Arquivo mensais:outubro 2014

Anjo justiceiro.

ANJO JUSTICEIRO

Arte de Vlaho Bukovac

O que mais adorava na biblioteca de minha escola eram as fichas ao final do livro.
Tinha que assinar o nome enquanto a bibliotecária colocava a data de devolução. A leitura costumava vencer em sete dias.
Até hoje, adulto e independente, levo sete dias para ler um livro, mesmo que seja meu, com medo de pagar multa na minha escola. Internalizei o hábito. Não me desvencilhei do medo de atrasar.
Admirava o capricho do canto de leitura. Todos os livros mostravam a história dos seus leitores: quem leu, o período de quem se interessou por aquela obra. Com o registro dos hóspedes colado com um envelope na contracapa, pelo lado de dentro.
Poderia descobrir aqueles colegas que partilhavam de iguais afinidades, igual paixão, igual inclinação pelos enredos de amor.
Só que me entristecia quando puxava um volume qualquer da prateleira da Imperatriz Leopoldina e ninguém ainda o havia retirado. Ninguém!
Um livro que poderia estar havia anos no acervo e jamais fora procurado, jamais fora levado para casa. A ficha vazia. O coração vazio de tinta. Os andares das linhas em branco. Como um hotel de letras imenso, falido; quartos de histórias vagos e fechados.
Como nenhum aluno se interessou? Como nenhum aluno sequer o pegou por engano?
O livro sem pai nem mãe, no orfanato das horas, imaculado, virgem, sem nenhum farelo de pão entre as páginas, sem nenhuma digital, sem nenhuma marcação de lápis.
O livro longe de uma família. Longe de um braço. Longe de um cuidado. Longe do cheiro achocolatado da térmica das mochilas.
Tão triste. Eu pegava para ler de propósito. Só para pôr um nome na fichinha e ele não morrer sozinho.
Eu me sentia um anjo justiceiro. Não queria deixar nenhum livro não lido. Nenhum livro parado, sem ter sido amado ou odiado.
Não lia o que gostava, lia para aprender a gostar.
A bibliotecária Noeli já conhecia minha mania, meu projeto de salvação.
Aparecia no intervalo do recreio e pedia sua força:
– Me ajuda a encontrar um livro que nunca foi lido?
Ela deixava sua mesa, não questionava meu hábito estranho e se levantava para catar comigo nas estantes uma capa ainda intacta, ainda inexplorada pelas turmas.
Podia ser romance, poesia, crônica, ensaio, adulto, infantil, de menino, de menina, de bicho, de biologia, de física. Não me assustava com o tema.
O que desejava era registrar meu nome na aba e acabar com a maldição de pó e abandono.
Tornei-me leitor puramente por compaixão, somente para estrear livros na biblioteca.
Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS),  12/10/2014 Edição N°17950
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A ouvinte fatal!

COMO VOCÊ FALA

Arte de Francis Picabia

Mulher é uma ouvinte fatal.
Ela mantém uma biblioteca de sons, um arquivo de escalas musicais em seus ouvidos.
Nasceu com um detector de mentiras nos tímpanos.
Você pode dizer as palavras certas, mas ainda será pouco.
Você pode escolher os termos mais apropriados, a ordem mais harmoniosa, as frases mais cristalinas, e ainda será pouco.
Você pode decorar o discurso, mas ainda será pouco.
Não significa que terá o respeito dela. Não assegura a compreensão dela.
Ela é capaz de implicar com você.
O homem não entende que não basta falar para a mulher o que ela quer, tem que falar do jeito que ela quer.
Quantas vezes você, para superar a insensibilidade e o laconismo do macho, finalmente expressou o que ela ansiava ouvir e ela não ficou satisfeita?
Esperava a libertação, o elogio, a recompensa e aguentará uma nova e inesperada crítica da esposa:
– Não foi o que você disse, mas como disse.
Você suspira amém, e ela entende que está sendo cínico.
Você concorda com os argumentos dela, e ela entende que somente deseja fugir da briga.
Você pede desculpa, e ela entende que é da boca para fora.
Você concorda, e ela entende que está resmungando.
O “como” feminino é mais importante do que o conteúdo da fala.
O “como” é a própria fala.
Ela valoriza o sentimento da pronúncia. A pronúncia é a porta do paraíso ou a do inferno.
Você poderá se declarar com “Eu te amo”, e ela insistir em problematizar.
– Ai, que eu te amo sem entusiasmo, sem vontade, eu não quero ser amada assim.
Será obrigado a fazer um teste vocal do “eu te amo” nesse momento. Um gargarejo do “eu te amo” até convencê-la.
Quando acertar o timbre ideal, a equalização apropriada, ela, então, num gesto de absoluto desdém, vai encontrar motivo para revidar:
– Agora não adianta, não foi espontâneo.
Está enrascado. Sempre estará enrascado mesmo empregando os diálogos perfeitos.
Além de compositor, o homem precisa ser intérprete, saber cantar, assumir o microfone da confissão.
Não basta acertar a letra, é necessário transmitir a emoção adequada pela voz.
Terá que ser um Caetano Veloso da discussão de relacionamento, um Chico Buarque do corredor de casa, um Ney Matogrosso da cozinha.
Vá treinando no chuveiro.
Ser marido é uma carreira difícil e de público muito exigente e sensível.



Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 14/10/2014
Porto Alegre (RS), Edição N°
17952

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Deus te Abençoe meu filho!

TEM A BÊNÇÃO, MEU FILHO!

Arte de Rodolfo Morales

Ele pode ser um publicitário famoso, colecionar vários prêmios no currículo, enfileirar leões de Cannes na estante, conduzir uma agência, mas se não tem o reconhecimento dos pais nunca estará satisfeito. Ele pode ser um arquiteto requisitado, ser chamado de Niemeyer, ganhar convites para idealizar museus no mundo inteiro, mas se não tem o reconhecimento dos pais nunca estará satisfeito.

Em toda profissão, nunca estaremos satisfeitos sem receber o apoio paterno e materno.

É uma sina depender eternamente da atenção dos pais, mas não existe jeito de escapar.

Nenhum filho estará resolvido emocionalmente sem o carinho dos pais.

O sucesso, os troféus, a fama não são nada se não há um pai ou uma mãe para se orgulhar daquilo que a gente faz.

O que deve sofrer um bailarino que nunca teve seus pais na plateia. O que deve sofrer um artista plástico que nunca contou com seus pais numa exposição. O que deve sofrer um escritor que nunca foi folheado pelos seus pais.

Não haverá aplauso que sacie o orfanato do coração de um filho. Não haverá láurea e diploma que cale as paredes de uma casa onde os pais desprezam a vocação do filho.

É preferível ter um auditório vazio com os pais sentados na primeira fila a um auditório lotado sem o rosto daqueles que nos conceberam.

Qualquer filho que me lê concordará comigo.

Impossível amadurecer o nosso sentimento sobre o assunto, é imutável. Não é problema para ser levado para terapia, é angústia incurável. Queremos que eles sempre estejam presentes, concordando ou não. Pois os pais foram a nossa primeira ovação, nossos primeiros cumprimentos, nossa primeira torcida, formam o nosso início. Não tem como excluí-los de nosso final.

Não há maior carência do que adotar uma trajetória profissional com o desdém dos nossos cuidadores, assumir um trajeto com o despeito familiar.

Ainda que seja consagrado, o profissional será amargurado. Doloroso enfrentar o boicote e se virar sozinho.

Sem a compreensão dos pais, ele jamais vai confiar suficientemente em si, jamais será receptivo à felicidade, jamais será agradecido ao que acumulou com seu esforço. Faltará sempre uma mão antiga e conhecida no ombro da glória.

Nenhum filho se perdoará diante do desprezo dos pais. Carregará a culpa insolúvel de ter feito algo errado, de estar cometendo um crime, de não retribuir a educação que recebeu, de desrespeitar os sonhos filiais.

O que um filho deseja é o amparo do ventre bem depois do ventre, a paz que vem da confiança, a bênção na testa quando sair de casa.

Não suportará decepcionar seus pais. Não aguentará frustrá-los em silêncio. Por mais que se arme um exército invencível de amigos, não se vence a oposição do sangue.

A desfeita é realmente incompreensível: aqueles mesmos pais corujas que não deixavam de comparecer nas exibições da creche e da escola, agora incapazes de abrir os braços para um aperto simbólico; aqueles mesmos pais babões que retratavam a infância com fotos e vídeos, agora incapazes de abrir a boca para um simples elogio; aqueles mesmos pais bajuladores que enchiam o pulmão de alegria para falar o nosso nome, agora incapazes de suspirar de saudade.

É uma dor sem idade. Uma ferida sem consolo.

E como existem pais que jogam seus filhos crescidos para a indiferença, somente porque discordam da opção profissional deles. Advogados que não aceitam filhos cabeleireiros, médicos que não aceitam filhos malabaristas, engenheiros que não aceitam filhos DJs. Como se houvesse uma função maior ou uma menor, uma carteira profissional melhor do que a outra.

Pais que erram a medida da força. Ao procurar demonstrar firmeza, desandam em intolerância.

Pais que consideram que o filho desperdiçou sua vida sem ao menos entender o que ele é e o que se tornou. Pais que julgam um disparate a ausência de estabilidade, que lamentam a pouca ambição do herdeiro, que diz que ele foi preguiçoso e decidiu pelo caminho mais fácil.

Pais que abdicam de décadas ao lado do filho só para provar que têm razão, só para dizer ao final que avisaram do fracasso.

Pais que torcem para que tudo falhe e sua criança grande retorne ao lar, humilhada e constrangida, e aprenda assim a dura lição.

A frieza e o distanciamento não são lições, apenas geram preconceito e arrogância.

A única lição que funciona é o amor, e sua aceitação reverenciada da diferença, e seu colo inadiável da ternura.

Se você é pai, se você é mãe, reconheça a profissão do seu filho antes que seja tarde. Ele está ansiosamente esperando.

  



Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 21/10/2014
Porto Alegre (RS), Edição N°
17957

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Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 21/10/2014
Porto Alegre (RS), Edição N°
17957

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Mineiro sovina! – Capítulo XVI

 

