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Na senda dos monges! – Volume II – Capitulo 05 – Conflitos Crescentes.

  1. Conflitos crescentes.

 

A iminência da execução do trecho de ferrovia, trouxe para a região interessados em estabelecer pequenos estabelecimentos comerciais. Toda obra de grande porte, provoca um surto de desenvolvimento na região afetada. Não faltam pessoas interessadas em se estabelecer para progredir honestamente, nem tampouco os que buscam apenas formas de enriquecimento rápido, não se importando com os meios necessários para tanto. Isso fez surgir, nos primeiros anos do século XX, no vale do Rio do Peixe, um grande número de pequenos estabelecimentos, dedicados às mais variadas atividades de comércio e serviços. A princípio eram pequenos, incipientes, os preços cobrados costumavam ser elevados, mas os moradores acabavam por recorrer a eles, pois assim evitavam deslocamentos até lugares mais distantes. Economizavam tempo precioso, mais necessário no trabalho de suas atividades produtivas.

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Na senda dos monges! – João Maria de Jesus, José Maria de Agostinho e os caboclos do contestado – Capítulo IV – Fundamentando a comunidade

  • Fundamentando a comunidade.

 

Com a conclusão da casinha, foi hora de preparar a comemoração para celebrar a consumação do matrimônio de Isabel e Alfredo. Queriam apenas reunir as famílias, sem fazer despesas excessivas. O tempo e as condições não eram de exagerar ou desperdiçar. Havia trabalho demais por fazer na propriedade, ainda mais com a necessidade de abrir espaço para plantio na propriedade de Alfredo e Isabel. Mesmo não podendo fazer grandes cultivos nessa safra que na realidade já estava plantada, poderiam colher alguma coisa no plantio tardio, especialmente de feijão, talvez um pouco de milho, se a geada não viesse muito cedo.

Por uma questão de importância natural, a propriedade dos Batista passou a ser uma espécie de centro e ponto de convergência da redondeza. Assim, mesmo não divulgando muito a comemoração do enlace da filha Isabel com Alfredo, no dia havia várias pessoas que não haviam sido especificamente convidadas. Ninguém fez caso dessa exceção e ao final do dia o casal se despediu dos presentes para finalmente, após alguns meses, passarem a viver como marido e mulher. Haviam feito questão de se manterem intactos até o dia de poderem consumar sua união em sua própria casa. O esforço valeria a pena. Esperavam dar exemplo a outros casais, valorizando o amor, mas especialmente a fidelidade. Fidelidade mútua, como também à comunidade. A família esteio da sociedade e geradora de novos membros com elevados valores éticos e morais.

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Na senda dos Monges! – Cap. III – Unindo as famílias.

  1. Unindo as famílias.

 

A visita do monge não tinha dia da semana para acontecer. Era o caso de aproveitar o momento de sua aparição, nada de escolher dia ou hora. Ele não aceitava imposições nem horários. Fazia sua própria hora e o dia era o “hoje”, não importando em que dia da semana se estava. Desse modo o batismo ocorreu em plena quinta-feira. Algumas semanas depois o padre residente em Curitibanos fez uma visita na região. Fora transferido recentemente para a paróquia e estava empenhado em congregar o rebanho da igreja. Era franciscano, ordem que recentemente assumira o trabalho de evangelização da região.

O padre era consciente da presença de benzedores, curandeiros, o monge João Maria e outros nos seus domínios. Sabia de antemão da dificuldade que iria enfrentar. O povo havia criado seu catolicismo, misturando os ritos oficiais da igreja com uma série de procedimentos nada ortodoxos. Decidira fazer seu trabalho por etapas. Se atacasse o problema de frente, numa investida direta, seria rechaçado sem dúvida. A igreja matriz tinha pouca frequência de fiéis, salvo nos dias de festas, batizados dos filhos de gente importante, casamentos ou mortes. Eram esses os momentos de grande afluência do povo, lotando todos os lugares habitualmente vazios no templo. Estava sinceramente preocupado e diariamente passava longo tempo em oração diante do sacrário, pedindo a Nosso Senhor luz para guiar seus passos.

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Na senda dos monges! – João Maria de Jesus, José Maria de Agostinho e os caboclos do contestado. Cap. II

 

  1. Começa construção da EFSPRG.

 

A construção da estrada de ferro, ligando Itararé, no estado de São Paulo, à Santa Maria da Boca do Monte, no Rio Grande do Sul, teve início em 1890, partindo de Santa Maria, rumo ao norte. Em meio a muitas dificuldades da nova república, foi possível inaugurar os primeiros 142 km, ligando Santa Maria e Cruz Alta no decorrer de 1894, apesar do conflito da revolução federalista. Em 1897 foi iniciada a construção do trecho paranaense, partindo de Ponta Grossa, rumo ao sul e também rumo ao norte. Em 1900 inaugurou-se os primeiros 132 km de trilhos, unindo Ponta Grossa e Rebouças, seguindo-se outro trecho de 132 km ligando Rebouças com Ponto União, às margens do Rio Iguaçu, em 1904.

Em 1905 inaugurou-se novos 196 km ligando Cruz Alta com Passo Fundo, apenas 11 anos depois do primeiro trecho inaugurado. Em 1906 foi inaugurado o trecho entre Joaquim Murtinho e Jaguariaíva no Paraná. Nessa época o grupo econômico liderado por Percival Farquhar, conhecido depois como Sindicato Farquhar, disputava acirradamente a aquisição da concessão dessa ferrovia, além de outras concessões públicas em território brasileiro. A transação foi realizada e fixado o prazo de conclusão do trecho faltante, para dezembro de 1910.

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Na senda dos Monges, – João Maria de Jesus, José Maria de Agostinho e os caboclos do contestado.

 

 

  1. Novos monges no sul.

 

No tempo da revolução federalista, as localidades do norte do Rio Grande do Sul, foram percorridas por João Maria de Jesus. Era em tudo semelhante ao antigo Monge João Maria d’Agostini, menos a mão defeituosa. A estatura era a mesma, o modo de agir semelhante, deixando a muitos convictos tratar-se de uma espécie de reencarnação do primeiro. Carregava consigo uma panelinha, alguns utensílios e costumava acampar, mesmo a céu aberto, ao abrigo de árvores, próximo de uma fonte de água. Em sua peregrinação percorreu parte do Rio Grande do Sul, e do atual território de Santa Catarina. Na época fazia parte da região contestada pelo litígio de limites entre os estados de Santa Catarina e Paraná. Especialmente o vale do Rio do Peixe, Curitibanos, Lages, até a região de União da Vitória, Mafra e Rio Negro, ficaram cheios de fontes consideradas santas, pousos do Monge. Tinha a fala mansa, dava muitos conselhos, indicava ervas para chás, especialmente de vassourinha. O povo o considerava santo, capaz de operar milagres. Tanto que, depois de seu desaparecimento, passou a ser denominado São João Maria.

Nas histórias contadas, misturavam-se partes do primeiro João Maria e do segundo. Desse modo ficou unificada a figura dos dois como se fossem a mesma pessoa, apesar de terem vivido na região em épocas distintas.

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Na senda dos monges! – Capítulo XV – Construindo a moradia.

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Vista aérea de SC

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Canions de SC

  1. Construindo a moradia.

 

As semanas seguintes foram de intenso trabalho. Aos poucos a beira dor rio ficou pronta para atracar o barco e fazer a carga/descarga da madeira. Na continuação as toras começaram a se acumular nas proximidades. Derrubaram as araucárias e imbuias mais próximas, para facilitar o transporte até a margem. Duas juntas de bois emprestadas pelo vizinho Francisco, junto com uma carreta, se encarregavam de transportar os pesados troncos para perto da margem. Cada árvore fornecia sozinha uma porção de toras, especialmente as araucárias que alcançavam mais de trinta metros de tronco próprio para madeira serrada.

Depois de um mês e meio estavam terminando a preparação e transporte das toras. Nessa época chegou o recado do dono da serraria, avisando que o suprimento de madeiras serradas estava ficando pronta. Em uma semana poderiam ser transportadas para a propriedade. O senhor Carlos, passando rio acima, viu o local preparado e parou para verificar. Deu algumas orientações complementares e prometeu trazer as madeiras, telhas e mais alguns suprimentos já adquiridos no povoado. Dessa forma logo estariam começando a construir a casa.

No pasto as vacas haviam terminado de parir, trazendo um bom número de machos, junto com algumas fêmeas. A pastagem abundante se encarregava de manter os animais com boa saúde, bem alimentados. As novilhas estavam cobertas e os touros agora pastavam tranquilos, embora separados, pois ficando juntos poderiam se empenhar em brigas. Não era conveniente permitir que isso acontecesse, pois poderiam se matar em alguns casos, dependendo da teimosia que um deles demonstrasse.

Ao completarem-se dois meses da morte de Trovão distante, num dia de sol, perto da hora do meio dia, ouviu-se o apito do barco. Era Carlos trazendo as madeiras serradas, além dos demais suprimentos. Teriam muito trabalho para descarregar tudo e levar para a sede da propriedade, bem como carregar as toras, que ficariam empilhadas sobre o convés do barco. O propulsor viera na potência máxima do povoado até ali. Tivera que vencer a correnteza do rio, levando a carga próxima da máxima capacidade. Na volta poderia levar um pouco mais, uma vez que o esforço necessário para descer a correnteza, seria menor.

Foi necessário fazer três viagens para levar todas as madeiras, incluindo o pagamento da serragem, bem como o transporte. O vizinho Francisco e dois dos seus filhos ajudaram a transportar as madeiras, enquanto os irmãos Batista, ajudavam os auxiliares de Carlos no processo de carregamento das toras. Foi uma semana intensa de transporte de madeiras e outros suprimentos para a propriedade dos irmãos, trazendo toras no retorno. Lua Serena, com o filho nos braços, via maravilhada a pilha de tábuas, vigas e ripas aumentando gradualmente. Logo estariam iniciando a construção de uma casa na qual iriam morar. Tivera oportunidade de ver casas feitas de tábuas em algumas oportunidades, mas nunca morara em uma delas.

O inverno estava chegando perto do fim. Provavelmente no próximo inverno estariam morando na casa nova. A cabana ficaria como lembrança do tempo que vivera ali sozinha com o avô. Ela era a última representante da família primitiva que sobrevivera. Agora tinha seu filho, nascido de seu amor pelo homem branco ao qual ajudara o avô Trovão salvar da morte quando ali chegara, ferido com tiro de arma de fogo. Mais alguns dentes haviam nascido na boca do pequeno. Agora era comum testar sua nova capacidade para morder tudo que estivesse ao seu alcance.

