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Gaúcho de São Borja! – Capítulo III

  1. Margarida Maria Vargas.

 

 

Antes de Fulgêncio tomar parte do conflito contra Francisco Solano Lopes, houvera tempo de nascer a única filha do casal, Margarida Maria Vargas. O pai partira para a guerra quando a menina contava com algumas semanas de vida. Dessa forma, ela muito pouco, praticamente nada, sabia dele. Crescera aos cuidados da mãe e sob a tutela constante de uma criada de confiança, a Siá Balbina. Era de idade indefinida e vivia na fazenda desde que Carlota podia se lembrar. De uma dedicação canina à família, era parte dela como os móveis, mesas, cadeiras e outros objetos. Tomava conta da pequena Margarida tal qual fosse uma joia rara.

É fácil entender que a menina cresceu com algumas regalias nem sempre disponíveis na infância. Mesmo assim, havia muitas limitações causadas pelo estado de beligerância em que vivia o país, a escassez de alguns mantimentos, obrigando a fazer um controle rigoroso para evitar a falta do essencial. Estava com a idade de 8 para 9 anos quando Francisco foi guindado ao cargo de capataz. Em seus folguedos gostava de ver os peões lidando com o gado, assistir às sessões de doma de potros, sempre com Balbina nos seus calcanhares. Cedo reparou no garboso capataz que a mãe nomeara. Percebia que se tratava de um homem ainda jovem, mas de um senso prático admirável. Tinha sempre uma maneira mais suave e justa de resolver qualquer diferença porventura existente em qualquer situação.

Em uma dessas ocasiões, Francisco observou a menina olhando fixamente para ele e decidiu conversar com ela. Falaram de amenidades, mas ela não se deteve muito tempo no assunto. Em instantes estava indagando sobre vários assuntos relativos ao trabalho, causando espanto em Francisco. Mesmo assim, respondeu com a maior delicadeza deixando-a encantada com sua polidez. Passou a nutrir sincera admiração pelo jovem capataz. Sua tenra idade ainda não lhe inspirava outra forma de sentimento com relação ao homem, salvo a admiração por alguém que ela via como uma espécie de irmão mais velho. Ela nem irmão ou irmã tinha, todavia imaginou que, se tivesse, ele seria daquele jeito.

As conversas entre eles foram ficando mais frequentes. Com o tempo passando, não tardou a ter início o desenvolvimento das características femininas da criança. Ela chegava a puberdade. Seu corpo começou a sofrer transformações que, de início a incomodavam, pois implicavam em roupas que não serviam mais, seu andar ficou desajeitado, sensações estranhas fervilhavam em seu íntimo e ela não lhes conhecia o significado. Ao perceber as mudanças, Balbina tentou explicar com seu jeito simples o que acontecia e ela no começo ficou satisfeita. Um dia decidiu perguntar à mãe o que significava toda essa mudança.

A mãe Carlota, andara bastante ocupada em administrar a fazenda no aspecto financeiro, esquecendo-se quase completamente de que tinha uma filha, em vias de se transformar em menina moça. Parou por um instante, chamou Margarida para sentar-se numa confortável poltrona e calmamente explicou à garota o que estava ao seu alcance entender naqueles dias iniciais. Satisfeita com os esclarecimentos, levou ainda a promessa de novas conversas quando houvesse alguma coisa em que tivesse dúvidas.

Sabia agora que estava se tornando mulher. Em algum tempo não seria mais uma menina e, ao término desse processo, poderia ser mãe. Estaria apta a casar-se, ter filhos e, portanto, ter sua própria família. Inicialmente sentiu-se encantada com as novidades que aprendera.

Essas informações foram penetrando aos poucos na cabeça ainda infantil, que iniciava a transição para a adolescência e uma infinidade de sonhos povoou sua imaginação. Como seria o seu marido que um dia seria seu companheiro? Ficou pensando nos peões que viviam com as famílias nas fazendas e eles foram passando um a um diante de sua mente. De repente uma figura se destacou e ela sentiu o jovem corpo estremecer. Tivera a visão de Francisco, garbosamente vestido em seus trajes típicos, convidando-a para dançar. Um devaneio prolongado levou-a ao momento em que ele pedia à sua mãe permissão para ficarem noivos. Via-se caminhando para o altar da pequena capela nos domínios da fazenda. Lá estava à sua espera Francisco, vestindo um traje muito bonito, perfeitamente barbeado, com o bigode bem aparado. Um peão idoso a levava pelo braço, em substituição ao pai que perdera tão criança.

Espantou os sonhos e voltou à realidade. Continuou vivendo sua vida de criança/adolescente e notava a cada dia alguma coisa diferente. Seus pequenos seios começaram a intumescer, ficando por vezes levemente doloridos. Notou umas penugens surgindo em torno dos órgãos genitais e foi perguntar à mãe se isso era normal. Sentiu-se insegura especialmente com relação às sensações de dor. Poderia significar alguma doença e ela sentia verdadeiro pavor disso. Nunca ficara realmente doente. Apenas um ou outro desarranjo estomacal devido a algum exagero de alimentação, alimentos indigestos e apenas isso. Um resfriado leve, mas nem febre tivera, que pudesse lembrar. Uma dor mesmo de verdade ela nunca conhecera.

Os anos passaram, Margarida virou mocinha e depois se transformou em uma jovem mulher, no pleno vigor de seus 15 anos. O processo de transformação, da menina que fora, em mulher, estava quase completo. Sua altura era média, cabelos castanho escuros, longos e levemente ondulados. O rosto ovalado, denotando uma descendência espanhola presente nas gerações passadas. Chegou o dia em que faria sua estreia nos fandangos realizados na fazenda e propriedades vizinhas. A mãe, agora em situação financeira estabilizada, fez questão de prover uma indumentária adequada para a ocasião. Ordenou a contratação de um grupo musical da cidade, especializado em músicas típicas. O galpão estava com assoalho novo e iria ser inaugurado naquele fandango. Não desejava ver a filha, ao final do baile, completamente empoeirada por dançar no chão batido.

O baile começou e, em dado momento, Margarida e mais cinco mocinhas das redondezas, bem como filhas dos peões, foram apresentadas à comunidade. Pediu-se aos músicos para tocarem uma valsa no capricho e as “debutantes” dançaram com os pais. Margarida, na falta do pai, convidara Francisco para dançar com ela. Ele inicialmente tentara se esquivar, mas ela, com seu jeito meigo, embora convincente e firme, fez com que aceitasse.

Estava de roupa nova, especialmente comprada para a ocasião e os dois dançaram lindamente. Carlota ficou encantada com o belo par que seu capataz formava com a filha e sentiu que, não ficaria surpresa se dali resultasse algo mais que uma mera dança de baile de quinze anos. Mas, deixaria o tempo correr. Não sentia pressa em ver a filha casada. Era jovem e tinha muito que aprender sobre prendas domésticas. Não que pensasse em vê-la labutando numa cozinha igual criada, mas era necessário saber fazer. Só assim saberia comandar as empregadas que viesse a ter no futuro.

O baile terminou depois de muitas danças, sendo que, em diversas ocasiões, Francisco a convidara novamente e ela não recusara. Sentia-se flutuar quando ele a conduzia com seu passo firme, seu corpo forte e flexível, mesmo nos passos das danças mais complicadas. Chegou à sala, com o rosto afogueado devido ao calor e ao esforço das seguidas vezes que dançara, tanto com Francisco, como os outros rapazes que a haviam convidado. O cansaço era tanto que mal teve forças para retirar os sapatos, trocar o vestido, fazer uma ligeira higiene noturna. Caiu na cama, praticamente dormindo.

Dormiu um sono agitado por sonhos românticos. Ora era um jovem desconhecido que a levava pela mão, ora outro, mas no fim sempre o rosto se transformava no de Francisco. Em certo momento ficou plenamente acordada e ficou imaginando se estaria ficando seriamente apaixonada pelo capataz. O que sua mãe pensaria disso? Aceitaria receber o capataz como genro? Tinha elevada estima por ele, mas, daí a tornar-se membro da família, era uma grande distância. Estava divagando. Daria tempo ao tempo. No momento oportuno, conversaria com a mãe e ela lhe ajudaria a tomar a decisão acertada. Confiava cegamente na lucidez das decisões maternas.

Seria tarefa da mãe decidir essa questão? Não era a ela que cabia tomar a decisão final nesse assunto? Bem, estava cansada. Deixaria para pensar no dia seguinte ou depois de alguns dias. Por ora, precisava recuperar as energias despendidas no baile que fora deveras divertido. Nunca sentira nada igual. Agora era mulher, era uma prenda e poderia ser requestada por qualquer peão guapo que aparecesse nas redondezas. Havia muito que viver antes de qualquer decisão mais séria com relação ao resto de sua vida. Estava no limiar de sua existência. Por que se preocupar já com casamento? Filhos? Família? Não que isso estivesse fora de suas cogitações, mas não para o momento imediato. Era um projeto de longo prazo.

Na manhã seguinte, estava ali, curiosa e perguntadeira sua querida Siá Balbina. Estava bem idosa, as consequências de uma vida longa e trabalhosa estavam visíveis em suas juntas deformadas, seu rosto enrugado. Somente os olhos vivos, atentos e perspicazes, não haviam mudado. Bastou olhar para sua “menina”, era como ela a chamava, e percebeu que havia no rosto um brilho diferente. Era ar de coração apaixonado, disso não tinha dúvida. Não fez, no entanto, perguntas. Queria esperar que a menina falasse espontaneamente. E lhe daria tempo para isso. Ajudou-a a levantar, escolher a roupa para vestir depois de lavar o rosto e pentear os cabelos sedosos. O tempo passou e Margarida nada falou, deixando Balbina cada vez mais curiosa.

Em determinado dia da semana seguinte, surpreendeu-se ao ver sua pupila caminhar, de modo bem fagueiro, uma flor no cabelo, um vestido leve e florido, rumando na direção da mangueira, onde Francisco estava supervisionando a apartação de bezerros para engorda. Ela se aproximou como quem não quer nada, e ficou observando em silêncio. Num momento de relaxamento entre um comando e outro aos subalternos, Francisco reparou em Margarida e lhe disse sorridente:

  •  Bom dia senhorita!
  •  Bom dia, Francisco!
  •  Como vai minha prenda?
  •  Eu vou bem e você?
  •  Estou ótimo. Só está um pouco quente. É bom se proteger ali na sombra ou vai queimar a pele.
  •  Estou precisando tomar um pouco de sol, ou vou ficar branquela igual leite.
  •  Mas não carece de tomar sol demais, senhorita. Nós também vamos parar logo. O sol está muito forte e os animais ficam muito cansados.
  •  Vou sentar ali naquele banco para observar.

Francisco, em alguns minutos, terminou o serviço com o gado, foi até um tanque próximo, lavou o rosto, molhou o cabelo e passou os dedos à guisa de um pente. Colocou de volta o chapéu e veio sentar-se próximo à Margarida, depois de lhe pedir licença. As mãos e o rosto ainda estavam molhados.

  •  Nem precisa pedir licença, Francisco. Você é da família.
  •  Nem me fale em algo assim, senhorita. Conheço meu lugar e não quero faltar-lhe com o respeito.
  •  Não é necessário ser tão formal. Eu quero ser seu amigo. Quase não tenho com quem conversar e sinto falta de alguém que sente, converse comigo. Alguém diferente da mãe, Siá Balbina. Elas quase não me deixam respirar.
  •  Elas vão ficar tristes se a ouvirem falar isso.
  •  Vão não. Eu explico a elas e vão entender.
  •  Eu não quero complicações. Estou muito satisfeito com meu trabalho.
  •  Fica tranquilo que não vou lhe causar embaraços. Até mais tarde, que deve estar na hora do almoço. Acabei de ouvir Siá Balbina chamando. Até logo.
  •  Inté, senhorita.

Margarida levantou, deu adeus com a mão e foi para casa, onde, de fato, o almoço estava servido. Lavou as mãos e o rosto rapidamente indo sentar-se para a refeição.

  •  Onde foi que você esteve, Margarida? – Perguntou Carlota.
  •  Estava lá perto da mangueira vendo a apartação de bezerros.
  •  Acho que nossa menina está de olho enrabichado, sinhá Carlota.
  •  Nem fale uma coisa dessas Siá Balbina. Eu ainda sou criança.
  •  Criança você não é mais faz muito tempo, Margarida.

Dali em diante ocuparam o tempo em saborear a refeição que estava muito bem preparada. Depois foram até seus aposentos para alguns minutos de repouso e mais tarde retomaram os afazeres rotineiros.

Gaúcho de São Borja! – Capítulo XV

Rodoferroviária de Santiago.

 

Praça Getúlio Vargas em Santiago-RS.

 

Batalhão de logística em Santiago.

 

Novidades II
Os minúsculos alevinos colocados nos arrozais, funcionando como açudes ou tanques de criação de peixes, em poucas semanas estavam com o tamanho multiplicado de modo fantástico. Eram agora visíveis aos cardumes percorrendo os intervalos entre as plantas de arroz, comendo aqui, ali e deslocando-se igual riscos brilhantes ao sol. Foram inúmeros os visitantes a virem ver conhecer a mais recente curiosidade de que havia ouvido falar. Ao verem os peixinhos ficavam se indagando qual teria sido o tamanho com que tinham sido colocados ali. Ao lhes ser informado serem há poucas semanas do tamanho que os tornava quase invisíveis, custavam a acreditar.
 
Na ocasião do Natal as obras de engenharia estavam chegando à metade do tempo previsto no total. Se o clima ajudasse, isto é, não chovesse excessivamente, para final de janeiro, início de fevereiro estariam prontas. Nessa ocasião seriam entregues as máquinas e feita sua instalação. As tubulações de água e esgoto estavam em fase de conclusão. A área de pastagem na outra margem do rio estava sendo preparada. O capim seria plantado ao mesmo tempo da forrageira encarregada de fornecer o volumoso para o primeiro inverno. As cercas estavam sendo construidas, utilizando-se palanques feitos de concreto, em substituição aos tradicionais de madeira. Como essa estava ficando escassa, o uso do concreto crescia ano a ano. Tinha além de tudo a vantagem de resistir à corrosão ou apodrecimento.
 
Gaudêncio passou o Natal e Ano Novo em Porto Alegre, tendo aproveitado para conhecer o litoral nos dias entre as duas datas. A família do general aproveitava um hotel mantido pela associação dos militares para seus membros. O custo da estadia ficava bem mais em conta, além de contarem com a segurança garantida por uma pequena guarnição military. Ficava sediada ali, em forma de rodízio entre as várias unidades do exército sediadas na região. Voltou bastante bronzeado, causando espanto entre os demais habitantes da fazenda. Era habitualmente Moreno mas aqueles dias na praia haviam deixando em sua pele um tom bem mais acentuado de bronze.
 
Durante aqueles dias a intimidade entre ele e Ângela havia aumentado sensivelmente. No entanto, quando ele percebeu, um gesto mais ousado despertou uma reação inesperada da moça. Afastou-o suavemente e o olhou de frente:
– Meu amor, você é o homem com quem quero dividir minha vida. Eu te amo muito, mas, aprendi uma coisa em minhas andanças pelo país de norte a sul, onde meu pai era transferido. A mulher precise se tornar menos dependente do homem, precise lutar por seus direitos, inclusive o direito de escolher o dia em que irá se entregar ao homem escolhido. Desde muito tempo decidi que, vou me deitar com um homem, apenas depois de casar. Por isso, se você quiser continuar comigo, precise aceitar isso. Do contrário, terminamos aqui, antes que cheguemos a um ponto em que seja mais difícile.
 
Gaudêncio foi tomado de surpresa. Não tivera intenção de faltar com o respeito, apenas um gesto de carinho mais íntimo. As palavras firmes de Ângela, calaram fundo em sua alma. Sabia agora claramente que tinha diante de si uma mulher de valor. Se soubesse merecer seu amor, teria uma companheira para o resto dos seus dias. Deixara bem claro qual era sua posição. Pensou um pouco e falou:
– Querida Ângela! Eu lhe amo demais, para fazer qualquer coisa que possa magoá-la. Vou lhe mostrar que sou digno de seu respeito e admiração. Saberei esperar o momento para sermos marido e mulher, dividirmos nossas vidas em todos os sentidos. Vou querer ter uma porção de filhos.
– Quer dizer que você falou sério ao meu pai que não me queria para carreira, só para umas crias?
– Meu bem, me perdoe. Aquilo foi uma desculpa para que seu pai não me botasse para correr sem ao menos ter falado com você.
– E quem quase lhe pôs para correr fui eu. Onde já se viu uma coisa dessas. Eu não sou uma potranca que você emprenha e espera ela criar.
– Que coisa mais infeliz eu fui dizer naquela hora. Poderia ter posto tudo a perder.
– Na hora eu pensei: vou mostrare a esse gaudério grosso quem vair dar umas crias a ele aqui.
– Mas depois mudou de ideia, não mudou?
– Se não tivesse mudado, nós não estaríamos aqui conversando, seu bobo.
– Sorte minha. Quase eu entorno o caldo todo.
 
Era tarde e a temperatura amainara. Era hora de irem dormir. Um beijo prolongado selou aquele momento de amor e amizade. Ardiam de desejo um pelo outro. Porém era preciso serem cautelosos e não deixar seus impulsos leva-los a um ponto em que não saberiam mais resistir. Tinham um objetivo. Formar uma família e viverem felizes por longos anos, se Deus assim permitisse.
 
– Eu sei que vocês homens sentem necessidade de deitarem com uma mulher de vez em quando. Vou entender se você não arrumar encrenca, sabe. Deixar alguém gravida por aí, isso eu não aceito.
– Obrigado por sua compreensão. Mas pensando em você, não tenho vontade de estar com nenhuma outra.
– Só não vou aceitar mais nada disso depois que casarmos.
– Nem teria mais sentido, minha prenda.
– Quem avisa amigo é e não merece castigo. Depois não vale dizer que não sabia ou coisa assim.
– Estou bem avisado. Pode deixar que não vou esquecer.
– Durma bem, amor.
– Você também e sonhe comigo.
 
Foram para seus quartos e dormiram a noite inteira. Cada um em sua cama acalentava o dia em que estariam juntos, casados e poderiam se amar com toda liberdade. As cartas tinham sido postas na mesa e o jogo aceito. Acaso Gaudêncio não concordasse com o que Ângela propusera, estaria agora se encaminhando para um hotel ou outro lugar, talvez rumando para casa. Realmente, suas palavras naquela manhã em que vira da praça em frente aquele vulto de mulher, seu coração disparou e ali mesmo disse para si mesmo: Essa vai ser minha mulher. Cumpriria a risca essa decisão e, no que lhe dizia respeito, não havia até o momento motivos para arrependimento.
 
A manhã seguinte era a última que estariam na praia, pois à tarde retornariam a Porto Alegre. Tinham combinado passar a noite de Ano Novo com os amigos do general na sede urbana do clube de oficiais. Nessa ocasião seria feita a apresentação do candidato a gênro do comandante da região militar aos membros do alto oficialato da capital. Provavelmente naquele lugar estaria reunida a maior coleção de dragonas estreladas em muitos quilômetros ao redor. Muitos provavelmente estariam em trajes civis. Alguns porém fariam questão de irem em seu fardamento de gala.
 
Chegaram pelo meio da tarde. Como não iriam permanecer em casa, não havia preparativos a fazer para comemoração. Isso ficava a cargo dos servidores do clube, comandados pelos membros da diretoria. Houve tempo para um prolongado cuidado com a aparência. As mulheres, mãe e filha, ficaram no caminho de casa em um salão de beleza para passarem por uma sessão de pedicure/manicure, além de um penteado no cabelo. Quando chegaram em casa os dois, general e Gaudêncio estavam terminando de tomar banho e fazer as barbas. Havia tempo para tomar umas cuias de mate, poise les se vestiriam em poucos minutos, coisa que as mulheres demorariam pelo menos uma hora, se não mais.
 
Gaudêncio não fez comentários, pois, apesar de apreciar sua amada ao natural, sem nenhum enfeite ou adereço, precisou reconhecer que ela estava esplendorosa. Um penteado bem trabalhado a deixara com ares de rainha. Seria notada de longe em qualquer lugar. À sua natural estatura acima da média, somava-se sua beleza em que se misturavam traços espanhóis com um leve toque mouro. Isso tudo formava um conjunto incomparável. Os dois se entretiveram tomando mate e falando amenidades enquanto viam na TV as notícias sobre a chegada do Ano Novo nos países orientais, onde agora eram 7/8 horas da manhã de primeiro de janeiro de 1978.
– Vocês vão ficar aí mateando até quando? Nós estamos quase prontas. Andem, vão se vestir de uma vez.
 
Levantaram e foram cumprir a ordem recebida. Haviam esquecido de colocar o vestuário apropriado. O calor forte não convidava a se encher de roupas. Quanto menos melhor. Tinham que fazer um tributo ao novo ano que se iniciaria em poucas horas. O pior de tudo era a gravata e Gaudêncio se perguntava por que diabos não poderia vestir sua roupa de gaudério, uma bombacha folgada, com a bota, um lenço Colorado no pescoço. Seria bem mais confortável que a camisa impecavelmente branca, apertada no pescoço e por cima a gravata com aquele nó complicado. Sempre se atrapalhava. O lenço era tão mais fácil de colocar.
 
Lembrou em tempo, antes de se por a resmungar, de que não estava nos pagos. Aqui era a casa do general, pai da sua amada e teria que se mostrar a altura da posição. Apresentar-se de qualquer maneira, resultaria num falatório danado e não queria causar desgosto à família de Ângela. Com alguma dificuldade terminou de dar o nó na gravata que Ângela terminou por arrumar, pois tinha ficado com o nó meio torto. Antes do baile e comemoração da passagem de ano, haveria o jantar festivo, com início às 22 horas. Estariam terminando de jantar quando ocorreria a queima de fogos já tradicional em toda parte.
 
Na chegada houve um sem número de apresentações, era coronel, tenente coronel, major e mesmo general de perder a conta com suas esposas, filhas, filhos e mesmo netos. Apertou tantas mãos que não saberia lembrar quantas foram, mesmo que as tivesse contado uma a uma. Os rostos se sucediam em rápida sequência, não permitindo ao olhar graver os detalhes e retê-los na memória. Eles provavelmente lembrariam dele, mas ele não tinha como lembrar de todos eles. O general ocupava com a família a mesa de honra, com vista privilegiada para a pista de danças e não muito próxima do palco onde os músicos afinavam os instrumentos, antes de iniciar sua função.
 
O jantar foi servido e Gaudêncio se controlou para não fazer feio diante dos demais convidados. De hábito era bem menos comedido na hora de comer, todavia a madrinha e também a mãe haviam lhe ensinado os rudimentos da etiqueta. Assim sabia se portar devidamente nas ocasiões em que isso lhe era exigido. Mesmo assim sentiu-se um pouco como peixe fora da água. Um filho de peão de fazenda, entre os oficiais de alta patente do exército, aeronáutica e marinha. Ângela percebeu que ele estava um pouco encabulado e falou baixinho:
– Relaxa, meu amor. São todos homens e mulheres iguais ao outros. A única diferença é que os homens usam habitualmente suas fardas. Não precisa ficar encabulado.
– Confesso que nunca vi tanta estrela junta. Acho que nem mesmo no céu tem tantas tão perto umas das outras.
– Seu bobo! As estrelas de põe medo? São só uns pedacinhos de metal pregados no tecido. Nada mais.
– Não é o que são. É o que representam, meu bem.
– Meu pai manda em todos eles, não esqueça.
– Eu sei, mas nunca é bom abusar da sorte.
 
No momento seguinte começou a queima de fogos e todos se posicionaram na melhor posição para assistir ao espetáculo. O clube oferecia uma boa visão de ampla área da cidade, permitindo assistir grande parte do show de fogos de artifício. Os mais finos champanhes foram abertos e as taças se encheram. Brindes foram erguidos por todo lado. Por último o presidente do clube elevou a voz e falou:
– Elevamos um brinde e saudemos o ano de 1978 que acaba de começar.
– Viva.
 
E todos beberam um generoso gole da bebida, que estava extremamente gelado. As taças se umedeciam externamente no mesmo instante que eram enchidas, devido à condensação da umidade. Enquanto a platéia bebia comemorando, a banda atacava uma música própria à ocasião. Em seguida alguns pares iniciaram a dança. Aos poucos mais e mais gente se juntou aos primeiros, enchendo o salão. Durante mais de 3 h e 30 minutos os momentos em que não havia pares rodopiando pelo salão foram raros. Apenas nos momentos de um rápido Descanso dos músicos, afinal ninguém é de ferro. Ao final, cansados de bailar, todos regressaram aos lares. O domingo traria as comemorações em família.
 
Qualquer gaucho que se prezasse teria em seu refrigerador um pedaço de costela para pendurar com um espeto sobre ou ao lado do fogo. Os acompanhamentos eram a indefectível maionese com batatas, incrementada de diversas formas. Uns lhe misturavam pedacinhos de bacon frito, outros colocavam ervilhas, milho verde, cenoura, palmito ou o que mais desse na veneta de misturar. Haveria muita cerveja gelada, ou vinho dependendo da preferência dos convivas. As crianças tomariam coca-cola, guaraná champagne antártica, gasosa, fanta, grapette, mirinda, crush, variando de casa para casa.
 
A noite passada no baile se refletiu claramente no horário do primeiro almoço do ano. Grande parte das pessoas conseguiam sentar-se para essa refeição só lá pelas 3 ou 4 horas da tarde. Era feriado mesmo e ninguém se importaria. O dia seguinte era domingo, portanto não haveria problema. Tinham mais um dia para descansar. Só no dia 03 começaria o batente, o pega pra capar. Termiandas as festas, tudo retomava o ritmo. Olhando bem, nada mudava, com exceção de que nos documentos redigidos e assinados agora trariam no lugar do ano 1978. O 1977 ficara para trás, fazia parte do passado agora.
 
