Arquivo da categoria: Crônicas diversas

Eu parei e você está começando?

Casal do interior

 

Na região noroeste do estado do Rio Grande do Sul, mais precisamente nos municípios vizinhos à Santa Rosa, era habitual os colonos, viajarem de ônibus para a cidade maior, resolver problemas de banco e fazer algumas compras mais importantes. Geralmente o ônibus partia de uma cidadezinha interiorana e percorria um itinerário onde coletava os passageiros que faziam uso de seus serviços. Isso ocorria pela manhã, chegando por volta das nove ou dez horas. Os passageiros tinham algumas horas para resolver suas questões e em torno das quatro ou cinco horas voltavam para embarcar na viagem de regresso. O veículo refazia o mesmo caminho, deixando cada um no seu destino, onde havia embarcado.

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Nomes e sobrenomes engraçados.

Nomes engraçados, com significados próprios.

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Oliveira, carregada de frutos

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Peras no pé, mostrando suas folhas

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Oliveira centenária

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Macieira vergada sob o peso dos frutos

Havia certa vez uma comunidade constituida quase exclusivamente de imigrantes alemães e seus descendentes, no estado do Rio Grande do Sul. Podemos observar que os nomes e principalmente os sobrenomes, têm em grande parte, significados de coisas, bichos, profissões e outras referências. Poderíamos citar na nossa língua nacional: Oliveira, Pereira, Macieira, Ferreira e muitos outros. Já na antiguidade, na Bíblia por exemplo, quando uma criança nascia e se escolhia o nome pelo qual ela seria conhecida, sempre se buscava algum significado, como Moisés, que significava Salvo das águas. Ficaria extensa a lista, interminável mesmo e não é esse o objetivo dessa pequena crônica ou estória.

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Vizinhos sovinas!

Vizinhos sovinas!

 

Nos idos dos anos 60 do século passado, havia numa localidade do Rio Grande do Sul, dois vizinhos muito sovinas. Eram o Gustav Möhler e Francesco Simeoni. Conviviam há muitos anos e com o avançar da idade, a sovinice aumentava proporcionalmente. E faziam questão de contar um ao outro, falando português atrapalhado, suas ações que visavam economizar ao máximo em tudo. Cada vantagem contada por Gustav, era sem demora rebatida com outra narrada por Francesco. Economizavam em tudo e sempre visando sobrepujar um ao outro em detalhes inimagináveis para as pessoas comuns. Cada encontro entre eles era um longo debate sobre quem havia sido mais econômico em suas ações dos últimos dias. Até os familiares acabaram se afastando um pouco dos dois, especialmente nos momentos em que começavam a contar as vantagens e debatiam entre si quem havia sido mais pão duro.

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Um casal inocente.

Casal inocente.

Um casal inocente!

 

No mês de fevereiro de 1987 eu cheguei em Brasnorte, no estado do Mato Grosso. No ano anterior havia viajado até Diamantino, realizar a prova de concurso para professor. Aprovado, fui nomeado no dia 02/02/1987 e cheguei para tomar posse no cargo. Deixei para trás um padrão efetivo no Estado do Paraná, além de um padrão (20 h/a) no CEFET-PR. A escola local é o Colégio Estadual Evaldo Meyer Roderjan.

Ali encontrei uma comunidade de três irmãs da Divina Providência, constituída da Ir. Theonila, que atuou como enfermeira em hospitais de Santa Catarina. Ali trabalhava no posto de saúde, muitas vezes fazendo o que deveria ser feito por um médico, se ali houvesse um deles, dentro dos limites de seus conhecimentos; Ir. Ana, atuando como professora de ensino religioso na Escola Estadual e Ir. Leonila, encarregada da cozinha da pequena comunidade. Prestavam serviços na capela da comunidade, auxiliando nos cultos, nas visitas mensais de Frei Natalino Vian, capuchinho sediado em Tangará da Serra.

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Prefeito arrogante e vaidoso.

Prefeito arrogante e vaidoso.

