Arquivo da categoria: Crônicas diversas

Exemplo que vem da Colômbia!

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Delegação da Chapecoense antes do embarque em Santa Cruz de La Sierra, Bolívia.

Embarcando para a morte!

Olhando esse grupo de pessoas, ao lado do avião que os levaria para o destino Medellin, Colômbia, nota-se um ar de alegria, confiança e crença na gloria que esperavam conquistar em poucos dias. Dariam o penúltimo passo no rumo da conquista do primeiro título da Associação Chapecoense de futebol. Eram, em sua maioria, jovens na faixa entre os 20/30 anos. Entre eles havia também os dirigentes, técnicos, jornalistas, formando ao todo mais de 70 pessoas.

Não sabiam que estavam prestes a iniciar as últimas quatro horas de suas vidas. Quando estavam prestes a chegar ao destino, após uma viagem de quatro horas e vinte minutos, encontraram a morte em um trágico acidente, cujo desfecho estava traçado desde o princípio pela insensatez do piloto e sua equipe em terra, ao optar por fazer o percurso sem realização e escala para abastecimento, contando com o fator sorte, para pousar no limite extremo de sua autonomia de combustível. A torre de controle do aeroporto próximo deu o alarme, além de um posto policial situado nas proximidades do ponto em que ocorreu a queda do aparelho, permitindo assim um acesso rápito das equipes de socorro, que pouco puderam fazer, uma vez que dos 77 ocupantes, incluindo os tripulantes, somente seis sobreviveram.

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Acidente!? Negligência!? ou Crime covarde!?

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Avião da Lamia antes de seu último voo.

Foi apenas um acidente?!

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Bandeira da Chapecoense

  • Na última terça-feira, dia 29 de novembro, eu acordei com a notícia do acidente aéreo que vitimou a delegação da Associação Chapecoense de Futebol. Ao dirigir-se para Medelin, na Colômbia, viajando em um avião fretado para o percurso partindo de Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, o avião que está estampado acima, caiu pouco antes de alcançar o aeroporto de Rio Negro, que era seu destino. Este tipo de acontecimento sempre me provoca um choque no primeiro momento. Passei a acompanhar o noticiário durante o resto do dia até a hora de dormir. Na quarta-feira, continuei vendo as novidades e, juntando um fragmento de informação daqui, outro dali, aos poucos fui formando uma ideia sobre o ocorrido.
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    Destroços do avião no local do acidente

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    Equipes de resgate no trabalho de salvamento e resgate das vítimas

  • Ao longo da vida, convivi por vários anos com alguns militares da FAB, quando trabalhava e estudava em Foz do Iguaçu. Eram sargentos especialistas, da área de controle de voo, metereologia e outras especialidades. Nesta convivência aprendi várias informações sobre normas de aviação, especialmente no tangente à segurança das aeronaves nos percursos feitos.
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    Helicóptero militar na missão de resgate

  • Além disso, tive ocasião de ler livros e matérias tratando do assunto. Dessa forma observei que havia algo grave envolvendo a tragédia ocorrida na Colômbia. Em algumas circunstâncias, há exigência de reserva de combustível para uma eventual viagem de retorno ao aeroporto de orígem. Jamais deve ser autorizada a decolagem de um aparelho em condições precárias de reserva de combustível, muito menos no limite extremo do tempo de voo com os tanques cheios. Eu fiquei literalmente surpreso quando ouvi dizer que no plano de voo constava que a duração da viagem seria igual à autonomia do aparelho. Eu esperava que as autoridades bolivianas, ao ver semelhante despautério, tomassem providências no sentido de impedir a decolagem da aeronave. No entanto o que vimos é que depois de algumas palavras a respeito, tudo ficou resolvido e a viagem começou.
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    Vice-presidente da Chape indignado com negligência

  • Posteriormente tomei conhecimento do fato de que o mesmo aparelho havia feito, nos últimos meses, voos em condições idênticas, isto é, realizara situações, felizmente bemsucedidas, em que a duração do voo chegara perigosamente próximo do limite extremo, ou seja, estivera a ponto de não completar a viagem. Isso é estarrecedor. Como pode alguém, seja o piloto, co-piloto ou dono do avião, brincar com a vida de dezenas de pessoas, com a própria vida, para não falar no capital investido no aparelho.
  • Sendo o aparelho considerado por pilotos experientes um dos mais seguros já fabricados, tendo como inconveniente o consumo elevado de combustível. Mesmo assim é frequentemente usado em regiões montanhosas, como é o caso do oeste do continente sul-americano, todo ele constituido pela Cordilheira dos Andes. Nestas regiões costumamos encontrar terminais aeroportuários com condições de operação limitadas. Pistas curtas, existências de montanhas nas proximidades das cabeceiras, tornando a operação das aeronaves de grande porte dificultadas. É inadmissível voar com pouco combustível, uma vez que sem ele o aparelho perde sua capacidade de manter-se no ar.
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    Últimas rotas do avião acidentado