16. A exposição acontece.
           
            O tempo passara célere e o dia da inauguração da exposição de Isabel na galeria de arte da cidade estava próxima. Os últimos dias foram de uma azáfama intensa. Havia uma porção de coisas lembradas na última hora e requeriam a atenção do responsável pelo evento. Os álbuns fotográficos dos trabalhos haviam sido enviados para a capital Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro e outros centros culturais de relevância. Diversos especialistas haviam confirmado presença na dia da inauguração ou durante os dias em que exposição ficaria aberta.
            José Silvério, dois dias antes da inauguração obteve uma confissão completa e incontestável, resultando na condenação inapelável do réu. Isso foi motivo de celebração no escritório. A equipe em peso veio abraçar o mais jovem advogado pela sua indiscutível habilidade na condução do interrogatório do acusado. Suas anotações foram imprescindíveis para alcançar o objetivo que tinha em mente. O julgamento em questão virou peça de estudos e passou a integrar o rol dos processos famosos. Uma artimanha, um ardil com as palavras certas levara o acusado a se delatar, tornando, a partir daí, infrutíferas as tentativas dos advogados de defesa em sequer amenizar a pena.
            A sentença foi finalmente proferida já altas horas da noite. Toda equipe de acusação, bem como defesa e jurados estava exausta. Foi com um suspiro que todos ouviram o juiz pronunciar os termos condenatórios e por fim encerrar a sessão. O réu, agora condenado, foi conduzido à carceragem, de onde seria recambiado para a penitenciária em Belo Horizonte. O promotor junto ao qual José Silvério atuara na acusação, apertou calorosamente a mão do assistente. Em seguida falou:
            – Doutor! Lhe devo um enorme favor.
            – Por quê o senhor me deve algo?
            – Se não fosse a sua habilidade com as palavras, estaríamos agora vendo o passarinho sair voando livre e desimpedido. Nunca mais o pegaríamos. Assim ele vai ficar uma boa temporada engaoiolado.
            – Nada não, doutor. Apenas usei as palavras de maneira correta. O resto ficou por conta dele.
            – Essa é a questão exatamente. A forma como usou as palavras, como colocou a pergunta, induziram ele em contradição. Quando viu o que tinha falado, não havia mais como retornar. Caira na armadilha e foi só apertar o laço.
            – Foi para isso que estudei tanto tempo, me preparei para o exame da OAB. Na última semana passei horas me debruçando sobre os autos do processo até encontrar o ponto que procurava. Preparei as minhas questões, prevendo possíveis respostas evasivas e joguei a isca. O peixe caiu direitinho.
            – Será meu convidade para jantar no melhor restaurante num dia desses. Eu ligo para combinarmos.
            – Eu aproveito para lhe convidar a visitar a exposição de pintura de uma amiga muito querida. A inauguração é sábado na galeria e vai até o outro domingo.
            – Mas ela já tem alguma fama, ou é iniciante?
            – Primeira exposição. Mas tem mais de cem quadros pintados desde cedo. Enquanto fazia o curso de pintura pintou os primeiros trabalhos e evoluiu gradativamente.
            – Gente da terra?
            – Filha de um cafeeicultor do município.
            – E o pai no mínimo foi seu cliente! Estou certo?
            – Foi sim e eu trouxe uns quadros para o especialista ver. O resultado foi que o homem ficou encantado. Na galeria vai ser possível ver todo o crescimento artística da moça. Vale à pena conferir.
            – Sou apreciador e até entendo um pouco do assunto. Vou ver sim e, se possível, adquirir um ou dois para minha coleção particular. Podem vir a valer um bom dinheiro se ela se tornar mínimamente famosa.
            – Fique à vontade. Ela vai adorar saber que há quem aprecie as suas pinturas.
            – Nos veremos na exposição e semana que vem lhe ligo para marcarmos o jantar.
            – Será um prazer doutor.
            – Somos colegas, doutor.
            – Boa noite. Vou descansar. Amanhã ainda tenho umas audiências pela manhã e à tarde para variar.
            – Vá com Deus, amigo.
            José Silvério foi para a porta de saída, levando em sua valise os papéis que levara para usar no julgamento. Guardaria aquele material como relíquia. Tivera uma atuação brilhante mesmo. Sentia que esse momento ficaria marcado em sua vida profissional. Ao chegar em casa a mãe estava preocupada com sua demora. Habitualmente ele chegava mais cedo ou então lhe ligava avisando que iria se atrasar. Estando no recinto do juri não havia possibilidade de sair nos momentos mais críticos da sessão. Somente ao terminar pudera sair. Nem se dera mais ao trabalho de procurar um telefone público. Em minutos estaria em casa.
            Precisou esclarecer o motive de tudo. Ao saber de tudo a mãe ficou exultante. O seu filho estava atingindo o sucesso que procurara com tanta dedicação e empenho. Em pouco tempo seria olhado como advogado de gabarito. Todos os sacrifícios que ela e o pai haviam feito durante os longos anos de estudos na capital, estariam sendo recompensados. Serviu-lhe o jantar e ele sentou-se para comer. A mãe era toda solicitude e desvelo. Chegava ao exagero. Sua irmã se estivesse ali ficaria enciumada. Voltaria em pouco tempo do cinema onde for a com o namorado.
            Logo o pai veio da sala de televisão e conversaram, ficando também ele satisfeitíssimo com o desempenho do filho.
            – Pelo jeito você está chegando no topo, meu filho.
            – Ninguém no escritório quis pegar essa causa de hoje. Julgavam tempo perdido conseguir a condenação do acusado. Agora que está superado, o problema parece fácil. Na hora não foi brincadeira. Bastaria uma palavra errada, uma entonação titubeante, e ele me escaparia.
            – Mas então estamos diante de um advogado de alto gabarito. Isso merece uma comemoração. Traz aí um vinho.
            – Que é isso pai? Não precisa. Se eu beber agora, amanhã não levanto cedo.
            – E uma taça de vinho vai fazer o que? Vai te fazer dormir melhor.
            Em instantes uma garrafa de bom vinho teve a rolha retirada e as taças foram servidas. Levantaram um brinde:
            – Ao mais novo e famoso advogado de Sete Lagoas!
            – E aos melhores pais do mundo!   
            Os cristais tilintaram e todos beberam um gole do vinho. José continou comendo enquanto os pais ficaram ali, dando sinais de sentirem um orgulho enorme pelo desempenho dele. Quando estava terminando de jantar, chegou a irmã. Ao ver o vinho aberto quis saber o motivo da comemoração.
            – Seu irmão hoje subiu mais um degrau na fama entre os advogados da cidade. Conseguiu a condenação daquele assassin que todos diziam que seria absolvido. Foi a habilidade dele que fez a diferença.
            – Deixe-me abraçar esse homem famoso. Parabéns mano. Eu sabia que iria ficar famoso logo.
            – Você também vai chegar lá.
            – José, esse é Luiz Carlos, meu namorado.
            – Olá cunhado! Tudo bem com você?
            – Tudo ótimo. Parabéns pelo sucesso.
            – Obrigado, Luiz Carlos. Precisamos nos conhecer melhor.
            – Vocês vão ter tempo para isso. Ele vai estar por aqui frequentemente.
            – Gente! Estou exausto. O dia foi longo e cansativo. Vou tomar um banho e dormir. Tenho que levantar cedo amanhã.
            – Durma bem, José. Depois de um gole de vinho e bom janta, vai dormir igual um bebê.
            – Estou precisando. Boa noite a vocês. Sua bênção pai e mãe.
            – Deus lhe abençoe, filho, – disseram os pais em uníssono.
            – Boa noite mano. Durma com os anjos.
            Foi para seu quarto e alguns minutos depois terminava de tomar uma ducha refrescante. Vestiu o pijama, conferiu sua agenda do dia seguinte e deitou par adormir. Elevou o pensamento a Deus pedindo que a exposição de Isabel fosse um sucesso, assim como sua vida pessoal estava virando um sucesso brilhante. Bastaria um empurrão inicial para fazer decolar a carreira da mulher que ele amava em silêncio. Mesmo assim fazia tudo que fosse possível para que ela alcançasse um lugar no mundo artístico.
            As audiências da sexta-feira eram preparatórias de julgamentos posteriors. Em ambos os casos ele atuaria como advogado de defesa. O promotor que no dia anterior estava ao seu lado, estaria na acusação e tentariam medir suas forças intelectuais. Esforçou-se por conseguir o julgamento mais justo possível do seu cliente. Não concordaria em provar inocência de réu confesso, pois isso iria contra as suas convições. Faria o possível para que no dia do juri o acusado recebesse a melhor defesa possível, dentro dos termos da lei. As duas sessões não foram demasiadamente cansativas e ainda cedo estava em casa. De seu quarto ligou para a fazenda, pedindo para falar com Isabel.
             Foi informado de que ela estava na cidade, para cuidar dos últimos detalhes da exposição. Coronel Onofre e a mãe viriam no dia seguinte para a inauguração. Pediu o hotel onde estava hospedada e depois ligou para lá. Em instantes ouviu a voz querida dizendo:
            – Alo!
            – Isabel!
            – Sim, sou eu.
            – José Silvério. Está livre daqui a pouco?
            – Tenho um compromisso, mas é rápido.
            – Aceita jantar comigo?
            – Onde?
            – No lugar que você quiser. Preciso contar umas coisas e desejar sucesso amanhã.
            – Daqui a uma hora estarei esperando. Pode ser?
            – Passo aí lhe pegar. Vamos comer uma comidinha muito fina.
            – Vou ir agora, para não me atrasar.
            – Até depois então.
            Os telefones foram desligados e José cuidou de seu banho, caprichou na barba, dando um último retoque. Usou um perfume suave que ele descobrira ser do agrado de Isabel. Vestiu-se com esmero, sem ostentação. Avisou a mãe de que iria jantar fora. Ela quis saber com quem e ele desconversou. Ficou imaginando quem seria a companhia de seu filho. Será que ele estava sendo tão inteligente na escolha da mulher como se mostrava nos tribunais? Decidiu deixar isso nas mãos de Deus. Esperaria o tempo passar e veria no que isso resultaria. O filho era adulto, profissional e saberia tomar conta de sua vida. Não era mais o seu bebê, como muitas vezes se via no dia a dia.
            Assistiu um pouco de televisão, vendo um jornal local e depois embarcou em seu automóvel, indo buscar Isabel. Ela acabava de chegar do compromisso de última hora que tivera que dar atendimento. Era na verdade uma entrevista a uma equipe de jornalismo da televisão e radio, sobre os seus quadros que seriam expostos na galeria. Mal teve tempo de ir até o seu apartamento pegar uma blusa leve para se proteger do ar mais frio da noite. Desceu e falou:
            – Podemos ir, doutor.
            – Não me chame de doutor, Isabel. Para você sou José.
            – Então José, podemos ir.
            – Assim está melhor. Apenas José.
            Embarcaram no automóvel e foram a um dos restaurantes mais refinados da praça. Ele usare o telefone do quarto para fazer uma reserva de última hora. Graças a Deus conseguira. Chegaram, ele entregou as chaves a um manobrista e conduziu Isabel para a entrada do estabelecimento. Ela ficou maravilhada com o luxo da instalação. Nunca estivera em um restaurante desse nível. Mesmo sendo filha de quem era. O pai não ligava para isso.
            – Aqui você vai conhecer um pouco da alta sociedade de Sete Lagoas, Isabel.
            – Que chique! Quanto luxo! Dá até medo de entrar e sujar.
            – Nem se preocupe. Tem gente para limpar tudo depois. Para isso a gente paga. Tudo isso está incluido no preço dos pratos.
            – Mas que dá pena, isso dá.
            – Vamos ver nossa mesa. Está reservada. Deve ser aquela ali.
            Nisso um garçom se aproximou e perguntou se poderia ajudar.
            – Reservei uma mesa para duas pessoas.
            – Seu nome?
            – José Silvério.
            – Ah! O doutor José Silvério! Sua fama já chegou por aqui. Seja bem vindo a nosso estabelecimento. Por aqui.
            Levou o casal até a mesa cuidadosamente posta à sua espera. Quando ligara o gerente imediatamente ligara o nome ao julgamento do dia anterior e eixigira dos subalternos o máximo de esmero no serviço.
            – Sentem-se por favor! – disse o garçom puxando as cadeiras.
            – Obrigada! – falou Isabel sentando.
            Na mesma hora surgiu nas mãos do garçom o cardápio e colocou um exemplar nas mãos de cada um deles. Ao mesmo tempo perguntou:
            – Aceitam a entrada da casa para hoje?
            – Podemos testar para ver se faz jus à fama, não acha Isabel?
            – Por mim pode ser.
            – Pode trazer. Enquanto isso examinamos o cardápio.
            – Com sua licença, – e o servente se retirou em busca das entradas.
            – Está ficando famos, doutor, alias José.
            – Consequências do trabalho. Não tem como não ficar conhecido. Prefiro ser conhecido e famoso por fazer coisas boas do que por outros motivos.
            – Não resta dúvida. Eu estou nervosa até o último. Não vejo a hora de terminar a inauguração. Nos outros dias tudo vira rotina, mas no primeiro é um sufoco.
            – Por isso eu lhe trouxe aqui hoje. Precisa pensar em coisas diferentes e bonitas. Boa comida e bebida ajuda a deixare a cabeça em melhores condições.
            – Tomara que isso me ajude. Aquela entrevista foi de fazer suar. Me senti flutuando diante das cameras, microfones e tudo isso.
            – Depois você acostuma e vira rotina também.
            Nisso o garçom chegou trazendo as entradas. Eles haviam escolhido para prato principal salmão, acompanhado de aipim, saladas e tempero leve. Não queriam complicações digestivas para o dia de sábado. Enquanto eles comiam os petiscos da entrada e degustavam uma tacinha de aperitivo à base de maracuja, o garçom providenciava os pratos. José Silvério, aproveitou para perguntar:
            – Isabel! Se seu pai concordar, você aceita ser minha namorada?
            – Assim de repente? Não posso pensar um pouco?
            – Eu pedi a seu pain a primeira visita, mas cometi o erro de levar cigarros e fósforos. Ele aceitou um cigarro. Eu gastei dois palitos de fósforos para acender o dele e outro para mim.
            – Já sei o que aconteceu. Ele lhe chamou de perdulário. Onde já se viu gastar dois palitos de fósforos se havia fogo na lareira.
            – Mas ele contou isso?
            – Não. Eu conheço a figura. Ele é sovina como todo mineiro que se preze.
            – Bem, se ele tivesse lhe contado eu iria ficar envergonhado. Mas acho que já posso provar a ele que não vou lhe fazer passar fome depois de casados.
            – Isso só poderia vir de papai. Ele logo pensa em penúria, passar fome e essas coisas. Mas esse é assim e não muda nunca.
            – Eu agora tenho uma posição ótima no escritório, estou ganhando notoriedade profissional. Ganho bem e então vou poder dar a você a vida que merece.
            – Então esses meses todos você está esperando a hora para falar comigo?
            – E eu iria querer afrontar o coronel?
            – Não lhe ocorreu que eu poderia pensar diferente?
            – Espero não tê-la ofendido.
            – Ofender não, mas poderia ter falado comigo antes disso. Eu também fiquei balançada quando lhe vi a primeira vez ali no escritório. Mas pensei que um advogado da cidade não iria querer saber de uma moça da fazenda.
            – Ah! Sim senhorita. Uma moça da fazenda que pinta quadros lindíssimos e logo vai alcançar fama no mundo das artes.
            – Se conseguir vender meus quadros, ganhar alguma coisa com eles já me sinto contente. Nem almejo fama.
            – Escreva o que estou falando. Vou querer garantir minha vez nessa fila antes de os gaviões das capitais colocarem os olhos na sua beleza.
            Os pratos pedidos chegaram e a conversa foi interrompida. O mais importante agora era saborear o sabor do excelente peixe, com o aipim, um crème de legumes, saladas de tomates e alfaces. Para completar pediram um vinho branco de boa procedência. A refeição demorou quase duas horas, desde a hora da chegada até o final. Às 22 h e 15 minutos eles estavam saindo. O vinho que tinham bebido não era dos mais fortes em teor alcoólico e seu efeito já estava terminando. José levou Isabel até a portaria do hotel e antes de se despedir repetiu a pergunta:
            – Você aceita?
            – Aceito, José. Desculpe. Nossa conversa lá no restaurante me fez esquecer de dar a resposta.
            – Sempre é tempo, querida. Posso lhe dar um beijo de boa noite?
            – Aqui em público?
            – Apenas no rosto, é claro.
            Ela aproximou o rosto e ele depositou um beijo suave nas us face. Depois levou a mão aos lábios, beijando-os também.
            – Boa noite e durma bem. Quero você deslumbrante amanhã.
            – Vou fazer o possível.
            Chegou a hora da inauguração. As horas do sábado correram depressa e ao se darem conta era hora de estar a postos para a cerimônia. Uma pequena multidão de fotógrafos, cinegrafistas e reporteres estavam presentes. A fita inaugural foi cortada por Isabel, auxiliada pelos pais. Em seguida os convidados de honra, autoridades, pintores, escultores e outros expoentes do mundo artístico puderam apreciar em primeira mão os quadros. Estavam dispostos traçando a trajetória da artista e a cada passo os visitantes ficavam maravilhados com a clara evolução da técnica. A cada obra o traço ficava mais definido, as cores se fundiam e destacavam ao mesmo tempo, formando um conjunto de uma harmonia incrível. Um coquetel foi oferecido aos convidados e depois a galeria foi fechada. Seria aberta no dia seguinte às 14 horas e ficaria aberta até às 22horas.
            Seria a vez dos visitantes com ingressor, vendidos a preços pouco mais que simbólicos. Dariam, se houvesse um afluxo razoável, para cobrir os custos gerais do evento. Os dias seguintes foram uma verdadeira roda-viva. Os quadros começaram a ter propostas de compra que foram recebidas. No final seriam abertos os envelopes e levaria a obra quem oferecesse o valor mais alto. Desde já ficava reservado à artista o direito de levar os trabalhos, mesmo os vendidos, para a exposição que seria organizada no mes de dezembro em Belo Horizonte. Ao chegar a hora de encerrar, havia uma bela pilha de envelopes com propostas pelos diversos trabalhos.
            Incluindo o último, pintado especialmente para a exposição, todos eles tinham propostas de compra. Fariam a abertura na segunda feira. Depois seria feita a comunicação aos vencedores. Uma porção de escolas levaram os alunos para ver a exposição, sendo que foi feito um acordo para permitir o acesso aos alunos dos estabelecimentos mais carentes. A entrada era franca. O afluxo de visitantes era constante durante todas as horas de abertura da galeria. Assim, o valor arrecadado na venda dos ingressos cobriu folgadamente as despesas e os quadros foram arrematados em sua totalidade por valores até cinco vezes superiors ao mínimo que haviam estabelecido.
            O organizador ficou radiante. Assim ganharia uma bela comissão e teria em mãos uma jóia rara. Levaria seus trabalhos para Belo Horizonte e depois para São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e outras capitas. Talvez até para o exterior, se fosse possível reunir todas ou bom número dos trabalhos. Entre os compradores havia inclusive representantes do exterior. Um colecionador francês havia adquiriro dez dos mais bonitos e queria que o acervo todo fosse levado para França no momento oportuno.

