Arquivo mensais:novembro 2014

Gaúcho de São Borja! – Capítulo XXI

Aeroporto do Recife – Guararapes.

 

Aeroporto de Guararapes – Recife.
 
 
Conhecendo a Europa
Enquanto os noivos voavam para o nordeste e depois para Europa, os familiares cuidaram de dar destino aos detritos deixados pela festa. Também foram eliminados os sinais do evento. A propriedade retornaria ao seu ritmo de sempre. A família de Ângela, pai e mãe, tomaram a estrada na tarde do dia seguinte. Em Porto Alegre embarcariam alguns dos seus pertences a serem levados para a capital federal. Um apartamento funcional estava à sua espera, com mobília e tudo. Levariam apenas o essencial, uma vez que boa parte do tempo Lourdes estaria em Porto Alegre com a filha.
O voo de Recife para o norte da África, onde fariam uma escala para reabastecimento e eventuais manutenções foi um pouco turbulento. Enfrentaram tempestades durante boa parte do percurso, levando os passageiros, alguns pouco afeitos aos voos de grande altitude e longo curso, a ficarem seriamente preocupados com sua segurança. Até Gaudêncio, habitualmente sereno e seguro, ficou sensivelmente abalado. Foi com alívio que ouviram o anúncio do pouso que aconteceria em poucos minutos. Graças a Deus o céu estava limpo, com boa visibilidade. Aterrissaram sem problemas. O desembarque ocorreu apenas para um breve descanso, esticar as pernas, fazer uma refeição em terra firme. Em uma hora estariam retomando o voo rumo a Paris.
Nossos viajantes fizeram um lanche apenas e foram conhecer as dependências do aeroporto que podiam acessar sem ultrapassar os limites da área de passageiros em trânsito. Quando menos esperavam era hora de voltarem a aeronave. Um dia voltariam para conhecer o Marrocos. De dentro do aeroporto haviam visto de relance o casario da cidade, com suas mesquitas, cercada de áreas semidesérticas, as plantas típicas, totalmente desconhecidas aqui no Brasil.
Aeroporto de Marrakech – Marrocos.

 

Frente do aeroporto de Marrakech – Marrocos.
 
 
A etapa restante da viagem foi mais curta. Desceram no aeroporto D’Orly e dessa vez era para saírem do aeródromo, levando suas malas para o hotel que os esperava. Era noite e a mudança de fuso horário havia mexido com seu metabolismo. Aliado às longas horas de voo intercontinental, deixara ambos alterados. O sono estava desregulado, o apetite fora do normal. Iriam demorar alguns dias para se adaptarem. De posse de seus pertences, entregaram as bagagens a um carregador. Ângela pediu que os levasse a um taxi e logo seguiam rumo ao hotel. Chegaram e Gaudêncio ficou totalmente perdido. Não entendia uma palavra do que os recepcionistas nem os carregadores falavam. Estava completamente dependente de Ângela para se comunicar.
Nos primeiros momentos viu-se a falar português com um francês que lhe fez gestos de desentendido. Quando ia falar poucas e boas ao atrevido, a jovem esposa o socorreu, falando em inglês com o interlocutor. Explicou que ele não falava sua língua, apenas conhecia o português e que não levasse a mal. Depois de se registrarem no hotel, o mesmo boy que estivera a ponto de se desentender com Gaudêncio, os acompanhou até o apartamento. Colocou as malas ao pé da cama, recebeu uma gorjeta e saiu com um:
– Au revoir madam!
            – Au revoir messieur!
            – Eta língua desgraçada que esse povo fala!
            – Sorte sua que eles não entendem o que você diz. Do contrário iria ouvir uma bela lição de civismo e moral. Os franceses são muito orgulhosos de sua língua pátria. Não admitem que alguém a fale de modo errado. Falar mal dela então, nem se deve pensar.
            – Acho que se alguém falar errado o português ou falar mal da nossa língua eu também ia desancar o sujeito.
            – Ninguém gosta que desfaçam das coisas de sua terra.
            – Vamos respeitar a casa deles, né meu amor.
            – Me ajuda a pôr nossas roupas no guarda roupa. Devem estar mais amassadas que alguém que dormiu no baú.
– Imagine, dormir no baú! Deve ser um bocado desconfortável. Não fica só a roupa amassada. O sujeito todo fica igual.
Guardaram as roupas bem arrumadas e os agasalhos que haviam trazido estavam se mostrando insuficientes. No dia seguinte iriam procurar uma loja e adquirir algo mais aconchegante, pois o frio da noite invernal lhes dera boas-vindas. No frigobar havia alguns pacotes de salgadinhos e doces que serviram para mitigar a fome pouco intensa. Depois de uma sessão de amor, primeira digna do nome desde que haviam se unido em matrimônio, dormiram embalados pelo rumor das ruas parisienses. Pela janela do apartamento podia ver ao longe as luzes da Torre Eiffel. Do outro lado era visível em alguns pontos o rio Sena, cujas águas lançavam reflexos prateados das luzes de iluminação pública dos arredores.
 
Mapa do aeroporto Orly – Paris, parte Oeste.
 
Dormiram até depois de oito horas. O café da manhã foi algo de deixar boquiaberto. Pão francês baguete, geleias, manteiga, queijos, patê, defumados e mais uma variedade de coisas que os dois desconheciam. Comeram do que sabiam não atacar seus aparelhos digestivos desacostumados de certos ingredientes. Nada mais desagradável que estar em lugar estranho e ser acometido de um desarranjo digestivo. Na portaria conseguiram um folheto turístico indicando os pontos de maior interesse. Também receberam orientação sobre locais em que pudessem adquirir agasalhos para se protegerem do forte inverno. Lá fora uma camada de uns 15 cm de neve cobria o chão. As ruas haviam sido limpas e o transporte funcionava normalmente.
Um taxi os levou até o endereço fornecido pelo recepcionista. Uma grande variedade de roupas de inverno, tanto masculinas como femininas estava em exposição. Começaram por escolher sobretudos para ambos, toucas de lá, gorros, botas forradas para os pés além de um bom sortimento de peças de vestuário em geral. Quando terminaram estava passando da hora do almoço e decidiram retornar ao hotel para deixar lá o que haviam comprado. Era impossível perambular por diversos lugares arrastando um volume considerável de roupas em sacolas e pacotes. Trajavam o necessário para se proteger do frio intenso do existente na rua, levando o resto. No térreo do hotel havia também um restaurante e foi ali mesmo que almoçaram. Depois iriam passear um pouco.
Não muito longe ficava um teatro, onde estava sendo encenada uma peça bem conceituada e Ângela convenceu o marido a leva-la para ver. Ele concordou de bom grado. Tinha feito o propósito de transformar a viagem de núpcias em um acontecimento inesquecível. O padrinho o aconselhara a não medir gastos, pois a viagem de lua de mel a esposa jamais esquece. Seja ela ótima ou péssima. O que diferia nos dois casos eram as consequências para a vida do casal nos anos posteriores. No passeio da tarde pela área circundante, chegando às margens do Sena, compraram filmes para a câmera fotográfica e para a filmadora. Registraram tomadas de todos os pontos interessantes por onde passaram.
 
Mapa do aeroporto de Orly – Paris.
 
Navios subiam e desciam pelo rio, passando sob as pontes que uniam as partes da cidade de ambas as margens. Foram a pé até a outra margem, depois voltaram e verificaram se ainda existiam bilhetes para aquela noite no teatro. Era um dia de semana, quando o afluxo de espectadores é menor e assim conseguiram os bilhetes. Em um bistrô das redondezas fizeram uma refeição leve enquanto aguardavam a hora de entrar no teatro. A representação foi ótima, apenas Gaudêncio não gostou por não entender absolutamente nada. Mesmo assim, vendo as cenas, ele se divertiu. Tratava-se de uma espécie de comédia, embora contivesse momentos de dramaticidade. Ao saírem do interior da casa de espetáculos, a neve voltara a cair suavemente. Desistiram de caminhar até o hotel e voltaram de taxi. O motorista guiava cuidadosamente pelas ruas escorregadias devido à neve que caía.
Chegaram ao hotel quando já era perto de meia noite. Se refugiaram no seu aposento rapidamente. Lá fora o fria aumentava e um leve vento começava a soprar, aumentando a intensidade da sensação térmica de frio. Na próxima semana visitaram a Torre Eiffel, o Museu do Louvre, a Catedral de Notre Damme, e um grande número de lugares pitorescos. Foram de trem ao sul da França, visitando os lugares mais importantes da região. Quando se está passeando, vendo a cada momento algo novo e diferente, imagens de encher os olhos, o tempo passa depressa. Já estavam na França há nove dias e decidiram pegar o trem para a Suíça. Começariam por Berna, centro administrativo, depois visitariam Zurique e também as principais cidades da Alemanha.
Assim passaram mais doze dias e finalmente voaram de Bohn para Roma. Visitaram o Vaticano, assistiram missa na Basílica de São Pedro, de trem foram a Milão, Veneza, Verona e chegou o dia de embarcar de volta. Estavam há 28 dias na Europa. Até chegarem em casa, teria se passado mais de um mês. Já estavam no começo de fevereiro. O inverno dava sinais de arrefecer a intensidade. Distraídos como haviam estado naqueles dias idílicos, envolvidos pelo amor mútuo, as paisagens deslumbrantes, alguns tombos nos campos de esqui que Gaudêncio fizera questão de visitar e experimentar. Por sorte não se machucara e no final havia conseguido descer um trecho menos inclinado de montanha, acompanhado da esposa. Ela temia cair e mais ainda, que o marido caísse. Não saberia o que fazer se ele se machucasse ali, num país estranho, longe de todos os familiares. Por sorte correu tudo bem. Haviam registrado tudo em fotos e filmes.
No dia 9 de fevereiro embarcaram em Roma e voaram para o norte da África, depois para o Recife no Brasil. Foi chocante chegar ao nordeste, em pleno verão, depois de enfrentar o frio europeu durante um mês inteiro. Ao entardecer do mesmo dia desembarcaram no Aeroporto Salgado Filho em Porto Alegre. Foram direto para o apartamento da família Ferreira e ali se instalaram para ficarem um dia ou dois. Ângela precisava tratar de sua matrícula na faculdade para não perder o ano. Se fosse para São Borja, teria que voltar logo.
Naquela noite ligaram para a casa dos pais de Gaudêncio e também para Joaquim. Todos queriam saber o que tinham para contar, mas isso seria demorado. Ficaria para o momento em que estivessem juntos, numa boa roda de chimarrão, ou saboreando um churrasco de costela gorda. A mãe Maria Conceição quis saber do filho se a nora não estaria grávida e ele lhe falou que isso iria acontecer no momento certo. Não se preocupasse. O neto seria encomendado na hora devida. Era reconfortante estar novamente em solo pátrio. Poder falar à vontade, depois de ficar um mês limitado a trocar algumas palavras sempre com a esposa. Ele se sentira aprisionado, manietado. Queria falar, mas de nada adiantaria, pois não seria entendido. O remédio era dizer o que queria à esposa e ela traduziria para inglês. Depois de ouvir a resposta lhe traduziria novamente. Ficava tremendamente impaciente com isso. No final já havia se acostumado e jurou para si mesmo que estudaria inglês. Na próxima viagem estaria falando fluentemente. As demais línguas que pudesse também haveria de aprender.
O dia seguinte passou com os procedimentos para regularizar tudo na faculdade e a noite chegou. Haviam assistido a tantas sessões de teatro, balé, ópera, orquestras sinfônicas, canto lírico que foi um verdadeiro bálsamo passarem uma noite vendo televisão e depois se recolherem ao leito.
A adaptação à vida íntima havia ocorrido de modo sereno e suave. Ângela tinha sido muito bem orientada pela mãe e fora ao ginecologista antes de viajar para o casamento. Estava preparada para eventuais sensações dolorosas e sangramento na primeira relação, alguma sensação de dolorido nos primeiros dias. A excitação de ambos fora tamanha que tudo transcorrera de modo harmonioso. Ele soubera ser paciente e calmo no momento da consumação. Depois haviam alcançado o clímax na primeira vez, o que havia sido dito ser pouco provável. Para completar acontecera quase simultaneamente e se repetiu mais duas vezes sucessivas antes de se afastarem. Permaneceram abraçados, trocando carícias e beijos. Murmurando palavras de amor eterno ao ouvido um do outro.
No dia subsequente o no outro haviam ficado praticamente só em aviões, descendo num aeroporto, seguindo para o outro até chegarem ao destino. Só então haviam realmente começado sua vida a dois. Mas com certeza valera à pena. Os momentos vividos na fria Europa, ficariam para sempre na memória de ambos, além de estarem registrados nos filmes e fotografias que mandariam revelar. Ele queria mandar fazer isso em Porto Alegre, mas ficariam prontos só dali a três dias e não queriam esperar tanto. Faria isso em São Borja. Também tinha que chegar e providenciar a matrícula, embora tivesse avisado à secretária da escola que estaria viajando. Ela prometera reservar sua vaga, bastando apenas ele ir lá e assinar a ficha quando voltasse. Deveria lembrar de fazer isso antes de ir para casa. Não custaria nada além de alguns minutos para assinar a ficha.
No dia 13 de fevereiro embarcaram para São Borja. No aeroporto estava Joaquim com a caminhonete para levar os dois. Sabia que estariam com um bocado de bagagem a mais do que na ida, mesmo tendo Ângela deixado as roupas de inverno no apartamento em Porto Alegre. Ele os recebeu e abraçou carinhosamente, indagando:
– Como foi a viagem de vocês? Se divertiram bastante?
– O seu afilhado não gostou de não poder conversar diretamente com o povo. Ficava impaciente esperando a tradução.
– Trate de estudar inglês, alemão, italiano, francês, espanhol é até bem fácil. Muito parecido com o português.
– Já falei para ela. Na próxima viagem vou sair daqui falando de tudo. Não vou mais ficar feito bobo esperando tradução. Sabe o que é ficar mais de um mês sem dizer palavra com uma pessoa estranha? Me senti o verdadeiro bobo da corte.
– Vamos andando. Tem almoço na minha casa esperando. Depois vamos para a fazenda.
– Antes de ir para lá vou passar na escola assinar minha matrícula. A Ângela já fez a dela ontem.
– Ele está mesmo levando a sério a coisa. Isso mesmo. É o melhor que tem a fazer.
Embarcaram na caminhonete que ficara perto da pista e foram para a casa de Joaquim na cidade. A cozinheira esperava com o almoço pronto. Era tão diferente comer comida da terra natal, feita pela mão de quem se conhece. Gaudêncio até exagerou um pouco, ficando um pouco sonolento depois. Joaquim falou:
– Quer tirar um cochilo?
– Hã? Não. Vamos logo. Quero passar no colégio e depois ir abraçar o papai e mamãe.
– E eu vou ter que esperar os meus pais virem para Porto Alegre no final do mês para vê-los.
– E eu vou ficar aqui com saudades até sua volta a cada semana.
– Vamos e não comecem a se lamentar agora. A vida de casados não é só flores. Tem os espinhos que vem junto, – falou Joaquim.
Embarcaram e foram tratar da matrícula. Estava tudo pronto, só mesmo faltava a assinatura de Gaudêncio. Assim em menos de dez minutos ele estava ao volante e iam para a fazenda. Estava com saudades de dirigir. Na Europa haviam andado de trem, metrô, avião, um ou outro trecho pequeno de ônibus. Sentira falta de acelerar e sentir o motor do carro roncando sob o capô. Joaquim apenas sorria diante do entusiasmo do afilhado. Pelo visto haviam se entendido perfeitamente na cama, pois não se percebia nenhuma divergência. Tudo estava na mais perfeita ordem. Isso significava dias felizes pela frente e certamente, nos próximos anos, os filhos. Ele os consideraria como netos, embora fosse apenas padrinho do pai.
A recepção da família foi calorosa. O sorriso franco estampado nos rostos de ambos, demonstrava o estado de felicidade em que haviam voltado. Pela hora da chegada significava que haviam almoçado na cidade. Um chimarrão foi preparado com um sorriso largo e satisfeito de Gaudêncio, que disse:
– Vocês não imaginam a saudade que eu estava de um amargo bem cevado. Meu Deus do céu! Cheguei a sonhar com uma cuia e chaleira do lado.
– Sonhou e falou em sonhos. Eu acordei e ele falando em chimarrão. Até eu fiquei com vontade.
– Na próxima vez leva uma cuia e um ou dois pacotes de erva. – disse a mãe.
– Nem sei se pode. São capazes de criar caso na alfândega.
– Isso tem que se informar direito, menino.
– Mas vou mesmo. Ficar tanto tempo sem tomar um amargo, é muito ruim.
– Agora vai matar a saudade. A tarde é para isso. Esquece o serviço e vamos conversar. Pôr as fofocas em dia.
O resto do dia transcorreu em conversas, risadas, um pão de milho quentinho tirado do forno, coberto de melado com requeijão. Ai que coisa boa! Foi então que ele lembrou dos filmes que queria ter deixado para revelar. Bem isso ficaria para outro dia. Também não era nenhuma sangria desatada. Haveria muitos dias, noites, finais de semana para mostrar as fotografias. Portanto nenhuma pressa em revelar. Queria um trabalho de primeira qualidade nessa revelação e produção de cópias. Isso seria mostrado um dia aos filhos e filhas, talvez mesmo os netos, se Deus os agraciasse com essa graça.
Ao entardecer foram para a casa onde iriam morar. Estava tudo limpo e arrumado. Maria Conceição mandara uma faxineira deixar tudo impecável para a hora de os dois chegarem. Era desagradável demais encontrar a casa suja, os móveis cobertos de pó, roupa de cama com cheiro de estar ali há tempo. Os cobertores haviam sido postos no sol para ficarem em ótimas condições.
As duas semanas que restavam de fevereiro passaram céleres e estavam se separando para o início das aulas. Dona Lourdes chegaria no mesmo dia a Porto Alegre para ficar coma filha nos primeiros dias de aulas daquele ano. No primeiro final de semana Gaudêncio viajou para ver a mulher. Assim aconteceu alternadamente por quase o ano inteiro. Ora era ela que vinha, ora ele ia e nisso o ano passou. O general estava empenhado em seu trabalho no Estado Maior e raras vezes vinha junto com a esposa, cujas visitas eram feitas mais amiúde. O final do ano chegou e com isso estava marcada a formatura de Ângela. Gaudêncio havia alcançado mais um objetivo. Sua aprovação acontecera ao final do terceiro bimestre, ficando o quarto para manter média. Seu conceito na escola estava no máximo.
No momento da colação de grau estavam presentes Pedro Paulo, Maria Conceição, Gaudêncio e os pais dela. Antes houvera a celebração de missa e também um culto evangélico, pois um bom número de formandos professavam esses credos. Era importante o respeito religioso entre eles. O país é democrático e não havia religião oficial. Para concluir a comemoração, foram ao baile. Dança dos formandos, dança de formando(a) com mãe ou pai, marido, esposa. Alguns discursos e muita alegria. Haviam passado muitas horas em convivência, estudado juntos, feito trabalhos, exercícios. Agora iriam cada um atuar em um local diferente e bem provavelmente haveria poucos momentos de encontro. A família de Ângela foi a São Borja passar os feriados de final de ano. O General tirara alguns dias de folga, depois de um ano e meio de trabalho quase contínuo.
Aeroporto de Roma
 
O novo casal, agora poderia viver junto sem precisar passar mais tempo distantes entre si. Começaria agora de verdade a vida de casados. Dormiriam e acordariam juntos dia após dia. Poderiam pensar em ter filhos, cuidar deles com carinho e amor. Faze-los sentir o quanto haviam sido desejados e seriam amados pelo resto das vidas. Após o Ano Novo, Ângela parou de tomar pílulas e depois de dois meses apareceu a novidade. Estava grávida e o filho deveria nascer no mês de novembro, talvez começo de dezembro. O pai da criança por nascer ficou eufórico e fazia planos para quando o herdeiro nascesse, esquecendo completamente da possibilidade de ser uma menina e não um menino.
Os meses correram, embora para Gaudêncio parecessem não passar, tamanha era a ansiedade. Quando foram comprar as roupas para o enxoval da criança só queria coisas de cor azul, ou vermelho que é a cor principal do time do coração. Já Ângela optava mais por cores neutras, pois se comprasse rosa, poderia ter que deixar guardado para o momento de nascer uma filha. Não ficaria bem vestir um menino com roupas dessa cor. Nem tampouco uma menina na cor azul, pareceria muito normal. Não se importava com as roupas que ele escolhia, mas juntava outro tanto de amarelinho claro, bege, estampado, cores que poderiam ser usadas tanto por um menino como uma menina. No meio do ano os pais dela vieram visita-los e passaram uma semana na fazenda. No começo do ano seguinte o general passaria para a reserva e queria começar a procurar um pedacinho de terra ali perto da fazenda.
Iria colocar o apartamento na capital à venda. Com esse dinheiro, mais um pecúlio que havia feito durante os longos anos de serviço, dariam para começar uma pequena propriedade. Evidentemente precisaria de orientação, trabalhadores, pois na idade que estava não iria aprender nem suportar fazer o trabalho pesado de agricultura. Queria mesmo ter seu pomar, uma boa horta, uma vaca para tirar leite e estar perto da filha, junto com a esposa. Viveria seus dias derradeiros com a família, preenchendo o vazio que muitas vezes ficara até ali, por força do seu trabalho como militar.
 Gaudêncio se prontificou em procurar uma propriedade do tipo que o sogro queria. Inclusive nos dias que estavam juntos andaram percorrendo algumas propriedades e indagando de um ou outro sobre a possibilidade de venda. O valor aproximado, tamanho, algumas sugestões sobre o que plantar como opção de alguma renda para não virar uma área improdutiva. Os dias passaram e não encontraram o que procuravam. O casal voltou para Porto Alegre. Ângela não os acompanhou pois o ginecologista havia orientado para tomar alguns cuidados nos meses finas da gestação. O ventre estava crescendo um pouco além do normal.
Algumas semanas depois de os pais retornarem à Brasília, ela foi fazer sua consulta periódica ao ginecologista. Estavam no começo de agosto. Ao observar o ventre, medir a circunferência e depois auscultar o coração do feto, em dado momento o médico levantou o olhar, fitou o pai que a acompanhava, depois ela e falou:
– Vamos ter uma surpresa aqui.
– O que doutor? Alguma coisa errada?
– Eu não falei que tinha algo errado. Não seja apressado. Deixe-me terminar o exame depois eu falo.
E voltou ao exame, mas detalhado e demorado que o habitual. Isso deveria ser devido ao momento mais avançado da gestação, pensou Ângela e olhou o marido que sentado ao lado estava olhando ansiosamente para o médico. Depois de um longo momento escutando de um lado, depois do outro, finalmente o Dr. Raimundo falou:
– Podem preparar o enxoval dobrado. São gêmeos.
– O que? – quis saber Ângela.
– Eu disse que vocês vão ter dois filhos. Podem ser um menino e uma menina, ou dois meninos, ou duas meninas.
Os pais começaram a rir, misturando lágrimas com riso e não paravam. Por fim o médico falou novamente:
– É uma grande benção. Só quero alertar que também uma grande responsabilidade. Cuidar de uma criança é trabalhos. Imaginem duas ao mesmo tempo. Mas certamente os avós vão ajudar muito a cuidar desses bebês.
Ele fez recomendações especiais, inclusive seria conveniente irem a Porto Alegre para fazerem um exame de ecografia, por enquanto só existente por lá. Ali na fronteira ainda não estava disponível esse equipamento. Um exame desses seria importante para informar se os fetos estavam em desenvolvimento normal, se talvez fosse preciso uma internação na UTI com incubadora e algum tratamento especial. Depois de prescrever tudo isso e recomendar o maior cuidado no transporte, bem como na vida em casa até o nascimento, se despediu pedindo o retorno ao consultório dali para frente a cada mês. Queria acompanhar mais de perto essa gestação para não ser tomado de surpresa.
Ao chegarem em casa e contarem aos avós Pedro e Maria, os mesmos ficaram satisfeitíssimos. Logo depois foi a vez de Joaquim receber a novidade e também entrar em agitação nunca imaginada. Como gostaria de partilhar esse momento com a finada esposa. Certamente ela estaria olhando para eles lá do céu e se alegrando. Joaquim julgou melhor viajarem para capital de automóvel e poderem fazer o caminho em etapas. Isso permitiria descansar por algum tempo sempre que a gestante se sentisse cansada. No avião haveria o ganho com o tempo, mas uma vez no ar, não haveria o que fazer antes de encontrar um lugar para aterrissar. Assim decidiram irem os três. Pedro se encarregaria de cuidar de tudo e Joaquim acompanharia o jovem casal de futuros pais na viagem. Poderiam alternar na direção e não se cansar em demasia.
Iniciaram a viagem bem de madrugada e seguiram pelo asfalto inaugurado poucos anos antes. Era bem conservado e conseguiram cobrir boa parte do caminho antes de a temperatura subir demais. Estavam perto de Santa Maria e decidiram que descansariam ali, até o sol ficar menos intenso. Depois então seguiriam até a capital, pois dali seriam pouco mais de trezentos quilômetros. O exame pedido de ecografia além de alguns outros estavam marcados para o dia seguinte. Poderiam descansar e bem cedo irem aos laboratórios para coletar material e depois irem fazer a tal ecografia.
No momento em que apareceu na pequena tela do aparelho o coração de um dos fetos batendo, depois uma cabeça, logo outra, as duas próximas, permitindo visualizar apenas parte de cada uma. A alegria dos dois foi indizível. O exame foi minucioso e detalhado. O Dr. Raimundo mantinha amizade com o especialista da capital e ao saber da recomendação, ele passara a tratá-los com mais zelo ainda. Ao terminar o exame, fez uma chapa, semelhante a um raio-x, apenas de tamanho pequeno. Depois relatou detalhadamente tudo o que pudera observar durante o exame. O estágio de desenvolvimento fetal, o número aproximado de semanas da gestação, análise comparativa dos pesos e outros informes que só os médicos entendiam mesmo. Ao lhes entregar o resultado falou:
– Podem ficar muito tranquilos. Os filhos de vocês estão ótimos, o tamanho é quase de crianças que nascem de gestações de único feto, tamanhos praticamente iguais. Querem saber o sexo?
– Isso é possível?
– Não posso dizer 100% de certeza, mas pelo observado são um menino e uma menina.
– Obrigado doutor. Suas palavras nos deixam mais tranquilos. Tínhamos ficado preocupados, pois é comum gêmeos nascerem muito pequenos, ou um bem menor que o outro.
– Os de vocês são quase do mesmo tamanho e até o final devem chegar a mais de dois quilos cada um. Por isso que esse abdômen está tão distendido.
Ângela se vestiu e saíram da sala de exames. O olhar de vê-los estava ansioso:
– Pode sossegar, padrinho. Provavelmente é um casal e estão muito bem, diz o doutor. Tem quase o mesmo tamanho e vão pesar mais de dois quilos.
– Caramba. Pena que eu não pude ver.
– Veja aqui tem uma chapa que o aparelho faz. Mostra um pouco dos dois.
O homem idoso, olhou atentamente a pequena peça de material, coberto de pontos de cores variadas, onde se conseguia ver alguma coisa parecida com uma forma humana, mas sem detalhes. Seus olhos se encheram de lágrimas.
– Padrinho, não chore. Eles vão lhe chamar de vovô também.
– Eu choro de alegria, meus filhos – disse e abraçou a ambos.
– Já temos o exame mais importante. Precisamos só esperar os outros ficarem prontos até depois de amanhã.
– Vamos para o apartamento de papai e mamãe. Ainda não deve ter sido vendido e tenho comigo a chave.
Embarcaram no automóvel e foram para lá. Deixaram o carro na vaga da garagem e subiram. A noite anterior haviam passado numa hospedaria, pois não haviam encontrado vaga em hotel e era muito tarde para irem até o apartamento.
Depois de deixarem Ângela no quarto descansando, os dois homens foram até o supermercado fazer algumas compras para passar os dois dias até a sexta feira depois do almoço. Talvez viajassem depois até Santa Maria, para prosseguir na madrugada seguinte. O apartamento estava entregue aos cuidados de uma imobiliária para venda. Os móveis estavam ali até o momento da efetivação da venda. Ângela se encarregou de cozinhar para eles e ocuparam o tempo indo ver algumas coisinhas diferentes para os bebês, uma vez que agora sabiam com certeza serem dois e também que, quase certo, era um casal. Por isso poderiam comprar tudo dobrado, nas cores azul e rosa.
 