  • Trata-se de uma companhia pequena, na verdade este era seu único aparelho em operação (os outros estão com falta de peças de reposição). Não fica difícil deduzir que enfrentava dificuldades financeiras, o que a levaria a tentar economizar o máximo possível onde quer que fosse possível. O fato de ter logrado êxito em algumas ocasiões, pode ter tornado o proprietário e mesmo a tripulação, ousados o bastante para discutir com a funcionária do aeroporto de partida, que indicou 5(cinco) inconformidades no plano de voo, afirmando que fariam o voo em menos tempo do que o esperado. Isso é, para dizer pouco, jogar com a sorte, e certamente fazer pouco caso da vida dos passageiros, sem contar os próprios tripulantes. Lamentavelmente, ou talvez graças a Deus, tanto o piloto quanto co-piloto morreram no acidente. Do contrário teriam um longo processo a enfrentar, que provavelmente resultaria em suspensão de suas licenças. Quanto ao proprietário, foi noticiado que a companhia operava na Venezuela, de onde se transferiu no ano passado ou retrasado para a Bolívia. Não estaremos sendo muito injustos ao considerá-lo um aventureiro que resolveu brincar de dono de aviões, pouco se importando com alguns aspectos de segurança e a vida das pessoas.
  • A companhia dizia-se especializada em transportar delegações esportivas, como aliás demonstram seus voos nos últimos meses. O próprio time da Chapecoense havia utilizado recentemente seus serviços em uma ou duas ocasiões. A seleção argentina de futebol, voou para Belo Horizonte utilizando seus serviços, há questão de semanas, sendo que em várias ocasiões a viagem terminou com o combustível muito próximo do limite de autonomia. Não acredito que os passageiros soubessem de tal risco, pois isso certamente os levaria a negar-se ao embarque. Com certeza os dirigentes dos times desconheciam essa prática, uma vez que eles mesmos frequentemente viajam nos mesmos aviões que a delegação. Haja visto que o presidente da Chape está entre as vítimas da fatalidade.
  • Não estou promovendo um julgamento das pessoas, mas proponho uma reflexão profunda sobre as razões que levam alguém a praticar semelhante temeridade. Quer me parecer que estamos diante de mais uma manifestação da ganância, da audácia diante dos limites de segurança que as condições tecnológicas impõe. Para lucrar um pouco mais, é válido por em risco o que for preciso, sem lembrar que esse pode ser o último risco que se está correndo, além de colocar as vidas de um grande número de pessoas sob as mesmas condições. Eu gostaria de ver o dono da companhia ser acareado com os familiares e amigos das vítimas. Que ali fizesse sua justificativa, ou explicação para a irresponsabilidade que cometeu. Se é que não se trata de algo bem mais grave, isto é, um crime vil e hediondo.
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    Índio Condá, mascote da Chapecoense

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    Indio Condá, mascote da Chapecoense 1

    Assistimos todos a uma cerimônia fúnebre de dimensões gigantescas, que deixou uma cidade inteira,  emocionalmente arrasada. Dezenas de famílias tiveram entes queridos arrebatados violentamente, sem sequer terem o tempo de dizer uma última palavra de adeus. E tudo isso para quê? Provavelmente para economizar alguns milhares de dólares em combustível e despesas aeroportuárias que seriam necessários para realizar uma escala técnica de reabastecimento no aeroporto de Bogotá.

     

 

 

Curitiba, 05 de dezembro de 2016

Décio Adams

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Os tons do monocromático panteão político brasileiro.

OS TONS DO MONOCROMÁTICO PANTEÃO POLÍTICO BRASILEIRO:

Raul Longo

Obs: Peço permissão ao jornalista Raul Longo de reproduzir no meu blog seu texto, que me foi repassado pela amiga comum Urda Alice Klueger. 

 

Oxumaré é um orixá metá-metá que na língua ioruba do reino de Oyó refere-se às entidades e pessoas de um determinado gênero que manifestam características sexuais do gênero oposto.

Oxumaré é o arco-íris. A grande Dã. A cobra com um rabo na cachoeira e a cabeça no oké, o castelo do rei Xangô.

Oxumaré é criado de Xangô e como toda pessoa servil é dúbia, pois nunca se sabe se o servil é mesmo prestativo ou é servil por interesses escusos.

Mas Oxumaré não é hipócrita. Quando no desespero da fome do seu povo Oxóssi caçou Oxumaré, a grande Dã avisou: “- Eu não sou bicho de pena pra Odé matar”.

Apesar da fome, o povo de Ketu não quis comer a carne de Oxumaré com medo do retorno da quizila e, amargurado, Oxóssi, ainda Odé, teve de comer a grande Dã sozinho.

A lei é de que o caçador não pode caçar só para si. Tem de caçar para toda gente e só comer de sua parte partida pelo axogum, o mão de faca. É a lei.

Oxumaré é cobra de vidro e – depois de comer por onde é de comer – cortado por dentro Odé teve de deixar Oxumaré sair por onde é de se devolver à terra o que se come. Assim morreu Odé. E ficou para sempre Oxóssi, o caçador que saciava a fome do povo ketu.

Mas Oxumaré não é hipócrita. Tem em si todas as cores do arco-íris, e não é dúbio por ser metá-metá. É dúbio porque tudo é dúbio. Tudo é mais de um, porque se único nada se suporta.

Xangô, que é macho definido, também é dúbio porque até a justiça é dúbia e num dia que Xangô se arretou com as quizilas do povo aos preceitos, acabou com o reino de Oyó como Jeová acabou com Gomorra. E Sodoma.

Depois Xangô se arrependeu do desatino, chorando pelas tantas criancinhas inocentes que nada tinham a ver com preceito algum e só tinham mais é de comer, brincar, estudar e ter teto para dormir.

Então Xangô, que é justo de verdade, julgou a si mesmo pelo crime cometido contra o povo. E condenou a si mesmo. E foi o carrasco de si mesmo enforcando-se no ayan, a grande árvore da história.

Ah se aqui no Brasil os juízes fossem justos como Xangô!

Poucas árvores e muitas togas, os males do Brasil são.

Muita toga para pouca soga. Pouca história pra tanto golpe.