 

            Os adquirentes ficaram muito satisfeitos e concordaram em ceder temporáriamente as obras para integrar exposições em diversos outros centros artísticos. Isso significaria uma grande valorização para o seu investimento. 

Gaúcho de São Borja! – Capítulo XVI

 

Amanhecer em São Borja.

 

Instalações ficam prontas.
Nos arrozais os peixes cresciam a olhos vistos. Já eram visíveis nadando aos cardumes por toda parte. As bocas pareciam não parar de abocanhar pequenos bichinhos, praticamente invisíveis. Ficava fácil de imaginar o dano que alguns deles poderiam causar ao arroz, diminuindo seu desenvolvimento pleno, reduzindo no final a produtividade. Enquanto isso as obras da empresa de engenharia avançavam rapidamente. A estrutura estava pronta, faltando apenas o acabamento. Isso estava sendo facilitado agora que o telhado estava colocado. Assim, mesmo em dias chuvosos era possível continuar trabalhando sem problema. O final de janeiro estava perto e faltavam alguns pequenos detalhes. Testar as instalações de água, aguardar a secagem de rebocos e pisos recentemente preparados.
Gaudência, diante disso, dirigiu-se ao representante local da empresa venderora dos equipamentos. Indagou da disponibilidade deles para realizar a instalação. Na semana seguinte poderiam vir para realizar a última etapa, antes de poderem iniciar a implantação da ordenha mecânica. Em minutos o representante falava com a matriz na capital. Informou o número do pedido, confirmou os ítens adquiridos, encontrando tudo em ordem. Desligou e dirigiu-se ao cliente:
– Até no máximo dia 10 de fevereiro estará tudo instalado. Devem despachar as máquinas antes do final do mês pela ferrovia e os técnicos vem depois de caminhonete. Está bem assim?
– Ótimo. Até lá o cimento seca direito e não vai haver mais problema. Estou ansioso por ver isso tudo funcionando, mas sei que tem necessidade de esperar até ficar pronto.
– Isso é assim mesmo, Gaudêncio. Todo mundo quer ver as novidades implantadas e funcionando. Não é só você que passa por isso.
– Eu não quer atropelar as coisas, pois isso pode causar mais danos do que esperar mais um pouco.
– Está certo.
– Me avise quando chegarem as máquinas ou vocês providenciam o transporte até a fazenda?
– Nós cuidamos disso. Não se preocupe.
– Até logo e obrigado.
Saiu dali e foi resolver um compromisso no banco. Na verdade queria verificar a disponibilidade do dinheiro para cobrir os custos financiados pelo banco. Não que o valor fosse ser depositado em conta, mas saber se estava tudo em ordem para que o valor fosse creditado à empresa vendedora no momento da conclusão da instalação. Estava tudo certo. O contrato for a assinado, os cadastros todos preenchidos, dados da empresa vendedora informados. Bastaria levar o comprovante de entrega do material e sua instalação e o dinheiro seria liberado.
Saindo do Banco ele foi até o colégio ver a situação de sua matrícula para dar continuidade nos estudos. Aproveitara todos os momentos livres nos últimos meses para estudar, revisar os conteúdos. Além disso literalmente devorara uma porção dos livros que haviam sido de sua madrinha. Além do primeiro, encontrara um mais interessante que o outro. Em várias ocasiões se pegou pensando que estivera perdendo tempo por uma porção de anos. Aqueles mesmos livros que agora devorava avidamente, haviam estado ali, na mesma estante durante praticamente toda sua vida e só agora lhes dera importândcia. Mas não adiantava chorar o tempo perdido. Urgia não perder mais dali por diante.
As matrículas estavam abertas e ele providenciou a sua. Encontrou com a secretária que lhe emprestara as apostilas para revisar o conteúdo e lhe falou de seus progressos. Ela lhe deu boas vindas ao colégio e parabenizou pelo fato de também ter se interessado pela leitura. Ali estava um excelente sinal. Sem dúvida iria fazer progressos rapidamente. Era mais que notório que o interessi do aluno pelos conteúdos representava mais de meio caminho andado rumo ao aprendizado. Ele se despediu para retornar à fazenda, depois de passar pela casa do padrinho que lhe pedira para olhar se tudo estava em ordem por lá. Fazia dias não vinha para a cidade.
A governanta lhe pediu algumas coisas que ele providenciou no comércio para abastecer o que estava em falta. Depois, já um pouco passado da hora do almoço, tomou o caminho de casa. Almoçaria em casa, pouco importando se fosse preciso requentar a comida. Não seria a mesma coisa que sentar-se para comer no momento de tirar as panelas do fogo, mas não havia como fazer tudo na hora desejada. Ao chegar a mãe o esperava com um prato ainda quente na beira do fogão a lenha. A fome estava grande e ele sentou-se sem cerimônia. Maria Conceição recomendou que comesse mais devagar. O prato não fugiria dali.
– Tem razão mãe. Às vezes me ponho a comer depressa, pensando que vou terminar antes e dar tempo de fazer mais coisas.
– Não adianta nada. Comer depressa causa é indigestão depois. E então como fica?
            Passou a comer mais devagar, mastigando bem os alimentos. Ao terminar, sentiu-se refeito e o alimento não estava pesando no estômago. Sentou-se alguns minutos e respondeu às perguntas da mãe que queria saber em que pé estava a instalação das máquinas. Satisfeita a curiosidade da genitora, ele foi cuidar dos afazeres. Primeiro passou pela casa grande, trocando a roupa que usare na ida a cidade, por outra mais adequada às andanças pela fazenda. O padrinho igualmente queria saber como estava a entrega e ele lhe satisfez a vontade. Por fim Joaquim quis ir junto percorrer a propriedade. Ficara por algumas semanas na cidade no começo do ano e viera no último final de semana.
            O resto da tarde foi gasto em vistoriar o desenvolvimento do arroz. A presença dos peixes era importante no controle dos insetos nocivos, até mesmo algumas plantas ficavam mais controladas. Cada vez se convenciam mais do acerto de sua decisão em trazer os alevinos. Ao mesmo tempo a associação dos pescadores estava procedendo à adaptação de um prédio antigo e sem uso para ali processar o pescado que seria oriundo das fazendas de arroz. As mesmas instalações serviriam para armazenar os excedentes de peixe pescado no rio em ocasiões especiais. Isso tornaria a possibilidade do abastecimento ao longo do ano mais uniforme. Haveria variação das espécies, mas não faltaria o peixe.
            Até aquele momento, em algumas ocasiões, era preciso trazer o produto congelado de longe. O frete elevava o custo e consequentemente o consume caia muito. Dessa forma a vida financeira dos pesacadores oscilava continuamente, nunca passando muito tempo em equilíbrio razoável. O Banco do Brasil havia usado uma linha de crédito especial para que fosse possível fazer as instalações e modificações necessárias. Grupos de pescadores e seus familiares, foram treinados para assumir as tarefas específicas dessa nova atividade.
            Tinham intenção de percorrer as áreas de pastagem, mas anoiteceu antes que tivessem tempo de faze-lo. Fariam isso na manhã seguinte. Haviam se entretido apreciando a beleza do viço e excelente sanidade observado na plantação do arroz. A área destinada à forragem das produtoras de leite também haviam vistoriado. O plantio de milho e outras forrageiras como sorgo, havia ocorrido um pouco mais tarde. No entanto haveria tempo para o corte e produção de silagem. Isso garantiria a alimentação dos animais no período de pastos deficientes. Teriam uma manutenção do nível de produção de leite no inverno. O veterinário e também o agrônomo do sindicato rural haviam contribuido com orientações para levar isso tudo a efeito.
            No dia 02 de fevereiro receberm o aviso do representante de São Borja de que as máquinas estavam na estação de carga/descarga. Fariam o transporte no dia seguinte ou no máximo até o dia 05. Igualmente lhes foi informado que no dia 04 a equipe encarregada da instalação estaria chegando para fazer sua parte na transação. Um caminhão trouxe o equipamento. Um trator, equipado com concha de carregadeira, foi usado para facilitar a retirada de cima do veículo. Mesmo havendo trabalhadores suficientes para fazer o trabalho, o uso da máquina tornou o processo mais fácil e seguro.
            Como as obras de engenharia haviam sido executadas em conformidade com as recomendações do fabricante, foi possível colocar as máquinas de imediato no lugar da instalação. Isso facilitaria o trabalho dos técnicos e apressaria a conclusão de sua tarefa. No próprio dia 03 ao entardecer, o grupo chegou e foi acomodado em quartos existentes na casa grande. Ficaram satisfeitos pois assim não teriam que ir e voltar da cidade, ganhando tempo com isso.
            Realmente, em pouco mais de três dias estava tudo instalado. Fizeram os testes costumeiros e avisaram aos proprietários de que no dia seguinte poderiam fazer a primeira ordenha mecânica. Os empregados foram avisados e em princípio, todos ficaram prontos a receber as instruções de uso dos novos equipamentos. Quando se iniciuou o procedimento, os animais estranharam primeiro o novo local onde iriam ser tratados e submetidos ao processo de retirada do leite. Depois chegou o momento de colocar as teteiras em lugar das mãos. Era preciso imobilizar as pernas para evitar os coices e danos nos equipamentos. Faixas para isso acompanhavam a ordenhadeira.
            Deram um pouco de trabalho, mas sendo de índole em geral pacífica, não foi difícile fazer a transição. Elas, desacostumadas à novidade, custavam um pouco para soltar o leite. Depois que superavam essa rejeição, tudo começou a fluir naturalmente. Sem dúvida havia alguns animais menos dóceis que davam mais trabalho, mas nada que impedisse a realização da ordenha ao final. Quando viu o leite colocado no resfriador, de onde seria transferido para o veículo de transporte, Maria Conceição não quis acreditar. Em muito menos tempo, sem quase nenhum esforço, um volume de mais de 1200 litros de leite estava ali, pronto para lhe ser dado destino.
            Procedeu-se à destinação das quantidades necessárias para atender a todos os trabalhadores, além de confecção de algumas peças de queijo, muito apreciado. Mesmo assim sobravam perto de 1000 litros. Esse volume, reunido ao tirado na noite anterior e guardado no resfriador já em uso, daria mais de 2000 litros. Em alguns meses, com a entrada em produção das novilhas compradas, esse volume seria significativamente reforçado. Os técnicos ainda permaneceram mais dois dias no local, acompanhando a adaptação dos animais e dos trabalhadores ao novo modo de proceder. Depois que tudo estava fluindo normalmente, eles se despediram e retornaram à capital. Antes tinham mais duas fazendas para fazer a amesma instalação. Uma delas em Uruguaiana e outra na região de Santa Maria, já no caminho de volta.      
            Quando tudo ficou estabelecido, os melhor adaptados ao novo modo de ordenha, foram efetivados nessa tarefa. Os demais temeram ser demitidos, chegando a ficar grandemente preocupados. Mas antes que isso acontecesse, alguns dos mais antigos foram aposentados e os demais foram realocados em novas tarefas. Houve quem fosse treinado nas tarefas de operação de máquinas como tratores, trituradores para silagem e outras. Também foram treinados, especialmente mulheres, para atuar na produção dos queijos. Gaudêncio tinha como objetivo produzir uma variedade de queijo colonial com qualidades especiais. Isso requeria especialização de funcionários.
            Dessa forma Maria Conceição teve seus temores removidos. Ninguém perdera o emprego. Os poucos que tinham alcançado idade para aposentadoria e tempo de contribuição suficiente passaram a perceber sua aposentadoria. Além disso lhes foi concedido o direito de permanecerem vivendo nas casas que ocupavam. Todos eles tinham filhos ou filhas trabalhando em algum serviço dentro da propriedade. Dessa forma passavam a fazer parte do serviço em suas casas, aliviando o fardo dos outros membros. Assim ficavam com atividades, compatíveis com suas forças. Isso era resultado da implanação do INPS. Além disso tinham direito ao FGTS, permitindo que dispusessem de um pecúlio para suprir alguns anseios há muito acalentados.
            Em poucos dias tudo retomou sua rotina. As vacas não mais estranhavam o local, nem o uso das teteiras. Pareciam até mais calmas agora, não sofrendo com as constantes trações para baixo por parte de alguns ordenhadores. Em alguns dias, houve até um pequeno aumento na produção.
            Nesse meio tempo, as semanas passavam e os cachos de arroz começavam a “engordar”. Os grãos inicialmente magros, aos poucos ficavam recheados. Mais alguns dias e começaram a pintar levemente de dourado. Em pouco os campos se cobriram de uma cor amarelada. Era hora de começar a retirar a água das áreas mais adiantadas e assim deixare a área pronta para a colheita. Do contrário as máquinas teriam problemas em se movimentar para fazer o trabalho. Na fazenda Santa Maria e também na Santana, havia ainda outro problema. A água que seria retirada, implicava na remoção de muitas toneladas de peixes ali colocados alguns meses antes na forma de minúsculos pontos. Agora estavam medindo entre 15 e 20 cm de comprimento.
            Era a primeira vez que isso seria feito e logicamente requeria um período de aprendizado. Nas semanas anteriores Gaudêncio viajara para uma fazenda em Uruguaiana que usava a técnica e o arroz ficara maduro um pouco antes. Foi aprender como seria mais adequado fazer esse trabalho. Levou consigo dois auxiliares para poderem trabalhar em mais de uma equipe. Os pescadores estavam esperando para fazer o processamenrto. Se preciso fosse, trabalhariam em turnos alternados, durante as 24 horas do dia. Depois dos primeiros dias e alguns pequenos acidentes, dominaram o procedimento e toneladas atrás de toneladas os peixes foram levados para o frigorífico dos pescadores.
 