Aeroporto de Casablanca
 
Foi o que fizeram e voltaram com uma pequena montanha de sacolas cheias. Não faltariam roupas para os dois pequenos. O avô postiço como ele se intitulava, tinha dado sua contribuição, comprando um carrinho duplo para duas crianças e também cobertores e outras peças de roupas. Não poderiam comprar coisas demais com o risco de faltar espaço no carro e terem que despachar por transportadora.
A viagem de retorno correu normalmente. Enquanto estavam no apartamento, fizeram uma chamada para Brasília e comunicaram aos avós maternos a novidade. Faltou pouco para os dois largarem tudo e virem naquela noite mesmo para o sul. Não fosse tão pouco tempo que faltava para a reserva, teriam vindo. No último momento haviam mantido o controle e não fariam loucura nenhuma. Esperariam as crianças nascerem e viriam conhecer os netos.
Na próxima visita ao doutor Raimundo, levaram os exames todos prontos. Ele ficou muito satisfeito e tranquilo quando viu o laudo do colega da capital. Sabia agora que não haveria necessidade de se preocupar com uma intervenção cesariana para evitar sofrimento fetal ou da mãe. O desenvolvimento indicava que nem estufa precisariam.
De fato, no dia 28 de novembro de 1983, nasceram Paulo Joaquim Ferreira Neves e Maria de Lourdes Ferreira Neves. Ele pesando 2,260 kg e ela 2,180 kg. Ela nasceu primeiro e ele por último, havendo entre eles um intervalo de 10 minutos. Mal Maria de Lourdes chorara, nasceu Paulo Joaquim e não demorou também em pôr sua boca no mundo. Foram pesados, medidos e limpos. Depois foram vestidos e colocados nos braços da mãe que os aguardava ansiosa. O pai estava ao lado e olhava embevecido para a esposa. Era um sonho realizado. Mais tarde faria uma chamada para Brasília comunicando o nascimento aos sogros. Igualmente informaria de que tudo correra muito bem. Poderiam ficar descansados.
Logo depois avisou ao padrinho que se encarregou de ir até a fazenda avisar os avós paternos. A fazenda entrou em festa. Os empegados todos estimavam demasiadamente Gaudêncio e também Ângela. O nascimento de um casal de filhos era uma verdadeira benção.
O apartamento em havia sido vendido mobiliado como estava. O dinheiro fora depositado em uma conta poupança para não haver desvalorização demasiada. Gaudêncio tinha duas propriedades em vista e esperava o sogro vir para leva-lo a ver ambas. Ele decidiria qual iria comprar. Os preços eram semelhantes e cabiam no orçamento que ele tinha. Se houvesse necessidade de algum suplemento não havia impedimento em fazer um adiantamento.
Os avós maternos vieram para os festejos natalinos e nesse período foi feita a compra da propriedade. Tão logo o sogro se desvencilhasse dos compromissos com o exército, viriam morar ali. Enquanto isso as crianças cresciam a olhos vistos. A mãe tinha leite em abundância de modo que não faltava alimento para os dois pequenos gulosos. Os avós de ambos os lados, mais o avô postiço Joaquim, pareciam dois pares de velhos corujas, com um corujão ao lado paparicando os netos.
O tempo passou, eles foram batizados, o registro civil fora feito no dia imediato ao do nascimento. Depois de um ano e meio de idade ganharam uma irmã de nome Lourdes Conceição Ferreira Neves e dali a dois anos nasceu Gaudêncio Ferreira Neves, completando a família. Para quem era filho único, afilhado de padrinho sem filhos, era um bom número. Os pais eram um desvelo só com os pimpolhos e os avós completavam o grupo. Viviam uma verdadeira vida familiar, todos residindo próximos. Apenas Joaquim, quando não estava viajando, ficava junto na fazenda para não perder um dia do crescimento das crianças. Isso enquanto pode se dar ao luxo de viajar. Depois de 1990, sua saúde começou a declinar e foi preciso ficar mais recluso. Poderia eventualmente viajar, porém acompanhado de alguém para prover socorro em qualquer emergência.
O general aprendeu a fazer uma porção de coisas na sua propriedade. Até tirar leite aprendeu. Tinha ao adquirir o imóvel já plantado um pomar, algumas parreiras e por isso ele tinha especial apreço. O Brasil foi redemocratizado em 1986, tendo assumido a presidência da República o Vice José Sarney, em lugar do finado Tancredo de Almeida Neves. O filho caçula de Ângela e Gaudêncio nasceu em 1987, quando o plano cruzado já estava naufragando, vindo logo a seguir o plano cruzado dois, depois plano Bresser e outras invenções que não conseguiram domar o dragão voraz da inflação na economia nacional.

 

O restante da história…fica para ser contado em outro momento. Agora ele não tem importância.
Aeroporto de Roma, visão interna.
 

Foto de Roma – Itália.

Gaúcho de São Borja! – Capítulo XX

 

1.  
Preparativos para o casamento
Na terça pela manhã, bem cedo, Gaudêncio estava na estrada rumando para a fazenda Santa Maria. A ordenha da manhã ainda não terminada quando ele encostou a caminhonete nas proximidades. Maria Conceição o viu e veio ao encontro dando-lhe um abraço. Sempre que o filho se ausentava, a saudade batia forte. O rosto sorridente do filho a fez adivinhar que a missão com que ele fora a capital havia sido coroada de êxito. Em outras palavras, o casamento tinha sido marcado. Faltava apenas saber qual o dia escolhido e o local da comemoração. Ela ardia de vontade de perguntar, porém preferiu aguardar ele falar e satisfazer sua curiosidade.
Começou falando que haviam nascido vários bezerrinhos das novilhas adquiridas no mês de janeiro. Ainda não estavam aproveitando o leite, pois nos primeiros dias ainda desce o colostro o que torna o produto inservível para a indústria de laticínios. Dentro de uns 5 ou 6 dias haveria um razoável incremento na produção de leite. Mais um grupo estava na iminência de parir de hoje para amanhã. Dava bastante trabalho, mas era muito bonito ver os pequenos bichinhos começar a caminhar tropegamente, depois começar a se alimentar, aos poucos começar a se firmar e dar os primeiros pulinhos, uma e outra corridinha.
Nesse momento Pedro Paulo também se aproximou e não esperou:
– E então, filho? Casamento marcado? Podemos começar a preparar a festa?
– E vocês duvidaram?
– Não que nos duvidemos, mas sempre fica uma pontinha de dúvida, né.
            – Pode preparar a fatiota, bota nova, lenço vistoso para janeiro, papai. Satisfeito?
            – Pensei que ia ser logo. Só em janeiro? – falou Conceição.
            – É que para julho ia ser muito pouco tempo. Depois eu tenho aula, a Ângela também, não daria certo perder muitos dias. Foi a melhor época. Dia 10 de janeiro, está bem?
            – Ótimo, filho. Assim dá tempo de fazer tudo com calma. Já falou com seu padrinho?
            – Já. Ele ficou contente. Também imaginou que gente ia casar logo agora, dentro de uns dois ou três meses, mas no fim também ficou contente.
            – Qualquer dia é bom. O importante é que esteja tudo dentro dos conformes. Como manda a lei e os bons costumes.
            – Tudo na melhor ordem, mãe. Não poderia ser melhor, pode ter certeza.
            As últimas vacas terminaram de ser ordenhadas e o encarregado do serviço assumiu a conclusão de tudo. O transporte do leite logo estaria ali para levar a produção da noite anterior e a de agora pela manhã. Os três foram para a casa, onde havia água quente no fogão, a cuia preparada para o mate que logo foi cevado e rodou entre eles. Maria Conceição usou a água de outra cheleira para coar café e pôs leite para aquecer. Retirou o pão caseiro do armário, colocou sobre a mesa também o queijo, nata guardada na geladeira, melado comprado da região mais ao norte, onde se cultivava cana de açúcar. Depois sentou por uns minutos esperando o leite dar sinal de ferver. Era o momento crítico. Um descuido e derramava um bocado sobre o fogão, sujando tudo.
            Pedro se encarregou de contar as demais novidades ocorridas no final de semana. Haviam remanejado o gado de corte para outra invernada onde o pasto estava mais forte e não causaria atraso no processo de engorda. O capim na área de arroz estava bem crescido. Logo poderiam colocar o gado para pastar naquela área. Assim, na época de plantar o arroz, não haveria muito que eliminar para permitir o plantio. Além de alimentar o gado, limpava o terreno.
            Gaudêncio estava cada vez mais envolvido com suas aulas, leituras, exercícios para resolver e estudar para as provas. Havia obtido resultados muito bons no primeiro bimestre e as provas do segundo estavam próximas. Havia trabalhos por fazer, trazia livros da biblioteca da escola, outros encontrava na biblioteca municipal, ou comprava na livraria. Por graça de seu padrinho, podia dar-se esse pequeno luxo. Assim ia formando uma biblioteca própria, juntando livros de literatura e assuntos diversos. As revistas sobre agricultura que, embora poucas, traziam informações importantes e ele as reunia em ordem cronológica, separando por categoria. O que antes não merecia um mínimo de sua atenção, agora estava ocupando uma das primeiras posições.
            À todas as ocupações já existentes em sua vida, viera somar-se a preparação para o casamento. Nas próximas semanas, na ocasião de ir a cidade para algum assunto relativo à fazenda, aproveitaria para falar com o padre da matriz. Iria até o fórum pedir informações sobre os trêmites para o casamento no civil. Assim não teria surpresas quando fosse a hora de encaminhar a documentação.
            No dia da chegada, depois de colocar em dia as novidades, foi com Pedro Paulo supervisionar todos os setores da propriedade. Verificou as providências a tomar com relação ao gado de todas as categorias. Questões relativas a limites de pastagens, manejo do gado entre as invernadas, cuidados com as vacas de leite, especialmente as novilhas que estavam parindo naqueles dias. Encontrou uma quinzena de bezerros de poucos dias, boa parte de fêmeas. Os machinhos iriam fazer parte do gado de corte, no momento em que estivessem em idade de sobreviver apenas pastando. Já as fêmeas teriam seu desenvolvimento acompanhado de perto, para separar aquelas que apresentassem melhor conformação visando a reprodução. Iriam substituir as que agora produziam e iriam atingir a idade em que sua produtividade começa a declinar.
            Estava lendo em uma das revistas um artigo falando de um sistema de controle dessa parte, visando a melhoria do aproveitamento geral. Depois que dominasse o assunto e depois de se aconselhar com o veterinário da cooperativa, implantaria o sistema na fazenda. Seria uma carga a mais de trabalho, mas pelo que havia lido, traria retorno certo. Talvez, depois de casado, a esposa poderia ajudar nessa parte mais burocrática, nos momentos em que não estivesse ocupada com atividades de sua profissão. Se não fosse possível, contrataria um funcionário ou funcionária para fazer esse trabalho.
            A cooperativa estava cadastrando todos os plantadores de arroz que iriam aderir ao sistema de criação de peixes nos arrozais. Queriam saber as áreas envolvidas para fazer a previsão do número de alevinos necessários. Um convênio com a associação de pescadores havia sido firmado, estando o trabalho de ampliação e melhoria das instalações em andamento. Haveria necessidade de uma área de estocagem bem mais ampla, uma vez que previam uma elevação gigantesca da quantidade de pescado produzido. Para isso havia necessidade de conhecer com bastante precisão o volume total que poderia ser esperado ao final do ciclo.
            Eram frequentes as visitas de proprietários da redondeza à fazenda para verem com os próprios olhos e esclarecer dúvidas com quem tinha pelo menos um ano de experiência na atividade. O mês de junho foi bastante cansativo para nosso jovem estudante, administrador de fazenda, noivo e agora mesmo interessado de alguma forma em pesquisas. Tinha sede de inovações e nada que lhe parecesse interessante era deixado de lado, sem ao menos uma criteriosa análise.
            Joaquim ficava cada vez mais folgado. Bendizia o fato de ter nomeado o afilhado seu herdeiro. Ele agora assumia toda a carega de trabalho, trazendo a ele apenas as questões já mastigadas, para obter o seu aval antes de iniciar alguma mudança mais significativa. Resolveu no segundo semestre realizar mais uma viagem ao exterior. Dessa vez conheceria os países da América do Sul, começando pela Argentina, depois Chile e pelo menos as capitais dos outros. Talvez incluísse a América Central no roteiro. Procurou uma agência de viagens existente na cidade em busca de informações sobre passagens, hospedagem e lugares interessantes. Depois dessa fase, definido o roteiro, preparou-se para partir no final de agosto. Queria estar de retorno final de outubro, começo de novembro.
            Enquanto isso, no mês de julho Gaudêncio fez outra visita à capital para ver a noiva. Queria combinar a época em que ela viria para São Borja para encaminharem a documentação para o casamento. Na ocasião o general não veio no final de semana. Ficou retido em reuniões emergenciais na capital federal. Estando apenas a mãe Lourdes e a filha Ângela, aproveitaram para fazer uma excursão à região de Garibaldi e Bento Gonçalves. Sabiam que ali nessa época o clima, devido ao frio era bem agradável. Combinava boa comida, vinhos da região e lugares muito pitorescos.
            Voltaram somente na segunda-feira pela manhã. Ficou combinado que se encontrariam na Semana da Pátria em São Borja e encaminhariam os documentos. Não haveria demora e talvez Ângela precisasse perder apenas um dia de aulas, o que não representaria grandes problemas. Retornou para casa na terça-feira após o almoço. Nesse tempo as novilhas adquiridas estavam todas em plena produção de leite. Algumas das mais velhas, já um tanto decrépitas tinham sido descartadas. Não era mais compensador mantê-las no plantel. De tempo em tempo mais uma outra novilha criava, pois tinham sempre algumas provenientes das antigas produtoras de leite.
            Uma das providências a tomar seria fazer grupos de matrizes para escalonar as épocas de cria e assim conseguir manter um nível de produtividade mais uniforme durante o ano inteiro. Isso representava uma remuneração melhor do leite no período inteiro. Quem produzia bem no verão e tinha queda acentuada no inverno, era remunerado bem pela média do inverno, tendo um desconto significativo pelo volume restante. Cada centavo perdido, representava prejuízo no final do mês. Se conseguisse planejar a época de cria e produção plena das matrizes, seria possível fazer com que o volume maior fosse exatamente nos meses de inverno. Na situação ideal não haveria variação.
            Antes de embarcar para a sua viagem, Joaquim determinou ao afilhado que não deveria se preocupar com casa para morar depois de casar. Bastaria conservar o seu quarto na casa e poderiam ocupar o resto sem reservas. Ficaria mais tempo na cidade ou viajando, o que tornava desnecessária a eventual construção de uma residência para o jovem casal. Deveriam aproveitar a ocasião da vinda de Ângela em setembro para planejarem as reformas que iriam querer fazer e dar andamento ao processo. Assim, quando ele voltasse e o enlace estivesse perto estaria tudo pronto. Gaudêncio comunicou à noiva esse detalhe. Ela, no primeiro momento falou que nem iria querer reformar nada. Decidiram que falariam sobre isso na hora certa.
            O final de agosto chegou e Joaquim passou para o lado Argentino, de onde embarcou em um ônibus indo até a primeira estação da estrada de ferro. Dali viajo de trem até Buenos Aires, fazendo escalas em diversos localidades ao longo do caminho. Da capital viajou de avião à capital do Chile e depois percorreu os principais lugares dignos de serem vistos, de ônibus. Visitou as capitais dos demais países. No Perú foi conhecer Machu-Pichu. Subiu ao deserto do Atacama. Na América Central visitou a Nicarágua, Costa Rica e Panamá e México. Ficou tentado a dar um pulo em Cuba, mas desistiu no último momento. Voltou no final de outubro, quando o arroz já estava plantado e em alguns dias chegariam os alevinos. Seria um momento histórico, pois a quantidade de pequenos peixes que seriam soltos nos cultivos de arroz, era algo descomunal.
            Enquanto Joaquim viajava, chegou a semana da pátria e Ângela veio para a fazenda. A mãe por sua vez viajou para Brasília ao encontro do marido. Nos dias de sua permanência, para não causar falatórios, Maria Conceição e Pedro Paulo ficaram hospedados na casa grande, ocupando um dos quartos de hóspedes. As pequenas alterações sugeridas pela noiva foram insignificantes aos olhos de Gaudêncio. Ele esperava uma mudança mais profunda, mas não foi isso que ocorreu. Ela achou tudo muito bom. A maior mudança foi uma nova pintura, trocando a cor de algumas dependências, detalhes como o tom das janelas e portas deram um aspecto mais alegre à residência. Em pouco mais de um mês tudo havia sido feito. Ele tirou fotografias e mandou revelar. Depois enviou por correio para ela ver como havia ficado.
            Ao telefone ela lhe informou que estava perfeito. Alguma coisa que precisasse ser mudada depois, poderia ser feito com tempo e calma, sem atropelos. Iriam escolher em desembro alguma coisa no quesito móveis para harmonizar a nova pintura com a decoração em geral. A documentação havia sido encaminhada e estava tudo pronto e previsto. Os convites haviam sido encomendados no local e apenas o número necessário para os amigos e parentes da noiva foram levados por Gaudêncio em sua próxima visita, logo no começo de novembro, após a volta de Joaquim.
            As atividades de instalação na associação de pescadores estavam a pleno vapor. Teriam ainda que fazer testes, corrigir eventuais problemas que surgissem, antes de receberem o imenso volume de pescado previsto. Ocorreu naquele ano um fluxo considerável de moradores da cidade em visita às fazendas para verem o movimento constante dos peixinhos nas águas que envolviam os pés do arroz. Formavam um espetáculo só possível de ver nesses lugares. Houve que repetiu a visita com algumas semanas de diferença, encontrando uma enorme diferença entre o tamanho dos peixes. Pareciam crescer a olhos vistos. Os próprios fazendeiros acompanhavam o desenvolvimento com curiosidade. Era algo difícil de acreditar que aqueles pequenos pontinhos escuros na água, em pouco mais de dois meses estavam muitas vezes maiores.
            O estoque de pescado feito no início do ano, estava terminado. O produto caira no gosto da população, passando a ser bastante procurado. Quando os últimos pacotes foram vendidos, os pescadores, os consumidores e comerciantes passaram a esperar ansiosos pelo dia em que pudessem novamente contar com o produto.
            Os convites para o casamento haviam sido enviados ou entregues em mãos aos convidados, as roupas para a ocasião estavam sendo confeccionadas. Muita gente mandou fazer roupas novas, elevando bastante a quantidade de encomendas recebidas pelos alfaiates, costureiras e mesmo sapateiros. Havia os que faziam sob medida as botas para muitos clientes há muitos anos e era preciso encomendar com muita antecedência. Quem queria estar com uma bota nova, reluzente e diferente sabia que precisava tratar do assunto com tempo hábil para ficarem prontas. Também havia os usuários de guaiacas, igualmente feitos sob encomenda. Uma guaiaca nova demorava alguns dias para ficar pronta. Um volume elevado, tornava a espera bem maior.
            Dessa forma, em dezembro chegaram Ângela e sua mãe Lourdes para a escolha dos móveis do quarto e alguma coisa a ser trocada no restante da casa. Gaudêncio as levou às lojas da cidade e procuraram pelos artigos que fossem de seu agrado. Como estavam ainda no começo do mês, ocorreu à ele procurar uma marcenaria e ver se haveria possibilidade de fazer alguma coisa sob encomenda, pois estava difícil encontrar o que tinham em mente. Mediante a promessa de um pagamento adicional conseguiram o milagre. O marceneiro os acompanhou à fazenda e tomou as medidas. Assim faria tudo sob medida o que daria um toque pessoal ao ambiente.
            Passaram mais tempo passeando e conhecendo a cidade do que fazendo compras. Não tinham necessidade de adquirir louças, utensílios e demais pertences da casa. Havia tudo e até em excesso. Nunca usariam tudo o que tinha naquela casa. As roupas para a cama seriam compradas na capital, onde existia maior diversidade de produtos, escolha de cores e marcas. Na volta para a capital Ângela iria experimentar o vestido e fazer as últimas provas para conclusão de seu terceiro ano de faculdade. Gaudêncio terminara de fazer as provas do quarto bimestre e fora aprovado por média. Nenhuma prova final, ou recuperação a fazer. Estava bastante envaidecido com isso e recebeu congratulações de Joaquim, bem como de Ângela ao chegar.
            Ele fez questão de levar a noiva para conhecer alguns dos professores da escola que estavam em atividade, atendendo os alunos que ainda batalhavam para conseguir sua aprovação. Os elogios que recebeu foram unânimes de todos os lados. Ângela foi convidada a fazer parte do quadro funcional da escola ou outra na cidade, quando concluísse sua formação. Ao saberem do casamento em janeiro, imaginaram que ela iria desistir da faculdade. Ficaram encantados com a solução que haviam encontrado para não pararem de estudar. Ali estava um casal que, além de se amar, olhava par ao futuro. Certamente teriam um belo porvir.
            O mês de janeiro passou e chegou o início do ano. Poucos dias separavam o casal da hora marcada. A família de Ângela chegou no dia 5 e ficou hospedada na casa de Joaquim na cidade. Era mais conveniente. A noiva viria de uma casa e o noivo de outra. Depois de casados seguiriam para a fazenda onde aconteceria a festa, seguida de fandango e muita brincadeira. Alguns presentes começaram a chegar de diferentes procedências, sendo entregues em veículos de entrega. Os convidados faziam as compras numa mesma loja e assim a entrega era feita de uma vez, trazendo os cartões de felicitações de quem os ofertava.
            No dia marcado, uma Ângela radiante e brilhante em seu vestido simples, mas de muito bom gosto. Uma grinalda singela com algumas brilhantes pedrarias e com um véu discreto, completavam sua indumentária. O noivo estava ligeiramente desconfortável em seu terno, vestuário que poucas vezes usara até aquele dia. A camisa, imaculadamente branca e a gravata eram para ele um pequeno tormento. Mas nada lhe tiraria a alegria de estar devidamente trajado para receber por esposa a eleita de seu coração.
            A igreja estava repleta de convidades e alguns curiosos, o Padre e o Juiz estavam a postos para realizarem simultaneamente a cerimonia religiosa com a civil. No momento das palavras “pode beijar a noiva”, os dois se olharam fundo nos olhos e depois de um momento, se abraçaram carinhosamente, trocando um beijo ardente. As palmas soaram no recinto da igreja e logo iniciaram o processo de assinaturas dos documentos, a presença das testemunhas, dos pais para depois iniciarem o desfile pelo corredor até a porte, de onde o padrinho Joaquim os levaria de automóvel para a fazenda. Formou-se um longo cortejo no caminho da fazenda. Boa parte dos convidados que conheciam o caminho, iam à frente. Os demais seguiam após o carro que levava os noivos.
            Na fazenda, o grande galpão estava limpo e ornamentado para festa. Ao lado, um imenso fogo de chão dava conta de assar uma grande quantidade costelas inteiras no mais tradicional estilo gaúcho. Em uma churrasqueira próxima estavam sendo assadas as carnes diferentes como picanha, galeto, carne de porco, linguicinha e miúdos de frango. Logo na chegada os convidados eram recebidos com uma porção de linguiça assada, um copinho com vinho ou uma cerveja para acompanhar. As crianças e adolescentes tinham ao seu dispor vários tipos de refrigerantes. A chegada dos noivos foi saudada com uma ensurdecedora salva de fogos de artifício. Os músicos tocaram e cantaram Parabéns pra vocês, depois outras músicas próprias para a ocasião.
            Poesias foram recitadas, alguns pequenos discursos pronunciados e a seguir Joaquim, em nome dos pais dos noivos, convidou a todos para buscarem assento nos bancos que ladeavam as muitas mesas disponíveis. Os noivos, padrinhos, pais, amigos mais chegados, tinham uma mesa especial. Logo depois iniciou-se a tarefa de servir os acompanhamentos para a grande quantidade de carne assada. Num vaivém ininterrupto os encarregados desse serviço, levavam e traziam os enormes espetos com as costelas, cortavam a cada um o pedaço escolhido. Seguiam em frente até o momento que era visível o resfriamento. Era então levado de volta ao fogo e logo outro espeto estava nas mãos do servente sendo levado aos comensais.
            Quando ninguém mais aguentava engolir um pedacinho de carne sequer, ainda havia uma boa quantidade dela pronta para ser consumida. Foi o momento de servir a sobremesa e mais um pouco de bebida. O consumo abundante de carne e acompanhamentos, parecia neutralizar o efeito do álcool do vinho e da cerveja. Havia sim um e outro leventente alegre, nada porém que fosse preocupante. Diversas brincadeiras com os noivos foram feitas, tais como cortar a gravata e vender em pedacinhos, leiloar o sapato da noiva. Quem o arrematasse tinha o direito de colocar o sapato no pé dela. Evidentemente sob a supervisão do noivo. A grande quantidade de comida e bebida, fez efeito. Não tardou para serem vistos inúmeros dorminhocos espalhados por todos os lugares que se prestassem para tirar uma soneca.
            Quando os músicos começaram a executar toda variedade de músicas e as mesas foram removidas do centro do galpão, começou o fandango. A dança dos noivos, a dança da noiva, do noivo, igualmente leiloados entre os homens e as mulheres. O vencedor do leilão ganhava o direito de dançar a música com a noiva ou noivo, conforme o caso. As brincadeiras se sucederam tarde afora. Danças típicas, demonstrações de danças flocfolclóricaso a chula, sapateado e outras. Uma sessão de repentistas teve lugar, até que foi anunciada a hora do café da tarde. Primeiro foi cortado o bolo de casamento, muitas fotografias tiradas, filmagens feitas para guardar e mostrar aos filhos, talvez netos um dia.
            O entardecer se aproximava e os convidados continuavam a dançar e comemorar. Depois de atender a todos os amigos e convidados, os noivos conseguiram sair discretamente no meio da balbúrdia geral. Trocaram de roupas na casa e foram, no início da noite, para um hotel na cidade. Ali passariam a primeira noite de casados, aguardando o avião no dia seguinte para a capital. Dali iriam para a Europa. Lá era inverno e teriam tempo de ficarem sossegados em um quarto quente de hotel ou poderiam apreciar alguma coisa da paisagem dos montes cobertos de neve. Se houvesse disposição iriam até uma estação de esqui. Ângela falava suficientemente bem o inglês para não terem problemas de comunicação.
            Quando a grande maioria do povo percebeu os noivos haviam sumido. Iniciou-se uma procura desenfreada e nada encontraram. Tinham planejado seguir com o fandango até altas horas da madrugada, não deixando os dois se recolher. Olharam-se uns aos outros e, vendo frustrado seu intento, decidiram por vingança seguir com a festa assim mesmo. Realmente os últimos deixaram a propriedade quando o dia seguinte estava amanhecendo.
            Não havia sobrado nenhum pedaço de carne, nem garrafa de cerveja, vinho ou refrigerante. No vinal, para completar, até mesmo os biscoitos existentes, geralmente relegados ao segundo plano no quesito comilança, foram atacados. Deram cabo de tudo.
            – Ainda bem, – falou Pedro Paulo, vendo o resultado. – Não tem garrafa cheia para devolver. Estão todas vazias. A carne terminou, as bolachas, bolos e outras coisas, foi tudo comido. Não há risco de algo ser jogado fora.
            – Agora sim, meu velho! Estamos nós dois outra vez. Do mesmo jeito que começamos há tantos anos.
            – É a norma da vida, Ceição.
            – O casal começa sozinho e termina sozinho.
            – Vamos agora esperar os netos.
            – Deixa eles terem um tempo para gozarem um pouco a vida. Essa história de logo encher barriga não está mais na moda. Ela está levando pílula para evitar ter filho logo. Ainda tem um ano de faculdade por fazer. Depois eles vão pensar em ter filhos.
            – Mas esse mundo não é mais o mesmo. No nosso tempo a gente logo queria ter filho. Nós é que não tivemos sorte. Mas está muito do bom. Pra compensar vamos ter uma porção de netos.
            – Que Deus lhe ouça, meu bem.
            Na cidade, depois do sol nascer, os recém-casados estavam se preparando para irem ao aeroporto pegar o avião. Depois do almoço embarcariam para São Paulo, Rio de Janeiro e por fim Recife, antes de tomarem o caminho da Europa. Conferiram todos os documentos. Passaportes, passagens, comprovantes de reservas de hotéis, vistos dos países que pretendiam visitar. Cheques de viagem em dólares, com vários valores individuais para facilitar o pagamento de contas de diferentes valores. Levavam também uma determinada quantidade de dinheiro em dólares para despesas urgentes, quando não fosse possível usar o cheque de viagem. As malas estavam prontas, conferidas e eles chamaram um carregador para levar tudo até um taxi que os deixaria no aeródromo. Haviam se despedido de todos os familiares e estavam sozinhos nesse momento, por escolha própria.
            Pontualmente às 10h15 minutos foram chamados para o embarque. Quando os ponteiros indicavam 10h e 40 minutos o avião decolava rumo a Porto Alegre, fazendo no caminho uma escala em Santa Maria. Pouco após o meio dia desembarcavam na capital. Ali mesmo encontraram um restaurante para almoçar, pois o voo da conexão sairia às 14h 45 minutos. Não havia tempo a perder.  