Muitos chapéus para poucas cabeças! Para tantas gargantas e pescoços carece replantar uma Mata Atlântica do pau-brasil que o português levou. Como é levado o petróleo de Oyó, onde hoje é Nigéria, Benin, Dahomey. Região rica no petróleo e prolífera em miséria mantida pela Grande Grana Mundial. A eterna guerra da Grande Grana Mundial que levará o Pré Sal também.

Mas é lembrando o negro do petróleo, o belo negro reluzente da pele de ébano e voz de encanto, que busco cores sob as leituras de dúbios relatórios do monocórdico senador Anastasia.

Em qual das escalas do colorido Oxumaré se encaixará Anastasia?

Presto atenção no inexpressivo do olhar patético, catatônico. Busco na rigidez do pescoço fixo. No gesto que não há. No corpo sem ginga e movimento.

Lembra-me Temer. Um monobloco quase pra lá ou quase pra cá. Michel ou Temer?

Mas Temer ao menos aponta aleatórios dedinhos para depois desprezar, com as costas das mãos para um lado e outro, tudo o que vier à frente. E Eduardo Cunha às costas.

É um Marawô selecionando as almas.

Almas selecionadas. Poucas almas para tantas denúncias.

Marawô é da cor do luto com o vermelho-sangue nos olhos. Qual a cor dos olhos do Anastasia?

Ou não tem? Onde tem Anastasia?

Achei ter encontrado Anastasia no sorriso estático, milimétricamente único de orelha à orelha ao longo de todo o discurso do José Eduardo Cardozo decompondo, peça a peça, o relatório do crime que não houve, da pedalada que não aconteceu.

Peça a peça como preciso relojeiro. Descompondo como criança enojada com brinquedo enfadonho e sem conteúdo.

Sorriso vítreo o do Anastasia. Como o do lagarto de João Ubaldo quando bom baiano, antes da doença que o matou triste e refém dos reis do écran, os donos da mídia que tinge o inexistente e esconde o arco-íris da vida brasileira para borrar monocrômicas mentiras.

Procuro no écran por onde se esconde a cor do sorriso de Anastasia?

Sorriso de máscara. Mas é sorriso e sorriso tem cor. Uma que seja.

Enxerguei amarelo, mas difícil definir a cor do servo sem arco-íris. Prestativo ou hipócrita?

Amarelo é de Nanã. Amarelo-terra. Ancestral.

Não! Nanamburuke é mãe. Não é metá-metá. Nada contra os metá-metá do belo arco-íris de Oxumaré, mas mãe é mãe e por mais servil, o amarelo do indefinível sorriso de Anastasia é esmaecido, biliar. Quase verde.

O verde das matas de Oxóssi? Das matas de minha bandeira de tantos lápis de cor?

O verde amarelo e anil das cores do meu Brasil. E também o branco da paz de Oxalá. Mas jovem e guerreiro Oxaguian, o Oxalá do futuro. Do que virá. Do desejo que nascerá. Indomável. Inevitável.

À que vinha o verde-amarelo do sorriso anfíbio do Anastasia?

Verde de inveja por Cardozo sacar de memória tantos artigos, cláusulas, parágrafos e incisos? Do discorrer fluído de elegantes vernáculos? Do rubro pulsar de sentimentos em cada afirmação, em cada alegação, em toda conclusão?

Rubra é a cor de Ogum, guerreiro de peito aberto. Vermelho é a cor da coragem e paixão de Ogum na forja do ferro da ferramenta que constrói.

Paixão não se esconde. A paixão se revela na certeza por inteira e na transparência.

Anastasia não aparenta. Em Minas diz que não construiu nada. Um aeroporto em Cláudio, tão só. Talvez nem ele, talvez algo mais.

Coragem não se limita em altear de voz afetada, monocórdia em estrídulas leituras de laudas de relatórios do que não se prova nem comprova.

Paixão e coragem também não bailam de dedinhos suspensos e ademanes de entojo.

Coragem e paixão dançam como Oxumaré, assumindo-se. Dançam como Pierre Verger, o mais Fatumbi afro-baiano de Paris. Dançam como Clayde Morgan, o mais Alafiju afro-baiano de Cincinnati.

Assumindo-se. E não apenas no vermelho da indignação, também no amarelo da atenção, reflexão. No laranja da alegria e no otimismo do roxo. Na estabilidade do marrom e no azul da calma de Iemanjá.

Iemanjá é mãe, não há esperança em ser mãe para metá-metá. Assim mesmo, no arco-íris de Oxumaré tem azul posto que Oxumaré não é hipócrita.

No sorriso de Anastasia, não.

Sorrisos não são azuis nem vermelhos e para quem tem, o vermelho da vergonha aparece na cara. Mas a vergonha não sorri se não for para pedir desculpas. Não há desculpa no sorriso de Anastasia.

Seria o verde da esperança? Esperança também não sorri, espera. Deseja e espera resguardando risos e sorrisos para aflorar no momento da concretização, da chegança do esperado.

Nem amarelo nem verde, o estático sorriso de Anastasia era o da certeza. Inveja poderia sentir qualquer advogado que concorresse com Cardozo pela compreensão e análise de um juiz. Até Rui Barbosa invejaria num sorriso de satisfação, admiração.

Será admiração? Máscaras podem provocar admiração, mas não se admiram de nada. A do Anastasia provoca admiração pelo sorriso mais estático e fixo do que o que o de qualquer outra máscara.

Dependendo do ângulo que se olhe há diferentes sentidos no sorriso da máscara do V de Vingança. No do Anastasia não havia nem vingança.

Na verdade, pelo conteúdo do acontecimento, pelo sentido do que se passava ali, por se desvalidar mais de 100 milhões de votos de uma eleição, independente de a quais candidatos foram dedicados; nenhum sorriso caberia ali que não fosse o de mofa, desprezo na certeza do veredito já dado.