Arroz no ponto de colher.

 

Arroz amadurecendo.
 
 
 
Quando foi a hora de iniciar a colheita, o solo estava seco o suficiente para as máquinas poderem entrar na área. A colheita foi farta. Os cachos estavam pesados e as colhedeiras enchiam caçambas e mais caçambas do precioso cereal. Os caminhãos se revezavam em transportar o produto para os silos onde ficaria armazenado até o processamento pelas indústrias. O carnaval dera à família do general ocasião para voltar à fazenda. Gaudêncio deixou para viajar à capital por ocasião da páscoa. Até lá o arroz estaria colhido em sua maior parte. Estava, paralelamente, envolvido agora com a sua presença às aulas.
 
Colheita em andamento. Ainda se vê água no solo.

 

Arroz sendo colhido e ao lado os canais de irrigação.

 

Moderna ceifedeira de arroz.
 
            Notou com satisfação que ao seu lado estavam homens, rapazes, moças e mesmo senhoras com idades variando de 16 a algo em torno dos 40 anos de idade. Uma verdadeira miscelânia de idades. Isso deixava o problema da sua adaptação ao ambiente escolar, relegado à insignificância. Não era nem o mais jovem, muito menos o mais velho na sala. Em poucos dias estavam integrados, considerando-se, antes de mais nada, todos colegas. Tinham deixado a formação escolar de lado em sua época própria e agora corriam atrás do bonde. Era frequente ouvir a expressão: Antes tarde que nunca.
            Como em todas as turmas, existem os elementos destoantes. De 35 integrantes da turma, havia quatro que gostavam de questionar tudo, contestar, inquirir por quê estudar essa ou aquela disciplina; por quê não estudar aquela outra, para que serviria determinado assunto, onde seria usado. Dessa forma irritavam os professores e também os colegas. Era necessária muita paciência para se acostumar com a constante perturbação que esses elementos causavam. Em questão de poucos dias os professors de pulso mais firme haviam conseguido colocá-los em seus lugares. Já os mais frágeis nesse particular começaram a apelar para aplicação do regulamento da escola. Avisavam uma vez, duas vezes e na Terceira convidavam o alauno a se retirar da sala.
            Em geral isso resultava em suspensão por um dia, dois dias, com o documento sendo afixado no edital para todos verem. Gaudêncio sentia vontade de pegar os jovens, tinham todos menos de 20 anos, pelo gasnete e lhes aplicar umas boas palmadas no traseiro. Foi preciso controle para não extrapolar suas atribuições ali. Não estava na fazenda, onde os peões lhe obedeciam sem discutir. Era um igual e não poderia se salientar. Tentou mesmo conversar com eles tentando levá-los à conscientização, mas pouco adiantou. Por alguns dias até ficaram mais sossegados, mas depois voltavam à velha rotina. O mês de março passou e chegou abril. Nas primeiras semanas era a semana santa. Havia aulas só até a quarta feira.
            Na quinta feira cedo, Gaudêncio estava no aeroporto para ir à capital. Estava com saudades de sua amada. O mesmo acontecia com ela. Pelo menos duas vezes por semana se falavam por telefone, mas nada é igual a presença física da pessoa amada. Os pais lhe havia desejado boa viagem, dado sua benção e o padrinho o deixara no aeródromo. Pouco depois do meio dia estava no apartamento, sentado serenamente e almoçando com a família de Ângela. Estava disposto a falar com ela naquela ocasião sobre o noivado. Se ela aceitasse a levaria a uma joalheria para comprar as alianças e um anel de noivado. Faria o pedido aos pais oficialmente na noite de Páscoa.
            Os dias foram curtos para matar a saudade e depois de irem a uma joalheria na manhã de sábado, os dois estavam aparentemente cheios de segredos sobre o que haviam feito durante o passeio. Ângela todavia havia contado a novidade à mãe e recebera dela total apoio. O único que parecia estar por for a do assunto era o general. À noite todos se dirigiram à igreja mais próxima e assistiram à celebração da ressurreição. Terminada a cerimônia, chegaram à casa pouco antes da meia noite.
            Haviam comido uma refeição leve antes da ida à igreja. Ao retorno os aguardava uma ceia de alimentos frios, acompanhados de uma taça de champanha. Foi nesse momento que Gaudêncio resolveu fazer o pedido ao pai da amada. Tomado de surpresa o general olhou de olhos arregalados por um instante. Volveu os olhos para a esposa depois para a filha como a interrogar o que deveria fazer. Dona Lourdes falou:
            – Não vai responder ao Gaudêncio, meu bem?
            – A sim! Fiquei tão surpreso que esqueci de responder.
            – Ele está esperando pela sua resposta. Vai dar ou não sua permissão?
            – Dou sim, com certeza. É que essa é a primeira vez que pedem minha filha em noivado. Vamos celebrar a essa oportunidade.
            As taças foram enchidas novamente, as alianças foram colocadas nos dedos da mão direita. Depois, antes de ser erguido o brinde, o noivo retirou do bolso um outro estojo e o entregou à noiva, dizendo:
            – Quero deixar uma lembrança inesquecível para Ângela, minha querida noiva.
Ela abriu o estojo e retirou de dentro o belíssimo anel de diamantes, finamente trabalhado. As pedras faiscavam sob à lus das velas que iluminavam o ambiente nesse momento. O anel foi colocado no dedo da outra mão e exibido para todos verem. Só então ergueram o brinde, desejando vida longa ao casal, muita felicidade e no futuro casamento.
Depois disso atacaram os alimentos que estavam postos na mesa e aguardavam os comensais. Eram apenas os quatro. A parte social ficaria para o almoço de domingo que passariam no clube. O general havia reservado churrasco para a família e os demais sócios ficavam orgulhosos sempre que podiam contar com a presença de seu comandante. Foram dormir mais tarde. Na manhã seguinte não haveria necessidade de levantarem muito cedo. Não precisariam se preocupar em preparar o almoço. O café poderia ser apenas um leve belisco para não estragar o apetite no almoço.
Dormiram e levantaram já em torno das 09 h da manhã. Dona Lourdes havia preparado um bule de café, fervido um litro de leite. For a na esquina buscar um pão fresquinho da panificadora que ali havia. Os três sentaram e precisaram se conter para não exagerar no desjejum. O general vestiu sua farad de gala para esse dia. Estariam reunidos também alguns oficiais das outras armas como aeronáutica, marinha e brigade militar. Era pois dia de trajar roupas de acordo com a ocasião. Os outros três, dado o clima já mais ameno nessa época, vestiram roupas sem exagero, mas condizentes com situação.
Às 11 h 30 minutos chegaram ao clube. A maioria dos oficiais das várias unidades militares estava no recinto quando o quarteto fez sua entrada. Foram cumprimentados com deferencia por todos e não tardou para as amigas mais chegadas de Ângela vissem a aliança na mão direita e o anel de noivado na esquerda. Foi cercada e cumprimentada de todos os lados. O almoço, apesar de ser servido o tradicional churrasco gaucho, foi festivo. Os enormes espetos eram carregados por vigorosos garçons por entre as mesas, convenientemente distanciadas para não criar problemas de locomoção. Ainda havia muita carne para ser consumida, mas ninguém mais tinha lugar no estômago para tanto. Sem esquecer que ainda havia a sobremesa por ser servida.
Dessa forma, por volta de quatro horas da tarde a família chegou de volta para o apartamento. Gaudêncio tinha marcado sua passagem para a segunda feira na primeira hora depois do almoço. O feriado chegava ao fim e os, agora noivos, se despediram prometendo não demorar demais em se casarem. Simplesmente não saberiam mais viver longe um do outro por muito tempo. Gaudêncio contara orgulhoso seu êxito na escola. A forma como mergulhara nos livros de literatura e isso o deixara encantado. Teria muito a recuperar do tempo perdido nos anos vindouros.
Os dois foram ao aeroporto acompanhados da mãe dona Lourdes, para fazer companhia à filha na volta. Beijaram-se ternamente no momento da separação e acenaram na hora de entrar na aeronave. Levariam no coração a lembrança daquele momento. Serviria de console até o próximo encontro.