            

Gaúcho de São Borja! – Capítulo XIX

 

Estádio Beira Rio e avenida na beira do Guaíba.

 

Área do samba em Porto Alegre, próximo ao Beira Rio.

 

 
 
  Combinando o 

casamento.
Com a questão relativa ao testamento resolvida, nos próximos dias reinou paz na Fazenda Santa Maria. Gaudêncio precisou explicar à Ângela o acontecido. Ela imaginou que todos tinham passado por momentos de apreensão, afinal, se de fato houvesse o direito do pretendente, a situação econômica do noivo ficaria afetada. Não que tivesse ambições a ser esposa de um rico fazendeiro. Sua vida, mesmo não lhe faltando nada no tocante ao básico, transcorrera até recentemente passando uma temporada de alguns meses, um ou dois anos, quando muito cinco em um mesmo lugar. A constante preocupação do pai em galgar, por meio de aperfeiçoamentos, aos postos mais altos da carreira militar, resultara em uma vida praticamente cigana para a família.
Apenas nos últimos dois anos, depois de ascender ao posto de general, haviam iniciado um período de relativa tranquilidade. Mesmo sua vida escolar era uma verdadeira colcha de retalhos, chegava a ter em um único ano letivo, consignação de conceitos em três estabelecimentos geograficamente distantes. A expectativa de viver por anos seguidos em um mesmo lugar, com amplos espaços livres para percorrer a cavalo, de carro ou mesmo a pé, era algo tentador. Estaria disposta a enfrentar uma jornada de trabalho de 6 ou 8 horas se assim fosse necessário. Havia chegado a pensar em ter os pais morando em uma casa na cidade próxima depois da aposentadoria do pai.
O dia seguinte trouxe um novo motivo de preocupação para Ângela. Ao retornar do QG da Região Militar onde ficava seu gabinete de comando, trazia no rosto uma expressão levemente preocupada. Conhecendo os mínimos gestos e até trejeitos do pai, Ângela logo notou haver algo, se não errado, ao menos preocupante ocorrendo. Como quem não quer nada, chegou perto, fez um carinho no pai e recebeu a contrapartida. Assim como ela o conhecia, também ele sabia ver através de seu semblante como por um vidro transparente. Depois de instantes perguntou:
– O que está lhe preocupando, minha menina?
– Eu faço a mesma pergunta a você, meu pai.
– Porque você acha que algo está me preocupando, filha?
– E eu não sei ler seu rosto, as rugas na sua testa, o jeito de olhar? Pode tratar de desembuchar logo. Melhor é chamar a mãe aqui e assim não precisa repetir a explicação depois.
– Não dá para esconder nada de você mesmo. Chame sua mãe e vamos pôr tudo em pratos limpos logo.
Ângela levantou e foi até a cozinha chamar a mãe. Esta quis saber o motivo:
– O que há, filha? Estou ocupada fazendo o jantar.
– Para com isso um pouco e venha aqui. O pai tem alguma novidade que está preocupando ele. Não quis falar, mas eu conheço ele e coloquei contra a parede.
– Você não tem jeito mesmo. Espere um pouco que já vou. Só terminar de tirar isso aqui do fogo para não queimar.
Ângela aguardou um instante e quando a mãe terminou voltaram juntas para a sala, onde o pai via um noticiário local.
– Pode falar, pai. Estamos aqui e somos ouvidos de alto a baixo.
– Não é nada de grave. Apenas fui nomeado para integrar o Estado Maior do Exército em Brasília. Isso significa mudar para lá outra vez.
– Só isso? Apenas mais uma mudança, minha filha!
– Já não basta de mudanças mãe? Pensei que iria conseguir terminar meu curso de pedagogia aqui. Vou ter que transferir para Brasília outra vez.
– Eu posso pedir reforma, mas isso me faz perder um bom tanto do meu soldo de reservista. É apenas por dois ou três anos e então vou me reformar.
– E isso é para logo, ou mais tarde?
– Se eu aceitar, preciso estar lá semana que vem. A mudança podemos fazer depois.
– Nem acabamos de pagar o apartamento ainda, pai. Meu noivado vai fazer água desse jeito. Aqui já fico longe e morro de saudades do meu gaúcho. Imagine em Brasília.
– Uma solução seria vocês casarem. Até terminar a faculdade você poderia morar aqui no apartamento, indo para a fazenda na sexta-feira e voltando domingo ou segunda.
– Mas ficamos noivos há pouco tempo e não sei se o Gaudêncio aceitaria essa situação.
– Só vamos saber se perguntar a ele. Não tem outro jeito.
– Filha, eu casei com seu pai e comecei a rodar por esse país de norte a sul. Nunca mais morei perto de minha mãe. Cheguei a passar mais de dois anos sem ver minha família.
– Vida triste é a de mulher e filha de militar. Não poderia ter arranjado outra profissão, pai?
– É o que eu sei fazer e gosto. Você não gosta de seu curso de pedagogia?
– Gosto sim, pai.
– Então. Aceitaria mudar por conveniência de curso?
– Foi só uma ideia que me passou pela cabeça. Desculpe.
– Não tem o que desculpar. Entendo a situação de vocês.
– Faz o seguinte, filha. Liga lá para a fazenda e fala com seu noivo. Conversando vocês se entendem.
– Nessa hora ele está no colégio. Está entusiasmado com os estudos. Precisa ver. Vou esperar a hora em que ele volta. Isso é lá por umas onze e meia.
            – Nada de fazer tempestade em copo de água. Vamos jantar, assistir um pouco de TV e depois você liga. Acho até que ele deve estar vindo para cá nos próximos dias.
            – Então vamos terminar o jantar e comer. Depois a gente espera a hora e você liga, fala com ele. Dependendo do caso, passamos um tempo aqui e seu pai vai para Brasília e volta no final de semana.
            Passaram o jantar em relativo silêncio, cada um ruminando seus pensamentos. Depois as duas, mãe e filha, lavaram, secaram e guardaram a louça usada. Depois a mãe foi para junto do marido assistir TV. Ângela foi para seu quarto onde tinha seu local de estudos. Tinha por terminar um trabalho de pesquisa para seu curso. Se ocupasse o tempo com algo útil ele passaria mais depressa e sua ansiedade ficaria menos evidente. Assim chegou o momento em que levou a mão para o fone do aparelho. Nesse momento começou a tocar.
            Apanhou o fone sem demora. Logo ouvia a voz forte e clara do noivo falando do outro lado. Parecia um pouco ansioso.
            – Alô, meu amor! – disse ele.
            – Alô, querido! Eu estava levando a mão para ligar para você quando o aparelho tocou. Adivinhou que eu queria falar contigo?
            – Acho que sim. Mas eu também quero falar com você, minha flor.
            – Transmissão de pensamentos. Estou começando a gostar.
            – Eu nem sei como começar a falar.
            – Que tal começar do começo? Não é o melhor a fazer?
            – Você tem razão. Não adianta enrolar.
            – Aconteceu alguma coisa de ruim?
            – Não aconteceu nada. Sabe o que meus pais e meu padrinho estão querendo?
            – Tenho que adivinhar?
            – Pode ser, mas acho que não vou conseguir esperar. Como vou dizer isso? Você aceita casar comigo, querida?
            – Não falei que era transmissão de pensamento?
            – Por que? Seus pais também?
            – É que o papai foi nomeado integrante do Estado Maior do Exército em Brasília e precisa mudar para lá. Por um tempo eu e a mãe vamos ficar aqui, até arrumar tudo por lá.
            – Então acho que vamos juntar a fome com a vontade de comer. Só tem um problema. A sua faculdade como vai ficar?
            – O apartamento vai ficar aqui e eu posso morar nele durante a semana. No final de semana vou para aí e ficamos juntos. Isso só até eu terminar a faculdade.
            – Vamos conversar melhor sobre isso no sábado e domingo. Eu ia na semana que vem para aí, mas acabo de mudar de ideia. Vou nesse final de semana.
            – Vamos encontrar um jeito de resolver isso.
            – E de resto, seus pais estão bem? Sua mãe não ficou chateada com o fato de mudar outra vez?
            –  Ela está acostumada. Reclama um pouco mas logo passa. Faz isso a vida inteira.
            – Então deixamos para combinar os detalhes no final de semana. Vou lhe dizer boa noite, pois amanhã tem muito trabalho e ainda preciso estudar uns exercícios para a escola.
            – Está bem, meu gaúcho intelectual. Espero você no sábado ou sexta.
            – Um beijo e até lá.
            – Outro para você. Estou morrendo de saudades.
            – Eu também, mas logo vamos estar juntos. Um pouco só de paciência.
            – Ainda bem que você não é militar. Eu não aguentaria o que a minha mãe aguentou esses anos todos.
            – Depois de terminarmos os estudos, vamos viver aqui na fazenda e de tempo em tempo fazemos uma viagem para aproveitar a vida. Não adianta nada ter muito dinheiro se não usufruir o que ele pode comprar.
            – Não vejo a hora de isso acontecer.
            – Boa noite, meu bem.
            – Boa noite, querido.
            Desligaram os aparelhos e Gaudêncio soltou um grito de alegria. Joaquim que estava deitado, mas ainda não dormira, se assustou e levantou, vindo ver o que acontecia. Ao encontrar o afilhado com um sorriso largo no rosto indagou:
            – Mas bah tchê! Viu passarinho verde ou o que foi esse grito?
            Demorou alguns instantes até conseguir articular as palavras e falou:
            – Lembra padrinho do que o senhor e meus pais falaram no outro dia?
            – Falamos tantas coisas. Do que você está falando?
            – Da ideia de nós, a Ângela e eu, casarmos logo.
            – E daí, ela topou?
            – O pai dela vai ficar em Brasília como membro do Estado Maior do Exército e vão se mudar para lá. A sugestão é nos casarmos logo. Não é muita coincidência?
            – Verdade, não deixa de ser interessante essa coincidência. Você ligou para ela ou ela ligou?
            – Eu liguei e quando o aparelho tocou lá ela estava pegando o fone para ligar para mim. Vou para lá na sexta-feira para a gente combinar isso direito. Assim, a essa hora da noite, não dá para pensar direito.
            – Não tem problema. Vai lá e resolve essa história. É a melhor coisa a fazer. Assim vocês casam e acaba com a lambança.
            Enquanto isso Ângela foi para junto dos pais e relatou o que acabara de falar com o noivo. Ele viria passar o final de semana e queria conversar sobre o casamento.
            – Viu. Melhor coisa é conversar e colocar as coisas às claras. Ninguém fica na dúvida.
            – Você pelo menos não vai passar a vida inteira de um lado para outro. Eu já estou acostumada e nem ligo mais.
            – Eu avisei quando nos casamos.
            – Não estou reclamando, meu bem. Mas que não é fácil essa vida. Imagine a nossa filha. Passou a infância, aliás a vida inteira, de um lado para outro, se casasse com um militar e tivesse a mesma vida que eu. Acho que ela não iria aguentar.
            – Por isso gostei de namorar um fazendeiro. Vou ter uma vida mais tranquila e sossegada. Pelo jeito vamos poder viajar de vez em quando. Conhecer o mundo. Morro de curiosidade de conhecer outros países. O Brasil eu conheço quase tudo.
            – Até eu estou com vontade de sossegar em um canto. Será que a gente consegue um terreno, ou uma chácara lá em São Borja para passar a velhice?
            – Não perguntei, mas não custa nada pedir informação.
            – Vou perguntar ao seu noivo sobre isso. Mas quero comprar, nada de morar na fazenda. Quero meu pedacinho de chão, por pequeno que seja.
            – Até lá vai ter terminado de pagar a casa. Vende e usa o dinheiro para comprar o pedaço de terra. Deve ter algum lugar assim por lá.
            – Isso seria meu sonho também, meu querido. Ainda ficar perto da nossa filha fica melhor.
            – Vamos conseguir realizar esses sonhos, minhas preciosas.
            – Vamos viver todos perto uns dos outros. Isso vai ser ótimo. Agora vou dormir que amanhã tenho que ir cedo para a faculdade.
            – Durma bem, filha. Deus te abençoe.
            – Obrigada pai. Benção mãe!
            – Deus lhe abençoe, filha.
            No final da semana, na sexta-feira pouco antes do almoço, Ângela chegava da faculdade e encontrou Gaudêncio desembarcando do táxi vindo do aeroporto. Se abraçaram e subiram para o apartamento onde dona Lourdes terminava o almoço. A diarista estava fazendo a faxina semanal. Eram apenas três pessoas e cuidavam para não sujar em demasia, tornando desnecessária a presença diária de uma empregada. Bastava uma fazendo a limpeza geral na sexta-feira para deixar o apartamento em ordem pelo resto da semana. Foi recepcionado pela dona da casa como se fora filho. Soubera tratar bem a mãe de Ângela, seguindo o conselho da mãe Maria Conceição que lhe dissera: Se quiser ganhar a boneca, trata bem da caixa. Ele entendera direito o recado.
            O general estaria ocupado com reuniões preparatórias para transmitir o cargo de comandante da região ao substituto que já estava na cidade. Pretendia terminar na terça feira essa parte para então viajar na quarta feira e se apresentar no novo posto que lhe fora designado. Almoçaram os três e a diarista também foi convidada a sentar-se. Esse fato agradou a Gaudêncio, pois demostrava simplicidade e consideração com os mais humildes. Não teria ficado bem impressionado se a serviçal fosse posta para comer lá num canto, ou mesmo na área de serviço. Lembrou da maneira em que tratavam os empregados da fazenda. Na hora da refeição não se fazia distinção entre patrões e empregados. Na hora do trabalho, uns comandavam, outros obedeciam e trabalhavam para tudo funcionar direito. Na mesa eram todos iguais.
            Como não poderia deixar de acontecer, a conversa logo enveredou para o assunto do momento. A nova transferência da família para a capital federal. A diarista olhou espantada interrogando:
            – Vou perder meu trabalho?
            – Por enquanto não, Alzira. Eu e a Ângela pelo menos vamos ficar mais um tempo aqui até arrumarmos casa ou apartamento na capital.
            – Não é sempre que se encontra um lugar bom para trabalhar. Tem cada patroa por aí que vou contar uma coisa.
            – Se isso vier a acontecer, nós a recomendaremos a gente que está esperando por alguém como você. Não fizemos isso por enquanto por não querermos perder seus préstimos.
            – Eu nem ia querer sair daqui para um outro lugar qualquer.
            – Onde você for, vai se dar muito bem. Assim como tem patroa que é uma coisa, há cada diarista que não vale nada. Quando se encontram e se entendem, dificilmente se largam. Só mesmo em último caso.
            Gaudêncio olhou firme para Ângela e falou:
            – Quando nós casarmos ela pode ir junto e trabalhar direto para você na fazenda.
            – E donde fica a fazenda?
            – Na fronteira com a Argentina, em São Borja.
            – Qui longe. Eu nunca fui mais que aqui em Viamão, São Leopoldo. Nem inté Santa Maria eu fui.
            – São Borja é mais que o dobro do que Santa Maria. Mas é um pulinho de gato. Vai num pé e volta no outro.
            – Credito! Isso deve de demora um dia e pouco de viagem, se não mais.
            – Eu saí hoje nove e pouco. Antes do meio dia estava aqui.   
            – A sim. De vião, eu também.
            – A Alzira não é boba não. Bem espertinha a danada.
            Ângela falou:
            – E vai ser preciso empregada para nós dois nos primeiros tempos?
            – E quem disse que vamos ficar só nós dois por muito tempo? Eu quero é logo encomendar umas prendinhas e uns piazitos.
            – Devagar com o andor que a “santa” aqui não é de ferro. Está certo que falou que me quer só para tirar umas crias, mas não é bem assim não.
            Todos se puseram a rir, especialmente a diarista diante da expressão usada por Ângela. Ela falou rindo:
            – Nunca que ouvi dizer uma coisa dessa. Querer a mulher só pra tirar umas crias, – e ria a valer.
            – Mas eu disse isso para o pai dela quando conheci a família. Ele não queria me deixar entrar e eu não queria ir embora sem conhecer a prenda.
            – Isso deve de ter sido engraçado.
            – E foi mesmo, Alzira. O general com aquela seriedade toda, falando e querendo desviar a conversa e o moço ai cortando papo. Trovando e arrumando desculpas, até se sair com essa.
            – Mas pra mó de que isso?
            – O homem falou que ela era um bocadinho manca e daí eu respondi isso.
            O riso foi geral e provocou engasgo para todo lado. Foi necessário recorrer ao uso dos guardanapos para evitar causar um esparramo de migalhas, respingos e grãos de arroz por todo lado. Depois que o riso aquietou terminaram de comer em silêncio, temendo que, à qualquer palavra pronunciada, desatassem em novo acesso de riso.
            Finda a refeição, Alzira foi continuar com sua faxina e os outros se uniram para recolher as coisas da mesa, lavar a louça, secar e guardar. Deixaram em minutos tudo limpo e pronto para ser usado mais tarde. Foram sentar-se por algum tempo diante do aparelho de TV para assistir ao jornal. Véspera de sábado, sempre havia um grande movimento em direção aos lugares de lazer. As cidades serranas eram bastante procuradas, nessa época do ano, devido ao clima de inverno, as pousadas, os vinhos coloniais, queijos e comida italiana. Um atrativo forte para a população mais abastada das cidades.
            Nessas ocasiões sempre aconteciam acidentes, com vítimas fatais e feridos. Um fato lamentável, mas não havia como evitar os abusos cometidos por alguns motoristas. Muita gente terminava tendo, em lugar de um final de semana de descanso, uma tragédia para lamentar por muito tempo. O mais terrível disso tudo eram os inocentes atingidos pela imprudência de poucos. Era urgente serem tomadas medidas preventivas para coibir essas ocorrências tão tristes. Cabia aos colegiados parlamentares de nível federal debater e aprovar legislação mais severa relativamente a essa questão. Muitas vezes havia o envolvimento com bebidas alcoólicas nessas ocorrências.
               Pouco depois, terminado o jornal, o televisor foi desligado, pois iniciou a transmissão de programas infantis. Dona Lourdes desculpou-se e foi cuidar de umas roupas que estavam secando na máquina. Teria que colocá-las um pouco no sol para completar o processo. Ângela e Gaudêncio ficaram um minuto em silêncio. Em dado momento, Gaudêncio falou:
            – Me conta direito como é que fica essa questão de seu pai ir para Brasília?
            – Antes de ele passar para a reserva, querem ele integrando o Estado Maior do Exército. Para ele é uma honra e daria um último empurrão na carreira dele, além de significar uma boa diferença no soldo de aposentado.
            – Ele precisa cuidar de sua vida. Quanto maior for seu provento depois de ir para reserva, melhor será a vida dos dois.
            – Não há o que discutir. Ele precisa ir para lá, isso nem se discute. O que eu não quero é ter que transferir minha faculdade para lá. Sempre causa atrasos, pois tem que fazer adaptações e tal. A única dúvida é se você aceita que eu fique aqui na capital durante a semana e no final de semana vá para fazenda, depois de nos casarmos.
– Isso é complicado. Mas não posso esquecer que eu também tenho aulas para ir durante a semana e não vai fazer muita diferença.
– Seria só o resto desse ano e o ano que vem. Prometo que não vou pegar nenhuma dependência para atrasar meu curso.
– Não amor. Nem há necessidade de fazer esse tipo de promessa. Vamos ter o resto de nossas vidas para ficarmos juntos depois. Tudo isso vai ser para o nosso bem no futuro, não é verdade?
– Isso é verdade sim. Nem te conto a vontade que tenho de ir morar na fazenda de uma vez, mas lutei muito para chegar nesse ponto e não quero perder o que já fiz.
– Nem pense nisso. Eu sei a falta que faz estudar. Hoje corro atrás e não vou parar de jeito nenhum. Não vou pedir que você faça isso.
– Vamos precisar combinar com o papai e mamãe quando vamos fazer o casamento. Onde vai ser? Aqui? Na fazenda?
– Por mim pode ser aqui, agora, no mês que vem, na fazenda, no fim do ano, pouco importa. Quero é casar com você e quanto antes melhor.
– Mas uma pequena viagem de luz de mel, vamos ter, não vamos?
– A viagem que você quiser, amor.
– É que agora está muito perto das férias. Falta só um mês e meio. Fica muito encima da hora.
– Nem pensei nisso. Você tem aula, eu tenho aula, o tempo é pouco, só mesmo deixar para o fim do ano. Comecinho do ano que vem.
– Aí dá para planejar tudo direito. Preparar o vestido, a festa, os convidados e o lugar para onde vamos viajar.
– Já estamos chegando a um entendimento. Vai faltar só acertarmos os ponteiros com seus pais.
– Você prefere fazer a festa aqui na capital ou na fazenda?
– Acho que seria melhor na fazenda, pois para trazer aquele povo todo para cá, não daria certo. Só fazendo uma festa depois para eles.
– Nós não temos parentes aqui, apenas alguns amigos. A maioria dos amigos moram longe mesmo. Se vierem, vão ter apenas que viajar um pouco mais. Isso não fará a menor diferença.
– Então, está decidido. Fazemos a festa na fazenda e arrumamos um avião para levar seus amigos para lá.
– Eles se viram. Vão de avião, carro e mesmo de trem.
– Tudo a ser combinado.
– O que vocês estão combinando?
– Você estava aí mãe, ouvindo?
– Cheguei agora. Ouvi só o final sobre tudo a ser combinado.
– O que você acha mãe? Vamos casar no começo de janeiro, fazemos a festa na fazenda e viajamos em lua de mel. Depois de voltarmos, quando recomeçarem as aulas, venho e fico aqui durante a semana. No final volto e assim passamos o primeiro ano.
– Já está tudo combinado, então?
– Queremos saber se vocês aprovam. Estivemos planejando.
– Não é uma má ideia. Dá tempo de pensar em tudo direito, sem atropelos. Seu pai acho que vai gostar desse arranjo. É quase certo isso.
– Vou conversar com o padre da paróquia para ver a questão da documentação na igreja, com o juiz e tudo mais.
            – Eu fico morando com Ângela aqui até o final do ano. Até lá arrumamos um lugar para morar na capital pelo tempo que vamos ficar por lá.
            – Sei que não é o sonho de uma moça ao casar. A maioria quer ir morar com o marido, em sua casinha e tudo isso. Mas não vou jogar fora meu esforço para conquistar meu lugar na faculdade.
            – Isso não filha. Seria um desperdício e mais tarde viria a se arrepender. Basta eu que deixei de estudar no tempo de moça. Hoje, se desse tempo, ainda iria fazer uma faculdade.
            – Mas você ainda pode, mãe. Tem na minha turma umas três ou quatro senhoras de tua idade. Não sei se não são mais velhas mesmo. Nada te impede de estudar.
            – Não sei se vou ter força para encarar isso nessa idade.
            – Você é jovem, mãezinha. Faz uma revisão das matérias e enfrenta o vestibular. Não precisa ter medo algum.
            – Vou pensar nessa ideia. Preciso convencer seu pai a ficar sozinho enquanto eu for para a escola.
            – Ele arranja o que fazer. Por que não aproveita nesse tempo em Brasília? A Universidade de lá é boa e tem muitos cursos. Pode escolher à vontade. E acho que a concorrência não é muito grande.
            – Vou ver isso agora no segundo semestre. Uma semana dessas viajo para lá ao encontro de seu pai e me informo direitinho.
            – Eu lhe dou a maior força, dona Lourdes. – falou Gaudêncio.
            – Obrigada pela força de vocês dois. O mais difícil vai ser vencer minha própria inércia.
            – Vamos dar uma volta, mãe?
            – Vão vocês. Eu vou preparar um jantarzinho legal para nós de noite.
            – Tem tempo depois para fazer isso.
            – Eu pago o jantar e vamos jantar fora. Está resolvido.
            – Nesse caso, não vou ter o que fazer mesmo, podemos ir. Mas onde vamos?
            – Que tal irmos passear na beira do Guaíba, ver o pôr do sol?
            – Mas o pôr do sol ainda está longe.
            – Aproveitamos para passear, ver como está aquilo por ali. Faz tempo que não vamos para aquele lado. Aliás no entardecer nunca fui por lá.
            – Vamos indo. Pega a chave do meu carro lá no chaveiro da cozinha. Vou assim mesmo. No carro tem uma blusa para o caso de esfriar muito.
            – A gente passa pelo QG e pegamos o pai na saída. Ele foi de carro do comando mesmo. Vão trazer ele aqui. Pegamos ele no caminho.
            – Boa ideia. Assim comemoramos a marcação do casamento e acertamos os detalhes.
            – Para isso tem tempo amanhã e domingo mesmo.