Gaudêncio iria se encontrar em Santiago com o padrinho Joaquim. Iriam ver uma fazenda que dispunha de novilhas prenhes de raça leiteira para vender. Iriam conhecer os animais e talvez negociar um lote para reforçar o plantel da fazenda. O negócio havia sido combinado previamente durante a exposição próxima a Capital. Estando em vias de terminar as obras de engenharia e posterior instalação das máquinas, era hora de providenciar o aumento do número de animais. Dali a distância era bem menor, facilitando o transporte. Embarcou no domingo à noite em um ônibus que o deixaria ao amanhecer em Santiago. O padrinho também estaria chegando, porém de automóvel.
Rodoviária de Santiago.

 

Praça dos poetas em Santiago.

 

Luminária da praça.
Ao descer na rodoviária, olhou para todos os lados e não viu ninguém conhecido. O padrinho certamente saira há pouco ou talvez ainda estivesse em casa. Aproveitaria para conhecer alguma coisa da cidade. Primeiro precisava urgente de um banheiro para lavar o rosto e depois um bar ou lancheria para tomar café, comer um pão. O estômago estava reclamando. A precaução em não cometer gafes o levara a comer pouco durante vários dias. Por isso vivia na verdade com fome. Estava na hora de por o pandulho em dia. Encontrou uma lancheria ao lado da estação e ali sentou-se a uma mesa. Pediu um bule de café e outro de leite, acompanhados de bastone pão com nata e queijo. Quando terminou sentiu que tudo estava voltando ao normal.
 
Pagou a conta e levantou, se espreguiçando demoradamente. A mala fora deixada no guarda volumes. Conferiu se a plaquinha com a chave estava no bolso. Lentamente caminhou até uma praça próxima, onde alguns pombos passeavam ao sol, comendo algumas migalhas caidas no chão. Entre eles uma porção de pequenas aves como pardais, rolinhas, canarios da terra, tico-ticos e uma ou outra corruira disputavam as migalhas. Ao passar alguém o bando inteiro levantava voo, pousava pouco adiante e logo depois retornavam a faina de catar o alimento. Alguém o jogara ou deixara cair sem querer, pouco importava.
 
Havia na praça uma arborização bem cuidada, canteiros de flores, um chafariz bem no centro e na base desse um tanque onde alguns peixes ornamentais nadavam preguiçosamente. Ao vê-los ele lembrou das tilápias no arrozal. Como haviam crescido. Algumas deviam já ter uns sete ou oito centímetros. Dava impressão de que tinham recebido uma dose de fermento, de tanto que cresciam. Quando lhe haviam falado sobre isso tivera dificuldade em acreditar, mas agora estava vendo que era verdade. Provavelmente ao revê-los teriam aumentado mais um bom tanto de tamanho.
 
Em alguns minutos, cerca de 8 h da manhã, ouviu uma buzina conhecida e olhou na direção de onde vinha. Era Joaquim que lhe acenava de dentro do carro. Acabara de estacionar e estava desembarcando, vindo ao seu encontro. Cumprimentaram-se afetuosamente e desejaram Feliz Ano Novo. Joaquim sentou-se em um banco e espichou bem as pernas. Não estava habituado a dirigir por distâncias muito grandes. Viera em um tiro só da fazenda até ali. Por sorte a estrada estava em ótimas condições e gastara pouco mais de três horas para cobrir a distância.
 
As curiosidades de ambos os lados foram satisfeitas e então, Joaquim falou:
– Onde está sua mala? Vamos colocar no automóvel e depois procurar a fazenda.
– Disseram que é para o sul, cerca de quinze quilômetros. Mas podemos perguntar ali na lancheria onde tomei café.
– Vamos até lá. Depois botamos o pé na estrada. O compadre Pedro vai ficar maluco com tanta coisa extra para tomar conta. Desde que você assumiu como meu herdeiro, ele ficou mais folgado. Agora fica todo atrapalhado com tudo.
– O papai é do tempo em que se fazia tudo a mão, não tinha máquinas. Isso tudo deixa a cabeça dele meio balançada.
– Nunca me arrependi de confiar nele quando assume as rédeas da fazenda com a morte de meus pais e meu irmão. Nunca me faltou em mometo algum.
– Eu sei padrinho. Apenas ele é do tempo de antes e é difícile de se acostumar com tanta novidade.
 
Chegaram ao estabelecimento e Gaudêncio perguntou pela fazenda Jacutinga. Como haviam lhes dito. A propriedade era amplamente conhecida e qualquer um na cidade saberia explicar o caminho até lá. O caminho foi explicado e até a distância conferia no geral. Agradeceu e foi até o guarda volume buscar sua mala. Cinco minutos depois os dois estavam na estrada, indo para a fazenda ver os animais. Chegaram pouco depois das 9 h e os animais estavam todos nas pastagens. Em minutos quatro cavalos foram trazidos e os dois, além do dono acompanhado por um empregado montaram. Trotaram por cerca de meia hora e avistaram um lote de uns 60 animais. A prenhez não estava tão adiantada a ponto de ser muito visível. Nem poderia ser esse o caso. O transporte colocaria em risco animais em avançado estado de gestação.
Geada cobrindo os campos em Santiago.

 

Animais de raça em Santiago.

 

Touro Red Angus em Santiago.
Olharam atentamente, vendo as características que Maria Conceição recomendara observar. Ela trazia essas informações desde sua avó. E ela sabia o que dizia. Separaram 40 animais que julgaram ser os melhores em sua opinião. Teriam certeza somente depois de estarem com bezerro ao pé, dando leite. Nem mesmo a primeira lactação poderia ser um indicativo final sobre a qualidade do animal para a finalidade. Todo negócio envolve algum risco. Haviam seguido à risca o que a comadre Maria falara. Joaquim falou ao dono dos animais:
– Vamos levar esses quarenta aí, seu José Junqueira. Como fazemos para levar elas até a estação do trem?
– Eu mando meus peões levar amanhã bem cedo. Chico! Chama mais uns dois para lhe ajudar e leva elas para a mangueira. Não deixa mais misturar com o resto.
– O Leão me ajuda a levar elas para o pastinho pequeno lá perto da mangueira.
 
Leão era um cão pastor alemão, ensinado e de grande utilidade no manejo dos animais. Um assobio foi suficiente para trazer o cão para perto e em instantes os animais em questão estavam indicados a ele. Um comando de Chico e ele se começou a latir, rodeando as novilhas que, habituadas à presença do cão, se puseram a caminho, da sede da fazenda. Lá chegando Chico se adiantou e abriu a porteira, depois ficou de lado e elas entraram rapidamente. Sem problema, nem correria. Animais de raça leiteira habitualmente são mais dóceis.
 
Chegando próximo ao galpão os visitantes e o dono desmontaram entregando os cavalos a um rapazote encarregado desse serviço. Seriam desencilhados, limpos e depois soltos no pasto. Enquanto isso os outros sentaram-se à sombra da varanda, sorvendo chimarrão e tratando da negociação dos animais. Joaquim havia desembolsado um bom dinheiro no restante das mudanças e não dispunha do total para pagar à vista. Ter tinha, mas estava aplicado em depósitos à prazo fixo, fundos de ações. Retirar esse dinheiro antes do momento certo, significaria perder os juros ou das ações os dividendos que seriam distribuidos pelas empresas algum tempo após o balanço.
 
Encaminhara um pedido de empréstimo junto ao Banco do Brasil para cobrir o que faltava. Assim as parcelas seriam amortizadas com a própria produção dos animais se tudo corresse conforme o esperado. O prazo nesse caso era mais longo. Trazia o talonário de cheques e pediu ao afilhado para preencher a folha para pagar a entrada. O restante seria pago em questão de vinte a trinta dias quando o empréstimo fosse liberado. Faria uma ordem de pagamento, não sendo necessário voltar ali pra isso. Aguardariam o dia seguinte para providenciar o embarque dos animais e depois voltariam para casa. O senhor José os convidou a passarem a noite na fazenda o que aceitaram com prazer. Era bom conhecer outras propriedades. Saber as dificuldades próprias da região, os problemas enfrentados.
 
No dia seguinte esperaram na cidade os anmais chegarem à mangueira existente ao lado da estação ferroviária. Era comum animais serem embarcados para transporte nos dois sentidos. Eram levados para Santa Maria, para o frigorífico e outras localidades. Em questão de meia hora os trâmites do embarque estavam resolvidos. O comboio deveria encostar na estação em pouco mais de uma hora, se estivesse no horário. Seriam embarcados naquela tarde mesmo. Talvez no começo da noite estariam em São Borja, na estação de cargas. Dali uma caminhada de duas horas era suficiente para leva-las à fazenda.
 
O trem parou pontualmente e os vagões de carga foram engatados rapidamente. Os animais foram tangidos por uma rampa e em menos de meia hora estavam embarcados nos vagões que foram fechados. Havia a abertura adequada para a boa ventilação, sem causar problemas aos animais. Com Gaudêncio ao volante os dois voltaram para casa. Foram providenciar uma equipe de peões para trazer as novilhas depois da descarga. Mandaram três que ficariam esperando a chegada do trem. Ao amanhecer iniciariam a caminhada. Quanto mais cedo melhor, devido ao forte calor. Os animais caminhando nessas condições ficam submetidos a um nível se stress capaz de provocar o aborto em alguns casos.
 
Os tres empregados, sob o comando do mais idoso, partiram equipados para esperar na estação de cargas, levando consigo os apetrechos para fazerem comida, tomar um mate. O inseparável poncho para se proteger do frio da madrugada e de uma chuva occasional. O comboio chegou um pouco atrasado, encostando para descarregar já depois da meia noite.
 
Os animais foram deixados para descansar até as 5h e depois foram levados para a estrada. Chegariam pouco depois do sol nascer, mesmo num passo bem moderado. Assim não sofreriam com essa caminhada. A ordenha da manhã estava terminando quando apontou o lote de animais, com seus tres acompanhantes. Uma porção de gente acorreu para ver e quem estava em seu posto de trabalho levantou a cabeça para ver de relance. Para começar, foram colocadas num cercado menor próximo do mangueirão.Maria Conceição veio olhar e aprovou os animais escolhidos. Todos eles, uns mais outros menos, apresentavam as características próprias de vaca leiteira.

Gaúcho de São Borja! – Capítulo XIV

 

 

Peixes em piracema.

 

Peixes saltam durane a piracema.

 

Chegando à corredeira na piracema.

 

 

Sol poente no outro lado do Rio Uruguai em São Borja.

 

Novidades funcionando.
O restante de novembro, depois dezembro transcorreram com muita atividade sendo desenvolvida na fazenda Santa Maria. Na segunda feira logo após o dia 15, chegaram os dois reprodutores adquiridos na feira no começo do mês. O veterinário foi chamado para proceder a um exame geral prévio, antes que fossem colocados no pasto junto aos demais animais. Ficariam em observação por pelo menos uma semana para depois de certificar-se de seu estado sanitário total colocá-los em contato com outros animais ali existentes.
O vizinho senhor Francisco repassou o valor dos alevinos que lhe caberiam no lote adquirido em conjunto. Na quarta feira Joaquim se encarregou de efetuar a ordem de pagamento para o vendedor de Santa Maria. Gaudêncio solicitara o despacho do pedido no final de semana, de modo a poderem retirar na segunda feira os tanques da estação de carga da ferrovia. Iriam transport-los para a beira dos arrozais e os soltariam. Passariam o período de crescimento e floração, granagem e maturação quando seria retirada a água para permitir a colheita. No momento da retirada da água os peixes seriam capturados e entregues às peixarias. Teriam esse tempo todo para encontrar mercado para esse pescado no momento oportuno.
Quando os outros plantadores de arroz aderissem à produção de peixes, seria necessário um local para processar e armazenar em sistemas refrigerados a carne. Haveria um volume muito grande de oferta em um determinado momento. A ausência de algum estabelecimento apropriado faria com que houvesse superoferta, jogando os preços por terra e mesmo causando a aperda de boa parte da produção. Tudo isso era assunto de debate entre Gaudêncio e Joaquim. Atrairiam outros rizicultores para a atividade e formariam uma associação ou cooperative para tomar a seu cargo o processamento desse pescado todo. Estimavam a produção em muitas toneladas de pescado annual.
Havia a preocupação com a atividade dos trabalhadores na época entre um pico de produção e outro. O período deveria ser ocupado com atividades afins, dentro do ramo de alimentos que pudessem abosorver toda essa mão de obra. Do contrário ficariam a braços com um enorme problema. Deveriam pois pensar na solução desses problemas desde já. Depois de ter o fato diante dos olhos, na forma de imensa quantidade de pescado para dar destino, seria tarde para pensar em soluções. Combinaram conversar com os industriais do arrooz, veterinários, agrônomos e gerentes bancários.
Em determinado momento durante essas conversações Pedro Paulo estava presente e falou:
– Vocês não podem se unir à cooperative de pescadores do rio? Tem muito dia que eles não pegam nem resfriado. Uma reserve de peixe congelado para abastecer o mercado seria muito bom para eles.
– Compadre, você teve uma ideia brilhante. Nem pensamos nessa possibilidade. Vamos conversar com eles na primeira oportunidade.
– Vamos esperar os alevinos chegarem e convidamos eles para virem ver a soltura no arrozal. Assim eles saberão que em algum tempo teremos peixes para vender a eles. Terão carne de peixe em abundância e quando os demais plantadores de arroz aderirem a esse procedimento, poderão exportar para outras regiões.
– Viu só! Veio também tem ideia boa de vez em quando.
– E quem falou o contrário, pai? O senhor tem mais que dar sua opinião para ajudar.
– As veiz eu não falo pra não passar por intrometido.
– O que é isso, compadre? Intrometido você! Nem pensar numa coisa dessas.
– Hoje é sábado e devem estar embarcando os bichinhos lá em Santa Maria. Segunda feira vão estar na estação de carga e vamos ter que buscar eles.
– Será que a gente consegue encontrar o encarregado ou gerente da cooperativa dos pescadores hoje ou amanhã?
– Vamos ter que procurar e ver. Se encontrar, convidar ele e mais alguém para virem ver a soltura dos filhotes.
– Agora é quase noite. Vamos ter que fazer isso amanhã cedo sem falta. Assim eles vão ter tempo de se preparar.
– Dependendo do caso podemos buscare les e trazer aqui. Depois a gente leva para casa outra vez.
– Isso é o de menos, Gaudêncio. Pode ser que eles tenham carro próprio.
– Caso não tenham, a gente resolve essa parte. É de nosso interesse.
– Seus faladores! Venham sentar para almoçare, – falou Maria Conceição, metendo o dedo na conversa.
– Chegou a hora melhor do dia. Vamos comer a comidinha da comadre Maria Conceição.
– Tem nada de especial hoje, compadre.
– Vindo de suas mãos comadre, até feijão e arroz vira banquete.
– Compadre está elogioso hoje. Que será que ele pretende?
– Pretendo nada não. Apenas sou justo com uma cozinheira de mão cheia como você comadre.
– A comadre vai ficar com ciumes lá do céu.
– Fica não. Ela lhe tinha tanta afeição quanto eu.
– Venham sentar e chega de trololó.
Os três levantaram e foram se lavar antes de irem para a mesa. Sentaram-se e a dona da casa colocou sobre a mesa as travessas fumegantes de alimentos recém cozidos. Era nada mais que um assado de contrafilé, um prato de aipim branco, bem cozido, arroz de pilão bem soltinho, sem faltar o indefectível feijão. Para acompanhar tudo um bom prato de salada, tendo repolho, pepinos azedos e tomates. Na geladeira havia algumas garrafas de cerveja para acompanhar o excelente repasto.
Terminado o almoço foram até a parte atrás da casa, onde sob uma árvore frondosa de Santa Bárbara havia postes para colocação de redes. Essas já estavam postas em seus lugares e ali se deitaram para fazer a digestão. Durante alguns minutos rolou conversa sobre a produção de peixes. Logo estavam os três dormindo ressonando levemente. Maria conceição, depois de lavar e guardar as louças, veio ocupar também sua rede e riu baixinho ao ver os três já dormindo a sono solto. Pedro Paulo entreabriu os olhos e viu quem era que estava ali. Logo prosseguiu em seu cochilo.
Algum tempo depois acordaram e em dado momento Gaudêncio propôs:
– Não seria bom procurar hoje os caras da cooperative? Vai que amanhã eles vao para algum lugar, visitar um amigo ou parente e a gente não acha eles.
– Estava tão bão esse soninho aqui na sombra, – falou Joaquim.
– Padrinho pode ficar aqui que eu vou.
– Vamos todos juntos no meu carro. Assim comadre sai um pouco.
– Só se eu der um recado para o Antônio. Se ele cuidar da ordenha eu vou junto sim.
– Acho que estamos de volta até lá. Mas pode avisar o Antônio. Fica perto daqui mesmo.
– Esperem aqui que eu vou lá falar com ele.
Maria saiu dali e foi direto à casa do auxiliar que estava também levantando da sesta naquele momento. Imediatamente se prontificou a cuidar do serviço. Maria poderia ir sossegada que ele tomaria conta de tudo. Voltou para casa e foi trocar de roupa. Estava com roupas de trabalhar dentro de casa. Em poucos minutos estava pronta para partir.
– Podemos ir seus palermas.
– Opa, pisaram no meu calo, – falou Joaquim.
– No meu também, – disse Pedro Paulo.
– Engraçado! Não senti nada. Acho que no meu ela não pisou.
– Vai pegar o carro. Pelo menos dirigir você pode. E para de contar vantagem.
Todos riram com gosto e esperaram Gaudêncio trazer o automóvel. Ele não se fez de rogado e dois minutos depois estacionava o veículo diante dos três. Saltou e veio abrir as portas para que embarcassem. Fechou uma a uma e sentou-se ao volante. Dali a pouco estavam viajando em boa velocidade para a sede do município. Sem pestanejar ele levou o veículo diretamente ao porto. Se existia um lugar onde deveriam saber do paradeiro dos homens ligados à cooperative de pescadores, era ali. Depois iriam até a casa onde moravam. Isso provavelmente seria perto dali.
 
Pintado pescado em São Borja.
Peises nadando na água cristalina.
Um belo exemplar da espécie Piapara.
 
Não foi difícil saber o endereço e foram até a casa indicada. Ficava na primeira rua à esquerda, duas quadras a frente, uma casa azul claro. Só havia uma casa com essa cor nas proximidades e não poderia ser outra. Parou o carro e bateu palmas. Em alguns segundos um homem moreno, levemente barbado, falou da soleira da porta:
– Se achegue. Aqui não tem taramela nas porta.
– O senhor é da cooperative de pescadores?
– Sou eu sim. Tem também o Tonhão e o Chico. Eles mora aqui perto.
– Nós somos da fazenda Santa Maria. O senhor Joaquim, proprietário, meu pai, Pedro Paulo, capataz geral e minha mãe, Maria Conceição. Eu, por bondade de padrinho, sou o herdeiro da fazenda.
– A m’o de quê devo sua visita?
– Nós viemos propor um provável negócio para a cooperative.
– Negócio para a cooperative! Qui é qui nóis pescador pode faze pra fazendeiro? Vão comprar peixe para os peão?
– Ao contrário. Nós vamos aproveitar o arrozal irrigado para criar peixe. A tal de Tilápia. Vem do estrangeiro, cresce rápido e tem uma carne apreciada.
– Tendi! Qui nóis vai faze com esses peixe?
– Quando for a hora de colher o arroz os peixes vão estar no tamanho ideal para abate. Vai ser uma grande quantidade e será preciso processar tudo, congelar para vender no comércio aos poucos.
– Mais nóis num temo onde armazená uma grande quantidade. De onde vamo arranjá dinheiro pra instalá esses congelador?
– Isso a gente resolve em conjunto depois. Nós vamos receber, junto com o vizinho os alevinos para soltar no arroz, na segunda feira. Eles vem de Santa Maria de Trem. Queríamos que o senhorr e mais alguém estivesse junto para ver e dizer aos companheiros que os peixes são realidade. Não é conversa fiada.
– I com’é qui nóis vamos chegá na sua fazenda?
– A gente providencia transporte. Isso pode deixar por nossa conta.
– Rosinha! Rosinha! – voltou-se para o interior chamando por alguém com esse nome.
– Qui foi pai?
– Vai até a casa de Tonhão e Chico. Pede pra eles vim cá um bocadinho.
Depois de dar umas boas pitadas em um palheiro que estava queimado a meio, o dono da casa convidou:
– Mas cheguem e tomem assento.
Subiram na varanda e sentaram-se em algumas cadeiras um tanto velhas, parecendo não suportarem os pesos dos visitants. Elas resistiram valentemente. O gerente também se sentou e logo Rosinha, a filha, voltou avisando:
– Tonhão já vem. Chico num tá em casa, pai.
– Está bem. Vai ajudar sua mãe no serviço.
A menina sumiu atrás da casa, ouvindo-se um murmúrio vindo da região posterior da construção. Alguns minutos se passaram e o denominado Tonhão chegou, cumprimentando:
– Boas tardes!
– Sente-se amigo. Temos visita importante hoje, home.
– Tô vendo. I isso quer dizer o que?
– Eles qué qui nóis vai na fazenda do seu…Joaquim na seguda pra m’o de ver eles sorta uns tal de, como é mesmo o nome que o moço falo?
– Alevinos, são os filhotes de peixes.
– Sim, eles compraro filhotes de peixe e vão sorta no arrozal irrigado. Quado for hora de colher os peixe vão tá grandinho e precise ter onde carnea, congelá pra m’o de conservá a carne.
– Arre! Essa agora! Fazendeiro vai criar peixe também! Essa é boa, compadre.
– Nóis tem algo a perdê, Tonhão?
– Acho qui não. Só do dimirado dessa novidade.
– Não demora e todos os arrozais vão estar cheios de peixes. Quando isso acontecer vai haver tanta Tilápia para congelar que vai precisar de um bom frigorífico.
– Olalá! Como é qui nóis entra nessa história?
– Aí está a questão. Nós queremos aproveitar o espaço ocioso no arrozal irrigado e também proteger as plantas de algumas pragas de insetos. Vocês vão ser beneficiados podendo processar e armazenar o pesccado. Depois comercializar, abastecendo a região e os municípios vizinhos.
– Mais como nóis vamo ter dinheiro para esses congelado que vai precisarr? Isso não vai se pouca coisa.
– Se interessar, nós nos encarregamos de ajudar a cooperative a conseguir o financiamento para fazer os investimentos. Também vamos assumir o compromisso de conseguir mais fazendeiros para produzir peixes também. Assim teremos uma produção muito grande. No intervalo vamos ver o que se pode fazer para manter a mão de obra em atividade. Vai precisar de muitas mãos para esse trabalho.
– Quando memo que temo que ir na fazenda?
– Segunda feira pela manhã eu passo aqui de carro e lelvo vocês, depois trago de volta, – falou Joaquim.
– Podemo ir, Tião. Mais sem compromisso por enquanto.
– Tá certo, Tonhão.
– Vocês vão ter o tempo para apresentar a proposta aos demais membros da cooperative e nos dar a resposta. Vamos providenciar no Banco do Brasil um financiamento para o que for preciso.
– Vois mecês tomam um chimarrão?
– Obrigado, seu Tião. Mas vamos andando. Minha mãe é a encarregada de coordenar a ordenha das vacas na fazenda e não quer chegar atrasada.
Despediram-se dos dois pescadores, embarcaram no automóvel e iniciaram o retorno. Como Maria Conceição há muito não vinha para a cidade, decidiram dar um passeio adicional pela cidade, mostrando as novidades surgidas nos últimos tempos. Afinal a cidade estava em franco crescimento, ocorrendo instalação de novas indústrias de arroz e outros estabelecimentos comerciais. Era o progresso chegando dia a dia.
Pararam em uma sorveteria para tomar um sorvete. Amenizaria o calor forte que fazia nos dias finais de novembro. Ao primeiro sorvete seguiu-se um segundo e depois voltaram calmamente para a fazenda, tendo dado antes uma passada pela casa de Joaquim na cidade. Avisou a empregada que viria dormir ali na noite de domingo, para não tomá-la de surpresa. A distância foi percorrida sem problemas em tempo de alcançar a fazenda Santa Maria nos momentos finais da ordenha da noite. Estava tudo em ordem e foram para casa, deixando as providências finais com o leite a cargo dos empregados.
Na segunda feira cedo, Joaquim estava na casa de Tião para levar os dois representantes da cooperative a fazenda. Para sua surpresa o Chico, ausente na tarde de sábado, também viera e iria junto. Era visivelmente o mais entusiasmado. Percebera ali a possibilidade de um crescimento acentuado na capacidade da cooperative. Os assossiados poderiam ter uma participação pessoal no trabalho de processamento do pescado na época adequada. Estava convencido que, os demais companheiros, lhes fosse apresentada a ideia de maneira correta ficariam igualmente animados. A quantidade de pescado disponível no rio não aumentava e cada dia havia mais pessoas pescando. Essa tendência não iria retroceder com certeza. Por isso uma luz no final do túnel deveria ser recebida com os braços abertos.
Como estavam prontos, embarcaram e iniciaram a viagem. Iriam até a estação de cargas da ferrovia para assistir ao transbordo dos tanques para os caminões que os transportariam para as fazendas. Um deixaria sua carga na Santa Maria e o outro na fazenda de seu Francisco, a Santana. Os visitantes não poderiam estar presentes nos dois lugares mas bastaria verem a soltura dos muitos projetos de peixer que eram visíveis dentro dos tanques. Era impossível fazer uma contagem nem ao menos estimativa da quantidade existente em cada tanque. Os tres pescadores quiseram saber a quantidade de filhotes existente em cada tanque. Não havia como contar e precisariam acreditar nas palavras do vendedor. Era provável que essa contagem se fazia de uma maneira aproximada.
O certo é que havia uma quantidade inimaginavel de pequenos pontos que nadavam no interior da água dos tanques. Estavam ali desde a tarde de sábado e poderiam permanecer sem maiores problemas até a manhã de terça feira. Portanto estavam com folga na margem de tempo disponível. Depois da colocação dos tanques nos caminhões esses iniciaram uma viagem vagarosa para seus destinos. Demoraram em torno de duas horas para chegar e eram 11 horas na chegada. Foi considerado conveniente manter os veículos à sombra até as primeiras horas da tarde. A totalidade dos trabalhadores dos arrozais estava aguardando a hora de participarem da soltura. Era uma novidade e não a perderiam de modo algum.
O almoço foi servido mais cedo nesse dia e depois foram para os locais em que fariam a soltura. Sendo a primeira vez tudo era aprendizado. Demoraram mais tempo devido à falta de prática de parte de todos. Até mesmo os pescadores participaram entsiasmados do trabalho. Os pequeninos bichinhos pareciam ficar admirados com a súbita disponibilidade de espaço e principalmente alimento em quantidades nunca vistas. Sem demora começavam a se alimentar de pequenas partículas, provavelmente algas e outros seres minúsculos que faziam parte de sua dieta. No momento em que o sol chegou perto do horizonte todos haviam sido soltos e os tanques vazios foram deixados depois nas plataformas da estação. Seriam embarcados de volta para Santa Maria e serviriam em outros momentos para novo envio de alevinos. Estava iniciada mais uma novidade na fazenda Santa Maria.