Dia do funcionário público.

Dia 28 de outubro!

Dia do funcionário público.

Estou imaginando muita gente torcendo o nariz ao ler o título desse meu artigo. Provavelmente isso não é sem razão. Quem nunca teve o desprazer de ser mal atendido, ficar uma enternidade esperando na fila, para no final ficar sabendo que alguma coisa está errada. Você precisa retornar em outra ocasião para trazer um documento qualquer, uma assinatura ou sei lá o que mais. Algumas vezes precisamos encarar um rosto carrancudo, crispado e não vemos a hora de sair dali. Sempre está bem visível uma placa em que está impresso, em letras bem grandes e legíveis, a informação de que, desacatar o funcionário é passível de punição, podendo receber voz de prisão. Num primeiro momento isso nos deixa um pouco indignados. Mas existe uma razão para isso. 

Em muitos momentos do passado ocorreram sérias perturbações em lugares públicos, causadas por pessoas exaltadas, reagindo de modo violento a algum fato, chegando a agredir os servidores. Na maior parte das vezes eles não dizem o que nos desagrada por sua vontade. Estão cumprindo ordens que são devidas a circunstâncias que não tem nada a ver com eles próprios. A lei visa proteger sua integridade física e moral. Por outro lado, há aqueles que usam dessa prerrogativa para se exceder e tripudiar sobre os “clientes” que vem em busca dos serviços que são prestados na repartição. Tanto um caso quanto outro são indesejáveis. O ideal é que o funcionário atenda a todos com civilidade e cortesia, sem deixar de cumprir as ordens recebidas. 

Igualmente o cidadão que necessita de atendimento, precisa saber manter o controle de suas emoções. Não tem o direito de descarregar sobre o funcionário suas frustrações, as tensões, sejam de que natureza forem. Se houver respeito e sociabilidade, certamente haverá uma convivência pacífica entre cidadãos e os servidores públicos. Até mesmo porque, os funcionários de um órgão, necessitam de atendimento dos de outro. Nesse momento se invertem os papéis, ou seja, podemos nos encontrar ora em uma posição ora em outra. Podemos estar diante do balcão de atendimento e noutro caso do lado de dentro. Quem é funcionário de empresas privadas, precisa encarar os clientes como pessoas que estão ali em busca de algum “bem”, seja material ou de serviço. Há portanto necessidade de sabermos nos colocar no lugar do outro. Nunca esqueçamos que o outro dificilmente é o responsável por nossos desgostos, nossos dissabores do dia a dia. Vale aí aquela velha máxima: Não faça aos outros o que não queres que façam a ti.

Poderíamos ficar recitando um sem número de situações possíveis no dia a dia. Uma infinidade de encontros entre diversas personalidades, com afinidades, áreas de conflito e divergências, potencialmente propensas a desentendimentos. Se soubermos manter nossa boca fechada, pensarmos antes de falar, contar até dez ou mesmo cem, antes de pronunciar palavras de que venhamos a nos arrepender depois, certamente viveremos mais harmoniosamente com nossos semelhantes. 

Diante disso, a todos os funcionários públicos, PARABÉNS pelo seu dia. Desejo sinceramente que se sintam realizados em suas funções, recompensados financeira e espiritualmente. Nunca esqueçam que, uma cara feia, assusta alguns, mas nem todos. Já um sorriso sereno conquista a muitos, quase a maioria. Vamos deixar do lado de fora, ou ao menos no vestiário onde guardamos nossos pertences, as tristezas, aborrecimentos que nos acompanham. Levá-los para o posto de trabalho certamente fará nosso dia mais difícil de suportar. Já lhe bastam as agruras naturais que certamente trará consigo. Não necessitamos acrescentar-lhe nada nesse aspecto. 

Você  cidadão, que com maior ou menor frequência depende dos funcionários públicos, deixe em casa, ou amarradas a um poste, sobre um banco de praça, seus sentimentos de raiva, revolta e mesmo ódio. Não os leve para a repartição onde vai em busca de atendimento. Lembre-se, quem irá lhe atender é um ser humano igual a você, tem a mesma natureza, os mesmos direitos que você. Se o relacionamento for  cordial, muito maior é a chance de se despedirem com um sorriso no rosto. Melhor será o resto de seu dia com certeza. 

Não devemos deixar que nos pisem, mas não temos o direito de pisar os outros, por mais humilde que seja a posição que ocupem. Quero aqui lembrar as palavras de Jesus Cristo na noite da Última Ceia, após o ato de lavar os pés dos apóstolos: 

“Quem entre vós quiser ser o maior, siga o meu exemplo. La
ve os pés dos seus irmãos. Se Eu, a quem chamais Mestre e Senhor, lavei os vossos pés, fazei vós o mesmo”.



Um pouco da história de minha vida – em Brasnorte – MT (5)

Um exemplar de serpente da região de Brasnorte. 

Kalango, abundante na região.

Serpente verde existente na região.

Dança indígina da região de Brasnorte.

Frei Natalino Vian, montado em seu burrinho, na procissão do domingo de ramos em 1987.
Grupo de noviças e irmã na liturgia.

Nossa vida religiosa e Brasnorte hoje.

O primeiro destaque em nossa vida religiosa na cidade de Brasnorte, foi a ocasião da primeira comunhão de nosso filho Décio Adams Júnior. O celebrante foi Frei Natalino Vian, com que até hoje mantenho contato por E-mail e telefone. Uma verdadeiro pastor. Vinha de Tangará da Serra, no “raio”, nome que ele dava ao Toyota, cabine dupla com caçamba. Percorria todos os recantos do sertão, atendia Brasnorte, as localidades do interior como Berneck, Cajati, Perobal, e um sem número de outras localidades. Não tinha descanso. Em geral sua bagagem era constituida de duas bermudas, duas cuecas, duas camisas e uma ou duas calças compridas, além dos paramentos litúrgicos. Nos pés nunca vi nada além de um par de sandálias havaianas. Quando retirava uma muda de roupas, vestia a outra e deixava essa para lavar. Mais de uma vez as irmãs da Divina Providência, Teonila, Leonila, Ana e outras que por lá passaram, compraram uma camisa para que tivesse uma de reserva. Dava-a ao primeiro necessitado que encontrasse no caminho. Na viagem de retorno para Tangará, havia gente em todos os lugares possíveis sobre o carro e dirigia dando risada do começo ao fim da viagem. Com ele não tinha tempo ruím. 



Decio Junior comungando pela primeira vez. Recebeu das mãos de Frei Natalino a hóstia consagrada. 

Décio Junior entre Décio Adams e Rita Conti Adams, tendo nas mãos lembrança da primeira comunhão.

Abaixo Décio Junior diante do altar, segurando lembrança.

Abaixo à esquerda, Décio Junior, Evandro Luis, com Anselmo Daniel e Augusto Mathias.

Depois temos Evandro Luis, primo de Décio com os pais Agileu Adams e Catarina Adams.

Algum tempo depois, ocorreu a Crisma, ou confirmação de Décio Junior e Evandro. O padrinho de Décio Junior foi meu irmão Ervídio L. Adams, no dia representado pelo meu tio Dionísio Wágner que aparece ao lado. 


Sua Excia. Bispo de Diamantino, administrando o sacramento da crisma em Décio Júnior. Dionísio Wagner representando o padrinho e o padre local, com as mãos apoiadas em seu ombro direito.

Em final de 1990, Augusto Mathias e Anselmo Daniel fizeram por sua vez a primeira comunhão. Celebrou a liturgia o Pe. Antônio, então residente na cidade. 

 Primeiro Augusto Mathias recebendo das mãos de Pe. Antônio a primeira comunhão. 

Abaixo é a vez de Anselmo Daniel receber a primeira eucaristia. 


Acima estão Augusto Mathias e Anselmo Daniel ladeando Pe. Antônio, segurando nas mãos suas lembranças de primeira comunhão. 

Afilhada Ângela Sanderi Wagner.

Dedicatória de Ângela no verso da fotografia.

Depois que mudamos para Curitiba, no final de maio de 1993, o município de Brasnorte teve significativo progresso. Uma das principais melhorias foi o asfaltamento da rodovia MT-170. A conservação é difícil, há períodos em que o piso fica esburacado. Mesmo assim, deve ser bem menos difícil trafegar nessas condições do que aquelas que mostrei em imagens anteriores. Por vezes um caminhão carregado demorava vários dias para sair da região de estradas sem asfalto, encarecendo com isso o transporte de madeiras, principal produto da região naquela época. 
Foram construidos diversos edifícios públicos como hospital, forum, prefeitura, câmara dos vereadores, a urbanização das praças, antes relegadas ao abandono. A comunidade católica construiu um novo templo. A comunidade evangélica também erigiu sua casa de cultos, as ruas estão em grande parte pavimentadas, dando no geral um aspecto bastante melhorado em relação ao que se via anteriormente. 

Propriedade pecuária. Gado reunido
Abaixo uma divisão de pastos, cercas se encontrando.  
Instalações de empresas agrícolas e industriais em consórcio como Berneck, Cajati e outras.  

Instalações industriais da empresa Berneck Madeiras. Mantém reflorestamento para fornecer matéria prima para a indústria. Pode-se ver troncos típicos de árvores originarias de reflorestamento.  

Essas fotos são de ações da APAE de Brasnorte em ação. Os deficientes recebem atendimento de boa qualidade.
Deficientes recebendo ensinamentos visando sua profissionalização e sua inserção na sociedade.  
As instalações da isntituição são novas e excelen
tes. Amplos espaços para todo tipo de atividades visando reabilitação e desenvolvimento dos deficientes de diversas naturezas. 





 

Nossa afilhada Angela Sanderi Wagner, em 15 de junho de 1988. Filha de Dionísio Wagner e Florida Dewes Wagner, meus tios. 

Ao lado está Lilian Priscila Brixner, filha de Roseli e Luciano, de cujo casamento falei no segundo artigo que escrevi nessa sequência.

Abaixo uma dedicatória da lembrança. Pouco tempo antes de mudarmos de Brasnorte para Curitiba. 

Um pouco da história de minha vida – em Brasnorte – MT (4)

Voltando com carroça carregada de pasto(cana) para os animais durante a seca. (O carro do ano).kkkk.
Decio Junior, Augusto e Anselmo, com Kity e Keko, bezerros gêmeos.

Cunhado Edegar Baldin, “tirando” leite.kkk.

  Um pouco da vida na chácara!

No artigo anterior, mostrei um apanhado geral do período que vivemos em Brasnorte, até o retorno para Curitiba. Agora quero mostrar algumas passagens que marcaram os anos que ali passamos. Coisas que vivemos e traremos para sempre ma lembrança em nossas vidas. 

O ano de 1987 terminou com as madeiras serradas na “pica-páu” do senhor Arlindo Braun, colocadas próximas ao local em que iriamos contruir nossa casa. As telhas também estavam ali depositadas, trazidas de Santa Catarina pelos caminhões de uma das madeireiras que estavam ali instaladas, na viagem de retorno quando levavam madeiras para os estados do sul. 

Como eu havia sido eleito para o cargo de diretor da EEEMR (1988/89), tinha necessidade de participar de uma semana de treinamento na DREC em Diamantino. Logo no início de janeiro fiquei uma semana fora, enquanto isso a família morou provisóriamente em uma casa que se encontrava desocupada. Nessa casa morou posteriormente a família Brephol, um grande amigo, de saudosa memória. 

Ao retornar, iniciamos a construção e desses dias já falei anteriormente, mostrei fotografias, deixando bem clara a condição em que começamos. Minha família, esposa e filhos, haviam vivido sempre na cidade. Foram transplantados para um lugar e condições totalmente inóspitas comparadas às que haviam enfrentado até ali. Enfrentamos tudo com coragem e dedicação. Com sacrifício chegamos ao ponto em que foi possível nos abrigarmos em nosso “galpão”. As janelas estavam fechadas por cortinas de lona preta, presass por ripas. Nos dias de chuvas com ventos, frequentemente eram arrancadas e molhava tudo por dentro. 