Pôr do sol nas margens do rio Guaíba
            Desceram depois de fechar o apartamento. A faxineira terminara o serviço e fora para casa. Voltaria na semana seguinte. Passearam pelas avenidas arborizadas até a beira do rio. Ali o espetáculo de movimentação de barcos de todos os tamanhos indo e vindo, gente caminhando, barracas de comida e vendas de mercadorias diversas. Muita coisa não inspirava a menor confiança a quem tinha hábitos minimamente mais higiênicos. Bolinhos gordurosos, peixes fritos, pastéis, coxinhas, espetinhos de carne assada, um a verdadeira celeuma. O cheiro não era dos mais agradáveis e não se detiveram por muito tempo. Apesar do espetáculo do sol descendo na outra margem do rio, a permanência ali não era agradável.
            Retornaram às ruas do centro, atravessaram para o outro lado onde ficava o QG do comando e se posicionaram para aguardar a saída do general. Depois de algum tempo, ouviu-se o toque de saudação ao comandante que se retirava da unidade e Ângela desceu do carro, indo na direção do portão. Logo o veículo transportando seu pai apareceu e parou:
            – Que faz você aqui, minha filha?
            – Viemos lhe buscar pai para irmos jantar em um lugar bem bacana.
            – Onde está sua mãe?
            – Ali, no carro junto com o Gaudêncio. – disse apontando onde estavam os dois.
            O general dispensou o motorista, dizendo-lhe que não iria precisar de seus serviços no final de semana. Voltasse a passar em seu edifício na segunda cedo, antes da hora do início do expediente. Desembarcou e acompanhou a filha até o automóvel. Foi cumprimentado pela esposa e pelo futuro genro. Aproveitaram para irem até as proximidades de São Leopoldo onde encontraram um restaurante típico para jantarem.

Pôr do Sol às margens do Guaíba, POA.


            Contaram ao general o que haviam conversado e ele só fez concordar. Haviam resolvido tudo e apenas aprovava as providências a serem tomadas. Gaudêncio lhe garantiu que se encarregaria da organização da festa. Não haveria necessidade de preocupação com isso. A família de Ângela faria a lista de convidados e iriam encomendar os convites. Mas isso também não era algo assim tão urgente. Faltavam mais de sete meses para o evento. Haveria tempo mais que suficiente para tomar essas providências todas.
            Assim o final de semana transcorreu na mais absoluta paz. O General estava especialmente satisfeito por ter sido escolhido para o novo posto. Sua carreira como militar consciente estava sendo coroada de êxito mediante a ocupação de um lugar no Estado Maior do Exército. Foram assistir ao jogo de Internacional e Grêmio, resultando em vitória do colorado, para desgosto de Gaudêncio. Mas se conformou. Um dia era a vez de um, no outro era a vez do outro. Ninguém tinha como ganhar sempre.
            No sábado à noite ligaram para São Borja e avisaram dos detalhes combinados até aquele momento. Tanto Pedro Paulo, Maria Conceição e Joaquim ficaram satisfeitos. Estavam todos a disposição para o que fosse preciso. Nada iria faltar na festa de casamento desse casal. Havia tanta gente torcendo pelo êxito e felicidade dos nubentes que seria muita injustiça se algo acontecesse para frustrar essa realização.

            O final de semana terminou e Gaudêncio voltou, ficando na cidade para as aulas da noite de segunda-feira. Voltaria após o término ou na manhã de terça. Tomaria essa decisão na hora da saída. Se estivesse muito cansado, dormiria ali e retornaria à fazenda pela manhã.

Anoitecer no Guaíba.

 

Curiosidades – Quando o Máximo é menor e o Mínimo é maior.

Quando o máximo é menor e o mínimo é 

maior.
Uai! Como é que pode? O máximo é menor e o mínimo maior? Que trem mais esquisito é esse?
Com certeza haverá quem esteja se perguntando exatamente isso diante dessa afirmação. Isso não é assim tão estranho. Até bem comum em diversas situações da vida. Nesse caso especificamente, estou me referindo a uma curiosidade da matemática.
Lembram quando estudaram os números, as quatro operações: adição, subtração, multiplicação e divisão? Depois vieram algumas propriedades das operações como a associativa, comutativa e elemento neutro da adição? Em seguida apareceu também a associativa, comutativa, distributiva e elemento neutro da multiplicação? Também a ordem de precedência na realização das operações numa expressão aritmética: Primeiro se resolvem as multiplicações e divisões na ordem indicada, depois adição e subtração também na ordem indicada.
Cada um desses pequenos passos representa um degrau na grande escalada do edifício da matemática. Não podemos chegar ao topo, sem vencer cada um dos degraus. Mais ou menos nessa época apareceu uma coisa denominada mdc(máximo divisor comum) e mmc(mínimo múltiplo comum). Agora começa a brincadeira do mínimo maior e do máximo menor. Querem saber como?
Pois é. Vamos começar pelo MDC. Primeiro, vamos lembrar o que é um divisor. Damos esse nome a todo número pelo qual um outro número dado pode ser dividido.
Exemplo: 32. Por quais números o 32 pode ser dividido?
O primeiro sempre é o número 1. Sendo número par também é divisível por 2.  Da taboada sabemos que o 4 também está entre os divisores de 32. Depois vem o 8 N e 16, além do próprio número 32, pois todo número é divisível por si mesmo. Portanto temos:
D(32) = {1, 2, 4, 8, 16, 32}
Tomando outro exemplo: 48.
Novamente vamos encontrar, 1, 2, 3, 4, 6, 8, 12, 16, 24, 48. Portanto:
D(48) = {1, 2, 3, 4, 6, 8, 12, 16, 24, 48}
Observando os dois conjuntos de números vamos ver que existem alguns repetidos e outros não. 
D(32) = { 1, 2, 4,8,16, 32}      D(48) = {1, 2, 3, 4, 6, 8, 12, 16, 24, 48}
Notem que os números em vermelho, fazem parte dos dois conjuntos. São pois os divisores comuns de 32 e 48. Qual deles é o Máximo divisor comum? Todos responderão que é 16. Agora eu pergunto, o 16 é maior ou menor do que 32 e 48?
Ninguém vai dizer que é maior. Todos vão dizer que é menor.
Daí se conclui que o máximo divisor comum é geralmente menor que os números. Em alguns casos pode ser igual ao menor dos números quando o outro é múltiplo deste. Como por exemplo: 15 e 45. O mdc é 15, pois 45 é múltiplo de 15. Ele ainda é menor do que um dos números.
O objetivo aqui não é dar aula de matemática, apenas chamar a atenção para essa curiosidade.
Vamos agora ao mínimo que é maior. Novamente vamos lembrar do mmc.
 O que é um múltiplo de um número? O resultado da multiplicação desse número por outro. Vejamos o conjunto dos múltiplos do número 3.
M(3) = {3, 6, 9, 12, 15, 18, 21, 24, 27, 30, 33, 36, 39, 42, 45,48,51,54,57,60,63,…}
Uai! Parou por quê? O que querem dizer aqueles três pontinhos no final?
 Podem me dizer qual é o último número pelo qual podemos multiplicar o número 3? Alguém dirá que é infinito, outro poderá dizer que não existe e isso dá praticamente no mesmo. Significa que não haveria papel suficiente no mundo para escrever todo o conjunto dos múltiplos do número 3.
Vamos agora olhar os múltiplos do número 7.
M(7) = {7,14, 21, 28, 35, 42, 49, 56, 63, 70, …}
Olhando para os dois conjuntos de números, vamos encontrar outra vez alguns que fazem parte dos dois.
Vejamos: mc(3,7) = {21, 42, 63, …}. Também aqui o conjunto não tem fim. Existem muitos outros múltiplos comuns aos números 3 e 7. Mas entre todos eles qual é o menor? Não há dúvida de que é 21 e ele é maior do que 3 ou 7. É o caso do mínimo que é maior. Outra vez temos o caso em que, um dos números é múltiplo do(s) outro(s) e então o mmc será igual a elel. Todavia ele continua sendo maior do que os outros. Porque “os” outros e não “o” outro? É que o mmc assim como o mdc não existem só para dois números, mas para quantos números quisermos e precisarmos. Esses conceitos são particularmente importantes em outras partes da matemática que vem mais tarde. Uma delas é a adição e subtração de frações onde usamos o tempo todo o mmc dos denominadores, para transformar as frações em semelhantes.
Se você lembra de alguma outra curiosidade, mande para mim pelo por um dos endereços de e-mail abaixo:

Gaúcho de São Borja! – Capítulo XVIII

 

Remexendo o passado.
 
O dia seguinte, além das preocupações próprias, tinha ainda a preocupação em rebuscar os recantos da memória em busca de um nome eu pudesse trazer uma luz para o problema novo que surgira. Os primeiros a serem chamados a prestar auxilio nesse afã, foram Pedro Paulo e Maria Conceição. Tinham convivido com Joaquim nos anos em que ele ainda era adolescente. Se alguém podia ajudar a encontrar uma testemunha capaz de derrubar o falso testemunho que o pretenso parente distante constituíra. Começaram por fazer uma lista de todos os nomes de pessoas que tinham convivido naquele tempo.
Um a um os nomes iam sendo eliminados quando lembravam da época e localidade de sua morte. Muitos haviam saído dali para trabalhar em outras fazendas sem nunca voltar nem dar notícia. Outros se haviam afastado por força de casamento e outros acontecimentos. Sua comunicação ficara cada vez mais esparsa até sumir da lembrança mais constante. Depois de muito remexer e analisar a lista, acrescentar um ou outro nome antes esquecido, identificaram dois que poderiam ser encontrados na região. Fazia tempo que não ouviam deles, mas também não haviam sabido de seu falecimento ou ida para mais longe. Apenas a agitação do cotidiano, as ocupações diárias, acabaram deixando essa lembrança relegada a um plano bem distante.
Os últimos paradeiros foram lembrados. Um deles tinha o nome de Bráulio Barbosa e seu último endereço fora uma rua próxima ao rio Uruguai na cidade de São Borja. Faltava lembrar o nome certo da rua. O crescimento da cidade nos últimos anos, novas ruas sendo abertas, outras modificadas, edifícios sendo contruídos a cada dia, poderiam tê-lo levado a mudar de endereço. O outro nome era Ernestina Fontes. Ela casara com um tal Tarcísio Dantas e fora morar numa fazenda a cerca de 50 km dali, onde o marido era capataz. Certamente ainda estavam por lá. Do contrário alguém saberia dizer onde se encontrava.
Diante dessa constatação, faltava encontrar ao menos uma dessas duas pessoas e ver se ela teria condições de testemunhar. Um bom número de antigos servidores daquele tempo não mais vivia. Quando Joaquim assumira a fazenda o pessoal estava em uma faixa de idade um pouco elevada. Foi preciso renovar, do contrário chegaria o momento em que teria apenas uma porção de idosos para fazer o trabalho. Isso não era bom. Muitos receberam uma boa ajuda financeira e foram morar na cidade, outros ficaram em casinhas da fazenda até o fim de seus dias. Assim não restavam na propriedade pessoas que tivessem vivido os dias da infância e adolescência de Joaquim, além de Pedro Paulo e Maria Conceição. Os demais eram todos mais jovens e haviam entrado para o serviço mais tarde.
O dia estava perto do final e Gaudêncio propôs ao padrinho irem até a cidade ver se conseguiam logalizar o senhor Bráulio Barbosa. Quem sabia a rua com certeza era Maria Conceição, pois visitara a família algumas vezes nos primeiros anos que ali moravam. A presença dela na hora da ordenha não era imprescindível e decidiram leva-la junto. Chegaram à praça perto da Igreja, de onde ela sabia se orientar. Houve um pouco de estranhamento devido às modernizações do lugar, mas ela sabia o número de quadras a serem percorridas e cada direção. Dessa forma chegaram ao local que ela reconheceu como sendo o endereço de que lembrava. As casas estavam todas envelhecidas e necessitando de reformas. O crescimento da cidade chegava perto e logo as construtoras viriam e fariam ofertas elevadas para adquirir os imóveis.
Em no máximo dois ou três anos, se é que demoraria tanto, ali estaria tudo transformado em conjuntos de apartamentos, o térreo ocupado por lojas e outros estabelecimentos. Tinham que começar por algum lugar e por isso pararam para indagar. A casa em questão estava desocupada. Perguntaram a uma vizinha, na faixa de cinquenta para sessenta anos e ela lhes disse que conhecera a família. Eles haviam mudado para um bairro mais distante um pouco. Fazia poucas semanas, pois tudo ali havia sido comprado por uma construtora. Ela mesma iria se mudar em poucos dias. Aguardava apenas seu novo lar ficar pronto.
Informou-lhes o endereço dos antigos vizinhos e eles agradeceram. Procuraram pelo novo endereço, perguntando em um e outro lugar, chegando assim a um pequeno conjunto residencial. Casas de alvenaria, ruas asfaltadas, calçadas bem arrumadas, tudo muito bonito. Deveria ter sido ótimo mudar-se da casa de madeira, velha, caindo aos pedaços e ainda guardar um bom dinheiro que restara da venda do terreno, bastante valorizado pela expansão imobiliária na região.
Maria Conceição foi quem bateu no portão e logo uma mulher nova veio atender. Ao ser inquirida sobre a residência ali de Bráulio Barbosa ela confirmou. Era seu pai e estava em casa. Se aposentara algum tempo antes.
– Eu sou Maria Conceição. Conheci seu pai na fazenda Santa Maria. Este aqui é seu Joaquim, filho dos antigos donos. Esse outro é meu filho Gaudêncio. Será que podemos conversar um pouco com seu pai?
Ela correu até a porta e falou com alguém lá de dentro. Logo um homem de cabelos embranquecidos, um pouco curvado, trazendo os sinais da idade, do muito trabalho, bem marcados no corpo, saiu e veio até o portão. Ao olhar bem para os visitantes, reconheceu Joaquim e Maria Conceição.
– Mas se não é o Quinzinho! E Maria Conceição! Entrem, vamos conversar.
            O portão foi aberto e os três entraram, indo para a modesta sala de estar, onde havia um grupo estofado onde se acomodaram.
            – Mas a que devo a honra dessa visita inesperada? Inda outro dia tava contando para minha fia sobre o tempo que vivi na fazenda. Bom tempo aquele. Lembra de nossas estripulias nos pastos e capões de mato, Joaquim?
            – Se lembro, Bráulio. Éramos uma bela turma de moleques. Quanto aprontávamos.
            – Faz bem uns quarenta anos que a gente não se vê. A Ceição veio ver a gente algumas vez. Depois também sumiu e nunca mais.
            – Tantas coisas que acontecem e o tempo passa. Nem sei como é que isso se dá.
            – Mas eu estou velho, aposentado graças a Deus. Minha velha casa vendi por bom dinheiro e recebi essa na troca. Sobrou um bom troco que apliquei no Banco do Brasil. Assim fica uma garantia para as horas de precisão.
            – Pois é Bráulio. É ótimo encontrar você aqui. Mas e sua esposa, ainda é viva? – disse Maria.
            – A Josefina me deixou faz coisa de quatro ano, Ceição. Deu um tal de apoplexia nela e levou ela de mim. Nem magina a farta que me faz.
            – Lamento muito, amigo. Vamos ao assunto que nos traz aqui.
            – Pode falar, que estou pronto para ajudar o amigo. Nem pode imaginar o contentamento que me trazem.
            – Não sei se você soube, mas meus pais e meus irmãos morreram num acidente com nosso avião lá para o lado da Serra do Mar, num dia de tempestade. Fiquei sozinho para cuidar da fazenda. Já era casado e não tivemos filhos. A finada herdou a propriedade vizinha e juntamos tudo num só pedaço. Questão de uns cinco anos ela também faleceu de modo semelhante à sua Josefina. Fiz o inventário e decidi nomear nosso afilhado, o Gaudênio aqui, filho da Conceição e do Pedro Paulo. Lembra dele?
            – Pedro Paulo? Lembro sim. Era um dos mais espevitado da turma.
            – Ele casou com a Ceição e tiveram só esse filho, nosso afilhado. Nós íamos adotar um menino, mas com a vinda do afilhado, desistimos e resolvemos fazer dele nosso filho.
            – Muito justo.
            – Pois como ia falando, nomeei ele meu herdeiro. Agora me aparece um porqueira de um camarada, lá dos tempos de meu bisavô, dizendo que foi criado na fazenda, que era como filho para meus pais e arrumou até testemunha. Moral da história. Quer derrubar meu testamento e se fazer de herdeiro de tudo que tenho.
            – Mas e tem direito?
            – Teria se não houvesse meu direito antes de nomear meu herdeiro de livre e espontânea vontade. Até seria justo deixar algo para ele se o que diz fosse verdade, mas não é.
            – E qual é o nome desse infeliz?
            – Um tal de João Ribas Vargas. Lembra se tinha alguém desse nome na fazenda quando nós éramos moleques, depois rapazes? Principalmente sendo criado por meus pais, meio agregado.
            – Tinha ninguém com esse nome, não amigo Joaquim. Isso eu tenho certeza. Posso contar nos dedos e dizer os nomes de um por um. Graças a Deus tenho boa memória ainda.
            – Você está disposto a nos ajudar a derrubar a mentira dele na justiça?
            – Pode contar com o Bráulio aqui. Onde se viu uma coisa dessa?
            – Vamos fazer um churrasco dia desses e venho lhe buscar, ou mando o afilhado para vocês passarem um dia na fazenda.
            – Me avisa antes, pra mo de não ter outra coisa em vista.
            – Eu mesmo tenho casa aqui na cidade e podemos passar umas horas juntos no clube. Agora que sei seu endereço venho de vez em quando aqui.
            – Mas não querem esperar um chimarrão? Sempre tem um mate pra servir os amigos.
            – Nós vamos indo. O afilhado tem aula para assistir e nós vamos para a minha casa onde a empregada vai preparar nossa refeição. Outro dia nós viemos conversar e tomar mate.
            – Não esquece de me avisar antes da audiência lá no juiz. Vamos desmentir essa embrulhada toda.
            Sairam levando um imenso alívio no coração. Se encontrassem a outra testemunha ficaria mais forte o embasamento da sua resposta ao questionamento judicial do testamento. Poderiam continuar mais tranquilos. Ao chegarem à casa de Joaquim ainda havia tempo de preparar uma refeição rápida antes de Gaudêncio ir para a aula. Joaquim pegou o telefone e ligou para o advogado e lhe explicou seu achado. Havia testemunhas vivas da época em que o pretendente a herdeiro dizia ter vivido na fazenda e ser considerado como filho pelos pais de Joaquim. O jurista lhe afirmou que isso era importantíssimo, aliás fundamental na obteção de uma sentença contrária às pretensões do postulante.
            Joaquim lhe falou que havia ainda a possibilidade de outra testemunha estar apta a prestar depoimento. Precisaria apenas fazer uma pequena viagem até a fazenda onde supunham que ela residia.
            – Assim fica melhor ainda. Mais de uma testemunha ocular para confirmar os mesmos fatos, torna o processo praticamente ganho. Pode deixar com a gente que o resto nós cuidamos, – falou o advogado.
            – Eu lhe agradeço. Depois de derrubar essa mentirada, vamos comemorar com um belo churrasco e cerveja.
            – Isso mesmo, amigo.
            Maria Conceição estava na cozinha ajudando a ultimar a refeição e conversando com a cozinheira. A vivente passava grande parte do tempo sozinha na casa. Costumava trazer uma neta para passar algumas horas com ela, mas a menina começara a trabalhar. Com isso tinha menos tempo disponível. À noite também ia para a escola, mas em outra mais perto da casa dos pais dela. Ficou satisfeita em ter companhia pelo menos por algumas horas. Não se queixava de resto, pois o salário era bom e o serviço pouco. Pesada mesmo era a solidão. Seus dedos estavam calejados de tanto manejar as aguhas de tricô e crochê. Todos os netos ganhavam alguma blusa, um casaquinho feito pela avó. Formavam fila esperando a vez. Logo começariam a vir os bisnetos e ela teria mais com que se preocupar.
            A conversa estava animada quando Joaquim e Gaudêncio chegaram perto da porta. Puseram-se a ouvir e ficaram encantados com o que diziam. Maria Conceição acabava de externar seu sonho de logo ter netos. Por ela o filho casaria logo e acabava com essa andança dali para capital e voltar. Namoro assim dessa distância não dava muito certo. Melhor casar logo de uma vez. Noivos já estavam, pareciam se amar de verdade, para que esticar essa novela?
            Joaquim olhou para o afilhado e piscou. Depois cochichou:
            – O que foi que eu falei? Sua mãe também acha melhor vocês casarem logo.
            – Só me faltava essa agora. Minha mãe também me empurrando para o altar e diante do juiz.
            – Queremos o seu bem, meu caro afilhado.
            – Vamos casar sim, mas quando nós marcarmos a data, nada de pressão por enquanto.
            – Não tem problema, contant que seja logo, – falou Joaquim rindo e entrando na cozinha.
            As duas mulheres levaram um susto e ficaram quietas instantaneamente. Haviam ouvido as últimas palavras de Joaquim e se deram conta de que os dois provavelmente tinham escutado o que elas tagarelavam ali alegremente.
            – Eu estava dizendo pro Gaudêncio que é melhor eles dois casarem logo. Essa história de ficar enrolando corda não dá certo.
            – Sabe que eu também acho.
            – Eu vou comer alguma coisa e vou para aula. Do contrário chego atrasado. Vocês fiquem aí fazendo fofoca.
            – Ele fica abespinhado quando a gente fala em casar, mas é a pura verdade.
            – Vocês vão esperar a hora que nós quisermos casar, nem antes, nem depois. Combinado?
            – Pronto. Não se fala mais nisso.
            – Senta aí, Gaudêncio. Vou lhe servir a comida.
            Os outros também sentaram ao redor da mesa da cozinha e comeram ali mesmo. Nada de arrumar mesa especial, sujar toalha, tirar louças do armário. Pra ter mais serviço depois? Era mais confortável comer ali mesmo, ao redor do fogão de lenha. Ainda mais que os primeiros sinais do inverno estavam aparecendo. O minuano vindo da Argentina, soprando e cortando que nem navalha. Terminada a refeição, Gaudêncio saiu para escola e os outros três ficaram conversando, mantendo fogo no fogão. Um chimarrão novo foi preparado e ficaram mateando, lembrando os tempos de meninos, das diabruras que aprontavam. Tempo bom fora aquele. As crianças de hoje nem faziam ideia do que era a infância antigamente.
            Nesse ritmo nem viram o tempo passar e logo o estudante estava ali, pronto para retornarem à fazenda. A cozinheira se despediu um pouco triste. Por ela poderiam ficar ali até o dia seguinte, mas sabia das ocupações que cada um tinha. Joaquim e Gaudêncio planejavam no da seguinte correr atrás da outra testemunha. Talvez a encontrassem facilmente, mas poderia também ter mudado de destino e sabe lá Deus onde estaria a uma hora dessas. Embarcáramos três na caminhonete e rumaram para a Santa Maria. A estrada estava boa, pois pegavam apenas um pequeno trecho de chão, o resto era tudo asfalto. Tratram de irem dormir logo, para levantarem cedo pela manhã.
            Antes de botarem o pé na estrada conferiram se todas as ordens estavam sendo seguidas e relembraram os nomes do casal que iriam procurar, bem como o nome da fazenda onde haviam ido viver. Se tudo corresse de acordo antes do anoitecer estariam de volta. Se não fosse possível, encontrariam onde dormir e continuariam a busca no outro dia. O nome da fazenda era Calavera. Os proprietários eram de descendência espanhola. Não deveria ser difícil encontrar o lugar. Tudo determinado, saíram para a estrada, seguindo pelo asfalto até um vilarejo a cerca de 35km. Ali perguntaram pela fazenda e foram informados que deveriam sair do asfalto e pegar a esquerda. Depois de uns quinze quilômetros, talvez mais um pouco encontrariam uma encruzilhada. Em cada esquina havia uma árvore bem grande. Ali deveriam seguir para direita e mais ou menos dois mil metros depois encontrariam o portal com a placa. Não tinha erro.
            Gaudêncio estava saindo, quando Joaquim lembrou de perguntar ao informante.
            – Sabe se lá trabalha ou trabalhou como capataz um tal Tarcisio Dantas?
            – Seu Tarcísio, casado com dona Ernestina. Foi capataz sim, mas hoje está aposentado. Quem está no lugar dele é o fio mais veio. Mas eles mora lá na fazenda.
            No primeiro instante Joaquim temeu receber uma notícia ruim quando o homem falou que Tarcísio não era mais o capataz. Imaginou o pior. Logo porém seu coração desacelerou, quando ouviu que eles moravam na fazenda.
            – Obrigado amigo. Passar bem. Até outra hora.
            – No hai de que, amigo.
            – Se não acharmos a tal placa escrito Calavera, nos próximos dois três quilômetros, nós voltamos e seguimos para o outro lado.
            – Vamos prestar atenção para não passar sem ver a placa.
            – Cuide do seu lado padrinho, que eu cuido aqui do meu. Assim não vai escapar nem que a placa seja desse tamanhinho.
            – E alguém lá ia fazer uma placa de fazenda tão pequena assim! Tinha graça isso.
            Estavam andando e quase passaram. A placa ficava alguns metros para dentro, com a estradinha de acesso ladeada de árvores, formando uma alameda sombreada. O proprietário mostrava ser um homem caprichoso. O arvoredo estava perdendo as folhas por causa da estação. O caminho todo estava forrado de folhas mortas caídas. Nem que houvesse alguém encarregado de varrer tudo diariamente, não haveria como vencer. Melhor mesmo deixar cair tudo, depois passar o rastelo e usar a folhagem toda par adubação verde. Seguiram por entre as arvores, ovindo o chiado dos pneus nas folhas e pouco depois viram despontar, atrás de uma pequena coxilha, uma bela sede de fazenda.
            Estacionaram e logo um homem já idoso, vestido em trajes tradicionais da região, saiu na varanda da casa grande e saudou:
            – Vamo chegando, amigos. Na casa de Celestino Calavera não tem tramela, nem tranca.
            Desembarcaram e chegaram para perto dizendo:
            – Buenos dias, seu Celestino!
            – Buenos!
            As mãos foram estendidas e apertadas mutuamente e o dono da casa convidou:
            – Mas subam aqui na varanda. Já ia tomar um mate. Tomam uma cuia comigo?
            – Um mate a gente nunca refuga.
            Sentaram-se e uma senhora, aparentando um pouco menos idade, trouxe a chaleira com água e a cuia com o mate já cevado.
            – Essa é minha prenda velha, Marguerita.
            – Bom dia senhora.
            – Bom dia.
            O senhor Celestino serviu um mate e tomou. Constatando que estava bem preparado, serviu outro e alcançou a Joaquim, dizendo simultaneamente:
            – Mas a que devo a honra da visita dos senhores? Pai e filho se não estou enganado.
            – Apenas um pouco. Padrinho e afilhado. Mas agora é como se fossemos pai e filho.
            – Eu acho que lhe conheço, – falou Marguerita.
            – É possível. O seu antigo capataz casou com uma moça que morava na fazenda dos meus pais, hoje minha.
            – Eu lembro do casamento. É a Ernestina do Tarcisio, não lembra Celestino?
            – Não me diga que o senhor é o Joaquim, filho mais novo da família lá da Santa Maria?
            – Ele mesmo.
            – Lamentei muito o ocorrido com sua família. Nós éramos bem amigos, embora nos víssemos apenas vez ou outra.
            – Mas nós viemos justamente em busca do Tarcísio e principalmente da Ernestina.
            – Eles moram aqui pertinho. Ele foi capataz até coisa de dois anos passados. Está um bocado adoentado e aposentei ele. Já tinha tempo de serviço e a doença tirou a força e o pobre ficava desenxavido de não conseguir mais fazer as coisas.
            – O tal INPS é uma boa coisa. Pesa um pouco na hora de contribuir, mas depois traz uma tranquilidade grande.
            – Lá na minha propriedade também aposentamos vários nos últimos meses. Ficam morando na fazenda, os filhso trabalham lá na maioria das vezes. Ajudam um pouco na casa, cuidam do jardim e duma hortinha para não ficarem desocupados.
            – Mas que mal le pergunte, por que estão procurando a Ernestina?
            – Me apareceu um caboclo metido a ser meu parente e quer contestar meu testamento. Fiquei viúvo, fiz o inventário e depois deixei para o afilhado aqui meus bens. Não tenho filhoso.
            – Olha aí! Um parente distante se achando com direitos. E garanto que é daqueles que nunca moveu uma palha para ganhar um pila!
            – Acertou em cheio. Para complicar alega que tem testemunhas de que ele foi criado na fazenda por meus pais e foi considerado como filho. O cretino tem quase minha idade.
            – Deixe ver se entendi. A Ernestina é daquele tempo e pode testemunhar contra isso.
            – Exatamente. O sujeito nunca visitou meus pais. Tenho quase certeza de que nunca os viu na vida.
            – Com certeza os pais do afilhado, como parte interessada, seriam desqualificados como testemunhas.
            – Na mosca! Ontem encontramos um outro que também viveu lá e mora em São Borja. Ele vai testemunhar e para garantir a parada seria bom se a Ernestina pudesse fazer o mesmo.
            – Olha ela vindo aí! – disse Marguerita apontando para o lado das casas dos empregados.
            – É ela mesma. Envelheceu é claro, mas não deixa dúvida.
            Em poucos instantes Ernestina chegou e falou dirigindo-se à antiga patroa:
            – Senhora tem tempo para um dedo de prosa?
            – Espera aí, Ernestina, – falou Joaquim.
            A interpelada olhou por uns instantes e bradou:
            – Eu não acredito! É o Joaquim Monteiro!
            – Como vai você, Ernestina?
            – Como vai com todos os que ficam velhos. Começa a ficar encarangado, reumatismo de todo lado, um tal bico de papagaio na coluna. Dói daqui, dali e nem sei mais donde.
            – Coisas da vida, Ernestina. Esse aqui é nosso afilhado, filho da Maria Conceição e do Pedro Paulo. Lembra que eles casaram pouco antes de vocês?
            – Alembro sim. Como é que eles estão?
            – Estão fortes os dois. Ainda trabalhando. Teimosos igual umas mulas, mas gente de primeira.
            – Mas o que fez oceis se perderem por essas bandas da Calavera?
            – Viemos a sua procura, Ernestina.
            – Pra mo’de que?
            – Para testemunhar a meu, aliás nosso favor num processo?
            – Nada demais, mulher. Um sujeito, de sobrenome Vargas, diz que é parente lá por parte de meu bisavô Fulgêncio Vargas. Arrumou testemunha que foi criado na fazenda comigo e meus irmãos. Quer contestar o testamento que fiz em favor do meu afilhado aqui. Eu e a finada não tivemos filhos.
            – Pode contar comigo no que puder ser útil.
            – Não sabe o alívio que isso nos traz.
            – Que eu me lembre não tinha nenhum parente, além dos seus irmãos crescendo na fazenda. O resto da meninada era tudo filho de peão.
            Nisso Tarcisio também chegou e sentaram-se todos para tomar mate e relembrar os tempos antigos. Havia muitos anos que não se viam e tinham muita coisa para contar. O único que ficou deslocado, apenas ouvindo foi Gaudêncio. O recém chegado foi posto a par dos acontecimentos e também externou sua revolta com a pretensão do atrevido. Se ao menos tivesse sido um parente chegado, um trabalhador, mas pelo que ouvira havia malbaratado uma herança até considerável deixada pelo pai. Se metera com mulheres de vida fácil, jogo clandestino, carteado e coisas assim. Quando dera por si, não restara nada.
            Pelo visto o advogado que estava conduzindo o processo tinha em mente abocanhar uma bela fatia desse bolo. Se o vivente perdera tudo, quase ficara sem a roupa do corpo, morava agora de favor em casa de um antigo empregado seu. Deveriam ter se mancomunado direitinho e pretendiam ter um ganho fácil com o processo.
            Foram convidados para almoçar e combinaram que no dia da audiência viriam buscar Ernestina para depor. Tarcísio falou:
            – Deixa que nós aproveitamos para dar um passeio. Tenho um fusca e levo ela. Não carece correr essa distância duas vezes ida e volta. Fazemos esse favor com muito gosto.
            – Vamos ficar lhe devendo essa, amigo.
            Depois do almoço, descansaram um pouco e depois pegaram a estrada. Bem antes do anoitecer chegaram e deram a boa notícia aos demais. Além do alívio de terem como provar que o processo de contestação do tetamento era sem fundamento, havia a alegria de saber que Ernestina e Tarcísio estavam bem. Viriam de carro próprio para a audiência e isso seria muito bom. Gaudêncio constatou que estava tudo em ordem com o gado, na ordenha e depois foi tomar banho para remover a poeira da estrada. Tinha ainda que rumar para a aula. Não tinha intenção de faltar sem necessidades. Nas provas feitas até aquele momento, tinha se saído muito bem. Pretendia fechar o ano com um bom desempenho.
            Chegou o dia da audiência e ali estavam os envolvidos, bem como suas testemunhas. O advogado do querelante ficou preocupado. Tinha recebido a informação de que o senhor Joaquim não teria como apresentar testemunhas e ali havia duas pessoas com idade de servirem como tal. Começou a temer ter embarcado em uma canoa furada. Prometera uma porção de coisas, gastara por conta dos honorários polpudos que esperava receber depois de ganhar a causa. Por outro lado, Joaquim e suas testemunhas estavam tranquilos. O advogado instruira aos dois para não se deixarem amedrontar e apenas falar a verdade em palavras simples. Não tinham que dar explicações nem responder sobre coisas que aparentemente não teriam nada que ver com o assunto. Poderiam servir para engambelar e armar ciladas.
            O assistente do juiz leu o teor da ação de contestação do testamento de Joaquim Monteiro e favor de Gaudêncio das Neves, seguido do arrazoado das razões e justificativas cabíveis, segundo o advogado do querelante.
            Terminada a leitura o juiz deu a palavra ao advogado que movia a ação, pedindo para trazer suas testemunhas. Eram duas pessoas, marido e mulher. Completamente desconhecidos dos demais, coisa que logo ficou claro e passou a ser cochichado apenas entre eles. Não era bom dar motivos para qualquer questão extra. Os dois afirmaram categoricamente terem vivido na fazenda Santa Maria quando os pais de Joaquim eram vivos. Presenciaram a presença ali, na idade um pouco inferior à de Joaquim, sendo criado pelos pais desse do menino agora homem já idoso, como se filho fora. As palavras de ambos foram praticamente as mesmas.
            – Senhor advogado da parte contestada, quer fazer alguma pergunta?
            – Quero sim, meritíssimo.
            – As testemunhas são suas, doutor.
            – Qualquer um dos dois pode me dizer quais são os nomes desse senhor e dessa senhora sentados aqui à minha direita?
            – Ele se chama Alfredo e ela é sua esposa Juvelina, – disse a mulher.
            – São eles sim, – falou o homem.
            Não tenho mais perguntas, meritíssimo.
            – Agora é sua vez de apresentar as testemunhas, doutor.   – Eu chamo o senhor Bráulio.
            Bráulio fez o juramento de dizer a verdade nada mais e sentou-se ereto:
            – O senhor conheceu esse casal no tempo em que viveu na fazenda Santa Maria?
            – Não, senhor.
            – Ouviu o nome que eles disseram ser o seu?
            – Ouvi sim, senhor. Eu não sou Alfredo e minha esposa é falelcida há alguns anos.
            – Lembra senhor Bráulio se havia na fazenda um menino, parente distante, criado pelos pais de Joaquim como se fosse um filho?
            – Não tinha menino nenhum. Era só os filhos da família, sendo Joaquim o mais novo. Os outros meninos e meninas eram tudo filho de peão da fazenda.
            – Esse que se diz parente distante e quase irmão do senhor Joaquim o senhor nunca viu?
            – Vi não, senhor.
            – Obrigado.
            – O senhor quer fazer alguma pergunta, doutor?
            – Não tenho perguntas.
            – Tem outra testemunha?
            – Eu chamo a senhora Ernestina.
            Repetiu-se os procedimentos, as perguntas foram praticamente as mesmas e também as respostas. Ao final o advogado do querelante não tinha perguntas e já estava juntando seus papéis para deixar o recinto. Sabia que a questão estava perdida e os seus ganhos tinham ido por água a baixo.
            Diante das respostas das testemunhas de apresentadas por Joaquim, contrapondo-se totalmente aos oponentes, comprovando com seus documentos o lugar de nascimento, coisa que os outros não puderam fazer, o juiz deu a ação por encerrada e ditou sua sentença a favor de Joaquim. Cabia ainda ao querelante custear as despesas judiciais, o que seria outra questão. Não tinha de onde tirar um níquel e ficava à mercê da justiça, sujeito inclusive a cumprir algum tempo de cadeia.
            Ao ver que a situação estava perdida ele implorou ao advogado que lhe ajudadesse, mas não adiantou. Tanto o jurista quanto as testemunhas trataram de dar “às de Vila Diogo” e sumiram. Deixaram o infeliz ficou desesperado vendo o magistrado se agigantar diante dele, dizendo que teria a incumbência de arcar com as custas. Vendo que não havia de onde tirar o dinheiro, Joaquim se prontificou a cobrir as custas da justiça e o seu advogado. Quanto ao outro que se virasse. Foi então que se ficou sabendo a real origem da questão.
            O dito parente distante e o advogado haviam se envolvido em uma jogatina. Combinados eles trapaceavam e ganharam bastante dinheiro. Mas, a ganância é péssima conselheira, quiseram aumentar os ganhos além do aceitável e foram pilhados em sua contravenção. Estavam os dois em maus lençóis e queriam arranjar dinheiro fácil e rápido. Isso os levara a armar esse golpe. O advogado afirmara que eram favas contadas e todos eles contavam com polpudas contas bancárias. Dinheiro à vontade para gastar.
            Diante disso o juiz determinou ao assistente a abertura de um processo contra o advogado e também seu cliente. Eles, na pior das hipóteses, passariam alguns meses na cadeia para aprenderem a lição. Haviam ocupado desnecessariamente funcionários, juiz, escrivães e demais membros do judiciário. Além disso tinham perturbado a boa vivência de cidadãos honestos e trabalhadores. Isso merecia uma punição exemplar. Joaquim até sugeriu ao juiz conceder ao miserável um determinado montante para que fosse para algum lugar longe e fizesse algo por si mesmo, mas foi desaconselhado disso. Seria abrir uma porta por onde ele continuaria a tentar sempre conseguir mais e isso não seria justo de maneira alguma.