Depois de receber todas as mercadorias para construir a casa e entregar as toras do pagamento, João e Pedro cuidaram do plantio de milho, feijão e mandioca, além de um pedaço de arroz num trecho de várzea. Depois de feito o plantio, iriam começar a construção da casa. Os peões estavam sempre ocupados nos cuidados com os animais. As novilhas estavam começando a apresentar os sinais de sua prenhes. Em alguns meses teriam um belo lote de bezerros para apartar. Seria necessário contratarem mais um peão para ajudar. Queriam terminar a construção até o começo do ano de 1997, quando João faria uma visita à família.

Era chegado o momento de apresentar a nova família que constituíra. De tempos em tempos vinha uma carta ou um recado trazido por tropeiros que vinham buscar erva mate para vender na região de Passo Fundo e Santa Maria. Iria verificar a possibilidade de obter um suprimento de dinheiro para investir na nova propriedade. Tinham muitas instalações para concluir e assim melhorar a propriedade. Os vizinhos Senhor Francisco e filhos, ajudaram bastante na construção. O pagamento foi feito com algumas bezerras para aumentar a criação de gado da pequena propriedade familiar. Estavam ali para se ajudarem mutuamente.

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Propriedade na região catarinense de imigração.

No final de janeiro, a casa estava praticamente pronta. Faltavam apenas os móveis e estes teriam que ser trazidos de fora. Não havia ali quem fabricasse. A outra opção seria contratar um marceneiro para fazer o serviço no local, mas isso no momento estava fora das possibilidades. João e família, juntaram-se a um grupo de tropeiros que seguia para o Rio Grande do Sul. Foram alguns dias longos de caminhada, mas afinal chegaram ao destino. Antônio, Isabelita e Isabel, lhes fizeram uma calorosa recepção. Isabel, logo estava com o irmão, ainda caminhando devagar, levando-o a todos os cantos da sede da Estância.

Lua foi recebida com afeto pelos sogros, pelos cunhados e pela enteada Isabel. Passaram duas semanas revendo todos os conhecidos das redondezas. João matou a saudade que sentira de todos os cantos da propriedade que ajudara a construir anos passados. Tinha vontade de ir até Santa Maria, visitar os tios que ainda estavam morando por lá, embora já não mais em atividade. Os filhos agora ocupavam os cargos de capataz e administradores das propriedades. Os donos haviam se mudado para a cidade e apareciam de vez em quando para ver como estavam andando as coisas. Mas o tempo disponível era curto e enviou uma carta para cada um, informando detalhadamente o que acontecera com sua vida. Enviava convite para lhe fazerem visitas no novo endereço.

Agora estava empenhado em levantar do nada uma nova propriedade. Ali, apesar das periódicas dificuldades devidas às oscilações econômicas do país, havia uma significativa prosperidade. Ao retornarem, trazia uma boa soma em dinheiro para investir, além de tratar da produção dos móveis, portas, janelas da casa. Trouxe também dois peões para o trabalho na fazenda. Conseguira duas parelhas de bois com um carroção e uma carreta para transporte. Seriam úteis na nova fazenda. Agora mesmo serviam para transportar algumas coisas que de outra forma seria inviável levar.

João aproveitara para batizar o filho, na ocasião em que o padre estava na vizinhança. Até agora fora sempre chamado de Curumim, menino em guarani, mas era preciso lhe dar um nome. Lembrou o avô Afonso. Luz Serena aprovou e assim ele foi tornado cristão com o nome Afonso Batista. Levaria algum tempo para Lua acostumar-se a chamar o filho por esse nome, mas não poderia ficar sendo para sempre “curumim”. A viagem de retorno foi demorada. Os bois puxando as carretas não conseguiam desenvolver uma velocidade boa, pois a estrada era difícil e a carga que levavam considerável. Dessa forma gastaram quase um mês para chegar.

No entardecer de um dia no final de fevereiro, finalmente estavam chegando diante da casa, agora pronta. Pedro, mesmo sem as ferramentas apropriadas, soubera improvisar e fizera janelas, portas, mesmo alguns móveis rústicos para servirem no início. Era possível habitar na casa. Não mais teriam que viver na cabana. Pedro ficou contente com as novidades trazidas por João e também com o nome que o sobrinho agora recebera. Pedro lembrou que ainda não tinha família. Sempre dedicara seu tempo ao trabalho e esquecera de encontrar uma mulher para ser sua companheira. Ainda havia tempo para isso. João, depois de anos viúvo, com uma filha quase moça, encontrara nova esposa. Ele também haveria de encontrar alguém pela redondeza.

Os carros foram descarregados, os bois soltos no pasto existente nas proximidades da casa e logo se puseram a comer avidamente o capim abundante ali existente. Os novos utensílios foram colocados em seus lugares, os leitos arrumados e jantar preparado. O fogão fora erguido num canto da ampla cozinha, feito de pedras de arenito e chaminé de tijolos. Era amplo e funcionava bem, não espalhando fumaça no ambiente. O pequeno Afonso, havia se acostumado com as casas na fazenda dos tios e avós, portanto não estranhou a nova casa. Apenas estava curioso por explorar todos os recantos, pelo menos onde a luz do candeeiro alcançava. No escuro não se aventurava. Temia talvez a existência de algo invisível ou então objetos com que pudesse se chocar.

Os novos peões foram integrados à equipe, aliviando a carga dos três que vinham se ressentindo do excesso de trabalho. Agora daria tempo de terem uma folga de vez em quando. Afinal também eram filhos de Deus e gostavam de dar uma volta vez ou outra. Nos meses do outono que iniciava logo, além de colher o milho, cortar e guardar as ramas de mandioca, preparar o melado de cana para consumo no resto do ano, era preciso extrair o máximo de erva mate do meio dos pinheirais. Era usada no consumo próprio e vendida para os tropeiros que levavam o produto para o litoral, bem como para o Rio Grande do Sul. Pedro estava empenhado em melhorar o sistema de moagem da erva, aperfeiçoando o acionamento dos monjolos. Usaria uma roda movida pela água que tornava o mecanismo mais leve e eficiente. Permitiria a preparação de um volume bem maior do produto, em menos tempo.

João ajudou no que podia. Haviam sobrado tábuas e vigas da construção da casa e estas foram usadas nas instalações da moagem de erva. Na hora de fazer o serviço estava tudo pronto. Prepararam um grande estoque de erva, trabalhando em parceria com os vizinhos seu Francisco e filhos, além de contratarem dois trabalhadores temporários. Valia a pena pagar a diária e depois obter o lucro com o produto vendido a bom preço. Muitos moradores da região extraiam a erva e apenas preparavam, mas não tinham como moer. Isso os fazia perder uma parte do valor final, pois o comprador precisaria arcar com os custos de moagem, sem contar com as possíveis perdas ocorridas nesse processo.

Durante o outono nasceu o lote de bezerros, filhos das novilhas trazidas por Pedro no ano anterior. Houve apenas uma perda. Uma cobra cascavel estava nas proximidades e mordera o animalzinho ao chegar perto de seu local de repouso. A roça de milho rendera boa colheita, permitindo alimentar os animais e também debulhar para fazer farinha. Um pilão adaptado do moinho de erva, era usado para esmagar os grãos de milho. Depois com uma peneira, separava-se o fubá. Com ele era preparada a polenta, bolos e pão, tendo um pouco de farinha de trigo misturado. Trigo era produto difícil nesses tempos. Precisava ser usado com parcimônia, pois vinha de longe. Na região ainda não existiam moinhos que fizessem farinha de trigo.

Com tudo isso a dieta da família ficou enriquecida. Além das frutas, mandioca, leite e pinhão, havia agora também o fubá, o peixe do rio era sempre uma fonte de proteína, pois existia em abundância.  Em meio a essa azáfama toda, Pedro teve uma ideia. Pegou um cepo de madeira, a chapa de uma lata que estragara o fundo, recortou-a e ajustou sobre o cepo. Antes de fixar, usou um prego e fez uma grande quantidade de furos na chapa. Depois envolveu o cepo com a chapa, pondo os furos com as farpas viradas para fora. Dessa forma fabricou um ralador de mandioca. Construiu um cavalete e instalou a engenhoca de modo a ser possível fazer girar com a força da roda d’água.

Com ajuda de João e um dos peões, arrancaram uma boa quantidade de mandioca. Lua também ajudou e passaram horas raspando as mandiocas para remover a terra e a casca externa. Ralaram a mandioca e da massa extraíram o polvilho. Puseram a massa para secar, obtendo um bom suprimento de farinha que torraram para melhor conservação. Os vizinhos quando viram o resultado, pediram para usar o ralador e também prepararam uma remessa de polvilho, mas principalmente a farinha era o que lhes interessava. O polvilho ficou de ótima qualidade, permitindo a preparação de uma porção de pratos saborosos.

A esposa de Francisco ensinou Lua fazer biscoitos e outros alimentos que o polvilho permitia fazer. Aos poucos a jovem indígena, até questão de dois anos passados, vivendo de caça, pesca e frutos colhidos na floresta, se transformou em uma exímia dona de casa. O filho, agora com mais idade e atendendo pelo seu novo nome, apreciava cada prato que a mãe preparava. Geralmente era o primeiro a experimentar qualquer novidade. A farinha de mandioca era ótimo suplemento alimentar em várias situações. Junto com a carne, leite, farofas, pirão de peixe e angu, virado de feijão era ingrediente básico.

O inverno terminou e nova primavera estava aí. A rotina da propriedade se estabeleceu. Plantar, pastorear o gado, controlar as ervas daninhas na roça, cultivar a horta onde cresciam belos repolhos, tomates, alfaces e demais hortaliças. Lua tomara especial gosto pelo cultivo da horta. Deixava os vegetais para preparação das refeições, a poucos passos da cozinha, facilitando sua vida significativamente.  Em outubro, quando o plantio estava sendo terminado, Lua sentiu novamente que algo diferente ocorria em seu corpo. Não tardou e tudo se confirmou. Estava novamente grávida. O pequeno Afonso teria um irmão ou talvez irmã. À noite, quando se deitaram, abraçou João delicadamente e lhe cochichou no ouvido:

– Meu valente guerreiro!

– O que você tem, meu amor? Quando você me chama assim, alguma coisa está acontecendo.

– Você vai ser pai outra vez. Nosso curumim vai ter um irmão.

Os primeiros instantes foram de estupefação e depois se transformaram em uma grande alegria. O coração de João, já estava conformado com o fato de ficar velho e ter apenas um filho, além da filha que morava com os avós. Saber que seria pai novamente, foi suficiente para lhe tirar o sono por algumas horas. A excitação era muito grande para poder dormir. Contemplou longamente o filho adormecido em seu leito ao lado, acariciou o rosto e cabelo da mulher, depois as curvas de seu corpo, terminando por se amarem apaixonadamente. Pensara seriamente que iria morrer na ocasião em que fora ferido. Agora tinha mulher, um filho que dormia ali ao lado e uma companheira como Lua Serena, pronta a lhe dar mais uma vez a graça da paternidade. Finalmente dormiram abraçados e exaustos.