Aos poucos cercamos o pasto plantado no final de 1987; meu irmão Agileu me ajudou a preparar as “lascas” ou palanques para a certa, colocar ou mourões, enfim fazer a cerca. Era tudo novidade para mim, mesmo tendo crescido na roça, esses trabalhos estavam prontos na minha infância lá no Rio Grande do Sul. Com alguma demora, consegui comprar a primeira vaca, a Pintada, que mostrei no outro artigo. Começamos a criar as primeiras galinhas, pintinhos nasceram, colhemos os primeiros ovos. 

Em uma ocasião, durante 1988, uma professora de nome Márcia, que estava voltando para o Paraná, acompanhando o marido que perdera o trabalho na madeireira, veio nos visitar. Ao percorrer os 800 m da vila até a chácara, deparou-se com dois filhotinhos de Cutia, provavelemnte privados da mãe por algum caçador. Conseguiu pegá-los e os levou envoltos na blusa lá em casa. Às pressas foi feira uma gaiolinha para abrigá-los e chegou o dilema de como alimentar os bichinhos. Minha esposa Rita, de modo criativo encontrou um meio de fazê-los ingerir o precioso leite que os levou a se fortalecer. Por último eles mamavam em uma bisnaga vazia de novalgina. Ao crescerem um pouco, foi possível fazê-los mamar em uma chupeta pequena. Um deles, num momento de descuido, soltou-se das mãos dela e caiu no chão. Infelizmente morreu logo. O outro cresceu e estava bem grandinho. Adorava ficar semi-deitado no colo, segurando a mamadeira e depois receber coçadinhas na barriga quando estava satisfeito. 

Em junho/julho, chegou nossa mudança que ficara em Curitiba. Junto veio o cão pastor alemão, o Pray, além de coelhos, um pombo, Dudle, uma cachorrinha fox branca e outra Lulu da Pomerânia. Em um dia, após alimentar a pequena cutia, meu sobrinho Evandro não fechou direito a gaiolinha e ela escapou. O pastor, não conhecendo animal selvagem, a abocanhou e matou. Ficamos tristes,
mas a vida continuou. Eu cuidando da direção da escola, frequentemente sendo obrigado a me deslocar para Diamantino e Cuiabá em busca de solução para problemas diversos. Até os contratos dos professores que vieram de Cândido Godoi principalmente, bem como os outros não concursados, tinham que ser levados para a DREC. Na época das chuvas sabia-se quando partia, mas a volta era uma incógnita, devido à precariedade das estradas. 

Naquele ano de 1988 vieram de uma única vez para Brasnorte os professores Luiz München de educação física, Terezinha Pazdiora de português, Claudete Trevisan de história e geografia, Silvestre Guth magistério(1ª a 4ª séries), Inês Pazdiora, Cladis München, Ivete Seibt Weschenfelder. No meio do ano eles fizeram concurso e foram aprovados, sendo nomeados, tornando-se efetivos. A maioria está lá até hoje, inclusive se aposentando. A EEEMR era naquela região do estado de Mato Grosso, a que tinha o melhor quadro de professores. As disciplinas básicas estavam cobertas com pessoas habilitadas para atuarem na área. As improvisações, antes rotineiras, haviam se tornado esporádicas. Depois que voltei para Curitiba, uma das professoras que foi no ano de 1989 para lá, ocupou a Secretaria de Educação Municipal, desenvolvendo trabalho de grande relevo. Recebeu mais de uma honraria a nível nacional como latino americano no tocante à gestão da educação no município. Estou falando de Teresinha Assmann. Terezinha Pazdiora, em vias de se aposentar, atua atualmente junto às tribos indígenas num trabalho de integração dessas populações. Não lembro se esqueci de algum dos professores, mas faz tempo e a memória não guarda tudo. 

Em julho de 1989, minha esposa acompanhou a prima Roseli Wagner a Tangará da Serra, onde ela iria comprar o enxoval para seu casamento. Eu e os filhos continuamos a roçar uma parte da área desmatada que queimara mal e crescera muita brotação, formando uma verdadeira capoeira. Em dado momento, de cima de um toco de árvore, cercado de densa brotação, voou um pássaro(um jacú) e ao levar a foice para cortar os brotos, vi alguma coisa branca. Eram dois ovos da ave. Sabendo que ela não voltaria ao ninho depois de roçarmos o lugar, levei os ovos e os coloquei sob uma galinha garnizé que estava chocando. Os ovos que ela chocava haviam passado por umas peripécias e nenhum descascou. Uns quinze dias depois, vimos surpresos alguma coisa se mexendo e vimos que haviam descascado os dois ovos de jacu. Dois pintões, bem maiores que os de galinha, estavam ali mas demosntravam logo sua selvageria. Queriam sair correndo e se esconder. Para protegê-los, colocamo-los em uma gaiola de metal grande junto com a mãe garnizé. A coitada queria aconchegar os “filhos” como o faz com seus pintinhos, mas eles queriam sentar sobre os poleiros. Por fim chegaram a um acordo. Ela sentava-se sobre o poleiro e eles ficavam um debaixo de cada asa. Cresceram até estarem quase emplumados, quando um ficou doente e, de um momento para outro, morreu. 

O sobrevivente cresceu forte e saudável. Ficou adulto, tornando-se um exemplar soberbo de sua espécia e o chamávamos de Teko. Não sei dizer se era fêmea ou macho, pois não sou especialista em identificar sexo de aves. Mas extremamente manso, sentava-se no colo para ganhar carinho, acompanhava a gente até a roça, ou vinha voando para o lugar em que estivéssemos trabalhando, ficando por ali. Tínhamos que tomar cuidado para não atingí-lo com as ferramentas que estivéssemos usando. Nas noites de lua subia nas cumeeiras do telhado e ficava passeando de um lado para o outro, fazendo ouvir seus passos com as unhas raspando nas telhas. Em dias qeu tínhamos visitas e sentávamos para conversar, era de seu hábito começar a correr igual um “maluquinho”. Dava voltas, cruzava e entrecruzaba pelo meio das cadeiras e pernas igual um raio preto brilhante. Em dado momento parava, pulava no colo, preferencialmente da visita ou uma delas, ali se sentava para descansar. Olhava ao redor como que dizendo: “Eu quero carinho! O que está esperando?” Quando se fartava de ficar ali, pulava para o chão e ficava por ali piando. Na hora de coar o queijo, era uma luta. Ele adorava comer os pedaços de coalhada. Se deixasse ele comeria metade do queijo. 

Ficou conosco aproximadamente dois anos, pouco menos talvez. Ultimamente dormia sobre a carroça que ficava no galpão. Em determinada manhã ele não estava à vista. Coisa estranha pois geralmente ao clarear do dia ele vinha para dentro, pela janela da varanda que ficava aberta, ia até a nossa cama e deitava ao lado do travesseiro de Rita minha esposa. Ali puxava os longos cabelos para se cobrir e depois ficava quieto por longo tempo. Parecia querer se esconder para não ser visto ali. Nunca mais o vimos. Suspeitamos que alguém o tenha roubado, pois era extremamente manso. Há também a possibilidade de que o instinto natural o tenha levado a se incorporar a um grupo de aves de sua espécie que vinha perto de casa. Diveersas vezes os vimos nos pés de manga, caju a poucos metros de casa. Até hoje é uma incógnita o fim que teve o nosso Teko ou Teka. Infelizmente na época não dispunha de câmera fotográfica para registrar as imagens. 

Quando nossa vaca Pintada estava prestes a ter cria, foi preciso deixar de tirar leite dela. Nessa época Alceu Borges, dono de fazenda e uma pizaria na vila, ofereceu trazer uma vaca, a Mansinha para tirarmos leite tão logo ela parisse. Após algumas semanas na chácara, numa manhã a vimos, a pouco mais de 100 m da estrebaria, parada, sem sair do lugar. Fomos verificar e para surpresa a encontramos com dois bezerros. Havia parido um casal, que receberam os nomes de Keko e Kity. São eles que estão no colo dos nossos filhos gêmeos Augusto e Anselmo na foto mostrada acima. Mais ou menos na mesma época, meu tio Dionísio Wagner me emprestou uma carroça para bois e o marido da professora Débora Passamani tinha uma parelha de bois. Fiz uma caixa para a carroça e com ela transportava o pasto, mandioca comprada da família Marcelo para alimentar os porcos e também as vacas. Não tínhamos suficiente na chácara. Na primeira foto deste artigo estamos voltando com a carroça carregada de cana. A vaca Mansinha ficou na chácara por mais de dois anos e os bezerros gêmeos se tornaram os encarregados de puxar a carroça, quando alcançaram a idade para poderem trabalhar. 

Na outra imagem mostrada acima, o cunhado Edegar Baldin, na época residente em Toledo Paraná, está sentado simulando que está tirando leite da vaca Mansinha. Pura “treta”. Não tirou uma única gota de leite. Mas queria mostrar aos demais cunhados e parentes que fora até o Mato Grosso, lá tendo tirado leite. Na época ainda carregávamos água para beber, tomar banho e as vacas de 500 m de distância. Tínhamos vários baldes e todos, sem exceção, entrávamos nesse trabalho, até que um dia conseguimos autorização para canalizar água da rede de abastecimento da vila. Foi um verdadeiro alívio. Havíamos feito um poço que desmoronou antes de ser feito o entijolamento para segurar as paredes. Depois mandamos cavar outro. Tinha água temporáriamente mas depois faltava. Usávamos essa água principalmente para irrigar a horta. Uma bomba com motor a gasolina puxava a água e fornecia pressão para o esguicho. 

“Motores” do carro do ano, sendo soltos no pasto.

Retirando cangaha dos “motores”.
Família manejando os animais da chácara. 
Filhos assistindo retirada da canga dos “motores”.

Depois do trabalho, os “moteres” são soltos para pastar e matar a sede. Os filhos assistindo, depois de apreciar o passeio, evidentemente acompanhado de trabalho.

Anselmo com Gabiroto ao lado de Augusgo.
 Acima, Rita com os dois bezerros gêmeos. Ao lado os filhos gêmeos com o leitão criado guacho, Gabiroto. Muito manso e malandro. 
Outra tomada dos dois com Gabiroto.

Décio Junior, coçando porquinho Gabiroto.

Um trator de esteiras sob os cuidados do sindicato rural, era de uso comunitário. O proprietário de terras pagava o combustível mais uma pequena taxa para cobrir os custos de manutenção. Havia um número de horas limitado para cada proprietário, visando permitir atender ao máximo de usuários com alguma coisa a cada ano. Na imagem a seguir vemos a máquina executando serviço em nossa chácara. 


Infelizmente, antes de podermos aproveitar a área para plantar mais facilmente, fomos obrigados a vender e retornar a Curitiba, por conta dos problemas de saúde ocorridos com Augusto Mathias. Não havia condições de permanecermos em parte na chácara, parte em Curitiba e ainda Décio Junior na Escola Agrotécnica Federal de Cuiabá, localizada em São Vicente da Serra. Onde se formou em 1975 como Técnico Agrícola, quando já morávamos em Curitiba. 

Novilha Kate, criada na chácara.

Essa novilha foi adquirida de meu tio Dionísio Wagner em troca de madeira de cerejeira para móveis. Foi criada mansa como um cachorrinho. Não foi uma nem duas vezes que escapou do pasto e veio na varanda espiar as panelas em que minha esposa Rita estava cozinhando sobre o fogão caipira que eu havia feito. 

Aniversário de Rita Conti Adams, 24.09.1988.

Mais uma foto do aniversário de Rita.

Era habitual festejarmos os aniversários entre familiares, especialmente com meu Tio Dionísio Wagner, Florida Wagner(irmã de minha mãe), suas filhas e filhos. Assim abaixo mais duas imagens do aniversário de Rita em 1989.
Aniversário de Rita, 24.09.1989.

Aniversário de Rita, 24.09.1989

 Em 1987, em um determinado domingo, ao sair da igreja após o culto, encontrei com Dionísio Wagner, casado com Florida, irmão de minha mãe. Morava na época em Jacutinga, no município de Missal – PR. Estivera em Juína com uma excursão e estavam voltando. Não tivemos muito tempo para conversar pois eles seguiram viagem depois. Na estrada de retorno ele conversou com o proprietário da Serraria Carvalho que estava no mesmo ônibus. Terminaram por combinar negócio e pouco tempo depois Dionísio, o Filho Jaime e Luciano Brixner, namorado da prima Roseli, vieram trabalhar na serraria. Ao final do ano, retornaram e haviam feito negócio com o pai de Arlindo Braun. Ele, em sociedade com o outro filho José, estavam vindo instalar outra serraria nas proximidades. Alguns meses depois vieram de mudança e assim passamos a conviver mais de perto, após alguns anos de distanciamento. Nos auxiliávamos mutuamente em diversas emergências. Inclusive por ocasião do aniversário dele, preparamos a comemoração em nossa casa e o atraimos com uma artimanha. 