 

            Foram dispensados pelo magistrado e foram para suas casas. Antes de mais nada, Gaudêncio que aguardara do lado de fora, e Joaquim convidaram todos para comparecerem no próximo domingo na fazenda Santa Maria. Fariam um churrasco comemorativo da vitória. Ninguém mais perturbaria a boa ordem e paz na fazenda. O convite foi aceito e confirmado. Um cheque no valor dos honorários e das custas da máquina judicial, foi entregue ao advogado. Ele que destinasse a parte de cada um. Quanto ao casal que testemunhara a favor da contestação nem sinal se via, nem do advogado se via sequer o rasto. Sabiam que sua batata estaria assando e trataram de por a maior distância possível entre eles e o fórum onde ocorrera a audiência. 
Curitiba, 25 de agosto de 2018 (atualização).

Gaúcho de São Borja! – Capítulo XVIII

Monumento missioneiro

 

Cruz missioneira.

 

Remexendo o passado.
 
O dia seguinte, além das preocupações próprias, tinha ainda a preocupação em rebuscar os recantos da memória em busca de um nome eu pudesse trazer uma luz para o problema novo que surgira. Os primeiros a serem chamados a prestar auxilio nesse afã, foram Pedro Paulo e Maria Conceição. Tinham convivido com Joaquim nos anos em que ele ainda era adolescente. Se alguém podia ajudar a encontrar uma testemunha capaz de derrubar o falso testemunho que o pretenso parente distante constituira. Começaram por fazer uma lista de todos os nomes de pessoas que tinham convivido naquele tempo.
Um a um os nomes iam sendo eliminados quando lembravam da época e localidade de sua morte. Muitos haviam saído dali para trabalhar em outras fazendas sem nunca voltar nem dar notícia. Outros se haviam afastado por força de casamento e outros acontecimentos. Sua comunicação ficara cada vez mais esparsa até sumir da lembrança mais constante. Depois de muito remexer e analisar a lista, acrescentar um ou outro nome antes esquecido, identificaram dois que poderiam ser encontrados na região. Fazia tempo que não ouviam deles, mas também não haviam sabido de seu falecimento ou ida para mais longe. Apenas a agitação do cotidiano, as ocupações diárias, acabaram deixando essa lembrança relegada a um plano bem distante.
Os últimos paradeiros foram lembrados. Um deles tinha o nome de Bráulio Barbosa e seu último endereço fora uma rua próxima ao rio Uruguai na cidade de São Borja. Faltava lembrar o nome certo da rua. O crescimento da cidade nos últimos anos, novas ruas sendo abertas, outras modificadas, edifícios sendo contruídos a cada dia, poderiam tê-lo levado a mudar de endereço. O outro nome era Ernestina Fontes. Ela casara com um tal Tarcísio Dantas e fora morar numa fazenda a cerca de 50 km dali, onde o marido era capataz. Certamente ainda estavam por lá. Do contrário alguém saberia dizer onde se encontrava.
Diante dessa constatação, faltava encontrar ao menos uma dessas duas pessoas e ver se ela teria condições de testemunhar. Um bom número de antigos servidores daquele tempo não mais vivia. Quando Joaquim assumira a fazenda o pessoal estava em uma faixa de idade um pouco elevada. Foi preciso renovar, do contrário chegaria o momento em que teria apenas uma porção de idosos para fazer o trabalho. Isso não era bom. Muitos receberam uma boa ajuda financeira e foram morar na cidade, outros ficaram em casinhas da fazenda até o fim de seus dias. Assim não restavam na propriedade pessoas que tivessem vivido os dias da infância e adolescência de Joaquim, além de Pedro Paulo e Maria Conceição. Os demais eram todos mais jovens e haviam entrado para o serviço mais tarde.
O dia estava perto do final e Gaudêncio propôs ao padrinho irem até a cidade ver se conseguiam logalizar o senhor Bráulio Barbosa. Quem sabia a rua com certeza era Maria Conceição, pois visitara a família algumas vezes nos primeiros anos que ali moravam. A presença dela na hora da ordenha não era imprescindível e decidiram leva-la junto. Chegaram à praça perto da Igreja, de onde ela sabia se orientar. Houve um pouco de estranhamento devido às modernizações do lugar, mas ela sabia o número de quadras a serem percorridas e cada direção. Dessa forma chegaram ao local que ela reconheceu como sendo o endereço de que lembrava. As casas estavam todas envelhecidas e necessitando de reformas. O crescimento da cidade chegava perto e logo as construtoras viriam e fariam ofertas elevadas para adquirir os imóveis.
Em no máximo dois ou três anos, se é que demoraria tanto, ali estaria tudo transformado em conjuntos de apartamentos, o térreo ocupado por lojas e outros estabelecimentos. Tinham que começar por algum lugar e por isso pararam para indagar. A casa em questão estava desocupada. Perguntaram a uma vizinha, na faixa de cinquenta para sessenta anos e ela lhes disse que conhecera a família. Eles haviam mudado para um bairro mais distante um pouco. Fazia poucas semanas, pois tudo ali havia sido comprado por uma construtora. Ela mesma iria se mudar em poucos dias. Aguardava apenas seu novo lar ficar pronto.
Informou-lhes o endereço dos antigos vizinhos e eles agradeceram. Procuraram pelo novo endereço, perguntando em um e outro lugar, chegando assim a um pequeno conjunto residencial. Casas de alvenaria, ruas asfaltadas, calçadas bem arrumadas, tudo muito bonito. Deveria ter sido ótimo mudar-se da casa de madeira, velha, caindo aos pedaços e ainda guardar um bom dinheiro que restara da venda do terreno, bastante valorizado pela expansão imobiliária na região.
Maria Conceição foi quem bateu no portão e logo uma mulher nova veio atender. Ao ser inquirida sobre a residência ali de Bráulio Barbosa ela confirmou. Era seu pai e estava em casa. Se aposentara algum tempo antes.
– Eu sou Maria Conceição. Conheci seu pai na fazenda Santa Maria. Este aqui é seu Joaquim, filho dos antigos donos. Esse outro é meu filho Gaudêncio. Será que podemos conversar um pouco com seu pai?
Ela correu até a porta e falou com alguém lá de dentro. Logo um homem de cabelos embranquecidos, um pouco curvado, trazendo os sinais da idade, do muito trabalho, bem marcados no corpo, saiu e veio até o portão. Ao olhar bem para os visitantes, reconheceu Joaquim e Maria Conceição.
– Mas se não é o Quinzinho! E Maria Conceição! Entrem, vamos conversar.
            O portão foi aberto e os três entraram, indo para a modesta sala de estar, onde havia um grupo estofado onde se acomodaram.
            – Mas a que devo a honra dessa visita inesperada? Inda outro dia tava contando para minha fia sobre o tempo que vivi na fazenda. Bom tempo aquele. Lembra de nossas estripulias nos pastos e capões de mato, Joaquim?
            – Se lembro, Bráulio. Éramos uma bela turma de moleques. Quanto aprontávamos.
            – Faz bem uns quarenta anos que a gente não se vê. A Ceição veio ver a gente algumas vez. Depois também sumiu e nunca mais.
            – Tantas coisas que acontecem e o tempo passa. Nem sei como é que isso se dá.
            – Mas eu estou velho, aposentado graças a Deus. Minha velha casa vendi por bom dinheiro e recebi essa na troca. Sobrou um bom troco que apliquei no Banco do Brasil. Assim fica uma garantia para as horas de precisão.
            – Pois é Bráulio. É ótimo encontrar você aqui. Mas e sua esposa, ainda é viva? – disse Maria.
            – A Josefina me deixou faz coisa de quatro ano, Ceição. Deu um tal de apoplexia nela e levou ela de mim. Nem magina a farta que me faz.
            – Lamento muito, amigo. Vamos ao assunto que nos traz aqui.
            – Pode falar, que estou pronto para ajudar o amigo. Nem pode imaginar o contentamento que me trazem.
            – Não sei se você soube, mas meus pais e meus irmãos morreram num acidente com nosso avião lá para o lado da Serra do Mar, num dia de tempestade. Fiquei sozinho para cuidar da fazenda. Já era casado e não tivemos filhos. A finada herdou a propriedade vizinha e juntamos tudo num só pedaço. Questão de uns cinco anos ela também faleceu de modo semelhante à sua Josefina. Fiz o inventário e decidi nomear nosso afilhado, o Gaudênio aqui, filho da Conceição e do Pedro Paulo. Lembra dele?
            – Pedro Paulo? Lembro sim. Era um dos mais espevitado da turma.
 