No dia seguinte não se conteve e contou a novidade ao irmão. Nesse momento Pedro falou:

– Eu vou procurar pela redondeza uma moça que me aceite por marido e vou formar família também.

– Excelente ideia, Pedro. Viver sozinho, mesmo em família, é muito triste. Precisamos de uma mulher e filhos para nos sentirmos realmente vivos.

– Trabalhei tanto desde pequeno que acabei esquecendo desse lado da vida. Vi nossos sobrinhos nascer, mas sempre imaginava que para mim isso era coisa distante. Quase passo pela vida sem lembrar que eu existo.

– Pois tire um dia de folga, um domingo, feriado e dê umas volteadas pelas vilas e povoados. Há de ter uma guria por essas bandas que se agrade de um gaúcho guapo como tu. A casa é grande e para começar podemos morar todos aqui mesmo. Depois com o tempo, fazemos outra para vocês.

– Estou precisando de umas ferramentas para marcenaria e acho que vou encontrar isso só lá por Curitibanos. No caminho vou bombeando para ver se encontro alguma prenda que me agrade.

– Então vai logo. Não perca mais tempo, mano velho!

– Vou preparar tudo e parto amanhã. Vou até o povoado e lá me informo a melhor forma de chegar até a cidade. Então sigo caminho e em quatro ou cindo dias estou de volta.

– Nem precisa se apressar demais. No momento até que o serviço está folgado. Mais para frente aperta e fica complicado.

No dia seguinte Pedro seguiu para o povoado próximo e de lá foi para Curitibanos, onde pretendia comprar algumas peças de ferramentas que não dispunha. Eram necessárias para alguns detalhes de marcenaria mais fina que queria utilizar para concluir a parte do mobiliário da casa.

Durante a viagem para o Rio Grande, João vira a atividade de construção da ferrovia EFSP-RG. Uma parte da obra estava em andamento, vindo de Santa Maria. O trecho fora demarcado e dividido em lotes. Em cada lote um contingente de trabalhadores passava os dias mourejando na movimentação de terra, escavação do leito, pequenos túneis, aterros. Sobre os riachos era preciso construir pontes reforçadas, com pedras, barras de ferro. O trem passando por cima era diferente de uma carroça ou uma tropa de bois. Exigia-se uma estrutura firme e resistente. Havia ouvido dizer que a estrada iria passar não longe de onde moravam, apenas na margem oposta do rio. Torcia para que não decidissem passar a estrada pela sua nova propriedade. O transporte de trem, lhe haviam dito, era coisa boa. Rápido, barato e seguro, mas a ele não trazia boas lembranças, uma vez que acabara com o negócio das tropas. As mulas tinham sido substituídas pelas locomotivas e vagões no interior de São Paulo e algumas regiões de Minas Gerais.

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Paisagem rural nos tempos modernos, Cerro Negro-SC

Talvez Pedro trouxesse novidades ao voltar de Curitibanos, com relação à estrada de ferro. Quando ainda lidava com tropas, vira um grupo de pessoas, percorrendo aquele sertão, deixando marcos em diversos pontos. Estavam estudando a viabilidade de construir uma estrada de ferro por ali. Quase ninguém acreditava nisso naquele tempo. Depois com a queda do império e advento da república, parecera ter morrido na casca a ideia. Estiveram enganados. O projeto estava em andamento e, dia mais, dia menos, veriam os trilhos passar em algum ponto daquelas plagas.

Pedro retornou depois de uma semana. Chegou acompanhado de uma bela mulher. Jovem, de cabelos louros e feições delicadas. Montava um cavalo zaino e apeou com destreza. Nem esperou por ajuda. Sinal de que pelo menos montar a cavalo sabia e era ágil. Era filha de um pequeno sitiante do outro lado do rio e aceitara sem delongas casar-se com ele. Estava há tempo esperando por um moço que a pedisse em casamento. Filha caçula de uma família de cinco irmãos e mais seis irmãs, boa parte ainda solteiros, não titubeara em aceitar. Haviam ido até um juiz de paz, bem como aproveitado a presença do padre na região e celebraram o casamento.

Nos primeiros dias dormiriam em duas camas de solteiro, até que Pedro fizesse uma de casal. O resto viria com o passar do tempo. Felizmente ele encontrara as ferramentas de que necessitava e se abastecera com alguns recursos mais modernos que facilitariam o seu trabalho. Naquela noite fizeram um jantar mais elaborado para comemorar o enlace matrimonial. A jovem era despachada, hábil cozinheira e também costureira. Trazia em sua bagagem uma máquina de costura acionada a mão e poderia costurar as roupas da família. Uma preciosa aquisição. Os peões com frequência usavam de suas facas e tiras de couro para remendar os fundilhos de suas calças, desgastadas de tanto andar montado. Com certeza apreciariam uma roupa mais refinada costurada em máquina.

Lua ficou encantada com a máquina, coisa que nunca vira. Ficou curiosa por ver funcionando, mas se absteve de mexer com medo de causar algum dano ou mesmo se ferir. Pedro falara a esposa Rosa Maria que a cunhada era descendente de índios e estava no começo de sua segunda gestação. Dessa forma haviam comprado alguns pedaços de pano para costurar roupinhas para criança, cueiros, faixas e casaquinhos. Eram coisas que se usava em quantidade, especialmente nos primeiros meses de via do pimpolho.

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Locais de turismo na era moderna.

Em Curitibanos Pedro ouvira vários rumores sobre a estrada de ferro. Porém ainda não havia sinais de início dos trabalhos na região. Sabia-se que o outro ponto de início da construção era a vila de Ponta Grossa no Paraná, seguindo uma frente de trabalho no sentido de São Paulo e a outra no sentido sul. A última parte pelo visto seria através do vale do Rio do Peixe, parte do território contestado pelos governos dos estados de Santa Catarina e Paraná. O processo fora julgado favorável ao governo catarinense, mas o Paraná não aceitava a demarcação definitiva, gerando um clima de insegurança entre os moradores. Não sabiam se pertenciam a um ou outro estado. Deveriam se dirigir às autoridades de um ou outro lado? Ninguém sabia.

O que resultava dessa desavença era o fato de que tanto um quanto outro governo usava de sua autoridade sobre as terras devolutas para conceder títulos de propriedade a quem os requeresse. O que não raro causava conflitos. Mas o que mais preocupara a todos em geral, tanto de um quanto de outro lado, era a concessão de uma larga faixa de terra à companhia construtora da ferrovia, para exploração da madeira, loteamento e colonização. Isso estava preocupando especialmente aos posseiros, como o caso de João e Pedro, uma vez que apenas ocupavam a terra e não dispunham de recursos para legalizar a propriedade junto ao governo. Aliás nem sequer sabiam a qual dos governos estaduais deveriam ir para requerer, caso tivessem condições para tanto.

Como a ferrovia ainda parecia coisa distante, deixariam para se preocupar com ela quando chegasse a hora. Por enquanto tratariam de fazer progredir sua propriedade, implantar benfeitorias, fazer roças, pastagens e criar seu gado. Quanto melhor estivessem financeiramente, melhores chances teriam para sair de dificuldades no momento oportuno.

Pedro tratou de fazer nos próximos dias uma bela cama para nela dormir com a esposa. Essa por sua vez logo tomou pé da situação e começou a se empenhar em ajudar. Participava dos cuidados com a horta, limpeza da roça e até ia junto com o marido nas lides com o gado. Por precaução ele não a deixava participar das ações mais arriscadas, com medo de que se ferisse com gravidade. Tendo visto os olhos de Lua admirando a bela cama que fizera, decidiu fazer uma também para o irmão. Aproveitou a que usavam, apenas adaptou uma cabeceira e pé trabalhados. Dessa forma também a cunhada tinha uma cama bonita, não apenas um estrado com um saco cheio de palhas encima. O colchão era feito de tecido macio, mas forte, recheado de palha de milho.

Toda manhã a palha era remexida para ficar mais fofa e depois coberto com um lençol. A jovem esposa, embora conhecendo os detalhes da vida, era inexperiente em questão de homem. Com humildade perguntou à cunhada algumas coisas a respeito, sendo que ela também aprendera sozinha. Nunca convivera com sua mãe, nem tivera irmã. Na verdade, se tornaram confidentes uma da outra e se ajudavam. Maria Rosa, imaginou que logo também estaria grávida, e precisaria das orientações de Lua. A família morava há três léguas de distância, tornando inviável um pedido de ajuda à mãe ou irmã. Via em Lua uma amiga, companheira e apoio.

Os meses passaram, o filho de Lua nasceu, com ajuda de Maria Rosa, embora também fosse inexperiente. Mas Lua já sabia como era e a orientou. Logo seria sua vez, pois engravidara no terceiro mês depois do casamento. Assim, dentro de pouco tempo seria ela a estar deitada, aos cuidados de Lua para ter seu filho. Dessa vez João escolheu para o filho o nome Roque, em homenagem ao mártir Roque Gonzalez. O avô Afonso com certeza ficaria contente. Ele próprio recebera o nome em homenagem ao outro mártir, Afonso Rodrigues.

Pedro por sua vez estava num contentamento sem tamanho. Em questão de dois a três meses Rosa Maria lhe daria o primeiro filho. Pedira a João para escrever uma carta aos pais informando de seu casamento e do próximo nascimento de um filho. Na mesma ocasião também já foram informados da nova gravidez de Lua. O que ninguém esperava era a chegada de Antônio, Isabelita, Isabel e um dos netos. Haviam se juntado a um grupo de tropeiros e conseguiram chegar ao povoado. Dali vieram de carona com Carlos, que casualmente estava subindo o rio levar mercadorias a um morador alguns quilômetros acima. Soou o apito algumas vezes e atracou.

Com cuidado desembarcou os passageiros. Ao ouvir o apito insistente, Pedro saltou sobre o cavalo que estava selado e foi na direção do rio. Ao chegar teve a maior surpresa. Decidiu deixar os viajantes descansando na beira do rio enquanto ia em busca da carroça para transportar as bagagens e também a eles mesmos. Ao retornar tão depressa, deu a impressão de que Seu Carlos apitara por apitar, mas logo souberam o motivo. Em poucos minutos a carroça estava a caminho do rio para trazer os viajantes e suas bagagens. Amarrados à parte traseira, iam o cavalo de Pedro e outro para servir ao sobrinho que viera junto.

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Carro de bois no interior catarinense.

Embarcaram tudo e Antônio foi tangendo os bois, enquanto tio e sobrinho iam na frente. Mesmo com os cavalos andando a passo, acabaram chegando à casa cerca de 500 m na frente. Lua, mesmo estando de resguardo, levantou e veio receber os sogros com o recém-nascido nos braços. Ao seu lado Maria Rosa ostentava seus quase sete meses de gravidez, o que levou Isabelita a gritar de longe:

– Mis hijas con mis nietos!