O sorriso do jogador que da manga tirou a carta indicada nas marcas do baralho e, por mais brilhante o desempenho do adversário, despreza todo o esforço e toda verdade pela certeza de um resultado já definido, sejam lá quais forem as togas.

Eram favas contadas, fardas alcovitadas.

O tempo dos legalistas se foi há muito tempo e de Ás à Rei, Copa ou Paus, todas as Espadas estão pelo Ouro e pelo ouro são todas as togas e fardas. Não há juras nem compromissos. Tampouco escusas.

Por quantos valetes e rainhas, por qualquer 7 ou coringa.

21 ou bacará. Não há truco do que já foi truncado, tramado e trancado entre os interesses de todos os poderes de uma só elite.

Pouca elite e muitos poderes, o mal do Brasil sempre é.

Não importa duplas, trincas, quadra. Seja qual for a sequência, o full ou flush. Que seja canastra ou royal straight, é jogo já batido, fechado, encerrado antes de começar.

E anuncia o crupiê: “Vence o blefe!”

Há que se conformar. No cassino chamado Brasil há que se conformar com a vontade de Ifá porque quando não joga com metralhas e fuzis sobre a mesa, articula farsas sob a mesa.

Mas qual a cor da farsa? “Dizei-o tu, justiça de fancaria!” – clamaria Castro Alves em sua poética indignação, complementando: “Arranca dos olhos a venda, para à democracia servir de mortalha!”.

Antes de o leviatã cuspir a ignomínia na cara da malfada democracia, pude enxergar a cor do futuro sem quartel nem tribunal para assegurar estado de direito ou algum direito ao cidadão. Pátria, nem pensar!

Boys and girls, ladies and gentlemen: o Brasil é vosso!.

Pude vislumbrar a cor que terá meu país quando o Senador Roberto Requião subiu à tribuna e fez o mais conciso e certeiro discurso de todo o processo: “Canalha! Canalha! Canalha!

Em seguida explicou reproduzir as palavras de Tancredo Neves em 1964, dirigidas ao Auro de Moura Andrade quando declarou vaga a presidência no golpe que depôs João Goulart.

Explicação rápida e imediata referência ao relatório do Anastasia, para o foco das câmaras. Atentei na certeza de que então lhe identificaria alguma cor. Mas ainda assim, indefinida. Por sorte, ao seu lado, do semblante do neto de Tancredo refletiu-se alguma cor em Anastasia.

Definitivamente nada tem de Oxumaré, por mais metá-metá na afetação da voz estrídula. No arco-íris não há o cinza.

Tenho resistência aos best-sellers, mas lamentei não haver lido a história da homônima Anastasia do “50 Tons de Cinza” para poder reconhecer qual a graduação do tom daquele cinza do futuro do meu país. Apenas sei que a moça se apaixona por um poderoso magnata, mas pouco me importa os magnatas e poderosos do Anastasia.

Se até plenária do Senado virou sessão espírita para Requião incorporar Tancredo descompondo neto e comparsa, é porque os eguns estão na gira!

Preciso tomar assento pro amacy e tenho de saber o exato tom do cinza do futuro. Tenho de saber para o meu Ori, para o preparo correto do ebó de Onilé.

Preocupo-me em definir o tom do cinza do futuro do meu país, mas  só no final descubro que o pesado tom de cinza é ainda mais escuro do que o do Aécio.

Muito escuro! No Senado não há papelote de “brilho” que nos ilumine (ilustrado no link para quem desconhece o jargãohttps://www.facebook.com/ZEDEABREU3.0/videos/770893326386917/ ).

Esse cinza não é do arco-íris. Não é de Oxumaré nem é do meu país.

Há quem imagine ser de Exu, mas no candomblé não tem bem nem mal, ninguém é anjo nem demônio. Tudo tem acerto, tem erro e tem conserto. Tudo é como todos somos!

Todo fim é começo porque o começo não tem fim. Prenderam-me vivo e escapei morto mais de uma vez, como Paulo César Pinheiro, como Dilma Rousseff. E escapo porque “minha ideologia é o nascer de cada dia e minha religião é a luz da escuridão”, como a do moleque Gilberto Gil.

Gil Orungan, moleque matreiro, menino que arrelia. Saci zambeta, quando se pensa que está aqui, já tá lá. É o meu guri e do Chico Buarque. Meu garoto de recado, a voz do morro.

Exu é o único mensageiro confiável num país em que grampo de telefone incrimina, mas criminoso é privilegiado e inocente condenado.

Quem diz que Exu é demônio, não sabe de nada ou quer fingir choro pelo futuro dos netos de todos os eleitores do Brasil que perderam tempo indo votar pelo que é definido à socapa, em contas de satânicos tribunais, federações patronais, farsas editorias e Voduns Legbas que legislam pelouros para o povo, salvaguardando exceções aos que expoliam por aeroportos e suíças, por metrôs e jatos sem lavagem alguma. E “brilho” no Senado para decidir o futuro do país!

É muito “brilho” pra pouco Senado, mas por mais “branca” que ali brilhe a cor do nosso futuro só se me fez evidente na cara do diabo, onde reconheci quanto é escuro o cinza do futuro do Brasil.

Na face do demônio tentando parecer chorar, se não escorreu pretendidas e sórdidas lágrimas, derramou-se a baba da maldição e nela vi a o tom do panteão do inferno político que Eduardo Cunha prometeu à nação.

Ali, na face do Mefistófeles, vi a cor da escura canalha, a escumalha que Tancredo vaticinou pela boca de Requião.

