Arquivo da categoria: Crônicas diversas

Um casal inocente.

Casal inocente.

Um casal inocente!

 

No mês de fevereiro de 1987 eu cheguei em Brasnorte, no estado do Mato Grosso. No ano anterior havia viajado até Diamantino, realizar a prova de concurso para professor. Aprovado, fui nomeado no dia 02/02/1987 e cheguei para tomar posse no cargo. Deixei para trás um padrão efetivo no Estado do Paraná, além de um padrão (20 h/a) no CEFET-PR. A escola local é o Colégio Estadual Evaldo Meyer Roderjan.

Ali encontrei uma comunidade de três irmãs da Divina Providência, constituída da Ir. Theonila, que atuou como enfermeira em hospitais de Santa Catarina. Ali trabalhava no posto de saúde, muitas vezes fazendo o que deveria ser feito por um médico, se ali houvesse um deles, dentro dos limites de seus conhecimentos; Ir. Ana, atuando como professora de ensino religioso na Escola Estadual e Ir. Leonila, encarregada da cozinha da pequena comunidade. Prestavam serviços na capela da comunidade, auxiliando nos cultos, nas visitas mensais de Frei Natalino Vian, capuchinho sediado em Tangará da Serra.

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Prefeito arrogante e vaidoso.

Prefeito arrogante e vaidoso.

 

 

Na década de 70 do século XX, houve num dos municípios do oeste do Estado do Paraná, um prefeito bastante bizarro. Oriundo do meio agrícola, estabelecera-se no comércio e com o sucesso nessa atividade, ingressou na vida política. A respeito de sua atuação política existem várias histórias, contadas e recontadas, vindo talvez a perder muito de sua originalidade, porém ganhando em diversidade. Isso torna-as um tanto lendárias.

Era o tempo dos carrões como o Ford Galaxie, o Landau, os Dodge Charger RT e outros. O nosso personagem, aproveitando o crescimento econômico do município, encaminhou a aquisição pela prefeitura de um Ford Landau para uso em seus deslocamentos. Determinou a contratação de um motorista para dirigir o carro e ele viajava, especialmente quando ia a capital do estado, sentado no banco do passageiro, apreciando a paisagem.

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O touro da prefeitura!

O touro da prefeitura.

 

Ocorreu nos primórdios da inseminação artificial, primeiro usada em animais de grande porte. Num programa de melhoramento genético implantado por órgãos públicos, a prefeitura de um município gaúcho da região noroeste, próximo à divisa com Argentina, criou seu programa de inseminação artificial. O objetivo era melhorar o plantel de vacas produtoras de leite, introduzindo material genético de linhagens com maior potencial produtivo.

Na secretaria de agricultura havia um departamento encarregado do serviço. Ali existia um equipamento de conservação do sêmen, importado de animais de alto padrão. Um funcionário treinado era encarregado de fazer o serviço. Por tratar-se de uma novidade, não tardou e alguns mais chegados ao lado humorístico da vida, passaram a se referir a este funcionário como Touro da Prefeitura. Sempre que um agricultor cadastrado se deparava com uma vaca no cio, avisava ao referido departamento que providenciava o deslocamento do mesmo até a propriedade do agricultor, levando consigo o material necessário. Por vezes era obrigado a passar o dia inteiro na estrada para atender a todas as solicitações.

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O homem cheiroso

Um homem cheiroso.

 

O homem cheiroso!

 

No decorrer da década de 50, vivia na linha Abrantes, município de Santa Rosa, uma jovem de rara beleza. Filha de mãe descendente de alemães e pai de origem austríaca, Marlene Spies tinha dois admiradores em especial.

O primeiro era Fredolino Bamberg, filho do comerciante local que estudara no colégio interno em Santo Ângelo e ostentava, com muito orgulho, o título de contador. Recebera educação esmerada, usava perfumes caros e se vestia muito bem. Já o segundo era Roberto Schuster, filho de um casal de pequenos agricultores. Frequentara apenas a escola primária e trabalhava na roça, ajudando os pais. Era de seu habitual usar roupas simples, perfume nem sabia o que era e apenas cuidava bastante de sua higiene.