O pequeno Afonso, agora com dois anos de idade, correu ao encontro da carroça. Antônio parou e o ergueu para cima. Logo estava abraçado à avó e a irmã. O primo não mereceu muita atenção, apenas um leve aceno. Ao parar a carroça no pátio, logo estavam se abraçando, Pedro apresentando a esposa à família, Lua mostrando o filho ainda com sinais do parto recente. Antônio parou, olhou longamente ao redor e meneou a cabeça em sinal de aprovação, antes de falar?

– Bela terra, meus filhos. E que pinheiros mais altos. Olha ali, que árvore é aquela?

– Aquela é uma imbuia, pai. Uma madeira para móveis e esquadrias que só vendo para crer.

– Ali são pés de erva mate, se não estou enganado.

– Sim pai. Aqui tem bosques inteiros de erva mate.

– Que maravilha. E as pastagens ficam onde? Estou vendo só um pastinho de nada ali na frente.

– O pasto fica mais para baixo, pai. Tem áreas de pastagem natural, tem os chamados faxinais, onde crescem capoeira e mato mais baixo. É onde fazemos a roça para plantar. Depois a gente mostra para o senhor. Agora vamos descansar e contar as novidades.

– Eu por mim ia agora conhecer tudo. Estou tão curioso.

– Quedate tranquilo, mi viejito! – falou Isabelita. – Tenés tiempo mas tarde para ver los animales.

– Mas é muito bonito aqui, meus filhos. Uma maravilha.

Sentaram-se na varanda e logo havia uma cuia de chimarrão rodando. João estava solícito com os pais e também com a esposa que dera à luz no dia anterior. Por sorte haviam construído a casa com cômodos sobressalentes para as eventualidades de visitas. Pedro naquela tarde preparou sem demora duas camas improvisadas para acomodar os pais. Para o sobrinho e a filha Isabel havia as camas de solteiro que ele e Maria Rosa haviam usado nos primeiros dias de casados. Ninguém dormiria no chão. Talvez fosse conveniente fazer um suprimento extra de palha de milho para reforçar os colchões e assim ninguém amanhecer com as ripas do estrado desenhadas nas costelas.

As visitas ficaram até o nascimento da filha de Pedro. Era uma menina, loura igual a mãe, mas com os olhos e face do pai. Ela foi chamada Isabelita em homenagem à avó. Quando a pequena completou um mês de vida eles se despediram e voltaram para sua casa. Diante da situação de ver o pai e a madrasta, com dois irmãos seus para cuidar, Isabel decidiu ficar ali, pelo menos até os pequenos terem um pouco mais idade. A viagem de volta foi feita novamente em companhia de uma tropa. João levou os pais e o sobrinho até o povoado, onde providenciou a companhia para a viagem.

Despediram-se, prometendo voltar. João, no entanto, sabia que dificilmente isso se realizaria. Tanto Antônio, quanto Isabelita estavam idosos e provavelmente não resistiriam a nova viagem naquelas estradas, depois de alguns anos. A idade cobra um tributo alto do organismo das pessoas

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Na senda dos monges! – Capítulo XIV – Consolidando a propriedade

  1. Consolidando a propriedade.

    mapacacador

    Mapa município de Caçador, SC.

 

Depois do plantio e construção das instalações básicas para a criação de gado, chegou o momento de pensar em providenciar o melhoramento da moradia. A dificuldade era obter madeiras serradas para a construção. Fazer tudo a mão, falquejar peça por peça, além de consumir um tempo muito longo, tinha o inconveniente do desperdício de madeira. Os irmãos sentaram e trocaram ideias sobre a melhor maneira de resolver a questão.

Havia a possibilidade de trazer carroções e juntas de bois para o transporte. Além de ser muito longe, havia a dificuldade adicional das estradas. Era possível que demorassem dias em uma única viagem para levar toras e depois outro tanto para trazer as madeiras serradas da serraria que ficava um bom trecho rio abaixo. Pensaram em comprar madeira serrada e trazer de barco, mas suspeitavam de que o custo seria muito elevado. Ali quem sabia fazer contas e escrever era João, ficando encarregado dessa parte. Decidiram que João faria uma visita ao povoado, onde existia uma pequena serraria.

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Na senda dos monges, Capítulo XIII – O retorno de Gumercindo Saraiva.

  1. Retorno de Gumercindo Saraiva.

Vale do rio do peixe 1

Vale do Rio do Peixe

Diante da impossibilidade de manter a posição conquistada no Paraná, tendo pela frente um contingente numeroso e bem armado do exército nacional, Gumercindo Saraiva, poucas horas após dominas Curitiba, ordenou a retirada. Por melhor que seja organizada tal operação, sempre acontecem fatos desastrosos. Há os que mantem a calma e conseguem fazer as coisas sem atropelos, mas também há quem se apavore e cometa tolices. Após passar os limites da Lapa, conquistada anteriormente, Gumercindo ordenou uma rápida parada para conferir a tropa. Nesse momento notou a ausência de seu ajudante João Maria.

Encontro de Gumercindo Saraiva e Custodio de Melo no Paraná.

Encontro de Gumercindo Saraiva e Custodio de Melo no Paraná

Um soldado relatou que vira o tenente, acompanhado de um pequeno grupo, tomar um caminho que parecia um bom atalho. Depois não os havia visto mais. Não querendo deixar homens valiosos para trás, o comandante ordenou a um capitão, tendo sob suas ordens um pequeno destacamento para retornarem e procurar pelos extraviados. Poderiam estar em dificuldades, precisando de apoio. Tomada essa providência e feito o balanço das baixas, seguiram marcha com destino às margens do Rio Iguaçu.

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Na senda dos monges! – Capítulo XII – Conquistando seu espaço.

  1. Conquistando seu espaço

 

            Nos dias que seguiram à união de João Maria e Lua Serena, usando o machado que estava nos alforjes, depois de colocar um bom cabo, começaram a construir a nova cabana. Trovão Distante quis que fosse mantida a velha cabana para ele e se construísse a nova para o casal.  Começaram por providenciar troncos de coqueiros para as paredes e a estrutura da cabana em que iriam viver nos próximos anos. A jovem esposa demonstrou habilidade no manejo das ferramentas e foi de grande ajuda. Poucos dias foram suficientes para construir um abrigo, bem mais amplo. Tinha a divisão para acomodar o idoso Trovão Distante, bem como o casal. Com pedras construíram o fogão onde os alimentos seriam preparados e cujo calor amenizaria os rigores do inverno. Aproveitando a mesma estrutura foi preparado também um forno para assar pão e outros alimentos.

            Com a cabana pronta, fizeram um reconhecimento geral nos bosques de ilex paraguariensis, para produzir erva mate. Localizaram um ótimo suprimento de plantas nativas que permitiriam produzir um volume considerável do produto. Com isso e a coleta dos pinhões, poderiam conseguir a condição de adquirir alguns animais e começar a formação de um pequeno plantel de vacas, tanto para leite como para corte. O cavalo tordilho era, por ora, o meio de locomoção. Não longe da cabana havia um córrego com volume de água suficiente para acionar os monjolos que João tencionava construir. Assim poderiam secar a erva mate e entregar o produto moído em lugar de apenas preparado para moagem no destino. Teria maior valor agregado.

            Tudo exigia tempo. Era preciso andar devagar, pois ele ainda estava em convalescença e sentia o cansaço tomar conta do corpo, depois de um dia inteiro de trabalho. Depois de iniciar trabalho, até o velho Trovão distante se animou a ir até o local onde a erva era sapecada e preparada em fardos para secagem. Estavam na época apropriada, quando não havia brotos novos, fornecendo uma erva de sabor mais suave. Os fardos iam sendo preparados e colocados no local de secagem. Nos dias de chuva, trabalhavam na confecção dos monjolos e cocho um grande tronco oco encontrado nas redondezas. Precisava ser bem trabalhado internamente para não desprender partículas de madeira que iriam se misturar à erva alterando o sabor. Quando a instalação dos pilões, movidos a água do córrego ficaram prontos, a primeira remessa de folhas e finos galhos estava seca. Era possível começar a moer.

            Era preciso ficar de plantão na beira do cocho para repor e misturar as partes menos moídas levando a uma moagem uniforme. Revezavam-se nessa tarefa, de modo que em poucos dias estavam com um belo suprimento de erva pronta para ser levada ao lugar mais próximo para tentar vender. Uma canoa havia sido escavada de um tronco adequado e transportado para a beira de um afluente do Rio do Peixe que passava perto. Dali alcançariam o curso maior e poderiam descer até um povoado que sabiam existir alguns quilômetros corrente abaixo. Deixaram Trovão Distante e Tordilho bem supridos de mantimentos, além de estarem em bom estado. Partiram na esperança de voltar em no máximo dois dias.

            Uma corredeira existente antes de alcançarem o Rio do Peixe quase frustrou seus planos, fazendo naufragar o barco. Valeu a experiência de Luz Serena. Na volta precisariam encontrar uma maneira de subir ou encontrar outro caminho mais curto para chegar à cabana. Ao chegarem no povoado, encontraram um grupo de tropeiros que agora faziam transporte de erva mate e pinhão para o litoral catarinense e outros levavam o produto para o Rio Grande do Sul. Para surpresa de João Maria, entre os componentes do grupo encontrou um jovem que iniciara nas tropeadas ainda no tempo que ele fizera suas últimas viagens. Foi um encontro emocionante. A família de João considerava-o morto em algum canto do sertão catarinense, uma vez que não voltara com a tropa de Gumercindo Saraiva.

            Ficou sabendo que a revolução terminara com a vitória dos pica-paus, Gumercindo fora assassinado à traição logo depois de voltar da expedição ao Paraná. Dessa forma, a venda da erva que trazia estava garantida. Apresentou a nova esposa e negociou com o chefe da comitiva. Conseguiu um bom dinheiro, com o qual comprou alguns produtos que precisavam, especialmente querosene, sal, açúcar, farinha. Depois de levar Luz Serena com tudo que adquirira, faria um giro na redondeza, em busca de uma vaca para comprar. Até mesmo uma cabrita serviria para terem um pouco de leite. O fato de produzir a erva já pronta para consumo, despertou o interesse de comerciantes do lugar. Fizeram ofertas de crédito para adquirir suprimentos que seriam descontados em futuras entregas de produtos. Ele agradeceu, mas preferiu não fazer dívidas.

            Queria ter liberdade de negociar com quem oferecesse melhor condição, sem estar atrelado a ninguém por compromisso de débitos previamente assumidos. Despediu-se do antigo companheiro, tendo antes escrito uma carta para a família, explicando como e onde estava. No momento que fosse possível faria uma visita e decidiriam o que fazer em termos de futuro. Embarcaram na canoa e subiram, agora remando com vontade redobrada, procurando chegar à desembocadura do pequeno rio. Chegaram ao pé da corredeira e ali procuraram um ponto para aportar. Enquanto ele descarregava os mantimentos, Lua foi buscar Tordilho para conseguirem transportar tudo. Seria necessária a ajuda do nobre animal, pois de outra forma poderiam perder o que tanto trabalho custara.