Na face inumana da mais satânica sordidez, enxerguei e temi pelo futuro do meu país e de cada brasileiro. Talvez, o mais escuro da história. Talvez ainda mais do que aquele que Tancredo Neves previu em 1964 e Requião o incorporou para que mais uma vez desse o tom da cor dos próximos anos do Brasil.

Mas em Auro Moura Andrade, Tancredo só anteviu a cara do neto e dos comparsas do neto. Não viu a cara do demônio.

Eu vi. E quem sabe enxergar, um dia contará a seus netos que esteve cara a cara com Satã pelo écran da TV. E custou R$ 45.000,00 para ver o diabo em pessoa.

Adupé Olorum! Muito obrigado pelo verde, amarelo, cor de anil. Mas livrai-nos desse Valac! Livrai-nos da farsa das asas de anjo e das lágrimas do dragão de duas cabeças de Valac.

Esse demônio não é nosso! Não nos pertence.

A gloria humana é fugaz!

Em busca da glória fugaz!

Estamos vivendo em nossa pátria, há uma semana, os Jogos Olímpicos! Evento que começou lá longe, na década passada, com empenho do então presidente da república Senhor Luiz Inácio Lula da Silva, confirmado em anos posteriores e culminando com a realizaão dos jogos, durante um período de pouco mais de duas semanas. Estamos praticamente pela metade. Milhares de atletas, de todos os cantos do mundo, em grupos grandes de centenas de pessoas, outros pequenos com poucos integrantes, todos na busca do brilho passageiro da medalha de ouro, ou então prata ou bronze, que servem de consolação. 

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Comemorando a sobrevivência – parte 2.

Novamente o mês de agosto.

Hoje, dia 11 de agosto de 2016, é outra data que preciso comemorar. Completo exatamente 18 anos de “sobrevida” à uma cirurgia de implantação de prótese total de artéria aorta. Dei entrada no centro cirúrgido do Hospital Sâo Lucas, velho conhecido da época de nascimento dos filhos, entre 7 e 8 horas da manhã. A cirurgia, prevista para durar em torno de 5 horas a no máximo 6, acabou demorando 9h30 min, seguida de duas horas e meia de recuperação, antes de ir para UTI. A prótese que fora prevista para ser somente o Y, onde a artéria se bifurca transformando-se nas duas femurais, foi preciso ser substituida por uma que vai do arco aórtico até o início das femurais, abaixo da virilha. Entre substituição e demora extra do procedimento, transcorreu um dia inteiro (12 horas), até que finalmente eu emergisse da sala de cirurgia.

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Comemorando a sobrevivência. – parte 1.

Faz cinco anos!

 

Há exatamente cinco anos, domingo, dia 07 de agosto de 2011, esse momento da minha vida foi decisivo. Estava próximo do momento crucial da morte, em consequência de um acidente sofrido na véspera, dia 06/08, pouco depois das 19 horas. Depois de superar uma crise suprema, retornei para continuar por mais algum tempo nesse mundo. Outras crises semelhantes seguiram-se, antes de superar definitivamente aquela fase.

Voltando ao dia anterior, o tempo estava ameno, nem frio nem quente, saí de casa, levemene agasalhado, em minha moto Suzuky Intruder 125. Ia para casa de meu filho Anselmo Daniel Adams, que ficava a distância de aproximadamente 10 km. A pouco mais de dois km de casa, pilkotando sem pressa, fui surpreendido por um farol forte no rosto, bem no começo de leve curva, ao final da rua Vicente Cicarino, no exato lugar do cruzamento dessa com a ferrovia. Um automóvel Ford K, invadiu minha pista e não houve tempo para desviar. O resultado foi uma colisão, de acordo com o laudo policial, um abalroamento lateral. A velocidade relativamente baixa (+_ 40 km/h), me projetou pouco para frente, a pouco mais de um metro do trilho ferroviário.

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História de uma vida que termina. Vida que se renova sempre e sempre!

Uma vida que termina.

Vovô e vovó Adams

Reinoldo Adams e Leopoldina Bourscheitdt Adams

Em 21 de agosto de 1924, nasceu na região de Lnha Acre, hoje município de Cândido Godoy, Leo Anselmo Adams. Sexto ou sétimo filho do casal Reinoldo e Leopoldina Adams. Ficou mais conhecido entre familiares e conhecidos como Anselmo, parece para diferenciar de um tio que tinha o nome Leo Adams. Tanto foi que, em seu sepultamento no dia 21/06 deste, vários sobrinhos dele me perguntaram sobre o nome, pois apenas o conheciam pelo segundo nome, jamais tendo ouvido o primeiro.

Isso aconteceu com vários filhos do casal Reinoldo e Leopoldina. Havia dois com o nome João, sendo um João Armando e outro João Ignácio. Ficaram conhecidos como Armando e Ignácio, espantando muita gente ao ouvir-lhes o primeiro nome. Há também dois com o nome Afonso e Affonso. Eram Afonso Pio e Affonso Roque. Ninguém os chamou jamais por Afonso ou Affonso.