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As religiões do mundo no tempo de Jesus de Nazaré

AS RELIGIÕES DO MUNDO

 

Ao atingir a vida adulta, Jesus se separou da família, pois estava em andamento sua conscientização da condição humana/divina que constituía a sua natureza. Na falta de trabalho em Nazaré, foi para a cidade vizinha onde trabalhou por alguns meses em atividades metalúrgicas; trabalhou por um longo período na oficina de fabricação de barcos, pertencente à Zebedeu, à margem do lago Tiberíades. Desenvolveu inclusive um novo modo de fabricação, que tornava as embarcações mais seguras e velozes. Harmonizou as dimensões, o calado, comprimento e condições gerais de equilíbrio, mesmo sob tempestades, no mar agitado.  Em algumas ocasiões viajou para cidades próximas, procurando conhecer os seres humanos, apreender seus hábitos, costumes. Para isso precisava entrar em contato com pessoas provenientes de todas as nações. Havia descoberto que não era apenas enviado para a Palestina, mas para toda a humanidade, inclusive para os habitantes inteligentes dos outros mundos do universo de sua criação. Quanto melhor conhecesse todos os povos, maior seria sua capacidade de ministrar o anúncio do Reino de Deus, seu Pai Celeste, residente no Paraíso, centro do Superuniverso.

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Exemplo que vem da Colômbia!

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Delegação da Chapecoense antes do embarque em Santa Cruz de La Sierra, Bolívia.

Embarcando para a morte!

Olhando esse grupo de pessoas, ao lado do avião que os levaria para o destino Medellin, Colômbia, nota-se um ar de alegria, confiança e crença na gloria que esperavam conquistar em poucos dias. Dariam o penúltimo passo no rumo da conquista do primeiro título da Associação Chapecoense de futebol. Eram, em sua maioria, jovens na faixa entre os 20/30 anos. Entre eles havia também os dirigentes, técnicos, jornalistas, formando ao todo mais de 70 pessoas.

Não sabiam que estavam prestes a iniciar as últimas quatro horas de suas vidas. Quando estavam prestes a chegar ao destino, após uma viagem de quatro horas e vinte minutos, encontraram a morte em um trágico acidente, cujo desfecho estava traçado desde o princípio pela insensatez do piloto e sua equipe em terra, ao optar por fazer o percurso sem realização e escala para abastecimento, contando com o fator sorte, para pousar no limite extremo de sua autonomia de combustível. A torre de controle do aeroporto próximo deu o alarme, além de um posto policial situado nas proximidades do ponto em que ocorreu a queda do aparelho, permitindo assim um acesso rápito das equipes de socorro, que pouco puderam fazer, uma vez que dos 77 ocupantes, incluindo os tripulantes, somente seis sobreviveram.

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Acidente!? Negligência!? ou Crime covarde!?

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Avião da Lamia antes de seu último voo.

Foi apenas um acidente?!

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Bandeira da Chapecoense

  • Na última terça-feira, dia 29 de novembro, eu acordei com a notícia do acidente aéreo que vitimou a delegação da Associação Chapecoense de Futebol. Ao dirigir-se para Medelin, na Colômbia, viajando em um avião fretado para o percurso partindo de Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, o avião que está estampado acima, caiu pouco antes de alcançar o aeroporto de Rio Negro, que era seu destino. Este tipo de acontecimento sempre me provoca um choque no primeiro momento. Passei a acompanhar o noticiário durante o resto do dia até a hora de dormir. Na quarta-feira, continuei vendo as novidades e, juntando um fragmento de informação daqui, outro dali, aos poucos fui formando uma ideia sobre o ocorrido.
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    Destroços do avião no local do acidente

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    Equipes de resgate no trabalho de salvamento e resgate das vítimas

  • Ao longo da vida, convivi por vários anos com alguns militares da FAB, quando trabalhava e estudava em Foz do Iguaçu. Eram sargentos especialistas, da área de controle de voo, metereologia e outras especialidades. Nesta convivência aprendi várias informações sobre normas de aviação, especialmente no tangente à segurança das aeronaves nos percursos feitos.
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    Helicóptero militar na missão de resgate

  • Além disso, tive ocasião de ler livros e matérias tratando do assunto. Dessa forma observei que havia algo grave envolvendo a tragédia ocorrida na Colômbia. Em algumas circunstâncias, há exigência de reserva de combustível para uma eventual viagem de retorno ao aeroporto de orígem. Jamais deve ser autorizada a decolagem de um aparelho em condições precárias de reserva de combustível, muito menos no limite extremo do tempo de voo com os tanques cheios. Eu fiquei literalmente surpreso quando ouvi dizer que no plano de voo constava que a duração da viagem seria igual à autonomia do aparelho. Eu esperava que as autoridades bolivianas, ao ver semelhante despautério, tomassem providências no sentido de impedir a decolagem da aeronave. No entanto o que vimos é que depois de algumas palavras a respeito, tudo ficou resolvido e a viagem começou.
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    Vice-presidente da Chape indignado com negligência