            Com a farinha, o sal, o açúcar e demais temperos os alimentos passaram a ter outro sabor. Um jogo básico de panelas também estava incluído, uma pequena lata de banha para usar na preparação dos alimentos. Iria ensinar Lua a cozinhar como ele gostava. Apreciava os acepipes que ela preparava, mas a culinária indígena era limitada e ele fora criado com alguns requintes há tempos não disponíveis. O velho Trovão Distante lembrou de sua juventude quando conhecera comida do homem branco e apreciara. A vida limitada ali naquele recanto privara-o desses luxos. Poderia agora ir para junto dos antepassados, pois tivera novamente o prazer de degustar alimentos com temperos do homem branco.

            Sem demora os trabalhos foram recomeçados. Depois de um mês e meio tinham nova carga para levar ao povoado. Dessa vez transportaram tudo até o local em que ficava a canoa e ali embarcaram. Não queriam correr o risco de perder tudo na corredeira. Nem sempre teria a mesma sorte da primeira vez. Não convinha arriscar. O barco, leve e veloz, desceu rio abaixo, ficando apenas alguns centímetros fora d’água. Suficiente para não molhar o interior. Em poucas horas estavam no destino e procuraram negociar o suprimento de erva, bem como os pinhões e frutas que levavam.

            Fizeram bom negócio, pois havia um chefe de tropa do RS disposto a adquirir todo suprimento. Tivera contato com o amigo e sabia da possibilidade de conseguir ali um produto de boa qualidade. Logo depois de ancorarem no porto improvisado, haviam efetuado a venda de tudo que traziam. As compras que tinham necessidade eram de menor monta e sobraria dinheiro para procurar uma vaca, talvez uma novilha. Pediu informação e soube que, a menos de meio caminho da cabana, havia um pequeno proprietário que provavelmente estaria disposto a lhe vender uma vaca. Agradeceu e ao amanhecer do outro dia estavam remando há mais de duas horas rio acima. Por volta do meio da tarde chegaram ao pé da corredeira. Para sua surpresa encontraram Trovão Distante levando Tordilho pela brida. O idoso, parecia rejuvenescido e caminhava ereto, embora devagar. No começo da noite estavam em segurança na cabana.

            João preparou-se para seguir na manhã seguinte na direção que lhe haviam fornecido. Queria encontrar a propriedade e, se possível, trazer uma vaca para iniciarem sua criação. Ao clarear do dia estava pronto e iniciou a viagem. Vadeou o riacho pouco acima e desceu pela outra margem. A floresta de araucárias, tendo os faxinais nas partes que as separavam de pastos nativos, eram relativamente fáceis de serem percorridas, exceto em alguns lugares. Desceu até a proximidade do Rio do Peixe e depois seguiu o curso desse. Pouco antes do meio dia, alcançou um descampado onde havia uma pastagem e ali havia diversas cabeças de gado pastando.

            Um cão latiu acusando sua presença e ele seguiu devagar, tomando cuidado para não ser tomado por ladrão de gado. Vinha com o intuito de comprar. Seguiu pela beirada, na direção de uma pequena fumaça divisada ao longe, atrás de um bosque de pinheiros entremeados com erva mate. Em alguns minutos encontrou uma casa rústica, rodeada de mais algumas instalações de mesmo estilo. Mais um cão latiu, fazendo aparecer uma mulher de meia idade, saída de dentro de casa. Saudou-a amistosamente, dizendo:

            – Bom dia, senhora!

            – Bom dia! O que o senhor deseja?

            – Eu moro alguns quilômetros rio acima e estou procurando uma vaca para comprar. Me informaram no povoado rio abaixo que aqui eu iria encontrar.

            – Vai precisar falar com o Chico, meu marido. Ele volta daqui a pouco. Foi com os filhos limpar terreno para plantar milho e feijão depois do inverno.

            – Posso apear e esperar por ele?

            – Chegue para a varanda aqui e tome assento. Quer um pouco de água?

            – Aceito. Estou caminhando desde cedo.

            – Pode soltar o cavalo aqui no pátio ele não vai fugir. Ali atrás tem água onde ele pode beber.

            – Vou levar ele até lá e depois solto. Ele está com mais sede que eu, pois veio fazendo força, enquanto eu vim montado.

            Levou o Tordilho até um cocho com água onde ele bebeu à vontade. Soltou-lhe o arreio e retirou para deixar que descansasse melhor. Voltou para a varanda, sentando-se. Logo a dona da casa veio trazendo uma grande caneca cheia de água fresca. Bebeu com vontade e em alguns minutos ouviram vozes de gente conversando. Eram o marido e os filhos voltando do trabalho. Em instantes eles entraram pela porta dos fundos. A mulher os esperava e informou da presença de João. Logo estavam ali o marido e os quatro filhos. A única filha estava no interior da casa. Depois dos cumprimentos e apresentações, todos sentados, foi o momento de João indagar do dono da casa:

            – Me informaram no povoado que talvez o senhor tivesse uma vaca para vender. Moro alguns quilômetros rio acima, junto com um velho índio e sua neta. Estou começando uma vida nova, depois de quase morrer.

            – Mas que foi que lhe sucedeu, homem?

            – Eu fazia parte da tropa de Gumercindo Saraiva na revolução dos maragatos e na retirada fui ferido. Consegui chegar até ali, mas quase morto. Uma bala no quadril com alguma coisa de ruim quase me matou. O velho índio tirou a bala e conseguiu me salvar a vida, depois de um mês ardendo em febre e delirando.

            – O velho Trovão Distante?

            – Ele mesmo e a neta Lua Serena. O senhor conhece?

            – Conheço sim. Mas pensei que tivesse morrido há anos quando andou por aí um pessoal caçando bugres para escravo.

            – O resto da família morreu ou foi levada.  O velho e a neta sobreviveram.

            – Aquele índio é gente boa.

            – Eu agora sou marido da neta e assim ele é meu avô também.

            – Vai começar uma posse. Ali onde eles ficavam tem terra boa, bastante erva mate e pinhão. Vai fazer uma bela propriedade.

            – Estou sentindo falta do leite e depois de vender umas partidas de erva e pinhão, acho que tenho dinheiro para comprar uma vaca.

            – Vou ter que perguntar para a mulher veia se ela deixa vender uma vaca. Zilda, vem aqui um pouco.

            – O que foi Chico?

            – O homem quer comprar uma vaca. Podemos vender uma para ele?

            – Acho que pode sim. Aquela que criou perto do Natal. Não essa última que essa tenho muito gosto nela.

            – Vamos lá ver as bichas, enquanto a mulher termina de aprontar a boia. Depois vamos comer e voltar a trabalhar.

            Levantaram e caminharam por alguns minutos chegando ao lugar onde estavam as vacas. Eram mansas e foi possível colocar a corda na que lhe apontaram. O animal caminhou calmamente até o lugar onde foi amarrada. Ele a examinou detidamente, até chegar à conclusão de tratar-se de um animal saudável e aparentando ser de boa qualidade. Desejou saber se era mansa para tirar leite e Chico lhe alcançou uma caneca para isso.

            – Mas ela não dá coice?

            – Não. Pode sentar e tirar o leite.

            Realmente pode constatar que era possível tirar o leite da vaca, sem precisar amarrar-lhe as pernas. Isso era um fator importante, pois Lua Serena iria querer tirar leite e não tinha nenhuma prática no assunto. Resolveu perguntar o preço e esperou ansioso pelo veredito. Temia não dispor do dinheiro suficiente, mas ficou satisfeito ao ouvir o que disse o proprietário.

            – Não vou lhe arrancar o fígado por mode uma vaca. Uma caneca de leite faz muita falta numa casa. Vou lhe fazer um preço camarada.

            Realmente o preço era bem menos do que João ousara esperar. Não tardou e fez logo o pagamento. A vaca foi levada para perto da casa e ali foi amarrada. Convidaram o visitante para almoçar e, depois de meses, foi a primeira refeição preparada por uma mulher branca que comeu. Era fácil perceber a diferença. Em suas muitas andanças, fora acostumado a se alimentar com diversos tipos de alimentos, de diferentes temperos e origens. Depois de comer, decidiu encetar a caminhada. Levando a vaca pela corda, não poderia desenvolver muita velocidade. O bom era que agora o caminho estava conhecido e não perderia tempo com voltas inúteis.

            Depois de trazer tordilho, farto de pastar na sombra dos pinheiros e pés de erva existentes nas proximidades, colocou-lhe os arreios. Em pouco mais de cinco minutos estava pronto para partir. Despediu-se dos vizinhos amistosamente e rumou para a sua moradia. Olhou o sol e deduziu que, caminhando a passo firme, chegaria em torno do início do escurecer. Contanto que a vaca não resolvesse empacar, o que era uma possibilidade. Por sorte o animal era, além de manso, dócil e seguiu o cavalo sem estranhar. Não se enganara. Quando a luz despontava no céu, parava diante da cabana, onde Lua Serena de Trovão Distante o esperavam. Observaram a vaca, primeiro à distância, depois chegaram mais perto, ao verem João soltar o animal da cilha do cavalo e afagar seu pelo que estava suado. Era visível o cansaço do animal. Agora poderia descansar.

            Junto com Lua foram buscar um pouco de capim para dar ao animal enquanto ele sentava sobre um cepo e tirava o leite. Era pouco devido ao fato de estar cansada. Havia pastado pouco e gasto muita energia, além da transpiração. Olhos curiosos acompanharam o processo de ordenha, mas não se atreveram a tentar fazer o mesmo. O vendedor havia lhe informado que o animal estava prenhe, sendo previsto o nascimento do bezerro para o próximo ano, no final de janeiro, começo de fevereiro. Não ficariam muito tempo sem leite e logo teriam outro animal. A criação estava começando. Era preciso encontrar um lugar seguro para deixar o animal até se acostumar ao novo lar. Por sorte havia comprado alguns metros de corda na última ida ao povoado.

            Fez uma laçada na extremidade, caprichando para evitar que desmanchasse. Depois colocou a corda na cabeça da vaca. Nisso lembrou que esquecera de perguntar se ela tinha nome. Seria interessante colocar um para poder chamar e ela atenderia vindo para o lugar de costume. Isso poderia ser decidido no dia seguinte. Trovão Distante já bebera leite em sua juventude e gostou de repetir a experiência, depois de muito tempo. Luz Serena ficou um pouco temerosa, mas experimentou um pouco. O sabor era algo diferente do que até hoje bebera. Habitualmente era água ou alguma infusão de ervas por maceração ou cozimento. Logo se acostumaria ao sabor levemente adocicado, com aquele pouco de espuma que marcava o lábio superior, como se fora um bigodinho branco.