 

 

Na década de 70 do século XX, houve num dos municípios do oeste do Estado do Paraná, um prefeito bastante bizarro. Oriundo do meio agrícola, estabelecera-se no comércio e com o sucesso nessa atividade, ingressou na vida política. A respeito de sua atuação política existem várias histórias, contadas e recontadas, vindo talvez a perder muito de sua originalidade, porém ganhando em diversidade. Isso torna-as um tanto lendárias.

Era o tempo dos carrões como o Ford Galaxie, o Landau, os Dodge Charger RT e outros. O nosso personagem, aproveitando o crescimento econômico do município, encaminhou a aquisição pela prefeitura de um Ford Landau para uso em seus deslocamentos. Determinou a contratação de um motorista para dirigir o carro e ele viajava, especialmente quando ia a capital do estado, sentado no banco do passageiro, apreciando a paisagem.

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O touro da prefeitura!

O touro da prefeitura.

 

Ocorreu nos primórdios da inseminação artificial, primeiro usada em animais de grande porte. Num programa de melhoramento genético implantado por órgãos públicos, a prefeitura de um município gaúcho da região noroeste, próximo à divisa com Argentina, criou seu programa de inseminação artificial. O objetivo era melhorar o plantel de vacas produtoras de leite, introduzindo material genético de linhagens com maior potencial produtivo.

Na secretaria de agricultura havia um departamento encarregado do serviço. Ali existia um equipamento de conservação do sêmen, importado de animais de alto padrão. Um funcionário treinado era encarregado de fazer o serviço. Por tratar-se de uma novidade, não tardou e alguns mais chegados ao lado humorístico da vida, passaram a se referir a este funcionário como Touro da Prefeitura. Sempre que um agricultor cadastrado se deparava com uma vaca no cio, avisava ao referido departamento que providenciava o deslocamento do mesmo até a propriedade do agricultor, levando consigo o material necessário. Por vezes era obrigado a passar o dia inteiro na estrada para atender a todas as solicitações.

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O homem cheiroso

Um homem cheiroso.

 

O homem cheiroso!

 

No decorrer da década de 50, vivia na linha Abrantes, município de Santa Rosa, uma jovem de rara beleza. Filha de mãe descendente de alemães e pai de origem austríaca, Marlene Spies tinha dois admiradores em especial.

O primeiro era Fredolino Bamberg, filho do comerciante local que estudara no colégio interno em Santo Ângelo e ostentava, com muito orgulho, o título de contador. Recebera educação esmerada, usava perfumes caros e se vestia muito bem. Já o segundo era Roberto Schuster, filho de um casal de pequenos agricultores. Frequentara apenas a escola primária e trabalhava na roça, ajudando os pais. Era de seu habitual usar roupas simples, perfume nem sabia o que era e apenas cuidava bastante de sua higiene.

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As religiões do mundo no tempo de Jesus de Nazaré

AS RELIGIÕES DO MUNDO

 

Ao atingir a vida adulta, Jesus se separou da família, pois estava em andamento sua conscientização da condição humana/divina que constituía a sua natureza. Na falta de trabalho em Nazaré, foi para a cidade vizinha onde trabalhou por alguns meses em atividades metalúrgicas; trabalhou por um longo período na oficina de fabricação de barcos, pertencente à Zebedeu, à margem do lago Tiberíades. Desenvolveu inclusive um novo modo de fabricação, que tornava as embarcações mais seguras e velozes. Harmonizou as dimensões, o calado, comprimento e condições gerais de equilíbrio, mesmo sob tempestades, no mar agitado.  Em algumas ocasiões viajou para cidades próximas, procurando conhecer os seres humanos, apreender seus hábitos, costumes. Para isso precisava entrar em contato com pessoas provenientes de todas as nações. Havia descoberto que não era apenas enviado para a Palestina, mas para toda a humanidade, inclusive para os habitantes inteligentes dos outros mundos do universo de sua criação. Quanto melhor conhecesse todos os povos, maior seria sua capacidade de ministrar o anúncio do Reino de Deus, seu Pai Celeste, residente no Paraíso, centro do Superuniverso.

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Exemplo que vem da Colômbia!

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Delegação da Chapecoense antes do embarque em Santa Cruz de La Sierra, Bolívia.