Em uma semana, mais tardar duas, a construção da estrutura para instalar as máquinas ordenhadeiras. Era tudo novidade que ia se espalhando na região, atraindo frequentemente pessoas curiosas, fazendeiros vizinhos que vinham saber das novidades implantadas por Joaquim e seu herdeiro.

Posta de peixe assada.

 

Dourados assados na brasa em São Borja.

 

Gaúcho de São Borja! – Capítulo XIII

Assando costelas em fogo de chão, modo típico de fazer churrasco do gaúcho.

 

Outro posicionamento dos espetos para o fogo de chão.

 

Começam as mudanças.
Quando chegaram em São Borja, Joaquim e seu afilhado, vinham entisiasmados com as negociações levadas a efeito na feira. Traziam na bagagem as especificações técnicas necessárias da parte de engenharia, visando a instalação das máquinas adquiridas. Teriam pela frente um período de intensa atividade. Uma empresa do ramo de construço precisaria ser contratada para executar as obras. Não era possível entregar essa responsabilidade a alguém sem a habilidade necessária. Pequenos detalhes poriam a perder um investimento alto, levando ao fracasso ou pelo menos, mau funcionamento. Chegaram na tarde de sexta-feira. Assim qualquer providência precisaria esperar pela segunda.
Passaram o sábado e domingo tomando conhecimento dos acontecimentos na fazenda. Evidentemente repassaram as vivências de ambos na capital e na feira. Todas as novidades foram contadas. A filmadora de Gaudêncio registrara o que de importante haviam vivido. Iriam fazer uma tarde de domingo replete de filmes para todos os interessados verem, depois de passar pelo laboratório para revelação e fazer alguns ajustes de edição. Teriam material para mais de duas horas.
Maria Conceição quis saber sobre as ordenhadeiras e lhe foram mostrados folhetos explicativos, detalhes de funcionamento e ela queria saber como faria tudo isso funcionar. Recebeu palavras tranquilizadoras quanto a isso. Haveria pessoas treinadas para lhe repassar todas as informações com todos os detalhes. A empresa vendedora não se limitava a isntalar o equipamento e depois deixar os compradors se virarem por sua conta e risco. Mesmo assim a todo momento ela tinha mais uma pergunta, uma nova dúvida. Sentia como se lhe estivessem tirando o chão sob os pés. Era uma mudança grande e ela temia não estar a altura da nova tarefa que teria pela frente. Depois de muita conversa finalmente sua angústia amainou e ela pode continuar a vida sem problemas.
O arroz semeado semanas antes já estava com alguns centímetros de altura, cobrindo de um verde uniforme os enormes campos das áreas mais baixas da fazenda Santa Maria. Eram elas as adequadas para a irrigação. Em mais alguns dias seria iniciada a irrigação. O solo seria inteiramente coberto de água, fazendo as plantas crescerem. Quando estavam falando desse assunto, Gaudêncio teve um momento de hesitação, parecendo estar com o olhar fixo em alguma coisa distante. Os demais ficaram em expectativa para ver o que estaria acontecendo. Pouco depois teve como que um sobressalto e se deu conta de que estivera como que ausente em espírito.
Olhou ao redor e perguntou:
– O que foi gente?
– Nós é que queremos saber. Você ficou olhando para um lugar só, parecendo paralisado, pensamentos longe. Está se sentindo bem, filho?
– Estou sim. Não aconteceu nada. É que tive uma espécie de visão. Imaginei se não seria possível encher esses arrozais de pequenos peixes logo que a água cobrir o chão. Eles iriam crescem como cogumelo e estariam bem grandinhos na hora que o arroz estivesse pronto para colher.
– Essa agora! Mais uma para botar fogo nas ideias! E onde iríamos arrumar tanto peixe?
– Esse é o problema, mas não é impossível. Li numa revista num dia desses que já tem lugar que isso é usado. O peixe é uma tal de Tilápia. Não é muito grande, mas come tudo que é bichinho, inclusive os que atacam as plantas, crescem rápido e é bem saboroso.
– E onde se poderia conseguir sabe como isso funciona?
– Preciso encontrar a revista para ver o lugar. Esqueci de anotar.
– Os agrônomos ou veterinários talvez saibam algo a respeito. – sugeriu Pedro Paulo.
– Espera aí, pai. Acho que sei onde procurar.
– E dadonde, filho? – disse a mãe.
– De verdade, mãe. Foi na feira que eu vi e tem no meio de todos aqueles folhetos que li sobre a história dos peixes. Depois vou olhar e procurar como se pode faze isso.
– Não acha mudança demais de uma vez, filho?
– Mãe, se puder melhorar a produção de arroz e ainda tirar um lucro com os peixes, não vai ser ótimo?
– Estou vendo que meu tempo passou mesmo. Estou é ficando velho de verdade. Esse menino cada dia traz uma novidade e pior é que não pode dizer nada contra, pois é verdade. Havia ouvido uma conversa sobre isso lá no clube, mas não dei importância.
– Vamos nos informar direito e se for bom, por quê não aproveitar?
– Verdade mesmo. Dinheiro nunca é demais, inda mais se pode ser ganho sem precisar investir mais quase nada. É apenas o custo dos filhotes de peixe.
– Isso não deve ser muita coisa.
– Temos que ver isso, padrinho. Parece que é comprador por milhar e não custa muita coisa mesmo.
– Vamos para cama gente. É sábado, mas amanhã vamos ter muito movimento por aqui.
– Tem razão, compadre. Vai ter missa cedo na capela, depois o churrasco para benefício da escola. Isso dá bastante que fazer.
Deixaram Pedro e Maria, voltando para a casa grande. Antes de dormir, Gaudêncio procurou em um maço de folhetos trazidos da exposição até encontrar um específico. Lhe havia sido entregue no stand da Emater. Falava sobre a novidade que alguns rizicultores estavam implantando. A criação de peixes em consórcio com o arroz irrigado. Ali estavam especificados os dados disponíveis até o momento. Com um custo adicional insignificante, podiam ser produzidas uma porção de toneladas de peixes de ótima qualidade, trazendo como benefício ainda a proteção das plantas contra uma porção de insetos aquáticos nocivos ao arroz.
Leu tudo atenciosamente, releu e assinalou as partes mais importantes. Teria argumentos para convencer o padrinho e também aos pais da validade da ideia. O unico inconveniente era não existir ali perto um produtor de alevinos, os filhotes do peixe. Precisariam ser trazidos da região de Santa Maria e talvez isso tornasse a questão mais complexa. Eles sobreviveriam ao transporte? Valia a pena se informar. Não custaria mais do que um pouco de tempo. Se não fosse possível, ficaria como projeto para o futuro.
No domingo, um vizinho veio participar da celebração da missa e durante o churrasco que seguiu, estavam conversando, quando Gaudêncio tocou no assunto. O vizinho disse que também estava interessado e poderiam trazer os peixinhos em conjunto. Assim aumentaria a quantidade a ser trazida e certamente interessaria mais ao vendedor, caso tivesse disponibilidade para fornece-los. No folhetos havia até o telefone do produtor de alevinos.
Ao chegarem em casa Gaudêncio decidiu ligar para o número e, mesmo sendo domingo, conseguiu falar com o dono do criadouro. Ficou sabendo que existia uma quantidade para atender quase a totalidade da área conjunta das duas propriedades. Se usassem uma densidade menor de animais por área, era provável um pequeno ganho no tamanho dos peixes ao final. Combinou ligar novamente e confirmer a eventual aquisição. O bom era que poderiam ser despachados port rem em tanques sem problema e da ferroviária serem transportados de caminhonete ou caminhão. A questão que o preocupara mais no final não era nem um pouco complicada.
Antes de deitar, bateu à porta do quarto de Joaquim e este falou lá de dentro:
– Gaudêncio, é você?
– Sim, padrinho. Sou eu. Possos entrar um instante?
– Entra. A porta está destrancada.
Entrou e encontrou o padrinho confortavelmente recostado nos travesseiros, com os olhos um pouco sonolentos, mas desperto o suficiente para ouvir o que o afilhado tinha a dizer. Deveria ser minimamente importante para lhe vir falar a essa hora da noite.
– Fala, meu caro. O que é que te aflige?
– Ao contrário. Nada me aflige. Estou é contente. Acabo de falar com o dono do criadouro de alevinos em Santa Maria. Ele tem os filhotes sobrando e podem ser despachados port rem, em tanques especiais. Chegam sem nenhum problema.
– E o preço?
– O frete fica quase mais caro que os peixinhos. Mesmo assim chegam bem barato. Dá para tirar no final da temporada um valor em peixes mais ou menos igual a vinte vezes o custo dos peixinhos.
– E você encomendou?
– Combinei ligar para confirmar se nós resolvermos comprar. Tenho que falar também com o vizinho e ver se ele quer a parte dele. Para nós é um pouco demais. Se comprar tudo que ele tem, faz um desconto especial.
– Com certeza é a sobra e se não vender, não tem o que fazer com eles. Mesmo assim é ótimo isso.
– Amanhã ligo para o vizinho e pergunto. Melhor, dou um pulo lá, na hora que formos a cidade para tratar da contratação da construtora. Não vamos perder tempo e mandar trazer esses bichinhos. O investimento é insignificante.
– Você não sossega. Agora vai dormir, senão amanhã vai estar com cara de sono o dia inteiro.
– Já estou indo. Boa noite e desculpe vir lhe incomodar.
– Incômodo algum, meu jovem.
Saiu e foi até a escrivaninha onde o livro estava um pouco além da metade. Pegou e leu avidamente um bom número de páginas até os olhos pesarem e dar cabeçadas, quase dormindo sentado. Fechou o livro e deitou. Minutos depois estava dormindo tranquilamente.
A construtora que aceitou executar as obras na fazenda, iria preparar um ante-projeto, depois de fazer um levantamento no local. Era necessário conhecer as características do solo, o nível, localização de fontes de água para abastecer a bomba de lavagem dos pisos e demais partes da isntalação. Joaquim ficou na cidade e Gaudêncio retornou, passando pela fazenda vizinha para tratar do assunto dos peixes. O proprietário acabara de voltar de uma volta pela propriedade e o recebeu calorosamente:
– Seja bem vindo, Gaudêncio.
– Boa tarde, seu Francisco.
– Que bons ventos o trazem?
– Vim ver se o senhor quer mesmo os peixes. Falei com o homem e ele tem exatamente a quantidade que precisamos para nossas propriedades. O despacho é feito por trem em tanques especiais. Se nós arrematarmos o resto ele nos faz um desconto de 30% para não ficar com sobra pequena.
– E isso trocado em dinheiro, quanto fica?
– Uma ninharia, seu Francisco.
Falou o valor e o vizinho concordou que era barato mesmo. Se o resultado fosse bom, seria um excelente reforço de caixa ao final da cultura. Daria ao menos para pagar o custo da colheita, se não desse bem mais que isso.
– Vou querer sim. Pode mandar vir. Só temo que combinar para pegar tudo e trazer lá da estação para cá.
– Podemos mandar descarregar no posto aqui perto. Menor distância até as propriedades.
– Boa lembrança. Fica bem pertinho.
– Vou confirmar e pedir para enviar daqui a uma semana. Até lá dá tempo de colocarmos água nas plantações.
– O meu essa semana eu coloco água. Tá no ponto.
– O nosso em parte também. O último ainda falta crescere um pouco mais.
– Não tem problema. Uma semana para lá ou para cá, não será problema.
– Ficamos combinados, seu Francisco. Eu aviso na hora de mandar o dinheiro e receber os bichinhos. Vamos ver o que da isso. Diz que tem gente ganhando bastante dinheiro com isso. Tem tudo para dar lucro.
– Qualquer coisa que der lucro já ajuda. Ao menos cobre as despesas com o plantio do arroz. O resto fica no caixa.
– Vou indo, pois ainda tenho o que fazer antes da noite. Até outro dia.
– Inté. Vá com Deus.
Embarcou e rumou para a Santa Maria. Quando chegou o grupo da ordenha estava em plena atividade. Os peões do gado guardavam os cavalos, davam o trato para a noite, verificavam água e depois iam para suas casas, ou para o alojamento dos solteiros. Encontrou o pai e esse perguntou:
– E compadre? Ficou na cidade?
– Ficou. Fazia dias que andava aqui e sentiu vontade de ficar um pouco por lá.
– Acertaram os ponteiro com os home da construção?
– Amanhã, ou depois eles vem ver o lugar, medir, fazer as contas e tudo mais. Daí vem o ante-projeto, projeto e construção. Vai um bom tempo até ficar pronto. Não é coisa de um dia para o outro.
– Isso era de imaginar.
– Também vai ficar uma jóia. Espere para ver pai.
– Sua mãe ainda está com a pulga atrás da orelha. Tem um medo danado de que vão demitir gente que trabalha com ela.
– Só vai sossegar quando tudo ficar pronto e o pessoal colocado em outro lugar. O padrinho vai conversar com o contador para ver se não tem algum dos mais antigos em tempo de aposentar.
– Nem venha me falar nessa tal de aposentadoria. Isso é coisa para velho, mas daqueles de cuspir a dentadura.
– O senhor ainda é um groto pai. Ninguém está pensando em lhe aposentar.
– Pode até me aposentar, mas eu continuo trabalhando.
– Quando chegar o seu tempo, vai ficar contente de ficar um pouco de folga. Quem sabe já vou ter providenciado uns dois ou três netos para ocupar sua vida.
– Isso vai ser uma alegria para eu e a veia.
– Se a mãe lhe escuta, chamando ela de veia, vail he dar umas vassouradas.
– Dá nada. Só meaça, mas dá mesmo que é bom, nada.
– Não abuse. Vai que ela se enfeza.
– Quem é que vai se enfezá?
– Brincadeira, mãe. Eu estava provocando o pai aí e saiu essa frase aí. Não tem nada.
– Eu conheço voces dois. Se não conhecesse, comprava pra mim.
Riram a valer e foram até a casa onde havia água quente e uma cuia de chimarrão logo estava em uso. Os dois homens combinara iniciar a irrigação do arrozal plantado primeiro no dia seguinte. Assim iriam ter tudo pronto para quando viessem os peixinhos.
– Você encomendou?
– Vou só confirmar hoje à noite. Dentro de umas duas semanas estão aqui. Até lá temos que por água no arroz todo. Vamos encher isso tudo de peixe.
– Acho que vou ficar velho e caduco sem ter visto de tudo nesse mundão de Deus.
– O negócio é aproveitar tudo que pode ser feito. Se é possível produzir arroz e peixe ao mesmo tempo, vamos fazer isso.
Na terça feira, por volta das nove horas, chegou uma caminhonete da construtora, trazendo o engenheiro e três ajudantes para fazer o levanamento do terreno onde seria executada a obra de instalação do equipamento de ordenha. Fizeram sondagem de solo para poderem calcular os alicerces, verificaram o desnível do terreno. Era possível trazer por declive natural a água até um reservatório ao lado das instalações. Evitaria o gasto de energia para bombeamento do líquido. Isso ficaria restrito a dar pressão suficiente para fazer funcionar o esguicho de limpesa das instalações após o uso. A higiene era fundamental.
Antes do entardecer tinham feito todas as medições necessárias e retornaram à cidade. Demorariam cerca de uma semana, talvez dez dias para elaborar um anteprojeto, antes do definitivo. Gaudêncio ficou contente em saber que não precisariam instalar uma bomba para trazer a água. A gravidade a traria até um ponto de onde seria distribuida para as diversas finalidades. Serviria inclusive para manter os bebedouros nos estábulos e mangueiras sempre abastecidos de água limpa e fresca. Os animais eventualmente confinados ali não seriam submetidos à sede por ficarem ali algumas horas. É sabido que a fome é menos difícile de suportar que a sede.
Os alevinos haviam sido encomendados e teriam que fazer o pagamento na semana seguinte. Bastava ir até a agência do Banco do Brasil e fazer uma ordem de pagamento via telefone. Em no máximo meia hora o dinheiro estaria na conta do favorecido. Depois, uma simples ligação telefônica, confirmaria o envio do pedido. Em no máximo trinta e seis horas depois do despacho eles estariam chegando ao destino.
Seu Francisco faria o repasse de sua parte na segunda feira, ou mais tardar terça. O domingo seguinte teria outro feriado antes. O dia 15 de novembro, comemoração da proclamação da República. Gaudêncio combinou com os peões e trabalhadores do setor rizícola projetar naquele sábado a tarde os filmes que fizera da feira, bem como os anteriores por ocasião dos jogos do Internacional e Grêmio que ainda não tivera tempo de mostrar. Encomendara algumas caixas de cerveja e mandara por para gelar, além de uma carne para ser assada e degustada durante o evento. Todos trabalhavam dedicadamente e mereciam receber um agrado vez ou outra.
Joaquim chegou na véspera do feriado trazendo algumas informações interessantes. Conversara com o contador que fizera um levantamento superficial. Pelas contas havia entre os trabalhadores da fazenda meia dúzia que atingiria a idade e o tempo de contribuição para se aposentarem no ano seguinte. Se quisessem continuar trabalhando, não haveria problema. Em caso de doença ou qualquer outra dificuldade, poderiam se aposentar e viver sem problemas dali por diante. Entre eles não havia quem quisesse se aposentar, iriam trabalhar enquanto o corpo permitisse. Só mesmo doentes, optariam por algo assim.
 Durante a projeção dos filmes, a parte mais divertida foi quando passavam as cenas dos jogos. No primeiro, os torcedores colorados, entre eles Gaudêncio, vibravam com cada lance mais agudo do time do coração. Já os gremistas torciam pelos atacantes do Flamengo e roiam as unhas a cada lance perdido pelos atacantes, desarmados pelos zagueiros. Quando ocorreu a inversão e começou a partida entre Grêmio e Nacional de Montevidéu. Agora o que se via eram os de camisas azul listradas de preto e branco que ficavam crispados com os lances de ataque do adversário, e gritavam em apoio aos lances do time de azul. Depois foi apresentada a filmagem feita do movimento na feira. Não havia uma imagens de todos os eventos, mas os stands mais importantes estavam todos ali. O show de adestramento de cavalos, montaria de touros, alguns desfiles de animais de raça, inclusive os reprodutores que estavam para chegar na fazenda.
Era possível ouvir exclamações de admiração vindas de todos os lados diante da visão dos novos equipamentos, cada ano mais modernoss, maiores e eficientes. Os fabricantes se esmeravam em acompanhar todos os passos tecnológicos que surgiam a cada ano. Quem não fizesse esse acompanhamento, ficava relegado a segundo plano na hora de vender seus produtos. A concorrência não perdoava.
Depois dos filmes a carne estava assada, foi servida com acompanhamento de pão e cerveja. Todos comeram com gosto e beberam moderadamente. Isso mesmo por que o patrão não exagerava nesse quesito. Não havia interessi algum em eventuais desentendimentos sob efeito do álcool, algo sempre possível de acontecer. Os efeitos do álcool bloqueavam o auto-controle e uma palavra dita na hora errada, podia causar um quebra páu. Além dos problemas imediatos, restariam desavenças posteriors a ser contornadas. Era preferível evitar essas situações desagradáveis.
O domingo seria de jogos pelo Campeonato regional de futebol e alguns dos mais jovens faziam parte de um time integrante da liga municipal. Habitualmente um bom número de peões e trabalhadores aproveitava a folga domingueira para assistir a esses jogos. Quando acontecia de a partida ser realizada em local próximo principalmente. Era o caso dessa vez. O mais inflamado torcedor do time estava fazendo a lista dos interessados em transporte para o local do jogo. Iriam em um ônibus habitualmente usado no transporte de alunos para a cidade no período noturno. O dono, visando ganhar algum dinheiro extra, fazia esse transporte por preço módico. Unia o útil ao agradável sendo ele mesmo torcedor.

 

O churrasco terminou quando já havia passado da hora do jantar. Desse modo todos chegaram em suas casas sem vontade de comer mais nada, no máximo tomar uma xícara de café antes de ir dormir. Queriam descansar dos trabalhos da semana e estar descansados para torcer no domingo. 

Vai uma costela bem assada aí?
Costelas sendo assadas.

Gaúcho de São Borja! – Capítulo XII

Vista aérea da Expointer (Esteio, RS)
Bandeiras nacional e estadual na Expointer.

 

Outra tomada da mesma vista.

 

Parque de exposições e arredores.

 