  • Posteriormente tomei conhecimento do fato de que o mesmo aparelho havia feito, nos últimos meses, voos em condições idênticas, isto é, realizara situações, felizmente bemsucedidas, em que a duração do voo chegara perigosamente próximo do limite extremo, ou seja, estivera a ponto de não completar a viagem. Isso é estarrecedor. Como pode alguém, seja o piloto, co-piloto ou dono do avião, brincar com a vida de dezenas de pessoas, com a própria vida, para não falar no capital investido no aparelho.
  • Sendo o aparelho considerado por pilotos experientes um dos mais seguros já fabricados, tendo como inconveniente o consumo elevado de combustível. Mesmo assim é frequentemente usado em regiões montanhosas, como é o caso do oeste do continente sul-americano, todo ele constituido pela Cordilheira dos Andes. Nestas regiões costumamos encontrar terminais aeroportuários com condições de operação limitadas. Pistas curtas, existências de montanhas nas proximidades das cabeceiras, tornando a operação das aeronaves de grande porte dificultadas. É inadmissível voar com pouco combustível, uma vez que sem ele o aparelho perde sua capacidade de manter-se no ar.
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    Últimas rotas do avião acidentado

  • Trata-se de uma companhia pequena, na verdade este era seu único aparelho em operação (os outros estão com falta de peças de reposição). Não fica difícil deduzir que enfrentava dificuldades financeiras, o que a levaria a tentar economizar o máximo possível onde quer que fosse possível. O fato de ter logrado êxito em algumas ocasiões, pode ter tornado o proprietário e mesmo a tripulação, ousados o bastante para discutir com a funcionária do aeroporto de partida, que indicou 5(cinco) inconformidades no plano de voo, afirmando que fariam o voo em menos tempo do que o esperado. Isso é, para dizer pouco, jogar com a sorte, e certamente fazer pouco caso da vida dos passageiros, sem contar os próprios tripulantes. Lamentavelmente, ou talvez graças a Deus, tanto o piloto quanto co-piloto morreram no acidente. Do contrário teriam um longo processo a enfrentar, que provavelmente resultaria em suspensão de suas licenças. Quanto ao proprietário, foi noticiado que a companhia operava na Venezuela, de onde se transferiu no ano passado ou retrasado para a Bolívia. Não estaremos sendo muito injustos ao considerá-lo um aventureiro que resolveu brincar de dono de aviões, pouco se importando com alguns aspectos de segurança e a vida das pessoas.
  • A companhia dizia-se especializada em transportar delegações esportivas, como aliás demonstram seus voos nos últimos meses. O próprio time da Chapecoense havia utilizado recentemente seus serviços em uma ou duas ocasiões. A seleção argentina de futebol, voou para Belo Horizonte utilizando seus serviços, há questão de semanas, sendo que em várias ocasiões a viagem terminou com o combustível muito próximo do limite de autonomia. Não acredito que os passageiros soubessem de tal risco, pois isso certamente os levaria a negar-se ao embarque. Com certeza os dirigentes dos times desconheciam essa prática, uma vez que eles mesmos frequentemente viajam nos mesmos aviões que a delegação. Haja visto que o presidente da Chape está entre as vítimas da fatalidade.
  • Não estou promovendo um julgamento das pessoas, mas proponho uma reflexão profunda sobre as razões que levam alguém a praticar semelhante temeridade. Quer me parecer que estamos diante de mais uma manifestação da ganância, da audácia diante dos limites de segurança que as condições tecnológicas impõe. Para lucrar um pouco mais, é válido por em risco o que for preciso, sem lembrar que esse pode ser o último risco que se está correndo, além de colocar as vidas de um grande número de pessoas sob as mesmas condições. Eu gostaria de ver o dono da companhia ser acareado com os familiares e amigos das vítimas. Que ali fizesse sua justificativa, ou explicação para a irresponsabilidade que cometeu. Se é que não se trata de algo bem mais grave, isto é, um crime vil e hediondo.
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    Índio Condá, mascote da Chapecoense

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    Indio Condá, mascote da Chapecoense 1

    Assistimos todos a uma cerimônia fúnebre de dimensões gigantescas, que deixou uma cidade inteira,  emocionalmente arrasada. Dezenas de famílias tiveram entes queridos arrebatados violentamente, sem sequer terem o tempo de dizer uma última palavra de adeus. E tudo isso para quê? Provavelmente para economizar alguns milhares de dólares em combustível e despesas aeroportuárias que seriam necessários para realizar uma escala técnica de reabastecimento no aeroporto de Bogotá.