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A Galinha dos Ovos de Ouro

A GALINHA DOS OVOS DE OURO
Um certo casal foi a uma granja e comprou uma galinha. Aparentemente era uma galinha como outra qualquer. Tinha bico, penas, pés e um jeito de bobalhona.
Na manhã seguinte, quando a mulher foi ao galinheiro para recolher os ovos, levou um susto enorme. Em frente aos seus olhos, no meio do ninho, havia um ovo muito diferente, era um ovo de ouro!
A mulher pegou o ovo com a mão direita, cheirou-o, lambeu-o, examinou-o detalhadamente e não teve mais duvida, era mesmo um ovo de ouro verdadeiro.
Saiu correndo e foi acordar o marido para contar-lhe a novidade.
– Querido, acorde. Olhe o que eu encontrei no ninho da galinha que compramos ontem.
O marido acordou, olhou o ovo dourado, pegou, mediu, lambeu, pesou e, finalmente, soltou um grito:
– Mulher, isso é ouro puro! Estamos ricos!
Diante do fato, a mulher foi logo dizendo:
– Se estamos ricos com um único ovo, imagine como ficaremos com o resto de ovos que essa galinha traz na barriga. Vamos logo abrir seu corpo para pegarmos logo essa fortuna.
O marido, cego de ambição, não perdeu tempo. Correu até a cozinha, pegou uma faca e decepou a cabeça da galinha.
Ao abrir o corpo, qual não foi sua decepção, dentro dela só havia o que há dentro de todas as galinhas: tripas, coração, moela, rins e sangue.
O ovo de ouro foi logo gasto e os dois continuaram pobres e passaram o resto da vida se acusando:
– Continuamos pobres por sua culpa.
– Não, a culpa é sua que não teve paciência.
– Minha não, foi sua.
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Moral da história: O excesso de ambição, leva à precipitação e, quem tudo quer tudo perde.
Nicéas Romeo Zanchett
http://gotasdeculturauniversal.blogspot.com.br
http://selecaodehistoriasinfantis.blogspot.com.br

Tomei a liberdade de compartilhar essa fábula, por vir de encontro a uma questão que desejo abordar. Ela remonta ao fabulista grego Esopo e, ao longo do tempo, passou por várias adaptações, porém o seu conteúdo moral e ético continua sendo o mesmo.

Para ilustrar meus pensamentos, vou fazer uma adaptação dessa fábula, numa versão moderna, situando-a nos dias de hoje.

Era uma vez um jovem de nome João. Seus pais eram pobres e lutavam com dificuldades para alimentar os filhos, cultivando um naco de terra que haviam herdade da família. Outros parentes haviam partido para outros lugares em busca de melhores condições de sobrevivência. Um belo dia João decidiu partir também. Despediu-se dos pais e irmãos, indo para São Paulo, onde, depois de vários dias dormindo sob marquises, em vãos de portas de entrada de edifícios, pedindo esmolas na rua, encontrou uma alma generosa que o acolheu. Como ainda era bem jovem, a  bondosa senhora, Maria das Graças, logo se afeiçoou a ele e passou a tratá-lo como seu fosse seu filho, coisa que ela não tivera a graça de ter por suas forças.

Percebendo que o menino era analfabeto, providenciou para que fosse matriculado em um curso de alfabetização, onde sua natural vivacidade e desenvoltura adquiridos na vida rude na roça, logo o destacaram como excelente aprendiz. Em pouco tempo havia dominado a arte da escrita e leitura. Aprendeu os números e logo sabia operar com eles habilmente. A professora recomendou que ele fizesse um exame de suficiência e ingressasse em uma escola de ensino fundamental, o que foi providenciado no momento oportuno.

Os anos passaram e João, ávido leitor, devorava com os olhos todos os livros que encontrava pela frente, desde romances, contos e poesias, até os compêndios de ciências, no começo pouco confusos para sua cabeça ainda despreparada. Mas a curiosidade fora despertada. Demonstrou que queria mais. Queria desvendar os mistérios ocultos naqueles livrões enormes que via nas prateleiras da biblioteca. Foi assim que, terminado o ensino fundamental, ingressou no ensino médio e logo estava às portas da Universidade. Ficou em dúvida. As possibilidades eram tantas, mas terminou optando por engenharia industrial. Submeteu-se aos exames vestibulares e foi aprovado com ótima colocação.

Ao final de alguns anos, tendo aprendido todos os segredos das máquinas, os cálculos necessários, os desenhos das peças, recebeu finalmente seu diploma de engenheiro industrial mecânico. Havia feito diversos estágios, sempre seguidos de elogios efusivos de seus chefes nesses eventos. Os professores viam nele um expoente significativo para contribuir no desenvolvimento industrial do pais. O que ninguém sabia, era que João, secretamente vinha trabalhando há tempo, no desenvolvimento de uma máquina revolucionária. Tinha a característica de ser robusta, o que a tornaria durável, podendo servir ao comprador por longos anos. Por outro lado era versátil e capaz de ser adaptada para várias utilizações, servindo dessa forma para substituir várias máquinas, reduzindo o investimento de seus proprietários. Era uma máquina agro-pastoril. Ela preparava o solo, plantava, colhia e ainda era capaz de proceder ao processamento básico de vários produtos.

Com o projeto pronto e detalhado, conseguir registrar seu invento no INPI e partiu em busca de financiamento para produzir sua máquina. Nesse momento descobriu que havia um tal BNDES, banco oficial de financiamento do desenvolvimento, no território nacional e das empresas do país que executavam obras no exterior. Precisou ser bastante convincente, apresentar referências de seus professores e também dos supervisores de seus estágios, para finalmente conseguir o capital que lhe permitiria começar uma pequena indústria. Quando ela ficou pronta, contratou torneiros, soldadores, pintores, ajustadores, eletricistas e demais profissionais necessários para a produção de seu invento. Com todos reunidos, apresentou seu projeto e lhes fez ver que seriam parte de um trabalho inédito. Se fossem dedicados e trabalhassem com afinco, iriam ter, no futuro participação nos lucros que certamente viriam.