Embarcando para a morte!

Olhando esse grupo de pessoas, ao lado do avião que os levaria para o destino Medellin, Colômbia, nota-se um ar de alegria, confiança e crença na gloria que esperavam conquistar em poucos dias. Dariam o penúltimo passo no rumo da conquista do primeiro título da Associação Chapecoense de futebol. Eram, em sua maioria, jovens na faixa entre os 20/30 anos. Entre eles havia também os dirigentes, técnicos, jornalistas, formando ao todo mais de 70 pessoas.

Não sabiam que estavam prestes a iniciar as últimas quatro horas de suas vidas. Quando estavam prestes a chegar ao destino, após uma viagem de quatro horas e vinte minutos, encontraram a morte em um trágico acidente, cujo desfecho estava traçado desde o princípio pela insensatez do piloto e sua equipe em terra, ao optar por fazer o percurso sem realização e escala para abastecimento, contando com o fator sorte, para pousar no limite extremo de sua autonomia de combustível. A torre de controle do aeroporto próximo deu o alarme, além de um posto policial situado nas proximidades do ponto em que ocorreu a queda do aparelho, permitindo assim um acesso rápito das equipes de socorro, que pouco puderam fazer, uma vez que dos 77 ocupantes, incluindo os tripulantes, somente seis sobreviveram.

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Acidente!? Negligência!? ou Crime covarde!?

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Avião da Lamia antes de seu último voo.

Foi apenas um acidente?!

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Bandeira da Chapecoense

  • Na última terça-feira, dia 29 de novembro, eu acordei com a notícia do acidente aéreo que vitimou a delegação da Associação Chapecoense de Futebol. Ao dirigir-se para Medelin, na Colômbia, viajando em um avião fretado para o percurso partindo de Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, o avião que está estampado acima, caiu pouco antes de alcançar o aeroporto de Rio Negro, que era seu destino. Este tipo de acontecimento sempre me provoca um choque no primeiro momento. Passei a acompanhar o noticiário durante o resto do dia até a hora de dormir. Na quarta-feira, continuei vendo as novidades e, juntando um fragmento de informação daqui, outro dali, aos poucos fui formando uma ideia sobre o ocorrido.
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    Destroços do avião no local do acidente

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    Equipes de resgate no trabalho de salvamento e resgate das vítimas

  • Ao longo da vida, convivi por vários anos com alguns militares da FAB, quando trabalhava e estudava em Foz do Iguaçu. Eram sargentos especialistas, da área de controle de voo, metereologia e outras especialidades. Nesta convivência aprendi várias informações sobre normas de aviação, especialmente no tangente à segurança das aeronaves nos percursos feitos.
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    Helicóptero militar na missão de resgate

  • Além disso, tive ocasião de ler livros e matérias tratando do assunto. Dessa forma observei que havia algo grave envolvendo a tragédia ocorrida na Colômbia. Em algumas circunstâncias, há exigência de reserva de combustível para uma eventual viagem de retorno ao aeroporto de orígem. Jamais deve ser autorizada a decolagem de um aparelho em condições precárias de reserva de combustível, muito menos no limite extremo do tempo de voo com os tanques cheios. Eu fiquei literalmente surpreso quando ouvi dizer que no plano de voo constava que a duração da viagem seria igual à autonomia do aparelho. Eu esperava que as autoridades bolivianas, ao ver semelhante despautério, tomassem providências no sentido de impedir a decolagem da aeronave. No entanto o que vimos é que depois de algumas palavras a respeito, tudo ficou resolvido e a viagem começou.
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    Vice-presidente da Chape indignado com negligência