     

 

 

Curitiba, 05 de dezembro de 2016

Décio Adams

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Os tons do monocromático panteão político brasileiro.

OS TONS DO MONOCROMÁTICO PANTEÃO POLÍTICO BRASILEIRO:

Raul Longo

Obs: Peço permissão ao jornalista Raul Longo de reproduzir no meu blog seu texto, que me foi repassado pela amiga comum Urda Alice Klueger. 

 

Oxumaré é um orixá metá-metá que na língua ioruba do reino de Oyó refere-se às entidades e pessoas de um determinado gênero que manifestam características sexuais do gênero oposto.

Oxumaré é o arco-íris. A grande Dã. A cobra com um rabo na cachoeira e a cabeça no oké, o castelo do rei Xangô.

Oxumaré é criado de Xangô e como toda pessoa servil é dúbia, pois nunca se sabe se o servil é mesmo prestativo ou é servil por interesses escusos.

Mas Oxumaré não é hipócrita. Quando no desespero da fome do seu povo Oxóssi caçou Oxumaré, a grande Dã avisou: “- Eu não sou bicho de pena pra Odé matar”.

Apesar da fome, o povo de Ketu não quis comer a carne de Oxumaré com medo do retorno da quizila e, amargurado, Oxóssi, ainda Odé, teve de comer a grande Dã sozinho.

A lei é de que o caçador não pode caçar só para si. Tem de caçar para toda gente e só comer de sua parte partida pelo axogum, o mão de faca. É a lei.

Oxumaré é cobra de vidro e – depois de comer por onde é de comer – cortado por dentro Odé teve de deixar Oxumaré sair por onde é de se devolver à terra o que se come. Assim morreu Odé. E ficou para sempre Oxóssi, o caçador que saciava a fome do povo ketu.

Mas Oxumaré não é hipócrita. Tem em si todas as cores do arco-íris, e não é dúbio por ser metá-metá. É dúbio porque tudo é dúbio. Tudo é mais de um, porque se único nada se suporta.

Xangô, que é macho definido, também é dúbio porque até a justiça é dúbia e num dia que Xangô se arretou com as quizilas do povo aos preceitos, acabou com o reino de Oyó como Jeová acabou com Gomorra. E Sodoma.

Depois Xangô se arrependeu do desatino, chorando pelas tantas criancinhas inocentes que nada tinham a ver com preceito algum e só tinham mais é de comer, brincar, estudar e ter teto para dormir.

Então Xangô, que é justo de verdade, julgou a si mesmo pelo crime cometido contra o povo. E condenou a si mesmo. E foi o carrasco de si mesmo enforcando-se no ayan, a grande árvore da história.

Ah se aqui no Brasil os juízes fossem justos como Xangô!

Poucas árvores e muitas togas, os males do Brasil são.

Muita toga para pouca soga. Pouca história pra tanto golpe.

Muitos chapéus para poucas cabeças! Para tantas gargantas e pescoços carece replantar uma Mata Atlântica do pau-brasil que o português levou. Como é levado o petróleo de Oyó, onde hoje é Nigéria, Benin, Dahomey. Região rica no petróleo e prolífera em miséria mantida pela Grande Grana Mundial. A eterna guerra da Grande Grana Mundial que levará o Pré Sal também.

Mas é lembrando o negro do petróleo, o belo negro reluzente da pele de ébano e voz de encanto, que busco cores sob as leituras de dúbios relatórios do monocórdico senador Anastasia.

Em qual das escalas do colorido Oxumaré se encaixará Anastasia?

Presto atenção no inexpressivo do olhar patético, catatônico. Busco na rigidez do pescoço fixo. No gesto que não há. No corpo sem ginga e movimento.

Lembra-me Temer. Um monobloco quase pra lá ou quase pra cá. Michel ou Temer?