            Depois de deixar a vaca em lugar seguro, comeram carne salgada misturada com arroz e feijão. Completaram a refeição com salada de almeirão selvagem existente em abundância nas matas da redondeza. Estavam preparando canteiros para cultivar algumas outras hortaliças dando maior variedade às opções de alimentação. Depois foram deitar-se. Lua Serena tinha uma um ar estranho. João imaginou inicialmente ser devido à novidade de uma vaca, o novo ingrediente do cardápio. Quando deitaram ela se aconchegou a ele e ficou longamente fazendo carinho no seu homem, como quem apenas quer agradar. Em dado momento murmurou ao ouvido:

            – Lua Serena vai ser mãe!

            Depois de ficar por um momento silencioso, João conseguiu articular as primeiras palavras.

            – Pode repetir o que você disse? Eu não ouvi direito.

            – Lua Serena vai ser mãe! Meu sangue não desceu e hoje senti enjoos, depois vomitei um pouco. Avô Trovão Distante, sonhou na noite passada que ia ser avô outra vez e dessa vez era um pequeno guerreiro.

            – Mas isso é maravilhoso, querida. Vamos cuidar bem desse pequeno mestiço que vai nascer. Vai herdar a valentia do bisavô Trovão e do pai vai herdar uma tradição de longos anos de soldados, envolvidos em várias guerras e batalhas.

            – Nosso filho vai ser homem de paz. Não quero saber de guerra nem armas.

            – Se fosse possível viver sempre em paz, é logico que todos nós gostaríamos.  Infelizmente, acontecem coisas que obrigam os homens a lugar para defender seus bens, suas famílias e terras.

            – Bem que o monge João Maria falou que ainda iria haver uma porção de guerras por causa dos homens maus que vão vir.

            – Nem é preciso que venham de fora os homens maus. Já tem deles em quantidade suficiente aqui mesmo.

            – Mas juntando os que vem de fora com os que tem aqui, fica muito mais complicado.

            – Vamos torcer para que o nosso pequeno guerreiro possa viver sem precisar pegar em armas. Isso me deixaria muito feliz.

            Os dois se abraçaram carinhosamente e pouco depois estavam dormindo. Pela manhã, ouviram cedo o mugido da vaca, pedindo para ser ordenhada. Provavelmente também sentia fome e sede, pois o dia anterior fora cansativo e o alimento pouco. João foi cortar um maço de capim que crescia alto num ponto próximo e deu para o animal comer. Enquanto ela se punha a mastigar, ele falou:

            – Vamos escolher um nome para a vaca. Assim vamos poder chamar e ela vem.

            – Não pode ser apenas Vaca?

            – Poder pode, mas e como vamos chamar quando tivermos mais de uma? Vaca Dois?

            – Vou perguntar ao vovô. Ele sabe escolher nomes melhor que eu.

            João sentou-se para tirar o leite e ela ficou assistindo, prestando atenção como era feito. Em seu íntimo imaginava-se sentada naquele cepo e fazendo o que João fazia. Ficou pensando em alguns nomes que poderiam usar para chamar a vaca. Em dado momento falou:

            – Vou chamar vaca de Sol. Fica bom, não acha?

            – Pode ser. Um nome curtinho e bem forte. Por mim ela vai ser Sol.

            Terminada a ordenha, agora um pouco mais abundante, a vaca ficou comendo para dar conta do belo maço de capim que recebera. Os dois foram para dentro e o fogo já crepitava forte no fogão. Prepararam um mingau de leite com farinha de milho para o desjejum. O velho Trovão Distante se deliciou com o mingau. Apreciava esse alimento, pois misturava o leite da vaca com milho, um alimento altamente nutritivo. Terminado o desjejum, João falou à Lua que ela deveria agora ficar fazendo apenas serviço de casa e não se esforçar. Ele faria o serviço pesado. Pegou o facão, uma foice nova que adquirira e preparou-se para sair. Lua se postou a sua frente e falou:

            – Lua não estar doente. Lua só vai ter filho, isso não ser doença.

            – Mas tem que se cuidar e evitar esforço, pois pode se machucar e não quero perder nem Luz, muito menos o pequeno guerreiro.

            – Lua ser neta de Trovão Distante e não vai ter problema para ter filho. Neto de Trovão nascer forte e saudável.

            – Está bem. Deixo você ajudar, mas me promete que vai se cuidar para não se machucar, nem ao pequeno guerreiro.

            – Lua saber trabalhar. Lua ser guerreira forte e valente.

            – Vamos. Vovô cuida do fogo para depois fazer almoço.

            – Trovão prepara almoço. Pode deixar que disso eu cuidar.

            Foram para trabalhar. Faltava terminar o terreno onde iriam plantar feijão, milho e mandioca. As ramas estavam guardadas em lugar seguro para não serem queimadas pela geada do inverno. Com a perspectiva de mais um membro na família, era necessário plantar bastante comida. Com mandioca e milho, além de garantir alimento para eles, poderiam criar galinhas, um porquinho e aos poucos melhorar a condição geral do lugar em que viviam. Trabalharam com afinco, roçando e fazendo planos para o filho que iria nascer. João queria saber de comprar algumas roupas para proteger o corpinho frágil do bebê pois iria nascer nas proximidades do inverno seguinte. Teria necessidade de agasalhos e isso custava dinheiro. Trabalhou com mais vigor. As últimas novidades haviam lhe infundido novo vigor. Os últimos vestígios de fraqueza devidas à convalescença do tiro pareceram sumir milagrosamente.

            – Lua vai colher frutas ali na frente e trazer água para João. Precisar se alimentar e beber água.

            – Vai com cuidado, meu amor.

            Enquanto ela ia, a todo momento ele olhava na direção seguida por ela. Era todo cuidados com sua amada. Lembrava que cachorro mordido de cobra, passava a ter medo até de linguiça. Todo cuidado era pouco, sabendo do estado em que ela se encontrava. Sonhava com o dia em que poderia levar a nova esposa e filho para conhecer os pais, bem como a filha Isabel. Não tardou e viram, de onde se encontravam, a fumaça subindo firme a chaminé do fogão feita com pedras e barro. Trovão deveria estar preparando a refeição. Pela posição do sol, viram que era hora de voltar para a cabana e se alimentar. Um pouco de descanso lhes faria bem, para depois darem mais uma pegada no eito, na parte da tarde.

            Quando se aproximaram da cabana, sentiram de longe o odor forte do tempero usado pelo velho na preparação da refeição. Tinha preparado peixe assado, depois de reidratar a carne. Um caldeirão com feijão fumegava ao lado, enquanto um maço de verduras estava lavado e pronto para ser cortado. Descansaram um pouco e Lua ajudou a concluir a refeição. Quando tudo ficou pronto serviram-se e comeram com gosto. O tempero do velho índio era bom, embora fosse forte no sabor das ervas que usava, praticamente eliminava o uso do sal. Mesmo assim o sabor era ótimo. Junto com a fome, davam o retoque final no tempero.

            Ao almoço farto, seguiu-se uma hora de descanso, sendo bebericado junto um mate, tomado numa cuia com canudo de taquara. O caroço na extremidade e pequenos furos permitiam a passagem da água, sem levar junto a erva moída.

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Na senda dos monges! – Capítulo XI – O amor renasce.

pinheiros na floresta

Floresta de pinheiros

Floresta de pinheiros.

Floresta de pinheiros 2

 

  1. O amor renasce.

 

João Maria, depois de falar da esposa perdida e da filha distante, caiu um momento em nostalgia profunda. O olhar estava distante, os pensamentos vagavam no tempo em que levara Ceci para a frente do padre e do juiz de paz e casara com ela. Já haviam se passado aproximadamente 10 anos. Haviam vivido um idílio, mas durara pouco. Sua Ceci, doce, suave e ao mesmo tempo selvagem e bela, perdera a vida ao dar à luz a pequena Isabel. Nesse momento lembrou da filha e imaginou o que estaria fazendo a essa hora. Ajudando a avó, brincando, lembrando do pai que não voltara da guerra para onde fora sem ter necessidade. Teria derramado alguma lágrima ao saber do retorno da tropa? Estaria esperando pelo milagre de vê-lo entrando pela porteira da propriedade?

Despertou do devaneio e viu Luz Serena olhando inquisitiva para ele. Apressou-se em dizer:

– Estava lembrando da minha Ceci que morreu e da filha Isabel que está com 8 anos e alguma coisa.

– Assim? – apontou Lua mostrando uma mão e três dedos da outra.

– Sim, isso mesmo.

– Sentir saudades de filha?

– Eu tinha passado alguns dias sem lembrar nem de mim, quanto mais de outras pessoas. Agora voltou tudo com mais força. Bateu uma dor aqui no peito de lembrar da minha família.

A vida lentamente começou a voltar ao corpo descarnado de João Maria. O longo período de luta contra a infecção, consumira suas carnes, deixando-o pele e ossos. Por sorte não dispunha de um espelho para se observar. Não veria o estrago feito em seu corpo forte e musculoso. Bastava olhar as mãos esqueléticas, as pernas com a pele pendurada. Transformara-se em um verdadeiro saco de ossos. Vendo-o observar o próprio corpo com ar preocupado, Luz Serena falou:

– Lua vai pescar e caçar para trazer comida boa para amigo ficar forte logo.  Poder usar cavalo para ir mais depressa?

– Se vocês se entenderam tão bem, eu já disse, o cavalo é seu. Use sem receio.

– Agora precisar comer um pouco de carne com pinhão. Ser comida forte. Logo ficar pele cheia de novo. Veneno comeu carne de braços e pernas.

– O infeliz deve ter colocado alguma coisa bem ruim naquela bala que me acertou. Quanto tempo eu fiquei aqui deitado sem ver e ouvir direito?

– Assim de luas, – disse mostrando a mão direita com um dedo levantado.

Havia passado um mês inteiro estendido ali, entre a vida e a morte, enquanto os dois benfeitores se desvelavam em lhe prestar os todos os cuidados que sabiam prover. Felizmente, alguma coisa que o velho índio fizera, talvez combinado com seu físico forte e sempre resistente, haviam operado o milagre de sua recuperação. Os demais integrantes da tropa provavelmente estariam combatendo em alguma incursão nos campos do Rio Grande. Para ele a guerra estava terminada. Precisava, antes de pensar em qualquer coisa, recuperar as forças. Comeu com nova disposição a comida que a jovem Lua Serena lhe ofereceu. Era uma mistura de carne seca com pinhão socado no pilão, encostado a um canto. Nunca experimentara essa mistura, mas percebeu que era um alimento substancioso. Depois de comer um pouco, sentiu que fazia peso em seu estômago e não deveria exagerar. Estava a tempo demais se alimentando de modo frugal, quase nada.

– Ficar com vovô Trovão Distante. Lua ir pescar e caçar. Na volta trazer frutas e pinhão.

