada a data e ela, parecendo adivinhar o motivo de tanta agitação, não parava de perambular de um lado a outro em seus passinhos ainda trôpegos, recusando-se a ficar no colo de quem quer que fosse. Dessa forma, a data de falecimento de Ceci, virou por outro lado dia de festa nos próximos anos, em comemoração do aniversário da filha Isabel.

gauchotipico

Gaúcho típico do século XVIII

 

Décio Adams

decioa@gmail.com

adamsdecio@gmail.com

www.facebook.com/livros.decioadams

www.facebook.com/decio.adams

@AdamsDcio

Telefone: (41) 3019-4760

Celulares: (41) 9805-0732 / (41) 8855-6709

Na senda dos monges! – Capítulo VIII – Um tropeiro na família.

  1. Um tropeiro na família

images (8)

Tropeiros na estrada do sertão.

Quando o pai Antônio retornou da Guerra do Paraguai, João Maria contava com dezesseis para dezessete anos de idade. Desde cedo andava a cavalo, tendo começado em um petiço manso e muito apegado ao menino. Todas as manhãs, quando via o dono sair de dentro de casa, estava na beira da cerca nas proximidades e sossegava apenas depois de receber sua dose de afagos, acompanhados de uma pequena espiga de milho, ou um generoso torrão de açúcar. Na maior parte do tempo o menino o montava em pelo, sem ao menos usar rédeas. O comando era feito com a pressão dos joelhos e o ficho sabia qual era a vontade do dono.

Esse idílio seguiu por vários anos, até que o animal, já de idade um pouco avançada, pois fora destinado ao guri já calejado da vida, sentiu o peso dos anos. Sua saúde deteriorou e não era mais possível carregar o dono. O olhar era triste, parecendo implorar a morte, não sendo mais capaz de desempenhar a tarefa que por tanto tempo era o prazer da sua vida. Negou-se a comer e nenhum recurso havia para reverter a situação. Num dia cedo, amanheceu morto em seu estábulo. Ajudado pelo avô e os irmãos, cavaram uma cova e arrastaram com uma carreta o corpo até a beira, sepultando-o. O lugar ficou marcado e mesmo o capim crescendo viçoso, os outros animais parece que respeitavam a sepultura do petiço.

Continue lendo

Na senda do monge! – Capítulo VII – A Guerra do Paraguai.

  1. A guerra do Paraguai.

    Civis-Guerra-Paraguai

    Civís durante a Guerra do Paraguai.

 

A família Batista continuou crescendo, reunindo netos periodicamente aos primeiros que haviam nascido. Ao despontar a década de 60, Roque e Alice eram pais de mais quatro pequenos, sendo três meninos e duas meninas. Júlio e sua mulher tinham tido mais dois meninos e uma menina. Já Antônio e Isabelita haviam acrescentado mais dois meninos. Afonso e Zulmira eram avós de peito estufado. Aos domingos era habitual reunirem a maioria dos netos. Os meninos geralmente pediam ao avô para contar histórias do tempo da Guerra dos Farrapos. Ele se fazia de rogado, apenas para tornar os pedidos mais insistentes. Depois punha-se a narrar suas aventuras daquele período de quase 10 anos que passara nos campos de batalha.

Todos os anos na época da Páscoa em especial, Afonso fazia questão absoluta de levar a família, desde o mais novo ao mais velho, para participar, ao menos uma vez ou duas durante a Quaresma, de uma via sacra na encosta do Cerro do Campestre. As crianças ouviam atentamente a narração de sua estadia ali, nos primeiros tempos, quando João Maria ainda se encontrava na região. O afluxo de romeiros em busca de cura nas Águas Santas, arrefecera com a ausência do Monge, mas jamais deixou de existir. A primitiva organização da comunidade prescrita por João Maria ainda se mantinha. Os doze zeladores, a aplicação das oferendas seguia em termos gerais o preconizado pelo documento “Aos do Campestre”.

Continue lendo