Mas Temer ao menos aponta aleatórios dedinhos para depois desprezar, com as costas das mãos para um lado e outro, tudo o que vier à frente. E Eduardo Cunha às costas.

É um Marawô selecionando as almas.

Almas selecionadas. Poucas almas para tantas denúncias.

Marawô é da cor do luto com o vermelho-sangue nos olhos. Qual a cor dos olhos do Anastasia?

Ou não tem? Onde tem Anastasia?

Achei ter encontrado Anastasia no sorriso estático, milimétricamente único de orelha à orelha ao longo de todo o discurso do José Eduardo Cardozo decompondo, peça a peça, o relatório do crime que não houve, da pedalada que não aconteceu.

Peça a peça como preciso relojeiro. Descompondo como criança enojada com brinquedo enfadonho e sem conteúdo.

Sorriso vítreo o do Anastasia. Como o do lagarto de João Ubaldo quando bom baiano, antes da doença que o matou triste e refém dos reis do écran, os donos da mídia que tinge o inexistente e esconde o arco-íris da vida brasileira para borrar monocrômicas mentiras.

Procuro no écran por onde se esconde a cor do sorriso de Anastasia?

Sorriso de máscara. Mas é sorriso e sorriso tem cor. Uma que seja.

Enxerguei amarelo, mas difícil definir a cor do servo sem arco-íris. Prestativo ou hipócrita?

Amarelo é de Nanã. Amarelo-terra. Ancestral.

Não! Nanamburuke é mãe. Não é metá-metá. Nada contra os metá-metá do belo arco-íris de Oxumaré, mas mãe é mãe e por mais servil, o amarelo do indefinível sorriso de Anastasia é esmaecido, biliar. Quase verde.

O verde das matas de Oxóssi? Das matas de minha bandeira de tantos lápis de cor?

O verde amarelo e anil das cores do meu Brasil. E também o branco da paz de Oxalá. Mas jovem e guerreiro Oxaguian, o Oxalá do futuro. Do que virá. Do desejo que nascerá. Indomável. Inevitável.

À que vinha o verde-amarelo do sorriso anfíbio do Anastasia?

Verde de inveja por Cardozo sacar de memória tantos artigos, cláusulas, parágrafos e incisos? Do discorrer fluído de elegantes vernáculos? Do rubro pulsar de sentimentos em cada afirmação, em cada alegação, em toda conclusão?

Rubra é a cor de Ogum, guerreiro de peito aberto. Vermelho é a cor da coragem e paixão de Ogum na forja do ferro da ferramenta que constrói.

Paixão não se esconde. A paixão se revela na certeza por inteira e na transparência.

Anastasia não aparenta. Em Minas diz que não construiu nada. Um aeroporto em Cláudio, tão só. Talvez nem ele, talvez algo mais.

Coragem não se limita em altear de voz afetada, monocórdia em estrídulas leituras de laudas de relatórios do que não se prova nem comprova.

Paixão e coragem também não bailam de dedinhos suspensos e ademanes de entojo.

Coragem e paixão dançam como Oxumaré, assumindo-se. Dançam como Pierre Verger, o mais Fatumbi afro-baiano de Paris. Dançam como Clayde Morgan, o mais Alafiju afro-baiano de Cincinnati.

Assumindo-se. E não apenas no vermelho da indignação, também no amarelo da atenção, reflexão. No laranja da alegria e no otimismo do roxo. Na estabilidade do marrom e no azul da calma de Iemanjá.

Iemanjá é mãe, não há esperança em ser mãe para metá-metá. Assim mesmo, no arco-íris de Oxumaré tem azul posto que Oxumaré não é hipócrita.

No sorriso de Anastasia, não.

Sorrisos não são azuis nem vermelhos e para quem tem, o vermelho da vergonha aparece na cara. Mas a vergonha não sorri se não for para pedir desculpas. Não há desculpa no sorriso de Anastasia.

Seria o verde da esperança? Esperança também não sorri, espera. Deseja e espera resguardando risos e sorrisos para aflorar no momento da concretização, da chegança do esperado.

Nem amarelo nem verde, o estático sorriso de Anastasia era o da certeza. Inveja poderia sentir qualquer advogado que concorresse com Cardozo pela compreensão e análise de um juiz. Até Rui Barbosa invejaria num sorriso de satisfação, admiração.