            – Ele casou com a Ceição e tiveram só esse filho, nosso afilhado. Nós íamos adotar um menino, mas com a vinda do afilhado, desistimos e resolvemos fazer dele nosso filho.
            – Muito justo.
            – Pois como ia falando, nomeei ele meu herdeiro. Agora me aparece um porqueira de um camarada, lá dos tempos de meu bisavô, dizendo que foi criado na fazenda, que era como filho para meus pais e arrumou até testemunha. Moral da história. Quer derrubar meu testamento e se fazer de herdeiro de tudo que tenho.
            – Mas e tem direito?
            – Teria se não houvesse meu direito antes de nomear meu herdeiro de livre e espontânea vontade. Até seria justo deixar algo para ele se o que diz fosse verdade, mas não é.
            – E qual é o nome desse infeliz?
            – Um tal de João Ribas Vargas. Lembra se tinha alguém desse nome na fazenda quando nós éramos moleques, depois rapazes? Principalmente sendo criado por meus pais, meio agregado.
            – Tinha ninguém com esse nome, não amigo Joaquim. Isso eu tenho certeza. Posso contar nos dedos e dizer os nomes de um por um. Graças a Deus tenho boa memória ainda.
            – Você está disposto a nos ajudar a derrubar a mentira dele na justiça?
            – Pode contar com o Bráulio aqui. Onde se viu uma coisa dessa?
            – Vamos fazer um churrasco dia desses e venho lhe buscar, ou mando o afilhado para vocês passarem um dia na fazenda.
            – Me avisa antes, pra mo de não ter outra coisa em vista.
            – Eu mesmo tenho casa aqui na cidade e podemos passar umas horas juntos no clube. Agora que sei seu endereço venho de vez em quando aqui.
            – Mas não querem esperar um chimarrão? Sempre tem um mate pra servir os amigos.
            – Nós vamos indo. O afilhado tem aula para assistir e nós vamos para a minha casa onde a empregada vai preparar nossa refeição. Outro dia nós viemos conversar e tomar mate.
            – Não esquece de me avisar antes da audiência lá no juiz. Vamos desmentir essa embrulhada toda.
            Sairam levando um imenso alívio no coração. Se encontrassem a outra testemunha ficaria mais forte o embasamento da sua resposta ao questionamento judicial do testamento. Poderiam continuar mais tranquilos. Ao chegarem à casa de Joaquim ainda havia tempo de preparar uma refeição rápida antes de Gaudêncio ir para a aula. Joaquim pegou o telefone e ligou para o advogado e lhe explicou seu achado. Havia testemunhas vivas da época em que o pretendente a herdeiro dizia ter vivido na fazenda e ser considerado como filho pelos pais de Joaquim. O jurista lhe afirmou que isso era importantíssimo, aliás fundamental na obteção de uma sentença contrária às pretensões do postulante.
            Joaquim lhe falou que havia ainda a possibilidade de outra testemunha estar apta a prestar depoimento. Precisaria apenas fazer uma pequena viagem até a fazenda onde supunham que ela residia.
            – Assim fica melhor ainda. Mais de uma testemunha ocular para confirmar os mesmos fatos, torna o processo praticamente ganho. Pode deixar com a gente que o resto nós cuidamos, – falou o advogado.
            – Eu lhe agradeço. Depois de derrubar essa mentirada, vamos comemorar com um belo churrasco e cerveja.
            – Isso mesmo, amigo.
            Maria Conceição estava na cozinha ajudando a ultimar a refeição e conversando com a cozinheira. A vivente passava grande parte do tempo sozinha na casa. Costumava trazer uma neta para passar algumas horas com ela, mas a menina começara a trabalhar. Com isso tinha menos tempo disponível. À noite também ia para a escola, mas em outra mais perto da casa dos pais dela. Ficou satisfeita em ter companhia pelo menos por algumas horas. Não se queixava de resto, pois o salário era bom e o serviço pouco. Pesada mesmo era a solidão. Seus dedos estavam calejados de tanto manejar as aguhas de tricô e crochê. Todos os netos ganhavam alguma blusa, um casaquinho feito pela avó. Formavam fila esperando a vez. Logo começariam a vir os bisnetos e ela teria mais com que se preocupar.
            A conversa estava animada quando Joaquim e Gaudêncio chegaram perto da porta. Puseram-se a ouvir e ficaram encantados com o que diziam. Maria Conceição acabava de externar seu sonho de logo ter netos. Por ela o filho casaria logo e acabava com essa andança dali para capital e voltar. Namoro assim dessa distância não dava muito certo. Melhor casar logo de uma vez. Noivos já estavam, pareciam se amar de verdade, para que esticar essa novela?
            Joaquim olhou para o afilhado e piscou. Depois cochichou:
            – O que foi que eu falei? Sua mãe também acha melhor vocês casarem logo.
            – Só me faltava essa agora. Minha mãe também me empurrando para o altar e diante do juiz.
            – Queremos o seu bem, meu caro afilhado.
            – Vamos casar sim, mas quando nós marcarmos a data, nada de pressão por enquanto.
            – Não tem problema, contant que seja logo, – falou Joaquim rindo e entrando na cozinha.
            As duas mulheres levaram um susto e ficaram quietas instantaneamente. Haviam ouvido as últimas palavras de Joaquim e se deram conta de que os dois provavelmente tinham escutado o que elas tagarelavam ali alegremente.
            – Eu estava dizendo pro Gaudêncio que é melhor eles dois casarem logo. Essa história de ficar enrolando corda não dá certo.
            – Sabe que eu também acho.
            – Eu vou comer alguma coisa e vou para aula. Do contrário chego atrasado. Vocês fiquem aí fazendo fofoca.
            – Ele fica abespinhado quando a gente fala em casar, mas é a pura verdade.
            – Vocês vão esperar a hora que nós quisermos casar, nem antes, nem depois. Combinado?
            – Pronto. Não se fala mais nisso.
            – Senta aí, Gaudêncio. Vou lhe servir a comida.
            Os outros também sentaram ao redor da mesa da cozinha e comeram ali mesmo. Nada de arrumar mesa especial, sujar toalha, tirar louças do armário. Pra ter mais serviço depois? Era mais confortável comer ali mesmo, ao redor do fogão de lenha. Ainda mais que os primeiros sinais do inverno estavam aparecendo. O minuano vindo da Argentina, soprando e cortando que nem navalha. Terminada a refeição, Gaudêncio saiu para escola e os outros três ficaram conversando, mantendo fogo no fogão. Um chimarrão novo foi preparado e ficaram mateando, lembrando os tempos de meninos, das diabruras que aprontavam. Tempo bom fora aquele. As crianças de hoje nem faziam ideia do que era a infância antigamente.
            Nesse ritmo nem viram o tempo passar e logo o estudante estava ali, pronto para retornarem à fazenda. A cozinheira se despediu um pouco triste. Por ela poderiam ficar ali até o dia seguinte, mas sabia das ocupações que cada um tinha. Joaquim e Gaudêncio planejavam no da seguinte correr atrás da outra testemunha. Talvez a encontrassem facilmente, mas poderia também ter mudado de destino e sabe lá Deus onde estaria a uma hora dessas. Embarcáramos três na caminhonete e rumaram para a Santa Maria. A estrada estava boa, pois pegavam apenas um pequeno trecho de chão, o resto era tudo asfalto. Tratram de irem dormir logo, para levantarem cedo pela manhã.
            Antes de botarem o pé na estrada conferiram se todas as ordens estavam sendo seguidas e relembraram os nomes do casal que iriam procurar, bem como o nome da fazenda onde haviam ido viver. Se tudo corresse de acordo antes do anoitecer estariam de volta. Se não fosse possível, encontrariam onde dormir e continuariam a busca no outro dia. O nome da fazenda era Calavera. Os proprietários eram de descendência espanhola. Não deveria ser difícil encontrar o lugar. Tudo determinado, saíram para a estrada, seguindo pelo asfalto até um vilarejo a cerca de 35km. Ali perguntaram pela fazenda e foram informados que deveriam sair do asfalto e pegar a esquerda. Depois de uns quinze quilômetros, talvez mais um pouco encontrariam uma encruzilhada. Em cada esquina havia uma árvore bem grande. Ali deveriam seguir para direita e mais ou menos dois mil metros depois encontrariam o portal com a placa. Não tinha erro.
            Gaudêncio estava saindo, quando Joaquim lembrou de perguntar ao informante.
            – Sabe se lá trabalha ou trabalhou como capataz um tal Tarcisio Dantas?
            – Seu Tarcísio, casado com dona Ernestina. Foi capataz sim, mas hoje está aposentado. Quem está no lugar dele é o fio mais veio. Mas eles mora lá na fazenda.
            No primeiro instante Joaquim temeu receber uma notícia ruim quando o homem falou que Tarcísio não era mais o capataz. Imaginou o pior. Logo porém seu coração desacelerou, quando ouviu que eles moravam na fazenda.
            – Obrigado amigo. Passar bem. Até outra hora.
            – No hai de que, amigo.
            – Se não acharmos a tal placa escrito Calavera, nos próximos dois três quilômetros, nós voltamos e seguimos para o outro lado.
            – Vamos prestar atenção para não passar sem ver a placa.
            – Cuide do seu lado padrinho, que eu cuido aqui do meu. Assim não vai escapar nem que a placa seja desse tamanhinho.
            – E alguém lá ia fazer uma placa de fazenda tão pequena assim! Tinha graça isso.
            Estavam andando e quase passaram. A placa ficava alguns metros para dentro, com a estradinha de acesso ladeada de árvores, formando uma alameda sombreada. O proprietário mostrava ser um homem caprichoso. O arvoredo estava perdendo as folhas por causa da estação. O caminho todo estava forrado de folhas mortas caídas. Nem que houvesse alguém encarregado de varrer tudo diariamente, não haveria como vencer. Melhor mesmo deixar cair tudo, depois passar o rastelo e usar a folhagem toda par adubação verde. Seguiram por entre as arvores, ovindo o chiado dos pneus nas folhas e pouco depois viram despontar, atrás de uma pequena coxilha, uma bela sede de fazenda.
            Estacionaram e logo um homem já idoso, vestido em trajes tradicionais da região, saiu na varanda da casa grande e saudou:
            – Vamo chegando, amigos. Na casa de Celestino Calavera não tem tramela, nem tranca.
            Desembarcaram e chegaram para perto dizendo:
            – Buenos dias, seu Celestino!
            – Buenos!
            As mãos foram estendidas e apertadas mutuamente e o dono da casa convidou:
            – Mas subam aqui na varanda. Já ia tomar um mate. Tomam uma cuia comigo?
            – Um mate a gente nunca refuga.
            Sentaram-se e uma senhora, aparentando um pouco menos idade, trouxe a chaleira com água e a cuia com o mate já cevado.
            – Essa é minha prenda velha, Marguerita.
            – Bom dia senhora.
            – Bom dia.
            O senhor Celestino serviu um mate e tomou. Constatando que estava bem preparado, serviu outro e alcançou a Joaquim, dizendo simultaneamente:
            – Mas a que devo a honra da visita dos senhores? Pai e filho se não estou enganado.
            – Apenas um pouco. Padrinho e afilhado. Mas agora é como se fossemos pai e filho.
            – Eu acho que lhe conheço, – falou Marguerita.
            – É possível. O seu antigo capataz casou com uma moça que morava na fazenda dos meus pais, hoje minha.
            – Eu lembro do casamento. É a Ernestina do Tarcisio, não lembra Celestino?
            – Não me diga que o senhor é o Joaquim, filho mais novo da família lá da Santa Maria?
            – Ele mesmo.
            – Lamentei muito o ocorrido com sua família. Nós éramos bem amigos, embora nos víssemos apenas vez ou outra.
            – Mas nós viemos justamente em busca do Tarcísio e principalmente da Ernestina.
            – Eles moram aqui pertinho. Ele foi capataz até coisa de dois anos passados. Está um bocado adoentado e aposentei ele. Já tinha tempo de serviço e a doença tirou a força e o pobre ficava desenxavido de não conseguir mais fazer as coisas.
            – O tal INPS é uma boa coisa. Pesa um pouco na hora de contribuir, mas depois traz uma tranquilidade grande.
            – Lá na minha propriedade também aposentamos vários nos últimos meses. Ficam morando na fazenda, os filhso trabalham lá na maioria das vezes. Ajudam um pouco na casa, cuidam do jardim e duma hortinha para não ficarem desocupados.
            – Mas que mal le pergunte, por que estão procurando a Ernestina?
            – Me apareceu um caboclo metido a ser meu parente e quer contestar meu testamento. Fiquei viúvo, fiz o inventário e depois deixei para o afilhado aqui meus bens. Não tenho filhoso.
            – Olha aí! Um parente distante se achando com direitos. E garanto que é daqueles que nunca moveu uma palha para ganhar um pila!
            – Acertou em cheio. Para complicar alega que tem testemunhas de que ele foi criado na fazenda por meus pais e foi considerado como filho. O cretino tem quase minha idade.
            – Deixe ver se entendi. A Ernestina é daquele tempo e pode testemunhar contra isso.
            – Exatamente. O sujeito nunca visitou meus pais. Tenho quase certeza de que nunca os viu na vida.
            – Com certeza os pais do afilhado, como parte interessada, seriam desqualificados como testemunhas.
            – Na mosca! Ontem encontramos um outro que também viveu lá e mora em São Borja. Ele vai testemunhar e para garantir a parada seria bom se a Ernestina pudesse fazer o mesmo.
            – Olha ela vindo aí! – disse Marguerita apontando para o lado das casas dos empregados.
            – É ela mesma. Envelheceu é claro, mas não deixa dúvida.
            Em poucos instantes Ernestina chegou e falou dirigindo-se à antiga patroa:
            – Senhora tem tempo para um dedo de prosa?
            – Espera aí, Ernestina, – falou Joaquim.
            A interpelada olhou por uns instantes e bradou:
            – Eu não acredito! É o Joaquim Monteiro!
            – Como vai você, Ernestina?
            – Como vai com todos os que ficam velhos. Começa a ficar encarangado, reumatismo de todo lado, um tal bico de papagaio na coluna. Dói daqui, dali e nem sei mais donde.
            – Coisas da vida, Ernestina. Esse aqui é nosso afilhado, filho da Maria Conceição e do Pedro Paulo. Lembra que eles casaram pouco antes de vocês?
            – Alembro sim. Como é que eles estão?
            – Estão fortes os dois. Ainda trabalhando. Teimosos igual umas mulas, mas gente de primeira.
            – Mas o que fez oceis se perderem por essas bandas da Calavera?
            – Viemos a sua procura, Ernestina.
            – Pra mo’de que?
            – Para testemunhar a meu, aliás nosso favor num processo?
            – Nada demais, mulher. Um sujeito, de sobrenome Vargas, diz que é parente lá por parte de meu bisavô Fulgêncio Vargas. Arrumou testemunha que foi criado na fazenda comigo e meus irmãos. Quer contestar o testamento que fiz em favor do meu afilhado aqui. Eu e a finada não tivemos filhos.
            – Pode contar comigo no que puder ser útil.
            – Não sabe o alívio que isso nos traz.
            – Que eu me lembre não tinha nenhum parente, além dos seus irmãos crescendo na fazenda. O resto da meninada era tudo filho de peão.
            Nisso Tarcisio também chegou e sentaram-se todos para tomar mate e relembrar os tempos antigos. Havia muitos anos que não se viam e tinham muita coisa para contar. O único que ficou deslocado, apenas ouvindo foi Gaudêncio. O recém chegado foi posto a par dos acontecimentos e também externou sua revolta com a pretensão do atrevido. Se ao menos tivesse sido um parente chegado, um trabalhador, mas pelo que ouvira havia malbaratado uma herança até considerável deixada pelo pai. Se metera com mulheres de vida fácil, jogo clandestino, carteado e coisas assim. Quando dera por si, não restara nada.
            Pelo visto o advogado que estava conduzindo o processo tinha em mente abocanhar uma bela fatia desse bolo. Se o vivente perdera tudo, quase ficara sem a roupa do corpo, morava agora de favor em casa de um antigo empregado seu. Deveriam ter se mancomunado direitinho e pretendiam ter um ganho fácil com o processo.
            Foram convidados para almoçar e combinaram que no dia da audiência viriam buscar Ernestina para depor. Tarcísio falou:
            – Deixa que nós aproveitamos para dar um passeio. Tenho um fusca e levo ela. Não carece correr essa distância duas vezes ida e volta. Fazemos esse favor com muito gosto.
            – Vamos ficar lhe devendo essa, amigo.
            Depois do almoço, descansaram um pouco e depois pegaram a estrada. Bem antes do anoitecer chegaram e deram a boa notícia aos demais. Além do alívio de terem como provar que o processo de contestação do tetamento era sem fundamento, havia a alegria de saber que Ernestina e Tarcísio estavam bem. Viriam de carro próprio para a audiência e isso seria muito bom. Gaudêncio constatou que estava tudo em ordem com o gado, na ordenha e depois foi tomar banho para remover a poeira da estrada. Tinha ainda que rumar para a aula. Não tinha intenção de faltar sem necessidades. Nas provas feitas até aquele momento, tinha se saído muito bem. Pretendia fechar o ano com um bom desempenho.
           
Ministério público em São Borja.
 Chegou o dia da audiência e ali estavam os envolvidos, bem como suas testemunhas. O advogado do querelante ficou preocupado. Tinha recebido a informação de que o senhor Joaquim não teria como apresentar testemunhas e ali havia duas pessoas com idade de servirem como tal. Começou a temer ter embarcado em uma canoa furada. Prometera uma porção de coisas, gastara por conta dos honorários polpudos que esperava receber depois de ganhar a causa. Por outro lado, Joaquim e suas testemunhas estavam tranquilos. O advogado instruira aos dois para não se deixarem amedrontar e apenas falar a verdade em palavras simples. Não tinham que dar explicações nem responder sobre coisas que aparentemente não teriam nada que ver com o assunto. Poderiam servir para engambelar e armar ciladas.
            O assistente do juiz leu o teor da ação de contestação do testamento de Joaquim Monteiro e favor de Gaudêncio das Neves, seguido do arrazoado das razões e justificativas cabíveis, segundo o advogado do querelante.
            Terminada a leitura o juiz deu a palavra ao advogado que movia a ação, pedindo para trazer suas testemunhas. Eram duas pessoas, marido e mulher. Completamente desconhecidos dos demais, coisa que logo ficou claro e passou a ser cochichado apenas entre eles. Não era bom dar motivos para qualquer questão extra. Os dois afirmaram categoricamente terem vivido na fazenda Santa Maria quando os pais de Joaquim eram vivos. Presenciaram a presença ali, na idade um pouco inferior à de Joaquim, sendo criado pelos pais desse do menino agora homem já idoso, como se filho fora. As palavras de ambos foram praticamente as mesmas.
            – Senhor advogado da parte contestada, quer fazer alguma pergunta?
            – Quero sim, meritíssimo.
            – As testemunhas são suas, doutor.
            – Qualquer um dos dois pode me dizer quais são os nomes desse senhor e dessa senhora sentados aqui à minha direita?
            – Ele se chama Alfredo e ela é sua esposa Juvelina, – disse a mulher.
            – São eles sim, – falou o homem.
            Não tenho mais perguntas, meritíssimo.
            – Agora é sua vez de apresentar as testemunhas, doutor.   – Eu chamo o senhor Bráulio.
            Bráulio fez o juramento de dizer a verdade nada mais e sentou-se ereto:
            – O senhor conheceu esse casal no tempo em que viveu na fazenda Santa Maria?
            – Não, senhor.
            – Ouviu o nome que eles disseram ser o seu?
            – Ouvi sim, senhor. Eu não sou Alfredo e minha esposa é falelcida há alguns anos.
            – Lembra senhor Bráulio se havia na fazenda um menino, parente distante, criado pelos pais de Joaquim como se fosse um filho?
            – Não tinha menino nenhum. Era só os filhos da família, sendo Joaquim o mais novo. Os outros meninos e meninas eram tudo filho de peão da fazenda.
            – Esse que se diz parente distante e quase irmão do senhor Joaquim o senhor nunca viu?
            – Vi não, senhor.
            – Obrigado.
            – O senhor quer fazer alguma pergunta, doutor?
            – Não tenho perguntas.
            – Tem outra testemunha?
            – Eu chamo a senhora Ernestina.
            Repetiu-se os procedimentos, as perguntas foram praticamente as mesmas e também as respostas. Ao final o advogado do querelante não tinha perguntas e já estava juntando seus papéis para deixar o recinto. Sabia que a questão estava perdida e os seus ganhos tinham ido por água a baixo.
            Diante das respostas das testemunhas de apresentadas por Joaquim, contrapondo-se totalmente aos oponentes, comprovando com seus documentos o lugar de nascimento, coisa que os outros não puderam fazer, o juiz deu a ação por encerrada e ditou sua sentença a favor de Joaquim. Cabia ainda ao querelante custear as despesas judiciais, o que seria outra questão. Não tinha de onde tirar um níquel e ficava à mercê da justiça, sujeito inclusive a cumprir algum tempo de cadeia.
            Ao ver que a situação estava perdida ele implorou ao advogado que lhe ajudadesse, mas não adiantou. Tanto o jurista quanto as testemunhas trataram de dar “às de Vila Diogo” e sumiram. Deixaram o infeliz ficou desesperado vendo o magistrado se agigantar diante dele, dizendo que teria a incumbência de arcar com as custas. Vendo que não havia de onde tirar o dinheiro, Joaquim se prontificou a cobrir as custas da justiça e o seu advogado. Quanto ao outro que se virasse. Foi então que se ficou sabendo a real origem da questão.
            O dito parente distante e o advogado haviam se envolvido em uma jogatina. Combinados eles trapaceavam e ganharam bastante dinheiro. Mas, a ganância é péssima conselheira, quiseram aumentar os ganhos além do aceitável e foram pilhados em sua contravenção. Estavam os dois em maus lençóis e queriam arranjar dinheiro fácil e rápido. Isso os levara a armar esse golpe. O advogado afirmara que eram favas contadas e todos eles contavam com polpudas contas bancárias. Dinheiro à vontade para gastar.
            Diante disso o juiz determinou ao assistente a abertura de um processo contra o advogado e também seu cliente. Eles, na pior das hipóteses, passariam alguns meses na cadeia para aprenderem a lição. Haviam ocupado desnecessariamente funcionários, juiz, escrivães e demais membros do judiciário. Além disso tinham perturbado a boa vivência de cidadãos honestos e trabalhadores. Isso merecia uma punição exemplar. Joaquim até sugeriu ao juiz conceder ao miserável um determinado montante para que fosse para algum lugar longe e fizesse algo por si mesmo, mas foi desaconselhado disso. Seria abrir uma porta por onde ele continuaria a tentar sempre conseguir mais e isso não seria justo de maneira alguma.


            Foram dispensados pelo magistrado e foram para suas casas. Antes de mais nada, Gaudêncio que aguardara do lado de fora, e Joaquim convidaram todos para comparecerem no próximo domingo na fazenda Santa Maria. Fariam um churrasco comemorativo da vitória. Ninguém mais perturbaria a boa ordem e paz na fazenda. O convite foi aceito e confirmado. Um cheque no valor dos honorários e das custas da máquina judicial, foi entregue ao advogado. Ele que destinasse a parte de cada um. Quanto ao casal que testemunhara a favor da contestação nem sinal se via, nem do advogado se via sequer o rasto. Sabiam que sua batata estaria assando e trataram de por a maior distância possível entre eles e o fórum onde ocorrera a audiência. 
 
Túmulo de Jango.

 

 

Mineiro sovina! – Capítulo XX (final)

 

Bonsai de Azaleia.
Cactos florido.

 

Orquídeas Paphiopedilum.

 

20. Os sonhos se realizam.
         Com o assédio do galante pintor italiano afastado, José Silvério respirou aliviado. Convidou Isabel a irem a Belo Horizonte durante o final de semana em que ele estaria expondo na capital. Queria mostrar a ele que eles estavam juntos e decididos a construírem uma vida a dois. Não iriam se esconder, pois não tinham motivo para isso. O intruso era ele e deveria se convencer da necessidade de deixar aos dois em paz.
         Isabel não achou boa idéia. Iria parecer provocação e não era possível prever a reação do outro.
         – Não o conhecemos suficientemente bem para prever como vai reagir.
         – Se ficarmos aqui, daremos a impressão de que temos medo dele. Não é isso que vai parecer?
         – Vou conversar com meus pais a respeito. Eles já me deram um aperto bem sério sobre isso. Se eu for com você lá cutucar o homem, acho que não vai ser legal.
         – Também tem essa questão. Não devemos desgostar seus pais. Até mesmo os meus não sei se aprovariam minha proposição.
         – Amanhã a gente vai estar com a cabeça mais serena e teremos condições de tomar uma decisão mais acertada.
         – Eu tive vontade de ir até a Rodoviária atrás dele, mas fiquei sabendo que saiu do hotel com passagem para dali a vinte minutos. Não daria mais tempo. Já estava na estrada.
         – Foi melhor assim, meu amor. Imaginou como ficaria sua reputação se tivesse encontrado com ele e acontecesse uma briga entre vocês dois?
         – Bem pensado. Na hora eu não vi nada na minha frente. Parecia que tudo era vermelho. Igual o boi sendo provocado pelo toureiro.
         – Calma, amor. Não tem motivo para se exaltar tanto. Eu amo você e mais ninguém.
         – Esse “bepi” que vá para bem longe e não volte mais.
         – O melhor é ignorar. Ele é homem livre e pode ir onde quiser. É famoso no mundo inteiro. Não vou conseguir me esconder para sempre dele. Em algum momento da vida vamos nos ver e então veremos como fica a questão.
         – Ele que não se meta a besta! Mostro a ele o que acontece com quem mexe com mulher minha.
         – Alto lá! Não sou sua propriedade. Quero ser sua esposa, mãe dos nossos filhos, mas não lhe pertenço como um carro ou um pedaço de terra.
         – Nem é isso que eu quis dizer, meu bem.
         – Infelizmente em muitos casos é o que os homens acham que acontece com o casamento. A mulher se torna “propriedade” deles. Podem usar e abusar. Isso eu não vou aceitar, pode esquecer.
         – Nunca vou agir assim. Desculpe se eu passei dos limites. Vou me manter mais calmo. É que quando vi aquele “almofadinha” todo empoado ali como que dizendo: Olhem como eu sou charmoso, gostoso e bonitão. Todas as mulheres me acham lindo.
         – Pelo menos eu não pensei isso. Aquele bigodinho dele não me atrai nem um pouco. Depois já está quase careca.
         – Isso vai acontecer comigo também com o passar dos anos.
         – Mas eu também vou envelhecer, vamos ficar enrugados os dois. Parou para pensar como vamos estar daqui uns vinte anos? Deveria ser possível ver como iremos ficando com o passar do tempo.
         – Acho melhor não. Seria sofrer por antecipação.
         – Vamos falar de outros assuntos, meu bem. Jogue uma pá de cal sobre esse assunto e vamos cuidar de aproveitar nosso tempo juntos.
         Levantaram e foram até o atelier onde Isabel passou a mostrar seus quadros produzidos nas últimas semanas. Dois estavam ainda sobre os cavaletes, esperando completar a secagem. José contou um por um e constatou que ela pintara mais do que havia imaginado. Ao todo eram 20 telas, onde uma nova artista surgia. Se os primeiros que vira há pouco mais de um ano, eram lindíssimos, estes de agora eram divinos. A força do traço, a harmonia das cores, o efeito estético final era estonteante. Cada um mostrava uma nova faceta da pintora. Ela colocava toda sua alma, sua personalidade na pintura.
 
Phragmipedium.

 

Phragmipedium
 
         – Você já tem material para nova exposição aqui. A maioria das exposições não tem muito mais que isso do mesmo artista.
         – Vou expor no ano que vem. Tenho muito que pintar, antes disso. Se for pensar em exposição agora, perco o ímpeto e a inspiração passa.
         – Parece produção em série, igual linha de montagem das fábricas de automóveis.
         – A diferença é que aqui só tem um operário que faz todas as etapas.
         – Estou vendo que daqui a uns anos, existirão mil, dois mil quadros pintados por você. Não vai desvalorizar seu trabalho?
         – Acho que não. Se não tiver tanto valor, mais gente poderá comprar e ter um quadro meu em casa.
         – Tem esse lado. Vamos ver quando você estiver na eternidade o quanto vão valer seus quadros. Ainda bem que não estaremos aqui para ver.
         – Há pintores que em vida passaram fome, até que não venderam um único quadro. Eu já vendi um monte. Ao todo são mais de 150 vendidos.
         Nisso ouviram Maria Luisa chamando para jantar. Recolocaram os quadros em seus lugares e foram para a sala de jantar. Não era boa política fazer os pais esperarem para eles virem participar da refeição. Ao chegarem ali ouviram Onofre resmungar:
         – Pensei que iam ficar naquele atelier até amanhã.
         – Tínhamos que guardar os quadros no lugar para não ficar tudo bagunçado.
         – Quem mandou tirar tudo do lugar?
         – Para mostrar ao José, pai.
         – Estou embasbacado, coronel. Ela está pintando como uma louca. Tem mais de vinte quadros prontos naquele cubículo. Quase tudo ocupado. Logo vai ter que ocupar um outro lugar.
         – Igual antes. Havia quadros por toda parte, – disse Maria Luisa.
         – Nem tanto mãe.
         – Não, é? Eu que sei pois sabia onde estavam. Só faltou por alguns embaixo de nossa cama. Tinha no quarto dela, na despensa, no outro quarto de hóspedes, por tudo.
         – Lembro. Quando começou a tirar quadro não parava mais de sair. Era de toda parte.
         – Nem posso dizer nada, afinal você ajudou a carregar tudo.
         – Ansim o’cê vai gastar o estoque de tinta da cidade tudo.
         – Isso eles providenciam depressa. Nem se preocupe, pai.
         O jantar transcorreu em silêncio depois disso, ocupados que estavam em comer. Terminada a refeição foram sentar-se diante do aparelho de TV assistir ao Jornal Nacional. Era preciso ficar ao par das notícias do país e do resto do mundo. Em um momento apareceu o italiano, chegando de retorno à capital. Acabara de desembarcar e ia pegar um taxi para dirigir-se ao hotel. Não quis dar explicações sobre suas andanças durante o dia. Ninguém o havia visto viajar e os repórteres estavam curiosos por saber onde estivera. Por mais que tentassem, não conseguiram que seus lábios emitissem algo além de um sorriso pouco expressivo.
         Deixou literalmente claro que aquele dia não faria parte dos noticiários mundiais. Ele o vivera somente para si e não tinha disposição de partilhar o que havia acontecido. Ninguém saberia onde estivera, salvo se algum jornalista de Sete Lagoas o associasse à sua passagem rápida pela cidade. Esperava que isso não acontecesse. Quanto menos se falasse nesse evento, melhor seria para ele. Chegou ao hotel e depois de pagar a corrida, entrou rapidamente, sumindo de vista.
         Em pouco tempo uma pequena multidão de repórteres jornalísticos e televisivos, fotógrafos e cinegrafistas se formou diante da portaria do estabelecimento. Houve um pequeno tumulto quando os seguranças pediram que o acesso aos clientes ficasse desimpedido. Alguns se exaltaram tentando reivindicar direitos de informação. O gerente chegou perto e lhes falou:
         – Aqui é propriedade privada e eu peço que não criem tumulto. Se isso ocorrer, não vou hesitar em chamar a polícia. Portanto, fiquem afastados da entrada do hotel. Estão impedindo nossos clientes de acessar e deixar o lugar livremente. Isso é invasão de propriedade privada.
         Um mais alterado tentou argumentar mas ele virou-lhe as costas e voltou para o interior. Pegou o telefone e começou a discar. Nesse momento a turba se deu conta de que as palavras haviam sido ditas a sério. Os mais moderados acalmaram os outros e foram se postar em posição que não atrapalhasse o livro acesso ao estabelecimento. Vendo isso o gerente deixou a ligação ao meio. Na verdade apenas fizera o gesto de discar para mostrar que não estava brincando, fazendo ameaças vazias. Não havia por que temer.
         Em pouco tempo houve quem ligasse de Sete Lagoas afirmando ter visto o artista lá entre o meio dia e as cinco horas da tarde. Almoçara num restaurante, conversara com pessoas e de um momento para outro entrara no hotel para logo depois sair apressadamente e retornar a Belo Horizonte. Ninguém havia feito imagens, apenas a informação falada. Quando a ser a mesma pessoa não restava dúvida, uma vez que ao chegar ainda vestia as mesmas roupas com que se apresentara lá. Não houvera tempo de trocar, na rápida saída do hotel.
         A exposição transcorreu normalmente, vários trabalhos do pintor foram adquiridos por colecionadores e ele seguiu seu roteiro por outras capitais do país. Demorou ao todo quase três meses em sua tourné. No dia de seu embarque para a Europa, antes de ir para a área de embarque aproveitou e mandou a mensagem para Isabel:
         – Tchau, bella Isabel Pires. Io volverei.
         Ninguém entendeu o que ele quisera dizer, pois ninguém associara o nome à jovem pintora mineira. O jornalista que ligara informando da sua estada na cidade, ouviu a mensagem e associou as coisas. Tentou investigar o assunto, mas deparou com um mutismo total.
 
Catleya.

 

Catleya.
 