   Preparando as mudanças.
O dia seguinte foi repleto de atividades na fazenda. O gado requeria seu manejo constante. Havia vacas parindo precisando de atendimento, lotes de novilhos a serem separados, levados para pastos menos batidos, um sem fim de cuidados. O plantio de arroz precisava ser concluido com o adubo e a semente descarregados naquela manhã. O dia terminou deixando muito por fazer nos próximos. Depois da ordenha, tendo Gaudêncio novamente presente, prestando atenção em tudo. Isso levou Maria Conceição a pensar sobre o assunto.
O que estaria levando o filho a tomar aquela atitude? Dava a impressão de ter algum plano em mente. Estava amadurecendo alguma coisa. Aprendera a respeitar Pedro Paulo quando se encontrava em situação semelhante. No momento certo falaria e lhe daria ciência de seus pensamentos. No momento do chimarrão antes do jantar, conversavam sobre os trabalhoss do dia, quando em dado momento Gaudêncio falou:
– O padrinho gostou da ideia de modernizar o nosso sistema de ordenha das vacas. Peguei informações hoje com o veterinário e fiquei sabendo coisas bem interessantes.
– Que história é essa filho? – quis saber Pedro Paulo.
– Eu tinha falado com a mãe sobre o assunto. Li outro dia numa revista lá na cooperative sobre ordenhadeira mecânica e fiquei curioso. Hoje dei um toque no padrinho e ficou interessado.
– E isso funciona? Ouvi dizer que dá muito problema essas tal de máquina de sugar leite dos tetos das vacas.
– Tem as técnicas a seguir, os cuidados de higiene que precisam ser seguidos e tudo sai direito. O padrinho vem no fim da semana e vamos conversar melhor sobre isso.
– Você me prometeu que não vai ter gente demitida. Cada um dos meus ajudantes é quase como um filho para mim. Não vai me mandar um mundareu de gente embora que aí eu vou junto.
– Eu prometi e está prometido, mãe. Pode ficar tranquila.
– Mas vai ter que construer instalação nova para isso, ou não? – perguntou Pedro.
– Tem sim, pai. Mas isso um engenheiro projeta. Até mesmo a firma que vende as máquinas fornece o básico.
– E compensa gastar um dinheirão nisso? Não é pouca vaca para tanto investimento?
– Eu estou matutando uma maneira de aumentar nosso plantel de vacas. Se o padrinho concordar, nós transformamos aquela área de invernada que fica meia abandonada lá do outro lado do rio, fazemos um lugar fácil de atravessar e podemos colocar mais umas 40/50 vacas para dar leite.
– Não é muito isso, filho? Nós vamo dar conta de tanta teta?
– Nós não mãe, mas as máquinas sim.
– Bem filho. Estou aqui para trabalhar e vocês é que planejem aí essas mudanças. Vamos jantar que está pronto.
Sentaram-se e jantaram, continuando a comentar o assunto das mudanças no setor leiteiro da fazenda. Ao terminarem a refeição, prosearam mais alguns minutos e foram para as suas camas. Gaudêncio estava ansioso por ler mais umas páginas do livro. Estava no ponto em que Ana Terra e junta a uma caravana e deixa para traz o lugar onde nascera. Queria saber o que aconteceria na continuação. Voltou rapidamente para a casa grande e serviu-se de um copo de vinho. Enquanto lia bebericava a bebida. Ficou de olho no relógio para não passar da hora. Era muito bom ler, mas não até tarde demais. Enfrentar o dia de trabalho com sono era péssimo.
Na manhã seguinte estava em pé logo cedo. Foi assistir à continuação do plantio de arroz que fora interrompido por falta de sementes e adubo. Graças a Deus o tempo estava ajudando. Com mais alguns dias toda área estaria plantada, permitindo então um pouco de descanso. Antes disso os tratores roncavam dia e noite, com os operadores se revezando. Haviam montado uma verdadeira operação de guerra para conseguir terminar o plantio. Um alojamento e cozinha haviam sido montados perto da área para que os trabalhadores não precisassem se deslocar longe.
A reposição de semente e adubo nas plantadeiras funcionava que nem linha de montagem. O operador nem desligava a máquina, descendo apenas para beber água, comer alguma coisa e fazer suas necessidades. Ao voltar tornava a embarcar e voltava ao eito para continuar semeando. Gaudêncio imaginou uma foma de evitar que fosse necessário deslocar a máquina até o depósito e depois voltar. Deu ordem aos operadores que estavam de folga para trazerem ali os tratores mais antigos que não eram usados no plantio. Serviriam para puxar as carretas com sementes e adubo para uma posição mais próxima de onde os outros estivessem plantando. Isso pouparia um tempo precioso.
Foi obedecido e logo ficou visível o aumento do rendimento do serviço. Se continuassem no rítmo em que estavam, era provável terminarem um ou até dois dias antes do previsto. Realmente foi isso que aconteceu. Ao meio dia, terminaram o serviço e havia previsto que isso aconteceria na noite seguinte apenas. Fora a estratégia de Gaudêncio que fizera a diferença.
No sábado anterior Joaquim viera para a fazenda e permanecera ali até o término do plantio. Falara com o afilhado que providenciou carne para a feitura de churrasco em abundância para todos os trabalhadores. Nesse meio tempo passaram algumas horas trocando ideias sobre o assunto que estava ocupando os pensamentos de Gaudêncio. As tais ordenhadeiras. Falou ao padrinho de suas ideias para dispor de mais pasto e poder colocar uma quantidade maior de animais na produção de leite. Valeria mais a pena comprar uma máquina maior, proporcionalmene mais barata, desde que houvesse leite para tirar.
Aproveitaram para irem até o local que ele tinha em mente transformar em pastagem. Olharam detalhadamente, percorreram de lado a lado, observando os detalhes do terreno, as dificuldades que iriam encontrar. Tudo pesado, colocando os pros e contras, valia a pena tentar fazer o que estava sendo sugerido. Joaquim vira na televisão que nas proximidades de Porto Alegre seria realizada uma grande exposição de gado. Tanto de corte como de leite. Nessas ocasiões também são apresentados equipamentos úteis nessas atividades. Seria interessante fazerem uma visita a esse evento.
A data marcada era logo depois do feriado de início de novembro. Uma ideia fulgrou na mente de Gaudêncio. Poderia visitar a namorada e aproveitar para ir até a feira. Levaria a família junto e passariam lá um ou dois dias, vendo tudo, conhecendo equipamentos e animais. Propôs o plano a Joaquim que gostou e falou:
– É conveniente irmos juntos a essa feira. Podemos até negociar vacas, máquinas e tal ali mesmo. Sempre tem preços especiais, facilidades de financiamento. Vamos sim.
– Eu vou antes do feriado para visitar a Ângela. Vamos juntos de avião mesmo. Eu tenho uns amigos por lá e me ajeito enquanto você namora.
– Combinado padrinho. Eu peguei um livro na estante que era da madrinha e comecei a ler. Sabe que estou gostando um bocado. Nunca imaginei ser tão bão ler.
– E como andam os estudos para voltar a escola?
– Estou pra lá da metade das apostilas. Está cada vez mais fácil. Foi o tempo de tirar a poeira e ferrugem para tudo voltar, mais fácil que antigamente.
– Isso é bom. Estou vendo que vai se sair bem na escola.
– Acho que quando a gente sente vontade de aprender, fica mais fácil. Antigamente eus ó queria saber de montar a cavalo, correr pelos campos, ver o arroz crescer. Como eu gostava de catar ovo de Quero-quero. Eles ficavam uma fera comigo e com os moleques que iam junto.
– Os tempos mudam, Gaudêncio.
– E como. Só de pensar em coisa de uns meses para trás e hoje, quanta diferença.
– Agora você está virando homem de verdade. Esta amadurecendo para a vida.
– Isso deve de ser verdade, padrinho. Um ror de coisas que eu gostava, hoje não me atrai mais. Tem coisas mais importantes para me ocupar.
– Principalmente um belo rabo de saia, com um lindo par de olhos e uma vasta cabeleira.
– Também, mas não é só. Por exemplo essa questão da ordenha. Me deu assim meio que de repente. Via a mãe e os ajudantes naquela lida diária de expremer as tetas das vacas e me deu uma dó.
– Mas foi assim desde o começo do mundo. Hoje temos essas coisas modernas. Imaginou plantar todo aquele mundo de arroz com matraca?
– Virgem Maria! Nem pensar.
– O trator e a semeadeira tornaram tudo muito mais fácil.
– E as ceifadeiras então? Uma delas faz em horas o serviço de centenas de homens trabalhando dias sem parar.
– O mundo de hoje exige que seja feito assim. Na moda antiga não dá mais. Tem gente demais no mundo querendo comer, mas não quer plantar.
– Dá licença que eu vou ler um pouco e depois dormir. Boa noite. A benção padrinho!
– Deus lhe abençoe e boa noite.
Foi até seu quarto, pegou o livro e leu algumas páginas, porém logo os olhos pesaram e decidiu deixar o resto para outro dia. Deitou e dormiu. O feriado seria dali a duas semanas e pouco. Caia numa quarta feira. Joaquim se encarregou de providenciar as passagens no voo da tarde de terça feira. Ângela foi avisada da chegada, perto do anoitecer e ficou ansiosa esperando a primeira visita do namorado depois da estadia na fazenda. Providenciou para que tudo estivesse em ordem. O quarto em que ele iria ser hospedado foi limpo e arrumado. Foi com a mãe ao supermercado fazer as compras dos mantimentos que julgou necessários. Sabia que o padrinho do namorado viria junto, mas ficaria em casa de amigos. Estava animada com a promessa de passar um ou dois dias na feira agropecuária na semana seguinte.
O feriado foi aproveitado para passearem por diversos lugares da capital. Almoçaram num restaurante à beira do Guaiba, degustando diversos pratos de peixe. Depois, aproveitando o fato de a maioria da população procurar os cemitérios para prestar homenagem aos entes queridos que ali repousavam, passearam pelo centro sem grandes problemas. As ruas estavam pouco movimentadas, retornando à uma aparente normalidade após as 18 horas. O dia seguinte era sábado, de modo que muitos aproveitavam para, depois da visita ao campo santo, viajarem para o litoral. Iriam aproveitar o tempo ensolarado para descansar nas belas praias.
Ângela e Gaudêncio foram ao cinema onde assistiram a um filme estrelado por Gianni Morandi, ator e ator do cinema italiano. Voltaram emocionados e antes de entrarem no edifício, trocaram o primeiro beijo. Começavam a ficar profundamente apaixonados. Iriam sentir falta da mútua presença nos dias em que ficariam afastados depois da volta dele para a fazenda. A noite passou e no sábado era inagurada a feira na cidade vizinha. A distância era pequena. Combinara com Joaquim encontrarem-se antes de se dirigir para lá. O padrinho alugara um carro e seguiriam juntos. Os pais de Ângela iriam somente no domingo. Um amigo vinha lhes fazer visita no sábado.
Máquinas na Expointer.

 

Maquinas e veículos.

 

 

Vista do entorno do parque de Esteio.
Exposição de cuias para chimarrão.
 
 
Chegaram cedo para estarem presentes ao ato inaugural da feira. Houve show de músicas típicas, danças, desafio de repentistas, uma banda fez uma apresentação de meia hora. Era um evento grandioso e tudo que de mais moderno existia no mercado relacionado com o setor estava repesentado. Os maiores criadores e produtores do estado estavam presentes, mostrando seus produtos, competindo pelos prêmios nas diversas categorias de animais. O espaço onde estava instalada a feira era enorme, sendo necessário um bocado de tempo para percorrer todos os setores.
A grande variedade de produtos expostos atraia tanto curiosos, quanto interessados em sua aquisição. Paralelamente estavam presentes postos de atendimento bancário para encaminhar financiamentos pelos agentes financeiros públicos e também os privados. Disputavam os potenciais clientes, distribuiam farto material de propaganda, brindes, cafezinho, a indefectível cuia de chimarrão não poderia faltar. Uma incontável quantidade de grupos se formava ao longo dos corredores, cada um querendo chegar na vez primeiro para tomar uma cuia. Até as indústrias de erva-mate estavam presentes, divulgando seus produtos, fazendo degustação e distribuindo pequenas embalagens com os produtos, suficientes para fazer um mate.
O sábado foi consumido em apenas percorrer as principais áreas da exposição. Queriam localizer os seus pontos de interesse pra nos dias subsequentes sentar com os possíveis vendedores e negociar, fazer propostas, discutir condições. Mas antes de nada queriam conhecer todos os detalhes de tudo que lhes interessava adquirir. Teriam a semana inteira pela frente para isso. Pedro Paulo e Maria Conceição se encarregariam de cuidar de tudo na fazenda. Podiam pois gastar o tempo necessário para a realização eventual de negócios, ou pelo menos deixá-los entabulados.
A noite de sábado pegou aos três bastante cansados e cuidaram de ir para cama cedo. Queriam estar bem dispostos no domingo para ver o resto da feira e depois começar a procurar o estabelecimento de negociações. Haviam se enganado, pensando que faltava pouco para ver. Quando se deram conta era meio dia e ainda não haviam tido oportunidade de procurar os vendedores de equipamentos que lhes interessavam. Em um restaurante ao ar livre almoçaram um bom assado de costela em fogo de chão. Logo depois de se sentirem satisfeitos, partiram para o lado dos vendedores de equipamentos.
Havia duas marcas de ordenhadeiras e seus acessórios. Vários tamanhos e modelos, com os preços igualmente variando em diversos níveis. Os vendedores se esmeraram em atendê-los, explicando, demonstrando e fazendo cálculos para aquisições à dinheiro, financiado por banco ou diretamente com a empresa. Sairam do primeiro e foram ao segundo. As ações se repetiram com poucas variações. Ainda tiveram tempo de ver máquinas de cortar e picar forragem para preparação de silagem. A produção de leite habitualmente caia nos meses de inverno, devido ao empobrecimento das pastagens devido ao frio. Isso implicava na necessidade de prover forragem de volumosos e assim manter a produtividade num bom nível.
Ao se retirarem no início da noite estavam carregados de prospectos, folhetos, cartões de visitas, orçamentos, com todas as informações que necessitavam para efetuar as possíveis compras. A segunda feira seria dedicada a procurar um reprodutor ou dois para o gado de corte. Queriam ver também a disponibilidade de novilhas em ponto de cobertura ou mesmo cobertas para ampliar o plantel de matrizes leiteiras. Um reprodutor de alta linhagem também era interessante para alcançarem um padrão de maior produção por cabeça. Isso significava lucro futuro. A era das chamadas vacas “pé duro” estava ultrapassada. O mesmo trato consumido por uma delas alimentava uma outra de alta produtividade. Evidentemente os animais de raça exigiam um cuidado maior do ponto de vista fito-sanitário, mas sua produção maior compensava essas necessidades.
Na segunda-feira Ângela não os acompanhou. Tinha aulas da escola de magistério que frequentava. O final do segundo ano estava se aproximando e exigia caprichar para não perder o nível de seu rendimento alcançado até aquele momento. Haveria tempo de se verem à noite. Poderiam assistir uma sessão de teatro, ver um filme na televisão e mesmo conversar. Tinham tanto a se dizer, ouvir de suas vidas, seus sentimentos. Era importante terem esses momentos de tranquilidade para se conhecerem suficientemente. Se houvesse disposição para seu relacionamento evoluir de simples namoro, transformando-se em noivado ou talvez casamento, o máximo de conhecimento que tivessem um do outro era fundamental.
Ângela, apesar de sua juventude, havia sido muito bem orientada pelos pais. Sabia o que buscava para sua vida. Não dava valor a futilidades. Depois de um dia intenso de conversas, observação, propostas e contrapropostas, voltavam novamente com as mãos cheias de papéis, fotografias e folhetos. Joaquim deixou Gaudêncio na portaria do edifício e foi descansar. Ângela estava na sacada quando o carro parou e ela viu saltar o seu amado. Imediatamente desceu pelo elevador e encontrou Gaudêncio no momento que ele entrava pelo saguão.
– Boa tarde meu bem!
– Boa tarde, querida! Só não estou em condições de lhe abraçar. Passei o dia no meio de vacas, touros e novilhas. Devo estar cheirando a qualquer coisa, menos perfume.
– Até que nem é tão forte assim.
– Mas estou louco por um banho e roupa limpa.
– Vai querer ir a algum lugar ou prefere ficarmos em casa?
– Deixe-me pensar um pouco. Logo depois do banho eu decido. Nesse momento meu cérebro nem está funcionando direito. Está quente e o dia inteiro no meio daquela multidão, deixa a gente grudento.
– Deixe-me ver se fico grudada.
– Não faça isso, amor. Estou sujo e você está cheirando a flôres. Sua roupa limpa.
– Posso trocar de roupa depois, se essa ficar suja.
– Coitada da sua lavadeira!
– Quem faz esse serviço é a máquina de lavar.
– Está aí uma coisa que vou providenciar para minha mãe. Ela já tem tanto trabalho e uma máquina de lavar roupas, virá a calhar para aliviar a carga.
– Ótima ideia, amor. Fiquei com pena dela e das empregadas encarregadas de lavar a roupa quando estivemos lá. Não falei nada, pois não era de minha conta.
– Mas você tem razão. Preciso remediar essa falha logo.
Chegaram ao apartamento e nosso enamorado foi tomar seu banho e trocar a roupa. Ao sair do quarto, vinha com aparência mais suave e aliviada.
– Está se sentindo melhor agora, amor?
– Nem te conto! Parece que tirei uma tonelada das costas.
– Venha aqui na sala. Papai fez chimarrão. Quer que você experimente e diga se fez certo. Estamos aderindo ao hábito. Papai tomava chimarrão quando era menino, mas depois ficou muitos anos no norte e perdeu o hábito.
– Vamos lá. Deve estar bom para a primeira vez que faz.
Foram até lá e encontraram o casal as voltas com a cuia de chimarrão. Queriam voltar ao velho hábito, abandonado por força das circunstâncias da vida. Os jovens sentaram e o general estendeu a ele a cuia recém servida. Havia um leve travamento, mas uma pequena movimentação da bomba, foi suficiente para fazer o líquido fluir facilemente. Saborearam alegremente a bebida enquanto dona Lourdes ia e voltava da cozinha onde preparava o jantar. Gaudêncio decidiu não sair, para estar mais descansado no dia seguinte. Conversariam até sentirem vontade de dormir e iriam para a cama.
Depois de algumas rodadas da cuia, a refeição ficou pronta e deixaram a cuia de lado para irem matar a fome. Gaudêncio se dispôs a ajudar Ângela no lavar e enxugar da louça. Com alguma relutância a mãe da jovem aceitou e piscou discretamente para a filha, como quem diz, aproveita para descobrir como ele se comporta numa situação dessas.
Não era novidade para ele lavar ou enxugar louça. Desde menino fizera isso inúmeras vezes para ajudar a mãe. Não era rara a ocasião em que se encarregara de fazer ambas as tarefas quando a mãe estava ocupada com alguma outra coisa, ou mesmo cansada por algum motivo qualquer. Enquanto Ângela lavava ele enxugava cuidadosamente cada peça, colocando-as sobre a mesa, para depois serem guardadas em seus respectivos lugares.
Depois disso, sentaram-se na sala onde os pais estavam vendo TV. Estava sendo transmitido o programa Fantástico. Assistiram até o final e foram dormir. Os namorados tiveram seu momento de liberdade e puderam se dedicar a algumas carícias mais ousadas, embora mantendo o decoro e respeito. Ambos sabiam que se ultrapassassem determinado limite poderiam perder o contrôle e esse não era o objetivo. Conversaram longamente, contando passagens de suas vidas, momentos alegres outros menos, que deixaram marcas em suas almas. Suas reações diante dessas situações mostravam um ou mais aspectos da personalidade que tinham. Esse conhecimento ajudaria a harmonizer sua convivência.
Quando eram 11 h 30min, depois de um prolongado beijo carinhoso, se desejaram bons sonhos e foram dormir em seus aposentos. Na manhã de terça, Gaudêncio tomou café da manhã com o general, despediu-se deles e desceu para encontrar o padrinho. Iria enfrentar mais um dia na feira em busca de animais e equipamentos para aprimorar a produção na fazenda. Quando a noie chegou, tinham adquirido um reprodutor da raça nelor de boa progênie e um outro da raça gir. Haviam visto o resultado do cruzamento de vacas holandesas com touros gir e o resultado eram animais de maior rusticidade, bom potencial de produção leiteira e ainda uma conformação de carcaça mais em acordo com o preferido pelos frigoríficos para o abate.
Os bezerros machos tinham que ter alguma destinação. Quanto maior fosse o valor de mercado depois de grandes e gordos, melhor seria. Decidiram deixar para comprar as fêmeas nas propriedades situadas em pontos mais próximos da fazenda. Evitavam com isso o custo excessivo com o transporte e ainda os riscos que isso implicava. Encontraram expositores até vindos do Uruguai. Traziam animais de raça principalmente holandesa e jersey. Ficava evidente que eles teriam maior dificuldade em se adaptar às condições existentes no campo gaucho. Faltava concluirem a negociação dos equipamentos e deixaram isso para o outro dia.
Naquela noite os namorados acompanharam os pais dela ao teatro para assistir a uma peça apresentada por uma companhia espanhola que estava excursionando pela capital. O enredo era de um dramaturgo espanhol. Era um misto de drama e comédia. Havia momentos de hilariedade alternados com outros de intensa comoção diante das cenas trágicas. Havia um raro equilíbrio entre os dois extremos, dando ao espetáculo um viés de bom gosto e criatividade. Voltaram para casa conversando alegremente sobre as cenas mais marcantes. A duração era um pouco alongada e ao chegarem foram logo dormir.
A terça-feira seria de provas na escola e Ângela estaria livre por volta das 10 horas. O pai falou que viria para casa e levaria a esposa e a filha até a feira. Naquele dia ocorreria a competição de montaria e adestramento de cavalos. Ângela era aficionada dessa modalidade e queria assistir. Assim poderiam se encontrar e passar algum tempo juntos se Gaudêncio já tivesse terminado as negociações que pretendiam fazer nesse dia.
Naquela manhã receberam uma proposta interessante. As vendas de máquinas ainda não atingia o nível esperado e os vendedores apresentaram preços mais acessíveis. Em pouco tempo fecharam o negócio de compra da máquina a ser instalada na fazenda. Faltava a máquina de preparar silagem. Ao lado da empresa das ordenhadeiras havia também uma outra que vendia esse equipamento. A compra foi fechada e a entrega seria feita em dois meses na fazenda. O preço foi financiado pelo Banco do Brasil, com prazo facilitado.
Desfile de amazonas no dia da mulher em Esteio.
Cavaleiros e suas montarias na pista de adestramento.

 

Entrada da pista de adestramento.
Com todos os negócios fechados, os dois foram encontrar a família de Ângela junto ao local das apresentações de hipismo. Gaudêncio passou um longo momento admirando a bela silhueta de sua amada. Ela por sua vez estava empolgada vendo as evoluções que os cavaleiros faziam na pista, de tal modo que demorou a perceber a presença do rapaz. Ruborizou violentamente e pediu desculpas.
– Você quando fica empolgada se torna mais bonita ainda. Eu estava apreciando seu entusiasmo. Estou vendo que vai ser mais fácil se acostumar a viver na fazenda do que imaginei.
– Eu amo animais, especialmente cavalos. Eles são meus preferidos.
– Vou lhe dar um de presente. Assim quando for passear na fazenda poderemos cavalgar. Se não souber eu ensino.
– Ela aprendeu a cavalgar quando era menina. Agora faz algum tempo que não tem oportunidade de exercitar-se na montaria.
– Pena não saber, pois poderíamos ter remediado isso quando estiveram lá.
– Fica para a próxima.

 

Assistiram ao final das apresentações e antes de voltarem para casa, assistiram a um show de músicas típicas. Enquanto viam o espetáculo, aproveitaram para comer num lugar que estava armado ali mesmo, perto do palco. Depois de encerrado o show voltaram para casa. Na quinta feira marcariam as passagens para retornar. Estavam for a há mais de uma semana. 

Gaúcho de São Borja! – Capítulo XI

 

Silos e indústrialização de arroz em São Borja.

 

Instalações industriais de arroz.

 

Sala de controle eletrônico de qualidade.

 

   Mudança radical de vida.
A confirmação do namoro com Ângela, provocou uma mudança radical na vida de Gaudêncio. Até aquele momento não havia demonstrado inclinação para retomar os estudos. Logo na terça-feira procurou as escolas na cidade em busca de informações sobre sua situação e da possibilidade de retorno aos bancos escolares. Havia concluido o quinto ano. Desistira de continuar ao ter que enfrentar o exame de admissão ao ginásio. Julgara muito complicado tudo isso e optara por aprender tudo o que fosse possível do serviço da fazenda. Agora, não estava arrependido, mas disposto a recuperar o tempo perdido.
As mudanças introduzidas na estrutura do Sistema educacional pela LDB nº 5692 em 1969, eliminaram o exame de admissão e assim poderia ingressar sem problemas na quinta série do ensino fundamental. Foi aconselhado a fazer uma revisão dos conteúdos, já um pouco esquecidos das series iniciais. Indagou da forma que poderia usar para fazer essa revisão. Quem o orientava era a secretária da escola e ela disse:
– Espere um instante. Vou ver se encontro uma coisa.
Levantou-se e foi até uma prateleira, onde havia um grande número de volumes, de diverentes formatos, pastas, livros de registros e, num canto, algumas brochuras. Procurou entre elas e em pouco tempo tinha nas mãos dois volumes do antigo curso de admissão ao ginásio. Um era de ciências e matemática, o outro de português, história e geografia. Voltando ao seu assento falou:
– Olhe o que encontrei. Essas são duas brochuras do antigo curso de admissão ao ginásio. Tem o resumo de tudo que precise dominar para acompanhar as matérias da quinta série. As matrículas serão feitas no mes de janeiro. Lhe empresto essas, mas quero que me devolva. Tem valor histórico.
– Eu devolve sim. Se me emprestar vou estudar muito para não fazer feio depois entre a garotada.
– Você não vai estudar com garotos. Os alunos do turno da noite são na maioria de sua idade ou pouco menos. Não vai sentir-se muito deslocado.
– Melhor assim. Pensei que ia ficar no meio de um bando de meninos de 12 anos ou pouco mais. Pelo visto não sou o único que não quis estudar antes e decidiu depois que era preciso.
– E como tem gente nessa situação. Muitos não estudaram por não ter oportunidade ou algum outro motivo.
– Obrigado pelas informações, dona?
– Sou Marlene Dornelles da Costa. Pode sempre contar com nosso apoio. Seu padrinho, o senhor Joaquim, é bem conhecido nosso. Em várias ocasiões nos valeu com sua ajuda.
– Folgo em saber disso. O padrinho tem um coração maior que o próprio peito. Nunca nega ajuda quando pode.
– Leve lembranças a ele e dona Ana Maria.
– A madrinha infelizmente é finada. Faz pouco mais de dois anos.
– Que pena! Seu padrinho deve ter sentido muito a falta da companheira. Eram inseparáveis.
– Ele esteve bem mal po runs par de meses. Meu pai tirou ele da casa da cidade, levou ao médico e depois cuidamos na fazenda. Por sorte se recuperou, viajou e voltou bem disposto. Agora nem se nota que tenha passado tão mal.
– Muito bem, Gaudêncio.
– Vou indo, pois tenho o que fazer e a senhora também deve de ter. Passar bem, dona Marlene.
– Igualmente.
Levantou, estendeu a mão em despedida, depois se retirou. Passou por uma livraria/papelaria e comprou cadernos, lapis, borracha e apontador. Começaria naquela noite mesmo a estudar. Faria um grande esforço para sair-se bem no próximo ano. Ao chegar em casa apresentou o que trouxera e Joaquim lhe parabenizou pela decisão firme. Comentou:
– O que o amor não é capaz de fazer!
– Serviu para me acordar. O senhor tinha me dado uma palavra sobre isso e agora sei que tinha razão.
– Tem meu apoio total.
– Vou repassar os plantios de arroz. Tenho que ver como estão os terrenos na preparação. Não podemos perder tempo com atrasos.
– Isso é por sua conta. Conto com seu bom senso e cuidados.
– Vou passar depois na casa do papai e mamãe e contar que vou ser estudante agora.
– Eles vão ficar contentes com isso. Nunca quiseram que você largasse da escola.
– Agora terão um presente, mesmo um pouco atrasado.
– Antes tarde que nunca.
Gaudêncio levantou e foi cuidar de suas ocupações. Percorreu a fazenda no jipe que usava para isso e distribuiu algumas ordens que julgou necessárias. Depois retornou, passando pela casa onde moravam os pais. Levava com ele os materiais adquiridos.
Maria Conceição e Pedro Paulo viram com satisfação a disposição do filho com relação aos estudos. Mesmo que não viesse a se formar numa faculdade. Bastava ter uma formação melhor e assim estar preparado para enfrentar a vida que anteviam diante do início de namoro com a filha de um general. Certamente haveria oportunidades em que viria a se encontrar com outra classe de autoridades civis e militares. Não seria de bom tom que o namaorado, talvez noivo e depois marido, da filha do militar pecasse pela falta de traquejo tanto social como cultural.
Naquela noite ligou para a casa do general e falou com Ângela. Informou-a de suas decisões tomadas naquele dia e ouviu dela um caloroso elogio. Conversaram por alguns minutos e se desejaram mutuamente bom sono. Ainda não usavam palavras mais íntimas, uma vez que estavam nos passos iniciais de seu relacionamento. Talvez no princípio de novembro, por ocasião do feriado de finados, ou então na proclamação da república, Gaudêncio aproveitaria para fazer uma visita à namorada. Avisaria sobre a viagem quando estivesse decidida a data.   
Os dias subsequentes correram sem novidades e nosso jovem enamorado aproveitou as horas disponíveis para iniciar os estudos das apostilas que receber emprestadas. O começo foi um pouco complicado, mas não demorou para que tudo começasse a fluir mais facilmente. Estava movido pelo interesse. Sem dúvida um forte fator motivador no processo de aprendizagem. Percebeu com satisfação que, assuntos antes vistos como complicados, lhe pareceram simples. Boa parte da aparente complexidade que se antepunha anos antes havia deixado de existir. Comentou com Joaquim e ele lhe disse:
– Infelizmente não posso lhe valer de muita coisa nesse particular. Mas sei que quando estamos motivados tudo parece mais fácil. A falta de vontade é um obstáculo quase impossível de superar.
– Deve ser isso. Estou achando tudo tão fácil. Acho que vou até escrever uma carta para a Ângela para treinar minha letra e a escrita.
– Uma boa ideia. Cartas dão mais emoção que uma ligação por telefone.
– O senhor me ajuda? Nunca escrevi nenhuma carta antes.
– A bem me lembrar, não sei se eu fiz isso alguma vez.
– Vou fazer do jeito que sei. Se ela responder, uso a carta dela como modelo para as próximas.
– Começando a usar a cabeça para pensar, não apenas para carregar chapéu.
– Que é isso padrinho?
– Estou apenas brincando. Usar de exemplos e modelos para aprender a fazer coisas novas faz parte da vida.
Foi para a escrivaninha onde estavam seus materiais de estudos e começou a escrever uma carta para a namorada. Recomeçou umas duas ou três vezes, até que saiu alguma coisa que o deixou satisfeito. Havia ali na escrivaninha alguns envelopes. Subscreveu um deles, colocou a carta, depois lacrou com um pouco de cola. Na próxima ida para a cidade seria colocada no correio. Talvez o padrinho pudesse fazer isso para ele. Ia sempre a cidade encontrar os amigos de muitos anos. Fazia uso de sua situação, facilitada com o herdeiro assumindo as tarefas de aministração, junto com o pai Pedro Paulo.
A carta foi colocada no correio e em questão de duas semanas recebeu a resposta. Trazia palavras carinhosas escritas por Ângela, além de um pouco de seu perfume impregnado no papel. Ficou emocionado, guardou a carta e releu diversas vezes, antes de sentar para escrever nova missiva. Tomava gosto pela coisa. Era bom ter em mãos uma folha de papel onde a pessoa amada deixara registrados seus sentimentos, seu perfume. Era possível imaginar o rosto da amada ali diante dele, com a boca pronunciando as palavras uma a uma, na medida em que lia.
Voltou a escrever, tomando cuidado para não cometer alguns erros havidos na primeira. Ângela não comentara nada, provavelmente por delicadeza, mas tinha auto crítica suficiente para observar que os cometera. Dessa vez precisou recomeçar apenas uma vez e ficou satisfeito com o resultado. Dessa vez ele mesmo levaria o envelope ao correio, aproveitando para isso sua ida ao comércio de sementes e adubos na manhã seguinte. Iria até o colégio dar conta à Marlene de seus progressos. Estava muito satisfeito com seu progresso e queria dizer a ela que sua ação ao lhe emprestar as brochuras não fora sem resultado.
Ao chegar a cidade passou primeiro pelo posto dos correios e foi ao colégio. Feito isso tinha tempo de sobra para negociar a entrega de sementes e adubos para o plantio do arroz. Haviam aumentado a área de cultivo em cerca de 40%, implicando num acréscimo de insumos para cobrir a ampliação de área. Voltou quando entardecia. Almoçara com o padrinho que se encontrava na casa da cidade. Viria para a fazenda no final de semana para matar a saudade segundo suas palavras.
Ordenha manual.