Será admiração? Máscaras podem provocar admiração, mas não se admiram de nada. A do Anastasia provoca admiração pelo sorriso mais estático e fixo do que o que o de qualquer outra máscara.

Dependendo do ângulo que se olhe há diferentes sentidos no sorriso da máscara do V de Vingança. No do Anastasia não havia nem vingança.

Na verdade, pelo conteúdo do acontecimento, pelo sentido do que se passava ali, por se desvalidar mais de 100 milhões de votos de uma eleição, independente de a quais candidatos foram dedicados; nenhum sorriso caberia ali que não fosse o de mofa, desprezo na certeza do veredito já dado.

O sorriso do jogador que da manga tirou a carta indicada nas marcas do baralho e, por mais brilhante o desempenho do adversário, despreza todo o esforço e toda verdade pela certeza de um resultado já definido, sejam lá quais forem as togas.

Eram favas contadas, fardas alcovitadas.

O tempo dos legalistas se foi há muito tempo e de Ás à Rei, Copa ou Paus, todas as Espadas estão pelo Ouro e pelo ouro são todas as togas e fardas. Não há juras nem compromissos. Tampouco escusas.

Por quantos valetes e rainhas, por qualquer 7 ou coringa.

21 ou bacará. Não há truco do que já foi truncado, tramado e trancado entre os interesses de todos os poderes de uma só elite.

Pouca elite e muitos poderes, o mal do Brasil sempre é.

Não importa duplas, trincas, quadra. Seja qual for a sequência, o full ou flush. Que seja canastra ou royal straight, é jogo já batido, fechado, encerrado antes de começar.

E anuncia o crupiê: “Vence o blefe!”

Há que se conformar. No cassino chamado Brasil há que se conformar com a vontade de Ifá porque quando não joga com metralhas e fuzis sobre a mesa, articula farsas sob a mesa.

Mas qual a cor da farsa? “Dizei-o tu, justiça de fancaria!” – clamaria Castro Alves em sua poética indignação, complementando: “Arranca dos olhos a venda, para à democracia servir de mortalha!”.

Antes de o leviatã cuspir a ignomínia na cara da malfada democracia, pude enxergar a cor do futuro sem quartel nem tribunal para assegurar estado de direito ou algum direito ao cidadão. Pátria, nem pensar!

Boys and girls, ladies and gentlemen: o Brasil é vosso!.

Pude vislumbrar a cor que terá meu país quando o Senador Roberto Requião subiu à tribuna e fez o mais conciso e certeiro discurso de todo o processo: “Canalha! Canalha! Canalha!

Em seguida explicou reproduzir as palavras de Tancredo Neves em 1964, dirigidas ao Auro de Moura Andrade quando declarou vaga a presidência no golpe que depôs João Goulart.

Explicação rápida e imediata referência ao relatório do Anastasia, para o foco das câmaras. Atentei na certeza de que então lhe identificaria alguma cor. Mas ainda assim, indefinida. Por sorte, ao seu lado, do semblante do neto de Tancredo refletiu-se alguma cor em Anastasia.

Definitivamente nada tem de Oxumaré, por mais metá-metá na afetação da voz estrídula. No arco-íris não há o cinza.

Tenho resistência aos best-sellers, mas lamentei não haver lido a história da homônima Anastasia do “50 Tons de Cinza” para poder reconhecer qual a graduação do tom daquele cinza do futuro do meu país. Apenas sei que a moça se apaixona por um poderoso magnata, mas pouco me importa os magnatas e poderosos do Anastasia.

Se até plenária do Senado virou sessão espírita para Requião incorporar Tancredo descompondo neto e comparsa, é porque os eguns estão na gira!

Preciso tomar assento pro amacy e tenho de saber o exato tom do cinza do futuro. Tenho de saber para o meu Ori, para o preparo correto do ebó de Onilé.

Preocupo-me em definir o tom do cinza do futuro do meu país, mas  só no final descubro que o pesado tom de cinza é ainda mais escuro do que o do Aécio.

Muito escuro! No Senado não há papelote de “brilho” que nos ilumine (ilustrado no link para quem desconhece o jargãohttps://www.facebook.com/ZEDEABREU3.0/videos/770893326386917/ ).

Esse cinza não é do arco-íris. Não é de Oxumaré nem é do meu país.

