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Um japonês especialista em cachaça – Capítulo XVII.

 

Fernando Collor de Melo

Fernando collor por Ubirajara DettimarAbr – Agência BrasilPalácio do Planalto view source. Licenciado sob CC BY 3.0 br, via Wikimedia Commons – httpcommons.wikimedia.orgwikiFileFernando_collor.jpg#mediaviewerFileFernando_collor.jpg

 

  1. Aguardente falsificada.
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“Promulgação-Constituição-1988” por Agência Brasil – http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/galeria/2013-10-04/constituicao-de-1988-completa-25-anos#. Licenciado sob CC BY 3.0 br, via Wikimedia Commons – http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Promulga%C3%A7%C3%A3o-Constitui%C3%A7%C3%A3o-1988.jpg#mediaviewer/File:Promulga%C3%A7%C3%A3o-Constitui%C3%A7%C3%A3o-1988.jpg

 

A família estava reunida. Os meninos, apesar da pouca idade, tinham com relação à pequena irmã sentimentos de proteção e cuidados. Quanto estavam em casa, nos momentos de folguedos no patio com os cães, dando uma volta vez ou outra pelo bar, sempre lembravam de correr até o quarto ver se a pequena estava bem e dormindo. Em muitos momentos davam com ela deitada no colo da mãe, mamando a valer. Depois de ela estar farta, sempre sobrava um pouco de leite. Eduarda, depois de deixar a filha acomodada, coletava o leite e o guardava devidamente acondicionado na geladeira. Uma enfermeira vinha a cada dois dias coletar o que sobrara.

Os pequenos e frágeis corpos de bebês em estado de carêcia, cujas mães não tinham leite, outros que haviam ficado órfãos ou abandonados, estavam aguardando pelo produto. Isso deixava os meninos e a mãe gratificados. Sabiam que alguma criança, que provavelmente nunca viriam a conhecer, estava sendo beneficiada com esse gesto. Na medida em que Isaura crescia, o volume que mamava crescia e com o tempo a quantidade que a mãe produzia diminuiu, até que cessou completamente as doações. Mesmo assim, nesses meses havia saciado a fome de vários bebês, aos quais considerava um pouco seus filhos. Os garotos também falavam deles, como se fossem seus irmãos. Irmãos desconhecidos. Talvez viessem a encontrá-los no futuro, se no entanto saber que o leite de sua mãe havia alimentado ao outro. Não havia importância. O bem que se faz, não importa a quem atinge.

Nesses anos todos, com intervalos maiores ou menores, sempre havia quem trouxesse novos exemplares de garrafas de cachaça, das mais variadas procedências. E cada vez vinha o desafio ao japanês especialista, Toshyro. Com o tempo ele começou a ter alguma dificuldade em identificar os tipos cuja produção havia sido iniciada depois de ele passar a trabalhar fixo em São Paulo. Mesmo assim ainda era capaz de identificar a região da procedência. Em determinado dia, quase ao final de 1989, chegou um viajante da região nordeste, mais precisamente Paraiba. Era uma marca desconhecida nas terras do sul e tinha por marca o ponposo título “Quebra Macho”.

Quando foi o dia de fazer o teste, Manoel notou um odor diferente na bebida. Ao apresentar o copo ao testador, falou:

– Vai devagar amigo, estou achando que essa bebida tem algo errado.

– Isso nós já vamos ver, – falou Toshyro.

Pegou no copo, aproximou das narinas e sentiu o odor. Sua experiência em anos de trabalho com química, logo lhe trouxe à lembrança o cheiro típico de metanol. Se cometesse a temeridade de ingerir essa bebida, poderia passar muito mal e até mesmo, perder a vida. O metanol é tóxico para o organismo humano. Olhou para Manoel e falou:

– Amigo, não beber isso. Aí tem metanol e isso pode me matar. Infelizmente vamos ter que denunciar o fabricante dessa bebida, pois se ele vender isso para a população, irá causar uma verdadeira calamidade.

O portador das garrafas estava ali presente e se apresentou logo. Lembrou imediatamente que o fabricante ouvira ele contar da habilidade de Toshyro e propusera dar de presente as duas garrafas. Bem que notara um sorriso maroto em seu rosto ao lhe entregar as garrafas. Na hora pensara que era questão apenas de orgulho do produto que fazia. Nem lhe havia passado pela cabeça uma tentativa de causar uma provável tragédia. Ele mesmo havia bebido da bebida no estabelecimento e nada acongtecera. Fez questão de cheirar a bebida e imediatamente constatou ter havido má intenção na manobra. Ele mesmo se prontificou a acompanhar Manoel e Toshyro à delegacia oferecer denúncia. Um rumor de desagrado se espalhou pelo bar. Depois dessa experiência, Manoel anunciou que não haveria mais desafios, nem testes de bebidas. Por muito pouco o amigo e compadre não ficara intoxicado.

O que valera nessa situação era a longa experiência com bebidas das mais diversas procedências e marcas. Mais ainda, o olfato e paladar apurado de Toshyro haviam identificado o elemento tóxico misturado. Ninguém mais tinha vontade de ver os já tradicionais gestos do japonês antes de anunciar o nome e safra da bebida que experimentara. Haviam sido raras as ocasiões em que não acertara totalemnte o resultado. Depois de ficar exposto a um risco tal, ele não iria querer mais se expor, tampouco os apreciadores dos desafios, quereriam vê-lo expor-se ao risco de vida.

Assim a coleção de Manoel estacionou, ficando por longos períodos sem receber novos acréscimos. Também os armários que mandara fazer estavam praticamente lotados, existindo poucos espaços para colocar mais alguma garrafa.

O grupo de jogadores que organizara o primeiro campeonato, estava agora organizado em uma associação. Tinham se filiado à federação Paulista, mas tinham em seu estatuto uma abertura para os aficionados de Pebolim, bem como futebol de botão. Todos os anos eram realizados campeonatos regionais. Os melhores jogadores participavam de competições a nível de região metropolitana bem como estadual. Havia também os que viajavam para outros estados e inclusive para o exterior. Um ou outro troféu vindo dessas contendas eram exibidos com orgulho.

O ano de 1990 assistiu à posse de Fernando Collor de Melo como Presidente da República, depois de ser eleito em votação popular livre ao final de 1989. Era o primeiro a assumir o cargo por meio de eleição livre, depois de Jânio Quadros ser eleito em 1960. Foi mais um período conturbado na política nacional. O começo foi um choque econômico com congelamento de preços, além de bloqueio dos saldos bancários. O resultado foi um descontentamento generalizado, especulações e atos ilicitos de toda ordem. Não tardaram a aparecer denúncias de cometimento de desvios administrativos do Presidente e seus asessores imediatos. As denúncias se agravaram e resultaram na renúncia em outubro de 1992, depois da aprovação do impeachment pelo congresso.

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Caras Pintadas em manifestação pelo impeachment de Collor.

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ItamarFranco

“ItamarFranco” por Antônio Cruz/ABr – Agência Brasil. Licenciado sob CC BY 3.0 br, via Wikimedia Commons – http://commons.wikimedia.org/wiki/File:ItamarFranco.jpg#mediaviewer/File:ItamarFranco.jpg

 

Itamar Franco, seu vice, assumiu e enfrentou a borrasca que se seguiu. A moeda que voltara a se chamar cruzeiro, estava cada vez mais desvalorizada, alcançando cifras astronômicas de taxas inflacionárias além dos 40% mensais. A economia estava completamente desarticulada. Os executivos das empresas, grandes ou pequenas, faziam malabarismos de diferentes ordens para manter seus empreendimentos em funcionamento. No ano de 1994, mais precisamente no mês de fevereiro, foi editado o Plano Real. Nesse plano estavam presentes diversos elementos destinados a por um freio definitivo na hiperinflação que assolava o país.

Foi criada a URV (Unidade Real de Valor) com prazo fixado para nova conversão de moeda, dessa vez denominada Real. Fernando Henrique Cardoso, era o ministro da Fazenda, sendo depois indicado para concorrer à presidência. Em seu lugar assumiu Rubens Ricúpero. O que se pode dizer é que o plano foi bem sucedido, pois após 21 anos, ainda temos a mesma moeda em vigor e um razoável equilíbrio na economia.

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“FHC 15 anos real” por Antonio Cruz/Abr – Agência Brasil. Licenciado sob CC BY 3.0 br, via Wikimedia Commons – http://commons.wikimedia.org/wiki/File:FHC_15_anos_real.jpg#mediaviewer/File:FHC_15_anos_real.jpg

 

Os filhos de Manoel e Eduarda cresceram, estudaram e formaram-se em cursos superiores. Depois de terem atingido suas metas e ocupado cargos públicos concursados nas áreas de sua formação, sugeriram aos pais que deveriam descansar.

O bar foi vendido e a família foi morar em um conjunto habitacional, condomínio fechado. As longas noites de insônia durante os anos difíceis, haviam deixado um saldo positivo suficiente para garantir aos pais uma vida menos agitada. Os dois, Manoel e Eduarda, empreenderam em 2012 uma longa viagem por diversos países. Voltaram para casa e após alguns meses fizeram nova viagem, dessa vez pela América do Sul. Passaram algumas semanas em Bariloche, onde tentaram aprender a esquiar. Alguns tombos depois, conseguiram algumas descidas das rampas menos íngremes. Valeu pela diversão. Os dois voltaram vivamente entusiasmados e traziam em sua bagagem farto estoque de imagens e vídeos.

Tudo foi devidamente editado e arquivado em meios magnéticos para conservação. As mais notáveis mereceram cópias em papel fotográfico para constar de álbuns, serem enviadas para amigos e dadas aos filhos.

A família segue até hoje vivendo em harmonia, apesar da idade avançada de Manoel, próximo dos 80 anos. Os netos começaram a nascer e com isso a alegria dos avós ficou mais complete. Tinham agora uma razão para viver e ocupar os seus dias ociosos.

Décio Adams

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Um japonês especialista em cachaça – Capítulo XVI

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José Sarney, presidente da república de 1986/1990. http://agenciabrasil.ebc.com.br/ultimasfotos?

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Ministro Bresser Pereira, arquiteto do plano econômico que leva seu nome, destinado a salvar o fracassado plano cruzado.

 

  1. Planos econômicos, nasce a filha.

 

Os primeiros meses do Plano Cruzado, lançado em 27 de fevereiro daquele ano, foram de muita euforia, confiança e esperança. Em todas as grandes cidades principalmente, formaram-se grupos de senhoras entituladas “Fiscais do Sarney”. Percorriam em grupos, especialmente os supermercados e outros estabelecimentos, conferindo se os preços dos produtos estavam sendo mantidos nos valores da semana ou dias anteriores. Num primeiro momento essa estratégia funcionou, mas a grande maioria dos comerciantes foi à loucura. Os fornecedores começavam a cobrar ágio para entregar os produtos. Impossibilitados de repassar esse custo aos consumidores, não tardou para que seus estoques ficassem defasados, começando a faltar produtos.

As entregas eram feitas, dentro dos preços tabelados, até um determinado limite. Para obter mais, era necessário pagar a “caixinha”. Alguns optaram por criar um departamento paralelo, onde vendiam a quem se dispunha a pagar um preço mais alto, contanto que recebessem a mercadoria. Enquanto isso as gondolas e prateleiras começaram a ficar vazias, defasadas. Alguns produtos simplesmente sumiram, enquanto outros estavam em quantidades limitadas. Eram estabelecidas cotas por freguês. Em pouco tempo, a emissão desenfreada de papel moeda, trazendo como consequência a desvalorização da moeda nacional frente ao poderoso Dollar, geraram uma preferência pela exportação, onde o lucro era elevado. O mercado interno ficou desabastecido de leite, carne e outros produtos.

Houve episódios tentando implanter um “confisco” de bois gordos no pasto. Os produtores os mantinham a espera de preço mais vantajoso. Ocorreram algumas compras “compulsórias” que depois geraram processos judiciais. No final, estabeleceu-se um comércio com características de paralelo. Os estoques reguladores do governo de carne, eram liberados para venda a preços tabelados. Isso gerou filas enormes nos estabelecimentos que anunciavam o recebimento dessa carne. Lembro de ficar por mais de seis horas na fila, na loja do Supermercado Pão de Açúcar, hoje Extra, na Av. Presidente Kennery, em Curitiba. O objetivo era comprar um pedaço de costela para fazer um churrasco em comemoração do aniversário de meu cunhado. Ao chegar minha vez, não tive tempo sequer de olhar, se a carne era adequada, para a finalidade. Era pegar ou largar. Não foi um churrasco dos melhores, posso garantir.

Outro produto que faltou, foi leite. Nos meses de inverno quando o nível de produção habitualmente cai, ficou racionado. O tal leite de caixinha UHT ainda não existia. Era tudo o tal “barriga mole”. Havia os tipos A, B e C. O tipo C era o mais vendido e levantei de madrugada algumas vezes para ir enfrentar a fila no Supermercado Musamar aqui perto de casa. Depois, levando os dois litros conseguidos, corria até o outro Supermercado Gasparin. Com sorte, ali conseguia mais dois litros. Levava para casa e ia trabalhar. Essa situação se explica pelo fato de ter três crianças pequenas e não poder ir todos os dias enfrentar a fila. Esse problema se estendeu pelo ano de 1987 praticamente inteiro.

Depois dessa digressão, voltemos ao nosso amigo Manoel, que tinha, nesse context um estabelecimento comercial para administrar. Nos começo era tudo uma maravilha. Aos poucos porém, os produtores, comerciantes, enfim a massa produtora e distribuidora, forçou a barra abrindo brechas no arcabouço do plano aparentemente bem arquitetado. A inflação ressurgiu com mais furia e logo foi preciso recorrer ás aplicações

financeiras como o “ower night” e outras para manter o poder aquisitovo dos recursos em caixa. Não havia vantagem em pagar contas adiantado, pois o dinheiro aplicado até a data do vencimento era mais vantajoso.

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Calculadora, instrumento constante nas mãos dos gerentes de valores econômicos nos anos1986/90

 

Diante dessa circunstância Manoel, lembrou a experiência adquirida anos antes com as aplicações na bolsa de valores. Bastou atualizar suas informações e logo tinha em mãos um esquema para, se não ganhar dinheiro, ao menos conservar o poder aquisitivo daquele que conseguia angariar. Os refrigerantes, a cerveja, as demais bebidas, além dos insumos para cozinha, subiam de preço diariamente. Era preciso gastar horas percorrendo os depósitos do mercado municipal, Ceasa e outros independents, a busca de alguma oferta. Não era vantagem elevar os preços das refeições, pois o povo estava ficando com as finanças cada vez mais comprimidas. A quem lhe pedia orientações, Manoel explicava como fazia para se manter à tona, no mar revolt da economia nacional do momento.

Para quem não estava acostumado com esse meio, poderia ser um campo de armadilhas, levando à perda de dinheiro, em lugar de trazer ganhos. Em diversar ocasiões passaram longo tempo trocando ideias ele e Toshyro. O casal vinha com relative frequência ver os afilhados. Era para eles uma honra fazerem parte do círculo mais íntimo da vida dos compadres. Nessas ocasiões os dois conversavam sobre os rumos que a economia estava tomando. Enquanto isso as mulheres conversavam sobre amenidades, cuidavam das crianças, cada vez mais viçosas.

O descontrole dos gastos governamentais, congelamento de preços e câmbio por um ano, sem flexibilidade para questões de sazonalidade, foram os fatores que fizeram o Plano Cruzado naufragar. Já ao final de 1986, antes das eleições para deputados, senadores e governadores, a situação estava caótica. Visando obtenção de maioria parlamentar, o PMDB, partido de José Sarney, pressionou pela manutenção das regras, até passar o pleito. Conquistada ampla maioria, que iria se encarregar da Assembléia Nacional Constituinte, a situação explodiu, chegando às raias da revolução popular. A inflação retornou com vigor, o câmbio congelado fizera um estrago imenso nas reservas cambiais do país, tudo culminou com a troca do ministro da fazenda por Bresser Pereira. Novo plano foi editado, com algumas mudanças, mas insuficientes para por a economia no caminho da estabilidade. Em Janeiro de 1988 Bresser Pereira demitiu-se, assumindo no seu lugar Mailson da Nóbrega.

Enquanto a nova constituição era discutida e finalmente aprovada ao final do ano, a economia alcançava níveis estratosféricos de inflação. Em janeiro de 1989, Mailson da Nóbrega orquestrou novo plano, denominado Plano Verão. Todos esses planos pecavam por não atacar as verdadeiras causas da inflação, isto é, os gastos públicos descontrolados. Em poucos meses o deficit público atingia níveis alarmantes com relação ao PIB. Alterações nas formas de remuneração das cadernetas de poupança geraram perdas enormes aos poupadores, vindo posteriormente a serem questionadas na justiça e o governo obrigado a arcar com os custos dessas correções injustas na visão dos juízes.

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Cédula de cinquenta cruzados novos, nova reforma econômica no Brasil.

 

Em meio a esse ambiente conturbado, Manoel conseguiu a custo manter um certo equilíbrio em suas contas, não sem passar noites mal dormidas, horas preciosas de sono consumidas em planejar seus investimentos para não sair perdendo. Enquanto isso os meninos cresciam e ele cada dia ficava mais consciente da importância de construir um patrimônio suficientemente sólido para garantir o futuro da prole. Em 1989, próximo da eleição que conduziria Fernando Collor de Melo à presidência, Eduarda sentiu novamente os sintomas de gravidez. Não perdeu tempo e consultou o médico para saber se estava tudo em ordem. Ainda estava bem no começo e em alguns dias poderia fazer os testes e confirmar se realmente estava grávida ou se era apenas algum sintoma fortuito.

As semanas passaram e cada vez mais ela ficava certa de não se enganar. Era de hábito muito regulada no seu ciclo menstrual, de modo que, um atraso poderia ser logo visto como uma gestação em início, quase que com certeza. No começo de fevereiro, os exames confirmaram o que seus pressentimentos e sensações haviam informado logo no começo de janeiro. O nascimento deveria ocorrer no começo de outubro, pouco antes das eleições presidenciais. A movimentação política já começava a agitar os meios de comunicação, por toda parte encontros, debates, convenções e acordos eram celebrados. Aquela eleição prometia trazer à primeira linha figuras até ali um pouco obscuras do cenário politico.

Com alguns percalços, Manoel mantivera o leme de sua economia familiar e pessoal, na direção firme. Sofrera alguns pequenos reveses, coisa alias próprio de quem se envolve no mercado financeiro. No balanço final, saira lucrando. Durante os anos que labutava no seu estabelecimento, conseguira adquirir alguns imóveis que estavam alugados, gerando uma renda extra. Assim conseguia manter sempre um bom nível de vida à família, apesar de em determinados momentos os negócios não estarem produzindo os resultados que obtivera em outros tempos. Nesse rítmo, com o plano Verão, com o surgimento do Cruzado Novo, novos congelamentos e outras medidas, chegou o começo de outubro.

Os exames de ultrassom haviam mostrado tratar-se dessa vez de uma menina e o pai estava eufórico. Não importava ser apenas uma, apesar de no começo ter feito torcida para serem duas. Não poderia reclamar, pois a natureza os agraciara com um par de meninos, que nessa época estavam com pouco mais de três anos de idade. Frequentavam uma escola infantile, onde passavam algumas horas do dia, socializando-se na convivência com outras crianças, desenvolvendo habilidades manuais e fonoaudiológicas. Dessa vez Eduarda não ficara tão grande, mas engordara um pouco mais. Isso levara o médido a temer pelo desenvolvimento de alguma moléstia própria nessas circunstâncias.

Um dia antes do prazo estimado, teve início o processo que culminaria com o nascimento de Isaura Francisca. Uma menina de mais de 3,0 kg, forte e saudável. Os irmãos, já cientes da vinda de uma irmã, estavam ansiosos pelo nascimento. Na hora da ida para a maternidade, eles estavam na escolinha. Ao saírem, não viram a mãe que costumava ir buscá-los na porta. Imediatamente indagaram o que acontecera com a mãe e a tia maternal, lhes explicou que a mamãe for a para o hospital. A irmã tão aguardaded, em algumas horas estaria em seus braços. Se fosse pela vontade dos dois teriam saído dali para ir ao hospital. Achavam que poderiam estar junto da mãe no momento do nascimento.

Foi preciso ser convincente para faze-los entender que isso seria impossível. Tão logo tudo estivesse em ordem, eles seriam levados para ver a mãe e a irmã. O processo do parto se arrastou por algumas horas até próximo da meia noite, do dia 10 de outubro. Os meninos, cansados de esperar, haviam ido dormir. A primeira vez em muito tempo que o faziam sem receber antes um beijo da mãe ou ao menos do pai. Por fim João Antônio falou:

– Não é todo dia que nasce uma irmã da gente, né!

– Melhor nós dormirmos para amanhã ir ver nossa mãe e a irmã que está nascendo.

Deitaram, disseram boa noite à avó que estava com eles, pediram-lhe a benção e dormiram. Mal raiara o dia e estavam os dois em pé, perturbando todo mundo sobre a ida ao hospital. Foram informados que estava tudo bem, a mãe e a irmã esstavam com boa saúde. Em pouco tempo poderiam ir até lá ver as duas. Elas também estavam com saudades cos dois. Eram agora uma família com mais uma integrante. A forma de educação adotada por Eduarda e Manoel, os colocara a par das diferenças entre os sexos e eles ansiavam por ver como seria uma menina recem nascida. Cada um tinha um mimo para dar à irmã, escolhido entre os brinquedos que eles haviam usado quando ainda bem pequenos.

A avó lhes avisou que a pequena ainda não saberia apreciar a diferença entre esses brinquedos. Essa fase inicial era muito mais de contato visual, sonoro e tato. O carinho no rosto, na face em especial, tinha uma força ponderosa de estabelecer relacionamentos com os pequenos e lhes contava como havia sido o próprio comportamento deles não havia tanto tempo. O pai havia ficado na maternidade e chegou pela manhã, sendo logo cercado pelos meninos. Precisou descrever para eles como era a pequena, como estava a mãe, se tudo tinha saido bem, se a mamãe não sofrera.

– Devagar, meus pequenos. Vamos responder uma pergunta de cada vez.

E começou a relatar os detalhes possíveis do nascimento. O tamanho, indicado com as mãos, os cabelos, a cor dos olhos e outros detalhes.

– Eu quero ver ela sem roupa, – disse José Francisco.

– Por que isso, menino?

– Eu quero ver se é diferente mesmo da gente. O papai tem piu-piu que nem a gente e a mamãe tem periquita. Quero ver como é a periquita da minha irmã.

– Isso é coisa que se diga, – falou a avó.

– Eles sabem a diferença entre um homem e uma mulher. Natural querer ver e comprovar a diferença.

A velha senhora saiu e foi cuidar do café da manhã para todos. Nos seus tempos de criança, mesmo quando tivera seus filhos, essas coisas eram diferentes. Hoje estava tudo mudado. As crianças parece que já nascem sabendo das coisas. Também, a televisão falando de tudo e mais um pouco. Era nisso que dava. Tinha suas dúvidas sobre a validade desses procedimentos. Mas, como quem educa os filhos são os pais, eles deveriam saber o que estavam fazendo. A familia tomou café e dali a pouco os dois estavam perturbando o pai para leva-los a ver a irmã. Não restou alternative. Às 10 h estavam na maternidade e recebiam um abraço e um beijo da mãe. Parecia que ela estivera longe por uma longa temporada, não apenas algumas horas.

Não demorou e a pequena Isaura Francisca chegou, trazida por uma enfermeira. Estava no berçário e vinha para mamar, coisa que já começara aprender. Ainda se afogava um pouco, pois a mãe era farta em alimento para a filha. Poderia tranquilamente amamentar mais uma criança. A médica sugerira que usasse um coletor e fizesse a doação do excedente para o banco de leite. Havia sempre uma porção de crianças, filhas de mães com problemas de produção de leite, precisando do precioso alimento para terem um desenvolvimento mais saudável. Bastaria coletar, guardar na geladeira e de dois em dois dias seria feita a coleta.

– Não vai faltar leite para a nossa menina? – quis saber Manoel.

– Meu querido! Ela mama de transbordar e sobra uma quantidade enorme de leite. Se eu não tirar, vou acabar tendo problemas e até corro o risco de secar antes do tempo.

– Deus me livre, querida. Se é assim, vamos doar sim esse leite que sobra.

Os dois pares de olhos curiosos acompanhavam esse diálogo. Queriam saber o que significava aquilo. A mãe iria dar leite para outros bebês? Havia leite de gente em supermercados para comprar?