 

Ordenha mecânica.
Visão de outro ângulo da ordenha mecânica.
Ao chegar em casa, encontrou a mãe as voltas com algumas vacas do plantel com problemas de inflamação nas tetas. Provavelmente alguma falta de cuidado com a higiene dos ordenhadores havia provocado o problema. O fato de deixar leite sem tirar, era causador frequente desse efeito. O fato de ter descido e não tirado, provocava uma solidificação do líquido. O resultado era um endurecimento e consequente inutilização da teta, caso não fosse tratado com urgência. Foi preciso chamar às pressas o veterinário que atendia os animais da fazenda nas emergências.
O avançado da hora não permitia que se fizesse grande coisa naquele momento. O profissional prometeu vir na manhã seguinte, ao clarear do dia, trazendo os medicamentos necessários ao tratamento. Como medida preventiva prescreveu os procedimentos que ajudariam a manter o processo parado, não permitindo que se alastrasse. Tudo foi seguido à risca, dentro do que o doutor mandara.
Jantou com os pais e depois voltou a casa da sede, onde ficou algum tempo estudando. Aproveitava para ler tudo que fosse texto que lhe caia sob os olhos, percebendo que poderia obter informações preciosas com a leitura. Lamentou a quantidade de tempo perdida anteriormente. Poderia nessa hora estar muito à frente do ponto em que estava. Deixou de lado os pensamentos negativos, pois não seriam capazes de trazer o passado de volta. Era preciso prevenir para no futuro não cometer o mesmo erro. Até mesmo uns livros que a madrinha deixara e que nunca mais haviam sido abertos, começaram a chamar sua atenção.
O que estaria escrito naqueles volumes de muitas páginas, com títulos aparentemente estranhos? Sentiu-se atraido a pegar um deles começar a ler. Passou alguns minutos olhando as lombadas, regularmente limpadas da poeira que se depositava sobre elas, tentando imginar qual era o mais indicado para começar. Em determinado momento deparou com um que, tinha escrito em destaque Ana Terra. Não era dos mais volumosos e deveria ser bom para começar. Pegou o volume e leu nas primeiras páginas, vendo que se tratava de obra escrita por Érico Veríssimo, compatriot, residente em Porto Alegre.
Leu o prefácio, agradecimentos, dedicatória do autor, introdução e depois chegou ao primeiro capítulo. Ficou impressionado com a quantidade de informações que havia obtido apenas lendo essas páginas iniciais. A curiosidade falou mais forte e começou a ler com avidez. Aos poucos o enredo o envolveu e sentia a emoção crescere na medida em que avançava página após página. Queria ler mais depressa, mas ainda sentia a dificuldade decorrente dos longos anos de inatividade a que submetera seu intelecto. Haveria de ficar mais rápido com o treino. Percebeu que havia palavras que lhe eram desconhecidas, mas conseguia lhes adivinhar o significado dentro do contexto. Isso com certeza contribuiria para melhorar seu vocabulário, expandiria sua capacidade de entendimento. Tão absorto ficou na leitura que não percebeu o tempo passar e já era mais de meia noite. Fechou o livro à contragosto. Deixou marcada a página onde parara, colocando um pedaço de papel.
Deitou e dormiu em seguida. Antes de clarear o dia estava de pé para receber o veterinário. Queria estar presente para ver o que precisaria ser feito e determinar aos empregados que deveriam ter mais cuidado no futuro. Boas vacas de leite não se consegue do dia para a noite. Era por isso necessário preservar as que tinham para não deixar cair a produtividade. A reposição ao longo dos anos tinha que ser feita. Exigia tempo para criá-las ou dinheiro para adquirir novas.
Os animais foram tratados com cuidade e verificou-se que o problema ainda estava em estágio inicial. Se os procedimentos fossem seguidos à risca, não haveria perdas da produtividade dos animais. Apenas alguns dias o leite das tetas doentes deveria ser descartado. Não Servia sequer para alimentar outros animais domésticos. Causaria danos digestivos e isso seria maléfico, além de implicar em novos tratamentos a serem dispensados aos mesmos.
Depois de tudo resolvido, pagou ao veterinário o preço da visita, bem como o custo dos medicamentos usados. Recebeu a receita para adquirir as medicações que teriam que ser usadas por uma semana para completar o tratamento. Iria depois do almoço buscar tudo para ter à mão na hora da ordenha da noite. O veterinário se despediu e voltou para a clínica que tinha na cidade, junto com a farmácia de produtos. Esperaria pelo cliente para lhe passar algumas instruções complementares.
Maria Conceição ficou contente ao saber que suas vacas não haviam sofrido danos definitivos e voltariam em alguns dias ao nível normal de produção. Era extremamente cuidadosa e passou a ser mais severa com todos os procedimentos na hora da ordenha. Em conversa com o filho, este aventou a hipótese de instalarem uma máquina de ordenha para automatizar o processo. Ela o olhou com os olhos esbugalhados:
– E isso existe, filho?
– Se existe, mãe! É claro que existe. Tem lugares em que as pessoas não pegam no úbere das vacas. Uma máquina suga o leite e o manda para um recipiente bem grande. Depende do número de animais, tem máquinas maiores e menores.
– Tenho medo dessas coisas modernas. Será que as nossas vacas, acostumadas à ordenha manual, vão acostumar com essas coisas modernas?
– Vou me informar com o doutor quando for lá comprar os remédios. Acho que é hora de modernizar essa parte da propriedade. O arroz já é semeado e colhido por máquinas. Depois vai para o secador. Não se perde mais um grão por problemas de umidade, chuva e tal.
– Fala com o homem e depois conversamos com compadre Joaquim.
– O padrinho deixa por minha conta. Se o veterinário aconselhar, convenço ele fácil, fácil.
– Mas isso vai exigir novas instalações. Não vai causar demissão de trabalhadores?
– Estamos fazendo tudo dentro das exigências da lei. Se for preciso demitir alguém, ele vai estar amparado no FGTS, INPS e tudo mais.
– Eu fico com dó de ter que mandar alguém embora.
– Vou procurar fazer tudo do melhor jeito possível, para não ter que demitir ninguém. Podemos aproveitar quem não tiver mais o que fazer aqui em outro serviço. Há de se dar um jeito nisso, mamãe.
– Vai com cuidado, filho.
– Daqui a pouco eu volto com os remédios.
Arroz no ponto de colher.

 

Máquina colhendo arroz.

 

Arroz em ponto de colher.

 

 

Arroz sendo descarregado na carreta de transporte.
 
 
Embarcou na caminhonete que usava em suas idas à cidade e foi até a farmácia. Ali, depois de adquirir os produtos todos, além de alguns outros usados habitualmente no dia a dia, como mata bicheiras, carrapaticidas e outros. Aguardou um pouco para conversar com o veterinário. Quando ele ficou disponível, perguntou sobre a questão das ordenhadeiras e recebeu dele as orientações que seria necessárias. Inclusive folhetos explicativos sobre os modelos disponíveis. O custo estimativo, as instalações necessárias, todos os detalhes. Haveria é claro os cuidados higiênicos necessários. Mas ficaria bem mais prático, rápido e seguro o trabalho. As instalações não eram assim tão complexas de fazer.
Saiu dali e foi direto falar com Joaquim, levando a ele os prospectos e sua ideia de substituir a ordenha manual por máquinas. Tinha as anotações de custos, tanto do equipamento como das instalações de modo aproximado. O padrinho estava ouvindo ele falar com tamanho entusiasmo e não o interrompeu. Quando ele terminou de falar, olhou-o fixamente e perguntou:
– E você o que acha disso?
– Acho que devemos modernizar a ordenha. Não aconteceu o mesmo com a semeadura e colheita do arroz? Agora não perdemos mais colheita por excesso ou falta de chuva, nem por não conseguir secar depois de colhido.
– Olhando por esse lado, não é de todo mau. Deixe eu pesar um pouco sobre o assunto e no sábado falamos sobre isso quando for lá na fazenda.
– Está certo, padrinho. Se quiser ir falar com o doutor, ele lhe explica melhor.
– Vou fazer isso. As vacas vão ficar boas com o tratamento?
– O doutor prometeu que sim. Basta fazer o tratamento direito que não vai ter problema.
– Sorte a sua mãe estar atenta e terem tomado providências logo. Se bobeasse essas vacas iam se perder. Depois nem para criar não serviriam mais, apenas para o açougue. E o frigorífico nem quer vaca de leite.
– A mãe está preocupada com os empregados que vão perder o emprego. Prometi cuidar para que ninguém tenha que ser demitido. Quem se adaptar ao uso das máquinas fica lá. Os demais aproveitamos em outro setor.
– Comadre Maria Conceição é muito generosa. Não aceita ninguém sendo prejudicado. Mas em último caso, quem precisarr ser dispensado tem o FGTS e INPS para amaparar. Aliás tem que ver se já não é tempo de pensar em aposentar os mais idosos.
– Acho que ainda falta tempo de contribuição. Tem que ver com o contador sobre essa questão.
– Hoje não dá tempo, mas outro dia você conversa com ele sobre essa questão. Agora vou até o clube jogar um carteado e acho que você precisa se apressar para não chegar atrasado.
Clube de São Borja.
– Poxa vida! Conversando o tempo passa e eu quase perco a hora. Vou andando, padrinho.
– Vai com Deus. Dê lembranças ao compadre e comadre.
– Dou sim. Adeus.
Seguiu sem demora para casa, chegando pouco antes da hora da ordenha. Entregou à mãe todo suprimento de medicamentos necessários ao tratamento dos animais doentes e foi ver o andamento do serviço. Ficou por ali observando, prestando atenção ao trabalho de cada um. Sugeriu forma diferente de fazer uma ou outra coisa e foi aceita sua sugestão que se mostrou eficiente. Depois de tudo pronto, acompanhou a mãe até em casa, tomou café com os pais, comeu um pouco e foi para seus estudos. O que na verdade o impelia, era continuar a ler o livro que começara. Nunca lhe passara pela cabeça a ideia de que uma história fictícia, narrada num livro, pudesse prender de tal modo a atenção de uma pessoa. Antes de começar a ler, estudou mais um pouco e depois atacou com vontade.

 

Cada parágrafo, cada página trazia uma nova emoção e ele ficou empolgado. Teve que cuidar para não passar da hora, pois o outro dia seria de bastante trabalho. Os adubos e sementes seriam entregues. Fazia questão absoluta de estar presente pessoalmente para supervisionar o recebimento de tudo. 

Gaúcho de São Borja! – Capítulo X

Chegando a São Borja

 

Trevo de acesso à São Borja.

 

Reivindicação de melhorias no serviço de segurança.

 

Prestando contas da viagem.
 
 
Antes de seguirem para a fazenda, passaram na casa da cidade. Joaquim queria ter uma conversa reservada com Gaudêncio e passar no Banco do Brasil para resolver a questão de um financiamento. A mulher do caseiro também era a cozinheira eventual. Tinha pedido que um almoço para os dois fosse preparado. Gaudêncio, apesar de ter feito uma refeição leve em Porto Alegre, não recusou fazer uma “boquinha” da comida que foi servida. Enquanto comiam, narrou suas andanças na capital, especialemente no que se referia ao encontro com os agentes de investimentos. Joaquim aprovou as decisões e medidas adotadas pelo afilhado. Terminada a refeição, sairam para a rua, foram ao banco onde demoraram apenas alguns minutos.
Foram para a fazenda, onde Pedro Paulo e Maria Conceição estavam ansiosos pelo retorno do filho. Era a primeira ausência dele por mais dias e principalmente a uma distância tão grande. Rolaram abraços de todos os lados e depois ocorreu a entrega dos presentes trazidos. Os pais ficaram satisfeitíssimos com o que receberam. Uma cuia de chimarrão logo estava rodando, pois era algo que não podia faltar na casa de um gaucho que se preze. Quiseram saber das novidades vistas na capital. Maria Conceição quis saber das mulheres que encontrara. Tinha visto alguma que lhe causara impressão?
Pensou consigo, como é que a mãe fora logo perguntar isso? Parecia ter adivinhado o que aconteceu. Ficou alguns instantes pensativo e resolveu contar tudo, sem omitir detalhes. Terminou de sorver o chimarrão que estava em suas mãos, pigarreou e falou:
– P’ra le falar a verdade, mãe! Acho que encontrei a mulher da minha vida. Ela é filha de um general. Bem dizer o comandante da região militar da capital.
– Oigalê! Foi logo num galho bem alto buscar a fruta de seu gosto, – falou Joaquim.
– Que mal le pergunte, meu filho. Como foi você topar com essa moça? Filha de um general! Aí tem coisa! Trata de contá tudinho p’ra sua mãe.
– Tem nada demais não, minha mãe. Estava eu caminhando pela rua, decidido a ir marcar minha passagem de volta para a sexta-feira. Tinha acabado de concluir as questões dos investimentos, restando nada mais a fazer.
– Enrola não! Conta logo como foi. Stou morrendo de curiosidade, filho.
– Tinha um edifício muito bonito na esquina, ocupando quase meia quadra. No que olho para cima p’ra ver os ultimos andares, dei com o olhar numa sacada do quinto andar. Parecia uma deusa. Um rosto de anjo, cabelo louro e comprido, brilhando com o sol.
– Flechada certeira do Cupido, – disse Joaquim.
Pedro Paulo ouvia atentamente, lembrando da juventude quando dera com os olhos em Maria Conceição. O coração pulara igual potro xucro no peito. Voltou momentaneamente no tempo e reviu a prenda que lhe atingira o coração com um lance certeiro de boleadeira. Ficara para sempre preso e não se arrependia. Era uma prisão agradável e prazeirosa.
– Acho que foi esse tal de Cupido mesmo padrinho. Senti como uma pontada no peito. Contei os andares, fui entrando pela porta do edifício e subi direto, sem perguntar nada, nem dar satisfação a ninguém. Cheguei na porta do apartamento 501 e apertei a campainha com vontade.
– Assim, sem nunca ter visto a moça, nem pain em mãe? Vocé é mesmo maluco, meu filho. E se eles botassem você para correr?
– Eu pedia desculpas e saia. Não podia é perder aquela oportunidade. A senhora sabe que sou resolvido. Perco tempo não com rodeios. Vou direto ao ponto.
– E como le receberam? – indagou por sua vez Pedro Paulo.
– Quem abriu uma fresta da porta foi o próprio general. Me apresentei e logo le pedi a mão da filha em namoro. Ele inventou uma porção de desculpas para desviar do assunto, mas não dei chance. P’ra tudo que ele dizia eu tinha resposta. Por fim disse que a filha era meia manca.
– Manca? De mentira na certa.
– Ela tem um pequeno problema na perna esquerda. É de nascença, mas quase não se percebe. Eu respondi que não queria pra carrera e sim p’ra mode tirar umas crias.
– Te esconjuro! Dizer uma coisa dessa p’ro homem! Só mesmo tu meu filho.
– Acho que foi a conta e ele não ia ter o que me responder. Talvez mandasse dois capanga da portaria que tinham vindo acompanhar o desenrolar dos fatos me botar p’ra for a. Nisso a própria filha apareceu e perguntou o que acontecia. Aí ele falou p’ra ela que a conversa le dizia respeito. Ela sugeriu que eu entrasse e nós não ficasse ali na porta batendo língua, dando espetáculo p’ra curioso. Foi quando os dois gorila saiu de fininho e foi embora.
– Dentro de casa a conversa muda de figura. Já é um começo, – disse Joaquim.
            – Imagino o jeito do pai, um camarada bater na porta e falar uma porção de despautérios, querendo namorar a sua filha. Coitado do homem.
            – Coitado nada, mãe. Ele é um homem muito equilibrado, tem bom senso e humor também. P’ra mal dos pecados é torcedor do Grêmio. Fui obrigado assistir o jogo com o Nacional do Uruguai ontem de tarde
            – Se conseguiu o que queria, acho que ficou barato. Se a prenda é o que você falou no início e diante do que fez a seguir, poderia ter resultado em algo bem pior.
            – E eu não sei padrinho! Podia ter ido parar atrás das grades por uns dias. Não podemos esquecer que stamos sob o regime militar. É eles que mandam no país. Mas sou bagre ensaboado, liso e escorregadio.
            – Isso significa que agora vai visitar a namorada cada volta e meia. Sua vida vai ser mais tempo em viagem que em casa.
            – Ainda não mãe. Combinamos de eu preparar tudo para a família fazer uma visita aqui na fazenda.
            – Marcaram a data dessa visita?
            – Eu vou ligar e avisar. Eles vem de automóvel. O general está louco por experimentar o carro novo que comprou numa viagem. Até hoje só andou na cidade, uma ou outra viagem curtinha. Ainda tá com cheiro de fábrica.
            – Eles podem ficar hospedados na casa grande. Tem muito lugar lá sem ser utilizado. Podem ficar o tempo que quiserem.
            – Não falamos no tempo que vão ficar, mas creio que não vai ser coisa de um ou dois dias. Uma viagem assim, deve de ser aproveitada para valer à pena.
– Você é o administrador da propriedade. Tome as providencias necessárias e convida seus quase sogros, sua prenda a virem na hora que quiser. Deixo isso por tua conta.
– Me dá ao menos uns dias para dar um jeito na casa. Sempre fazemos limpeza, mas os quarto fechado e tudo, sempre junta poeira. Precise de uma faxina geral para ficar em condições de receber visita.
– Acho até que uma troca dos forros de cama, umas cortinas novas não fazia mal, não acha comadre? – falou Joaquim.
– Eu tinha pensado em tirar as cortinas, lavar tudo. Uma faxina geral nas janelas. Tirar todos os móveis do lugar, tirar as teias de aranha.
– Fique à vontade. Se for preciso eu passo uns dias na cidade. Venho só passear. P’ra isso que tenho o herdeiro que toma conta de tudo.
– Não tem problema, padrinho. Eu cuido de tudo e, caso seja preciso, dou um pulo lá e a gente conversa. O telefone também ajuda.
– Quem diria! Mandei ele p’ra capital a negócios e ele arranjou um “negócio” bem mais importante. Que le parece compadre Pedro? Esse seu filho saiu melhor que a encomenda. Eu ensinei ele a administrar a fazenda, mas isso não fazia parte das lições.
– Coisa que nasce sabendo, compadre Joaquim. Coisa do coração. Inda agora lembrei de quando botei os olhos em Maria Conceição. Fiquei sem chão. A cabeça meia zonza. Nem sei o que falei logo em seguida. Deve de ter sido uma bobagem não muito grande, poise ela acreditou e está aqui comigo tantos ano.
– É coisa do coração mesmo. Nessa hora o juizo sai de casa. Despois vorta mas já é tarde. Hahahahaha!
– Tá rependida, Ceição? – diz Pedro Paulo.
– Ia diantá o que? O jeito é guentá a mão.
– Eu bem que conheço vocês dois! Ficam se atazanando, mas não se largam de jeito nenhum.
– Vamo mudá o rumo dessa prosa. Compadre deve de ter o que mostrare a você filho. Teve umas mudança nos empregados nessa semana.
– Padrinho já me falou. Mas é bom darmos uma volta pela roça e nos pastos para ver como está tudo. Assim tomo pé do que precisa ser feito nessa semana.
– Eu inda so o capataz geral e tenho tudo nos conformes.
– Sei como o senhor comanda tudo, pai. Sei que se pode deixar a propriedade nas suas mãos e ficar despreocupado.
Sairam no jipe percorrendo as diversas áreas da fazenda. Em toda parte Gaudêncio era saudado, cumprimentava, prometia que teriam uma sessão para assistir aos filmes que gravara dos jogos de Internacional x Flamengo e depois Grêmio x Nacional do Uruguai. Tinha os principais lances registrados e num domingo a tarde os projetaria para todos verem. Teria o que mostrare tanto aos colorados como aos gremistas.
Encontraram tudo na mais perfeita ordem. Todos os procedimentos dentro das previsões para não perder prazos das diversas tarefas. Retornaram à sede e Pedro Paulo se dirigiu à sua moradia. As acomodações estavam em ordem. Joaquim e Gaudêncio tomaram banho e depois de tomarem um mate e conversar, contando, depois recontando os detalhes de tudo que houvera durante a semana. Na fazenda houvera necessidade de demitir um peão por ter provocado uma briga desnecessária. No momento que encontrassem um substituto seria preciso contratá-lo, pois não dispunham de reservas. Havia gente sendo sobrecarregada com a situação momentânea.
Nos dias subsequentes Maria Conceição encarregou duas mulheres, casadas com peões de realizar a limpeza em regra na casa grande. Enquanto isso foi com Gaudêncio até São Borja. Compraram um sortimento de forros de cama, panos para fazer cortinas novas, toalhas para os banheiros. Não havia necessidade de preocupação com os gastos. O patrão dera carta branca ao afilhado e ele queria tudo ao gosto. Era importante causar boa impressão aos pais e especialmente à filha, seu objetivo essencial.
Quando tudo ficou pronto, tudo limpo e as cortinas novas colocadas, Gaudêncio decidiu ligar para a capital com o objetivo de participar que tudo estava preparado para receber as visitas.
            Enquanto o telefone tocava, morria de ansiedade, torcendo para que fosse Ângela a atender. Logo ouviu uma voz de homem, dizendo:
            – Alô! Boa noite.
            – Boa noite, general. Aqui é o Gaudêncio. Estou ligando para informar que podem vir. Está tudo pronto. Meus pais e o padrinho estão ansiosos por conhecer ao senhor e sua família. Podemos aguardar vossa chegada para o final de semana?
            – Em princípio estaremos aí no sábado à tarde. Se ocorrer alguma mudança de plano ou algum imprevisto de última hora, eu ligo para avisar. Deixe-me só anotar o número do telefone daí.
            – Eu deixei o número junto com o endereço. Ficou com sua esposa, dona Lourdes. Mas não há problema. Se quiser anotar novamentes. – Gaudêncio repetiu o número do telefone, anotado do outro lado pelo general. – Quero aproveitar para deixar meus cumprimentos para dona Lourdes e para sua filha Ângela.
– Pode deixar que eu transmito. Transmita aos seus pais e ao seu padrinho os nossos cumprimentos. Nos veremos no sábado. Boa noite!
– Boa noite, general.
            No sábado à tarde, Gaudêncio, ao volante de uma das caminhonetes da fazenda, aguardava no trevo de entrada, a chegada dos visitantes, para lhes servir de guia até a fazenda. Não precisou esperar muito e viu apontar o Opala branco que pertencia ao general. Sinalizou para que o seguissem e saiu de seu posto de espera, tomando logo à frente o caminho secundário que conduzia à fazenda. Em pouco mais de meia hora estavam estacionando em frente à casa da vasta propriedade.
Ao desembarcarem, foram saudados por Joaquim e logo pelos pais de Gaudêncio. Este fez as apresentações, uma vez que era o único que conhecida a todos. Cumpridas as saudações preliminares, falou: 
            – Gaudêncio, vamos tratar de instalar os visitantes em seus aposentos. Enquanto isso vou ordenar aos criados que levem as bagagens para dentro.
Com um gesto deu ordens a dois empregados que estavam nas proximidades e logo se aproximaram, para transportar as bagagens ao interior da casa. Os visitantes estavam conhecendo suas acomodações. Não eram tão luxuosas quanto as de sua moradia na capital, mas ganhavam em espaço e conforto. Eram dotadas de abundante luminosidade e arejadas. Seria um imenso prazer passar alguns dias ali, respirando o ar puro do campo, rescendendo a flores silvestres, capim verde, frutas frescas que poderiam ser colhidas diretamente da fonte. Beber leite diretamente da fonte onde é produzido, sem aditivos químicos, nem processos industriais.
Mal tiveram tempo de tomar banho, vestir uma roupa leve, pois o clima estava quente e já estavam sendo chamados para sentarem-se à mesa na ampla varanda da casa senhorial. Estava servido um apetitoso lanche constituído de café recém coado, leite quente, queijo, mel, refresco de limão, pão caseiro, dois tipos de bolo e linguiça. Na verdade poderia ser considerado um pequeno banquete. Era amplamente conhecida na região a prodigalidade de Joaquim com seus hóspedes, bem como o bom tratamento dispensado aos empregados.  
Na pressa de chegar , haviam parado em uma lanchonete num posto de gasolina e comido um sanduíche. Estavam pois como se diz: varados de fome. Foi com indisfarçável alegria que se aproximaram da mesa e fizeram jus aos quitutes que lhes eram oferecidos. Enquanto comiam, a conversa corria informal e dona Lourdes aproveitou para conversar animadamente com Maria Conceição. Precisava tentar obter alguma informação sobre a família, cujo filho estava interessado em ter sua filha por companheira. Pelo que pudera ver até ali, nada havia a depor contra, mas era muito cedo para qualquer julgamento. Seria necessário um tempo a mais para poder formar uma opinião plausível e orientar a filha nessa decisão. O pretendente esperava com certeza uma desicão ao final daqueles dias que iriam passar naquele lugar aprazível.
            À noite os esperava uma animada festa de trovadores, duplas, trios de gaita e violão, declamadores, danças típicas, competições de chula, além de outros folguedos típicos dos pampas gaúchos. O típico churrasco, assado no fogo de chão, servido por assadores vestidos à caráter, intercalado por diversas cuias de chimarrão que rodavam entre todos os presentes. Para encerrar a noite, organizou-se num amplo galpão, um fandango, onde todos eram considerados iguais e Gaudêncio aproveitou para demonstrar suas habilidades de dançarino, rodopiando alegremente com Ângela pelo chão de cimento alisado.
            Ficou alegre em constatar que sua eleita também era boa dançarina. Acompanhou com desenvoltura as evoluções que ele fazia ao compasso das diversas danças típicas. Vestira uma roupa apropriada, comprada especialmente para a viagem, uma vez que não dispunha desse vestuário em seu guarda-roupa habitualmente. A vinda para Porto Alegre, depois de muitos anos no nordeste, havia ocorrido há tempo relativamente curto. O general escolhera para encerrar sua carreira no exército na terra natal e lhe foi oferecido o comando da região de Porto Alegre.  
Estação Ferroviária de São Borja em 1996.