– Vou tratar de me recuperar e ajudar você a caçar, pescar. Deve ser bom. Posso ensinar atirar com espingarda. Mais fácil caçar.

– Fazer muito barulho e assustar outros animais. Eles ir embora e depois não ter mais caça.

Ela saiu e de um salto montou no lombo do tordilho que pastava ali perto. Sem nada, em pelo e sem rédeas, conduziu o animal pela trilha, sumindo na distância. A comida ingerida, além de pesar no estômago despertou uma soneira que logo o derrubou na esteira, voltando a dormir. O velho índio, fumando seu cachimbo serenamente, olhou confiante para o homem. Sua “medicina” fizera o milagre em nome de Tupã. Depois de umas boas baforadas, levantou e foi até a fonte com a cabaça, voltando de lá com água fresca. Tomou de uma outra cuia pequena para beber uma porção de água. Sorveu vagarosamente o líquido cristalino. Era remédio puro. Água brotada da fenda de uma rocha, protegida da erosão e outras formas de contaminação. Era sempre gelada. Entrava no corpo como um elixir renovador.

Imagens do vale do rio do peixe.

Imagens aéreas do vale do rio do peixe.

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Rio do peixe em época de cheia.

 

João acordou vendo o velho bebendo água e sentiu sede. A comida despertou nele sensação de falta de água. O corpo requeria a reposição do líquido, consumido em longos dias de agonia. Pediu água e o velho lhe alcançou uma cuia cheia. Bebeu sentindo como que uma regeneração do organismo. Aquele líquido puro, desceu e foi absorvido sem demora. Logo depois teve vontade de beber mais um pouco, ao que o velho consentiu. Depois de beber a segunda porção, o idoso falou:

– Agora chega. Não poder beber muito água de uma vez. Ficou muitos dias tomando só pouquinho de chá. Se tomar muito, pode fazer mal, doença pode voltar.

– Eu sei, Trovão Distante. Quando a gente fica muito tempo sem beber água, precisa beber de pouco cada vez, até repor o que está faltando.

– Vejo que você ser experiente. Viver bastante em contato com terra e natureza.

– Passei a vida em contato com a natureza. Passei muitas vezes aqui por perto tocando tropa de mulas para São Paulo.

– Você ser tropeiro?

– Agora não mais. A construção de estradas de ferro acabou com o comércio de mulas em São Paulo.

– Você falar “cavalo de aço que corre sobre trilho”?

– Esse mesmo. Aqui também vão construir uma assim. O projeto está pronto e até o contrato já foi feito. A revolução atrasou tudo, mas depois vai ser construída a estrada de ferro por aqui. Vão acabar com a maior parte dessa floresta que existe aqui.

– Até lá Trovão Distante vai estar com antepassados. Vida de Trovão está quase no fim.

– Não fale uma coisa dessas. Luz Serena ainda precisa do senhor por muito tempo.

– Luz Serena ser mulher forte e valente. Vai saber viver sozinha quando eu for para junto de antepassados. Acho que ela gostar de amigo. Como ser seu nome?

– Meu nome é João Maria. Foi meu avô que escolheu esse nome para mim. Havia um monge que andou por lá onde ele morava. Descobriu uma fonte de água que é remédio. Meu avô voltou da guerra doente e a água da fonte curou ele. Viveu mais quarenta anos depois daquilo.

– João Maria? Homem que tinha dedos de mão esquerda com defeito?

– Sim, meu avô sempre falou disso. O senhor conheceu o Monge?

– Ele passar por aqui. Dormiu aqui perto de fonte. Ensinou uso de ervas a Trovão. Era homem muito bom e sabia muita coisa.

– Quem diria que eu iria encontrar aqui alguém que conheceu o Santo Monge João Maria! Eu sou João Maria em homenagem a ele. Ninguém sabe onde ele foi parar. Não se sabe se morreu, se foi embora, se voltou para Itália, onde nasceu.

– Aqui passou dois dias e foi para onde sol vai dormir. Falou que queria encontrar montanhas altas que tem longe e viver em paz por lá. Estava cansado de muita gente perto.

– Então ele passou por aqui antes de chegar em Santa Maria. De lá acho que foi para Argentina e Paraguai. Depois nunca mais se ouviu falar dele. Várias vezes apareceu alguém dizendo que era João Maria voltando como prometeu. Mas logo ficava provado ser tudo mentira.

– Monge João Maria ser único. Conhecer muito homem branco, nenhum era igual ele. Eu acho que era enviado de Tupã.

– É o que todos dizem. Vocês chamam Tupã, nós chamamos Deus, mas é tudo a mesma coisa.

– Tupã ser criador de tudo. Fazer sol, luz, terra, plantas, animais e homens. Colocar homens brancos em outro mundo, mas eles veio aqui tomar terra de índio. Agora tem pouco índio, branco matou quase tudo.

– Isso é muito triste. Poderíamos viver todos juntos e nos respeitar. Mas os brancos realmente fizeram muita maldade contra seu povo.

– Agora não ter mais nada para fazer. Logo índios desaparecer. Sobrar bem pouco e não demora acaba tudo.

– Acho que vou dormir mais um pouco. Estou tão fraco.

– Descansar bastante. É só o que precisa fazer agora, além de comer bem.

Deitou e dormiu por um longo tempo. Enquanto isso o velho índio intercalava momentos de cochilo em seu banco diante da cabana, onde o sol derramava seus raios tépidos de outono. De vez em quando deitava um olhar para o convalescente para verificar se estava tudo bem com ele. Constatando que o mesmo dormia placidamente, sem inspirar mais cuidados depois da longa batalha, voltou ao seu cachimbo a intervalos regulares. Quando o sol ainda ia alto, o ruído do galope leve do tordilho anunciou a volta de Lua Serena. Chegava trazendo uma penca de peixes que conseguira fisgar, uma paca e uma cutia penduradas de cada lado do animal, além de um sortimento de frutas e um bornal cheio de pinhões. Teriam alimentos para mais de dois dias.

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Pinheiros em dia de sol.

 

João acordou e viu o cavalo trazendo a sua bela benfeitora. Ao ver o dono, o animal se aproximou e o cheirou inteiro, como para confirmar tratar-se do seu dono. Ele acariciou o animal carinhosamente, conversando com ele. Logo Lua chegou perto e perguntou:

– Ele contar que salvou minha vida hoje?

– Tordilho é um animal muito inteligente e manso. O que aconteceu?

– Cobra venenosa estava esperando no caminho. Ele sentiu cheiro e não chegou perto. Cobra veio para mais perto mas ele fez volta, encontrando desvio para passar longe dela.

– Bom garoto! Lua Serena agora é sua dona. Ela e o avô salvaram minha vida.

A jovem fez um carinho na crina do animal e ele apoiou o focinho em seu ombro, demonstrando quanto apreciava seus afagos.

– Estou vendo que você conquistou ele definitivamente. Nem precisa de rédeas ou sela para montar. Ele sabe onde ir e o que fazer.

– Ele ser muito inteligente. Animal de grande valor.

– Cavalo amigo de homem.

– O cavalo e o cão são amigos do homem. Não sei qual deles é mais amigo.

– Cão ser amigo, mas não ter utilidade de cavalo. – falou Trovão.

João Maria quis levantar e ajudar a limpar a caça e os peixes, mas Luz Serena não permitiu. Ele ainda não tinha forças para trabalhar. Poderia, se conseguisse, levantar e dar alguns passos ao redor da cabana. Conversar com o cavalo e leva-lo para pastar. Em poucos minutos ela se desincumbiu da tarefa de preparar a carne dos peixes e das caças para a refeição da noite, além de guardar o excedente para os dias seguintes. Sempre era importante ter uma reserva para suprir as necessidades básicas num dia de pouca sorte ou na ocorrência de algum imprevisto.

O tordilho pastou, depois foi até pouco abaixo da fonte onde a água formava um pequeno poço e bebeu avidamente. Estava com sede, depois de horas trabalhando, levando a jovem amazona de um lado para outro. Ele a aceitara como se soubesse que estava empenhada em providenciar alimentos, ervas e raízes para cuidar do seu dono. Agora estavam tão ligados como se tivessem crescido juntos. Depois de caminhar por um bom tempo nos arredores, João sentiu-se cansado e voltou para seu lugar de dormir. Deitou-se e cochilou um pouco. Quando acordou sentiu o cheiro de peixe sendo assado e Lua Serena estava socando pinhão para fazer farinha. Seria servida junto com o peixe assado na refeição da noite.

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Copadas de pinheiro.

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Pinheiros na floresta.

 

 

 

 

 

 

 

Ao tentar levantar-se e ir beber um pouco de água ela lhe alcançou rapidamente a cuia, dizendo:

– Precisa descansar. Lua alcança água para você. Vovô contou que você tem nome de homem bom que passou aqui faz muitos anos, bem antes de Lua nascer.

– Sim. Meu nome é João Maria, em homenagem ao Santo Monge João Maria.

– Vovô Trovão fala sempre que esse homem dormiu aqui dois dias, bebeu da fonte e falou que ser fonte abençoada.

– Então foi João Maria que me guiou para aqui. A água ajudou a me curar. Em toda parte onde ele passou deixou uma fonte abençoada, que serve para curar várias doenças.

– Família viver aqui perto de fonte muitos anos antes e depois. Sempre beber água dessa fonte.

– Quem iria ficar satisfeito era meu avô, mas ele faleceu há 10 anos. – Mostrou as duas mãos com os dedos estendidos.

Ela fez sinal de ter entendido. Raramente ela fixava os olhos nele, salvo quando ele estava olhando para outro lado. No princípio João pensou dever-se isso ao seu aspecto pouco agradável, magro e ressequido como estava. Nem sequer desconfiava dos sentimentos que agitavam o coração e a mente da jovem mestiça. Ele sentia seu instinto masculino levemente excitado diante da juventude exuberante dela. Todavia aprendera que era preciso respeitar a hospitalidade, especialmente de quem salvara sua vida e assim permaneceu impassível. Enquanto isso ela se movia graciosamente de um lado para outro, sempre empenhada em colocar tudo ao alcance dele e do avô. Era possível sentir, quase ao ponto de tocar, o imenso amor e dedicação que ela devotava ao ancião.

Sua dedicação a ele devia ser decorrente da alegria sentida ao descobrir que ele recuperara a saúde, depois das longas semanas de delírios e momentos de pouca esperança. Enquanto ela se desdobrava no serviço, João procurou saber mais sobre a vida da família de Trovão e Lua. Haviam vindo de um aldeamento nas proximidades do Rio Uruguai, há muitos anos, mas um desentendimento com o padre os levara a mudar com todo o grupo familiar para aquela região, onde encontraram caça, pesca e demais fontes de alimentação em abundância. O idoso fez com a mão sinal de que viviam ali há mais de 50 anos.