– Não meus meninos, – falou Eduarda carinhosa. – Mamãe tem leite demais e a Isaura não consegue mamar tudo. Existem crianças que as mães não tem leite, ou tem pouco e precisam de leite. Então a mãe vai ajudar essas crianças. Vocês não acham que devemos ajudar quem precisa?

– Sim mãe. Pode dar o leite que nossa irmã não precisar.

– Estou gostando de ver. Meus dois hominhos estão aprendendo desde pequenos a ser generosos.

– Se não fizesse a doação mãe, teria que jogar fora?

– Iria vasar no começo, molhando a roupa da mamãe. Olhem aqui.

E mostrou a roupa que cobria os seios, de onde a pequena já se fartara e agora dormia placidamente ao lado da mãe. As roupas estavam ficando molhadas do leite que sobrara.

– Meu bem, chame a enfermeira para vir coletar o leite. Está escorrendo e molhando minha camisole.

Manoel saiu e dois minutos depois uma enfermeira munida dos instrumentos apropriados veio coletar a sobra de leite. Colheu quase meio litro. Segundo ela isso daria para alimentar com sobra até três crianças.

– Estão vendo, meus filhos. Três criancinhas vão ter leite para tomar com o que iria escorrer aqui, sujando a roupa da mamãe.

Manoel, sentado em uma poltrona, havia tomado a menina do colo e logo os irmãos estavam ali olhando embevecidos para o pequeno rosto. Até ontem ela estava na barriga da mãe e agora estava ali, no colo do pai. Em alguns meses poderiam brincar com ela, quando aprendesse a sentar-se, mover os braços e pernas. Nesse momento entrou o médico responsável e, vendo a família reunida, falou:

– Que família mais linda, vocês formam. Parece que foi ontem quando nasceram esses dois e olha o tamanho que já tem. Hoje temos mais uma menina, que pelo jeito vai ser também um mulherão.

Pos-se a verificar o estado de Eduarda, constatando estar tudo na mais perfeita ordem. Dessa forma, naquela tarde daria alta para a paciente. Era adepto da teoria de que, quanto menos tempo no hospital, melhor para a mãe e a filha. O ambiente hospitalar era o menos adequado para a permanência por muito tempo. A pequena tinha tamanho e peso além do habitual, sendo perfeitamente capaz de sobreviver em casa em melhores condições, no ambiente familiar, do que no recinto hospitalar. Mandaria apenas fazer alguns exames rotineiros para certificar-se de que tudo estava mesmo bem. Depois disso assinaria a guia de alta hospitalar.

Com isso os meninos ficaram alegres. Levariam a mãe junto com eles para casa. Pensavam que permaneceriam ali até a hora da mãe ir junto. Manoel teve que usar de firmeza para convencer os dois a acompanhá-lo para casa. Teriam que ir para a escolinha e contar aos amiguinhos a novidade. Haviam antes anunciado que iriam ter uma irmã. Agora era hora de anunciar a chegada da mesma. Dessa forma chegaram por volta das 11h e a empregada os colocou para tomarem banho. Depois os ajudou a se vestirem e almoçar. Na hora certa Manoel os levou para a escola. Desceram do carro e correram a contar às mulheres que da portaria, as responsáveis pelo controle do patio e depois as tias, nome dado às professoras. As palavras não saíam com a velodicade suficiente para contar a novidade.

Ao ver os filhos em segurança no recinto da escola, Manoel voltou para casa. Teria algumas providência a tomar, antes de ir para a maternidade buscar a esposa e a filha. Por toda parte, diante de sua pressa, indagavam o que estava acontecendo, ele rapidamente dava a notícia e recebia as congratulações. Muito antes do tempo habitual estava pronto para ir ao hospital. Antes de sair, ligou para lá indagando se a alta estava liberada, sendo informado que estava tudo em ordem. Poderia ir até lá para pegar seus familiares. A sogra quis acompanhar, pois saberia melhor o que fazer para ajudar a filha no momento de sair do hospital.

Às 16h eles estavam saindo da maternidade, rumando depois para casa. Ali um berço todo em cor de rosa, um enxoval especial, aguardava a pequena Isaura. Ela ainda estava dormindo, depois de mamar abundantemente pouco antes de deixar o hospital. A avó a acomodou delicadamente no berço, onde ela dormiu pela primeira vez. Parecia uma pequena flor, no meio de tantas fitas e laços coloridos. Depois de acomodar a família em casa, Manoel saiu novamente para dessa vez buscar os filhos. Deveriam estar ansiosos por chegar em casa. Sabiam que, era quase certo encontrarem ali a mãe, com sua irmã. Foi preciso insister para que não entrassem correndo, fazendo gritaria ao chegar em casa. Poderiam assustar a criança e assim provocar um mal estar, impedindo-a de dormir depois.

As crianças em seus primeiros meses de vida passam mais tempo dormindo do que acordadas. Comparam-se aos gatos, que dormem cerca de 18 horas diárias, ficando acordados por mais ou menos 6 horas. Depois é que ocorre a diferenciação. Com o passar dos anos, os seres humanos começam a dormir menos horas diárias, ficando mais tempo acordados. Eles chegaram e entraram silenciosamente. Chegavam a pisar com cuidado e logo viram a mãe sentada com a pequena no colo. Ela estava acordada. O sono no berço for a curto. Provavelmente os ruidos da casa haviam influido nesse resultado.

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Um japonês especialista em cachaça – Capítulo XV

  1. Batisando as crianças.
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Modelo de certidão de batismo, usado em paróquias brasileiras.

 

Instalados em sua casa, os pequenos logo se habituaram aos ruidos do lugar. Até Lobo os quis conhecer. Ao sairem de casa, levando os meninos em cadeirinhas do tipo “bebê conforto”, o animal pôs-se a choramingar perto da porta. Parecia implorar para ver os dois. Depois de pensar um pouco, Eduarda se aproximou do lugar em que ele estava e ele ficou louco de faceiro. O medo inicial cedeu e deixaram que ele viesse para perto. Colocaram as cadeirinhas lado a lado, separadas por um pequeno espaço. Foi ali que ele se deitou e olhava ora para um lado, ora para o outro. Dava impressão de dizer:

– Eu vou proteger esses pequenos de qualquer perigo.

Não esboçou nenhum movimento mais brusco que pudesse assustar aos dois, nem sequer tentou lamber-lhes o rosto. Depois de ficar ali por alguns minutos, Manoel o convidou a voltar para o seu cercado. Ele levantou e foi obedientemente. Enquanto isso os meninos continuavam a dormir placidamente. Embarcaram no carro e foram ver os avós. Seria a primeira visita a casa dos velhos. Iriam combinar o batisado que teria lugar no próximo domingo. Teriam que participar do curso de batismo, exigência da diocese, tanto para os pais como os padrinhos.

Haviam escolhido a irmã e um irmão de Eduarda. Para completar haviam convidado Toshyro e Arminda. Assim estava complete o quarteto e iriam participar na tarde daquele sábado do curso. Assim poderiam realizar a cerimônia sem problema. Iriam iniciar a vida dos filhos na Igreja como haviam feito seus pais há tantos anos, perdidos no passado. Eduarda conseguira levar Manoel para a igreja ultimamente. Durante anos ele ficara desleixado. Cada carta que vinha de Ancede, trazia recomendações da mãe para não deixar de rezar, ir a igreja. Prometia ir no próximo domingo, mas alguma coisa acontecia e a promessa ficava para outro dia. Assim o tempo passou.

Agora, com o nascimento dos filhos, saudáveis e fortes, Eduarta tinha mais um argumento para fazer que a acompanhasse no sábado a tarde, ou domingo pela manhã. Até confessor-se ele aceitara. Passara a lembrar da hora dos compromissos na igreja, coisa que antes não era de seu hábito. Dessa forma Eduarda ficou muito satisfeita. Era devote e cumpridora dos preceitos religiosos. No começo aceitara a quase indiferença do marido, mas quando este aderira à prática assídua, se regozijara. Agora com os filhos, seriam não mais dois a comparecerem às cerimônias e sim quatro. Ele tinha trazido na época em que emigrara de Portugal, por insistência da mãe, os comprovantes de batismo, crisma e primeira comunhão. Assim fora fácil tratar dos documentos por ocasião do casamento.

Como eram casados no religioso na mesma igreja onde iriam batizar os filhos tudo estava acertado. No decorrer do curso de batismo, membros ativos da comunidade, especialmente preparados para a finalidade, orientavam quanto aos compromissos de pais e padrinhos. Batisar não era apenas uma cerimônia, um evento social. Ao pedir o batismo para os filhos e afilhados, pais e padrinhos assumiam perante a comunidade eclesial alguns compromissos. Caberia aos padrinhos substituir os pais em caso de morte ou impossibilidade por outro motivo, na educação dos novos membros da igreja.

Foi deixado bem claro. Os “compadres” e “comadres” não se destinavam apenas a beber cerveja juntos por ocasião dos aniversários, ou fazer fofoca tomando café com bolinhos. Toshyro estivera também por longo tempo afastado de artividades religiosas, servindo a ocasião para sacudir um pouco sua indolência nesse sentido. Foi preparado um churrasco para os familiares dos pais e padrinhos, no espaço existente nos fundos do bar. Logo ficou fechado no canil para não perturbar.

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Outro modelo de Cerdidão de Batismo

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Lembrança de batismo

 

Na manhã do próximo domingo, as famílias se reuniram na igreja, junto com outras que também iriam batisar os filhos. A missa transcorreu normalmente e depois teve lugar a cerimônia do batismo, numa capela lateral da matriz. Ali havia a pia batismal, contendo a água, benta por ocasião da missa do galo na noite do sábado da ressurreição. Os pequenos em geral reclamaram da água fria que lhes foi despejada, embora em pequena quantidade, sobre a cabeça. Foi uma sequência de choros fortes de descontentamento. As demais fases como unção com óleo, a pitada de sal na boca, tudo foi completado. Dessa forma, sendo mais de meia dúzia de candidatos ao sacramento, transcorreu quase uma hora até terminar.

Com as certidões na mão, todos se retiraram após o fim da cerimônia. As mães e madrinhas tinham a preocupação adicional de verificar o estado das fraldas de seus pimpolhos. Estavam há bastante tempo ali e poderia ter acontecido algum “acidente” de mau cheiro. Nos últimos minutos da cerimônia for a sentido um leve odor que sugeria algo estranho. Eduarda e as duas madrinhas estavam desconfiadas de que eram as portadoras dos autores da façanha. Quando removeram as camadas de cobertores e roupas que os envolviam, tanto José Francisco, quanto João Antônio, estavam com as fraldas “cheias”. Aquele leve cheiro sentido antes estava ali configurado.

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Velz de batizado, em azul para menino.

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Lembrança/certidão de batismo.

 

Manoel olhou para eles e falou:

– Estes nossos filhos não são lá muito respeitosos com o padre, não achas, querida?

– Não tem nada a ver, meu bem.

– Mas precisavam encher as fraldas logo na hora do batismo? Esses meninos vão dar o que falar.

– Deixa pra lá seu Manoel, – falou Arminda. – Isso acontece toda hora. Quando é a hora a coisa vai e pronto.

– O Manoel está mangando com vocês. Eles que tratem de se comportar no futuro, principalmente na hora de ir a igreja.

– Vai ser difícil ensinar isso a eles, minha filha.

– É, acho que não vai mesmo. Veja a cara de safado que estão fazendo os dois?

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Vela especial para o batismo.

 

De fato os dois meninos, vendo-se livres das fraldas, cueiros e roupas, começaram a espernear e resmungar alegremente. Pareciam se divertir com sua nudez naquele momento. Logo foram trocados e vestidos novamente. Resmungaram um pouco mas logo se acomodaram. Primeiro um, depois o outro atacaram o “lanche” das dez e meia, que estava ali à disposição. Foi preciso esperarem um pouco para encetar o retorno para casa. Era desconfortável amamentar as crianças andando de carro. Mamaram o suficiente para tapear a forme mais urgente. Depois teriam tempo para completar a refeição.

Ao chegarem em casa, sentiram de longe o cheiro de carne sendo assada. Os irmãos de Eduarda haviam se encarregado do serviço de assar a carne. Dessa forma, não demorou para que a refeição fosse servida. Naquele dia não seriam servidas refeições no restaurante, para não sobrecarregar as cozinheiras. O bar ficaria fechado por um tempo até concluir o almoço dos convidados. Vários presentes foram trazidos pelos padrinhos, tios e amigos convidados. Era um exagero, mas vinha dado de bom coração e seria indelicado recusar. Eles tinham uma variedade enorme de roupas. Provavelmente haveria no final de tudo algumas sem terem sido usadas.

– Guarde o que não usar, para o próximo, minha filha.

– Mãe, eu acabei de ter dois e a senhora vem me falar do próximo? Vamos com calma que isso aqui não é mole.

– Mas as roupinhas não estragam. Eu sempre guardei as que estavam inteiras para usar no próximo. Você mesma, usou muita roupinha de sua irmã e até dos irmãos mais velhos.

– Eu vou querer ter, daqui a uns três ou quatro anos uma menina para completar. Aí já estará de bom tamanho.

– Cuidado! Podem vir mais dois, ou então duas.

– Vire essa boca para lá, dona Arminda.

– Começou com dois, pode muito bem continuar assim.

– Eu até iria ficar contente com duas rapariguinhas, – falou Manoel.

– Ele quer logo duas. Não é ele que carrega, dá de mamar e limpa os traseiros.

– Mas eu ajudo, quando posso.

– É melhor nem falar nosso. Não vale a pena discutir esse assunto, logo hoje, dia do batismo dos meninos.

Os assadores da carne haviam acertado a mão, preparando um assado saboroso, suculento e macio. Eram hábeis no ofício. Poderiam trabalhar como churrasqueiros e não fariam feio. Depois de todos satisfeitos, os ossos, com restos de carne, foram destinados ao cão, Logo. Ele, depois de receber o primeiro osso, se pusera a roer com afinco, arrancando os restos de carne, cartilagens e mesmo pedaços mais macios de osso. Olhando a quantidade de ossos, Manoel decidiu guardar um pouco para lhe dar em outro momento. Se recebesse demais, poderia ficar enjoado ou então deteriorar e fazer mal a ele. Pegou um saco plástico e guardou o excedente, que depois foi posto na geladeira.

As mulheres da família subiram para a moradia, enquanto Manoel e os demais foram para o bar. O movimento estava ficando forte, sendo necessária a presença deles, especialmente Francisco e Manoel. Os meninos, depois de terem se satisfeito, estavam dormindo angelicalmente. Uma chaleira de água foi posta para esquentar, visando a preparação de um bule ce chá. Seria a melhor bebida para depois de uma refeição lauta como for a o almoço, especialmente com muita carne.

Os convidados masculinos ficaram algum tempo entretendo-se na sala de jogos do bar, alguns sairam para atender compromissos diversos. As senhoras ficaram com Eduarda, depois desceram ao encontro dos maridos junto às mesas de jogos, ocorrendo inclusive algumas partidas entre elas, ou duplas mistas, casal contra casal. Ao entardecer se retiraram, deixando o espaço para os habituais frequentadores. Eduarda foi levar os pais para sua casa, deixando os meninos aos cuidados da empregada, pois não pretendia demorar. Os momentos mais significativos da data haviam sido registrados na camera fotográfica e de filmagem por dois amigos de Manoel. Iria mandar cópias para os irmãos e a mãe, que provavelmente ficaria muito satisfeita, vendo os netos gêmeos sendo batisados. Certamente seria um console em seus derradeiros dias.

Na segunda feira Manoel levou os filmes para a revelação. Mandou logo fazer duas cópias de cada, inclusive do filme em super 8. Mandaria para a família e eles poderiam ver como tudo correra. Tinha certeza que a qualquer momento receberia a notícia do falecimento da sua maezinha, pois sabia de seu estado precário de saúde. Agora estava rezando a Nossa Senhora de Fátima e também Aparecida, para dar tempo de fazer chegar até ela as imagens dos netos. Um telegram avisara sobre o ocorrido e recebera resposta avisando que a avó enviava sua benção aos netos. Sinal de que ela ainda estava viva, certamente esperando pelas fotos que iriam substituir os meninos, já que não seria difícil leva-los nesse momento.

Os desafios de Toshyro continuavam a ocorrer, agora com alguns tropeços do especialista, pois haviam surgido novas marcas de aguardente que ele não conhecera no tempo de suas viagens. Nesses casos geralmente conseguia identificar o estado ou a região aproximada de sua orígem. O que por sis ó era algo digno de nota, pois isso implicava em um paladar apuradíssimo, além do conhecimento dos solos das diferentes áreas do país.

Ao final da semana as fotos estavam prontas, os filmes também e sentou-se junto com a esposa para organizar um álbum para conservar com a família, um para cada qual dos meninos e um para enviar a avó em Portugal. Isso feito, preparou uma caixa apropriada para acomodar os objetos e escreveu o endereço cuidadosamente. Na segunda feira trataria de colocar no correio registrado. Deveria chegar tudo o quanto antes.

Realmente, três dias depois do despacho, recebeu um telegram avisando da chegada. A avó ficara emocionadíssima com as fotos e mais ainda com o filme exibido em um projector super 8 de propriedade do irmão. Mandava copiosas bençãos ao filho, nora e netos. Estava um pouco melhor de saúde nesses dias. Manoel temeu que fosse um mau sinal, pois é comum pessoas idosas e doentes, apresentarem uma aparente melhora e depois chegarem ao fim repentinamente.

Seus temores se confirmaram na semana seguinte. Num súbito impulse, passou numa agência da Varig, comprou passagem e foi para casa. Avisou Eduarda de sua viagem e preparou uma pequena mala. Não ficaria tempo. Apenas o suficiente para participar do sepultamento e resolver algum pequeno detalhe posterior. No máximo em uma semana estaria novamente em casa. Enviou um telegram avisando de sua chegada e foi para o aeroporto. Pouco depois embarcava, chegando à Lisboa por volta do meio dia seguinte. Um voo curto em avião menor o deixou próximo a Ancede. Assim, pelo meio da tarde chegou a tempo de dar à sua mãe o último adeus.

Os familiares entristecidos com o desenlace da velha senhora, mas ao mesmo tempo alegres com o ótimo estado de saúde do irmão, junto com a família recentemente acrescida de dois membros. Não havia muito que decidir depois do sepultamente. Não havia bens a dividir, com exceção de alguns objetos. A própria falecida se encarregara de destinar a maior parte de suas coisas para filhos, netos, netas, noras. Por último deixara para a nora brasileira um colar de pérolas, recebido do marido por ocasião do noivado. Era portanto algo de valor afetivo principalmente. Para o filho deixara um terço com crucifixo de ouro, trazido da Terra Santa por um padre que conhecera há muitos anos. Os novos netos receberam cada um um porta-retratos de prata, remanescente do tempo de sua juventude. Eram objetos de pouco espaço e não teria problema em transportar.

Visitou os irmãos, sobrinhos e mesmo sobrinhos-netos, pois os mais velhos dos irmãos já eram avós. Depois de seis dias revendo a terra natal, a saudade bateu e empreendeu a viagem de retorno. Não via a hora de ter os filhos nos braços, dar um bejio carinhoso na esposa e lhe fazer um afago. Era uma pessoa como poucas a sua Eduarda. Sabia ser esposa, companheira, amante e principalmente mãe, agora que os filhos haviam nascido. Nem assim descuidava dos outros afazeres. Parecia se desdobrar a cada hora do dia. Chegava a lhe dizer que não deveria se desgastar tanto. Acabaria ficando com estafa e isso não seria bom de modo algum.

Ela sempre lhe respondia que isso lhe dava prazer. O que lhe dava prazer não cansava, portanto, se um dia começasse a se cansar, iria diminuir esse ritmo com certeza. Dois dias depois de partir de Ancede, desembarcava em São Paulo. Tivera que pernoitar em Lisboa, pois não encontrara passagem para o dia em que lá chegara. Aproveitara para conhecer um pouco mais a capital da patria, pois apenas estivera ali de passagem em uma ou duas ocasiões, mesmo assim, há muitos anos passados. Com o tempo escasso, selecionou alguns pontos importantes para conhecer e levar umas fotografias que mostraria à esposa. Mais tarde as apresentaria aos filhos quando tivessem capacidade de entender o significado daquelas imagens.

Durante sua ausência Eduarda tomara conta dos negócios de modo admirável. Deixara um pouco mais aos cuidados da empregada os seus dois pimpolhos, que cresciam igual repolhos viçosos. Havia muitos afazeres envolvendo questões de banco, compras, pagamentos a serem feitos. Mas ela sabia se desincumbir maravilhosamente de tudo isso. Quando o viu desembarcando do taxi na frente do portão, correu ao seu encontro e o abraçou. Os meninos estavam no térreo, deitados em um carrinho duplo, levados pela empregada. Nos momentos de folga Eduarda lhes dedicava mais atenção, pois não queria que eles se ressentissem da ausência maternal. Sabia ser isso algo funcamental para o desenvolvimento de uma personalidade equilibrada e saudável no futuro.

Os objetos deixados em herança foram desembrulhados e entregues a quem pertenciam. Eduarda ficou extasiada com o colar de pérolas. O aspecto permitia ver tratar-se de jóia de grande valor, em especial por ser muito antiga. Mandaria aos cuidados de um joalheiro de confiança para fazer uma revisão geral, limpar e deixar como novo. Depois o usaria em ocasiões especiais. Teria gostado imensamente de ir conhecer a sogra, mas não for a possível. Lembraria sua pessoa a cada vez que tocasse naquele objeto. Os porta-retratos foram preenchidos com uma fotografia em close de cada um dos meninos, ficando depois colocados sobre a cômoda próximo à cabeceira dos berços. Por ora eles dormiam no mesmo, mas logo teriam que passar a usar os dois separados, pois estavam ficando crescidinhos para dormirem juntos.

Eduarda repassou todas as informações financeiras para Manoel, para que ele ficasse ao par de tudo que fizera, das decisões que tomara. Nisso as horas passaram e logo era hora de enfrantar o movimento da noite. Francisco estava visivelmente esgotado, pela sobrecarga dos últimos dias. Estava por merecer um alívio em suas tarefas. Manoel foi ocupar sua posição de sempre, ajudando sempre que possível ao empregado, para lhe tornar o fardo mais leve. Já não era exatamente um jovem. Passara dos 50 anos alguns meses antes. Isso começava a pesar sobre os ombros. Graças a Deus gozava de boa saúde e se alimentava bem. Era moderado na bebia e, sempre que possível, descansava bastante. Era um servidor de grande valia. Uma verdadeira mão direita.

Décio Adams

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Um japonês especialista em cachaça – Capítulo XIII

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Garrafas de aguardente com “martelinho” ao lado

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Vitrine de bebidas em bar

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Coleção de rótulos de cachaça.

  1. Coleção de cachaças cresce.

 

 

O marceneiro terminou a primeira parte do armário. Os elogios ao efeito produzido foram unânimes. As garrafas existentes foram colocadas inicialmente espaçadas. Caberiam muitas no mesmo espaço, mas por enquanto iriam ficar assim. Na medida em que mais outras se juntassem ao acervo, iriam sendo preenchidos os espaços vazios. Quando estava terminando de colocar as últimas e depois observar o efeito causado, Manoel sentiu ao seu lado a presença de um cliente. O mesmo se mantivera mudo até aquele instante, mas logo disse:

– Está ficando bonita sua coleção. Quando eu falar com os meus vendedores do interior nordestino, vou pedir para eles trazer algumas espécies que só existem por lá. Conheço todas elas do tempo em que eu viajava na região.

– Mas sabe a diferença delas pelo gosto, ao sentir o sabor? – perguntou Francisco.

– Eu faço uma aposta que você abre uma garrafa, sem eu ver, serve um copinho e me entrega. Fico de olhos fechados. Tomo um bom gole e digo a marca, safra e, em alguns casos, até o nome do fabricante.

– Pode ser, mas é um pouco difícil de acreditar, seu Toshyro, – tornou Francisco.

– Quer fazer uma experiência?

– Vamos encontrar uma que tenha duas garrafas e abrimos uma delas. Acho que tem uma lá do nordeste mesmo. Um amigo trouxe uma e depois o outro trouxe mais uma. Dá para nós sanarmos as dúvidas, – falou Manoel.

– Mas isso tem que valer uma aposta!

– Vamos ver se alguém topa apostar quando houver mais gente no estabelecimento. Ainda é muito cedo. Isso vai ser uma farra.

– Não tem problema, seu Manoel. Pode esperar que seus clientes venham. Hoje eu não tenho pressa. Minha família foi para o interior e não preciso voltar tão cedo para casa.

– Vou colocar a pinga para gelar.

– Não faça isso. Gelada ela não mostra seu verdadeiro “espírito”. Tem que ser tomada na temperatura ambiente.