 

Outra vista da estação em São Borja.

 

Acesso à fronteira.

 

Estrada para fronteira.
Igreja São Francisco em São Borja.
 
         O domingo foi usado em longos passeios pelos setores mais próximos da casa, bem como uma visita à sede do município. Onde visitaram os locais mais pitorescos, os pontos históricos e as instalações militares. Visitaram o túmulo de Getúlio Vargas e de João Goulart. Eram os filhos mais ilustres da região. Ambos tinham ocupado o posto supremo da nação em momentos diferentes. Uma excursão ao território argentine ficou para outro dia.
O general não deixou de fazer uma visita à unidade do exército instalada na fronteira. Não iria chegar de surpresa e por isso usou do telefone da casa de Joaquim para avisar ao Coronel comandante de sua presença na região e da intenção de fazer uma visita à unidade. Marcaram para a terça-feira a visita. Depois iriam ao território argentine para conhecer. O comando local se encarregou de comunicar às autoridades portenhas da presença do general e de sua ida ao outro lado da fronteira. A omissão de um comunicado poderia ser encarado como uma forma de pouco caso com as autoridades vizinhas.
Encontrou o quartel muito bem, nada havendo para apontar como descuido, desleixo ou pouco caso. Evidentemente havia sido feito um esforço para não deixar nada for a do lugar. Nem era uma visita oficial e portanto estava apenas cuprindo uma norma de cortesia. Ao se dirigir ao lado argentine, foram acompanhados até a divisa por duas viaturas com soldados a guisa de escolta. Depois de ultrapassaram a fronteira, seguiram sozinhos e aos cuidados dos militares vizinhos. Percorreram a distância até a cidade próxima.
Ponte sobre Uruguai.

 

Posto aduaneiro na fronteira.

 

Outra vista da ponte.
 
 
Passearam, fizeram algumas compras, sempre acompanhados de Gaudêncio e Joaquim. Haviam almoçado no quartel por insistência do comandante que mandara preparar uma refeição especial para o general e seus acompanhantes. Ao entardecer retornaram à fazenda, chegando com a noite fechada. A andança do dia, deixara todos cansados. Optaram por uma refeição leve e foram para cama cedo.

Avião trazendo corpo de Jango.
Povo assistindo guarda fúnebre.



No resto da semana, percorreram um a um os diversos setores da fazenda. As invernadas de engorda, recria, plantações de arroz, bem como as vacas de produção leiteira. Havia também, em escala menor, as hortaliças para abastecer os trabalhadores da fazenda; o pomar com suas macieiras, pereiras, laranjeiras fornecia a maior parte do suprimento de frutas. Um parreiral plantado numa encosta pedregosa, produzia uvas de excelente qualidade usadas na produção de um vinho colonial de boa qualidade. Quando envelhecido por cinco ou seis anos, adquiria melhores características. O proprietário se orgulhava dessa característica, pois for a o responsável pela implantação.
            Em todos os momentos que suas obrigações lhe permitiam, Gaudêncio estava ao lado de Ângela. Apresentava a moça aos conhecidos, amigos e aos vizinhos com os quais tinha encontros devidos ao trabalho. Vinham buscar algum insumo que a fazenda lhes repassava, a preço mais vantajoso do que se fossem adquiri-los no mercado normal. Entre idas e vindas, trabalhos e negociações com fornecedores, rodadas de chimarrão, noites de trova e cantoria, a semana chegou ao final. Na segunda feira, após dois domingos convivendo com os moradores da fazenda, chegou a hora de retornarem para Porto Alegre. Na hora da despedida, Gaudêncio aproximou-se de Ângela e perguntou:
– Então, você chegou a uma conclusão? Decidiu aceitar ser minha namorada?
            Aparentando alguma surpresa, Ângela disse:
– Acho que posso lhe dar uma chance. Se não der certo, não se perde nada além de algum tempo.
            – Posso anunciar a meus pais e também aos seus, que a partir de hoje nós somos namorados? – falou elevando tom de voz, para que todos ouvissem.
            – É isso mesmo, minha filha? – perguntou o General.
            – É sim papai. Vou dar-nos uma chance. Além disso estou gostando da idéia de viver numa fazenda. É muito bom o ar que se respira, o espaço que nos cerca, a liberdade de movimento e o canto dos pássaros, o cheiro de terra.
            – Fico satisfeito e dou meu apoio.
            – Nós o receberemos em nossa casa como a um filho, – disse dona Lourdes.
            – Serão sempre bem-vindos aqui, – disse Joaquim. – Fico satisfeito em ver meu afilhado escolhendo uma moça de boa família para companheira.
            – Para mim ela será como uma filha, – disse Maria Conceição, estendendo a mão e abraçando a que agora era a namorada do filho.
            Mãos foram estendidas, adeuses pronunciados e desejos de boa viagem extgermados pelos que permaneciam ali. Logo a família embarcou no carro e se dirigiu para a estrada. Quem não cabia em si de contentamento era Gaudêncio. Atingira seu objetivo. Era agora o namorado da filha do general Marcelino Ferreira. Tinha a sensação de ter conquistado um valioso troféu. Mas teria ainda muitas idas e vindas pela frente, até conduzir sua amada aos pés do altar. Diante do padre prometer fidelidade, amor e respeito para a vida toda.
            – Meu filho! Você encontrou uma pérola preciosa, – falou Maria Alice. – É um amor de pessoa. Mesmo sendo filha de um oficial de alta posição, é simples, educada e sabe até cuidade de uma casa. Espero que se entendam e depois encham a casa de netos.
            – Sua mãe falou tudo meu filho. Parabéns pela escolha. Não podia encontra melhor partido.
            – Só sobrou a mim emendar o que seus pais disseram, meu afilhado. Vou considerer a moça como minha nora. Acho que vai ser a primeira mulher a ter dois sogros de um único casamento.
            – Obrigado padrinho. Pai, mãe! Fico satisfeito que aprovem minha escolha. Vamos precisar de algum tempo para nos conhecer melhor, mas me parece que começamos bem.
            – Convém se matricular em um curso para melhorar sua instrução. Até mesmo fazer uma faculdade mais tarde.
            – Vou pensar nisso, padrinho. Acho que meus fundilhos não vão estranhar muito a diferença entre uma sela e um banco escolar.
            – Se estranharem, trate de acostuma-los. Seu futuro vale um pequeno sacrifício. Sem contar que no futuro vai ser útil na administração dos negócios da fazenda.
            – Ouça as palavras de seu padrinho, meu filho. Ele sabe o que está falando. Bem que poderia ter estudado antes. Oportunidade não faltou, mas você foi teimoso. Preferia montar a cavalo, ir para as lavouras de arroz.
            – Não vamos lamentar o que passou. Ele aprendeu muita coisa importante que hoje aplica no trabalho. O que falta pode ser aprendido com um pouco de esforço e tempo.

            – Vou me esforçar dobrado, pode deixar. Agora tenho um motivo a mais para me empurrar para frente.

Gaúcho típico com sua neta.
Vista dos campos do Rio Grande do Sul.

 

Gaúcho de São Borja! – Capítulo IX

 

Hotel no centro de Porto Alegre.

 

 Encontrando a prenda do coração.
Tendo encontrado tudo nos conformes no escritório dos agentes, nosso estreante na cidade grande, saiu dali resolvido a marcar sua passage e voltar para os pagos. Eis que, enquanto caminhava a procura de uma agência da Varig para deixar acertada a hora da viagem, sentiu-se impressionado com um edifício de apartamentos situado bem em frente a uma praça. Era moderno, mais de 20 andares de modo a ser obrigado levantar a cabeça para ver os últimos andares. Quando baixava o olhar, ofuscado pelo sol que já ia alto, seus olhos foram atraidos como por um ímã, para a sacada do 5º andar. Ali uma jovem mulher estava apreciando os vasos com flores existentes e de vez em quando lançava um olhar para a rua mais abaixo.
Era de uma beleza incomum, foi o que o jovem observoufd. Rapidamente contou os andares, a localização da sacada bem no meio do edifício e tomou uma decisão. Iria depositar aos pés da bela prenda seu coração, sua vida, enfim seu ser inteiramente. A visão o deixara instantaneamente nocauteado. Como diziam entre os peões, o coração tinha capotado naquelas curvas suaves e sedutoras. O gaucho guapo estara literalmente “de quatro” diante de tamanha formosura.
Resolução tomada e posta em prática. Entrou pela portaria e, sem ao menos dizer nada nem perguntar por onde, foi direto até o elevador que estava casualmente aberto, entrou e apertou o botão com o número 5. A porta fechou e iniciou a subida, bem mais rápido que ele imaginava, mesmo assim a viagem até o quinto andar pareceu durar uma eternidade. No momento em que a porta abriu saltou para fora e via à sua frente uma porta com o número 501. Pela posição da sacada e do elevador, deveria ser aquele o apartamento onde morava o objeto de sua avassaladora paixão à primeira vista.
Um pouco receoso, mas sem titubear, apertou o botão da campainha por um longo momento. Enquanto isso acontecia, o porteiro tendo visto o estranho embarafustar saguão a dentro e subir no elevador, chamou dois ajudantes e os enviou em busca do intruso, porém não sabia onde tinha ido. Tiveram que observar onde o elevador parara, para só então tomar o outro ao lado e seguir. Enquanto isso o incauto e apressado Gaudêncio via a porta ser entreaberta e um rosto severo, bem barbeado, cabelo curto no estilo militar se mostrar na fresta. Uma voz impessoal perguntou:
            – Quem é o senhor? O que deseja?
            – Eu sou Gaudêncio das Neves, um seu criado. Venho lá de São Borja, mas precisamente da fazenda Santa Maria. Acabo de ver a sua filha na varanda de sua morada. Me apaixonei perdidamente por ela. Como não sou de perder tempo, decidi logo vir aqui lhe pedir a mão dela em namoro e sem muita demora a pedirei em casamento.
– Mas assim, sem sequer conhecer minha filha, sem conversar com ela, nem saber o que ela acha disso?
            – Não ai problema, meu senhor. Eu sou capaz de conquistar o amor dela em dois tempos. É apenas me dar uma oportunidade.
– Minha filha é acostumada à da cidade grande, muito mimada. Não é dada com afazeres domésticos, nunca viu uma fazenda. Ela leva vida de princesa. Creio que isso não dará certo, seu Gaudêncio.
– Nada disso é problema, patrão. Sua filha comigo não sentirá falta de nada. Não terá necessidade de trabalhar. Terá criadas para fazer os trabalhos da casa e será servida como uma rainha.
            – Tem outro problema. Ela é muito nervosa. Por qualquer motivo tem crises de neurastenia e causa sérios problemas dentro de casa.
            – Isto acaba com o casamento. O amor de um homem de verdade lhe dará o sossego e tranquilidade de que precisa. Pode deixar comigo que eu garanto a mão.
– Além de tudo isso, minha filha é acostumada a viajar todos os anos para a Europa, Estados Unidos e outros países que ela visita regularmente. Creio que isto irá lhe colocar em dificuldades.
            – Mas que dificuldades, tchê! Vou levar sua filha a todos os lugares do mundo que ela desejar visitar. Dinheiro não é problema, meu senhor. Sou herdeiro universal de Dom Joaquim Monteiro, criador de gado e plantador de arroz , dos mais ricos de São Borja. Não se consegue visitar a fazenda toda em um único dia. É muito grande. Tem inclusive parentesco distante com o Presidente Getúlio Vargas.
– Ia me esquecendo de lhe dizer. O problema mais grave com minha filha é que ela é um pouco manca da perna direita. Um probleminha de nascença.
– Mas o que tem isso? Eu não a quero para carreira. Quero apenas para tirar umas crias. O que ela tem de beleza, será suficiente para tornar sem importância qualquer outro problema que ela tenha. Eu estava na praça em frente e quando ela apareceu na varanda, eu quase tive um troço. Levei um baita susto, tamanha é a beleza desta criatura. Aceite os parabéns senhor….?
            – Sou o General Marcelino Ferreira, comandante da guarnição militar da região metropolitana de Porto Alegre.
            – Com quem o senhor está conversando papai? – ouviu-se uma voz melodiosa, vinda do interior do apartamento.
            – É bom você vir aqui ver pessoalmente. Acho que vai ser do seu interessi.
            Em instantes a dona da voz surgiu por trás do homem, perguntando:
– Mas o que está acontecendo?
            – Está aqui um homem apaixonado à primeira vista por sua pessoa. Você se exibiu na sacada e ele viu. Ficou loucamente apaixonado e está aqui pedindo a sua mão em namoro. Que lhe parece? Vamos conhecer a figura?
– Convida o moço a entrar, – disse por trás dos dois a mulher do general, senhora Lourdes, – pelo menos conversaremos e depois se vê o que pode ser feito.
Nisso os dois ajudantes do porteiro que haviam chegado quando a conversa ia a meio e ficado esperando o desfecho. Estavam prontos a agarrar o intruso e colocá-lo no olho da rua, mas diante das últimas palavras ouvidas, decidiram bater em retirada indo contar ao porteiro o que sucedia.
            – É melhor do que ficar criando discussão aqui na porta. Logo os vizinhos vão reparar e vira uma bagunça danada. – disse a filha.
            – Aguarde um instante que vamos abrir a porta. Por motivo de segurança ela fica travada por esta corrente. Cidade grande é assim mesmo.
            – Bem que me avisaram para tomar cuidado. É a minha primeira vinda a capital. Nunca saí muito longe de casa. Sou um pouco xucro, mas aprendo fácil. Em pouco tempo domino as manhas da vida daqui da cidade. Não há de ser mais difícil que domar um potro, um boi bravo.
A porta se abriu de par em par e Gaudêncio foi convidado a entrar numa sala, ricamente mobiliada, mas sem exageros de espécie alguma. Tudo tinha a medida certa. Sentou-se em uma poltrona que lhe indicaram e olhou ao redor ficando impressionado com a fineza do ambiente. Logo chegou dona Lourdes, trazendo uma cuia de chimarrão e uma garrafa térmica com água na temperatura certa de cevar o mate. Os olhos de Gaudêncio ficaram chocados com algo que viu, fazendo parte da decoração. Por toda parte escudos, símbolos diversos e as cores do uniforme do Gremio de Futebol Portoalegrense. Teria que controlar sua paixão colorada para não por a perder os pontos que conquistara até o momento. Seria como “pisar em ovos”. Um passo em falso e se quebravam todos.
– O moço certamente toma chimarrão! – disse de modo interrogativo o dono da casa.  
– Mas com certeza, tchê! Já viu um gaúcho que não aceita um amargo. Isto não existe.
            – Acho que a minha filha ainda não foi apresentada. Aliás nem o senhor disse seu nome. Falou uma porção de coisas e não disse o seu nome.
            – Eu mesma me apresento, mamãe. Sou Ângela Ferreira. E você? Creio que posso dizer assim!
            – Sou Gaudêncio das Neves, ao seu dispor, senhorita. E a senhora sua mãe, qual é o nome dela?
            – Eu sou Lourdes e fico honrada em receber em minha casa um gaúcho vestido a caráter. Já lhe disseram que lhe cai muito bem esta vestimenta típica?
– Obrigado, dona Lourdes. O senhor tem uma bela família, General.
            – Fico lisonjeado com isso. Mas ainda falta o filho mais velho. Ele está na AMAN. No final do ano que vem deve sair de lá como aspirante a oficial. Decidiu seguir os passos do pai.
            – Meus pais, trabalham desde que se casaram, para Dom Joaquim Monteiro, dono da fazenda Santa Maria. Com o tempo meu pai virou uma espécie de capataz geral. É ele que comanda todos os empregados tanto da criação de gado como do plantio de arroz. Minha mãe é a encarregada do setor de leite. Fazem queijo, requeijão, ricota e vendem leite para o laticínio.
            – Que mal lhe pergunte, como o senhor se tornou herdeiro da fazenda?
– Quando eu nasci, convidaram para serem meus padrinhos o Sr. Joaquim e sua esposa Ana Maria. Eles não tiveram filhos. Procuraram tudo quanto foi médico especialista, mas não houve jeito de nascer um herdeiro. Acabaram me adotando por assim dizer. Depois que a madrinha faleceu há um ano e meio atrás, o padrinho passou um tempo dando a impressão de que iria seguir a esposa. Foi meu pai que trouxe ele para a fazenda e lá tomamos conta dele, até ele se recuperar. Quando se restabeleceu, fez o inventário de tudo, mas não havia herdeiros de parte dela, ficou tudo para ele.
– E por não ter herdeiros lhe nomeou como tal?
– Aí está a questão. Não tendo a quem deixar sua fortuna, me nomeou herdeiro de todos os bens que possui. Hoje ele viaja para a Europa, Estados Unidos e outros países. Quem fica administrando tudo sou eu. Agora mesmo vim para a capital tratar de negócios com uma empresa de investimentos. Ele quer que eu tome conta de tudo. As vezes tenho a impressão de que ele está me preparando para depois partir. Sei que ele ainda sente muita falta da madrinha.
– Meu caro Gaudêncio! Tudo isso é muito bom, mas minha filha precisa lhe conhecer melhor, antes de eu consentir que você a namore. Podemos começar por fazermos uma visita à São Borja; conhecer sua família, seu padrinho, enfim tomarmos contato mais de perto. Até vai nos fazer bem passarmos uns dias no campo. Vivemos tanto tempo em casas do exército, rodando os quatro cantos do país e só agora, que a aposentadoria se aproxima, estamos morando em algo que é nosso. Mas viver em um apartamento é bem diferente do que num lugar aberto. Levantar e não bater com o nariz na porta do vizinho da frente, do lado.
            – Mas podemos combinar isso, general. Volto para a fazenda e deixo tudo pronto para a vossa chegada. Tenho certeza que irão ser recebidos com toda alegria. Minha mãe vai ficar orgulhosa de conhecer sua família, principalmente a senhorita Ângela.
– Mas primeiro quero ouvir a opinião das duas. Minha filha e a minha esposa, o que acham da ideia?
– Até que me atrai a idéia de passar uns dias numa fazenda, – disse dona Lourdes. – E você minha filha, que é parte mais interessada no jogo, o que acha disso?
            – Podemos ir, sem assumir nenhum compromisso prévio. Temos que nos conhecer melhor, antes de qualquer decisão que envolva tanta coisa como é o caso aqui. Alguns dias de convivência, poderão nos dar uma ideia do que pode ser esperado do futuro.
            – É uma boa ssugestão. Já resolve os negócios. Vou voltar para a fazenda. Preparo tudo e aviso vocês quando puderem chegar por lá. Mando as passagens de avião.
            – Não precisa se preocupar com isso. Basta nos avisar que iremos de carro. Sou viciado em dirigir e vai ser uma boa oportunidade de testar meu carro novo na estrada. Por ora vamos começar por almoçar juntos agora. Creio que tem água suficiente no feijão para mais um encher a barriga. – falou o general rindo alegremente.
            – Para mim serve. Está na hora do almoço e eu teria que procurar um restaurante. Vou aceitar o seu convite e aproveitamos para conversar mais um pouco.
            Enquanto mãe e filha foram até a cozinha para supervisionar a cozinheira na preparação de mais um lugar à mesa, o general convidou o candidato a genro para tomarem um aperitivo. Serviu uma dose de whisky para cada um e alcançou o copo para Gaudêncio, sentando-se com o outro na mão.
            – À sua saúde e a uma boa amizade entre nossas famílias para começo de história!
            Os copos foram levantados em sinal de brinde, depois beberam um gole cada um. Gaudêncio tivera oportunidade de experimentar da bebida, considerada coisa de grão fino, uma vez em casa de Joaquim. De sua parte preferia mesmo uma cachaça  da boa. Pensando em iniciar um relacionamento com a família do general, era importante acostumar a tomar, pelo menos de vez em quando, uma dose de whisky. Procurou sentir todas as nuances do sabor da bebida e identificar sua características básicas. Olhando novamente para os detalhes em azul, branco e preto na decoração, falou:
            – Não resta dúvida que aqui é a casa de uma família gremista!
– Sem exceção. Levei a minha Lourdes a assistir muitos jogos do Grêmio, mesmo nos estados do norte onde servi por bom tempo. A filha cresceu vestindo as cores do time e nunca pensou em mudra de cor.
            – Ontem fui assistir o jogo do Colorado com o Flamengo. Que sofrimento, mas no fim ganhamos de 1×0.
            – Colorado?
            – Sim, desde criança. Mas não sou fanático. Lá na fazenda jogamos umas peladas. Sempre dá Colorado contra Grêmio. Hoje um ganha, amanhã outro e no fim tudo termina em festa.
            – É assim que tem que ser. A torcida se resume dentro do campo, nas brincadeiras entre colegas e amigos. É uma coisa saudável. Quando degringola para o campo de ofensas e desrespeito não é mais esporte. Vira anarquia.
            – Assim mesmo que eu penso. A graça está justamente no ganha/perde, ora de um lado ora de outro.
            – Vamos junto assistir o jogo de domingo? Tem um jogo do Grêmio, amistoso com o Nacional do Uruguai. Um jogão dos bons.
            – Eu tinha pensado em viajar amanhã, mas posso deixar para segunda feira e vou assistir a esse jogo. Assim levo umas fotografias e um filme para os amigos gremistas da fazenda verem. Mostro a eles que fui assistir um jogo de cada lado. Se mostrar só o do Colorado, eles ficam magoados.
            – Sábado temos uma sessão de estréia de uma peça de teatro para ir. Vou ver se consigo mais um ingresso para podermos ir juntos.
            Gaudêncio percebeu que o general simpatizara com ele e sentiu-se mais confiante. Caberia a ele jogar toda sua sedução para encantar bela filha e assim atingir o objetivo que o levara a cometer a pequena loucura daquela manhã. Subir se autorização e tocar a campainha de um apartamento sem ao menos saber que ali morava, bem pensado era maluquice das grandes. Mas estava feito e dera resultado melhor do que poderia ter esperado. Agora era seguir em frente e ver onde iria parar tudo isso.
            O almoço foi servido e Ângela veio chamar os dois. Sentaram-se e Gaudêncio sentiu-se um pouco acanhado naquela sala de refeições requintada. Não era de todo xucro nas etiquetas, pois a madrinha lhe dera algumas lições, mas nunca tivera oportunidade de sentar-se a uma mesa tão fina. As louças todas de porcelana finíssima, talheres de fino acabamento, guardanapos impecávelmente brancos, copos de cristal. Uma garrafa de vinho tinto recem aberta estava ali para acompanhar a refeição. A comida não era nada for a do normal, embora estivesse tudo acondicionado em recipients de alta qualidade.
            Serviram-se, tomando ele o cuidado para não exagerar nas quantidades. Preferia ficar com um pouco de fome do que servir um prato cheio demais. Notou com satisfação que o general não era dado a muito requinte. Serviu-se generosamente e comeu com gosto. Provavelmente esse hábito vinha de suas estadias em acampamentos militares, onde determinados hábitos eram deixados em segundo plano. Por fim, seguindo exemplo do dono da casa, Gaudêncio repetiu e parou quando estava plenamente satisfeito. O vinho estava ótimo e tomaram até a última gota. As mulheres por sua vez tomaram pequenas porções, como convinha a uma senhora e sua filha.
            A lauta refeição foi arrematada com um cálice de licor que o general serviu para todos, sentados na sala de visitas. Passaram algum tempo conversando e em seus deslocamentos de um lugar para o outro foi possível percber uma leve claudicação de Ângela. Algo muito pouco perceptível. Praticamente não lhe afetava o desempenho em nada. Havia fotografias do baile de debutantes em que ela estava dançando, ela jogava ou jogara Voleibol. Pelo menos isso mostrava uma fotografia ampliada, onde aparecia de uniforme esportivo numa quadra desse esporte. A alegação do general de que isso seria um impedimento para o relacionamento dos dois era apenas um pretexto para despedir um inconveniente que lhe batera à porta.
            Vendo o relógio notou que o tempo passara e eram 14h. Pediu licença e se despediu, ficando combinado que iriam domingo ao Olímpico ver o jogo. Se o general conseguisse um ingresso para ele, lhe avisaria e ele os acompanharia ao teatro sábado à noite. Ao apertar a mão de Ângela, sentiu-lhe a maciez, a delicadeza, junto com um leve tremor, a sua face se cobriu um leve rubor. Ela também estava influenciada com a presença dele. Foi até a agência da Varig e marcou o seu embarque para a segunda feira a tarde. Avisou o padrinho de que passaria o final de semana na capital e chegaria segunda feira à tarde. Não deixou transparecer nada do que acontecera naquela manhã.
            Voltou para o hotel e ficou ali algum tempo vendo televisão, onde estava passando um filme que lhe interessou. Pouco anteso do jantar o general ligou para a portaria do hotel, deixando recado para ele de que havia conseguido o ingresso para o teatro. Estaria a sua espera no começo da noite de sábado. Lembrou de ir na manhã seguinte procurar a agência e adquirir os ingressos para o jogo de domingo a tarde. Aproveitou e deixou os filmes já usados para revelar e comprou outros em quantidade suficiente para registrar as diferentes etapas de seu passeio na capital.
            A cada pouco seus pensamentos voltavam para a Formosa filha do general. Conhecera inúmeras prendas de grande beleza nos campos de São Borja, mas nenhuma fizera seu coração pulsar tão intensamente quanto Ângela Ferreira. Não saberia explicar. Parecia algo mágico, místico mesmo. Bastara olhar sua silhueta contra a luz da manhã ali na sacada e sentire uma fisgada no peito. Ouvira falar de um tal de cupido que atira flechas mágicas enfeitiçando os corações dos jovens para se enamorarem. Vai ver que fora isso que acontecera com ele.
            À noite voltou ao cinema onde estivera na segunda feira e assistiu outra fita que entrara em cartaz. Caminhou pelas ruas e depois voltou ao hotel. A idéia que chegara a fulguar em sua mente no primeiro dia de procurar uma casa noturna para ver se encontrava companhia feminine, sumira completamente. Seus pensamentos estavam fixados em Ângela e ela ocupava cada momento de sua vida. Dormiu pensando nela e na manhã seguinte adquiriu os ingressos e depois ligou do hotel para a casa dos pais avisando que não havia necessidade de se preocuparem com os bilhetes. Ele os providenciara.
            Almoçou num restaurante diferente e depois caminou até o lugar do circo. Estava disposto a ver novamente as exibições de habilidades dos acrobatas e equilibristas. Era bem provável que tivesse havido alguma mudança na apresentação daquele dia. De fato os números eram ligeiramene diferentes dos que havia visto da primeira vez. Ao sair do circo passou por uma loja de roupas e comprou para si duas mudas completes de roupas. Aproveitou e também procurou umas camisas e bombachas para o pai. Um vestido para a mãe. Precisou fazer uso de sua memória visual para encontrar um número que ficasse bom nela. Era mais magra que o habitual em sua idade e não era fácil conseguir acertar o manequim. A vendedora lhe informou que era possível fazer ajustes para maior ou menor se fosse preciso e ele pagou tudo, levando o que comprara para o hotel.
            De repende lembrou que esquecera do tamanho de sua mala. Era pequena e não havia espaço sobrando. Teria que ver no sábado uma bolsa ou algo assim para acondicionar as compras. Daria um jeito. Comprara e pronto. Levaria tudo, nem que fosse preciso pagar algum excesso de bagagem no avião. Ficou assistindo televisão no hotel depois do jantar e depois foi dormir.
            A manhã de sábado passou procurando uma pequena mala para acomodar suas compras e pensou em adquirir um presente para Ângela. Mas o que ficaria bem? Uma jóia não estaria na hora, acabavam de se conhecer. Roupa? Desconhecia as suas preferências e não teria como adivinhar. Uma vendedora veio em seu socorro, sugerindo um perfume. É isso aí! Vou comprar um perfume bem suave, que combine com a suavidade e delicadeza da moça. Procurou por uma perfumaria, anexa a uma farmácia e passou mais de meia hora testando os odors de diversos frascos, até se decidir por um deles. Pediu para fazerem um pacote para presente que foi prontamente providenciado. Levou tudo ao hotel e tornou a descer para almoçar.
            A tarde passou no hotel cuidando de sua aparência. O cabelo estava bem aparado e o bigode precisou apenas de um leve retoque para deixá-lo ao seu gosto. Por volta das 5h começou a se vestir, caprichando nos detalhes. Não queria parecer afetado, mas também não convinha dar a impressão de desleixo. Ia participar de uma sessão de estréia de uma peça de teatro famosa, junto com uma família distinta. O pai da moça era general do exército, comandante da região militar. Por volta das 7h apresentou-se na portaria do edifício. Dessa vez não entrou direto. Chegou na portaria e pediu para ser anunciado. Levava na mão o pacote para presente que daria à Ângela. O porteiro comunicou-se com a família e logo o autorizou a subir.
            Pegou o elevador e alguns instantes depois chegava novamente diante do 501. Mal havia tocado a campainha e a porta estava sendo aberta. Dessa vez sem ter a corrente de segurança, pois haviam visto pelo olho mágico de quem se tratava. Ângela o convidou a entrar e ele aproveitou ali mesmo, depois de a porta ser fechada, para entregar o presente que trazia. A moça agradeceu e logo seus dedos delicados desfizeram o laço de fita e desembrulharam o conteúdo. Abriu o vidro e lhe sentiu o suave perfume. Seus olhos brilharam e ela falou:
            – Obrigada, Gaudêncio. Como adivinhou que esse é meu perfume predileto?
            – Acho que adivinhei mesmo. Tive a impressão de que ele combinaria com sua personalidade, sua delicadeza.
            – Vocês vão ficar aí na porta de conversa? Venham para cá. Vamos tomar uma refeição leve antes de irmos ao Teatro. A peça deve terminar tarde e até lá ficaremos com fome. – falou o pai chegando perto.
            – Olhe pai que perfume eu ganhei! Exatamente o que eu gosto.
            – Estou vendo que encontrou alguém de bom gosto e afinado com o seu.
            – Vamos comer pois ainda temos que terminar de nos vestir para a noite, – falou Ângela.
            Comeram pão com presunto, queijo fatiado, acompanhado de café com leite. Depois a família tratou de ultimar seu vestuário para sair. O general estava pronto, faltando apenas colocar o paletó e a gravata. Isso levaria um instante. Faltando cerca de meia hora desceram para embarcarem num taxi que os deixou à porta do teatro. A peça excedeu as espectativas de todos e em vários momentos era possível ver gente enxugando as lágrimas, tamanha era a carga emotiva do enredo. Ao saírem eram visíveis os sinais das lágrimas, especialmente no rosto das damas, onde a maquiagem ficara borrada ou fora removida pelo uso dos lenços. Ninguém se importou com isso pois voltariam para suas casas sem dar oportunidade a mais ninguém de observar o estrago.
 