         Isabel e José Silvério estavam de casamento marcado. Ao mesmo tempo a artista estava expondo sua produção mais recente na galeria de Sete Lagoas. O trabalho de poucos meses era um acervo de mais de cem pinturas. Era uma artista aparentemente nova, não guardando nada de sua primeira exposição. Os entendidos no entando, colocando os trabalhos lado a lado, conseguiam perceber a semelhança no traço firme, na harmonia das cores. Apenas o vigor, a energia que transpareciam nos novos quadros era a antiga multiplicada por dez. Pareciam ter vida própria seus novos trabalhos.
         Os visitantes eram unânimes em elogiar as pinturas ora expostas, sem no entanto deixar de gloriar os antigos. Uma verdadeira multidão de visitantes veio ver e fazer ofertas de compra. Por sugestão do agente, não haviam sido colocados preços mínimos nas pinturas. Quem quisesse fazer ofertas poderia fazê-lo, mas não havia promessa de aceitação. Esperariam para ver os valores que iriam aparecer e assim avaliar mais adequadamente os trabalhos. No mês seguinte seguiriam para Belo Horizonte e já estavam em negociação com São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre para novos eventos. Não tardaria para aparecerem os representantes de galerias europeias para negociar contratos.
         O mês de maio estava reservado para o casamento e a viagem em lua de mel. Nada seria planejado para esse mês. Mesmo nos demais meses do ano, teriam um limite para aceitar contratos. Estariam vivendo os primeiros meses de casados e pretendiam ter sempre alguns dias para estarem juntos. A fúria interior de Isabel estava temporariamente aplacada, mas não extinta. Poderia dizer que o vulcão estava adormecido, mas a qualquer momento poderia entrar em erupção com todo vigor. Cada dia que vivia, cada cena que visualizava, acrescentava um pouco de energia ao seu íntimo.
         As exposições nas capitais brasileiras foram escalonadas ao longo do resto do ano, permitindo no intervalo entre uma e outra a estadia em casa ou um recanto sossegado para viverem seu amor. O mês de maio chegou e no dia 6 foi realizada a cerimônia de casamento, presidida pelo vigário da igreja matriz e o juiz de direito. Foi uma celebração conjunta, seguida de uma recepção movimentada no clube local. A comida e ornamentação foi contratada com um fuffet fundado recentemente. Foi o maior evento que eles já haviam organizado. Se esmeraram ao máximo para que tudo saísse a contento e realmente foi isso que aconteceu. Por volta de 15 horas os noivos embarcaram em um pequeno avião que os deixou no aeroporto de Belo Horizonte.
         Ali chegando fizeram o check-in e foram para a área de embarque. Antes das 18 horas decolavam rumo ao Recife de onde pegaram outro voo para a França. Ficariam uma semana em Paris, depois iriam até outras cidades, mas não revelaram para ninguém, exceto os pais, onde estariam. Queriam paz e tranquilidade.
         Os dias idílicos vividos foram fartamente registrados em fotografias e filmes em Super 8. Queriam guardar lembranças para reverem muitos anos depois. Depois de visitar todos os lugares dignos de serem vistos em Paris, alugaram um carro e foram até a Alemanha. Visitaram Bohn, Stutgard, Colônia e depois foram para Austria onde visitaram Viena e outras cidades. Por último foi a vez da Suiça, onde pegaram o degelo, pois se avizinhava o verão. Antes de retornarem passaram por Milão, Roma e de lá tomaram um voo para o Brasil. Traziam na bagagem uma enormidade de lembranças de todos os lugares visitados. Porém o tesouro mais precioso que tinham eram as lembranças de cada momento partilhado nos lugares mais incríveis do mundo.
         Algumas semanas depois de voltarem e se instalarem em um apartamento adquirido na cidade, foi a vez de Isabel viajar para Porto Alegre para sua primeira aparição no cenário artístido da capital gaúcha. Ao voltar, já estava pensando na próxima que era Curitiba, vindo na sequência Salvador, Recife e por último Rio de Janeiro. Isso encerraria o ano de 1980. Era o primeiro ano do governo do último presidente do regime militar. Por toda parte espoucavam manifestações em prol de abertura política, grandemente favorecida pelo programa de abertura posto em marcha pelo General João Batista Figueiredo, ocupante atual do palácio da Alvorada.
         Nos dias que Isabel estava longe, José ia frequentemente à fazenda para ver como estavam os sogros, ambos já um pouco debilitados. O distanciamento em relação à filha devido ao seu trabalho, parecia ter abalado os dois idosos. Talvez o anúncio de um neto a caminho conseguisse levantar o ânimo dos dois. Quando terminou o périplo de viajens e perídos de afastamento, foram passar algumas semanas na fazenda. José vinha cedo para cidade e voltava ao anoitecer. Foi nesse período que ela notou o atraso em suas regras. Inicialmente pensou que seria um alarme falso, mas na medida que os dias avançavam e nada acontecia se convencia mais de que estava grávida. Quando amanheceu e logo depois ao escovar os dentes sentiu um acesso de enjoo violento seguido de vômito, teve certeza. José já havia partido ela não teve como ocultar o fato de Maria Luisa.
 

 

Phalenopsis.
Phalenopsis.
 
         A mulher idosa não poderia ter tomado um elixir mais poderoso do que esse. Pareceu recobrar o vigor instantaneamente. Milhões de ideias logo povoavam sua -aí a fora. Onofre que fora ver o café nas proximidades, já iniciando a maturação, chegou e viu as duas numa agitação só. Parou na porta e perguntou:
         – Uai! Que é qui aconteceu?
         – Senta aí, meu veio. Escuta sentado ou vai cair sentado.
         – Por mode que eu vou cair sentado?
         – Ocê vai ser avô!
         O homem teve um tremor, levando as duas a temer pela sua saúde. Parecia ter recebido um choque. Mas logo mais soltou-se lhe a língua e desandou a falar sem parar. Dizia a todo momento:
         – Uai sô! Um neto! Não me diga que vou ter um neto?
         O último a saber da novidade foi o pai da criança que iria nascer. Quando chegou em casa, um pouco atrasado devido a uma audiência que se estendeu além da hora, foi recebido pelo sogro na beira da varanda, numa excitação que não via há tempo. Estranhou o fato e foi logo perguntando:
         – Aconteceu alguma coisa, coronel?
         – Adivinha, meu genro. Nóis tamo na maior felicidade.
         – Mas qual é o motivo de tudo isso?
         – Home! Ocê vai ser pai. Eu vou ser avô.
         – Mas como, quando souberam?
         – Hoje cedo, Isabel, sua mulher levantou com enjoos e está com as regras atrasadas faz mais de mês. Ela está grávida e estão as duas lá dentro fazendo milhões de planos para a criança.
         José não esperou um instante e correu até onde estava a esposa. Ao vê-la estacou e ficou olhando para ela. As duas nem haviam percebido a presença dele, tão ocupadas estavam com os planos para a criança por nascer. Foi preciso perguntar:
         – Alguém pode me dizer o motivo de tanto alvoroço?
         – Muito simples, meu amor. Você vai ser pai. Não vai dar um abraço e um beijo na mãe do seu filho?
         Levantou-se e caiu nos braços do marido. Ficaram um tempo interminável naquele amplexo. Os corpos pareciam se fundirem e ora rolavam lágrimas ora sorrisos se estampavam em seus rostos. O que menos se ouvia eram palavras que entre eles eram desnecessárias. Tinham uma sintonia tão fina que se comunicavam apenas pelos gestos e sinais do corpo. Aquela foi uma noite de muita alegria. Os dias que se seguiram foram testemunhas de um verdadeiro milagre na vida dos avós. Quem logo foi informado da novidade foram os avós paternos também e se estabeleceu um intenso vaivém da cidade para a fazenda e vice versa. Era o primeiro neto ou neta de ambos os lados.
         Se os avós tiveram uma injeção de ânimo com a notícia, José adquiriu uma postura ainda mais firme e decidida no seu trabalho. O relacionamento com os colegas e demais pessoas ficou mais cordial do que já era antes. Queria tornar o mundo um pouco melhor para esperar o filho que estava por nascer. Havia toda uma série de providências a tomar. Havia exposições acordadas para o decorrer do próximo ano e seria necessário algum ajuste, tendo em vista a nova situação da pintora. Haveira necessidade mais tempo de descanso, mais cuidado com o uso das tintas por causa de seus componentes químicos.  
         O menino nasceu no final do mês de julho. As demais exposições do segundo semestre haviam sido renegociadas para o próximo ano. Os primeiros meses de vida seriam exclusivos do filho. Quando ele tivesse condições de acompanhar a mãe, ela retomaria as viagens, sem no entanto exagerar para não submeter o pequeno ser a excessos de stress, exposição pública e demais riscos. José estava eufórico com o nascimento do filho. Em comum acordo com Isabel decidiram batizar o rebento com o nome Pedro Onofre da Silva. Dessa forma os avós ficaram ambos cheios de razão. O neto levava o seu nome. Pouco importava se era o primeiro ou segundo nome, pois dizer os dois juntos soava melhor do que qualquer um deles separadamente.
         O tempo passou, chegou 1982. O pequeno Pedro Onofre já podia viajar e acompanhou a mãe em várias viagens. O pai acompanhava a família quando era possível, mas a carga de trabalho no escritóri estava elevada, mantendo-o na maior parte do tempo em casa. O que mais maltratava nesse tempo era a saudade imensa que sentia dos dois seres que mais amava no mundo. Deitar na cama e imaginar que sua mulher e o filho estavam a milhares de quilômetros de distância, era um verdadeiro tormento. Mas o tempo passou e cada reencontro era motivo de grande regozijo. Os avós viajaram ao encontro da filha e do neto na Itália. Lá ocorreu o encontro de Isabel com Giovanni.
         Ele elogiou o filho e não demonstrou nada do que parecera algo tão certo na ocasião de sua ida ao Brasil. Pelo menos ele soube disfarçar muito bem. Ao contrário do que parecia, ele não sentira sua paixão por ela diminuir e agora, feliz em sua maternidade recente, estava mais radiante que antes. A vida do casal foi uma sucessão de períodos de afastamento e reencontros emocionantes. Pedro Onofre com o tempo ganhou a companhia de um irmão e duas irmãs, espaçados por intervalos de aproximadamente dois anos. Quando Tancredo Neves e José Sarney estavam prestes a subirem a rampa do palácio de governo, Isabel estava grávida pela terceira vez. A longa agonia do presidente eleito, mas não empossado, antes de sua morte, foi um período que comoveu todo o país, especialmente sua terra natal o estadode Minas Gerais.
         Na época do processo de impeachment de Fernando Collor de Melo Pedro Onofre estava completando 10 anos de vida. Os pais viviam suas vidas profissionais conseguindo com bastante sacrifício harmonizar suas agendas tão diversas. Com o tempo passaram a residir a maior parte do tempo na cidade por causa das crianças que tinham que ir a escola. Nos finais de semana quase sempre iam para a fazenda, salvo um final de semana que era destinado ao encontro com os avós paternos.
         Quando cresceram eles seguiram diversas carreiras, menos as dos pais. A mãe Isabel, reduziu o número de exposições e concentrou seu trabalho em um leque menor de opções. Tinha agora a opção de escolher a dedo onde e quando queria expor seus trabalhos. Assim a convivência com o marido e os filhos pode se tornar mais efetiva. Assim aumentou a harmonia geral. Os avós assistiram aos primeiros passos dos netos na vida acadêmica, antes de partirem para a eternidade.

 

                        Fim.
 
Orquídea.

 

Orquídea.

 

Paphiopedilum.
 

Gaúcho de São Borja! – Capítulo XVII

Entardecer no rio Uruguai em São Borja.

 

Túmulo de Getúlio Vargas em São Borja.

 

 
 
 
 
 
 
 
 
Uma rosa para enfeitar.
 
 
  Contestação do testamento.
Alguns dias depois da páscoa, Joaquim estava deitado na rede da varanda de sua casa da fazenda quando foi surpreendido por um carro estranho que parou perto dos degraus. Um homem bem vestido, trazendo uma pasta sem detalhes nas mãos desceu e perguntou:
– Senhor Joaquim Medeiros?
– Sim, sou eu mesmo.
– Dá licença.
-Se aproxime! – disse Joaquim levantando-se e chegando mais para perto da beirada.
O homem subiu os dois degraus e parou diante do dono da casa.
– Eu sou oficial de justiça do fórum da Comarca de São Borja e tenho uma intimação para o senhor. Poderia me assinar o recibo de entrega?
– Mas intimação de que, homem?
– Aqui diz algo relativo ao seu testamento. Desconheço os detalhes.
Joaquim não tendo motivo para questionar o oficial de justiça que apenas cumpria sua obrigação de entregar os documentos emanados das varas judiciais da comarca, assinou o recibo e devolveu ao homem. Este lhe entregou o documento e pediu:
– O senhor teria um copo d’água para me oferecer? Estou com uma sede danada. Venho andando por essas fazendas afora e estou terminando graças a Deus.
– Ó Carmelita! Ó Carmelita!
– Chamou patrão?
– Traz uma jarra de refresco pro oficial de justiça aqui. O homem está morrendo de sede.
– Já trago.
            – Queira sentar-se um instante. Ela já traz o refresco e eu também mato minha sede. Ia mesmo pedir isso no momento que o senhor chegou.
            – Obrigado. Bela propriedade a sua seu Joaquim!
            – Isso está na família desde mais de um século passado. Meu bisavô, Fulgêncio Vargas, morto na Guerra do Paraguai, já era dono de parte dessas terras.
            – Se não me engano o senhor não tem filhos.
            – Não tive a graça de ter filhos e depois que minha patroa faleceu, pensei que ia morrer. Quando me recuperei, decidi fazer um testamento. Não tenho parentes próximos que tenham direito à herança e nomeei meu afilhado, criado como filho meu herdeiro. Acho que a intimação tem a ver com isso.
            – Parece que sim.
            – Mas sabe alguma coisa sobre a origem desse processo?
            – Alguém deve achar que tem direito e quer sua parte.
            – Vou por isso na mão do advogado que me orientou na hora do testamento. Verificamos tudo e não tinha ninguém em linha direta. Só se for algum aparentado distante que se deu mal na vida e quer se dar bem às minhas custas.
            – Quanto a isso não sei. Apenas vi o que está escrito aí na capa. Não tenho o hábito de xeretar os processos. Não são de minha conta. Quanto menos eu souber, menor é a chance de falar alguma palavra indevida.
            – Admiro o senhor. Outros em seu lugar sairiam sabendo mais que o próprio intimado.
            A empregada Carmelita trouxe o refresco e dois copos. Serviu e entregou a cada um deles.
            – Mais alguma coisa, patrão?
            – Não Carmelita. Se precisar eu chamo. Pode cuidar de seus afazeres.
            – Com licença, – disse a mulher e se retirou rapidamente.
            Saborearam o líquido, preparado com suco de uva guardado congelado do ano anterior. Era saboroso e revigorante. Era quase uva pura.
            – Com sua licença, vou servir mais um pouco. A sede é grande e o refresco está divino.
            – Fique à vontade…Serafim! É esse seu nome se não estou enganado?
            – Serafim Gonçalves, um seu criado.
            – Pode matar sua sede. Se faltar, mando preparar mais.
            – Também não vou beber demais. Aí não consigo entrar dentro do carro depois. A barriga já está um pouco grande.
            – Logo vai poder segurar o volante com a barriga nas retas e ficar com as mãos livres.
            – Dá mesmo. Preciso emagrecer um bocadinho.
            – Isso acontece quando a gente começa a ficar mais velho. Ninguém escapa de uma barriguinha.
            – Mas a minha está ficando fora da conta. Hora de apertar a chincha.
            – Fazer umas caminhadas ajuda um bocado. Eu todo dia cedo caminho por mais de uma hora. Saio sem rumo e caminho. Depois faço a volta e venho para casa.
            – Mas obrigado pelo refresco, seu Joaquim. Preciso andar para pegar o fórum aberto e entregar os recibos das intimações entregues e devolver as que não foi possível entregar.
            – A pressa é sua. Mas fique à vontade.
            Ele levantou, estendeu a mão que foi apertada firmemente, depois embarcou no Fusca e partiu. A poeira ainda era visível na curva da estrada quando Gaudêncio chegou e encontrou o padrinho um pouco estranho.
            – Que foi padrinho? Está aí meio acabrunhado? Algum problema?
            Joaquim estendeu o documento que recebera pouco antes dizendo:
            – Recebi essa intimação do oficial de justiça. Alguém está querendo causar encrenca com relação ao meu testamento.
            – Mas quem?
            – Aí diz um nome, mas eu nem conheço. Meus parentes vivos todos tem suas propriedades e não se opuseram ao testamento. Esse aí é desconhecido. Deve ser algum primo de quarto ou quinto grau que resolveu se dar bem em cima de nosso trabalho.
            – É um tal de Isaias Vargas! Será patente do Dr. Getúlio?
            – Meu bisavô era Vargas, parente distante da família do Getúlio. Bisavó Carlota, ficou viuva com uma filha pequena. Ele morreu lutando contra os homens do Solano Lopes.
            – Vai ter que ver quem é esse daí. Se tiver direito, não tem problema padrinho. Tem capital para mais gente. Pra mim é até demais tudo isso.
            – Isso é um extraviado qualquer que descobriu alguma ligação distante e resolveu querer um pedaço para viver folgado sem fazer esforço. Fica quieto no seu canto que disso eu cuido e boto esse cara no seu lugar.
            – Nem que eu quisesse não poderia fazer nada mesmo.
            – Seus pais e você labutam nessa fazenda há tanto tempo que se confundem até com a própria história. Agora vai vir um borra-botas à toa querer um pedaço! Mas nunca mesmo.
            – Amanhã o senhor vai comigo a cidade. Tenho que ver sal mineral e outras coisas. Lhe deixo lá no escritório do advogado para ver isso.
            – Vou mesmo. Quero tirar isso a limpo quanto antes.
            – Soube que os pescadores estão vibrando de satisfação com a venda dos peixes. Quem comprou voltou para comprar mais, pois dizem que é muito saboroso. Os bares e lancherias estão fritando para acompanhar como tira-gosto com a cerveja.
            – Ótimo. Demos uma tacada certeira.
            – Os outros fazendeiros estão se mobilizando para que a cooperativa instale um criatório de alevinos para abastecer toda a região. Estão negociando com a associação dos pescadores uma forma de colaboração para ter estrutura capaz de dar conta de tanto peixe depois.
            – Tudo isso devido à você. E vão dizer que não merece ser meu herdeiro. Se alguém pensa que vou deixar alguma coisa a qualquer vagabundo sem eira nem beira, está muito enganado.
            – Padrinho, se acalme. Vai ver que ele está dando uma cartada. Não tem nada a perder e se sair com alguma coisa, por pouco que seja, é lucro para ele.
            – Não vai ter é nada. Onde já se viu?
            – Quem vai dizer a palavra final é o juiz. Vai lá saber o que o homem arrumou de provas e testemunhas. Não dá para se confiar em ninguém hoje.
            – A gente passa a vida inteira lutando e sofrendo, para no final vir um sujeitinho desqualificado exigir uma parte do que a gente ganhou com suor. Isso não vou permitir.
            – Vou me preparar para ir a escola. Acho que vou comprar uma moto que é mais leve, rápida e gasta menos.
            – E mata mais depressa também. Nada disso. Faço questão de pagar eu mesmo o combustível para você ir a aula. Por falar nisso, como andam seus estudos?
            – Estou indo bem, padrinho. Pensei que ia ser mais complicado, mas dei sorte. Minha turma é quase tudo de gente da minha idade, e até mais velho. Os professores são ótimos. Tem uns gatos pingados que gostam de fazer confusão e anarquia. Mas levaram uns dias de suspensão e parece que estão entrando nos eixos.
            – Isso sempre acontece. No meio de uma cesta de frutas, têm algumas estragadas. Se não tirar elas dali, estragam o resto.
            – Hoje mesmo vamos fazer prova de matemática e geografia. Quero ver como é que vou me sair.
            – Estudou bastante?   
– Sei tudinho na ponta da língua. Os exercícios de casa eu fiz tudo, o trabalho valendo nota entreguei e que eu saiba não errei nenhum exercício.
– Ótimo, meu caro. Continue assim. Ainda vou assistir sua formatura na faculdade.
– Isso não garanto. Mas o segundo grau vou tirar com certeza. Logo a Ângela vai querer casar e vem outros compromissos. Tenho que pensar em tudo isso.
– Mesmo assim pode continuar estudando. Não acho que ela vai querer que você pare. Vai é empurrar você para frente.
– Pelo menos foi o que ela disse quando contei que estava estudando, lendo um livro depos do outro. Até já melhorei minha redação.
– Tem escrito cartas para ela?
– Toda semana. A gente se fala no telefone, mas os detalhes digo tudo por carta e ela também faz o mesmo. Percebeu diferença entre minhas frases das primeiras cartas e as que escrevo agora.
– Está vendo só? Ainda vai acabar na política.
– Deus me livre e guarde, padrinho. Politica não quero nem passar perto.
– Mas se os homens honestos e decentes não entrarem na política, deixam o lugar vago para os safados, ladrões, corruptos ocuparem as vagas. Desse jeito nunca vamos ter uma administração que preste.
– Aqui em São Borja, enquando os milicos estiverem no poder, vereador não apita nada. Tem duas opções. Ou puxa o saco do homem nomeado e aprova tudo que ele quer, ou acaba jogado para um canto. Na próxima vez não se eleje nem para ser varredor de rua.
– Isso é verdade. Já passou da hora dos militares deixarem o osso e devolver o comando aos civis. O Doutor Getúlio foi ditador por quinze anos, mas fez um monte de mudanças para melhor. Tanto que depois o elegeram por mais um mandato. Quem não iria gostar de me ouvir dizer isso é seu futuro sogro. 
– Mas tem gente que fala que no governo do Getúlio, só teve corrupção. Dá para entender alguma coisa nessa história?
– Acho que corrupção existe desde que o mundo é mundo. Basta ver o que Judas fez com Jesus Cristo. Vendeu ele e isso que era apóstolo do Homem.
– De fato. Mas vou andando, padrinho, ou me atraso para a aula.
Na manhã seguinte Gaudêncio e Joaquim foram até a cidade, cada um cuidando de suas ocupações. Encontraram-se para almoçar e depois continuaram. Gaudêncio iria ver como andava a comercialização das tilápias e Joaquim voltaria ao escritório do advogado. Este mandara solicitar uma cópia do processo no fórum para poder estudar o teor da ação impetrada e preparar a defesa ou mesmo pedir o arquivamento, caso não houvesse fundamentação suficiente. O contínuo havia saído por volta de 11 horas e não retornara. Provavelmente teriam acesso a uma cópia do documento por volta das 14 horas.
Gaudêncio encotrou os pescadores plenamente satisfeitos. Graças ao grande volume de carne de tilápias, haviam multiplicado o faturamento da associação e com isso fortalecido a renda dos pescadores. Ele foi recebido de braços abertos e logo lhe contaram dos entendimentos entabulados com a cooperatira dos rizicultores para formarem uma parceria. Pelo visto estava em andamento uma verdadeira revolução no setor, pois quase todos os plantadores de arroz queriam na próxima safra também colocar peixes em seus arrozais. Dessa forma o volume total seria multiplicado muitas vezes, exigindo uma estrutura bem mais ampla e sólida. Viam dias promissores pela frente.
 
Uma rosa para alegrar os olhos.
 