– Ainda mais isso. Mas geladinha ela não desce mais suave?

– Cachaça, se for boa, não arde, nem nada. Mesma coisa que wisky. Gelado ele não tem o sabor. Os verdadeiros bebedores tomam ele na temperature ambiente.

– Será que os alemães também tomam cerveja sem gelar?

– Exatamente. Lá o clima é em si mais frio e por isso eles não precisam gelar. Bebem na temperatura ambiente, até mesmo o chopp. Nos dias muito quentes êles colocam em resfriamento leve para não ficar môrno.

– Faz sentido. O vinho, por exemplo do Porto, se bebe sem gelar. O único que se bebe gelado é o branco, champanha, espumante. O tinto é tomado na temperatura em que sai da adega. Por isso que é guardado nas adegas  que são sempre os porões das casas.

– Enquanto esperamos o povo chegar, que tal jogarmos uma partidinha de sinuca, seu Manoel? Deixe seu ajudante cuidar do bar e vamos nos divertir um pouco.

– Uma boa ideia, seu Toshyro.

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Aguardente Espalha Gripe, de Alcântara

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Aguardente de cana Bafo de Onça (Essa é braba)

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Aguardente NAXOXOTA

 

Manoel pegou um par de fichas na gaveta do caixa e foram para uma das mesas. Jogaram para se divertir. Depois de perder a primeira para Manoel, Toshyro provocou:

– A próxima vale uma garrafa de vinho do bom. Se for para perder ou ganhar, tem que valer alguma coisa.

– Vamos a isso, então amigo. Uma garrafa de Vinho do Porto. Pega lá Francisco. Uma daquelas que guardo onde tu sabes.

Logo Francisco colocou sobre um suporte uma garrafa de vinho, bastante envelhecido, em uma vasilha bojuda, com um lado achatado, dando-lhe uma forma típica. Toshyro observou atentamente e viu que era da safra de 1974, portanto já estava com 11 anos nesse momento. Deveria ser algo especial. Nem perguntou o quanto custaria se viesse a perder o jogo. Os dois se empenharam ao máximo e chegaram ao ponto em que cada um dispunha apenas de uma bola para ser derrubada, além da bola oito. Um grupo de torcida se formara ao redor e ficaram sabendo da aposta feita. Aquele jogo valia a garrafa de vinho exposta alia o lado.

Todos fizeram questão de olhar e cobiçar o líquido escuro que havia em seu interior. Estaria reservada ao vencedor daquele jogo. Por último Toshyro derrubou sua bola e ficou pela única. Depois de duas jogadas de cada lado, finalamente a bola oito caiu na caçapa e Toshyro saiu vencedor. Recebeu das mãos de Manoel a garrafa de vinho, sopesou-a e falou:

– Vinho bom é para ser bebido, não apenas para ser olhado. Francisco, traz lá um saca-rolhas e alguns copos. Não vai dar para ninguém se embriagar, mas para sentir o sabor desse vinho de onze anos. Obrigado, Manoel.

A garrafa foi aberta e um pouco do conteúdo foi vertido em diversas taças, que foram distribuidas aos presentes. Tendo nas mãos o recipiente com o líquido de cor forte, exalando um aroma inigualável, elevaram um brinde:

– À prosperidade do nosso amigo Manoel e sua família, – disse Toshyro.

As taças tilintaram e todos beberam um pequeno gole, saboreando o excelente vinho. Depois mais um gole e logo as taças estavam vazias. Todos lamentaram não haver mais. Perguntaram a Manoel qual era o preço e desistiram de pedir, pois representava um valor elevado para suas disponibilidades. Era peferível jogar algumass partidas de pebolim, sinuca e tomar uma ou duas cervejas. Ficaria mais em conta do que uma única garrafa de vinho.

Logo se espalhou que o japonês ali presente, que dividira com eles tão generosamente o vinho ganho no jogo, era especialista em cachaça. Dizia-se capaz de identificar pelo sabor a marca, procedência e safra do produto. Começaram a questionar entre si se isso seria capaz. Surgiram promessas de apostas entre eles até que chegou o momento de tornar o assunto sério:

– Amigos! – disse Manoel. – Temos alguém aqui que se diz capaz de identificar cachaça pelo sabor. Até mesmo pode ser capaz de dizer o nome do fabricante em alguns casos. Ele topa fazer uma demonstração, mas precisa valer uma aposta.

Era a deixa para organizarem as apostas. Havia quem apostasse a favor, outros contra e logo havia uma soma relativamente alta de dinheiro reunida em uma caixa de papelão. Os valores apostados haviam sido anotados, ficaria uma porcentagem para o estabelecimento, outra para o especialista, e uma outra para os ganhadores.

Cachaça Atrás do Saco.

Tome ATRÁS DO SACO

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Cachaça Na bunda (Cuidado)

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Aguardente de cana KIPRESENTE

 

Tudo acertado, Manoel pediu para Toshyro sentar-se de costas para o balcão, enquanto ele iria abrir a garrafa de bebida que já estava colocada em local escondido atrás do balcão. Abriu e serviu uma dose num copo, o vulgo “martelinho”. Levou para a mesa onde o experimentador estava e colocou a bebida ali. Ao ouvir o ruido do copo na mesa, Toshyro abriu os olhos que mantivera fechados, como que se concentrando. Pegou o copo, olhou o líquido contra a luz para ver sua transparência, levou-o aos lábios, sorveu um gole. Levou o líquido para a parte posterior da língua e lhe sentiu o sabor. O aroma ele já percebera ao aproximar o copo do rosto.

Sentiu por instantes o paladar da bebida, engoliu e estalou a língua, como quem aprova o que bebeu.

– E então, seu Toshyro! Qual é a marca da cachaça que o senhor bebeu?

Depois de pensar alguns instantes, fazendo suspense, ele declinou a marca, o local onde é fabricada, a safra e o nome do alambique. Todos quiseram saber de Manoel se o que for a dito conferia com o que estava escrito no rótulo. Manoel pôs-se a ler. A medida que lia, primeiramente a marca, depois o fabricante, a safra por último. Estava exatamente igual ao que for a dito por Toshyro. Manoel fez a divisão do dinheiro e havia quem ainda duvidasse. Olhos indagadores se dirigiram para Manoel e este falou:

– Meus amigos, nem eu acreditava que isso seria possível. Tanto que apostei contra e perdi. Podem ver aqui minhã aposta.

E mostrou o seu nome com a anotação ao lado dizendo que o homem não seria capaz de fazer o que dizia.

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Foi a partir daí que começaram a surgir desafios os mais diversos, sempre na identificação de cachaças produzidas em lugares remotos. Já traziam sempre duas garrafas. Uma era para ficar no acervo da coleção do bar e outra para ser experimentada pelo japonês especialista. Quase todas as semanas vinha alguém com duas ou mais garrafas de cachaça, provenientes de distintos lugares. Cada visita de Toshyro, culminava com um desafio e uma rodada de apostas. Houve quem propusesse fazer uma sequência maior de apostas, mas Manoel não permitiu. Isso iria caracterizar a realização de jogos de azar no bar. Seria caracterizada a transgressão das normas legais e isso geraria dissabores depois.

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Aguardente de Pendão, FRUTA RARA

 

Importante era manter as coisas dentro de limites sem exageros. Não estava caçando confusão naquela altura dos acontecimentos. Os sábados eram em geral o momento de receber as novas variedades de aguardente. Algumas vinham mesmo de grotas bem distantes, de modo a sequer terem um rótulo bem impresso, colorido e tal. Era um papel branco, com o nome da bebida, local, fabricante e data. Diziam os portadores ser de ótima qualidade, apesar da aparência um tanto rústica. Manoel colocava uma garrafa na vitrine, guardando a outra. A cada sessão de apostas uma delas era aberta para testar o paladar de Toshyro.

Houve até um concorrente que se apresentou, dizendo ser capaz de dizer até o dia da fabricação. Isso foi considerado exagero, pois essa informação não era possível confirmar. Não vinha impressa nos rótulos. Na primeira tentative ele errou feio e foi vaiado. Depois entrou na brincadeira, pois havia pensado tratar-se de uma espécie de concurso. As novas que iam sendo colocadas na vitrine, eram vistas por Toshyro. Ao vere le evocava de sua memória as informações e descrevia o sabor que a bebida apresentava. Mais teor alcoólico, mais ácida, menos ácida, maior teor de açúcar e outros detalhes. Depois, quando chegava a hora de experimentar dela sem saber da orígem, vinha a sua memória o que dissera na descrição. E logo declinava nome, orígem, ano de fabricação e fabricante. A cada semana havia uma nova garrafa para ser experimentada.

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Aguardente de cana TÁ NA HORA

 

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Aguardente CURA VEADO

 

 

O mes de agosto passara, setembro ia a meio. Os enjôos de Eduarda estavam cessando. O começo da gestação sempre é mais intenso nessas sensações. Em algumas semanas seria realizado o primeiro exame de ultrassom. O ginecologista estava acompanhando o desenvolvimento e tudo estava dentro da normalidade. Iria pedir o exame na próxima consulta. Talvez já fosse possível determinar o sexo da criança, saber outros detalhes relativos ao desenvolvimento. Os futuros pais estavam cada dia mais entusiasmados. O quarto em que iria dormir o bebê, estava sendo decorado aguardando a chegada. Tudo is sendo feito com calma, pois ainda faltava tempo suficiente para isso.

Os avós estavam aguardando ansiosos pelas novidades. A cada visita que faziam, traziam alguma roupinha, um cobertor, um brinquedo, qualquer bugiganga, contanto que servisse para ser usado de alguma forma pelo neto. Os tios e tias, do lado materno, igualmente estavam querendo saber sempre como andava a irmã caçula. Todos eram casados e tinham seus filhos. Tinham sempre alguma coisa a sugerir, conselhos a dar, simpatias para isso, ou aquilo. Havia momentos em que Eduarda preferia ficar sozinha em sua casa, de tanto que enchiam seus ouvidos com coisas diversas, muitas vezes contraditórias. Se fosse dar ouvidos a tudo que lhe diziam, ficaria maluca. Era melhor seguir a orientação do médico e sua intuição.

Os tios, residentes em Portugal, haviam sido informados e aguardavam o nascimento. A avó estava bastante doente, mas torcia para ter vida até ver ao menos uma fotografia do primeiro neto do filho mais novo. Enquanto isso Eduarda tratava de dominar os segredos da cozinha do bar. No futuro esperava assumir o comando desse setor. Arminda já estava um pouco idosa e por vezes mostrava sinais de cansaço. Poderia a qualquer dia oferecer uma surpresa. Prevendo isso, ela tratou de marcar consultas com medicos para examinar a cozinheira. Foi detectado que ela sofria de diabetes e não sabia disso, de modo que o nível de açúcar no sangue era elevado.

Os exames determinaram também níveis de cholesterol acima do normal. Dessa forma ela precisou se submeter a um regime bastante rigoroso, além de usar medicação adequada. Três vezes por semana, Eduarda levava a funcionária para uma academia, onde as duas participavam de ginástica, um pouco de musculação, caminhadas na esteira, bicicleta ergométrica. Dessa forma em algum tempo estavam em forma razoável. Eduarda aos poucos precisou reduzir a carga de exercícios, para não prejudicar seu estado de gestante.

Com os exercícios e a medicação adequada, o estado geral de Arminda melhorou muito. Não mais sentia tonturas, o cansaço constante pareceu desaparecer. Isso alegrou deveras a boa senhora. Gostava muito de seu trabalho e não gostaria de deixar os patrões em apuros, logo agora que estavam esperando o nascimento do primeiro filho. Tinha sentiment de imensa gratidão por Eduarda, bem como por Manoel que apoiava todas as decisões da esposa. Tinha sob seu comando duas jovens, uma há mais tempo e a outra recentemente contratada. Estavam ainda em fase de aprendizado, mas eram providas de boa vontade.

Infelizmente a mais antiga, não tinha a menor inclinação para a cozinha. Raramente tinha uma iniciativa própria. Era necessário mandae fazer tudo. Executava o que era mandada fazer e nada mais. Até mesmo lavar a louça que se acumulava na pia durante o processo de preparo das refeições. Arminda era adepta de manter o lugar de trabalho o mais limpo e desimpedido possível. A pia cheia de louça usada não se coadunava com esse princípio. A que fora contratada mais recentemente apresentava mais iniciativa. Sempre se dispunha a lavar a louça, retirar o excesso de lixo acumulado nos recipients coletores, varrer o chão e passar pano úmido com detergente para manter tudo limpo. Chegava por vezes ao exagero.

O ventre de Eduarda começou a crescere e no bar, a coleção de garrafas em exposição ia aumentando semanalmente. Por vezes eram várias na mesma semana, outras vezes passavam-se duas ou três semanas sem nenhum acréscimo. O momento da degustação de uma nova variedade e as apostas consequentes passou a ser um momento aguardado com certa apreensão. Havia quem torcesse por ver o dia em que Toshyro se visse na necessidade de declarar sua ignorância diante de uma variedade que houvesse surgido mais recentemente.

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Cachaça PELADINHA

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Cachaça BALANÇA…MAS NÃO CAI!

 

O grupo de pessoas interessadas em ver crescer a coleção estava empenhado em esquadrinhar todos os recantos do país, na busca de variedades de cachaça. Houve situações em que, mesmo não sendo capaz de identificar o nome, surgido em época posterior às suas viagens pelo interior nordestino especialmente, mas, seu paladar era capaz de identificar a região de onde vinha. As características do solo davam à cana de que é feita a aguardente, traços específicos. Desse modo era possível saber de que estado, bem como da microregião onde era produzida e isso invariavelmente era capaz de declinar. Acrescentava ser provavelmente uma variedade que nunca bebera em suas viagens. O rótulo comprovava suas palavras.

O paladar apurado do descendente nipônico tornou-se uma lenda no bairro e aos poucos se espalhou pelas redondezas. Em diversas ocasiões ele foi convidade a participar de entrevistas, programas de variedades e comemorações regionalistas. Isso em princípio não lhe dava nada além da satisfação de participar, porém com o tempo, as solicitações se tornaram em tal número que precisou recusar alguns convites. Assim surgiu a oferta de pagamento de cachet pelas apresentações e pouco depois ele estava com a agenda quase lotada de compromissos. Sua renda elevou-se bem além do que recebia como salário. Precisou tomar cuidado para não misturar as duas coisas. A aposentadoria estava próxima e não desejava ser demitido nesse momento.

A preservação de sua vida profissional, até ali toda ela desenvolvida na mesma empresa, era fato primordial em suas preocupações. O que viesse por acréscimo era bem-vindo, desde que não interferisse com o a atividade na empresa. Uma filha se encarregou de organizar a agenda de seus compromissos, negociar os caches e pequenas viagens. Nessas ocasiões tinha chance de ampliar suas experiências na degustação de novas variedades de bebidas que surgiam constantemente. Transformou-se numa espécie de ícone, ligado estreitamente ao estabelecimento de Manoel, lugar onde surgira a transformação do hobi em uma atividade além disso. Virtualmente se transformara numa segunda profissão.

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Especial aguardente de cana CONSOLA CORNO

 

Consultava regularmente o médico, pois não poderia correr o risco de exagerar no consumo de bebidas. Poderia tornar-se alcoólatra e assim por tudo que conquistara até ali a perder.

Voltemos ao nosso casal de “futuros” pais. No mês de outubro finalmente foi solicitado o exame de ultrassonografia. Manoel, morrendo de curiosidade, foi junto. Queria ver o(a) filho(a), mesmo sendo ainda uma pequena massa, um tanto disforme. Pelas palavras do médico, ja deveria ter agora a forma de um pequeno bonequinho, um pouco imperfeito, mas já com a maior parte das partes formadas. Dali para frente iria crescere e distender o abdomen da mãe até o dia do parto. Com a solicitação em mãos, embora pudesse fazer o exame pelo INPS, Manoel fez questão de pagar um laboratório particular. Não queria esperar na fila para saber como estava o feto.

No dia 20 de outubro ele levou a esposa, acompanhada da mãe, ao local da realização do exame. O preço ali era um pouco mais elevado, mas os equipamentos eram de última geração, permitindo observação de mais detalhes. Quando chegou a vez, entraram na sala de exames os três. Eduarda foi acomodada na mesa apropriada, seu ventre já levemente protuberante foi exposto. Um gel foi passado e iniciou-se o exame. Num monitor, semelhante a um pequeno televisor, já colorido nessa época, apareceu a imagem do que existia dentro da cavidade do baixo ventre de Eduarda. Começaram vendo a formação das pernas, abdomen, o minúsculo coração já batendo acelerado, os braços e a cabeça.

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Realizando exame de ultrassom

 

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Imagens durante a gravidez.

 

Ao mover o sensor, depois de colocar mais um pouco de gel, o médico operador do aparelho detectou algo novo. Ao lado da cabeça do que aparentemente era uma menina, surgiu outra forma igual. Parou por um momento, olhando para os pais e a avó, antes de falar:

– Vocês tem casos de gêmeos na família?

Os três ficaram paralisados. O que significavam aquelas palavras? Em lugar de uma criança, havia duas ali dentro? Talvez isso explicasse o crescimento um pouco exagerado do abdomen nas últimas semanas. Quem primeiro recuperou a fala foi Eduarda:

– Eu vou ser mãe de gêmeos?

– É o que está parecendo, mamãe! Veja aqui a cabeça que mostrei antes. Aqui ao lado aparece outra, em posição oposta, mas encostada. Vamos ver o resto do corpinho.

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Nesse momento Manoel e a sogra se olharaam de modo significativo, mas sem dizer palavra. Não havia em suas lembranças casos de gravidez gemelar nas respectivas famílias. Mas a natureza é cheia de surpresas e logo estavam vendo a imagem do segundo feto. Praticamente do mesmo tamanho e os cordões umbilicais se ligavam à parede uterina em um mesmo ponto.

– São gêmeos univitelíneos. Serão do mesmo sexo e aparentemente são meninos. Ainda não dá para ver muito claramente. Daqui a um ou dois meses vai ficar mais definido e se poderá observar direito.

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Imagem intra-uterina

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Mamãe pronta para fazer ultra-som.

 

Manoel segurou a mão da esposa carirnhosamente, fez um carinho em seu rosto e lágrimas de emoção rolaram de seus olhos. Sua querida Eduarda estava lhe preparando uma gratíssima surpresa. Em lugar de um, seriam dois filhos gêmeos. A alegria seria em dôbro, junto com as preocupações também, é lógico. Isso fazia parte do pacote. Não havia escolhas a fazer. A natureza determinava algumas coisas e cabia aos seres humanos aceitar essas incertezas. Depois de mais alguns minutos o exame foi dado por terminado.

Uma enfermeira ajudou Eduarda a remover o gel que ficara espalhado na pele de seu ventre e tornar a se vestir. Depois que sentou, recebeu um abraço carinhoso de sua mãe e depois do marido. Sairam para a sala de espera e, se aguardassem alguns minutos, receberiam o laudo do exame, junto com uma imagem impressa, para ser levada ao ginecologista. Assim ele teria as informações necessárias para melhor conduzir o tratamento pré-natal. Ainda mais agora, sabendo que se tratava de gêmeos.

Ao chegarem à sala de espera, os demais pacientes que ali aguardavam a vez, logo ficaram sabendo da novidade. Era impossível manter segredo sobre um fato tão relevante. A maravilha da tecnologia moderna permitia esse pequeno milagre. O que antigamente era descoberto apenas no dia do parto geralmente, hoje era revelado com antecedência. Assim várias providências podiam ser tomadas para uma acolhida mais condizente aos novos membros da família. Tanto a avó quando os pais estavam falantes. Quem menos falava era Eduarda, ocupada em apalpar o próprio ventre em busca de sinais da presença dos dois fetos. Tivera alguns dias antes um sonho em que caminhava com duas crianças no parquet, as não associara isso com a possibilidade de estar grávida de gêmeos.

Seus olhos estavam marejados de lágrimas, enquanto seu rosto estava sorridente. A emoção que a invadia era indescritível. Queria poder traduzir a todos os presentes o que sentia, mas as palavras lhe faltaram. Preferiu ficar quieta, deixando que seu semblante falasse da imensa alegria que ia em seu íntimo. Logo houve quem falasse que gêmeos eram em geral muito pequenos ao nascerem, não raro precisando de cuidados muito especiais. Frequentemente nasciam antes do tempo, tornando a sobrevivência mais complicada. Tudo isso havia sido desmentido pelo médico que realizara o exame. Havia dito:

– Posso lhes afirmar que são duas crianças em igualdade de condições. O desenvolvimento está excelente para o estágio, não há sinal de atraso. Pode-se notar que os corações batem no mesmo rítmo, dentro do limite normal para essa fase. Não poderiam estar em melhor condição. Muitas gestações de um único feto, nesse estágio estão bem menos desenvolvidas e mesmo assim chegam a bom termo. Podem ir em paz. Se preparem para cuidar desses dois que, em alguns meses, vão estar em seus braços. Vão precisarr de braços e mãos fortes para aguentar.

Por isso, as palavras dos profetas apocalípticos, sempre prontos a prever problemas e catástrofes, não fizeram nenhum efeito. Quando a enfermeira trouxe o laudo que deveriam levar ao ginecologista, Manoel fez questão de ler rapidamente para ver o teor e depois falou:

– Escutem o que diz o médico que fez o exame. Vou ler o que ele escreveu aqui no laudo. – começou a ler, deixando todos quietos. Ao terminar, correu o olhar pelo ambiente e parecia dizer. Não venham trazer más vibrações. Aqui está tudo bem e nada vai mudar isso. Estamos nas mãos de Deus.

Os três se levantaram, disseram adeus aos demais e sairam. Várias vozes se elevaram desejando muita sorte e felicidade, ao que eles agradeceram. Ao chegarem na casa dos sogros, onde a mãe ficaria, desembarcaram e foram contar a novidade aos demais membros da família ali presentes. Em questão de minutos o telefone se encarregou de transmitir a notícia para os mais diversos recantos da capital e mesmo alguns lugares mais distantes. Satisfeita a curiosidade, Manoel convidou Eduarda a retornar com ele para casa. O anoitecer se aproximava e teria o que fazer. Já ficara for a várias horas e seria importante estar presente no começo da noite.

Ao entrarem em casa, antes de subirem as escadas, Manoel gritou para o interior do Bar:

– Se alegrem com a gente. Vamos ter dois meninos em lugar de um.

Depois foi até a cozinha e deu o recado à Arminda, junto com as duas ajudantes. A velha senhora não esperou e veio dar um abraço na patroa ali no corredor, ao pé da escada. Desejou-lhe muita felicidade, muita calma e que fizesse muito repouso. Não era bom esforço nessas condições. Eduarda prometeu se cuidare e depois subiu até sua moradia. Manoel a acompanhou e ajudou a se acomodar em casa. Depois desceu para assumir sua posição no estabelecimento. Logo os fregueses começariam a aumentar em número e sua presença era imprescindível.

Os empregados vieram indagar os detalhes da novidade. Cada um tinha alguma coisa a comentar. Era um conhecido que tivera gêmeos, houvera algumas dificuldades, mas no final correra tudo bem. O outro sabia de um parente distante que perdere uma das crianças e assim correu a conversa. Manoel havia trazido consigo o laudo e mostdrou a todos. Poderiam ficar tranquilos que não haveria problema algum com os filhos que Eduarda carregava no ventre. Iriam nascer fortes e saudáveis. Batia no peito e nos braços, apontando que teriam a musculatura do pai, a constituição física seria forte.

O movimento da noite começou firme e logo estavam ocupados em atender aos fregueses. O assunto ficou praticamnete esquecido, salvo em alguns momentos era trazido à baila, mas logo o trabalho impedia a continuidade da conversa. Na hora do jantar, Eduarda desceu para ocupar temporáriamente o caixa, enquanto Manoel sentava na cozinha e se alimentava. Comera pouco no almoço, nervosa com a perspectiva do exame e nada ingerira no resto da tarde. Estava com muita fome e ele ficou contente em poder disport de tempo para sentar e comer, sem precisarr intercalar garfadas de comida com receber pagamentos e dar troco. A hora de comer era sagrada, mas nem sempre podia se dar ao luxo de ter esses momentos a sua disposição. Eram, como dizia um amigo, os cavacos do ofício. Não se pode fazer uma omelete, sem quebrar os ovos para tal.

Sempre que Eduarda podia, fazia esse revezamento com o marido. Era também a oportunidade de travar conhecimento com alguns fregueses. Gostava de conversar com eles, ouvir suas opiniões e também dar conselhos por vezes. A vida é feita de convivência. Seu pai sempre dissera em seu tempo de infância e adolescência:

– É conversando que a gente se entende.