  • Posteriormente tomei conhecimento do fato de que o mesmo aparelho havia feito, nos últimos meses, voos em condições idênticas, isto é, realizara situações, felizmente bemsucedidas, em que a duração do voo chegara perigosamente próximo do limite extremo, ou seja, estivera a ponto de não completar a viagem. Isso é estarrecedor. Como pode alguém, seja o piloto, co-piloto ou dono do avião, brincar com a vida de dezenas de pessoas, com a própria vida, para não falar no capital investido no aparelho.
  • Sendo o aparelho considerado por pilotos experientes um dos mais seguros já fabricados, tendo como inconveniente o consumo elevado de combustível. Mesmo assim é frequentemente usado em regiões montanhosas, como é o caso do oeste do continente sul-americano, todo ele constituido pela Cordilheira dos Andes. Nestas regiões costumamos encontrar terminais aeroportuários com condições de operação limitadas. Pistas curtas, existências de montanhas nas proximidades das cabeceiras, tornando a operação das aeronaves de grande porte dificultadas. É inadmissível voar com pouco combustível, uma vez que sem ele o aparelho perde sua capacidade de manter-se no ar.
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    Últimas rotas do avião acidentado

  • Trata-se de uma companhia pequena, na verdade este era seu único aparelho em operação (os outros estão com falta de peças de reposição). Não fica difícil deduzir que enfrentava dificuldades financeiras, o que a levaria a tentar economizar o máximo possível onde quer que fosse possível. O fato de ter logrado êxito em algumas ocasiões, pode ter tornado o proprietário e mesmo a tripulação, ousados o bastante para discutir com a funcionária do aeroporto de partida, que indicou 5(cinco) inconformidades no plano de voo, afirmando que fariam o voo em menos tempo do que o esperado. Isso é, para dizer pouco, jogar com a sorte, e certamente fazer pouco caso da vida dos passageiros, sem contar os próprios tripulantes. Lamentavelmente, ou talvez graças a Deus, tanto o piloto quanto co-piloto morreram no acidente. Do contrário teriam um longo processo a enfrentar, que provavelmente resultaria em suspensão de suas licenças. Quanto ao proprietário, foi noticiado que a companhia operava na Venezuela, de onde se transferiu no ano passado ou retrasado para a Bolívia. Não estaremos sendo muito injustos ao considerá-lo um aventureiro que resolveu brincar de dono de aviões, pouco se importando com alguns aspectos de segurança e a vida das pessoas.
  • A companhia dizia-se especializada em transportar delegações esportivas, como aliás demonstram seus voos nos últimos meses. O próprio time da Chapecoense havia utilizado recentemente seus serviços em uma ou duas ocasiões. A seleção argentina de futebol, voou para Belo Horizonte utilizando seus serviços, há questão de semanas, sendo que em várias ocasiões a viagem terminou com o combustível muito próximo do limite de autonomia. Não acredito que os passageiros soubessem de tal risco, pois isso certamente os levaria a negar-se ao embarque. Com certeza os dirigentes dos times desconheciam essa prática, uma vez que eles mesmos frequentemente viajam nos mesmos aviões que a delegação. Haja visto que o presidente da Chape está entre as vítimas da fatalidade.
  • Não estou promovendo um julgamento das pessoas, mas proponho uma reflexão profunda sobre as razões que levam alguém a praticar semelhante temeridade. Quer me parecer que estamos diante de mais uma manifestação da ganância, da audácia diante dos limites de segurança que as condições tecnológicas impõe. Para lucrar um pouco mais, é válido por em risco o que for preciso, sem lembrar que esse pode ser o último risco que se está correndo, além de colocar as vidas de um grande número de pessoas sob as mesmas condições. Eu gostaria de ver o dono da companhia ser acareado com os familiares e amigos das vítimas. Que ali fizesse sua justificativa, ou explicação para a irresponsabilidade que cometeu. Se é que não se trata de algo bem mais grave, isto é, um crime vil e hediondo.
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    Índio Condá, mascote da Chapecoense

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    Indio Condá, mascote da Chapecoense 1

    Assistimos todos a uma cerimônia fúnebre de dimensões gigantescas, que deixou uma cidade inteira,  emocionalmente arrasada. Dezenas de famílias tiveram entes queridos arrebatados violentamente, sem sequer terem o tempo de dizer uma última palavra de adeus. E tudo isso para quê? Provavelmente para economizar alguns milhares de dólares em combustível e despesas aeroportuárias que seriam necessários para realizar uma escala técnica de reabastecimento no aeroporto de Bogotá.

     

 

 

Curitiba, 05 de dezembro de 2016

Décio Adams

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