Na primeira oportunidade duas unidades foram levadas a uma exposição, das várias que são realizadas anualmente por todo país. Foram realizadas demonstrações e o resultado foi tão impressionante que, em poucas horas, haviam recebido tantas encomendas que demorariam mais de um ano para entregar. Estabeleceram uma agenda de entregas, receberam pagamentos de entrada como sinal de negócio e voltaram para a indústria. Aos poucos, as máquinas foram ficando prontas e uma a uma iam sendo entregues, na ordem exata em que os pedidos haviam sido recebidos. Os felizes proprietários, em pouco tempo, alardearam pelos quatro cantos as qualidades incomparáveis da máquina, despertando nos outros o desejo de também possuir uma delas.

Os fabricantes das máquinas que eram substituídas pela nova invenção, viram-se em dificuldades e tentaram encontrar formas de desfazer a concorrência. Mas a máquina de João, parecia mesmo ser resistente até a sabotagens. Dessa forma em pouco tempo, o menino pobre que saíra do interior, onde levava vida miserável, transformou-se em industrial próspero. Cumpriu à risca a promessa feita aos colaboradores, dando-lhes uma generosa participação nos lucros, além de seguir à risca todos os preceitos trabalhistas, de modo a proporcionar a todos uma vida digna e próspera. Houve quem quisesse que ele aumentasse a indústria, pegando dinheiro emprestado em um volume elevado, de modo a inundar e dominar todo o mercado. Mas ele não aceitou. Sua resposta era:

 – Daqui para frente vou caminhar com as próprias pernas. Deixe o sol brilhar também para os outros. Eles estiveram no mercado antes de mim.

Alguns anos passaram e a indústria cresceu naturalmente com sua própria produção. Foi necessário contratar gerentes, administradores e outros profissionais  específicos, não ligados diretamente à área de fabricação. Entre eles havia um grupo que chegou com ideias que diziam ser revolucionárias. Um deles, liderando os demais insistia com João:

  • Seu João, os salários e benefícios dos operários são muito altos. Podemos demitir estes que estão trabalhando, contratando outros por menos da metade e reduzir os outros benefícios. Esse dinheiro pode ser economizado e aplicado em outras áreas.
  • Eu comecei com um grupo pequeno, que foi crescendo com treinamento dado pelos mais antigos e a todos prometi dar uma vida digna. Não vou mudar isso.
  • Mas seu João, eles estão ganhando muito mais do que o mercado em geral paga para o mesmo tipo de trabalho. Isso é exagero. Imagine quanto poderemos economizar, investir em outras máquinas, construir indústrias em outros estados, outros países. Podemos nos tornar uma multinacional. Afinal já temos pedidos sendo enviados para várias partes do mundo.
  • Eu já falei e não vou repetir. Nessa história de salários e benefícios, fica como está.

Mas os novos gestores não desistiram. Manipularam, mentiram, maquiaram demonstrativos, caluniaram operários, fizeram intrigas de toda sorte, até que um dia João sentiu-se cansado. Já estava passando dos 40 anos e praticamente nunca tirara um mês de férias. Tanto insistiram com ele para que delegasse as decisões mais gerais aos seus subalternos, ficando somente no comando do que era realmente importante. E João concordou. Indicou um gerente geral, um gerente de fábrica, um administrador financeiro, o encarregado dos recursos humanos e outras funções. Ele iria aproveitar um pouco da vida. Era ainda solteiro e procurou por uma moça com quem pudesse se casar. Tendo-a encontrado, namorou, preparou tudo e casou-se.

Saiu em viagem de lua de mel e passou longo temo viajando. Ao retornar, encontrou uma situação bem diversa do que deixara ao sair. Sua indústria, onde foi para verificar o andamento de tudo, estava semi-paralisada. Os pedidos haviam sido cancelados em grande quantidade, as reclamações e gastos com assistência técnica estavam consumindo as reservas financeiras rapidamente. Uma pequena multidão de empregados fora despedida e acampara na porta de acesso, reivindicando o pagamento dos direitos trabalhistas. Na justiça se amontoavam pilhas de processos pedindo indenizações por danos materiais e morais causados por acidentes ocorridos com as máquinas defeituosas colocadas à venda enquanto ele se afastara do comando direto de tudo. Enfim, para piorar tudo, os velhos empregados que haviam iniciado com ele, ao serem demitidos, buscaram outras indústrias para se empregar.

O longo período de trabalho com a máquina de João, lhes revelara todos os segredos e possíveis aperfeiçoamentos. Dessa forma, em alguns meses surgiram máquinas bastante semelhantes e muito mais avançadas do que a original. Assim os antigos concorrentes se vingavam, colocando no mercado algo aperfeiçoado, com as informações que os operários demitidos haviam levado consigo.

A tentativa de processar por plágio não foi possível, pois haviam sido feito inovações que acrescentavam novas funcionalidades e funcionamento mais refinado. João constatou que sua “galinha dos ovos de ouro”, havia sido substituída por uma que agora botava ovos de barro. Estes se desmanchavam com a primeira chuva. O que o deixou ainda mais triste, foi saber que ao permitir que seu administrador transformasse a empresa em Sociedade Anônima de capital aberto, colocara as ações na bolsa de valores e agora estas estavam em grande quantidade nas mãos de seu maior competidor. Até mesmo uma emissão de novas ações para aumento de capital, havia sido maciçamente adquirida pelo mesmo grupo, ficando ele João, como acionista minoritário, o que lhe tomava até o direito de tomar decisões, visando recuperar o que fora seu. Permitira que matassem sua galinha dos ovos de ouro.