 

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Acima vários rótulos de cachaças, das mais diversas procedências. Imagens coletadas na internet. Há vários sites em que é possível visualizar essas e muitas outras. Apenas uma pequena amostra da grande variedade que existe.

 

 

Um japonês especialista em cachaça – Capítulo XII

12. Toshiro Sakaguti entra em cena.
            Ao voltar para casa Manoel encontrou Eduarda em companhia da mãe que for a chamada para auxiliar na separação dos presentes. Cumprimentou a sogra e olhou para a grande quantidade de coisas que via dispostas em uma aparente desordem. Quase que imediatamente foi informado da razão dessa separação. Não fazia sentido ficar guardando, talvez por anos, alguns utensílios e equipamentos. Principalmente eletroportáteis. Além de se tornarem obsoletos, havia a questão do transcurso do período de garantia. Melhor seria fazer a troca por alguma coisa que pudesse ser usada imediatamente, até mesmo na cozinha do bar. Ali a utilização era mais intensa e frequente.
 
            Foi essa sua sugestão para liquidificadores, moedor de carne e principalmente jogos de garfos e facas de mesa. Em dias de maior movimento, por vezes era necessário lavar talheres e mesmo pratos para atender os fregueses. Ali poderiam dispor de boa parte do que haviam ganho em duplicidade. Inclusive panelas, bacias, travessas, sempre seriam úteis no estabelecimento. Eduarda imediatamente viu o acerto de sua decisão em pedir o apoio do marido destinação final dos presentes. Foi separado o que havia de maior qualidade e requinte para ser usado em sua mesa doméstica. Uma boa quantidade foi levado para baixo pelas mãos do ajudante do bar e da garçonete.
 
            Arminda e sua ajudante receberam de bom grado o reforço de material. Estavam para solicitar a Manoel a compra. Agora isso ficava desnecessário. Ele lembrara da necessidade diante do aumento significativo de movimento ocorrido após a inauguração. Naquela noite, enquanto atendia os clientes e dava conta do caixa, Manoel conversou longamente com um deles que, coincidentemente era marceneiro. Ao falar da questão do armário para colocar as garrafas de bebidas exóticas, especialmente aguardente, o cliente se identificou, predispondo-se a fazer um projeto e trazê-lo a aprovação de Manoel. Diante dos olhos de clientes curiosos ele se pôs a medir as paredes, portas e as partes livres para instalação do móvel. Faria uma coisa bem harmoniosa com o prédio, um pouco antigo, além dos demais móveis do estabelecimento.
 
            No mês de dezembro vencera a primeira parcela do dinheiro que ficara para trás da comprá do bar. Tinha feito o pagamento sem problemas. O seu Joaquim escrevera agradecendo e indagando do andamento dos negócios. Ele respondera que estava tudo em ordem e, segundo palavras de Francisco, houvera um aumento sensível do movimento com as alterações introduzidas. Com o retorno do casal, o propositor da ideia de realizar campeonatos de sinuca, pebolim e futebol de botão, retornou com um plano de realização alternada de jogos. Uma comissão organizadora seria montada, as regras elaboradas e submetidas à aprovação dos participantes.
 
            Uma pequena taxa de inscrição seria cobrada para custear as despesas com os troféus, medalhas e alguma outra despesa. Se houvesse sobra seria usado na organização de uma comemoração de encerramento. Todas as partidas disputadas pagariam as taxas normais devidas ao uso das mesas e demais equipamentos. Eduarda sugeriu que incluíssem também as mulheres na disputa. Havia algumas que gostariam certamente de participar. Faltava apenas um convite. Os homens de entreolharam e depois da anuência dos outros interessados ficou estabelecido que haveria abertura para inscrições femininas. Nessa primeira experiência haveria uma competição separada para homens e mulheres. No futuro poderiam fazer duplas de mar
 
            Nas próximas semanas o grupo se reunia várias vezes por semana em uma mesa do canto, depois da refeição noturna e também nos finais de semana. Elaboraram um rascunho do repulamento, fizeram cópias mimeografadas que foram distribuídas para receber críticas e sugestões. Depois de uma semana fizeram uma reunião e debateram as mudanças. As omissões foram incluídas, mudadas algumas regras até ficarem de acordo com a opinião da maioria. Alguém sugeriu a criação do clube de jogadores de sinuca, pebolim e futebol de botão. Manoel sugeriu que se realizasse o campeonato e depois, se corresse de acordo com o esperado, poderiam pensar na criação de uma associação ou clube.
 
            O novo regulamento foi multiplicado, dessa vez em stencil a tinta para ficar mais nítido. Com a divulgação da participação feminina no campeonato, uma porção de esposas dos frequentadores começou a comparecer para jogar algumas partidas. Assim poderiam competir em melhores condições. Muitas tinham aprendido a manejar o taco em mesas particulares, havendo entre elas quem fizesse inveja a muitos marmanjos. As duplas foram formadas, havendo em alguns casos um reserva. Ele seria o jogador substituto do titular em caso de necessidade de se ausentar para atender ao seu trabalho. As inscrições foram feitas, chegando a um total de 40 duplas masculinas e 25 femininas.
 
            Haveria também competição individual, com exceção do pebolim, onde sempre é necessário o jogo em dupla. Os inscritos no futebol de botão escolhiam o clube de sua preferência ou, na impossibilidade de fazer isso, inventavam um nome. Era permitido trazer seu próprio jogo de botões, desde que estivessem dentro das dimensões habituais. Assim as cores seriam as escolhidas pelos jogadores. As partidas seriam em turno e returno, todos contra todos. Cada partida valeria três pontos e em caso de empate cada competidor ou equipe ganharia um ponto. Os melhores classificados, metade dos inscritos inicialmente, disputariam uma segunda fase em forma de eliminatória. Dessa forma continuariam até restarem quatro competidores. Um quadrangular final determinaria os primeiros classificados. Para não criar tumulto as partidas de sinuca, pebolim e futebol de botão seriam realizadas em regime alternado.
 
            Isso permitiria a formação de grupos de torcedores e até mesmo a participação da mesma pessoa em mais de uma modalidade. A previsão era concluir as três competições no final do mês de julho. Manoel analisou, junto com a esposa, que isso garantiria um movimento forte durante todos esses meses. Por outro lado haveria atração de novos frequentadores, interessados em participar de futuros campeonatos. Talvez até surgisse uma liga de associações entre os diversos bairros. Seria um intercâmbio interessante, uma diversão sadia e de baixo custo para os participantes. Antes de iniciar as disputas Manoel procurou as autoridades policiais em busca de orientação sobre o aspecto legal diante da lei. O delegado responsável sugeriu a obtenção de um alvará suplementar. Isso garantiria o respaldo diante das autoridades em caso de ocorrer algum distúrbio.
 
            Nesse meio tempo o marceneiro trouxe o rascunho do projeto para confecção do móvel. Explicou detalhadamente, Eduarda deu sugestões de pequenas mudanças, que acabaram por deixar o resultado muito elegante. Discutiram o custo da execução e entraram em acordo de fazer isso em duas etapas. Era viável, sem prejuízo do efeito final. Eram na verdade duas partes que se harmonizavam, sem destoar ao ser instalada primeiro uma e depois complementada com a outra. Dessa maneira, as garrafas que semanalmente se acumulavam, teriam uma destinação adequada. O estabelecimento receberia um adorno complementar, em conformidade com sua atividade.
 
            Com o campeonato em desenvolvimento, o tempo passava quase sem ser percebido. Todos os dias eram de movimento intenso. Os policiais da delegacia próxima costumavam vistoriar o local com relativa frequência, pois os torcedores que assistiam às competições, provocavam um alarido relativamente forte. Havia um limite de horário, devido à existência nas proximidades de residências. Isso impedia que as competições se estendessem até horas mais avançadas. Somente nos finais de semana havia uma tolerância, permitindo avançar um pouco além das 24 horas. Nos dias úteis, o ruído tinha que ser limitado após as 22 horas. Se houvesse reclamações dos moradores, poderia sofrer sanções, inclusive com cancelamento de alvará. Era comum fechar as portas, deixando apenas uma porta lateral aberta. Assim evitava-se o espalhamento do som para a vizinhança. Mesmo assim, era preciso cuidado.
 
            O consumo de bebidas e alimentos no período de realização dos jogos era sempre elevado. Isso refletia no conteúdo da caixa registradora ao final de cada dia. Eduarda estava fazendo as aulas de Auto Escola, para obtenção de sua carta de motorista. O opala de Manoel estava ficando pequeno para as necessidades de transportar as mercadorias necessárias ao abastecimento. Estava pensando seriamente em adquirir uma pequena caminhonete, talvez uma kombi. Ela oferecia a vantagem de ser espaçosa e, ao mesmo tempo, proteger as mercadorias do sol e chuva. Não havia necessidade de que fosse nova, uma vez que seria empregada em percursos curtos. Para viagens dispunha do automóvel.
 
            Procurou nas agências de revenda e encontrou uma com três anos de uso, revisada e com garantia por três meses. A grande vantagem era uma significativa redução no preço inicial. Fez o negócio com uma entrada de 30%, financiando o restante em 24 meses. Os juros eram vantajosos, tornando a aquisição à vista menos atraente. Por sorte havia lugar suficiente na garagem para os dois veículos. Não precisariam deixar nem um nem outro no relento. Em poucos dias Eduarda estaria fazendo o exame no Detran. Se fosse aprovada logo teria a CNH e poderia usar, tanto um quanto o outro veículo, para buscar mercadorias necessárias.
 
            Quando precisasse atender aos pais em alguma emergência poderia se desincumbir do encargo sem problemas. Em momentos de viagem mais longa, poderiam revezar na direção e percorrer maior distância sem se cansarem além do recomendado. Ela estava animada com o aprendizado. Havia pensado em obter sua habilitação, mas não havendo em casa dos pais um veículo, o assunto havia ficado para mais tarde. Não era prioridade no momento. O casal se entendia muito bem em todos os sentidos. Pareciam feitos um para o outro. As divergências de opinião eram resolvidas com diálogo. A diferença de idade, em vez de dificultar o entendimento, parecia favorecer. Eduarda estava amadurecida o suficiente para ter ultrapassado a impetuosidade da juventude, enquanto Manoel for a temperado pelos contratempos da vida. Aprendera com os tropeços do passado.
 
            Em meados de abril, durante a semana santa, deu o ar da graça no bar nosso já conhecido ToshyroSakaguti. Havia conhecido o antigo dono e passara um tempo longo desde sua última passagem por ali. O trabalho o havia mantido longe de alguns prazeres que lhe deveras agradáveis. Um deles era jogar sinuca e quando viu a placa, logo lembrou que antes não havia ali mesas de jogo. Apenas o bar e um restaurante bem limitado. A reforma deixara o local com aparência mais ampla, um visual mais atraente. Entrou e foi assistir aos jogos. Quando quis participar de um jogo ficou sabendo da realização nessa época de jogos do campeonato. No dia seguinte as mesas poderiam ser usadas pelos apreciadores, pois seria dia de jogos de pebolim e futebol de botão.
 
            Procurou pelo novo proprietário e se apresentou. Não lhe passou despercebida a presença de garrafas variadas de cachaça. Várias dentre elas lhe eram conhecidas do tempo em que viajara constantemente a trabalho pela indústria agroquímica. Indagou como haviam vindo parar ali e soube serem presente de frequentadores ao retornar de viagens pelas regiões em que eram comercializadas. Em instantes entabularam animada conversação. Ele estava se aproximando da aposentadoria. Ainda tinha alguns anos pela frente, porém agora não mais tinha necessidadedesde viajar constantemente. Igualmente soube do acidente que resultara na aposentadoria de Manoel. O risco havia sido alto e a sorte for a grande em escapar com vida.
 
            Eduarda veio ficar algum tempo com o marido e conheceu também o novo freguês. Também Toshiro casara com idade mais avançada. Estava com os filhos em idade de iniciar a vida escolar e pre-escolar. Era um homem sempre sorridente e logo combinaram se encontrar em momentos de folga. Toshiro ainda morava no bairro da Liberdade, não longe de onde nascera. A família inteira estava naquela região, convivendo com os demais descendentes de imigrantes nipônicos. Era sem dúvida a maior concentração de imigrantes e seus descendentes de japoneses for a do Japão. Até mesmo os nomes de lojas eram em grande parte com letreiros em estilo japonês. As cores da decoração das ruas, os edifícios eram fortes e alegres, bem no estilo oriental. Combinaram se visitar nos meses vindouros. Toshiro estava fixo em São Paulo, em função burocrática. Tinha sob sua responsabilidade uma grande equipe de trabalho.
 
            Quando o mês de julho estava chegando ao final, os vários grupos de competidores estavam reduzidos a poucos remanescentes. Haviam vencido seus adversários nas diferentes modalidades de competição e iriam disputar os troféus da competição. Eram confeccionados com símbolos das competições em disputa. Além dos três primeiros colocados, haveria também o prêmio do goleador, melhor goleiro, taco de ouro, bola de ouro para os destaques nas diversas habilidades. Os prêmios estavam expostos em um armário envidraçado. Eram cobiçados por muita gene. Um artífice havia se esmeradona elaboração dos mesmos, uma vez que esse tipo de competição não era habitual. Os modelos iriam servir de inspiração para a produção de outras variações posteriores. Isso fizera o custo baixar e permitir que o dinheiro arrecadado cobrisse a despesa.
(http://www.elhombre.com.br/sustentei-minha-familia-apostando-na-sinuca-diz-rui-chapeu/)
            Toshiro lamentou não ter vindo antes para participar da competição. Era bom na sinuca, como também no futebol de botão. Apesar disso era a primeira competição que via ser organizada nos moldes que haviam sido impressos no bairro. Iria se encarregar de difundir a ideia e talvez houvesse futuramente um campeonato a nível da cidade inteira. Quem sabe até mesmo da região metropolitana. Em várias ocasiões veio com a esposa e os filhos para assistir aos jogos finais das competições. Era emocionante ver os melhores jogadores se empenhando ao máximo para derrotar os adversários. Como não poderia haver mais de um primeiro lugar, havia nas regras um critério de desempate, caso assim acontecesse na averiguação final da pontuação. Daí o grande empenho em sair vencedor de qualquer forma.
Rui Chapeu com repórter da época.
 
            Os torcedores formavam verdadeiros grupos organizados, uns vaiando, outros aplaudindo alternadamente  quando era a vez do outro jogar. Nunca havia visto tamanho empenho em vencer uma partida de sinuca, uma disputa de pebolim ou um jogo de futebol de botão. Até jornalistas estavam presentes para registrar os lances mais emocionantes. Cada bola mandada para caçapa, cada gol, era celebrado com muitos vivas e urras. O bar se tornava uma miniatura do Morumbi ou Parque Antártica. Um mini Maracanã, e os atletas eram hábeis no manejo dos tacos ou dos bonecos da mesa de pebolim. Os melhores no manuseio dos botões, colocação dos goleiros, disposição dos defensores eram celebrados.
 
            Por final, ao anoitecer do último domingo de julho, a última partida de sinuca foi encerrada e todos os campeões, vices, terceiros colocados estavam determinados. Também os destaques nas variadas aptidões puderam ser identificados. Foi marcado o próximo domingo, primeiro do mês de agosto, para comemorar o encerramento e fazer a entrega dos troféus. O almoço seria especial e festivo. Os convites estavam prontos para serem vendidos com antecedência. Uma porcentagem ficaria para o grupo organizador, servindo de caixa para iniciar uma entidade encarregada de organizar outras competições similares. Não foi esquecido o lucro normal do estabelecimento que arcaria com o trabalho e despesas com fornecimento dos alimentos e bebidas.
 
Estavam analisando a criação uma associação de sinuca, pebolim e futebol de botão. Um jornalista presente ao evento final informada da existência de uma federação paulista de sinuca e bilhar. Poderiam se filiar depois de registrar o estatuto, cumprir as demais formalidades. Assim as próximas competições poderiam envolver outros salões, congregar maior número de participantes. Se a competição local for a acirrada, era fácil imaginar o efeito causado por uma concorrência com jogadores de outros bairros. O pebolim e futebol de botão ficariam includidos na associação e quando houvesse a formação de federações ou associações a nível metropolitano ou estadual cuidariam da respectiva filiação.
 
Gradativamente Eduarda assumira a parte administrativa da cozinha. Planejamento de novos pratos, estabelecimento de cardápios, análise de custos e formação de preços das refeições. Deixara por conta de Arminda e suas agora duas ajudantes o comando dos trabalhos junto ao fogão. Haviam decidido em comum acordo com Manoel tentar uma gravidez antes do final do primeiro ano de casados. Nem ela, muito menos ele, estavam em idade de protelar indefinidamente tal momento, pois apreciariam serem avós com idade de gozar esses momentos devidamente. Se se tornassem pais quando a idade de ser avós estivesse próxima, dificilemente teriam energias para curtir os netos.
 
O almoço foi longo e concorrido. Todos os convites haviam sido vendidos previamente, ficando muita gente querendo que se desse o famoso jeitinho. Só um, ou dois, e assim o número foi acrescido de pelo menos 20% do previsto inicialmente. Dessa forma os últimos comensais terminaram de almoçar quando já eram 15h do primeiro domingo do mês de agosto. No espaço das mesas de jogo havia sido preparado um pequeno palco para realizar a cerimônia de premiação dos vencedores das diversas modalidades de competição. Na hora da cerimônia, os jogos ficaram suspensos de modo a permitir a quem quisesse assistir a cada lance. Novamente jornalistas diversos estavam presentes, sem esquecer uma equipe de reportagem televisiva para divulgar o final do evento no programa Fantástico da Rede Globo naquela noite.
 
O estabelecimento esteve lotado de clientes a tarde inteira, em grande parte atraídos pelo evento, outros curiosos vindo bisbilhotar o que estava ocorrendo. Nas semanas seguintes os membros da comissão organizadora tiveram encontros com vários líderes de outros bairros, grupos de apreciadores dos jogos. O interesse era organizar competições semelhantes em suas regiões e a experiência serviria de balizador para formas de organização, estabelecimento de regras. O que deveria ser promovido, evitado e proibido. Toda experiência que pudessem levar era valiosa. Ninguém se furtou a compartilhar o aprendizado. Cada um que participara aprendera muito com essa atividade. Até mesmo para levar a outros setores da própria vida, em seus estabelecimentos comerciais de outras naturezas. Havia sempre algo a aproveitar.
 
Na semana depois da entrega dos trofeus, Eduarda presto o exame de motorista. No dia aprazado estava nervosa e apreensiva. O instrutor foi irrepreensível no seu comportamento. Encarou o momento como algo corriqueiro, procurando deixar a aluna em estado de mais uma aula. Dessa forma conseguiu fazer com que ela não hesitasse para por em prática o que aprendera nas horas de aulas práticas e teóricas. O exame psicotécnico e teórico havia sido feito com antecedência. Dessa forma, a aprovação no exame prático significaria a entrega do documento final após alguns dias depois do exame. Apesar de pequenos erros cometidos, ela se manteve dentro do limite estabelecido para determinar a reprovação.
 
Chegou em casa com o rosto sorridente. For a aprovada sem problemas. Em apenas alguns dias teria em mãos o documento tão esperado. Não precisaria esperar por Manoel para usar o carro e em caso de necessidade prestar ajuda a ele mesmo. Era uma complementação de sua cidadania. Sentia ser desse momento em diante um pouco mais cidadã do que havia sido até ali. Deu um abraço no marido, seguido de um beijo carinhoso. Para completar faltaria apenas confirmar o que vinha suspeitando há alguns dias. Sua menstruação estava com alguns dias de atraso, mas aguardava sentir o primeiro enjoo para então dar ao marido a notícia da provável novidade. Queria lhe fazer uma surpresa.
 
Antes de receber sua CNH, teve a sensação que aguardava. Ao escovar os dentes pela manhã sentiu uma leve ânsia, porém logo passou. Quando estava na cozinha preparando com Arminda a lista de compras necessárias para o final da semana, sentiu recrudescer o enjoo. Dessa vez não conseguiu evitar o vômito, precisando correr rapidamente para o lavabo existente ali perto. A cozinheira, dada sua experiência como mãe de cinco filhos, logo soube o que acontecia. Seguiu a patroa para lhe oferecer apoio se fosse necessário. Ao voltarem do lavabo e Eduarda sentar-se para recompor o ânimo, Manoel entrou ali justamente em busca da lista. Ao ver a esposa sentada e um pouco pálida, ficou alarmado. Diante de seu rosto que exprimia angústia, Arminda falou:
– Não é nada para preocupar. Isso deve passar logo e daqui a nove meses mais ou menos vai aparecer a surpresa.
– O que a senhora está dizendo, dona Arminda?
– Acho que vai gostar da surpresa, seu Manoel. Sua esposa está grávida e vai ter um filho. Essa é a novidade.
– Minha Nossa Senhora de Fátima! Quer dizer que eu vou ser pai? Isto é maravilhoso. Vou hoje mesmo contratar uma empregada para fazer o serviço de casa. Não quero minha mulher trabalhando durante a gravidez. Ela pode se machucar e eu jamais me perdoaria.
– Vai com calma seu Manoel. Gravidez não é doença. Eu mesma trabalhei até quase chegar a hora do parto dos meus filhos. Um pouco de atividade faz mais bem do que mal.
Ele se ajoelhou aos pés da esposa e de mãos postas como se fosse rezar, falou:
– O minhã querida! Tu me fazes o mais feliz dos homens. Deus seja louvado. Vou ligar para sua mãe e dar a noticia.
– Espera meu bem. Vamos dar essa notícia juntos. Hoje à noite, deixamos o Francisco e Arminda cuidando um pouco daqui. Vamos fazer uma visita a eles e contamos a novidade.
– Está bem. Se esta é sua vontade, está ótimo. Não a quero contrariar.
– Também não precisa me tratar como se agora eu fosse de vidro. Continuo sendo sua Eduarda de sempre, meu amor.
 
Terminaram de fazer a lista e os dois saíram juntos para fazer as compras. Manoel estava especialmente falante, parecia uma criança que ganhou brinquedo novo. Era preciso controlar sua loquacidade para não perder tempo com conversações necessárias. Nunca o vira tão falador. Com alguma dificuldade conseguiram voltar a tempo de estarem presentes ao início da hora do almoço. Esse momento era em geral crucial, pois muita gente havia tornado o estabelecimento seu ponto de encontro, o lugar de fazer sua refeição. Outros iam ali adquirir a refeição para levar até a casa e servir à família, toda ocupada em seus trabalhos ou atividades escolares.
 
Os primeiros a saber da novidade em curso foram Francisco, o outro garçom e a garçonete. Manoel não soubera se conter e lhes contara. Estava eufórico e até alguns clientes mais próximos ficaram sabendo do fato. Desse modo em pouco tempo o bairro inteiro estaria sabendo da novidade. Eduarda, mesmo ardendo de vontade de ligar para a mãe e lhe contar, manteve o controle e esperou pela visita daquela noite. Iria contar à sua família pessoalmente, sem usar de meios intermediários.
 
A noite custou a chegar e Manoel viu foi uma Eduarda especialmente radiante, pronta para sair. Foi com satisfação que embarcaram no automóvel para percorrer a distância até a casa dos sogros. Ao seu lado a esposa, recostou languidamente a cabeça em seu ombro e ele dirigiu lentamente. Não queria alterar o prazer de sentir aquele momento. Haviam começado em dois há alguns meses e nesse momento existia um minúsculo conjunto de células em rápido crescimento dentro do corpo de Eduarda. Dali nasceria em alguns meses um novo ser, fruto do amor que sentiam um pelo outro. Demoraram bem mais tempo na viagem, mas a ele pareceu pouco o tempo.
 
Os pais estranharam a visita num dia de semana, um pouco for a do habitual. Mesmo assim aguardaram para saber o que os levara ali naquele momento. Mãe sintonizada com os filhos, logo se liga nas alterações. Dessa forma Manoel ouviu a sogra falar logo depois:
– O que vocês dois estão escondendo?
– Nada minhã sogra.
– Fale minhã filha. Teu marido está querendo me enganar. O que está acontecendo?
– A senhora é adivinha, mãe?
– Vocês não iriam vir aqui sem ter um motivo, na sexta feira á noite, logo quando o movimento no bar é forte. Pode desembuxar.
– Não dá para enganar a senhora. Então lá vai a novidade. Vocês vão ser avós. Senti os primeiros enjoos hoje e minhã menstruação está atrasada.
– Está vendo! Eu sabia que aí tinha coisa.
– Bem, isso quer dizer que vou ser vovô outra vez. O pior vai ser dormir com a avó depois. Hahahahahahaha, falou o pai de Eduarda.
– Sim e eu preciso dormir com o vovô. Também tenho do direito de reclamar.
 