Quando tudo estava pronto, Décio Júnior percorreu correndo os mil e poucos metros sob a luz do luar, pedindo socorro. A mãe Rita havia despejado acidentalmente uma panela de água ferventa nos pés e se queimara terrivelmente. Sem pensar, quase deixando a esposa e uma das filhas para trás, pulou no seu Gol chaleira e veio correndo prestar socorro. Mina esposa estava sentada com o pé numa bacia com água, coberta com uma toalha, simulando que estava realmente necessitando de socorro. Ao chegar próximo da porta, as velas do bolo foram acesas e começamos a cantar Parabéns pra você. Ele levou o maior susto da vida dele. Não esperara que estivessem lhe armando uma surpresa daquelas. Era um homem de grande bondade. Incapaz de dizer não, chegava a ser ingênuo. Mas lembro dele com muita saudade e peço que Deus o tenha em sua glória. Infelizmente nos deixou há alguns anos. 

Décio Adams, sentado no meio da coivara, em janeiro 1987.

Edegar Baldin Junior, atrás da casa.

Vista da roça, mandioca, abacaxi e casa ao fundo. 

Rita Conti Adams, sentada na coivara, escutando música no Sony dois em um(radio e toca fitas).

Um pouco da história de minha vida – em Brasnorte – MT (3)

A vida na roça.
Alguns anos depois daquelas imagens postadas no artigo anterior, a vista era essa.
Galinheiro e galpão, feitos depois.
O garnizé chamado KIKO.
Alguns anos depois, a situação vista nas fotos anteriores, o aspecto do local de nossa moradia havia mudado sensivelmente. Não estava tudo pintado e brilhando, mas no lugar da quantidade imensa de troncos e galhos escuros de carvão, havia muito verde por todos os lados. 

Nessa imagem ao lado, o alo Kiko, presente de um amigo(presente de grego), procurando lugar para se aboletar  e dormir ou ficar sossegado. Ele era acostumado a dormir na cabeceira da cama do antigo dono. Por isso falei que foi um presente de grego. Demorou um pouco para se acostumar a dormir com as outras galinhas. Deixou uma grande descendência.
Vaca Laranjinha e sua filha, separadas pela cerca.

Como o professor de mais alta classificação da escola, dentro da carreira do magistério do estado do Mato Grosso, comecei tendo um vencimento mensal equivalente a perto de 15 salários mínimos. Com a introdução do famigerado mínimo de referência não tardou mais de dois anos para esse mesmo salário estar reduzido a pouco mais de cinco salários mínimos. Com a troca de governo em 1990, começaram a ocorrer ainda atrasos no pagamento e chegou ao ponto de ficar reduzido à pouco mais de dois salários mínimos. 

Ao final de 1987 eu concorri ao cargo de Diretor da escola e fui eleito para o biênio 1988/89, voltando depois à sala de aulas. Já no ano de 1989 os professores entraram em greve por reivindicações salariais, sendo que o período letivo terminou em princípios de 1990. Assumiu no meu lugar o cargo de diretor a professora Leonor Gomes da Silva. Já estava funcionando a prefeitura e começava aos poucos a implantar a estrutura administrativa própria. Tudo estava por fazer, por construir. Veículos por adquirir, máquinas rodoviárias, ambulância, hospital, faltava de tudo. 

Em meio a essa crise de salário, não havia como investir na chácara. A muito custo conseguira adquirir uma vaca que nos supria o leite necessário para alimentação. Tinha o nome de Pintada. Era mocha, branca e vermelha, de raça holandesa. Por sorte uma excelente produtora de leite. Dava o suficiente para nosso consumo, vender alguns litros e ainda fazer um queijo vez ou outra. Até mesmo um doce de leite. Quando o salário na escola atingiu seu nível mais crítico, meus pais me deram uma ajuda e consegui comprar duas novas vacas. Uma era a Laranjinha da foto acima e a outra a Malhada, na foto abaixo. 

Décio Junior, Augusto Mathias e Anselmo Daniel, junto à Pintada. 
Além de produzir muito leite, Pintada era extremamente mansa. Uma aquisição de ocasião, pois ela estava maltratada, magra, cheia de carrapatos e verminose. Em pouco tempo se recuperou, voltando a sua plena forma. Com a aquisição das duas vacas com auxílio financeiro dos meus pais, a produção de leite aumentou melhorando a nossa renda com a venda in natura e na forma de queijo, ou doce de leite. 
Estábulo das vacas.
 Também foi feito uma cerca de tela para uma horta. Raspamos os menores vestígios de estrume das vacas, do galinheiro e do pequeno chiqueiro para adubação. Isso ajudou a, no período da seca, produzir uma razoável quantidade de hortaliças. Era alface, rúcula, feijão vagem, rabanetes, tomates e outras variedades. Tudo isso era levado para a vila e vendido, não sobrando nada. É preciso dizer que, nessa época, a maior parte das hortaliças consumidas no lugar era levada dos estados do sul como São Paulo, Paraná e outros. É fácil imaginar o custo que isso acrescia a esse importante ítem na alimentação da população. Com isso, tudo que fosse possível produzir nessa área, tinha mercado garantido. Se houvesse apoio adequado, as chácaras existentes no entorno da área urbana, teriam possibilidade de abastecer esse mercado com folga. Infelizmente ele não existia naquela época. 
Pintada pastando tranquilamente.

Malhada e o tourinho para reprodução.

Bezerra no seu piquete e novilha ao lado.
Nosso pasto foi ampliado, fizemos um piquete separado para os bezerros maiores e outro pequeno para aqueles em idade de amamentação. Tudo isso reunido, em pouco tempo, conseguiu melhorar nossa renda, triplicando o valor anterior. Algumas mudas de frutíferas plantadas em janeiro de 1988, cresceram rapidamente e começaram a produzir, fornecendo-nos laranjas, mexiricas, cajus, mangas, frutas de conde, carambolas, bananas e abacaxis em grande quantidade. No lugar onde nos foi dito ao chegarmos não adiantava plantar que nada dava, estávamos conseguindo algo mais. Evidentemente era necessário muito trabalho, cuidado, adubação com tudo que fosse matéria orgânica. Nada era queimado. Lamentávamos a necessidade de queimar o mato para abrir a roça, pois se fosse possível fazer isso de outra maneira, certamente a teríamos feito. As folhas das árvores seriam uma excelente fonte de adubo orgânico. 

Dois pés de manga rosa produzindo frutas.

Nessa imagem acima temos dois pés de manga rosa, plantados nos primeiros meses de 1988, em pouco mais de dois anos, começaram a produzir frutas. Nas imagens abaixo, um casal de cães, filhos da cadela Princesa, brincando no pasto dos bezerros. Eles vieram junto para Curitiba na nossa mudança para cá em 1993.

Palito e Nega brincando.
Em 1987 eu havia adquirido uma motosserra usada. Por inexperiência cometi o erro de optar por um modelo muito grande e pesado para o serviço na roça. O revendedor Stihl local, me ofereceu uma menor, também usada, mas totalmente reformada. A minha estava necessitando de reforma e assim ficou elas por elas. De brinde ganhei uma cadelinha vira latas, filhote. Ela ganhou o nome de Princesa. O que lhe faltava em qualificativos raciais, tinha em obediência e demais qualidades importantes. Dela nasceu uma ninhada de filhotes, dos quais guardamos os dois das fotografias ao lado.Em maio de 1993 chegaram, quase adultos, a Curitiba quando voltamos.  
Continua a brincadeira. 

Pouco tempo antes de virmos embora de lá. 

Vaca pintada se abrigando do calor forte à sobmra de um arbusto.

No dia 23 de dezembro de 1992, terminando de colocar as telhas de uma cobertura para o novo forno recentemente feito, uma telha quebrou e eu caí. O resultado da queda foi uma luxação completa do cotovelo esquerdo e uma forte pancada na coxa esquerda. A falta de um aparelho de raio X e médico especializado, foi preciso me deslocar para Cuiabá(570 km). O acidente ocorreu próximodas 5 horas da tarde e foi conseguido um veículo para o transporte já noite fechada. A ambulância estava quebrada devido ao péssimo estado das estradas. Colocaram à disposição um carro Del Rey, dirigido pelo motorista da ambulância. Viajamos a noite inteira até Tangará da Serra, onde havia um ortopedista. Infelizmente ao chegar lá, soubemos que ele viajara de férias no dia anterior. Almoçamos e seguimos para Cuiabá, onde, depois de muita procura, encontramos uma clínica com um médico de plantão. Foi aplicada uma anestesia e o braço puxado, colocando a junta no lugar. Feita uma tala de gesso para manter a imobilização, iniciamos a viagem de retorno. Pernoitamos em Tangará da Serra, concluindo a viagem no dia de Natal. 

Iniciei o sofrido período de manter o braço enfaixado e imobilizado. O forte calor provocava forte sudorese, provocando a formação de ulcerações na pele da parte interna do cotovelo. Era preciso higienizar com água oxigenada e aplicar líquido antisséptico, na época o temido merthilate, ainda em plena utilização. Ao completar três semanas de imobilização era preciso voltar a Cuiabá para retirar a tala e verificar se estava tudo em ordem. Se soubesse o que seria feito, teria pedido para a Ir. Teonila retirar a tala e desenfaixar. Foi apenas isso que foi feito. Poderia perfeitamente ter economizado o custo da viagem. 

Ao retornar, eu estava com o braço semi travado. Endireitar nem pensar. Levaria meses para lentamente recuperar a mobilidade, mas permaneceu anos uma leve curvatura do cotovelo devida à calcificação da lesão ocorrida. No dia 23 de janeiro, meu filho Augusto Mathias, um dos gêmeos, com 12 anos de idade, foi vítima de um AVC. Ocorreu paralisia no lado direito. Quem fez o diagnóstico prévio e o tratou adequadamente, dentro das limitações hospitalares e pessoais existentes, foi um ex integrante do exército da Wermacht alemã, na Segunda Guerra Mundial. Foi cirurgião e um ferimento por estilhaço de granada, tirou-lhe a precisão da mão direita, exatamente a que usava nos procedimentos cirúrgicos. Na quinta tentativa, conseguiu fugir ao domínio de Hitler e acabou vindo para o Brasil. Não conseguiu revalidar seu diploma de médico e por isso exercia o trabalho de bioquímico. Era sua formação complementar e, mesmo sem muitos equipamentos, realizava todos os exames clínicos básicos necessários. Na ausência de outro médico(o último se demitira e fora embora), ele fez uma punção lombar e constatou que havia ocorrido uma pequena hemorragia cerebral. Casualmente tinha disponível a medicação necessária e pediu à proprietária da farmácia, Srª Terezinha Bonazza para encomendar outras doses para serem enviadas pelo ônibus. Isso foi facilitado pela existência, nessa época, de uma central telefônica. 

No domingo pela manhã, às 10h, foi possível a um avião monomotor aterrissar na pista existente ao lado do perímetro urbano. Embarcamos o menino e voamos para Cuiabá, onde foi internado no Hospital Geral. A internação correu por conta da Previdência do Estado, por eu ser professor concursado da escola. Foi examinado por um neuro-cirurgião, um cardiologista e nem sei mais que outros médicos. Exames de sangue, raios X, tomografia craniana, ecografia cardíaca, foram pedidos e feitos. O cardiologista não encontrou nenhum problema e o neuro foi incompetente para interpretar corretamente a tomografia. Na próxima sexta-feira, após 5 dias internado, recebeu alta e fomos para a casa de um casal, amigos de nossos parentes aqui de Curitiba, que veio nos visitar e dar apoio. Deveríamos voltar em 60 dias para uma revisão. O único medicamento receitado foi o melhoral infantil, usado para manter maior fluidez do sangue. Exatamente o oposto do recomendado. Se houvesse novo rompimento de vaso sanguíneo no cérebro, ele teria convulsões e poderia morrer, sem termos tempo de prestar socorro. 

Não confiando no diagnóstico, fui até o escritório da Madeireira Morada do Sol, empresa sediada em Brasnorte e consegui o dinheiro necessário para adquirir as passagens dele e de minha esposa Rita para Curitiba. Embarcaram na madrugada de domingo para segunda-feira e chegaram aqui próximo do meio dia. Imediatamente foi conseguida consulta com o neurologista pediátrico Dr. Antoniuk. Ao olhar a tomografia prescreveu imediatamente um antivconvulsivante para prevenir qualquer evento sério desse tipo. Ele se tratou, conservou algumas pequenas sequelas, mas recuperou os movimentos básicos, a fala e vive normalmente. Hoje conta com 34 anos, completados em 13 de setembro passado. 