Há cerca de quinze anos, um grupo de homens armados, viera e atacara a aldeia, matando a maioria, levando os homens fortes amarrados, estuprando as mulheres e depois matando-as. Ele, já idoso, protegera a neta criança, ficando escondido em uma caverna existente ali perto. Quando saíram de lá, encontraram somente morte. Com muito esforço haviam providenciado o sepultamento dos entes queridos. Das cabanas destruídas, reuniram o que era possível aproveitar e passaram a viver ali. Luz Serena crescera e aprendera a caçar, pescar, colher ervas, raízes, frutas e pinhão. Era assim que viviam desde aquele dia. Nunca mais haviam tido contato com outros homens brancos, até o dia de sua chegada ali. Nem indígenas haviam encontrado.

Era um milagre terem sobrevivido pro tanto tempo ali, distantes de tudo e todos. Tendo somente um ao outro para tomarem conta. Logo o ancião iria para junto dos antepassados e Lua Serena ficaria sozinha no mundo. Um olhar significativo do ancião, despertou em João um sentimento de compaixão. Percebera no olhar uma espécie de pedido de ajuda. Como que dizendo, cuide de minha neta quando eu partir dessa vida, ou ela vai ficar sozinha para o resto da vida.

Foi nesse momento que João se deu conta da realidade. Os olhares furtivos de Lua Serena, poderiam estar significando algo mais do que apenas curiosidade ou pena. Ele poderia ser considerado sua tábua de salvação contra a solidão total e absoluta ali naquela distância.  Avaliou demoradamente a hipótese de desposar a jovem. Não seria assim tão fora do padrão, uma vez que fora casado com uma mestiça e fora imensamente feliz, embora por pouquíssimo tempo. Esperaria algum sinal mais concreto da parte dela ou do ancião, embora ele não fosse lhe pedir diretamente para desposar a neta. Podia perceber que sua presença estava trazendo nova esperança ao coração cansado do velho Trovão Distante.

Os dias passaram e João, a cada dia, sentia-se mais forte. Já conseguia caminhar distâncias maiores sem ficar extenuado. A alimentação natural e rica em proteínas proporcionada pela caça e pesca de Lua, operou verdadeiro prodígio. Menos de um mês depois estava sentindo as forças voltarem. A barba crescera e julgou ser chegada a hora de raspar os pelos e assim ver como estava o rosto. Se a pele estava ficando novamente esticada ou se ainda estava toda enrugada. Procurou entre os pertences no canto onde estava a cela e demais acessórios, e encontrou o seu pente, além da navalha para se barbear. A lâmina não era usada há longo tempo e precisava ser amolada adequadamente.

Lua, vendo-o fazer aquilo ficou curiosa. Ao olhar pra o espelho viu o próprio rosto e se assustou. Vira o rosto refletido na superfície da água e agora via-o em um objeto. O avô logo percebeu o que estava causando alvoroço na neta. Conhecia espelhos desde jovem, mas nunca lhe haviam feito falta. O rosto foi ensaboado com abundância, usando um pedacinho de sabão que encontrara junto dom os demais utensílios. Depois se barbeou cuidadosamente, para não cortar a pele em alguma dobra ainda existente. Em alguns minutos estava com o rosto limpo e constatou que sua aparência estava quase normal. Pequenas rugas haviam aparecido, mas provavelmente isso era consequência da idade.

Ao ver o rosto barbeado, Lua sentiu o coração disparar. Ele estava muito mais atraente e sentiu-se encabular. Os olhos atentos de Trovão perceberam o estado de espírito da neta. Decidiu dar uma ajuda para que os dois pudessem se entender. Sugeriu que ele a acompanhasse na coleta de frutas que faria naquela tarde. Tinham carne para dois dias e não havia como conservar por mais tempo. A caça abatida antes da hora, serviria para estragar e não eram predadores, caçavam apenas o necessário para se alimentar. Lua decidiu fazer a coleta nos locais mais próximos onde há dias não colhia frutos nem catava pinhões.

Caminharam lentamente até os enormes pinheiros onde as pinhas estavam suspensas nos altos galhos, estourando a qualquer momento, despejando uma verdadeira chuva de pinhões sobre o solo. Nos mesmos lugares era possível caçar pacas e cutias que vinham comer pinhões. Nesse dia espantaram várias delas. Enquanto catavam pinhões espalhados no chão, nos pinheiros ao lado, três ou quatro daquelas bolas estouraram e ouviu-se um pequeno temporal de caindo no chão. Havia ali pinhões em quantidade suficiente para sua alimentação por vários dias. Era época de colher sempre um pouco a mais e assim fazer uma reserva para os meses em que não haveria pinhas maduras.

As vestimentas exíguas de Lua, deixavam boa parte da pele de seu corpo jovem à vista. Ao se abaixar para coletar os pinhões não pode deixar de notar suas cochas e nádegas lisas, bem torneadas. Os seios ainda em crescimento eram firmes e bem formados, tendo os mamilos bem típicos da raça indígena. O bico não ficava muito destacado e ele precisou virar de lado para não ficar vendo o tempo todo aquele corpo atraente. Ela não tardou a perceber que ele evitava olhar para ela e decidiu tirar a prova. Parou diante dele e indagou:

– Você achar Luz Serena bonita?

Tomado de surpresa ele não soube o que dizer de imediato. Ficou atrapalhado e tentou desviar o olhar novamente. Foi então que ela disse:

– Você não quer olhar para mim. Ou achar eu feia ou ficar com vontade de deitar comigo.

– Você é muito bonita, Luz Serena. Eu tenho por você e seu avô o maior respeito e não quero causar desgosto nem a você, nem a ele.

– E gostar de Lua Serena ser desrespeitar vovô Trovão?

– Não é isso. Eu não quero fazer nada que possa dar desgosto a vocês.

– Você ter vontade de abraçar Lua Serena?

– No nosso povo, todo homem tem vontade de abraçar uma mulher bonita. Mas isso nem sempre é conveniente. Pode dar problemas.

– Eu não ter mãe, pai, nem irmão. Não existe por aqui homem para mim, só você. Eu quero você. Você quer Lua?

Sem saber o que dizer João se aproximou da jovem mulher, cujo corpo fremia de desejo, olhou fundo em seus olhos negros e perdeu o controle de seus sentimentos. Logo estava abraçando ternamente aquele corpo jovem, beijando-a avidamente e ela lhe correspondia. Mesmo nunca tendo visto um beijo, a natureza lhe ensinara o que deveria sentir e fazer. As roupas começaram a cair ao chão e logo estavam deitados sobre uma cama de folhas, de onde haviam sido retiradas as grimpas de pinheiro. A inexperiência da jovem mandava ter calma e prudência. Não queria lhe causar traumas na primeira experiência íntima. Acariciou com mãos ávidas todos os pontos de sua pele e por último chegou aos genitais. Não precisou de muito para sentir que ela estava toda úmida de excitação.

Calmamente livrou-se também das últimas peças de roupa e possuiu-a com paixão. Sentiu um pouco de dificuldade para penetrar o corpo virgem, mas um golpe mais firme rompeu a membrana e ela gemeu de leve. Logo depois os corpos se moviam em harmoniosos movimentos. Ela era um pequeno vulcão. Parecia ter herdado o instinto selvagem da raça indígena, mas também a voluptuosidade das mulheres latinas. O tempo passou e eles se amaram várias vezes até ficarem exaustos. O riacho ficava perto e foram até lá se lavar cuidadosamente. Voltaram abraçados para o lugar onde estavam suas roupas e se vestiram.

Trataram de coletar rapidamente os pinhões que estavam espalhados por todo lado. Depois passaram por uma moita de bananas e colheram um cacho bem maduro. O facão de João foi útil ao cortar de um golpe o tronco da bananeira, segurando o cacho pela extremidade. Assim evitou que ele se espatifasse no chão. Chegaram de volta à cabana, carregados de frutos e pinhões. Descarregaram tudo e comeram algumas bananas que estavam mais maduras. O velho Trovão parecia adivinhar o que acontecera. Olhava fixamente para eles sem dizer palavra. Aguardava que lhe contassem a verdade e João decidiu não perder tempo. Fora precipitado, mas, vivia sem mulher a muito tempo e não soubera resistir aos encantos da jovem neta do seu benfeitor.

Ela ao contrário, parecia mais faceira do que sempre. Parecia um passarinho saltitante e alegre ao se ver livre da gaiola. Sentou-se diante de vovô Trovão Distante e falou:

– Eu faltei com meu dever para com sua hospitalidade, meu amigo.

– O que aconteceu?

– Eu fiz de Luz Serena minha mulher. Peço que abençoe nossa união. Prometo cuidar dela até o último dia de minha vida.

– Que Tupã abençoe vocês dois e me providenciem um bisneto, antes que eu vá para junto dos meus antepassados. Luz Serena! Vem aqui do lado do teu marido.

Ela não se fez de rogada e logo estava ao seu lado. O ancião levantou-se e eles ficaram ajoelhados diante dele. Colocou as mãos sobre suas cabeças e falou algumas palavras em Guarani, do que João não entendeu nada, mas imaginou ser uma espécie de oração dirigida à divindade venerada pelo seu povo.

– Agora vamos comer uma fruta para comemorar união de vocês. Que tenham muitos filhos e netos, para fazer ressurgir uma parte do meu povo. Agora vocês vão dormir junto. Precisamos fazer cama maior para vocês.

– Os pelegos da minha sela e vão servir para forrar o lugar.

– Vamos fazer uma outra cabana para vocês. Essa é muito pequena.

– Mas isso tem tempo nos próximos dias. Eu já posso ajudar. Meu facão e um machado que tenho vão ser úteis.

– Aqui ter bastante palmitos e coqueiros. Vamos ter a cabana pronta em dois dias. Se vocês já deitaram juntos hoje, não vão precisar de cama juntos hoje. Podem esperar até amanhã.

João pensara que iria se ver em apuros diante do ancião e correra de forma tão fácil, como se isso fosse esperado por ele. Em questão de horas passara de um estranho em convalescença, para a condição de marido da jovem, consequentemente neto do ancião. A noite passou tendo os dois aconchegados sobre a esteira onde os pelegos haviam sido estendidos. Sentir o calor do corpo jovem deixava seus sentidos em permanente revolução. Se amaram mais de uma vez durante a madrugada e ela, embora tivesse tido seu primeiro contato íntimo há menos de 24 horas, se portava como uma mulher experiente. Amanheceram abraçados e enrolados em panos, mas totalmente nus.

Antes de Trovão acordar levantaram e foram para a fonte se lavar e vestir. Não queriam perturbar o sossego do idoso. Enganavam-se pois ele estivera ouvindo os ruídos e gemidos a noite toda. Sabia o que sucedia ali ao lado e dava graças por saber que a neta amada estava agora sob a guarda de um homem forte, valente e de coração nobre.

Décio Adams

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