O casal não demorou pois precisariam dar apoio aos servidores. Logo se despediam para retornar e assim chegaram a tempo de socorrer Francisco e os demais. Eduarda subiu para descansar. Os primeiros dias de gestação estavam provocando alterações inesperadas em seu corpo e sentia um leve cansaço, apesar de não ter feito esforço considerável durante o dia. Ao fechar próximo da meia noite, Manoel a encontrou dormindo aconchegada na cama, em posição semelhante a fetal. Parecia querer abraçar o filho ainda minúsculo em seu seio. Deitou-se suavemente e a cobriu com coberta mais adequada. Parecia tão frágil naquela posição e provavelmente sentiria frio de madrugada. Figou um longo momento acordado, pensamentos voltados para o céu, intercedendo pelo desenvolvimento satisfatório do embrião que se formava.
 
Já o imaginava em seus braços, dizendo mamãe, papai e gatinhando pela casa. Depois os primeiros passos, passeios no parque, vendo filmes infantis na televisão. Um munto inteiro diferente de seu tempo de criança. Vivera o auge de seus anos infantis e se aproximara da puberdade enquanto na Europa rugia o furor da guerra. A cada passo temiam um bombardeio, uma agressão inesperada, malgrado a aparente neutralidade do regime nacional. Seu filho, ou filha, iria nascer sob os auspícios de um governo provavelmente civil ou pelo menos próximo disso, depois de longos anos de regime militar. Os ventos democráticos sopravam no país que adotara por pátria, e onde crescer economicamente, tornando-se hoje um pequeno e próspero comerciante.
Queria dar ao ser que iria vir ao mundo, uma condição mais promissora do que tivera em sua meninice. Adotara aqui a devoção a Nossa Senhora Aparecida e prometeu ali naquele momento levar a família ao santuário depois do nascimento se tudo ocorresse a contento. Sabia que Eduarda concordaria, pois era muito devota, inclusive mantinha uma pequena imagem da santa sobre a penteadeira, ao lado de seus artigos de toucador. 

Um japonês especialista em cachaça – Capítulo X

 



Um bar movimentado em São Paulo.
Mesa futebol de botão com pés dobráveis.
Mesa de pebolim dobrável.

10. Estabelecimento 

inaugurado.

Pontualmente às 14 h, Manoel e Francisco destrancaram as amplas portas da frente do estabelecimento. Do lado de fora era audível um vozerio levemente alterado. Estavam ansiosos por ver as novidades que o novo proprietario lhes iria apresentar. Haviam estendido do lado interno da porta principal uma vistosa fita de cetim que seria cortada antes de dar acesso à pequena multidão que aguardava do lado de fora. Moveram primeiramente as folhas das portas de vidro em armação de madeira. Depois levantaram a pesada porta de aço que fechava o recinto.
 
Quando terminaram de abrir, os ansiosos fregueses ameaçaram invadir instantaneamente o ambiente, porém um fotógrafo estava postado do lado de fora e falou bem alto:
– Esperem aí gente! Temos que tirar uma foto do seu Manoel cortando a fita de inauguração. Chame a namorada que está na cozinha para fazer parte desse momento.
– Corra á Francisco, chame a Eduarda para vir aqui.
 
Francisco foi logo e Eduarda, vestindo avental, veio meio a contragosto. Antes de se aproximar retirou o avental e a touca que trazia sobre os cabelos para não parecer uma doméstica em serviço. Manoel fez ela segurar a tesoura e cortar a fita, enquanto o fotógrafo tirava sucessivas imagens do evento. Uma vez cortada a fita, Manoel falou:
– Convido a todos para tomarem uma taça de champanha comigo e com minhã cabrocha Eduarda.
– Viva o Manoel! Viva a Eduarda! – gritou Francisco.
O povo respondeu: Viva!


Em instantes o interior se encheu de gente, que se espalhou por todos os cantos. Alguns mais afoitos logo estavam inspecionando as mesas de sinuca, pebolim e máquinas de fliperama. Havia ali diversão para diversos gostos, Francisco e Manoel dedicaram os próximos minutos a remover as rolhas de uma porção de garrafas de champanha, bem gelado. As taças foram distribuídas e a bebida nelas despejada. Quando todos estavam com suas taças, o freguês mais antigo falou:
 
– Um brinde ao sucesso do novo Bar, sinuca do Portuga.
 
Todos ergueram as taças, os cristais tilintaram e logo todos bebiam um gole de suas taças. Ao se esvaziarem, havia mais bebida para ser tomada. O que for a aberto deveria ser consumido. Não havia como tornar a fechar. Nem foi preciso, pois não tardou a ficarem vazias todas as garrafas. Houve que quisesse mais e Manoel disse que havia terminado. Previra a presença de menos pessoas do que vieram de fato.
 
Nesses momento os salgadinhos foram colocados em diversos pontos sobre as mesas do restaurante e também no balcão. Havia pequenos pastéis, empadinhas, coxinhas, porções de queijo e salame, pãezinhos com pate, azeitonas e outros quitutes. Diante da pequena multidão, Eduarda fez sinal ao noivo para lhe dizer que, talvez fosse conveniente providenciar mais alguma coisa para servir, pois viera bem mais gente do que o esperado. Ele decidiu que o que havia providenciado era suficiente. Ao terminar, estaria terminado e quem quisesse permanecer, a partir dali passaria a pagar para consumir. Não prometera um “forra bucho” na inauguração, apenas um coquetel e isso for a servido.
 
De fato. Em poucos minutos as bandejas estavam vazias e garrafas de refrigerante também estavam espalhadas por toda parte. Começaram a recolher tudo e aqueles que haviam vindo apenas pela comida gratuita começaram a retirar-se. No entanto mais da metade do povo permaneceu ali. Alguns organizaram na hora uma competição de sinuca, outro grupo formou duplas de pebolim e também vieram comprar fichas para as máquinas de fliperama. Em poucos minutos o recinto se encheu de conversas animadas ao redor das mesas de sinuca. As de pebolim estavam rodeadas por um grupo menor, porém mais barulhento e as três máquinas de fliperama espalhavam os seus sons por todos os lados.
Jogando futebol de botão.


Em pouco tempo uma grande quantidade de cerveja havia sido consumida, junto com travessas e mais travessas de salgadinhos, agora em regime de comércio. As porções eram anotadas para as mesas, bem como as bebidas. Também apareceram outros querendo jogar baralho e, verificando o alvará, Manoel constatou que não haveria problema, desde que não se apostasse somas elevadas. Tinha um pacote de feijão, cujos grãos serviriam de fichas para o carteado e alguém trouxe os maços de baralho. Dessa forma, a tarde e noite foram movimentadíssimas.
 
Antes do anoitecer houve que viesse perguntar se haveria comida para o jantar, pois não queriam se retirar. Iriam aproveitar esse dia, com preço de inauguração, para matar a vontade de jogar sinuca, ali perto de casa, coisa que até aquele momento tinham que fazer bem longe de casa. Em determinado momento uma guarnição de polícia militar se fez presente para super visionar o andamento de tudo e Manoel os convidou a comerem um salgadinho e tomar um refrigerante. Havia oferecido uma cerveja, mas o comandante recusara. Não era permitido tomar bebidas alcoólicas em serviço. Depois de comerem e tomarem seu refrigerante, deram uma volta por todo recinto, verificando que nada estava fora do normal e se retiraram.
 
Foi preciso providenciar algumas coisas de que Manoel se encarregou, para preparar alguns pratos rápidos para atender aos fregueses. Por sorte encontrou um mercadinho aberto onde comprou carne moída, macarrão, massa de tomate, salada e mais pequenos itens que havia esquecido. Estava tendo um dia deveras cansativo, na inauguração do estabelecimento. O fotógrafo tirara um bom número de fotos para depois poder escolher as melhores. Faria um álbum para guardar e mandaria algumas mais significativas para a mãe e os irmãos. Assim saberiam que ele estava se encaminhando para um futuro promissor.
Mesa de pebolim.


Os fregueses haviam aguardado ansiosos pela reinauguração e agora, pareciam querer ficar ali. Até dava impressão de que temiam sair e ao voltar tudo ter retornado ao que era antes. Os mais entusiasmados vieram um a um congratular-se com Manoel pelo bom gosto na escolha das cores de pintura, os modelos das mesas. Até os mais jovens que se divertiam nas máquinas de fliperama, gastando fichas e mais fichas para superar a pontuação dos colegas. Em determinado momento foi preciso chamar atenção de alguns mais entusiasmados que se punham a bater nas laterais das máquinas. Isso poderia causar danos e o concerto significaria prejuízo. Havia custo e tinha que pensar no tempo em que ela ficaria parada sem uso.
 
            Deu graças a Deus por ter mantido no serviço Francisco da Silva. Era um homem de meia idade, incansável no servir aos fregueses, sempre sorridente e alegre. Nunca se ouvia de seus lábios uma palavra mais rude, uma grosseria. Era importante preservar um servidor deste naipe. Seria seu braço direito no atendimento, em especial nos dias de feriado, finais de semana, começo da noite. Eram estas as horas que os homens aproveitavam para espairecer, jogar conversa fora, tomar uma geladinha, um conhaque ou caninha.
 
Não tardou muito e Manoel sentiu um vazio em sua vida. Conversando com Alfredo durante um intervalo de menos movimento, comentou com ele sua solidão. Após pensar por um instante, o parceiro lhe disse:
– Está na hora de colocar uma mulher na casa. Isto que o senhor está sentindo é solidão, falta de companhia feminina. Eu é que não fico sem minha Esmeralda, de jeito nenhum. Sempre que posso levo uma flor, um mimo qualquer para agradar. Ajudo no serviço da casa, cuido das crianças quando posso.
– Estou noivo e com casamento combinado para o começo, mas tardar metade do ano que vem. Pena que eu acho que já estou passado da idade. Estou chegando nos cinquenta.
            – De maneira nenhuma. Tem mulher que gosta de homem um pouco mais velho. Não reparou no jeito de Eduarda olhar para o senhor? Ela está mesmo apaixonada. Disso pode ter certeza.  
– Sabes que tu tens razão. Vou mesmo dar um jeito nisso. Quem sabe ainda posso ter uns pequeninos. Sabes como chamamos os pequeninos lá na terrinha?
– E como é que chamam as crianças?
– Lá em Portugal as crianças são os “putos”. Isso mesmo que você está ouvindo. Putos e pronto. Aqui é que essa palavra tem outro significado.
– Ora essa. Se eu chegasse lá e ouvisse alguém falar isso dos filhos, ia ficar horrorizado.
– Sabes o pão que aqui chamam “francês”? Em Portugal chamamos isso de “cacetinho”. A baguete, aquele pão francês comprido, é um cacetão.
– Sinceramente, eu ia ficar meio perdido nos primeiros tempos por lá, até me acostumar com esse jeito de falar.
– Isso é coisa fácil. Eu quando vim para cá passei por isso. Várias vezes quase apanhei na rua quando ia comprar pão, ou então quando falava com alguém que tinha crianças pequenas. Precisei acostumar depressa ou teria passado maus bocados.
– Com toda certeza. O povo daqui deve achar estranhíssimo essas formas de usar as palavras. Não ficaria nada admirado se me contasse que tinha apanhado por isso.
– Depois da primeira promessa eu aprendi depressa. Depois da primeira visita na padaria eu aprendi o nome do pão também.
– Pudera. Se fosse mulher a atender então iria ser um pouco pior.
– Mas e quem tu achas que era? A filha do dono e eu quase entrei na lenha, igual cachorro magro.
– Hoje já está bem acostumado com a vida aqui. Até se tornou proprietário de um estabelecimento, o que eu, que nasci aqui, e trabalhando a vida toda não consegui.
– Passei muito apuro, mas nunca deixei de guardar um bocadinho do que ganhava todo mês. Nem que fosse preciso comer pão seco algumas vezes.
– Mas isso também já é exagero.
– Pode ser, mas foi assim que consegui juntar capital para investir na bolsa de valores e ganhei bastante com ações. Fiz vários cursos no SENAI e isso me deu um cargo mais alto, onde ganhava mais. Agora no final ocorreu um acidente e perdi esse dedo da mão direita, além de um pedaço do pé esquerdo.
– Então é isso que o senhor manca um pouco?
– Que dúvida! É pouca coisa mas não consigo dar os passos normalmente por falta da parte da frente do pé esquerdo.
– E lhe pagaram uma indenização?
– Uma indenização e me aposentaram. Por isso eu consegui comprar isso aqui. Se não acontecesse isso eu ainda estaria trabalhando na indústria por pelo menos  10 anos mais.
– Até que não faltava mais muito. A maior parte já tinha passado. Difícil deve ser para quem começa no primeiro dia e pensa na aposentadoria, depois de 35 anos de trabalho.
– Eu nem me importaria. Mas já que aconteceu, que seja feita a vontade de Deus.
 
O dia da inauguração terminara, quando era mais de meia noite. Manoel e Francisco limparam todas as mesas, conferiram as geladeiras e abasteceram com o que restava no depósito. O consume havia ultrapassado em muito a expectativa. Na cozinha as duas mulheres estavam mais que cansadas e Manoel se prontificou a levar os empregados e a noiva para casa, antes de ele mesmo se recolher para dormir. Iria ter problemas de acordar na manhã seguinte para abrir. Mas não queria que eles saíssem a procurar transporte naquela hora adiantada. Fecharam tudo e seguiram rapidamente, graças ao pouco movimento de veículos existente naquele momento. A maior demora foi chegar à casa de Eduarda, pois era mais longe.
Refrigeradores cheios de bebidas.
Cafeteira elétrica .


Isso levou Manoel a propor a antecipação do casamento para a época de dezembro ou janeiro. Ela prometeu analisar a questão e lhe daria resposta no dia seguinte. Teria que verificar também com os pais se estariam dispostos a concordar com a antecipação. Estavam se preparando para arcar com as despesas do vestido e uma participação nas despesas da festa. A antecipação significaria antecipar essas despesas e precisaria ver se isso não iria por em cheque as finanças da família.
 
Manoel voltou, estava com um pouco de fome. Pegou um pão com salame e queijo, um copo de vinho para acompanhar. Terminou de comer, tomou uma chuveirada rápida e foi dormir.

Na manhã seguinte, um pouco sonolento, às 7h e 20 minutos estava abrindo o estabelecimento. Nesse momento lhe ocorreu a hipótese de adotar segunda feira como dia de descanso. Foi então que lembro não ser segunda feira, pois ontem havia sido feriado. Estava na manhã de sábado e não tardou muito para aparecer um freguês que queria um pingado. Por sorte, antes de abrir, preparara café na cafeteria e pusera leite para esquentar. Estava preparado para servir ao freguês. Serviu um tanto de leite num copo e perguntou:
            – Assim está bom de leite?
            – Um bocadinho mais. Gosto de leite com café.
            – O amigo gosta de uma loira então.
            – Isso mesmo. Tem aí por acaso um pão com manteiga?
            – Vou providenciar já. O padeiro trouxe cedo e deixou na porta de entrada.
            – Isso é ótimo. Me veja um no capricho.
            Manoel serviu o café, colocou açúcar à disposição e foi até o armário onde estava guardado o pão, pegou a manteiga e preparou o que o freguês havia pedido. Colocou o pão em um prato pequeno, junto com uma faca e também um guardanapo. Deixou sobre o balcão diante dele e foi até o caixa conferir se tinha a disposição troco para dar na hora de acertar a conta. O freguês não estivera na inauguração no dia anterior. Chegara de viagem tarde da noite e estava indo até o escritório da fábrica para a qual trabalhava para fazer o relatório da viagem. Não tinha tempo de esperar a esposa ou filhas levantarem para preparar seu desjejum. Deu graças a Deus por encontrar o estabelecimento de Manoel reaberto.
            Pagou a conta e saiu, prometendo voltar, especialmente quando tivesse tempo para disputar umas partidas de sinuca ou futebol de botão. Era amante dos dois esportes. Quando ele se retirou, em poucos minutos chegaram Francisco, Arminda e logo depois Eduarda. Os três traziam no rosto os sinais do dia anterior que for a cansativo. Manoel logo falou para eles:
            – Eu vou estabelecer a segunda feira como dia de descanso. Do contrário a gente não vai aguentar o rojão.
            – No tempo de seu Joaquim a gente revezava e ficava aberto todos os dias.
            – Se ficar pesado assim como ontem, só com mais gente trabalhando e isso preciso ver se cabe no orçamento.
            – Senhor quem mandá, patrão.
            – Olhem só a Eduarda e dona Arminda! Estão que é um trapo de cansaço. Vão chegar domingo à noite em frangalhos. Segunda feira é dia de folga para a gente descansar. Os fregueses vão entender com certeza.

            O dia prosseguiu com movimento médio, alguns antigos frequentadores voltaram para almoçar e elogiaram a comida da cozinheira ou cozinheiro. Logo após o almoço, deu um intervalo em que ficou quase vazio. Por volta das quatro horas os primeiros fregueses de sinuca, pebolim e fliperama começaram a chegar. Logo as garrafas de cerveja estavam saindo sucessivamente do refrigerador. Por sorte o caminhão da distribuidora de bebidas passara pela manha e refizera o estoque de bebidas, deixando tudo pronto para enfrentar o sábado e o domingo. Manoel fora até o armazém e mercado municipal, onde providenciara os legumes, saladas e outros produtos indispensáveis para a cozinha. Arminda e Eduarda haviam feito a lista das compras.

            Ao voltar estava com o porta malas do opala, além do banco traseiro, lotados com compras diversas. Francisco o ajudou prontamente a descarregar. Logo começaria o movimento do almoço e diversos fregueses antigos haviam passado pela porta, avisando que viriam avisar. Sábado era dia habitual de feijoada e ele dera essa informação às cozinheiras. Por sorte os ingredientes estavam à disposição na despensa e as duas prontamente haviam iniciado o preparo do prato principal e os acessórios. A couve, as laranjas e detalhes que Arminda gostava de usar para incrementar suas feijoadas, vieram nas compras trazidas por Manoel.

            O almoço foi concorrido e houve quem levasse uma porção para aquecer em casa na hora do jantar. Um fogareiro resolvia o problema e evitava a necessidade de sair de casa. Dessa forma não sobrou caroço de feijão na panela nem farofa, couve ou outra coisa. Por pouco não faltou. Eles mesmos tiveram que se contentar com um pouco de arroz, carne moída com molho e salada.

            Só houvera calmaria por umas duas horas, antes de iniciar o vai vem de gente entre as mesas. Logo havia alguns fregueses sentando às mesas e pediam para jantar. Por sorte havia sido preparada uma refeição leve para servir. Teriam que elaborar um cardápio à medida que fossem descobrindo os gostos e hábitos alimentares dos fregueses. O salão de refeições encheu de gente e novamente a comida ficou por pouco para faltar. Enquanto isso os jogadores consumiam porções e mais porções de salgados, junto com uma enorme quantidade de garrafas de cerveja. Um e outro pedia um refrigerante, ou então um conhaque, mas a maioria pedia mesmo era cerveja. Manoel ficou preocupado com o estoque. Temia ficar sem bebida no final do domingo. Talvez isso colocasse em prática sua ideia de fechar na segunda feira para descanso, mesmo sem querer.

            Em torno de 22 horas da noite, os policiais fizeram a habitual visita para conferir se estava tudo em ordem. O movimento já começara a diminuir e próximo da meia noite os últimos retardatários se retiravam.

            – Ufa! Foi mais um dia de movimento como nunca vi, – falou Francisco.
            – Oigalê! Isso está começando bem, minhã gente. Se continuar nessa toada, vou ser obrigado a contratar mais gente para dar conta do serviço. Só nós não seremos capazes de atender tudo.

            As cozinheiras também estavam exaustas. Concordaram com as palavras de Manoel. Se precisassem fazer essa jornada todos os dias que viessem, não aguentariam com certeza. Até aquele momento os noivos não havia tido tempo de conversar o dia inteiro. Quando não era ele, era ela ou os dois ocupados em fazer tudo que era necessário. Novamente partiram na viajem para casa e depois de deixar Arminda e Francisco os dois seguiram sozinhos. Ela falou:
            – Meus pais concordam com a antecipação do casamento. Não haverá problema. Podemos tratar dos detalhes.
            – Que ótimo, minhã querida. Uma coisa que vai melhorar é não precisar percorrer todo dia essa distância toda para ir e voltar.
            – Não podemos deixar para muito tarde com os documentos. Tanto na igreja como no civil. Costumam demorar um pouco e se formos fazer isso em cima da hora vão criar caso.
            – Certamente, certamente. Vamos tratar disso logo na semana que vem ou depois. Acho que então dá tempo de tudo ficar pronto.

            Ao chegarem ao portão ela deu nele um beijo rápido, desceu e entrou. Estava cansada a mais não poder e queria dormir logo. Ele pós o carro em movimento e iniciou a volta. Demorava bem meia hora para chegar e também estava mais que cansado. Nem teve tempo de sentir fome. Tomou um rápido banho e caiu na cama. Só levantou na manhã seguinte com o toque da campainha da porta. Era Francisco chegando e ele se apressou em descer. O empregado o encarou sorridente, caçoando de seu aspecto de cansaço:

            – Nossa Senhora patrão! Desse jeito não vai aguentar o trance.
            – E tu ainda pensas que não devemos fechar na segunda para descansar?
            – Se isso continuar, de fato não vamos ter outro jeito. Outra alternativa é ter mais gente para o serviço. Precisamos esperar uns dias para poder tirar uma base. Pode ser que em uma semana diminua e fique normal, como era antes.
            – Também pode ser que fique sempre mais forte. A reforma, as mesas de jogos e tudo isso, pode fazer aumentar o movimento no geral.
            – Isso seria ótimo. Crescer é uma coisa boa. Progredir já estava fora das ambições de seu Joaquim. Ele só pensava ultimamente em manter o movimento para vender o estabelecimento e voltar para Portugal.
            – Eu não tenho nada contra crescer. Ao contrário, vou ficar satisfeito se o bar ficar sempre movimentado.

            Nesse momento Eduarda, seguida de Arminda entraram. Cumprimentaram os dois e foram para a cozinha iniciar suas atividades. Tinham uma tarefa razoável a desempenhar até ao meio dia.
            Os dois tomaram café e depois se puseram a conferir as bebidas, colocar em ordem as mesas de jogos, limpar o salão para o almoço. Tudo precisava estar em perfeita ordem. Ainda estavam atarefados quando começaram a aparecer alguns fregueses para se divertir no fliperama. A notícia da existência das máquinas ali se espalhara igual rastilho de pólvora pela redondeza. Os garotos adolescentes de toda redondeza começaram a afluir ao estabelecimento e queriam uma chance de jogar uma partida com os companheiros. As três máquinas não pararam um instante durante toda manhã, desde pouco antes das nove horas. Sempre havia alguém a espera, com uma ficha na mão e logo iniciar o jogo. Os pontos se somavam no visor e a torcida era geral. Uns a favor outros contra, parecendo uma competição de grande importância.

            Em torno de onze e meia começaram a chegar os primeiros fregueses adultos. Alguns queriam apenas tomar um aperitivo e depois almoçar, outros tomar uma cerveja e jogar sinuca. De modo que logo o salão se encheu de movimento em todos os lugares. A comida começou a ser servida e o cheiro pareceu atrair os demais fregueses. Muitos moradores das redondezas decidiram dar às esposas um dia de folga, levando a família a almoçar no restaurante reaberto. Novamente foi preciso reforçar a quantidade de alimentos para atender a todos os fregueses. Houve que esperasse por mais de meia hora pela liberação de uma mesa para sentar, mas não desistiram.

            O almoço encerrou e começou a romaria de gente vindo em busca de diversão. Em determinado momento Manoel temeu que faltaria bebida, mas ficou por pouco. Seria preciso providenciar maior quantidade de vasilhame para suprir as necessidades que estavam se mostrando além da atual quantidade existente. Sem dúvida segunda feira seria dia de fechar e manter fechado para descansar. Era necessário refazer as forças para suportar a continuação do trabalho. Estava satisfeito, pois isso demonstrava que fizera um excelente negócio ao adquirir o estabelecimento e o imóvel em um único ato de compra.

            Dessa vez o movimento diminuiu mais cedo e por volta de 22h e 30 os últimos fregueses se retiravam. Trataram de fechar as portas e deixar tudo em ordem para o dia seguinte. Nesse momento Manoel anunciou que estavam dispensados do dia seguinte. Não abriria pois não aguentaria ficar em pé o dia inteiro ali atendendo os fregueses. Queria um tempo para dormir, descansar, ir ao banco depositar o dinheiro que enchia seu cofre naquele momento. Era temerário deixar tamanha soma de numerário no estabelecimento. Um assalto deixaria zerado seu caixa e o estoque. Talvez depois mudasse essa decisão, mas no momento era isso que tinha decidido e não iria mudar.