Ao saír dali e dirigir-se à cooperativa onde faltava providenciar alguns itens para o setor leiteiro da fazenda, ele ia eufórico. Quando sugerira a criação de peixes nem de longe imaginara a dimensão que essa atitude viria a alcançar. Sem querer ajudara a melhorar o nível econômico de uma ampla camada da sociedade local, antes sujeira à sazonalidade da pescaria nos rios da região. Um bom estoque de carne de alta qualidade, trouxera um efeito surpresa para todos. Mesmo não tendo tido a intenção de causar isso, não podia deixar de sentir-se de certo modo responsável. Fora ele que acendera o estopim de tudo.
Joaquim saiu do escritório já bem tarde e não daria tempo de irem até a fazenda para depois voltar a tempo de participar das aulas. Decidiram ficar até ao término do turno letivo e então voltar para a fazenda. Havia produtos adquiridos que seriam necessários na fazenda no dia seguinte. As provas desse dia eram história e biologia, disciplinas que ele levava com um pé nas costas. A caseira de Joaquim providenciou uma refeição rápida para eles e depois Gaudêncio foi assistir suas aulas. Joaquim ficou lendo jornal, vendo um jogo na TV até que o afilhado chegou, um pouco mais cedo que o habitual. Termianra a prova antes e não havia por que ficar perdendo tempo no colégio.
Na viagem para casa ele contou ao padrinho sobre o estado de ânimo dos pescadores e ele ficou satisfeito. Era muito recompensador saber que de uma ação visando seu próprio lucro, derivara também um enorme benefício para um grande grupo de pessoas, antes entregues à própria sorte nas águas dos rios. Saber que o exemplo movimentava a quase totalidade dos plantadores de arroz, era também uma ótima notícia. O fato de a cooperativa se encarregar de trazer os alevinos e distribuir aos associados era facilitador de tudo. Também representava um suporte econômico para a nascente indústria do pescado no município. Carecia de organização, gerenciamento e logística para obter o máximo de rendimento da matéria prima que seria produzida, onde antes não havia nada, além do arroz.
A piscicultura ali desenvolvida, vinha somar para a melhoria de todas as formas. Quer na sanidade dos arrozais, quer na produção de carne de excelente qualidade e por consequência adicionar renda aos cultivadores, bem como aos que atuavam na industrialização. Os benefícios alcançavam uma vasta gama de pessoas em todos os cantos do município, e mesmo nos vizinhos.
Apesar das boas notícias, Joaquim ia um tanto meditativo no caminho de casa. O afilhado, depois de narrar detalhadamente as novidades, prestou atenção um momento e falou:
– Que está acontecendo, padrinho? Estou vendo o senhor meio triste. No que deu o tal processo?
– É um “bunda suja” de um moleque. Descobriu que o trisavô dele foi primo ou irmão do pai de meu bisavô. Herdou uma boa propriedade do pai e gastou tudo em farra e baderna. Agora que está na merda, resolveu achar que tem direito a uma parte de minha herança. Pode um negócio desses?
– Bem padrinho, de leis eu entendo menos que o senhor. O que o advogado falou?
– Ele disse, que se não houvesse testamento e em caso de minha morte, ele conseguiria ser declarado meu herdeiro, por conta do parentesco, mesmo o bem remoto. Mas parece que andou arrumando uns mequetrefes de uns caboclos que são testemunhas. Aí é que a coisa complica. Parece que eles afirmam que ele foi criado na fazenda junto comigo, e uma porção de mentirada. Vamos ter que provar o contrário para que isso não pese na decisão do juiz.
– Mas disso acho que tem testemunhas suficientes. Ou não tem?
– Na verdade não são assim tão fáceis. Isso se refere a coisa antiga. Eu chamei ele de moleque bunda suja, mas ele tem quase minha idade e isso torna a coisa mais complicada. Quem poderia servir de testemunha a meu favor já não está vivo.
– Meu pai e minha mãe não servem?
– Servem, mas tem o problema de serem meus empregados de longa data. Podem alegar que estão comprados, ainda mais que eu nomeei você, filho deles meu herdeiro. Eles se tornam parte interessada.
– Ai caramba!
– Mas vamos pensar com calma. Vamos rebuscar a memória e descobrir alguém daquele tempo que esteja vivo em algum lugar por aí. Há de ter alguém, há de ter.
– Em último caso o advogado não consegue desqualificar as testemunhas dele também?
– É uma hipótese, mas não se pode contar com isso somente. Se não der certo o juiz declara nulo meu testamento e ele se torna meu herdeiro. Já imaginou o tamanho da porcaria?
– A essa altura eu até me acostumei a ser seu herdeiro. Ele não aceita dividir a herança?
– Mas que dividir Gaudêncio! Isso não vale nada. Se botar as mãos naquilo lá, enquanto eu estiver vivo vai me arrancar tanto dinheiro que no final só vai sobrar o osso.
– Pensei em a gente oferecer um bom valor e ele ficar quieto. Mas isso não resolve. Sempre vai encontrar novo motivo para voltar e pedir mais. Ficaria fazendo chantagem até o fim da vida dele.
– Exatamente isso que eu quero evitar. Amanhã vamos sentar com compadre Pedro e comadre Conceição. Vamos recordar de tudo que é gente que viveu na fazenda ou por perto e que está perdido em algum canto desse mundão de Deus.
– Isso pode até demorar um pouco, mas vamos encontrar algume sim.
– Deus que lhe ouça, garoto. Deus que lhe ouça.
Estavam chegando e Gaudêncio estacionou cuidadosamente a caminhonete na garagem que lhe era própria. Desembarcaram, encontrando Carmelita ainda em pé, esperando com fogo no fogão e comida pronta para servir.
– Demoraram, patrão. Vão querer comer agora?
– Não sei o Gaudêncio, mas eu não vou querer nada. Desculpe! A gente deveria ter avisado de que viríamos tarde. Poderia ter ido dormir.
– Tem problema não, patrão. Estou aqui para lhe servir.
– Isso não é justo. Ficar aí acordada até essa hora e a gente chegar sem querer comer nada.
– Padrinho, acho que vou fazer uma boquinha. A comida da Carmelita é ótima. Eu na pressa de ir para aula, comi bem pouquinho e estou com fome.
– Eu vou sentar e lhe fazer companhia. Enquanto isso a gente conversa mais um bocado.
Sentaram-se e Carmelita não tardou a por a comida sobre a mesa. Não era nada pesado. Um ensopado de carne com legumes e arroz de pilão, como só ela sabia fazer. Gaudêncio vendo a leveza do prato e o cheiro apetitoso, serviu-se de uma generosa proção. Depois da primeira colherada, estalou a língua em sinal de aprovação. Nesse momento Joaquim não resistiu e também serviu um pouco, dizendo:
– Isso fica por conta da gula. Se eu morrer do coração antes da hora, é culpa sua.
– Vire essa boca para o outro lado, padrinho. Vai morrer coisa nenhuma. Ainda mais agora que apareceu esse projeto de parente querendo se tornar herdeiro. Não queira me deixar sozinho com esse abacaxi na mão.
– Inda vou segurar na alça de muito caixão, antes de deitar em um deles.
– Assim mesmo que se fala, padrinho. Sabemos que vamos morrer um dia, mas para que ter pressa, não é verdade?
– Também acho. Mas nunca se pode saber o que vem depois da próxima curva da estrada. Veja meu irmão mais velho e meus pais. Poderiam estar todos vidos até hoje, mas aquela maldita tempestade jogou eles com o avião contra as pedras da Serra do Mar. Sobrou quase nada para contar a história.
– Pare com isso. Não é hora de recordar coisas tristes. Nós ainda vamos fazer muitas festas juntos. Vou querer ver o senhor segurando os meus potrinhos e potranquinhas no colo.
– Não é uma má ideia, tratar meio logo desse seu casamento, não acha?
– Ficamos noivos faz poucos dias. Temos que dar um tempiho para não parecer que estamos com a corda no pescoço.
– Mas e tem motivo para ficar com a corda no pescoço?
– Para lhe ser franco, padrinho. Vontade não faltou, mas os dois somos ajuizados e soubemos nos controlar. Quando estou junto dela quase fico louco. Ela também tem um tesão por mim que chega a gemer. Mas nos mantemos na linha para não arrumar confusão.
– Vão ter o resto da vida pela frente para se amarem depois. Pra que ter pressa? Sempre ouvi dizer que o apressado come cru.
– Também acho, padrinho. Por isso a gente evita de passar dos limites, pois se soltar a corda! Adeus tia Chica!
– Na juventude os hormônios ficam agitados. Faz parte da natureza, o instinto de procriação. É igual um garanhão perto de uma potranca no cio. Ele fica indócil. Ninguém segura.
– Carmelita! Você vai acabar engordando a gente fazendo comida tão gostosa. Ainda mais a uma hora dessas. Mas eu estava com fome e tenho que te dizer: Obrigado!
– Não há de que, sinhorzinho!
– E essa agora! Me chamando de sinhorzinho! Larga mão disso, mulher. Sempre fui e continuo sendo Gaudêncio das Neves.
– Não há de que, seu Gaudêncio.
            – Assim está um pouco melhor. Mas por mim pode dispensar esse “seu” aí.
            – Você é impagável, Carmelita. Não foi à toa que a finada lhe tinha tanta estima e consideração.
            – Que Deus a tenha na sua glória.
            – Amém. – disseram os dois em uníssono.

            Carmelita recolheu a travessa com o resto do ensopado, depois os pratos, talheres e copos. Joaquim fora até o armário e retirara de lá uma garrafa de vinho dali mesmo da fazenda, mas guardada há uns 7 ou 8 anos e abriu. Serviu uma taça a cada um e decidiram ali mesmo fazer todo esforço possível para esclarecer a questão relativa ao testamento. Ninguém iria vir se apoderar gratuitamente dos bens tão laboriosamente reunidos ao longo de gerações. Ele mesmo, Joaquim, dera um novo impulso ao assumir o controle, herdara junto do a esposa mais outra parte, aumentando grandemente a área total da fazenda. Nunca deixaria que alguém, sem direto a nada, se adonasse de tudo sem mais aquela.

Sabiá laranjeiras chocando a ninhada.

 

Mineiro sovina! – Capítulo XIX

 

Vista de Sete Lagoas.
Encontrando o rival.
         Conforme combinado na terça feira a família Pires se dirigiu para a cidade. Começaram por visitar o escritório da empresa estadual de energia elétrica. Levaram os documentos de identificação da ligação existente e expuseram suas inteções de ampliar o uso da energia. Seria preciso instalar um transformador mais potente no ponto de distribuição para suportar a nova demanda. Além disso precisaria ser colocado mais um cabo, completando as três fases. A vantagem existente era que recentemente fora implantado um benefício que tornava o custo da energia para instalações rurais mais atraente. Havia redução de impostos e taxas, de modo que, provavelmente, apesar do maior consumo haveria talvez uma leve queda na fatura mensal. Na pior das hipóteses a elevação seria insignificante.
         Encaminharam a solicitação de realização dos serviços necessários e autorizaram a cobrança dos custos relativos a isso. Ao saírem dali Isabel olhou bem para o pai e disse:
         – E o senhor preocupado com a conta de energia, hein pai! No final das contas vai ainda economizar com a coisa toda.
         – Uai! Tem alguma coisa contra economizá?
         – Não, pai. Claro que não. Só chamei a atenção para o fato de que, pensando em ter um gasto maior, ele vai ser menor ainda. Mas não tem problema. Prometi e vou pagar a conta.
         – Parem de ranzinzar aí, vocês dois! – falou Maria Luisa.
         – Melhor mesmo, mãe. Vamos agora ver as máquinas.
         A concessionária das máquinas de beneficiamento de café estava instalada a poucas quadras e em poucos minutos estavam estacionando no gigantesco pátio. Era um grande número de máquinas ali expostas para propriedades de todos os tamanhos. A Fazenda Pires era uma das grandes e precisaria o que fosse a última palavra no assunto. Ao ver os preços coronel Onofre se arrepiou inteiro. Já estava pronto a dizer que não iria querer nada e continuar a colher, manusear o café na forma como sempre fizera.
         Isabel não lhe deu ouvidos e falou ao vendedor:
         – Me veja o tudo que for preciso para beneficiar o café na fazenda de meu pai. Ele está querendo ir embora, mas pode fazer o orçamento. Eu vou pagar e dar de presente a ele.
         – Venha aqui que vou mostrar o que vai resolver seus problemas.
         Caminhou resolutamente na direção das máquinas maiores e mais modernas. Rapidamente descreveu o que cada uma fazia e quanto seria o custo, o consumo de energia elétrica além de pessoal necessário na sua operação.
         – E tem como treinar os empregados para trabalhar com isso? São todos xucros e nunca mexeram em dada disso.
         – A empresa fornece treinamento no local. Depois fica supervisionando por uma semana ou mais dependendo da necessidade.
         Vendo a soma de tudo, Isabel viu que teria como arcar com esse custo sem nenhum problema. Depois do sucesso que fizera na Europa, provavelmente se pusesse à venda meia dúzia de seus novos trabalhos já arrecadaria muito além do necessário. Sem contar com o seu fundo resultante da venda e excursão durante a maior parte do ano. Chamou o pai e falou:
         – Está tudo comprado, pai!
         – Uai! Eu num falei nada. Tava esperando ocies para ir embora.
         – Deixe de ser sovina, meu pai! Eu já fiz o cheque da entrada e quando instalarem, pago o restante. Do total que ganhei com meu trabalho, sobrou muito mais da metade.
         – Nem começa a resmungar, veio! – disse Maria Luisa.
         – Uma me chama de sovina, a outra me chama de véio, eu mereço isso. Devo de ter jogado pedra na cruiz di Nosso Sinhor!
         – Agora vai se fazer de coitadinho. Isso não vale.
         Nisso José, desconfiado de onde estariam, chegou e ouviu as últimas palavras. Chegou e cumprimentou sem dizer mais nada. Apenas ficou olhando para coronel Onofre.
         – Uai! Num é isso mesmo que tão fazeno? A fia me chama de sovina, a muié me chama de véio! Tô bem arranjado dessa manera.
         – Coronel! Não reclame de barriga cheia.
         – Estou dando de presente para ele as máquinas, a nova rede de energia e os aparelhos de ar condicionado. Ainda por cima a conta de energia vai até baixar um pouco quem sabe. Mas vou manter minha promessa. Vou pagar a conta. E mesmo assim está reclamando.
         José olhou sorridente para o coronel que, diante das palavras da filha e do olhar do seu noivo ficou sem ação. Depois de instantes falou:
         – Estou virado um traste sem serventia memo. Acho que vou para um asilo de véio. Assim não dou trabaio.
         – E quem disse que o senhor dá trabalho, pai?
         – Já fecharam negócio?
         – Falta só emitirem a nossa via do pedido e providenciar tudo. Tem uns itens faltando no estoque. Em uma ou duas semanas vão começar a instalar tudo. Talvez ainda dê tempo de beneficiar o café dessa colheita que está começando a madurar.
         – Mas isso é ótimo. Anime-se coronel. Sua propriedade vai ganha muito com isso. Diminui as perdas, obtém melhor classificação no mercado. Só tem a ganhar.
         Nisso o vendedor chegou trazendo a via do pedido e o recibo de pagamento da entrada. Entregou nas mãos de Isabel que os dobrou e guardou na bolsa. Estendeu a mão ao vendedor dando adeus e convidou os demais a seguirem até uma loja que vendia os aparelhos de ar condicionado. Havia várias na cidade, mas uma era habitualmente a mais barateira, além de vender os melhores aparelhos. José fizera no dia precedente algumas indagações por telefone e confirmara essa informação.
         Era nessa loja que se encontrava a maior variedade de modelos, tamanhos e marcas, sem contar os melhores preços da praça. Foram até lá e Isabel retirou da bolsa uma folha de papel onde anotara as dimensões dos cômodos onde pretendia instalar os aparelhos. Em vista disso havia a indicação apropriada da potência necessária para uma melhor refrigeração dos ambientes. Um de menor potência, além de não obter o rendimento desejado, corria o risco de queimar devido ao funcionamento continuado na potência máxima. O objetivo era instalar e não ter incômodo por muitos anos, salvo as manutenções de limpeza que eram de praxe. Vendo a soma dos vários aparelhos, Onofre quis diminuir a quantidade, dizendo:
         – Num percisa tanto parelho. Apenas dois ou três basta pra casa toda.
         – Pai, se quiser que um ou dois aparelhos refrigerem a casa inteira, não dá certo. É preciso fechar a porta do quarto e regular para não ficar nem muito frio, nem quente. O objetivo é ter um ambiente agradável. Merecemos dormir bem à noite.
         – Coronel Onofre! Isabel tem razão. Esses aparelhos são feitos de diferentes tamanhos para atender às necessidades de ambientes maiores e menores. Tem lugares que se instalam dois para ficar bom num ambiente um pouco maior.
         – Mais viu o quanto isso vai custa?
         – Isso é uma pechincha.
         – Pechincha por que não é de seu bolso que vai sair a gaita.
         – Nem do seu, pai. Eu vou pagar como prometi. Por isso fique sossegado e deixe-me negociar com o homem aqui.
                   Após alguns minutos de propostas, somas, subtrações, contrapropostas e no fim um generoso desconto para pagamento à vista, o negócio foi fechado. A entrega ficou combinada para o final da semana. Isabel perguntou ao vendedor:
         – O senhor pode nos indicar alguém para fazer a instalação correta desses aparelhos?
         – A rede de energia comporta?
         – No escritório da Companhia de Eletricidade nos informaram que o que temos instalado dá para suportar a carga dos ar condicionados. Mas contratamos a troca da rede por uma trifásica por causa das maquinas de beneficiamento de café. Então vai ser tudo mudado.
         – Mas aí será apenas uma mudança de uma rede para a outra. Isso não atrapalha.
         – Procure esse endereço e diga que fui eu que mandei. Eles vão fazer um preço camarada e o serviço é garantido.
         Isabel fez mais um cheque e o coronel Onofre só olhava. Sentiu-se sem chão. Sempre fora sua a decisão de efetuar investimentos, fazer despesas na fazenda. Era de seu bolso que saia o talão de cheques para pagar. Hoje estava apenas assistindo uma pequena fortuna ser gasta e não tinha nem sido perguntado. De sua livre vontade, nada disso tudo teria sido gasto. Achava desnecessário. Não carecia tanta modernidade, tanto dinheiro limpo gasto, na sua visão, sem necessidade. Mas não tinha mais autoridade sobre a filha que era maior de idade, ganhara o dinheiro com seu trabalho e gastava como queria.
         Sentiu que aquela coisinha pequena crescera, virara mulher, e que mulher, ficara famosa, viajara mundo. Agora estava ali gastando o próprio dinheiro e fazendo a própria vontade. O noivo, como um boi sonso, nem ousava abrir a boca. Apenas sabia dar razão à noiva. A mulher, também dava razão à filha. Estavam todos fazendo complô conta ele, um pobre velho, sem serventia.
         Faltava pouco para o meio dia e deixaram a visita ao homem que seria contratado para instalar os aparelhos para depois do almoço. Foram alamoçar juntos no restaurante que ficava a poucas quadras do escritório. Assim José teria tempo de voltar lá a tempo de atender aos compromissos marcados para a tarde.
         Em meio à refeição os olhos de Isabel custaram a crer no que viam. Algumas mesas distante da que ocupavam viu, de perfil, o pintor que conhecera em Milão. Seu nome era Giovanni dal Piccollo. Voltou os olhos para o prato e logo depois voltou a olhar. Não se enganara. Era ele mesmo, não havia dúvida. O que estaria ele fazendo ali em Sete Lagoas? Sua estréia em Belo Horizonte estava marcada para a semana seguinte. Não lembrou se lhe havia informado seu endereço, mas isso não teria sido difícil para descobrir. Bastaria olhar os folhetos espalhados aos quatro cantos da Europa inteira. Sentiu um misto de apreensão e dúvida.
         Continuou comendo mas ficou pensativa. José Silvério não tardou a notar o olhar fixo da noiva naquela mesma direção seguidas vezes. Disfarçadamente virou para trás, como que olhando para o outro lado, mas se virara o suficiente para ver para quem ela olhava. Viu um rosto masculino que ficara gravado na mente desde a hora do jornal na noite se sábado. Suas suspeitas recrudesceram. Ele tinha vindo por causa de Isabel. Mas por que razão ela deixara de lhe falar sobre isso? Estaria tentando abafar um sentimento que julgava inconveniente e inoportuno? O noivado e seu mergulho no trabalho representavam uma fuga?
         Tanto um quanto o outro perderam o apetite a partir daquele momento. Logo depois o homem levantou ao terminar sua refeição e ter pago a conta. Dirigiu-se para o balcão da recepção e perguntou ao caixa alguma coisa. Este escutou atentamente e em seguida se inclinou, falando alguma coisa e apontando na direção da mesa em que eles estavam sentados. Este lance passou desapercebido pois por um momento haviam estado ocupados e saborear a sobremesa que acompanhava a refeição.
         O susto foi grande quando ouviram uma voz estranha ao lado da mesa, dizendo:
         – Bona cera, signiorina Isabel! Bona cera, signiora i signiores.
         Tomados de surpresa passaram-se alguns segundos até que Isabel conseguisse articular as palavras:
         – Boa tarde, Giovanni! Como vai?
         – Io voglio bene. Uma agradabile surpresa!
         – José, pai e mãe, esse é o Giovanni que conheci em Milão.
         Três mãos foram estendidas alternadamente e apertarama mão do estranho, dizendo por sua vez Boa tarde!
         – Quer sentar-se, Giovanni?
         – Gratie! Neste minuto teminé de almoçar.
         – O que está fazendo por aqui? Sabia que vai estar em Belo Horizonte semana que vem.
         – Io veni fazere una visita a mi amica Isabel.
         Aquela conversa não estava agradando a José. Sentiu o verme do ciúme corroer sua alma. O que aquele italiano velhusco tinha vindo fazer ali? Só podia estar em busca do amor de Isabel, da sua Isabel. Ele que sentasse para esperar, pois seria um páreo à altura. O outro poderia ser famoso na pintura, ter experiência com mulheres, coisa bem provável. Mas ele tinha de seu lado as leis e a juventude. Além disso os pais da noiva lhe dariam apoio certamente. Mesmo assim sentiu-se flutuar num mar de incertezas. O que fazer para perscrutar o fundo da alma da mulher que dizia amá-lo e agora recebia a visita de um estrangeiro, estranho de todos, apenas visto uma ou duas vezes na Itália meses passados.
          Giovanni não deixou de notar o ambiente pesado que se fez no lugar. Viu que nas mãos direitas dos jovens havia alianças e tentou lembrar se o hábito brasileiro era de usa-las na mão esquerda ou direita quando casados. Não pode ter certeza, mas percebeu que alguma coisa havia entre eles. Teria que disputar a preferência da bela Isabel com esse brasileiro e sentiu-se autoconfiante. Tinha contra si a idade, mas contava com seu charme, sua experiência adquirida em longos anos de viagens ao redor do mundo, expondo e visitando exposições. Participara de encontros de pintores, artistas plásticos em geral e tivera um grande número de aventuras, tanto com jovens aspirantes ao estrelado artístico, como outras já consagradas.
         No entanto em nenhum momento sua alma ficara tão enlevada como diante da desconhecida brasileira. Ela lhe arrebatara o coração ao ponto de quase cometer uma loucura na ocasião. Conseguira, a muito custo, controlar os impulsos e um evento fortuito contribuira para impedir a realização de seu intento. Agora a encontrava noiva ou casada com um patrício. Isso complicava tudo. Precisaria ter cuidado, pois não deixara de ouvir ela chamar o casal idoso de pai e mãe. Com certeza eles ficariam do lado do noivo, uma vez que estavam almoçando juntos ali no restaurante. Viera antes para a região, esperando ter tempo de estabelecer um contato mais duradouro.
         Passou um longo momento a meditar sobre qual decisão tomar. Ir embora e debitar seu entusiasmo na conta de mais uma frustração amorosa? Ou partir para a luta, disputar com o outro, bem mais jovem, o coração da linda mulher e excelente artista? Nesse momento lhe ocorreu perguntar:
         – Onde es sua casa?
         – Fica a uns trinta quilômetros daqui, Giovanni. Moramos numa fazenda de café.
         – Interessante. Com certeza és mui bonito!
         – Nós gostamos demais.
         – Io gostaria de conhecer. Posso?
         Isabel olhou para os pais interrogativamente e Maria Luisa falou:
         – O que ele quer?
         – Quer conhecer a fazenda.
         – Eu levo ele no sábado, – falou José Silvério abrindo a boca pela primeira vez.
         Isabel percebeu em suas palavras um frêmito de indignação e se deu conta do que acontecia. O seu noivo estava enciumado até a raiz do cabelo. E não deixava de ter razão, uma vez que ela também sabia quais eram as intenções do italiano. Viera tentar completar a conquista que não conseguira concluir em Milão. Ela não queria criar uma cena ali e nem magoar o noivo. Buscou freneticamente em seu intelecto por uma saída que a deixasse em boas condições tanto de um quanto de outro lado. Indispor-se com um artista já famoso poderia significar perder admiradores de sua arte. Já provocar ainda mais o ciúme já à flor da pele do noivo, lhe traria sérios problemas para o futuro.
         Sabia desde muito jovem que, confiança uma vez perdida, nunca mais se reconquista totalmente. Sentiu-se presa em uma cilada. Para o lado que se virasse via diante de seus olhos um resultado desastroso. Finalmente resolveu dizer:
         – Giovanni, meu noivo José, se propôs a leva-lo no sábado até a fazenda. Assim haverá tempo de preparar um outro aposento para acomodar vocês dois, um em cada lugar.
         – Non posso ire hoje?
         – Estamos fazendo uma pequena reforma na casa e está tudo desarrumado.
         Maria luisa sentiu um arrepio na espinha. Percebeu que ali havia coisa. De onde a filha tirara a ideia de reforma na casa? Nem sequer haviam sido citada tal hipótese. Se fosse preciso, teriam todos que confirmar as palavras dela. O próprio José percebeu a manobra de Isabel e se tranquilizou. Ela estava achando uma forma polida de se livrar do inconveniente italiano. Dissera diante da TV ao vê-lo que ele tentara uma aproximação na Itália e ela o mantivera a distância. Certamente concordava com ela não querer causar nenhum escândalo em prol de sua carreira artística.
         Diante da situação o visitante, um pouco frustrado, falou:
         – Podemos al menos dare um passeo por la citá? Me pode mostrar o que tem de bonito. Dopo io volto para Belo Horizonte.
 
Parque e lago de Sete Lagoas.

 

Cinema de Sete Lagoas.
 
  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
       Essa proposição agradou a José mais do que a possibilidade de estarem os dois, ele e o estranho na fazenda, literalmente disputando a preferência de Isabel. Era visível o olhar cobiçoso que o mesmo lançava sobre o corpo jovem dela. Um passeio, acompanhada dos pais pela cidade seria algo menos arriscado. Pediram a conta e depois José se despediu dizendo:
         – Vou ter uma audiência muito importante daqui a pouco. Do contrário iria com vocês.
         Deu um beijo carinhoso em Isabel e foi para o seu carro. Os quatro restantes embarcaram no carro dela e foram falar com o homem encarregado da instalação dos aparelhos de ar condicionado. Essa questão veio exatamente a calhar. Combinava com a realização de uma pequena reforma e posterior instalação dos aparelhos. Giovanni estava estranhando o calor e imaginou o que seria dormir uma noite sem o conforto do ar condicionado. Realmente essa vida não era para ele. Perdera mais uma partida. Porém mal sabia o quanto estava longe da verdadeira história.
         Depois de combinada o serviço para ser realizado na semana seguinte, Isabel levou o amigo para conhecer os principais lugares turísticos da cidade. Os lagos que davam o nome à cidade, a vista da Serra do Cipó ao longe, o fórum onde o noivo atuava frequentemente, a Igreja matriz, um pequeno museu, a galeria de artes onde começara sua vida artística para o público cerca de um ano atrás. Quando o sol se aproximava do horizonte, ela o deixou na portaria do hotel e se despediu.
         Numa última tentativa ele tentou leva-la para um lado e conversar mas ela não aceitou. Em desespero ele suplicou ao menos um beijo:
         – Um bacho! Solo um bacho!
         – Eu nunca lhe dei esperança, Giovanni. Você veio aqui a minha procura por sua vontade. Não lhe convidei nem disse onde morava.
         – Arrivederche Bella! Te levare nel mio cuore por tuta la vita.
         – Seremos sempre bons amigos, – disse Isabel.
         Virou-se e entrou no carro. Quando viraram a primeira esquina, ela viu o italiano acenando no meio da rua. Se expunha a ser atropelado, pois o lugar era relativamente bem movimentado. Mas ele parecia não se importar com mais nada. Por sorte nada aconteceu. Alguns carros freiaram forte e buzinaram. Ele saíu da rua de um salto e em seus olhos era visível o pranto correndo. Era a própria imagem do desespero. Os funcionários da portaria do hotel viram a cena e ficaram perplexos. Haviam visto que ele estivera falando com a filha do coronel Onofre Pires. Ela era uma pintora famosa agora e motivo de orgulho de todos os moradores do lugar.
         Em pouco tempo o homem descia com suas malas e pediu para fechar a conta. Ninguém lhe fez perguntas e nem ele falou nada. O estranho era que havia chegado pouco antes do meio dia e antes do anoitecer ia embora. Nem a cama fora desfeita. Não entenderam nada direito, apenas sabiam que ali existia amor não correspondido. Pouco depois que ele saiu em direção à rodoviária, chegou ao hotel o doutor José Silvério, figura igualmente conhecida nessas alturas. Indagou do italiano e lhe foi informado que o mesmo partira há questão de meia hora com destino determinado.
         Por medida de precaução José voltou para o seu opala e foi direto para a fazenda. Não teria paz para dormir não sabendo ao certo que a ameaça havia mesmo partido ou se acaso ainda rondava por ali. Isabel estranhou, quando, pouco tempo depois de chegarem em casa, escutou o carro de José chegar e parar no lugar habitual. Preparou-se para viver um momento de crise. Foi cautelosamente para a varanda esperar pelo noivo.
         – Que aconteceu, meu bem?
         – Você pergunta? Vim ter certeza que aquele “bepi” de uma figa foi embora. De outra forma não teria paz para dormir essa noite.
         – Fico lisonjeada com esse ciúme todo, meu bem.
         – Eu vim para lutar pelo seu amor, minha querida. Ou não tenho razão de estar preocupado?
         – Razão de preocupação você não tem, porque eu nunca dei nenhuma esperança ao Giovanni. Ele veio por iniciativa própria e deu com os burros na água. Portanto, chega de esquentar a cabeça, meu amor.
         – Ufa! Essa foi por pouco. Vi que aquele almofadinha metido a galã ia se aboletar por aqui e ficar caçando encrenca.
         – Não viu como eu desviei do assunto?

         – E a questão dos condicionadores de ar serviu perfeitamente de pretexto.


Vista aérea de Sete Lagoas – MG.