Visita do cunhado Edegar Baldin e Sonia, com os filhos Edegar Junior e Isabel, ao final de 1991.
Caixa d’áuga, abastecida por encanamento vindo da vila, fornecido por poço artesiano. 
Outra vista da caixa d’água.

Vista de dentro da varanda, de um campinho de futebol e voleibol, onde os menios e eu também, brincávamos.

Um pouco da história de minha vida – em Brasnorte – MT (2)

Fachada da Estação Rodoviária de Cuiabá em fevereiro de 1987.

Área de saida e chegada de passageiros da rodoviária de Cuiabá.

Mais área de saída, pontos de taxi na rodoviária.

Deixando tudo por um sonho!

Depois do que eu escrevi no outro artigo, preparei a ida para o Mato Grosso. Deixei tudo que tinha aqui em Curitiba, partindo ao encontro de um sonho. Meus empregos ficaram para trás. Num primeiro momento levei comigo apenas o filho mais velho Décio Adams Junior. Aqui permaneceram Rita minha esposa e os filhos gêmeos Augusto Mathias e Anselmo Daniel.Tínhamos colocado à venda nossa casa. Assim que o negócio fosse concretizado, eles seguiriam ao nosso encontro. Embarcamos num ônibus da União Cascavbel, hoje EUCATUR. Passamos por Cascavel, Mal. Cândido Rondon, Guaíra e seguimos para Cuiabá – Pr. Ao chegarmos a rodoviária, tivemos oportunidade de ver o ambiente mostrado nas fotos abaixo. 

Area de circulação de passageiros, indo para as plataformas de embarque.

Area de aguardar o momento do desembarque.
 Chegamos ao anoitecer e naquele momento nada poderíamos fazer. Antes de viajar para Brasnorte, teria que passar pela Secretaria de  Educação, encaminhar minha posse. Procuramos um pequeno hotel nas proximidades da rodoviária. Era barato e não tínhamos que carregar muita bagagem que ficou protergida no guarda volumes da rodoviária. 

Na manhã seguinte procurei a secretaria da educação para tratar dos trâmites para a posse. Recebi uma lista bem grande de exames médicos a fazer, com os respectivos endereços. Sem conhecer absolutamente nada da cidade, andamos os dois de um canto a outro, procurando onde tínhamos que ir. Entre idas e vindas, consegui concluir tudo antes do final de semana. Levei os resultados ao lugar indicado e ali recebi a informação de que teria que retirar o documento para tomar posse na DREC em Diamantino, apenas na semana seguinte. Era sexta-feira antes do Carnaval. Ficar uma semana inteira na Capital não estava nos planos. 
Fila para compra de passagens.

Plataforma de embarque.
Embarcamos num ônibus da empresa TUT Transportes e seguimos para Tangará da Serra. Passamos por Jangada, Barra do Bugres e chegamos em Tangará da Serra. Dali embarcamos em outro carro da mesma empresa, adaptado ao tipo de estrada que enfrentaríamos. Era a estação das chuvas e as estradas não asfaltada
s estavam em péssimo estado que poderão ver nas fotos que virão logo a seguir. A viagem de 340 km demorou mais de 12 horas. Havia momentos em que tínhamos a impressão de que os feixes de molas do veículo subiriam pelo assoalho acima, tamanhas eram as pancadas das rodas nos buracos existentes na estrada. Chegamos com a estrada molhada pois chovia praticamente todos os dias. 

No ponto de parada encontramos um taxi que nos levaria até a fazenda de meu irmão Agileu, onde chegamos em torno do meio dia de sábado. Ali chegando encontrei minha irmã Elvenete, o cunhado Romeu e a filha Kelly ou Kátia, não lembro direito qual das duas era nessa época. Passamos o final de semana na fazenda e na terça-feira de carnaval aproveitei a carona para ir até Rondonópolis, de onde voltaria a Cuiabá na quinta feira para pegar meu documento. Décio Adams Júnior ficou na casa do tio aguardando minha volta.

Praça no centro de Cuiabá

Predio da administração estadual no centro de Cuiabá.

O mesmo prédio, visto de outro ângulo.

Praça em frente ao mesmo edifício.

Vista do cerrado a partir da rodoviária.

Na quinta feira peguei meu atestado de aptidão física para assumir o cargo de professor para o qual fora nomeado em virtude da aprovação no concurso. Retomei o mesmo percurso, dessa vez sózinho, chegando na tarde de sexta-feira à fazenda do meu irmão. Na segunda feira ele nos trouxe para a vila, trazendo na camionete C-10 com todos nossos pertences. Havíamos levado ferramentas para iniciar a abertura da chácara que meu pai me autorizara ocupar, próxima à vila(800 m). Conseguimos uma casa desocupada, mas sem móveis. O clima quente favorecia e tínhamos levado cobertores, uma rede e assim nos viramos. As refeições fazíamos na casa das irmãs da Divina Providência que prestavam serviço à comunidade. 

Eis uma amostra do que eram as estradas na região na época das chuvas que duram mais de seis meses. Trechos que em condições normais são percorridos em algumas horas, podiam  demorar até mesmo dias. Frequentes quebras de veículos transformavam a vida dos caminhoneiros em um verdadeiro inferno. Os ônibus não ficavam para trás.  

Acima um trecho de uma estrada secundária, pouco mais que uma picada. Na época das chuvas formavam-se abundantes poças de água, dificultando o tráfego de veículos. 

Ao lado mais uma amostra da quantgidade de caminhões de diversos portes, veículos pequenos enfrentando o lamaçal em que se transformavam as estradas na época das chuvas. Em meio a essa situação chegamos para iniciar nossa vida em Brasnorte. 

Iniciei minhas aulas na escola e meu filho foi matriculado na quarta série do primeiro grau. Na escola encontrei como diretora a professora Marlene Neumann de Oliveira, seu marido Augusto Oliveira, Ironi Zancanaro, sua esposa Letícia, Célia Barranco Pssamani, Marlene Debo, Celina Silva da Cruz, Delcina, Antônia Doralice Silva, Antônia Aparecida Pereira Prado, a esposa do senhor Marcelo Pietsch e sua filha. Havia chegado naquele início de ano o professor Tadeu Kapron, também de matemática, mas tendo diploma de magistério e Décio Junior se tornou seu aluno. É natural de Cândido Godoi, de onde eu vim muitos anos antes. Na secretaria trabalhava Mônica Debo, casada com o funcionário do posto local da Emater, Mato Grosso. Alguns nomes não lembro agora. 

Havia necessidade de ir até Diamantino na DREC para assinar o termo de posse. As dificuldades desse deslocamento permitira que fizesse isso algumas semanas depois, sendo que viajei de carona com o vereador Adão Passamani. Viajamos num dia de feriado em março. No dia seguinte assumi meu cargo e descobri tardiamente que, em lugar de ficar a semana inteira perambulando por Cuiabá, atrás das consultas e laboratórios para realização dos exames, poderia ter ido diretamente até ali e resolvido tudo no mesmo dia. Uma lamentável falta de comunicação. Mas isso é passado. Havia iniciado o serviço de roçar o mato na chácara onde iríamos morar. A viagem de volta foi feita de ônibus, passando por Alto Uruguai, Arenápolis, Nortelândia, uma outra cidadezinha menor e Tangará da Serra. No meio do caminho para Brasnorte havia um posto de parada, uma ou duas casas além de um posto de combustíveis. Ali hoje existe a cidade de Campo Novo do Parecis. 

Trabalhamos duro durante aqueles meses antes de chegarem as férias de meio de ano. O negócio da venda da casa infelizmente não se concretizou. Assim continuávamos os dois sózinhos lá, enquanto Rita e os filhos permaneciam aqui. Havíamos terminado a roçada e derrubada de um hectare de mato, exatamente a parte que fora desmatada antes e voltara a crescer novamente. Vejam as fotografias tiradas antes de viajarmos para Curitiba, matar a saudade. 

Poucas semanas depois de nossa chegada, veio para Brasnorte uma caravana enviada pelo Governador eleito no anto anterior para implantar o que denominavam Conselho Municipal. Embora ainda não fosse município, mas o processo estava encaminhado e foi concluido em 1988, sendo realizadas as primeiras eleições municipais. Foi eleito prefeito o senhor Ezequias Vicente da Silva. Na verdade no lugar faltava por assim dizer tudo em termos de estrutura para qualquer tipo de atendimento em geral. No decorrer de 1988 foi instalada uma unidade da CEMAT, com motores diesel para gerar energia que abasteciam durante o dia até meia noite as necessidades de energia elétrica. Foram perfurados ao lado da central elétrica poços artesianos para prover o abastecimento de água, antes precário, praticamente inexistente. 

Na noite em que embarcamos, contratei com um trabalhador que prestava esse tipo de serviços a derrubada de mais um alqueire de mato. Enquanto vinhamos passear, a parte derrubada terminaria de secar, ficando pronta para queimar ao retornar.  

Para nossa surpresa, quando retornamos alguém havia ateado fogo, queimando o mato antes da hora. Assim houve partes em que a queima ficou boa, outras queimou mal, devido ao fato de a secagem não estar completa. A roçada da parte nova, estava em estágio avançado, sendo que logo foi feita a derrubada e assim dar tempo de secar antes do início forte da estação das chuvas.
Na continuidade começamos a cortar os galhos e troncos carregando-os para linhas, formando leiras e deixando a terra livre para o plantio. Logo após o retorno contratei com um antigo colega de Seminário, morador e dono de uma pequena serraria, denominada Pica-pau para serrar a madeira necessária a construção de nossa casa. As toras foram retiradas da área que estava sendo derrubada em acrèscimo a que havía sido queima
da.
 Os troncos e galhos que se pode ver predominantemente nessas fotos, são de uma madeira muito leve e de nenhuma utilidade prática, mas de crescimento muito rápido, era denominada de Imbauva. Em outras regiões costuma receber a denominação de Cacheta. Extremamente leve e mole, não tem utilidade para tábuas ou vigas. É usada para caixas de frutas, onde o uso é único e depois há o descarte. 

Enquanto a madeira para construção era serrada, o mato derrubado secava, durante todas as tardes passávamos na coivara cortando e carregando galhos, troncos, pedaços carbonizados. Amontoávamos tudo que podíamos para deixar o terreno limpo ao máximo. Ao voltarmos à tardinha, estavamos completamente enegrecidos pelo carvão. Mal se via o branco dos olhos. 

Chegou o dia de queimar a área nova e passamos a tarde nessa tarefa. Tínhamos que cuidar para o fogo não se espalhar pelo mato contíguo à área. Houve partes novamente que não queimaram muito bem, mas não havia mais como esperar, pois as chuvas começavam a ficar mais frequentes. Agora havia mais uma tarefa a fazer. Plantar a semente de Brizantan, capim para a pastagem que desenvolve bem na região. Não usamos a área interia para isso.
Preparamos uma estrada de acesso ao local escolhido para construir a casa e ali começamos a fazer a colocação dos pilares que serviriam de apoio à construção. 
Igualmente plantamos um pedaço em arroz, um outro de mandioca, mudas de bananeira, abacaxi, sementes de caju foram enterradas na beira da estrada, o chamado cará-moela. O tempo passou depressa e o Natal se aproximava. Nossa comunicação com Curitiba era feita por intermédio de um rádio existente numa serraria(Morada do Sol) que tinha escritório em Várzea Grande, de onde a comunicação era completada com uma ligação telefônica a cobrar. 

Em certo dia, já ao final das aulas em dezembro, tentei contato e não consegui. Imaginei imediatamente que os três, Rita e os filhos, estavam a caminho de Brasnorte. Era dia 23 de dezembro, meu aniversário e havíamos sido convidados para almoçar na casa da professora Antônia Aparecida Pereira Prado. Ao terminar o almoço, corremos para a parada de ônibus e logo o veículo encostou. De imediato vimos iniciando a descida de seu interior dos nossos entes queridos. Não passaríamos o Natal sózinhos. Daí por diante a família estaria reunida, após longos meses de separação. A casa ficou para trás, aos cuidados do meu cunhado Ângelo Conti, que passou a morar nela enquanto nós estivemos em Brasnorte. 

Durante os meses que passamos sózinhos, tivemos sempre o apoio das irmãs da Divina Providência Teonila, Leonila e Ana. Nos serviam de companhia, consolo nas horas tristes e apoio nas dificuldades. Eis abaixo a fotografia dessas pessoas sumamente importantes em nossa vida. Em pé à esquerda Ir. Teonila, agachada Ir. Ana e em pé à direita, Ir. Leonila. Olhem que belíssimo mamoeiro carregado de frutos saudáveis.&nbsp
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