            Levou os três para suas casas e dessa vez demorou alguns minutos em casa de Eduarda. Os pais estavam se preparando para deitar e aproveitaram para falar e combinar os primeiros detalhes relativos ao casamento. Combinou com Eduarda irem na segunda feira a tarde tratar de encaminhar os documentos na igreja e no civil. Os pais concordaram em que isso era importante providenciar imediatamente. Qualquer atraso nos trâmites deixaria tudo atrapalhado sem tempo de remediar. Isso era desaconselhável.

            Voltou para o bar e estacionou seu carro na garagem, fechando logo depois a porta e conferindo se estava bem trancada. Subiu e logo depois deitava para dormir. A noite passou sem se dar conta e pela manhã ao acordar o sol já estava alto. Levantou, ouviu algumas vozes na porta falando e comentando o aviso que afixara ali de que essa segunda seria de descanso. Houve quem concordasse e aprovasse. Um ou dois discordavam pois um estabelecimento público tinha que estar aberto sempre, a espera dos fregueses. Nem se importou. Eles se acostumariam a isso.


Um japonês especialista em cachaça – Capítulo IX

 

Pátio de embarque aeroporto de Lisboa.

 

 

Aviões taxiando em Lisboa.

 

 

Fachada do aeroporto de Lisboa.

 

9. Mudança total de vida.
            Enquanto aguardava pelo crédito da indenização na conta, Manoel aproveitou para percorrer o bairro da Lapa, Mooca, Bom Retiro e adjacências em busca de algo para comprar. Encontrou vários estabelecimentos à venda. Em alguns casos logo percebia que estariam além de suas possibilidades, outros, embora aparentassem menor valor, os atuais donos pediam valores exorbitantes. Houve um momento em que pensou ser necessário procurar em regiões mais distantes, pois não poderia gastar todo seu capital apenas na compra. Haveria necessidade de dinheiro para algumas reformas, adaptações e para capital de giro.
 
            Decidiu fazer primeiro a viagem à terra natal e depois, com mais tempo, poderia procurar melhor. Dirigiu-se a uma agência de aviação. Iria por esse meio para não gastar tando tempo. Mesmo aposentado, tinha certa pressa em voltar e começar a tratar de seu próprio negócio. Enquanto aguardava o dia do embarque, passou casualmente por uma rua que ainda não havia visitado. Ali deparou-se com um estabelecimento a venda. Em certo momento viu diante de si uma placa que lhe chamou atenção. Lia-se:
           VENDE-SE ESTE ESTABELECIMENTO
 
Tratava-se de um bar, com algumas mesinhas onde eram servidas refeições caseiras. O proprietário, também imigrante da terrinha, já em idade avançada, tinha decidido terminar seus dias junto aos familiares remanescentes em Tras os Montes. Ele  aqui vivia sozinho. Nunca se casara, nem tivera envolvimento sentimental. Com o que tinha guardado no banco e com o valor da venda do bar, poderia custear as despesas para viver uma vida humilde e pacata junto aos irmãos e descendentes, com os quais se correspondia regularmente. Estavam a sua espera havia já algum tempo. Não se cansavam de insistir para que voltasse.
 
Iriam passar as tardes sentados nas praças, quando o tempo permitisse, quando não, ficariam se aquecendo junto à lareira. O que não iriam deixar de fazer, seriam boas caminhadas seguidas de intermináveis partidas de gamão, dominó, trilha e xadrez ou jogando conversa fora. Não queria terminar seus dias aqui, entre amigos, porém estranhos. Estava se sentindo cada vez mais solitário.
 
Manoel pensou um pouco, entrou e foi encontrar o patrício, de nome Joaquim José Lopes. Logo conversavam animadamente sobre negócios e ao final de duas horas haviam combinado o preço e o dia em que iriam a um cartório para formalizar o negócio. A vontade de voltar para a patria fez Joaquim pedir um preço razoável, dentro das possibilidades de Manoel. Isso facilitou a realização da comprá. Para comemorar, Joaquim foi buscar uma garrafa de vinho do Porto, guardada desde longa data. Não faria sentido transportar de volta para Portugal algo tão frágil. A ocasião merecia uma comemoração e nada melhor do que um bom vinho.
 
O excelente vinho acompanhou um prato de queijo e presunto picados, regados a azeite de oliva e orégano. Quando terminaram o vinho, se avizinhava a hora em que Joaquim devia, por enquanto, dar atenção aos seus fregueses. Estes, ao retornarem para casa vindo do trabalho, passavam por ali. Jogar um dedo de prosa fora com algum conhecido, saborear uma cerveja ou então uma branquinha. Depois seguiam seu caminho para casa. Tinham que descansar do dia de trabalho, pois na manhã seguinte a labuta recomeçava.
Avião decolando em Lisboa.

 

Area de check in aeroporto Lisboa.
 
Para Manoel, era imprescindível que os fregueses ficassem contentes, pois logo seria ele que estaria atrás do balcão. Já estava fazendo planos para algumas mudanças, mas isto ficaria para o dia em que estivesse no comando. Por ora apenas haviam acertado os detalhes do negócio. Faltava, no dia seguinte, logo pela manhã, irem ao cartório, formalizar o contrato e registrar os documentos de garantia de uma parte do valor a ser pago com algum prazo. Se fosse pagar o preço à vista, ficaria completamente sem capital de giro e não seria possível tocar o negócio. Era importante reservar um tanto de capital para as mudanças que iria fazer no bar e para garantir o estoque de bebidas e demais mercadorias que iria vender.
 
O representava uma grande vantagem era o fato de que adquirira não apenas o estabelecimento, mas o edifício, incluindo uma ampla moradia no andar superior. Com calma poderia fazer uma reforma em regra e teria onde residir com a future esposa. Voltou para casa assobiando alegremente, em outros momentos cantarolava canções que lhe vinham a memória, evocando os tempos de juventude e adolescência. Antes de ir para o quarto de pensão, passou pela casa de Eduarda e lhe contou as novidades. Queria partilhar com ela sua nova fase, uma vez que, ao que indicavam os acontecimentos, ela seria a companheira de seus dias no futuro.
 
Na manhã seguinte, quando as portas do cartório de registro civil abriram, lá estavam Joaquim e Manoel, ansiosos por terminar com as formalidades e concretizar o negócio. Joaquim estava radiante, pois tivera medo de que demorasse muito para encontrar um comprador para o bar. Manoel por outro lado, estava eufórico com a perspectiva de tornar-se dono de um estabelecimento que, conforme pudera verificar, era bem movimentado. Provavelmente não ficaria milionário, mas esta não era sua intenção. Queria sim ter seu canto para viver com sua cabrocha. Já poderia pedi-la em casamento. Tomou como exemplo o caso de Joaquim, que nunca se casara e levava hoje uma vida solitária e um tanto triste. Queria voltar para Portugal em busca de companhia, alguém com quem compartilhar a solidão.
 
Explicaram ao funcionário do cartório os detalhes do negócio e este, em pouco tempo redigira os termos do contrato, bem como os anexos como Notas Promissórias, integrantes do contrato, para garantir ao vendedor o recebimento dos valores que iriam ficar para trás. Quando tudo ficou pronto, antes de assinarem, dirigiram-se à agência da CEF que ficava perto e fizeram a transferência do dinheiro da conta de Manoel para Joaquim. Com o comprovante de pagamento em mãos, retornaram ao cartório e assinaram os documentos, que ficaram devidamente registrados nos livros do estabelecimento. Saíram dali, cada um com uma cópia do contrato nas mãos e voltaram para casa. Ao se despedirem, combinaram que na segunda feira seguinte iriam iniciar a transferência do estabelecimento.
 
Enquanto isto Manoel iria conversar com o contador, para se inteirar dos aspectos fiscais que o bar envolvia. Tinha necessidade de estar a par de todos os detalhes para não ser tomado de surpresa por alguma coisa de que não tinha conhecimento. Era necessário encaminhar a mudança da razão social para o seu nome. Isto demoraria algum tempo, pois envolvia órgãos públicos, onde geralmente é preciso ter muita paciência, voltar várias vezes para levar mais algum documento que ficara faltando e por aí a fora. Em se tratando de estabelecimento que vendia bebidas e alimentos, bem como a sua intenção de instalar numa área em desuso na parte do fundo mesas de sinuca, futebol de botão, pebolim, havia alguns requisitos que precisariam ser preenchidos para que fosse autorizado o funcionamento. Não queria arrumar confusões com as autoridades. Sua intenção era trabalhar com tudo nos devidos lugares. Licenças, autorizações, atestados e qualquer coisa exigida por lei.
 
            Tratou logo de encontrar um empreiteiro para realizar a reforma. Iria demolir uma parede, para anexar ao salão do bar a área em desuso. Tudo combinado como era de seu gosto, foi dado início à reforma. Quando os trabalhos estavam encaminhados, foi em busca de um fornecedor dos equipamentos que precisava. Não demorou a encontrar uma empresa que lhe alugaria as duas mesas de sinuca, uma de futebol de botão e perolem. Providenciou cadeiras novas, mesinhas para servir bebidas, conseguidas como propaganda da distribuidora de bebidas.
Vista aérea do aeroporto de Lisboa.
Em questão de duas semanas o senhor Joaquim se despediu de Manoel e lhe desejou sucesso com as modificações que estava realizando. Depois tomou um ônibus até o porto de Santos, onde embarcou em um navio de passageiros com destino à Europa. Bem que Manoel lhe havia sugerido viajar de avião. Tinha medo deste bicho que voava. Ele é que não iria arriscar a sua vida naquilo. Era preferível demorar mais alguns dias para chegar, mas não iria por os pés em um avião. Nem amarrado, posto em uma camisa de forças ele iria entrar num troço daqueles. Voasse quem quisesse. Ele iria com o bom e velho navio que era bem mais seguro.
 
Quando as obras ficassem prontas, Manoel estaria voltando de Portugal. Estavam em meados de julho e em dois dias embarcaria para Lisboa. Dali seguiria de trem ou ônibus, o que se apresentasse mais vantajoso. Avisara antes de partir aos familiares de sua próxima chegada. Aqui ficou tudo encaminhado para ficar pronto quando voltasse. O funcionário herdado entrou em férias e voltaria ao trabalho na reinauguração do estabelecimento. Uma cozinheira havia sido contatada para preparar as refeições a serem servidas aos freguêses. Todos eles lamentaram o período em que teriam necessidade de procurar outro lugar para fazer suas refeições. Quem gostou da ideia, foram os fregueses vespertinos e noturnos. Passariam uma temporada sem lugar para ir, mas no retorno haveria à sua disposição os jogos para se entreter.
 
Havia entre os fregueses e vizinhos apreciadores desse tipo de divertimento e antegozavam as horas passadas ali, disputando acaloradas partidas com os companheiros e amigos. Havia quem se preparasse para organizar campeonatos tanto de sinuca como de pebolim. Era ótimo o fato de a venda ter ocorrido entre dois patrícios portuguêses. Assim manteria boa parte das suas características, apreciadas pelos frequentadores.
 
A viagem foi rápida. Quando menos esperava descia no aeropoerto de Lisboa, indo depois buscar sua bagagem. Em pouco tempo estava embarcando em um ônibus que o levou para o Porto. Dali tomou um trem que o deixou em Ancede. Ao chegar, caminhou alegremente para a casa de seus irmãos, onde estava também a mãe. Morava em casas pouco distantes entre si. Em mais de trinta anos, essa era a segunda vez que voltava ali. A última for a poucos anos antes. A mãe ficou preocupada com o fato de ele estar mutilado. Pensou que teria dificuldades no futuro, mas ele lhe afiançou que não tinha com que se preocupar. Estava aposentado e deixara para trás um estabelecimento em reformas, junto com uma ampla moradia. Na volta pediria a namorada Eduarda em casamento e ficariam noivos.
 
Com essas notícias a velha senhora ficou mais serena. Seu estado de saúde era deveras preocupante. Fizera bem em vir visitá-la nesse momento, pois correria o risco de não ter outra ocasião para fazê-lo. Passou um mês visitando todos os lugares de sua infância, conhecidos ainda vivos, antigos colegas, sobrinhos já casados, formados em cursos universitários. Exerciam suas profissões ali mesmo em Ancede ou lugares próximos. A família se encaminhara para uma perspectiva de vida melhor do que nos tempos de sua infância e adolescência. Infelizmente quando se está a passeio, o tempo transcorre mais depressa do que em outras condições.
 
O dia do seu embarque de retorno se avizinhava. Passou dois dias inteiros junto à mãe, como querendo compensar os longos anos de separação. Sabia que, provavelmente essa seria a última vez que se viam. O momento da partida chegou e dos olhos da senhora lágrimas rolaram. Ela também sabia que ali estava se despedindo definitivamente do filho. Era o curso da vida e não poderia ser alterado. Desejou-lhe boa viagem e sucesso em seu empreendimento. Queria ter tido ocasião de lhe conhecer os filhos, mas isso estaria fora das possibilidades. Um sobriho, levou Manoel até Lisboa, aproveitando a necessidade de se deslocar para a capital. Iria participar de um curso de aperfeiçoamento em odontologia e assim poderia dar carona ao tio.
 
Foi uma viagem diferente. O veículo era usado e de menor potência que o seu Opala, deixado no Brasil. Ficou tentando comparer o desempenho do modelo europeu com o seu, de fabricação brasileira. O que ficava evidente era o menor consume de combustível, coisa que na Europa começava a ser levado em alta conta. A necessidade de importação de petróleo, aliada à alta do produto no mercado internacional, exigia o uso comedido do produto. Pensou consigo mesmo que, graças a Deus, o Brasil caminhava a passos largos em busca da autosuficiência na produção. O preço dos combustíveis ainda estava em nível razoável.
 
Foi deixado no aeroporto pelo sobrinho que logo depois foi para o local da realização do curso de que iria participar. Manoel procurou o balcão da Varig e ali fez os procedimentos necessários ao embarque para o Brasil. Teria que fazer uma baldeação em Marraquesh, até onde iria em uma aeronave menor. Estaria embarecando pouco antes do anoitecer e seria obrigado a uma espera de três a quatro horas antes de continuar para Recife, depois Rio de Janeiro, a seguir São Paulo.
Chegando a Congonhas.

 

Decolagem em Congonhas.

 

Patio de embarque em Congonhas.

 

Área de check in em Congonhas.
 
Ao chegar aqui, encontrou os trabalhos da reforma praticamente concluidos. Faltavam apenas detalhes de acabamento, a colocação da nova placa de identificação. Procurou pelo responsável para verificar a necessidade de algum material faltante. Este lhe informou que adquiria os materiais e os incluiria no valor final do serviço, junto com os comprovantes. Adiantou os valores e Manoel considerou que não havia exagero. Já previra a ororrência dessa situação. O automóvel estava a sua espera e para matar a vontade, deu um longo passeio com Eduarda por diversos bairros. Pararam em um restaurante para almoçar e depois foram ao cinema.
 
Ao sairem da sessão da tarde, anoitecia e foram até a casa da moça. Jantou ali, contando as novidades encontradas em Portugal. O novo governo estava se empenhando em melhorar as condições gerais da economia, o que se refletia na evolução positiva da qualidade de vida da população. O objetivo dos novos governantes era inserir o país no Mercado Comum Europeu. Isso facilitaria uma porção de coisas. Havia porém alguns requisitos a serem preenchidos para ser aceito nessa organização. Tanto a Espanha como Portugal estavam nessa busca. Era possível que o ingress na comunidade aconteceria quase simultaneamente. Eram por assim dizer o mesmo território.
 
Ao ir levara fotografias de seu carro, da namorada e também do estabelecimento adquirido. Haviam ficado com a mãe e os irmãos. De lá trouxera uma porção de rolos de filme para revelar aqui. Teria o que mostrar da terra natal. O interessante era que, mesmo tendo nascido lá, sentire-se estrangeiro ao chegar. Havia se abrasileirado de tal modo que até seu sotaque característico havia se modificado sensivelmente. Era agora quase imperceptível. Sua mãe percebera a diferença tão logo lhe pusera os olhos ao chegar. No final estava novamente falando igual aos familiares, coisa que demoraria poucos dias e teria perdido novamente.
 
Aproveitou e pediu naquele dia mesmo a mão de Eduarda ao pai, Isidoro. Fez o pedido sem delongas, prometendo levar a moça no dia seguinte a uma joalheria para comprar as alianças e um anel de noivado condizente. Ela ficou encantada com o pedido e aceitou prontamente. O pai não se opôs por ver que a filha estaria em boa companhia, apesar de o noivo já ter alguma idade. O que importante era se amarem e terem garantidas as condições de uma vida material minima para não sofrerem privações. Ele mesmo trabalhara a vida inteira e teria ainda alguns anos pela frente para se aposentar. Nunca tivera sobras, mas também não faltara o suficiente para alimentar, vestir e educar os filhos.
 
A mãe sempre trabalhara, ficando inativa somente nos períodos de gestação avançada. Mesmo com os filhos pequenos, deixara-os aos cuidados da avó e retomara o trabalho em uma pequena indústria. Em mais algum tempo poderia também se aposentar, de forma que teriam uma velhice sem grandes sobressaltos. Bastaria que não os atingisse nenhuma doença grave e poderiam aproveitar os anos da velhice para gozar um pouco a vida. Isso era algo bem próximo de um ideal, nem sempre ao alcance de todas as pessoas. Para comemorar o fato de a filha caçula ser pedida em casamento, foi aberta uma garrafa de vinho. Era produção brasileira, mas de boa qualidade.
 
Eduarda perguntou se haveria quem prepararia as refeições no estabelecimento ao ser reaberto. Manoel falou que havia mantido contato com uma senhora para ocupar essa vaga, mas que poderia dispensar seus serviços se ela assim o desejasse. Ela lhe disse:
– Pensei em trabalhar junto com ela para aprender mais sobre cozinha. Depois eu assumiria o comando, quando nos casassemos.
– Tu sabes que nem havia pensado nisso. Mas é um excelente arranjá. Melhor não poderia ser, minhã querida.
– Vou pedir para sair da loja. Estou mesmo cansada de atender aqueles fregueses nada gentís que aparecem.
– Acho que freguêses chatos vamos ter também no restaurante/bar. Mas tu vais ficar na cozinha e não terás contato tão direto com os mesmos.
– Sempre gostei de cozinhar e vou me sentir melhor nesse trabalho que vendendo sapatos a filhinhos de papai, metidos a besta.
– Acho que esses não irão aparecer no nosso estabelecimento. Ali a maioria é trabalhador que mora na região e alguns amigos que vou chamar para a inauguração. Assim eles se encarregam de fazer propaganda.
– Tu não vais te arrepender das mesas de sinuca e pebolim? O pessoal começa a beber e pode se tornar inconveniente.
– Deixa comigo e com o Francisco. Ele sabe lidar com esse povo. Está no ramo faz muito tempo. Vai ser importante como auxiliar.
– Sorte ele ter ficado para trabalhar contigo.
– Eu não iria deixar ele sair. Fiz questão de pagar seu salário pelas férias que está tirando para garantir que fique comigo.
 
Era hora de voltar para seu lugar de hospedagem. Poderia providenciar nos próximos dias uma cama, colchão e guarda roupa para poder se mudar. Tinha agora onde morar, não precisaria mais pagar hospedagem. Em poucos dias inauguraria o estabelecimento e teria onde fazer as refeições. Planejava fazer a inauguração por ocasião do feriado de sete de setembro, data da independência. Haveria um clima festivo para receber os clientes no retorno. As comemorações se restringiriam ao primeiro dia, depois começariam a pagar por tudo que fosse consumido. Não era nenhum perdulário capaz de rasgar dinheiro. Queria dar as boas vindas aos antigos e novos fregueses, nada mais.
 
Ninguém vai para frente em um negócio, pondo-se a distribuir presentes, comida e bebida de graça. Estava jogando uma isca, para depois puxar o anzol e fisgar todos eles. Que eles fossem, além de fregueses, seus amigos, não havia problema nenhum. Apenas não iria misturar negócios com amizade. Faria valer o ditato: Amigos, amigos! Negócios a parte.
 
Com a aproximação da inauguração começou a receber perguntas do tipo:
– Quando vamos poder nos divertir no seu estabelecimento, Manoel?
– Estou louco para jogar umas partidas de sinuca aqui perto de casa. Não vou mais ter que andar longe para isso.
– Vou inaugurar no dia sete de setembro, na hora depois do almoço. Vou aproveitar para ter mais gente aqui, pois no dia seguinte é sábado e domingo. Assim posso ter três dias de bom movimento.
– Bem esparto você, Manoel. Estou torcendo para que o dia sete chegue depressa.
– Calma que ele chegá logo. Ainda preciso terminar algumas coisas.

 

 
Seguiam seu caminho e ele trabalhava na arrumação de tudo para o dia sete. Havia instalado sua residência no andar superior e estranhava o enorme espaço vazio. Ficou preocupado com a situação, pois a vida toda vivere sempre próximo de uma porção de gente. Houvera ocasião em que dividira o mesmo quarto com colegas nas pensões em que ficara hospedado. Precisava se acostumar à solidão. Em alguns meses estaria casando com Eduarda e iria dividir aquele espaço com ela. Aproveitaria a presença dela na cozinha para decidirem sobre as reformas e móbilia para o espaço que seria o lar deles. Esperava ter vários filhos, se Deus lhe concedesse essa alegria. Apenas lamentava não ter tido tempo de dar essa alegria à mãe.
 
O tempo correu célere e logo estava na véspera da inauguração. Todas as providências haviam sido tomadas. O estoque de bebidas, os ingredientes para a preparação dos salgados e comida estavam armazenados no depósito, ou na geladeira. Dormiu um sono agitado naquela noite, sonhando que havia esquecido alguma coisa imperdoável e se recriminava. Ao acordar percebia que tudo não passava de sonho. Na dúvida chegou a descer para conferir se estava tudo em ordem. Constatou pela enésima vez que nada faltava. Voltou para cama e dormiu. Algum tempo depois novamente o sonho do esquecimento, agora de um outro ítem. Acordou e percebeu que havia tido novo sonho. Esteve a ponto de voltar para conferir tudo novamente, mas desistiu. Estaria cansado ao extreme logo no dia da inauguração.
Máquina de fliperama.

 

Máquina de fliperama.
 
Receber os fregueses com festa, mas a fisionomia cansada e aparentando um estado de ânimo incompatível com o clima, não condizia com o que esperava que fosse. Decidiu tomar um copo de água com açúcar e dormir. Dessa vez conseguiu e dormiu até ser acordado pela campainha da porta de entrada. Era a cozinheira, Francisco e logo se juntou a eles Eduarda. Desceu rapidamente depois de se vestir, mesmo antes de lavar o rosto. Daria uma desculpa e depois tornaria a subir para terminar sua preparação matinal. Em minutos os três assumiram seus lugares e começaram a trabalhar. Havia uma porção de coisas a providenciar antes que chegasse a hora de abrir.
 
Fizeram sem demora um bule de café bem forte e aqueceram também leite. Eduarda foi até uma padaria nas proximidades e comprou alguns pães para acompanhar. Assim ao descer o aroma do café recém coado veio ao encontro de Manoel. Era isso mesmo que estava precisando para terminar de acordar, depois da noite mal dormida que tivera. Sentou-se e tomou uma xícara de café e passou manteiga em um pão, pondo-se a comer incontinenti. Francisco por sua vez estava arrumando as mesas, limpando tudo com esmero. Queria que tudo estivesse impecável no momento de abrir o estabelecimento. Manoel observou o vai vem do empregado e se congratulou pela ideia de mantê-lo a qualquer custo. Não saberia o que seria dele sem sua ajuda, pelo menos nos primeiros tempos. Era uma atividade completamente diferente em sua vida.
 
Ao terminar, perguntou à dona Arminda e Eduarda se havia alguma coisa faltando na cozinha e foi informado de que estava tudo perfeito. Se constatassem alguma coisa em falta, daria tempo de avisá-lo para providenciar. Deu um beijo na noiva, depois foi se juntar à Francisco no serviço de limpeza e arrumação do salão de jogos e refeições. Conferiu as bebidas colocadas no refrigerador para gelar. Seria imperdoável faltar cerveja gelada, gêlo para uma caipirinha, um uísque ou qualquer outro destilado que algum freguês decidisse pedir.
 