Há quem imagine ser de Exu, mas no candomblé não tem bem nem mal, ninguém é anjo nem demônio. Tudo tem acerto, tem erro e tem conserto. Tudo é como todos somos!

Todo fim é começo porque o começo não tem fim. Prenderam-me vivo e escapei morto mais de uma vez, como Paulo César Pinheiro, como Dilma Rousseff. E escapo porque “minha ideologia é o nascer de cada dia e minha religião é a luz da escuridão”, como a do moleque Gilberto Gil.

Gil Orungan, moleque matreiro, menino que arrelia. Saci zambeta, quando se pensa que está aqui, já tá lá. É o meu guri e do Chico Buarque. Meu garoto de recado, a voz do morro.

Exu é o único mensageiro confiável num país em que grampo de telefone incrimina, mas criminoso é privilegiado e inocente condenado.

Quem diz que Exu é demônio, não sabe de nada ou quer fingir choro pelo futuro dos netos de todos os eleitores do Brasil que perderam tempo indo votar pelo que é definido à socapa, em contas de satânicos tribunais, federações patronais, farsas editorias e Voduns Legbas que legislam pelouros para o povo, salvaguardando exceções aos que expoliam por aeroportos e suíças, por metrôs e jatos sem lavagem alguma. E “brilho” no Senado para decidir o futuro do país!

É muito “brilho” pra pouco Senado, mas por mais “branca” que ali brilhe a cor do nosso futuro só se me fez evidente na cara do diabo, onde reconheci quanto é escuro o cinza do futuro do Brasil.

Na face do demônio tentando parecer chorar, se não escorreu pretendidas e sórdidas lágrimas, derramou-se a baba da maldição e nela vi a o tom do panteão do inferno político que Eduardo Cunha prometeu à nação.

Ali, na face do Mefistófeles, vi a cor da escura canalha, a escumalha que Tancredo vaticinou pela boca de Requião.

Na face inumana da mais satânica sordidez, enxerguei e temi pelo futuro do meu país e de cada brasileiro. Talvez, o mais escuro da história. Talvez ainda mais do que aquele que Tancredo Neves previu em 1964 e Requião o incorporou para que mais uma vez desse o tom da cor dos próximos anos do Brasil.

Mas em Auro Moura Andrade, Tancredo só anteviu a cara do neto e dos comparsas do neto. Não viu a cara do demônio.

Eu vi. E quem sabe enxergar, um dia contará a seus netos que esteve cara a cara com Satã pelo écran da TV. E custou R$ 45.000,00 para ver o diabo em pessoa.

Adupé Olorum! Muito obrigado pelo verde, amarelo, cor de anil. Mas livrai-nos desse Valac! Livrai-nos da farsa das asas de anjo e das lágrimas do dragão de duas cabeças de Valac.

Esse demônio não é nosso! Não nos pertence.

A gloria humana é fugaz!

Em busca da glória fugaz!

Estamos vivendo em nossa pátria, há uma semana, os Jogos Olímpicos! Evento que começou lá longe, na década passada, com empenho do então presidente da república Senhor Luiz Inácio Lula da Silva, confirmado em anos posteriores e culminando com a realizaão dos jogos, durante um período de pouco mais de duas semanas. Estamos praticamente pela metade. Milhares de atletas, de todos os cantos do mundo, em grupos grandes de centenas de pessoas, outros pequenos com poucos integrantes, todos na busca do brilho passageiro da medalha de ouro, ou então prata ou bronze, que servem de consolação. 

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Comemorando a sobrevivência – parte 2.

Novamente o mês de agosto.

Hoje, dia 11 de agosto de 2016, é outra data que preciso comemorar. Completo exatamente 18 anos de “sobrevida” à uma cirurgia de implantação de prótese total de artéria aorta. Dei entrada no centro cirúrgido do Hospital Sâo Lucas, velho conhecido da época de nascimento dos filhos, entre 7 e 8 horas da manhã. A cirurgia, prevista para durar em torno de 5 horas a no máximo 6, acabou demorando 9h30 min, seguida de duas horas e meia de recuperação, antes de ir para UTI. A prótese que fora prevista para ser somente o Y, onde a artéria se bifurca transformando-se nas duas femurais, foi preciso ser substituida por uma que vai do arco aórtico até o início das femurais, abaixo da virilha. Entre substituição e demora extra do procedimento, transcorreu um dia inteiro (12 horas), até que finalmente eu emergisse da sala de cirurgia.

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