Teatro Renascença.
 
            Gaudêncio se despediu à porta do edifício, deixando combinada a hora de irem no domingo para o estádio. Dona Lourdes falou:
            – Por que não vem almoçar com a gente? Depois podemo sir mais tranquilos para o estádio. Chegando mais cedo, pode-se escolher melhor o lugar para ver a partida.
            O convite foi aceito e todos seguiram para ter uma noite de sono, embalada por lembranças da peça de teatro assistida há pouco.
            No domingo às 10h 20 min. Gaudêncio chegou à casa do general. O clima era todo em azul, branco e preto, até a toalha de mesa, os guardanapos, os copos continham o símbolo. Sentiu-se encolher, mas não diria nada. Haveria tempo para mostrar, na hora oportuna, sua preferência pelo Colorado. Almoçaram e depois de um pequeno Descanso seguiram para o estádio. Chegaram com mais de hora e meia de antecedência. Entraram, escolheram o lugar para sentar e ali ficaram esperando. Haviam levado sanduiches e garrafas de água para suportar o calor da tarde que seria forte e demorado. No meio de uma multidão azul, o tempo passou rápido e quando viram os times haviam feito o aquecimento e faziam agora sua entrada para a partida.
 
Povo na rua em dia de jogos dos dois clubes.
 
            O resultado não importava muito a Gaudêncio, mesmo assim, acabou torcendo pelo time brasileiro. Naquele momento era Brasil contra Uruguai. Ganhar dos estrangeiros sempre era bom.
            O jogo terminou com um empate em 2×2 e os torcedores não ficaram plenamente satisfeitos. Mesmo assim não haviam sido derrotados, pois ultimamente vinham sofrendo com uma série de derrotas inaceitáveis. Diante disso um empate com o Nacional do Uruguai, tinha um sabor menos amargo. Melhor teria sido a vitória, mas na impossibilidade e tendo em vista o equilíbrio havido durante o jogo, era um resultado satisfatório.
            Retornaram para casa, despediram-se e combinaram comunicar-se para marcar a data em que a família visitasse a fazenda. Gaudêncio voltou para hotel onde preparou suas malas. Não iria sair muito cedo para o aeroporto, mas dormir bastante estava a lhe fazer falta. Andara abusando durante a semana, deitando tarde e levantando cedo. Jantou no hotel e depois de olhar o fantastico na TV, foi dormir. Levantou pela manhã a tempo de tomar café. Depois fechou a conta, pediu a um carregador para levar as malas para um taxi e foi para o aeroporto. Almoçaria por ali mesmo e logo embarcaria no avião. Não queria chegar atrasado e não havia mais nada a fazer.
            Pontualmente às 16 h o avião tocou a pista de pouso do aeródromo de São Borja. O padrinho Joaquim o esperava no saguão e o abraçou carinhosamente. As bagagens foram levadas para o automóvel e voltaram para casa.

Gaúcho de São Borja! – Capítulo VIII

 

 

 

 

Área de manobras e cargas.

 

 

Vista do Salgado Filho.

 

 Conhecendo a capital
Num belo dia de sol, Gaudêncio das Neves, depois de sofrer um pouco durante os momentos mais críticos de um voo num avião comercial, desembarcou no aeroporto Salgado Filho, na capital Porto Alegre. Era seu primeiro voo mais longo. Havia feito algumas experiências em voos panorâmicos sobre as fazendas da região, em companhia do padrinho Joaquim. O aparelho em que agora voara, era equivalente a uma porção daqueles em que tivera oportunidade de fazer sua estréia nos ares do Rio Grande.
Estava pilchado com seu traje típico e olhou assustado para a quantidade nunca imaginada de aviões, as dimensões do aeródromo, o pátio de manobras e estacionamento. Tudo era gigantesco. Estava acostumado às amplidões do pampa, onde as coxilhas se estendem a perder de vista, alternando pastagens, capões de mato, plantações e aqui ou ali uma sede de fazenda. O aeroporto de São Borja, mesmo não sendo pequeno, parecia um campinho de várzea perto de um Beira Rio, Olímpico ou Maracanã. Orientado pelos funcionários da companhia aérea, dirigiu-se para a área de desembarque, onde recebeu sua bagagem. Após perguntar pela saída, encontrou finalmente um taxi que o levou para o hotel previamente reservado pelo padrinho.
Entrou no hotel, olhando curiosamente para todos os lados. Suas estadias anteriores em hotéis haviam ocorrido em lugares menos imponentes. Era ali que Joaquim se hospedava nas raras ocasiões em que vinha para a capital. Era suficientemente bom para satisfazer as exigências de um homem rico, não excessiamente sofisticado. O registro foi preenchido, um adiantamento de duas diárias foi exigido e depois encaminharam o hóspede para o seu aposento. Localizava-se no 7º andar, com vista para a Av. Farrapos. Era estranho observar os carros e as pessoas dali de cima. Os primeiros se assemelhavam a chapas mais ou menos planas que deslizavam pelas ruas. Já as pessoas pareciam bonecos, tendo em destaque a cabeça e os braços, deslocando-se pelas calçadas. Aqui e ali se viam toldos de vendedores de rua. Carrinhos de cachorro quente, sanduiches e outras iguarias.
Guardou suas roupas no guarda-roupa, os objetos de uso na cômoda, onde havia um amplo espelho. Foi até o banheiro e aliviou a premência de suas necessidades fisiológicas. Olhou no relógio e viu que era hora de ir almoçar, do contrário perderia a hora e depois teria que esperar a janta, ou então comer alguma coisa num boteco. Conferiu se tinha no bolso os documentos, dinheiro e objetos de uso constante, depois desceu e pediu informação na portaria. Indicaram lhe um restaurante situado a duas quadras dali, onde poderia encontrar uma refeição de seu gosto. Sua forma de trajar denunciava a orígem e indicava o tipo de lugar escolheria para almoçare.
Chegou lá e encontrou uma churrascaria bastante movimentada. Apesar de já serem 13h 15 min, ainda estava cheio, tendo poucas mesas livres. Escolheu uma que dava visão de todo o ambiente e uma parte da rua. Queria saborear a refeição enquanto prestava atenção no movimento geral, nas atitudes dos demais clientes, o movimento da rua. Estava em viagem de aprendizado, portanto tudo que fosse novidade lhe interessava nesse sentido. Um garção lhe trouxe o cardápio e ele não demorou na escolha. O prato principal seria a costela no espeto, tendo por acompanhamento um pouco de salada, arroz, feijão e algum petisco como uma linguicinha, um miudo de frango.
Enquanto esperou correu o olhar por sobre todo povo sentado, ocupado em dar conta de seus pedidos, mantendo com os companheiros de mesa frações de conversa em momentos de interrupção da mastigação. Em seu íntimo ficou pensando no fato de que, na hora de comer, não existe grande diferença entre ricos, pobres, humildes, letrados ou qualquer outra diferenciação. O importante era colocar a comida para dentro, mastigando e engolindo num vai-vem ininterrupto. Seu pedido chegou e interrompeu seus devaneios, pondo-se também a fazer o mesmo que os demais faziam. A carne estava muito boa e esqueceu completamente seus pensamentos de há pouco. A preocupação principal era dar cabo daquele naco de costela, duas linguiças e um pouco de feijão com arroz que pusera no prato. O espeto com carne passou mais uma vez e deixou uma segunda porção, ao cabo da qual ele sentiu que estava farto. Comer mais seria exagero e poderia passar mal.
Pagou a conta, mas antes pediu o cafezinho. Enquanto aguardava o seu “pretinho fresco passado no saco”, pegou um palito e discretamente removeu de entre os dentes alguns nacos de carne que ali haviam ficado presos. Depois saiu caminhando lentamente pela rua, observando todos os pormenores. Estava na capital e ali, como em qualquer outra cidade, havia detalhes característicos próprios, dificilmente encontráveis em outra. Queria reter o máximo de informações na mente. Era segunda feira e o encontro com os agentes financeiros do padrinho estava marcado para a manhá de terça. Tinha pois a tarde livre para passear, conhecer o que desse tempo de ver. Voltou ao hotel, trocou de roupa, colocando uma que chamasse menos atenção.

Beira Rio, vista interna.
Vista aérea do Beira Rio.


Desceu e perguntou se era muito longe dali o estádio do Beira Rio, bem como do Olímpico. Era torcedor do Colorado, mas não do tipo fanático. Respeitava a liberdade de cada qual ter sua preferência. Afinal, o que seria dos outros clubes, se todos resolvessem torcer para o mesmo? Não teriam de quem fazer troça nos casos de vitória ou derrota. Nem mesmo adversário teriam mais, uma vez que isso implicaria na extinção dos outros. Tinha por lema: “Na hora do jogo, torcer até ficar rouco e quase sem fôlego. Depois, confraternizar pouco importando que havia sido vencedor.” Foi informado que poderia tomar um ônibus na esquina e desembarcar ao lado do Beira Rio. Depois num outro coletivo chegaria ao Olímpico. Estava munido da filmadora Super 8 do padrinho, adquirida na recente viagem à Europa. Registraria as imagens de sua visita aos dois monumentos dos maiores clubes de futebol do Rio Grande do Sul.
Decidiu por tomar um taxi, pois assim chegaria mais depressa e poderia dedicar mais tempo a visita que iria fazer. Saiu para a rua e logo um veículo era parado ao seu sinal. Embarcou e deu o endereço onde queria ir. Partiram e em cerca de vinte minutos era deixado diante do estádio conhecido como o Gigante do Beira Rio. Havia visto fotografias de página interia nos jornais, imagens na TV a cores na casa do padrinho, mas nada poderia dar a noção exata da majestosidade do imenso bloco de concreto e aço que via a sua frente. Caminhou lentamente ao redor, olhando cada detalhe, sempre de camera em punho, ou batendo instantâneos para o álbum que faria da viagem. Demorou cerca de uma hora até se dar por satisfeito. Quando pudesse viria assistir a um jogo, de preferência um Grenal. Seria a realização de um sonho acalentado há muito tempo.
Vista aérea do Olímpico Monumental.
Olìmpico Monumental, vista interna.






Tomou outro taxi, rumando para o Estádio Olímpico. Lá chegando, seus olhos também se admiraram da imponência da obra. Forçoso era reconhecer que o estádio do principal adversário de seu Colorado, também tinha sua grandiosidade. Nova sequência de filmagens, fotografias e novas sequências de filme. Teria muito que mostrare ao pai, aos amigos, aos peões com quem convivera durante os anos de sua infância e adolescência. Entre eles havia os colorados como também os gremistas. Chegavam a formar dois times para disputar peladas nas tardes de domingo ou feriado, numa área que for a limpa e era própria para jogar uma bola.

As vitórias se alternavam ora para um lado, ora para outro, mas sempre no final matavam a sede com uma ou duas grades de gasosa, quando não umas Serramaltes, Brahmas, Casco Escuro ou coca-cola. Sempre resultavam alguns esfolões, vez ou outra um tornozelo inchado, até mesmo um braço quebrado durante uma queda ou choque no calor da disputa. Poderia mostrar a todos que não se importara em visitar apenas o estádio de um dos dois clubes. Levaria imagens dos dois e assim ficaria em bons ares com uns e outros. Terminada sua incursão aos estádios, verificou no relógio de pulso, presente do padrinho trazido da Europa, que já eram 5h30min. Não teria mais tempo para dar um passeio até o rio Guaiba. Deixaria para outra hora, pois havia visto do algo, na hora em que o avião estava fazendo a aproximação para pousar no aeroporto. Fora uma vista impressionante.
Retornou ao hotel e decidiu tomar banho, barbear-se com capricho. Queria fazer bela figura e não podia descuidar da aparência. Ao desembarcar do taxi viu ao lado do hotel a existência de uma barbearia e foi até lá para aparar o cabelo, dar um jeitinho no bigode, do qual se orgulhava bastante. Teve que agurdar alguns minutos até ser atendido. O professional que o atendeu foi gentil e realizou seu desejo de fazer um corte de cabelo que melhor se ajustasse ao tipo do cliente. Deu pequenos retoques no bigode e colocou nas mãos de Gaudêncio um espelho para observar de perto. Olhou demoradamente para sua imagem, conferiu o cabelo e se deu por satisfeito. Pagou o serviço, deixando uma gorjeta e voi para o hotel. Estava barbeado e de cabelo cortado, faltava apenas o banho.
De banho tomado, uma roupa nova tirada do guarda-roupa, agora desamassada depois de ficar pendurada no cabide durante a tarde. Vestiu-se com calma, calçou o sapato e desceu para jantar no próprio hotel. Uma refeição leve para a noite era suficiente. Ainda sentia o peso da carne ingerida no almoço. Enquanto esperou a refeição, pensou no que faria na primeira noite na capital. Pensou em procurar uma boate para tomar contato com a vida noturna, mas sua inexperiência o colocaria em risco de passar por experiências desagradáveis. Na manhã seguinte tinha compromissos importantes e não seria conveniente se apresentar de ressaca ou quem sabe coisa pior. Quando o garção trouxe a comida, perguntou de modo discreto sobre um cinema nas redondezas. Queria ver um bom filme para depois ir dormir uma boa noite de sono.
O interpelado lhe disse que o melhor cinema das proximidades ficava na rua paralela, descendo uma quadra. Pelo que sabia estavam levando uma fita muito boa. Um bang-bang inédito, e ouvira falar muito bem. No que lhe dizia respeito, aconselharia o amigo a assistir.
Agradeceu e se pos a comer com calma. Tinha tempo suficiente. Eram agora pouco mais de sete horas e o filme teria início somenta as 8 h 30min. Poderia gastar todo o tempo necessário para a sua refeição e depois ir até o cinema. Terminou de comer e pediu um café. Tomou a bebida e levantou-se para sair. Em pouco mais de dez minutos ele se encontrava diante do moderno cinema, onde em grandes cartazes era anunciada a fita que estaria sendo exibida em sessões contínuas naquele e nos próximos dias. Havia uma fila onde as pessoas ficavam para adquirir seus ingressos. Gaudêncio não esperou e entrou na fila. Pouco depois recebia o bilhete e foi para a porta de entrada. Ao chegar no interior, mantido em semiobscuridcade, procurou um lugar para sentar. Escolheu a posição que permitiria boa visão da tela e sentou-se no assent confortável.
Alguns minutos depois o filme começou. Gaudêncio procurou manter o controle, pois era a primeira vez que estava em uma sala de cinema de semelhantes dimensões. Prestou atenção aos demais assistentes para não cometer gafes, dizer algo inadequado, rir nas horas indevidas. Se divertiu bastante e após duas horas, que passaram sem perceber, levantou satisfeito e voltou para seu quarto no hotel. Ali chegando aproveitou para ver a última edição do jornal que estava passando na TV na sala de estar no hall. Depois subiu e foi dormir.
Terça feira cedo estava a caminho do endereço da empresa de investimentos, localizada a alguma distância, para ter o seu primeiro contato com o mundo dos investimentos. Ia imaginando o que iria encontrar. Chegou e foi introduzido na sala do agente de Joaquim sem demora. Ouviu por mais de meia hora o homem discorrer sobre diversos investimentos do padrinho. Falou de ações, Petrobrás, Banco do Brasil, depósitos a prazo fixo, investimento em fundos de ações, e uma enorme variedade de nomes que eram desconhecidos até aquele momento. Recebeu um relatório da rentabilidade dos últimos seis meses de todos os investimentos, percebendo que dinheiro gera dinheiro, bastando ser aplicado de maneira conveniente. Claro que havia riscos. Para evitar isso existiam pessoas especializadas em fazer o acompanhamento diário e orientar os investidores na sua tomada de decisões. Ao final da manhã, em torno das 11 horas, a entrevista foi dada por encerrada. Gaudêncio não fez alterações significativas pois temia tomar, por inexperiência, decisões erradas e causar prejuízos. O padrinho o deixare tranquilo nesse particular, mas fazia questão de não ter essa responsabilidade.
Quando estivesse mais inteirado de tudo, poderia começar a tomar algumas decisões mais audazes. Pensou na sugestão de Joaquim sobre voltar a escola. Estava com 23 anos e iria fazer figura estranha no meio da juventude, mas isso pouco importava. Sabia que não seria o único nessa situação. Era bastante comum as pessoas descobrirem a encessidade de estudar e retornarem aos bancos escolares. Queria poder julgar melhor por seu próprio entendimento. Mesmo os profissionais mais conceituados estavam sujeitos ao erro e também a ações menos honestas. Sem fazer julgamentos, mas sendo cauteloso, preferia errar por sua própria cabeça do que pela dos outros.
Ao sair, cabeça meio tonta de tanto ouvir números e nomes, cifras e percentuais, caminhou algumas quadras e no meio do caminho encontrou um amplo terreno sem construções. Bem no meio estava armada a lona de um circo, pelo que se podia visualizar, em boa situação. Devia ser uma apresentação digna de ver. Fora assistir diversas sessões de circo em São Borja em ccomapnhia da madrinha e padrinho. A diferença era que aqui o tamanho da lona do circo dava o equivalente a pelo menos umas duas ou mesmo três das que apareciam na cidade natal. A portaria ficava próxima à rua e por toda parte cartazes anunciavam os horários das sessões e os preços. Decidiu almoçar e depois assistir a sessão da tarde. Provavelmente estaria cheio de crianças e adolescents, mas isso não importava. Tinha quase certeza que nesse horário seria mesmo mais divertido.
Encontrou um restaurante a la carte nas proximidades e almoçou. O cardápio constava de uma feijoada e isso lhe atiçou o apetite. Gostava do prato, frequentemente preparado por Maria Conceição, sua mãe nos anos antecedents. O odor vinha da cozinha próxima até as narinas de quem passava na porta. Sentou-se e fez o pedido. Em pouco chegou uma generosa terrina cheia de feijão com os tipos de carne próprioss do prato. Em pequena travessa veio arroz, farinha de mandioca e salada. Era comida suficiente para satisfazer alguém com fome de leão. Certamente haveria sobras a recolher após deixá-lo satisfeito.
Ao sair do restaurante, caminhou até uma praça que ficava perto, sentou um pouco na sombra esperando a hora de ir tomar seu lugar no circo. Alguns minutos antes foi até a bilheteria, adquiriu o ingresso e foi ao local de acesso. Entregou o bilhete e entrou, encontando um lugar em uma cadeira, lugar mais confortável que havia adquirido. Um toca discos estava rodando um LP de Teixeirinha. No picadeiro dois palhaços faziam evoluções, contavam piadas e aprontavam estrepolias diversas, mantendo os assistentes já sentados entretidos com suas ações.
A sessão foi deveras divertida. Nos momentos das apresentações de trapézio os peitos se comprimiam com o receio de uma queda. A equipe era muito boa. Faziam numerous de alta complexidade. Exigiam alto grau de agilidade e força física. Os equilibristas também eram formidáveis. Os números com elefantes, com tigres e leões eram igualmente de forte emoção. O tempo passou sem perceber e ao sair do interior, Gaudêncio constatou que eram quase cinco horas. Iria para o hotel e depois sairia para jantar. Talvez aproveitasse para ir a um teatro. Ouvira dizer que uma companhia estrangeira estava se apresentando no teatro municipal. Pediria informações a respeito no hotel. Chegou e logo obteve a informação que desejava.
Depois de jantar pegou um taxi e foi até o teatro. A fila par aquisição de ingressos era um pouco grande e pensou em desistir. Enquanto esperou um pouco, decidindo o que fazer notou que a fila estava andando bem depressa e resolveu enfrentar. Alguns minutoss depois chegava ao guichê e adquriu o ingresso. O preço era alto, mas o padrinho lhe dissera que deveria tomar um “banho de cultura” para aos poucos se ajustar a sua nova posição. Entrou e aos air tinha plena convicção de que valera a pena. A peça representada era de autoria de Scheakespeare e a companhia espanhola. Ficara emocionado nas cenas mas fortes.
Na volta ao hotel viu na televisão a informação de que no dia seguinte, quarta feira á noite haveria jogo no Beira Rio. O seu Colorado iria enfrentar o Flamengo do Rio de Janeiro. Os amigos e conhecidos o chamariam de bobo se contasse não ter ido assistir ao jogo, estando na capital. Procurou se informar sobre a disponibilidade de ingressos e lhe foi informado que era possível adquiri-los ali perto em uma agência conveniada. Teria apenas que esperar a manhã seguinte quando o local abrisse o expediente. Subiu para dormir e descansou das andanças do dia. Não fizera nenhum esforço, mas rira a valer no circo e pouco antes no teatro for a levado aos extremos da emoção. Isso deixava uma leve lassidão aos membros, prevendo por isso uma boa noite de sono.