Triste com a situação, aceitou uma oferta do agora acionista majoritário e vendeu o resto da fábrica. Voltou para o interior, onde seus irmãos ainda viviam, e adquiriu um pedaço de terra com o que restava de seu pequeno império desmoronado. Ali se instalou e voltou a trabalhar na terra, lembrando diariamente dos erros que cometera. Deixara-se seduzir pela sereia de ideias tidas como modernas, pisara sobre seus colaboradores, deixando que fossem demitidos, oprimidos e lançados no desemprego. Estava pagando um preço alto pelos seus erros. Para completar a sua desventura, a moça com quem se casara, não aceitou a vida na roça e pediu o divórcio, levando-lhe assim mais uma boa parcela do que salvara de sua outrora fortuna.

Essa é uma tentativa de imitar a fábula de Esopo, da galinha dos ovos de ouro. A sedução da ganância por mais e mais capital, domínio de mercado e opressão dos mais fracos, levou o antes próspero engenheiro, industrial de sucesso ao fracasso estrondoso. Ele se esforça até hoje por esquecer desses tempos, enquanto caleja as mãos, cansa os músculos e ossos na lida na terra, de onde tira o sustento para o corpo, com muito suor.

Curitiba, 28 de maio de 2016.

Décio Adams

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Corrupção, propina, suborno, lavagem de dinheiro, superfaturamento.

Corrupção, suborno, propina, superfaturamento.

 

Várias denominações, para delitos de naturezas iguais ou pouco diversas. Nos últimos meses em especial, somos induzidos a crer que estes delitos foram inventados pelos políticos da atualidade e alguns cidadãos a eles ligados. Em meus anos de vida, tenho lido um pouco de tudo, desde revistas, jornais, livros diversos. Não encontrei, em momento algum da história, um exemplo de sociedade isenta dessas mazelas.

Sou forçado a dizer que corrupção é tão antiga quanto a própria humanidade. Desde os primeiros agrupamentos humanos, tendo um mínimo de organização, posições de mando, sempre ocorreram casos de corrupção. Suborno é uma forma de corrupção cuja origem se perde nas brumas da história humana.

Recentemente tenho lido algo como sete/oito Teses de Doutorado de diversas Universidades da região sul do Brasil, tratando da Guerra do Contestado. É notável a quantidade de documentos encontrados pelos pesquisadores, comprovando atos de superfaturamento, troca de favores, suborno, pagamento de propinas entre agentes públicos e especialmente as empresas de Percival Farquhar, detentoras do direito de construção da ferrovia EFSP-RS e posterior exploração de madeira, bem como colonização de vastas áreas do estado de Santa Catarina. Na ditadura Vargas, nos governos democráticos, ditadura militar e posteriores, sempre esteve presente um amplo leque de acusações. O que faltou na época foi a investigação aprofundada e criteriosa dos delitos.

Estou pasmo diante da quantidade de denúncias que surgem diariamente em todos os sentidos. Houve um período em que a quantidade de investigações em prefeituras era maior. Creio que no momento o foco são a Operação Lava Jato, ficando as demais relegadas ao plano secundário, pois o objetivo é estabelecer a ligação entre o governo federal e os atos de corrupção. Se existem, devem ser esclarecidos, mas sem deixar os demais escândalos engavetados.

Por que não se investiga mais detalhadamente os atos de corrupção existentes no Estado de São Paulo, relativos ao sistema de trens e metrôs? Em Minas Gerais a construção de aeroporto situado em propriedade particular, com dinheiro público, e tantos outros. Helicóptero ligado a família de político, transportando entorpecentes? Onde ficam estas investigações?

Por todo lado pipocam denúncias de esquemas de venda de sentenças por membros do judiciário. Juiz usando bens apreendidos de acusados de crimes financeiros; familiares de magistrados envolvidos em atos de corrupção e que não são investigados, mesmo sendo pedida a instauração de inquérito. Juiz, flagrado alcoolizado ao volante do seu automóvel, acusa policial que cumpriu seu dever, por desacato à autoridade. Para piorar a policial foi condenada a pagar indenização exorbitante pela sua ação justa e correta. A famosa “carteirada”. A meu ver, os membros da magistratura, no exercício da função, não deveriam ter parentes, nem amigos, aliados ou associados. Totalmente imparciais. Infelizmente não é isso que vemos acontecer em nosso judiciário. Tenho certeza de que há honestos e éticos juízes em nossos tribunais. O complicado é saber quem são eles. Os corruptos não levam uma placa luminosa no peito ou testa atestando sua condição.

Se fosse possível, deveríamos fechar as portas para balanço, procedendo a uma auditoria plena e completa em todos os níveis de governo, órgãos administrativos, empresas públicas. A dificuldade seria encontrar os elementos para realizar tal tarefa, em si mesmo gigantesca, hercúlea. Pode-se dizer inviável, especialmente por não podermos ter certeza da isenção de interesses de quem quer que seja. O que nos deixa a opção de confiar nos resultados das investigações em andamento, exigir dos agentes públicos o cumprimento criterioso de suas funções.

Talvez alguém queira sugerir que se traga um imenso grupo de auditores do exterior para fazer o trabalho. Impossível, pois o custo seria proibitivo, além de não nos garantir de parte destes a isenção de interesses. Os próprios governantes, empresários dos países de origem, poderiam induzir os mesmos a usarem sua posição para favorecer aos seus amigos.

Confesso-me perplexo. Não sei exatamente o que sugerir. Me resta fazer a minha parte, esperando que mais gente faça o mesmo e consigamos influenciar um maior número, a ponto de tornar-se possível alcançar uma posição de equilíbrio ao final de tudo isso. Nossa pátria é digna de uma administração mais honesta, cidadãos de estatura ética e moral para levar seu nome bem alto no contexto das nações do mundo.

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