Depois de revisar tudo, com ajuda de Francisco que era mais experiente no assunto, sentou-se por um momento e olhou para as mesas, do restaurante, caminhou depois até a entrada do salão de jogos. Ali correu o olhar por sobre as mesas de sinuca, o pebolim, a um canto uma máquina de fliperama. Testou o funcionamento, colocando uma ficha na ranhura destinada a isso. Realizou uma jogada, coisa que fazia pela primeira vez e viu a bolinha ser lançada na região superior, tocar nos diversos sensores, produzindo um ruido característico. Enquanto a bolinha era lançada de um sensor contra o outro e ameaçava chegar à base, onde seria sua função usar os controles existentes na lateral para impedir a passagem. Se conseguisse lançar a bolinha de retorno à região superior, ela poderia repetir o processo, enquanto os pontos seriam acumulados no visor.
 
Na primeira tentativa conseguiu leva-la até uma lateral, de onde ela foi lançada para um ponto mais acima e dali retornou como um risco para a base. Tentou em vão evitar a passagem. Ela vinha com muita velocidade e foi cair no local apropriado. Dali seria transportada ao reiniciar o jogo colocando nova ficha. Tinha ao todo cinco bolinhas. Gastara por enquanto apenas a primeira e acabou se entretendo por alguns minutos até concluir que conseguira, para uma primeira tentativa, acumular uma soma de pontos considerável. Deixou a máquina e foi conferir as mesas de sinuca. As bolas estavam em seus lugares, os tacos colocados nos suportes e giz disponível em quantidade suficiente para muitas partidas que provavelmente seria jogadas ali, dentro de algumas horas.
 
O preço por partida no dia da inauguração estava pela metade do preço, para cativar os fregueses. Um antigo fregues lhe falara que estava tratando de organizar um campeonato e queria saber se Manoel lhe daria apoio na iniciativa. Ele concordara, apenas queria saber o que isso implicaria em seus compromissos financeiros. Precisaria apenas adquirir os troféus para os vencedores, segundos e terceiros colocados. Ele passara em uma loja especializada, fazendo um levantamento para saber quanto isso iria lhe custar. Observou que, se a quantidade de partidas jogadas alcançasse determinado número, poderia arcar com a despesa adicional, sem haver prejuízo. Havia que levar em consideração também o consume de bebidas.
 
Era hora de almoçarem para estarem prontos no momento de abrir. Isso ocorreria exatamente às 14 horas. Uma dupla de tocador de violão e sanfona haviam sido contratados para animar o ambiente nesse primeiro dia. Eles haviam chegado pouco antes e estavam a postos, os instrumentos afinados e em condições de uso. Também foram convidados a almoçar e eles não recusaram. Sabiam que depois teriam uma tarde inteira para tocar e alegrar os fregueses de Manoel. Em toda redondeza não se falava nada além da inauguração do bar/restaurante reformado. Do lado de for a começou a se formar uma aglomeração, uns conversando com os outros, olhando para os relógios à espera domomento de serem abertas as portas.
 
     Manoel não seria condescendente. Faria como prometido. Abriria exatamente no momento em que o relógio estivesse indicando 14 horas, do dia sete de setembro de 1983. Era algo que seria uma característica de seu estabelecimento a pontualidade no abrir. Não poderia garantir nada sobre a hora de fechar, pois dependeria da disposição dos freguêses em jogar e gastar seu dinheiro. Ele não seria bobo em dispensar alguém disposto a deixar seu dinheiro em sua caixa registradora. Esperava apenas que lhe deixassem algum tempo para dormir, pois precisaria estar em pé no dia seguinte pela manhã. A sorte era o ajudante Francisco que poderia ir dormir mais cedo e vir em seu auxílio pela manhã.
 

 

Para mais imagens de aeroportos, mesas de sinuca e máquinas de Fliperama, basta digitar o nome no google. Pode-se escolher os sites.
 
 
 

Um japonês especialista em cachaça – Capítulo VIII

Desfile japonês em São Paulo, bairro Liberdade.

 

Comércio de rua na Liberdade.

 

Imigrantes japoneses viajando de trem.

 

Imigrantes no abrigo de imigração em São Paulo.

 

Hospedagem no abrigo.

 

Kasato Maru, atracado no porto de Santos.

 

Cartaz de propaganda japonesa emigração.

 

8. Eis nosso
 
 japonês.
 
 
            O Brasil, desde as últimas décadas do segundo império, sofria com a falta de mão de obra para o trabalho na agricultura. Acordos internacionais restringiram a vinda de escravos da África e aqui leis restritivas como: A Lei dos Sexagenários, Lei do ventre livre, diminuiam a força de trabalho. Por outro lado a necessidade de expansão da produção exigia mais braços para o trabalho. O recurso foi estimular a imigração. Os europeus eram estimulados a virem ocupar o espaço livre, especialmente italianos, alemães, poloneses e outros. Existia uma restrição com relação aos asiáticos, por serem considerados pelos ocidentais como uma raça inferior e com religião totalmente diversa.
            O Japão abriu-se para o comércio mundial depois de 1846, com o término do Xogunato Tokugawa. Foram 265 anos de isolamento, terminando com uma agricultura limitada a produzir apenas o suficiente para o consumo, sem permitir a formação de estoques para enfrentar catástrofes. Iniciou-se uma rápida mecanização da agricultura, provocando o desemprego ou endividamento rual. Os proprietários insolventes perdiam suas terras para os credores. Isso gerou um aumento na população urbana, onde não existia emprego para tantos braços.  A solução era negociar com países com território capaz de acolher o excedente populacional.
            Houve o início de negociações com o Brasil nos anos 60/70, porém somente em 1895 foi assinado um acordo nesse sentido. Houve inclusive a lei nº 528 de 1890, assinada por Floriano Peixoto, proibindo a imigração de asiáticos. Um decreto sob o número 97, posterior, tornou essa lei sem efeito. O primeiro embarque foi suspenso na véspera, devido à queda internacional nos preços do café, motivada por uma superssafra ocorrida naqueles anos. Situação essa que persistiu até 1906. Em 1907 um pequeno grupo formado por profissionais liberais como juizes, advogados e outros, estabeleceu-se em território do Estado do Rio de Janeiro. A inexperiência, falta de apoio e aparente esgotamento do solo, levou o projeto ao fracasso.
Imigrantes desembarcando em Santos.

 

Passageiros do Kasato Maru no porto de Santos (desembarque)
 
            Em 1908 o navio Kosato Maru, desembarcou 781 imigrantes no porto de Santos. Era o primeiro contingente significativo de trabalhadores vindos do oriente. Seguiram-se outros grupos até 1914, quando ocorreu uma interrupção até 1917, quando terminou a Primeira Guerra Mundial. Nesse período, especialmente nas décadas de 20/30 ingressou no Brasil um enorme contingente de imigrantes japoneses. Muitos deles vinham pensando em fazer fortura e voltar para o Japão. Por isso sequer se preocuparam em aprender o idioma.
            As dificuldades de adaptação ao clima, remuneração reduzida e o trabalho pesado, levaram muitas famílias a abandoner o campo nos primeiros anos. Já um bom grupo conseguiu estabelecer com os proprietários parcerias que ao final de um período de sete anos lhes dava direito a um pequeno pedaço de terra, além de serem donos de tudo que produzissem além do café que tinham que formar. Sendo a primeira safra de sua propriedade. Assim, após alguns anos, começou a existir em todo interior um considerável grupo de pequenos proprietários de terras.
 
Familia de imigrantes cultivando sua terra.

 

Imigrantes peneirando café.

 

Imigrantes derrubando mato.

 

Imigrangtes capinando cafezal.
 
            Era de esperar que os donos não iriam entregar a eles as melhores terras, destinadas às seus cafezais. A vantagem dos agricultores japoneses era serem acostumados a trabalhar em locais difíceis. O território de sua patria é em grande parte acidentado, com pouco solo fértil e em grande parte de difícile cultivo. Assim, optaram por plantar bananas, abacaxi, arroz e outras culturas, que ofereciam retorno em menos tempo que o café.
            Hiromoto Sakaguti, casado com Sakira Kumabe, Hiroji Fujita, casado com Kisoku Yamashita, estavam entre esses. Junto com os filhos que nasceram depois de virem trabalhar aqui, trabalharam por mais algum tempo para os patrões no café, enquanto faziam suas lavouras de subsistência. Logo perceberam a carência de hortaliças no mercado da capital paulista. Culturas essas de ciclo curto, com retorno em tempo curtíssimo, além de exigirem pequenas áreas. Dessa forma tinham, em pouco tempo, uma considerável quantidade de produtos para colocar no mercado. A dificuldade maior era a intermediação dos grandes atacadistas.
            Um grande contingente de imigrantes que haviam deixado os cafezais, estava instalada na região do bairro da Liberdade, até hoje reduto da população de descendência nipônica. O filho caçula de Hiromoto, Kenji, casou-se com Kimiko Fujita, filha do casal amigo vindo no mesmo navio para o Brasil. Desde muito havia demonstrado pouco interesse em cultivar a terra, menos ainda trabalhar para os fazendeiros de café. Procurou no bairro japonês da capital e ali estabeleceu uma pequena mercearia. Isso no ano de 1937. Com um caminhão ford usado, trazia do interior as hortaliças, bananas, abacaxis e outros produtos. Em pouco tempo o movimento de seu estabelecimento cresceu sensivelmente.
            Numa de suas passagens pelo Mercado Municipal, travou conhecimento com alguns comerciantes nipônicos ali estabelecidos. Lembrou de lhes oferecer a possibilidade de fornecer os produtos que trazia do interior. Poderia oferecer um preço mais acessível do que eles pagavam aos atacadistas além de remunerar melhor os produtores. A possibilidade de obter produtos melhores e com preço mais acessível, além da voz do sangue, estabeleceu o relacionamento quase que imediatamente. Em poucos dias estava empenhado em viajar constantemente para o interior para buscar produtos. Seu veículo era pequeno e trazia uma pequena quantidade de cada vez.
 
Comércio japonês em São Paulo(Liberdade)

 

Liberdade hoje.
 
            Logo conseguiu economizar algum dinheiro e negociou um veículo de maior capacidade, além de ser mais novo. Trazia a dupla vantagem de transportar mais e as panes eram menos frequentes, aumentando sua capacidade de atendimento. A concorrência com os grandes atacadistas gerou alguns atritos, mas um advogado residente nas vizinhanças o ajudou a remover os obstáculos. Dessa forma o crescimento da mercearia foi uma consequência imediata, tornando-se em pouco tempo um estabelecimento de maiores proporções. Um dos principais fornecedores de alimentos à população do bairro da Liberdade.
            O português aprendido na escola e a convivência diária na capital, ajudaram-no a dominar suficientemente o idioma. Tinha desde criança propensão aos números, auxiliando-o a fazer o controle de seus negócios, gerenciar os preços e lucros. Os filhos Toshiro, Hideki e Nagori frequentaram a escola pública e mais tarde ingressaram em escolas pagas pelos pais. Dessa forma alcançaram condições de ingressar na universidade. Caminho seguido por todos. Toshiro cursou química, Hideki formou-se em Biologia e Nagori completou o curso de direito.
            Toshiro ingressou em uma empresa de produtos químicos para agricultura. Sua área de atuação era o nordeste e dessa forma passava a maior parte do tempo viajando pelo interior nordestino. Ali não havia muito que fazer com produtos químicos, devido à precariedade do clima. Os moradores dali tinham grandes dificuldades de obterem o suficiente para alimentar suas famílias. Dessa forma as vendas que conseguia realizar restringiam-se às regiões metropolitanas, além de alguns poucos fazendeiros que haviam conseguido implantar sistemas de irrigação.
            Desde criança tivera facilidade em gravar os sabores de alimentos e bebidas. Conhecera diversas variedades de saquê, produzido no interior paulista por alguns agricultores, em pequenos alambiques. Aprendera a degustar e identificar as características de sabor, textura, envelhecimento das bebidas. Em suas andanças pelo nordeste teve oportunidade de experimentar diversas variedades de cachaça. Algumas apreciadas em grandes regiões, outras de alcance local. Sua memória prodigiosa registrara o sabor e o nome, bem como o tempo de envelhecimento de cada uma.
            Um sucesso considerável, apesar das dificuldades regionais, levou a indústria a trazê-lo para estados sulinos, onde percorreu o interior do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul. Depois foi a vez de trabalhar em São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais. Ao longo de mais de 20 anos percorreu estradas do interior, enfrentando toda sorte de dificuldades, poeira, calor, frio, chuva e outros obstáculos. Sempre tinha um sorriso no rosto e onde chegava não tardava em conquistar admiradores. Alguns o chamavam de japonês sorridente.
Quando foi trazido para uma posição de chefia na capital, havia percorrido um equivalente a muitas voltas ao redor do globo terrestre. Veio concluir sua vida de trabalho na sede da indústria, onde usou de sua vasta experiência no campo, em todos os estados do país, para dirigir a equipe de trabalho, visando atender as características regionais. Não era possível ter a mesma política de preços, quantidades de produtos para os diferentes estados. Cada região tinha necessidades diferentes. Os parasitas não eram os mesmos, as carências minerais e doenças eram outras. Isso exigia medicamentos diferentes, suplementos diversos. Sem contar com a variedade de raças animais com características próprias.
Dessa forma a empresa conseguiu uma maior penetração no mercado em expansão. Viajou algumas vezes para regiões de expansão recente da agricultura e pecuária, indo verificar pessoalmente as condições locais, para depois sentar com a equipe de planejamento e traçar as diretrizes a serem aplicadas.
Enquanto isso acontecia, Manoel continuou em sua trajetória de trabalho e economia. Sua incursão no campo do mercado de ações tiveram algum sucesso e ele diversificou suas aplicações. O crescimento intense da Petrobrás e do Banco do Brasil, além de outras empresas de destaque, permitiu a formação de um pecúlio considerável. Em 1976 recebeu de Ancede a comunicação do falecimento do pai. Ao receber a notícia, o sepultamento havia ocorrido algumas horas antes, não permitindo sequer a tentative de viajar para o funeral. Projetou ma visita à família para o ano seguinte, no período de suas férias. Em meados de 1977 viajou para Portugal, onde há três anos havia sido deposto o regime do successor de Salazar e começava a reinar um clima de otimismo. Passou os dias com sua mãe, já idosa e doente.
Verificou que a família no todo estava em boas condições e poderiam se manter adequadamente. Não era necessário enviar ajuda, mas também não dispunham de condições para lhe fornecer nenhum auxílio. Sua vida dependia de suas próprias forças. Ao contar à mãe o montante de suas economias, ela ficou admirada. Nenhum de seus irmãos conseguira reunir nada parecido. Mesmo assim aconselhou-lhe a seguir assim e procurar uma mulher para se casar. Já estava na casa dos 40 anos e deveria constituir sua família, para não ser pain a idade de ser avô. Ele prometeu pensar no assunto.  
Junto com suas economias, sabia que era participante do programa de Fundo de Garantia desde sua criação e mais recentemente do PIS. Quando se aposentasse poderia usar esses fundos para adquirir imóveis, montar seu próprio negócio ou viver de rendas se soubesse aplicar de maneira adequada no mercado financeiro. Isso era projeto para dali a uns quinze anos. Antes, se quisesse se aposentar, poderia fazê-lo mas perderia uma parcela significativa de seu rendimento inicial, devido à proporcionalidade.
A vantagem do FGTS era que o saldo poderia ser usado em qualquer época na aquisição de imóveis residenciais. Estava ficando cansado de viver, há muitos anos em pensões e pousadas. Mudara várias vezes, fizera uma experiência de morar em forma de república junto com outros colegas solteiros. Isso se mostrare também um problema. Havia sempre quem gostasse de levar vantagem sobre os companheiros. Em 1980, ocorreu a eleição de João Batista Figueiredo em substituição a Ernesto Geisel para ocupar a presidência da República, pelo colégio eleitoral. Eleição da qual o povo não participava. A eleição era indireta. O congresso nacional, maioria da ARENA, votava maciçamente no candidato oficial das forças armadas. O candidato do MDB era mero coadjuvante, para legitimar o processo como democrático. Estava longe disso na verdade.
Nessa época começou o movimento operário pela renovação política. O embrião do partido representative dos trabalhadores nasceu, vindo posteriormente a ser consolidado na forma do PT. Figueiredo implantou a “abertura política” na forma de uma gradual liberalização do regime, resultando no movimento das “Diretas Já”. Com isso ocorreu em 1985 a eleição de Tancredo Neves e José Sarney para presidente e vice respectivamente. Em todos esses momentos Manoel se manteve atento, mas nunca se envolveu diretamente nas manifestações. Em 1983, ocorreu uma explosão de uma caldeira em local próximo ao de trabalho dele.
O impacto derrubou a parede e parte do teto, ficando vários dos companheiros de trabalho presos sob os escombros. Depois de um trabalho árduo dos bombeiros, conseguiram resgatar todos com vida, sendo que apenas um estava em estado crítico. Sofrera traumatismo craniano e corria risco de vida. Depois de socorrido, Manoel foi levado para o Hospital da Beneficiência Portuguesa, onde foi submetido a uma série de exames. Constatou-se que não sofrera nenhum problema na cabeça, torax ou coluna. Apenas o pé esquerdo fora parcialmente esmagado por um pedaço de concreto que o atingira. Além disso o dedo inficador da mão direita for a decepado, deixando os demais ilesos. Tinha algumas outras escoriações, porém nada de sério.
Após algumas tentativas de salvar o pé, os medicos lhe comunicaram que seria necessária a amaputação dos dedos e uma parte do pé. Ficaria em condições de caminhar, embora com alguma dificuldade. No primeiro momento ficou abalado, mas vendo o estado de outros que precisavam amputar um braço, uma perna, consolou-se. Fora beneficiado pela providência divina e sua lesão era de menor monta, perto de outros deitados em leitos ao seu lado. O pé foi amputado e uma semana depois recebeu alta. Foi preciso usar um par de muletas por alguns dias, depois apenas uma e finalmente conseguia caminhar, claudicando levemente.
Durante seu período de internamento os funcionários da empresa haviam feito visitas frequentes para verificar sua situação. Era lamentável o ocorrido e estavam a disposição para qualquer necessidade. Manoel comunicou o fato à família só depois de já estar recuperado. A mutilação do pé permitiria que ele continuasse trabalhando, porém a falta do dedo iria dificultar suas ações profissionais. Dessa forma o advogado que o procurou logo depois da alta lhe informou que poderia se aposentar por invalidez. A mutilação acidental lhe permitiria aposentar-se sem perder nada em seus vencimentos. Poderia sacar seu fundo de garantia, o saldo do PIS além de receber uma indenização considerável.
Embora isso lhe sugerisse que o plano que fizera para dali a dez ou mais anos, poderia ser realizado imediatamente. De certo modo a mutilação sofrida o beneficiara. Mesmo assim teria preferido seu corpo inteiro e continuar a trabalhar. Gostava do que fazia. Cada peça terminada era como um filho colocado no mundo da mecânica. Não raro se via imaginando os lugares diversos em que estariam todas as peças que haviam saído prontas de suas mãos ao longo dos anos. Tentava imaginar a montanha de aço que seria possível formar com todas as suas peças produzidas.
Fazia uma ligeira conta do número médio diário e os dias de cada semana, era possível fazer uma estimativa do total que havia usinado em todos esses anos. Era possível haver coisas em que pusera a mão em todos os cantos do país e até mesmo no exterior para onde haviam sido exportados veículos. Preferiu se concentrar no presente. Precisou se acostumar a escrever em o dedo indicador o que levou algum tempo. A letra saia um pouco irregular na primeira carta que se animou a escrever. Endereçou-a ao irmão, pois sabia do estadode saúde debilitado da mãe. Se ela recebesse a notícia assim diretamente, poderia inclusive sofrer de um acidente vascular, ou cardíaco, levando-a a morte. Se ocorresse sua aposentadoria, antes de se estabelecer com algum negócio em definitive, faria uma visita à família. Estivera há algum tempo flertando com uma jovem, filha de um patrício. Talvez fosse o caso de levar isso mais a sério e talvez casar-se com ela.
Primeiro esperaria o desenrolar dos fatos. Enquanto esperava o processo de aposentadoria encaminhado pela própria empresa, encontrou-se com a jovem Eduarda de Almeida. Tentou seconder sua mutilação mas não teve êxito. Ela logo percebeu e, em lugar de o rejeitar por causa disso, se compadeceu de sua condição. Começaram a namorar e ela o apressentou aos pais. O fato de estar em vias de se aposentar era favorável, pois a moça era filha única. Os pais gostariam que ela ficasse morando nas imediações em que residiam. Manoel deixou tudo em suspenso, esperando pelo desfecho do seu processo.  
            Qualquer decisão mais importante seria tomada depois disso definido. Passou o tempo reaprendendo a pedalar, agora com o pé esquerdo faltando uma parte, exercitou bastante o corpo. Ingressou em uma auto-escola para ver se poderia tirar a carta de motorista, mesmo depois da mutilação sofrida. Com um pouco de esforço achava que seria possível. No começo sentiu dificuldade por ter a tendência de usar a ponta do pé, agora inexistente, para acionar o pedal da embreagem. Aos poucos acostumou-se a usar mais a parte posterior, próxima do calcanhar. Nos calçados enchia a ponta com jornal, de modo a disfarçar a lesão. Quem o visse caminhando, apenas claudicando um pouco, dizia que tinha algum problema de quadril ou mesmo de joelho.
            Depois de algum tempo, poucos dias antes de fazer a perícia para deferir ou não sua aposentadoria, realizou com êxito o exame de motorista e menos de uma semana depois recebia em seu endereço o documento que o habilitava a dirigir veículos automotores pequenos. Não poderia dirigir caminhões ou ônibus. Poderia mudar de categoria depois de permanecer na inicial durante cinco anos. Não tinha essa pretensão. Um automóvel ou caminhonete era mais que suficiente para ele. Com certeza não nutria o desejo de sair pelas estradas do país ao volante de um caminhão de cargas.
            Quando se submeteu à perícia, tinha em mãos o atestado médico indicando as lesões sofridas e em poucos minutos estava aprovado seu processo. Poderia esperar pela correspondência que lhe levaria o resultado final e a agência bancária para poder receber seus vencimentos. Também havia sido avaliado o dano sofrido e estabelecida a indenização correspondente. Levou um leve susto quando soube que receberia pela parte do pé e o dedo decepado o valor equivalente a 150 vezes o seu salário no momento do acidente. Isso significaria um montante bem além de tudo que conseguira economizar até o presente momento, mesmo com seus investimentos na bolsa de valores, onde nunca deixara de ter algum lucro, mesmo nos momentos mais críticos. Não perdere dinheiro, quando muita gente amargava sérios prejuízos em diversas ocasiões. Isso era um fato importante.
            Decidida a questão de sua aposentadoria, procurou uma agência de automóveis. Olhou bem os novos, experimentou pois agora era motorista habilitado e podia testar o que tinha intenção de comprar. Também foi aos revendedores de usados, com um ou dois anos de uso. Comparando a diferença de preço e as possíveis despesas de manutenção com os usados, chegou à conclusão de que era mais vantajoso adquirir um novo. Verificou seu saldo na CEF e constatou que poderia comprar vários automóveis e ainda sobraria um bom dinheiro. Decidiu-se pela comprá de um da marca Chevrolet, modelo Opala, quatro cilindros e duas portas. Ficou indeciso com a cor e por fim optou por um de cor bege. O branco era muito suscetível à sujeira, aparecendo qualquer coisa que houvesse.
            Havia feito uma transferência da conta poupança para a conta corrente e pagou com um cheque. Na própria agência fez contato com um despachante para encaminhar o emplacamento, bem como um seguro total, para se precaver contra roubos e eventuais acidentes. Feito isso, saiu passeando alegremente com seu automóvel. Parou diante de um estúdio fotográfico e pediu ao profissional para tirar diversas poses com ele ao lado do carro, sentado ao volante, embarcando e desembarcando. Feito isso ficou satisfeito e continuous. Foi fazer uma visita à dona Marinês, agora idosa e tendo posto a pensão aos cuidados de uma neta. Ficou contente ao ver o antigo inquilino. Lamentou o fato de ter sofrido o acidente, mas se alegrou com sua aposentadoria a significativa indenização que iria receber.
            Levou a velha senhora a dar uma volta em seu carro, depois a deixou novamente em casa. Voltou ao pensionato onde morava atualmente, depois passou na casa da namorada Eduarda para lhe mostrar sua aquisição. Levou a família para passear no final de semana em Santos. Procurou pelo antigo companheiro, mas ficou sabendo que o mesmo viera a falecer alguns meses antes. Deixara a esposa e três filhos já crescidos. Viviam e trabalhavam no mesmo estabelecimento, um pouco ampliado com que o amigo havia iniciado tantos anos antes. Hospedaram-se em um hotel de porte médio, passearam na praia, tomaram banho de mar e no domingo à noite retornaram a capital.
            Na segunda feira recebeu o aviso do dia em que seria depositado em sua conta bancária, bem como o dia em que seria depositado o montante da indenização. Pouco depois foi até a empresa se despedir dos antigos colegas, rever os funcionários administrativos com quem havia tido contato. Agradeceu pelo bom relacionamento que haviam lhe dispensado durante os longos anos de convivência. A partir de agora viveria uma vida diferente. Sabia que sentiria saudades das máquinas suas companheiras por tantos anos. Mais de uma vez haviam sido substituidas por outras mais modernas ao longo de sua vida profissional desenvolvida toda ali na mesma empresa. Eram praticamente vinte e cinco anos.