 Guaiba, ao fundo Porto Alegre.
Outro ângulo, mais abrangente do Guaiba.

 
Na manhã de quarta feira foi comprar sua entrada para assistir ao jogo da noite e depois foi de taxi até as margens do rio Guaiba. Andou de canoa durante algum tempo, sentindo o balanço da água, depois caminhou ao longo da margem e encontrou um local meio ao ar livre onde podia comer peixe frito. Sentou-se e pediu uma porção. Depois pediu uma segunda e mais uma Terceira. Gostava muito de peixe e como não estava comenda nada além disso, a carne leve não lhe pareceu excessive. Depois de satisfeito, iniciou o retorno, caminhando. Pensou ser possível voltar a pé, mas chegou o momento em que cansou e não queria chegar de pernas moles ao estádio para o jogo. Fez sinal a um taxi e voltou ao hotel. Vestiu uma camisa do time do coração, uma calça leve com calçado combinando. Jantou mais cedo e foi para o estádio.
Com o ingresso na mão chegou ao portão de entrada e logo estava no interior. Levava consigo a filmadora e a camera fotográfica. Mostraria imagens do jogo para provar que não era conversa sua quando contasse ter assistido ao jogo. Sentou-se em um lugar que considerou adequado. Faltava ainda pouco mais de uma hora para o incício da partida, mas as arquibancadas estavam bastante ocupadas. Alguns setores estavam ainda vazios, mas os que chegavam primeiro escolhiam os lugares considerados melhores para assistir o espetáculo. Os últimos teriam que se contentar com o que restasse livre.
Gaudencio se prevenira com uma garrafa de água e alguns biscoitos para o caso de a fome atacar. O jogo começou. Era decisive no Campeonato Nacional daquele ano e os dois times lutavam pela vitória. O placar não sofreu movimentação até o minute final do primeiro tempo. O juiz apitou e encerrou o jogo. Restava esperar pelo segundo tempo para haver uma decisão. No interval foram trocadas algumas palavras com os circundantes. Ao saberem de onde ele era, lhe deram boas vindas e quiseram que participasse da torcida organizada. Prometeu pensar no assunto. Não estava interessado em arrumar compromissos que não saberia se teria como honrar. Quando o cronômetro indicava 43 minutos do segundo tempo ainda estava em 0x0. Nesse momento uma falta cometida por um zagueiro do Flamengo nas proximidades da área e o juiz marcou. 
A barreira foi formada, os jogadores se postaram para a continuação da jogada após a cobrança da falta. Mas o encarregado da cobrança foi perfeito em sua tarefa. Mandou a bola no canto esquerdo do goleiro, naquele lugarzinho que dizem ser o dormitório da coruja e a assistência explodiu em delírio. Colorado estava à frente no marcador: 1 x 0. Houve os acréscimos e o jogo foi encerrado aos 49 minutos do segundo tempo. A vitória fora suada mas valera a pena. Pouco importava ganhar de 1, 2 ou mais. Bastava ganhar o jogo e isso havia ocorrido. A volta para o hotel foi demorada devido à grande movimentação de pessoas na rua. 
 
         No outro dia voltou ao escritório dos agentes financeiros para saber se tudo estava em conformidade com o que ficara combinado.

Gaúcho de São Borja! – Capítulo VII

 

   Fatalidade atinge Joaquim
A madrinha de Gaudêncio, dona Ana Maria, alguns dias depois do aniversário de dezoito anos dele, sofreu um AVC. Foi socorrida no hospital e após uma semana de internamento na UTI, sucumbiu a sucessivos eventos de mesma origem que a acometeram. O marido Joaquim, ficou arrasado, permanecendo longo período recluso em casa, quase vindo a perecer de inanição, pois não se alimentava, apenas chorando a finada esposa. Em uma visita que fez a casa do patrão, em busca de determinações relativas aos negócios da fazenda, Pedro Paulo viu seu estado e prontamente o levou a um médico.
Por recomendação deste, Pedro levou Joaquim para a fazenda, instalou-o na casa grande e assumiu todos os cuidados que deveriam ser dispensados ao mesmo. Cercado de cuidados e estimulado pela presença do afilhado, cheio de vida, contando novidades todo dia e instando-o a cavalgarem juntos, pescarem na represa e outras atividades, fizeram Joaquim reagir e recuperar-se em pouco tempo.
            Nesta época Gaudêncio foi convocado a cumprir com seu dever de cidadão e passou um ano prestando o serviço militar, na unidade de Cavalaria Mecanizada sediada em São Borja. Suas habilidades na montaria facilitaram em muito a vida na caserna. Para ele os cuidados com cavalos não ofereciam o menor segredo. Inscreveu-se no curso para cabo, foi aprovado e obteve boas notas nas avaliações a que foi submetido. Foi com muito orgulho que num dia destes se apresentou em casa, usando a farda militar onde ostentava as divisas de cabo.
Ao completar seu tempo de serviço, foi-lhe ofertado a oportunidade de permanecer engajado e seguir carreira no exército. Havia aprendido muito, gostava da vida na caserna, mas não tinha pretensões de fazer carreira ali. No dia previsto, foi desligado e recebeu o Certificado de Reservista, na graduação de cabo. Havia acumulado diversos elogios ao longo dos onze meses e alguns dias que ali havia permanecido. Por isso recebeu das mãos do comandante um diploma de Honra ao Mérito. O pai encheu-se de orgulho, assim como a mãe. Mandaram fazer uma moldura e o documento ficava a mostra na sala da casa em que viviam.
            Logo que estava em condições de ir e vir sozinho para a cidade, Joaquim voltou de lá trazendo um documento que entregou a Gaudêncio, dizendo:
            – Abra e leia este documento. Terminei hoje o inventário pela morte de Ana Maria e aproveitei para fazer o meu testamento.
            – E que isto tem a ver comigo? – indagou Gaudêncio.
– É isso que você vai ver. Abra o envelope e leia com atenção.
            Gaudêncio abriu e tirou de dentro uma folha de papel. Desdobrou e leu o que nela estava escrito. Seus olhos se foram arregalando à medida que lia o conteúdo. Quando terminou a leitura, olhou para o homem que aprendera a amar, quase como um pai. Estava pasmo com o que acabara de ler. Naquela folha de papel estava escrito o testamento de Joaquim. Nele, em palavras claras e sucintas, ele, Gaudêncio das Neves, era declarado herdeiro universal e único de seu padrinho. Precisava de tempo para assimilar a idéia. Decidiu perguntar:
            – Por que eu, padrinho?
            – E por que não você, pode me dizer? Não tivemos filhos, apesar de todas as tentativas. Foi um sonho frustrado. Você é nosso afilhado, filho de meu braço direito na fazenda. Não vejo alguém melhor para deixar minha herança. Tenho certeza de que vai ficar em boas mãos.
            – Mas o senhor não tem outros parentes a quem queira deixar alguma coisa pelo menos? Fico pensando que não mereço tudo isso.
            – Os parentes que tenho, tanto meus como os de Ana Maria, já tem mais do que precisam para viver e acabariam por dividir a fazenda em pedaços. O pior é que iriam acabar brigando, fazendo confusão, inimizades e isso eu não quero de jeito nenhum. Quero que ela continue sendo uma única propriedade, sem divisões.
            – Vou demorar um pouco para digerir essa novidade. Preciso me acostumar com a ideia.
            – A partir de hoje, você passa a me ajudar na administração. Vou lhe passar uma procuração para resolver a maior parte das questões relativas a bancos, fornecedores, compradores. Também vai ter que aprender a lidar com os pagamentos dos empregados. Os impostos e encargos sociais. Terá que se entender com os contadores, fiscais de todo tipo, entre eles alguns bem safados, que se deixam comprar por qualquer merreca. Terá muito que aprender. Principalmente a lidar com gente e esta é a parte mais difícil. Lhe aconselho estudar um pouco de psicologia ou então procurar um profissional do setor para orientar em algumas decisões.
– Estou imaginando a cara do meu pai e da mãe, quando souberem dessa novidade.
            – Vamos até lá contar para eles? Eles merecem saber. Afinal de certo modo isso afeta a eles também. Quero pedir que jamais deixe seus pais sofrer qualquer privação. Nunca encontrei um servidor mais fiel e dedicado que seu pai. Sua mãe então, é impossível encontrar alguém que a iguale. Superar então, seria um milagre.
            – Pode ficar tranqüilo padrinho. Isso não vai acontecer. Eles são o que de mais importante eu tenho na vida. Vamos até lá em casa que eles devem estar tomando café a esta hora.
            Ao chegarem a casa encontraram realmente Pedro Paulo e Maria Conceição saboreando uma xícara de café com leite, pão com manteiga e mel. Quando viram os dois chegarem, Pedro Paulo gritou:
            – Entrem e venham tomar um café com a gente.
            – Boa tarde compadre! Boa tarde comadre! – disse Joaquim, adentrando a cozinha da casa e puxando uma cadeira para se assentar.
            – Pai, mãe! Vocês precisam ver o que o padrinho fez.
            – Mas fala aí, tche! O que foi que o compadre aprontou? – perguntou Pedro Paulo.
            – Nada de mais, compadre. Primeiro me sirva uma xícara de café, comadre. Me alcance uma fatia desse pão que você faz como ninguém. Um pedaço de queijo também vai bem.
– Leia esse documento, papai, – disse Gaudêncio.
            – Para isso preciso de meu óculos. Alcança para mim, meu filho. Já leio mal e mal. Sem óculos, enxergando as letra embaralhado, não tem jeito mesmo.
            – Está aqui, meu pai.
            Maria Conceição, depois de colocar diante de Joaquim o café, o pão e o queijo, também se aproximou para ver o documento. A primeira palavra que apareceu destacada no alto foi : TESTAMENTO.
            Leram com avidez e seus olhos foram se arregalando à medida que liam as palavras contidas no documento. Ao terminarem a leitura, seus olhos se voltaram interrogativos para Joaquim. Este foi logo dizendo:
– Não venham me dizer que eu não posso ou não devo fazer o que fiz. Vocês são meus empregados de confiança durante toda vida e o Gaudêncio é meu afilhado. Não tive a sorte de ter um filho. O Pai Velho lá de cima não me deu esta graça. Não ia repartir meus bens entre uma porção de gente. Não quero saber de divisão da fazenda. Assim, deixo amparados vocês dois, um bom herdeiro para a propriedade e a certeza de que irão tratar bem todos os empregados. Aliás é a minha recomendação. Não sejam condescendentes com os malandros, mas procurem sempre ser justos. Esta sempre foi uma das minhas preocupações e nunca me arrependi. As poucas vezes que tive problemas, consegui sempre dar um jeito e nunca foi preciso tomar medidas drásticas.
            – É muita bondade de sua parte, compadre.
– Eu vou começar a treinar o meu herdeiro a partir de agora. Quero que logo ele assuma a maior parte das funções. Me sinto cansado e acho que vou viajar um pouco, conhecer o mundo, coisa que sempre quis fazer com a Ana Maria. Infelizmente não deu tempo de realizar esses nossos sonhos. Ela me deixou antes da hora, – e seus olhos se encheram instantaneamente de lágrimas.
            – Não há ninguém em toda a fazenda que não tenha sentido o passamento da comadre, – disse Ana Maria
            – Em homenagem a memória dela vou visitar preferencialmente os lugares que ela mais desejava conhecer. Sei que vai doer, mas eu devo isso a ela. Antes porém vou iniciar o Gaudêncio nas atividades de administração da fazenda. Também com o telefone hoje em dia, é fácil tirar as dúvidas que surgirem, enquanto eu estiver viajando. É bom ele se acostumar a tomar decisões. No fim das contas ele tem você, Pedro para lhe passar orientações quando for preciso.
            – Compadre, eu não tenho palavras para agradecer a consideração que nos tem demonstrado durante tantos anos. Agora isso. Fico sem palavras. Se essa é sua vontade e não existe nenhum problema que venha atrapalhar, não posso fazer nada.
            – Nosso filho é maior de idade e pode decidir por ele mesmo. Nem temos mais como interferer nos assuntos dele, além de aconselhar. Se ele aceita ser seu herdeiro, que seja feita a vontade dos dois.
            – Não existe nenhum motive que me impeça de fazer esse testamento. Não há o que temer. Por isso vamos seguir em frente. No máximo no próximo ano quero começar as minhas viagens. Vou gastar um pouco do dinheiro que ganhei em todo esse tempo e ainda vai sobrar muito para depois. Você Gaudêncio, se prepara para dançar miudinho nos próximos meses.
As próximas semanas foram repletas de novidades. Joaquim levou Gaudêncio a todos os setores da fazenda e o apresentou como herdeiro. Dentro de pouco tempo ele estaria assumindo boa parte das responsabilidades administrativas. Iria prestar contas a ele, Joaquim. A maioria dos trabalhadores o conhecia dos tempos de menino, quando andava por todas as partes, participando dos trabalhos, fazendo estripulias e se dispondo sempre a ajudar quem estivesse precisando. Todos aceitaram com alegria a novidade. Teriam no comando um homem que conheciam muito bem, com ele haviam brincado, participado de fandangos, rodeios e outras atividades. Sabiam de sua boa índole e confiavam que, ao assumir as funções novas, não haveria mudanças significativas no espírito que reinava entre patrão e empregados.
Foram aos bancos, onde passou a ter conta corrente para movimentar o seu dinheiro. Teria de agora em diante uma mesada generosa. Assinaria cheques, requisições e outros documentos em nome de Joaquim. Para isso, foram a um cartório onde lavraram uma procuração de plenos poderes que lhe permitiria realizar, sem problema, todas as transações necessárias ao bom andamento de tudo, em especial na ausência de Joaquim.
            Após quatro meses de treinamento, Gaudêncio dominava a maior parte dos encargos que doravante lhe competia assumir. Sendo assim, não foi surpresa quando Joaquim anunciou:
– Hoje comprei as passagens para a Europa. No final do mês, embarco para Portugal, Espanha, Itália e por lá decido para onde mais vou. Vou sem roteiro fixo. Quero passear sem pressa e usufruir ao máximo dessa viagem. Deixo aqui tudo em suas mãos e dos seus pais. Vou me comunicar por telefone com vocês toda semana.
– Pretende ficar quanto tempo fora, padrinho?
            – Não sei. Como disse, não tenho roteiro fixo e posso ficar um mês, também pode ser que fique mais tempo ou menos. Depende do quanto eu gostar daquilo que for encontrando pelo caminho.
– Vá com Deus, padrinho. Faremos tudo para cuidar bem de tudo. E, na sua volta, estaremos lhe esperando para conhecer as novidades que tiver encontrado por lá.
            – Com certeza, vou tranquilo. Confio em você e em seus pais. Vou precisar ir a capital para tirar o passaporte. Dizem que pode demorar alguns dias. Por isso vou amanhã mesmo. Não quero ter surpresas de última hora. Tudo deverá estar pronto no dia do embarque. Em Porto Alegre vou adquirir uma mala adequada, algumas roupas. Não vou levar muita coisa. Posso comprar por lá o que estiver faltando. É para isso que serve o dinheiro. Vou gastar um pouco antes que chegue minha hora de subir para o andar de cima. Quem pode saber o dia de amanhã!
            – Concordo plenamente com o senhor. Não adianta nada acumular dinheiro, sem usufruir do que ele pode comprar de bom e agradável. Não vale a pena viver só para trabalhar, sem realizar os sonhos que se tem. Esse mundo de Deus está aí para ser conhecido. Quem tem condições financeiras para tal, tem mais é que procurar conhecer o máximo das belezas que existem por aí. As que Deus criou e as que o homem com sua inventividade construiu.
Joaquim demorou uma semana em Porto Alegre, onde já aproveitou para fazer uma pequena revisão médica, comprou algumas roupas novas, mala e bolsa para viagem. Não deixou de procurar uma boa máquina fotográfica, pois a que tinha estava ultrapassada há bastante tempo. Ao retornar encontrou o afilhado em plena atividade.
Ele assumira com todo o empenho a administração da fazenda e pusera em prática algumas idéias que discutira com o padrinho, para melhorar o fluxo dos trabalhos. Estava eufórico pois estavam dando certo e até seu pai havia ficado admirado com a habilidade demonstrada pelo filho. Isto demonstrava que havia feito uma escolha adequada ao depositar nele sua confiança.
            No dia estipulado, Gaudêncio acompanhou Joaquim até o aeroporto onde embarcaria para a capital. De lá seguiria para o Rio de Janeiro e faria a conexão com a Europa. Dois dias depois da partida, um telefonema no meio da manhã, trouxe as primeiras notícias de Joaquim. Havia desembarcado em Lisboa e estabelecera um roteiro para percorrer os locais interessantes do país. Iria contratar um motorista e guia que o levaria num carro alugado para tal finalidade.
Previa uma semana de estadia, talvez um pouco mais. Sem sombra de dúvida iria ver Fátima e outros locais mais recomendados. Coimbra, Tras dos Montes e outras cidades históricas.  Depois seguiria para a Espanha. Queria assistir à uma tourada, visitar os castelos medievais, da época dos mouros e das cruzadas. Gaudêncio ficou emocionado ao conversar com o padrinho. Informou a ele que na fazenda estava tudo correndo bem, os bezerros nascendo, o arrozal crescendo e começando a granar. O pai e a mãe sentindo saudades dele, Joaquim. Não deixavam de falar nele nenhum dia, várias vezes por dia até.
Enquanto Joaquim passeava pela Europa, Gaudêncio assumia plenamente as funções administrativas. Comportava-se como verdadeiro proprietário, coisa que aliás seria quando o padrinho fosse para junto de sua esposa Ana Maria. Coisa que ele esperava demorasse bastante. Queria ter sua companhia por muito tempo. Era, depois dos seus pais, a pessoa mais importante de sua vida. Talvez um dia encontrasse uma prenda que lhe arrebataria o coração, tal como a madrinha tinha arrebatado o coração do padrinho. Provavelmente ela iria ocupar o primeiro lugar em sua vida. Se Deus lhe abençoasse teria filhos e estes iriam ficar em um lugar especial junto com aquela que viesse a escolher como esposa.
As semanas viraram meses e quando viram, Joaquim já estava passeando há três meses pela Europa. Estava terminando de visitar a Inglaterra, estivera na França, Suíça e Alemanha. Mas anunciou que no dia seguinte tomaria providências para o seu retorno ao Brasil. Estava com saudades da terra natal, de um bom chimarrão, um churrasco e uma boa prosa à beira do fogo de chão. Em especial quando animado por um bom gaiteiro. Se além disso houvesse um violeiro, ficava melhor ainda. Iria avisar a data do seu embarque e a previsão de chegada em casa. Deixaria para outra ocasião a visita a outros lugares que ainda não visitara.
Essa notícia, correu célere no dia seguinte. Por volta do meio dia, praticamente todos na imensa propriedade, desde os mais velhos até as crianças sabiam do retorno próximo do patrão. Gaudêncio avisou que fariam uma festa para recepcionar o viajante. Evidentemente após lhe dar um dia ou dois de descanso. Tinha certeza de que o padrinho, apesar de se divertir a valer na viagem, chegaria cansado e gostaria de um período para repousar. Só depois iriam tratar de coisas de trabalho, festejos e comemorações.
            Os dias passaram rapidamente e logo estavam, Gaudêncio e o pai Pedro Paulo, esperando a aterrissagem do avião que trazia Joaquim em sua última etapa da viagem. Mal tiveram paciência de esperar o desembarque. Logo viram a figura esbelta e elegante de Joaquim descendo a escada do avião. A vontade de Gaudêncio era correr ao encontro do padrinho, mas os funcionários do aeroporto não permitiram que ultrapassasse a porta de acesso ao pátio. Teve que se contentar em aguardar que os passageiros chegassem ao saguão e só então pode correr e abraçar a quem dedicava uma afeoção especial.
O viajante correspondeu ao abraço do afilhado e também do compadre. Estava realmente com saudade das pessoas que há muitos anos faziam parte de sua vida. Nunca havia se ausentado tanto tempo. Tinha vontade de sair correndo e olhar todos os recantos de seus domínios, ver como estavam bonitos os arrozais maduros, quase na hora da colheita, os bandos de bezerros atingindo o ponto de desmame, os vaqueiros cuidando do gado nas invernadas, tangendo grupos de animais no manejo de pastagens.
Acabara ficando mais tempo do que pretendia, pois se encantara com tantas belezas, monumentos, a criação de gado confinado, devido a escassez de espaços amplos para pastoreio, o cultivo em terrenos inclinados, irrigação por gotejamento e outras novidades que tivera ocasião de ver ao vivo e a cores. As montanhas com as neves em seus picos, fosse no inverno ou no verão, as ferrovias modernas, túneis intermináveis por baixo das montanhas. Teria muito a contar e também muitas fotografias para mostrar. Acabara comprando por lá uma filmadora e o respectivo projetor. Isto lhe permitiria dar uma idéia melhor daquilo que vira em sua viagem. Trazia em sua bagagem uma boa quantidade de filmes em que registrara as coisas mais importantes, os monumentos e belezas naturais que visitara. Deram uma rápida passada pela casa na cidade para deixar algumas coisas da bagagem e também cumprimentar os serviçais que ali labutavam.
            Em seguida rumaram para a fazenda, onde os esperava Maria Conceição, com uma chaleira de água quente e uma cuia de chimarrão. Depois dos abraços e boas vindas, sentaram-se e saborearam o mate, enquanto Joaquim dava alguns informes sobre suas andanças nas terras européias. Trouxera uma lembrança para cada um. Tinha em suas malas muitas coisas que iria distribuindo aos poucos. Faria isso com toda calma. O afilhado, a comadre e o compadre poderiam lhe dar uma grande ajuda nessa tarefa. Teriam condições de dizer a quem conviria dar cada item que havia em suas malas.

 

            Depois de alguns dias disse ao afilhado que seria conveniente ele ir até a capital para tratar de alguns assuntos legais relativos as propriedades, alguns investimentos que estavam a cargo de um escritório especializado. Era importante que Gaudêncio tomasse contato logo com essas pessoas, pois seria ele que doravante iria tratar com elas e decidir sobre venda de ações, reinvestimento de capital e outras coisas do gênero.