 

            Poderia começar a procurar uma casa para comprar, ou um negócio que estivesse à venda. Poderia ser uma mercearia, um bar, ou uma loja de aviamentos ou coisa semelhante. Tinha tempo para procurar. Não necessitava ter pressa. 
 
Barri da Liberdade nos dias de hoje.

 

Imigrantes cultivando batatas.

 

Família de imigrantes cultivando bananas.
 

Um japonês especialista em cachaça – Capítulo VII

 

Jornal do período pós renúncia de Janio Quadros.

 

7.  Trabalho 

duro, economizando.
Manoel começara a controlar seus gastos desde a chegada ao solo brasileiro. Mesmo nos momentos mais difíceis, evitava gastar além de um determinado valor. Uma parcela, por menor que fosse, era colocada mensalmente em uma conta bancária. Ao se demitir do porto levara uma boa economia para São Paulo, pensando em conseguir se manter, caso fosse necessário, por até um ano ou mais. O momento econômico do país, mesmo com algumas dificuldades em determinados setores, era favorável. A indústria crescia a taxas consideradas elevadas e ele era uma peça dentro dessa indústria. Terminou 1958 em plena atividade como metalúrgico. O saldo de sua conta poupança só fizera crescere durante o ano que demorara para concluir o curso que se propusera.
Com a bicicleta que compraro, passou a percorrer os quase 3 km da pousada até a indústria pedalando. Notou sem demora que isso ajudava a melhorar sua disposição durante o dia, além de economizar o custo das passagens de ônibus. Isso ajudava a reforçar o montante que economizava mensalmente. O salário também havia crescido sensívelmente e assim viu sua poupança crescer rapidamente. Impávido assistiu alguns amigos e colegas aventurar-se na comprá de um “Fusca”, carro agora produzido no Brasil pela Volkswagen. Era sem dúvida o veículo que rapidamente se tornou popular. Levava a vantagem de ser pequeno, econômico, manutenção baixa, além de um custo inicial de menor monta.
Sentiu o verme da cobiça roer suas entranhas, imaginando que poderia passear de carro, visitar outras cidades nos finais de semana e feriados, nas férias. Mesmo com o surgimento das facilidades de crédito para financiar, em até 24 meses, resistiu. Não era uma necessidade de primeira ordem. Haveria tempo para ter seu automóvel. Tinha seu projeto de vida estabelecido há anos e se manteria fiel a ele. Quando fosse dono de seu próprio negócio, teria como adquirir um carro, do tipo que quisesse e na hora que desejasse. Sua bicicleta por ora fazia o serviço principal e para as distâncias maiores havia os ônibus e trens à disposição.
Uma vez por mês passava um domingo na pensão de dona Marinês, revendo alguns hóspedes antigos que ali permaneciam, a própria dona. Passou a simpatizar com o time do Corintians e vez por outra assistia uma partida. Sempre escolhia um lugar sossegado para ficar e assistir sem se meter em confusão. À exceção da prisão no porto por ocasião da comissão de negociação, até o momento não se metera em confusão. Já estava há vários anos no país e cada vez sentia-se mais seguro. De Ancede vinham notícias de que seus irmãos haviam conseguido, mesmo com sacrifício, concluir seus estudos alcançando posições que lhes garantiam razoável nível de vida. Isso ajudada a deixá-lo despreocupado com relação ao sustento dos pais. Sempre indagava se havia alguma necessidade, pois poderia ajudar em caso de emergência.
Os anos passaram, Manoel fez no SENAI mais dois cursos. Um na área de estamparia e outro de usinagem fina. Este último lhe trouxe na própria empresa a mudança de nível, com o consequente aumento da remuneração. Conquistara algo importanto que ouvira um professor chamar de “empregabilidade”. Em situação de emergência, teria como habilitação para se candidatar a mais de um tipo de emprego, aumentando suas chances de não ficar desempregado no caso da ocorrência de qualquer anormalidade no atual.
Ao final de cada ano fazia o balanço de suas economias. Em deterrminado dia ouviu falar de gente aplicando dinheiro na bolsa de valores. Havia que falava maravilhas. Era fácil de ganhar dinheiro rapidamente, chegando a dobrar o capital no decurso de alguns meses. Sentiu-se tentado. A cautela o aconselhava a ir devagar. Perguntou a todos os conhecidos e as respostas foram as mais variadas. Desde quem desse total razão a quem louvasse o investimento em ações, até outros que falavam da possibilidade de perda do capital, ou boa parte dele. Sentiu vontade de saber detalhes sobre o funcionamento dessa forma de investir.
Comprou jornais e revistas de economia, lendo as páginas que tratavam do assunto. Em questão de um ano, pouco mais, estava completamente enfronhado no Sistema de funcionamento do mercado de ações. Eram na verdade papéis representativos do capital de empresas denominadas Sociedades Anônimas. Qualquer um que dispusesse de dinheiro para investir poderia comprar ações. O aumento da procura, devido ao crescimento de uma empresa, prometendo assim pagar polpudos dividendos, fazia o valor desses papéis crescer. Quem possuisse um determinado número de ações, compradas a preços mais baixos, vendendo-as, obtinha um lucro significativo.
Ficou sabendo que havia quem especulasse e até mesmo usasse de artifícios para provocar quedas, podendo assim comprar ações a preços menores. Depois com tudo voltando ao normal, seriamvendidas com um lucro significativo. Percebeu com facilidade que, quem não estivesse atento, poderia perder muito dinheiro. Começou a ouvir falar, leu a respeito de empresas especializadas em investimentos em ações. Mediante uma comissão sobre o valor aplicado, se encarregavam de gerenciar os investimentos de seus clientes. Imaginou como poderia confiar em uma empresa privada ao ponto de lhe entregar o dinheiro tão árduamente ganho e economizado. E se usassem de frauds para alegar que não houvera lucro e sim prejuizo? Seria preciso um estudo muito detalhado antes de embarcar nessa viagem. Ainda era cedo para pensar nisso.

Santinho de campanha de Jânio Quadros.  Seu símbolo a vassoura.


Em 1960 foi inaugurada a nova capital do país Brasília. As eleições apontaram Jânio Quadros como preferido dos eleitores para a presidência em substituição a Juscelino Kubitscheck, tendo como vice João Goulart, pertencente ao partido oposto PTB. O governo de Jânio durou pouco e ele renunciou no dia 25 de Agosto de 1961. Foram menos de seis meses de governo. Estabeleceu-se um clima de agitação no país inteiro, uma vez que as forças armadas se opunham à posse de João Goulart, vulgo Jango, tido como comunista. Por sinal estava em visita à China naqueles dias. Com a instauração do regime parlamentarista, aprovado às pressas no congresso nacional, Jango tomou posse. Seu primeiro ministro foi Rainieri Mazili.

O país desacostumado com o novo regime não conseguiu deslanchar. As oposições eram enormes, intrigas, perturbações diversas, por fim em começo de 1963 foi realizado um plebiscito em que o povo optou pelo retorno ao presidencialismo. Jango deixou de ser mera figura decorativa. No âmbito das empresas da nascente indústria nacional, ocorreram manifestações de reivindicações diversas. Benefícios adicionais, problemas de periculosidade, insalubridade e evidentemente reajustes salariais condizentes com a época, quando crassava o flagelo da inflação. Isso corroia o poder aquisitivo dos trabalhadores, impedindo a realização de uma poupança forte.

Primeiros atos do governo militar.
Mais um Ato Institucional editado


Nas frequentes assembléias realizadas no âmbito da indústria, em locais públicos por convocação dos sindicatos, Manoel se mantinha em posição de aparente neutralidade. Embora concordasse com os motivos das manifestações, trazia vivoss na mente os maus momentos que passara na prisão na cidade do Porto. Não tinha intenção alguma de passaar por nada semelhante. Os colegas o instavam a tornar-se membro da diretoria do sindicado e ele sempre declinava dos convites. Poderiam contar com ele em tudo, menos em manifestações envolvendo qualquer forma de violência, ou como integrante de mesa diretiva dos sindicatos. Aceitara em Santos participar da comissão de negociação e logo na primeira reunião fora parar na cadeia.
É certo que não ficou lá por muito tempo. Nem chegou a depor e já haviam sido liberados pela pressão dos colegas reunidos diante da delegacia de polícia. Na mesma época em que aqui ocorriam disturbios diversos, em Portugal, sua terra natal, também existiam movimentos quase que constantes, visando interromper o longo período salazarista. Vez ou outra tinha ocasião de ver algum programa de televisão, ainda incipiente. Nessas ocasiões era possível ver os oponentes do regime em ação, sendo presos, interrogados e colocados na prisão. Dava graças a Deus por não estar por lá, pois não saberia se teria o sangue frio suficiente para suportar. Rezava diariamente pela proteção de seus familiares.
Ele aqui tratava de se manter distante de confusão. Conseguira tornar sua situação de residente permanente no país e até cédula de identidade, título de eleitor havia tirado. Era agora um cidadão brasileiro como outros que aqui haviam nascido. Havia frequentes passeatas dos trabalhadores, mas pouco organizadas, por falta de uma direção central. Algumas tentativas de criar uma espécie de Central Sindical não dera em nada, apesar dos esforços de alguns batalhadores intrépidos. Em mais de uma ocasião Manoel sentiu vontade de se integrar nos movimentos sindicais. Somente a lembrança dos maus tratos sofridos em Portugal o mantinham em sua neutralidade.
No dia 31 de março de 1964, ocorreu um movimento dos militares, em reação a algumas decisões de Jango, levando esse a renunciar. Depois viajou para o Uruguai onde pediu asilo politico. Os generais comandantes formaram uma junta governamental, depois indicaram um presidente. Muitos integrantes dos partidos de esquerda acabaram se exilando em vários países, outros tiveram seus mandatos cassados, perderam os direitos politicos. A promessa inicial era por “ordem na casa” e devolver o poder aos civis. Na prática esse estado de coisas se estendeu por mais de vinte anos. Apenas em 1985 foi eleito um presidente civil, Tancredo Neves, tendo por vice José Sarney.
Voltando ao nosso personagem, notamos que, depois da tomada do poder pelos militares, ele se tornou ainda mais retraido no tocante a movimentos sindicais e manifestações públicas. Não esquecia que, apesar de ser agora cidadão brasileiro, não deixava de ter orígem portuguesa e isso poderia depor contra sua permanência no país. Continuava constantemente a fazer suas economias, procurou estudar a fundo o funcionamento do mercado de ações. Em dado momento, depois de o clima politico ter se acomodado a um nível aceitável, experimentou fazer um pequeno investimento no mercado. Procurou o gerente da Caixa Econômica e pediu orientações. Não tendo as informações, encaminhou o cliente ao departamento apropriado e lá ele pode estreiar sua atividade de acionista.
Para começar comprou um lote de ações da Petrobrás e outro do Banco do Brasil. Nada muito vultoso, mas eram os papéis que no momento estavam tendo maior procura. Isso ocorreu ao final de 1966. Quando começou o ano de 1967, ocorreu a publicação dos balanços e depois a distribuição de dividendos, além de bonificações na forma de novas ações, representando aumentos de capital. Com isso, a procura ficou menor que a oferta e os valores cairam, levando Manoel a ficar momentaneamente desesperado. Perdera em poucos dias praticamente 25% do seu capital. O gerente da Caixa o tranquilizou:
– Isso é consequência das novas ações postas no mercado. Logo elas voltamo a subir e você vai ver. Seu ganho vai dobrar em pouco tempo.

Forças de segurança em ação na rua.
Generais do começo do regime militar.


Com essa informação ele se tranquilizou e ficou acompanhando a evolução. Depois de uns dois meses percebeu uma lenta recuperação dos valores dos papéis. Mais investidores queriam comprar e o preço subiu. Foi bem além do valor em que estavam quando ocorrera a queda. Aos poucos Manoel aprendeu que nesse setor não se podia ter pressa. Investir em ações era para esperar ganhos a longo prazo. Quem quisesse resultados imediatos, tinha que investir suas economias em outrass aplicações. Por isso Manoel continuava a investir cada mês sua parcela na poupança. Quando tinha um excedente e o valor das ações estava mais baixo, adquiria mais alguns lotes. Assim, ao longo de quase dez anos, juntou um bom volume em títulos.
Havia constantemente mulheres interessadas em namorar Manoel. Ele manteve alguns breves relacionamentos, mas nada definitive. As jovens logo falavam em noivado e casamento. Nessa hora ele inventava um motive qualquer e tirava o time de campo. Ainda não tinha alcançado seu objetivo. Casaria apenas depois de se tornar senhor do próprio nariz, tivesse seu próprio negócio. Ao se tornar independente teria as condições necessárias para constituir família, ter filhos, antes não. Foi em 1968 que, durante uma manifestação do sindicato, ele estava participando, mas sem ultrapassar qualquer limite legal. Em dado momento porém, uma tropa de choque cortou o avanço dos manifestantes, cercando-os por todos os lados.
Um grande número de participantes foi levado para cadeia, entre eles Manoel. Durante algumas horas passou diante de seus olhos como um filme, aquele mês passado na cadeia há quase vinte anos. Estava completando 34 anos nessa época. Os detidos iam sendo chamados em grupos e interrogados. Aqueles que pudessem comprovar residência, emprego fixo e não tivessem anotações criminais em seu passado, seriam liberados. Enquanto isso a angústia corroeu o íntimo de Manoel. Quem poderia ser chamado, a quem avisar para tomar providências? Tinha os amigos, colegas, mas nem sabia onde eles estariam. Talvez também tivessem sido detidos, esperando a mesma sorte que ele.
A prisão ocorrera ao anoitecer e somenta às 3 da madrugada ele foi chamado. Tinha em seu poder a identidade de imigrante português, título de eleitor, Carteira de Trabalho e Previdência Social. Casualmente uma carta do irmão que recebera no dia anterior estava em seu bolso. Ali estava o endereço e poderiam verificar com o dono do estabelecimento onde se hospedava sua residência ali há quase dez anos. Na CTPS havia a anotação de seu trabalho, com tudo atualizado. Quando o interrogador o perscrutou, percebeu que ali estava um homem firme, porém amedrontado. Talvez tivesse em seu passado alguma coisa que lhe fizesse associar o ambiente policial com lembranças desagradáveis.
Iniciou-se um longo interrogatório. Apresentou todos os documentos, respondeu a todas as perguntas, verificaram sua ficha criminal e ao final de duas horas, não haviam conseguido associa-lo a nenhuma atividade fora da lei. Era um trabalhador honesto, apenas reclamando de melhores condições de salário, trabalho e outros benefícios. Isso não o tornava um criminoso. Mesmo assim, o intgerrogador, pensando que ele tinha algo no seu passado que conseguira seconder, retomou as mesmas perguntas, refez o mesmo interrogatório, apenas variando as formas. A tudo ele respondeu calmamente, embora sentisse um sour gelado escorre-lhe pelas costas. Pensava na hora de entrar no serviço. Até aquele dia não tivera uma única falta. Seria essa a primeira?
Faltando quinze minutos para as seis horas, finalmente foi liberado e pode pisar a calçada da rua em frente ao local. Respirou profundamente, acalmou o coração de batia descompassado, depois dirigiu-se a um ponto de ônibus. Conseguiu se informar sobre qual deveria tomar para chegar ao trabalho. Usaria o jaleco que estava no armário para não faltar. Antes de entrar, passou por uma padaria nas proximidades, pediu um café bem forte, um par de pães com manteiga, mortadela e queijo. Depois de comer, sentiu-se mais apto a enfrentar o dia de trabalho. Foi para a fábrica e depois que ocupou seu local de trabalho observou que vários colegas haviam faltado. Isso não era normal. Provavelmente estavam ainda as voltas com as autoridades.
Durante o dia, ouviu comentários diversos, relativos ao movimento do dia anterior. Soube que havia diversos colegas presos e seriamente complicados em consequência de ações violentas no decorrer da manifestação. Procurou saber apenas a situação em que eles estavam, em dizer que passara a noite na delegacia. Se não estivessem sabendo, não seria ele que iria contar. Ao ser detido estava inclusive caminhando para se retirar e voltar para a pousada. Não negaria se alguém o tivesse visto no grande grupo de pessoas levadas para a detenção, mas não iria se denunciar gratuitamente.
O chefe de equipe, ao final do expediente pediu um minute para lhes falar sobre o ocorrido na noite anterior. Comunicou oficialmente que ao todo dez funcionários da indústria estavam na detenção até o momento. Um advogado constituido pela empresa estava verificando a situação individual e a possibilidade de fornecer apoio jurídico para libertar os detidos. Era confortador saber que o empregador se preocupava com os trabalhadores ao ponto de fornecer amparo jurídico nessas situações. Imaginara que, se ficasse detido, teria que amargar sua situação, sem esperança de ajuda.

Voltou para seu quarto, tomou um banho prolongado, tentando remover o cheiro de delegacia que parecia estar impregnado em suas roupas. Esfregou a pele vigorosamente para não deixare qualquer vestígio das horas passadas na cadeia. Sabia que isso não ajudaria muito, pois o problema não estava em sua pele, nem em seu corpo, mas sim na mente. O trauma do passado insistia em atribular seu presente. Os companheiros de pousada, conhecidos há vários anos, perguntaram pelo seu paradeiro na noite anterior. Ele deu sorriso maroto dando a entender que fora se divertir. Não tinha importância que pensassem que ele estivera em um lugar de mulheres. Ser homem lhe permitia esses deslizes, sem ser cobrado por isso.

Manifestações de rua antes do golpe militar.
Manifestações de artistas contra censura.


Sentou-se para jantar, mas estava pensativo e novamente quiseram saber o que acontecia. Dessa vez foi preciso ser mais cuidadoso. Falou que estava preocupado com uma dor que sentia no ombro desde uns dias. Teria que procurar um médico para averiguar do que se tratava. Era uma mentira plausível e poderia usar uma visita rotineira ao médico da empresa para conseguir uma pomada qualquer e assim confirmar a história. Não demorou e estava na cama, dormindo. Queria recuperar as horas de sono perdidas na noite anterior. Dormiu mas seu sono foi agitado pelos fantasmas do passado. Via diante de seus olhos ora o interrogador da noite passada, ora voltava aos dias na prisão do Porto. Acordou suado e foi devagar até a sala de refeições onde tomou um copo de água. Voltou para cama e dessa vez dormiu mais serenamente.
Na manhã seguinte estava com o rosto recomposto. Bem cedo estava pedalando sua bicicleta até a fábrica. Ali encontrou dois dos colegas que haviam faltado no dia anterior e lhe contaram que só ao anoitecer haviam conseguido sair da detenção. Haviam sido surpreendidos num momento impróprio da manifestação. Sua atitude havia sido interpretada como hostil às tropas de segurança. Dessa forma fora preciso receber a ajuda do advogado da empresa. O pior de tudo é que havia ficada registrada sua detenção. Isso ficaria constando em sua ficha por muitos anos, se não para o resto da vida. Eles haviam visto que ele também tinha ido participar. Não for a detido?
– Escapei por pouco. Percebi a tropa vindo de longe e sai de fininho. Por isso consegui escapar dessa.
– Sorte sua. Esses caras não brincam. Houve gente que apanhou e está lá até hoje. Os caras do sindicato estão todos em cana até agora. Vão demorar alguns dias a sair.
– Por isso eu não quero saber de participar da diretoria. Me convidaram várias vezes, mas não quero saber.
– Temos que dar apoio a eles. Dão a cara ao tapa pela gente. É preciso pensar em algo para ajudar, – disse outro colega.
– Mas como a gente consegue ajudar?
– Não sei, mas vamos pensar em alguma coisa. Talvez indo até a sede do sindicato a gente consiga saber algo mais.
– Fica onde essa sede?
– Fica na capital. Eu moro perto. Vou ver se dá tempo de passar lá hoje depois do expediente.
– Isso João. Amanhã você conta pra gente o que podemos fazer.
– Eu não quero saber de cadeia. Sei que ali é complicado. Para entrar é fácil. Sair é que são elas.
– Você tem razão, colega. Precisamos ajudar nossos companheiros, sem nos expormos a algum risco.
Nisso o portão foi aberto e todos começaram a entrar apressados. Precisavam passar pelo relógio de ponto, depois vestir os uniformes e ir para o setor de seu trabalho. Sem esquecer uma passada rápida pelo banheiro. Não ir poderia significar a necessidade de deixare o local de trabalho antes da hora e isso refletia no desempenho da produção do dia. Caminharam rapidamente, deixando qualquer conversa para mais tarde, na hora do interval ou depois do almoço. Haveria então um período um pouco maior para trocar ideias.
Em poucos minutos as máquinas começaram a ronronar, produzir ruidos de metal sendo cortado pelas ferramentas, ou desgastado pelas lixas e polidores. O acabamento final era de extrema importância. Manoel estava há quase cinco anos no setor de usinagem fina. Seu objeto de trabalho eram os diversos tipos de engrenagens. Havia diferentes modelos e tamanhos. Cada máquina usava essas peças em tamanhos próprios. Havia a necessidade de todo cuidado para não esquecer os diferentes padrões, medidas e formas. Ele costumava ter um dos índices mais elevados de aproveitamento. Raríssimas vezes ocorria de uma de suas peças ser rejeitada no controle de qualidade. Isso lhe valera algumas gratificações e prêmios por eficiência.

Temera no dia anterior pelo seu rendimento. Tomara cuidado redobrado. Melhor ter uma ou duas peças a menos de produção ao final do dia, do que ter algumas refugadas. A produção um pouco menor era menos prejudicial do que a rejeição de peças defeituosas. Graças a Deus, não havia nenhuma informação de peças rejeitadas em seu escaninho, onde eram deixados os avisos que a empresa usava para comunicações com os empregados. Tudo correra melhor do que poderia ter esperado.

 

Imagem de jornal no início do regime militar.

 

Manifestante portando cartaz de protesto.

Fotografias baixadas de sites da internet relativos à época dos anos 60, governo Jânio, parlamentarismo e regime militar.

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Um japonês especialista em cachaça – Caítulo VI

 

Estádio do Pacaembu, fachada.

 

Vista aérea do Pacaembu.

 

Panorâmica do Pacaembu.

 

6. Operário orgulhoso.
Na sexta feira Manoel estava no laboratório pegando os resultados e foi até o consultório do médico. Passou por um exame geral, não sendo constatada nenhuma enfermidade que se pudesse detectar com o exame feito. O exames de sangue e raio-X atestavam que não sofria de deficiência nos components do sangue, não era anêmico, não tinha tuberculose ou outra doença do pulmão. Por isso o médico lhe escreveu um atestado com o qual teria garantido o acesso ao emprego que tanto se empenhara em conquistar. Ainda não havia decidido se iria mesmo mudar-se para São José dos Campos, próximo à indústria. Isso ficaria para a semana seguinte.
No final de semana foi assistir a um jogo de Palmeiras e Coríntians no estádio do Pacaembu. Havia ido no sábado pela manhã até uma agência onde adquirira o ingresso. Achou por bem evitar usar uma camisa de qualquer um dos times, uma vez que poderia ocorrer de acabar no meio da torcida contrária e isso seria uma temeridade. Ouvira falar da grande rivalidade entre as torcidas desses clubes. Os irmãos perguntavam sobre os estádios e times do Brasil. Ele prometera assistir a um jogo e relatar a experiência na próxima carta. No sábado depois do almoço foi até a oficina onde encontrou seu Chico a sua espera. Acertaram as contas relativas aos últimos serviços que fizera antes de ser chamado para o novo emprego.
Saiu dali com o saldo de suas comissões e ainda uma pequena gratificação, dada por Chico. Além disso era sempre bem-vindo, se por acaso precisasse fazer um bico num dia de folga ou algo assim. Bons mecânicos eram sempre bem aceitos em toda parte. Não existiam ainda cursos que ensinassem o serviço. Era no dia a dia das oficinas que os profissionais eram formados e aqueles que tinham interesse, eram atentos aos detalhes, logo se destacavam. Chico lhe desejou sucesso no novo trabalho.
No domingo à tarde, munido de uma camera fotográfica portátil, extravagância que cometera em nome da sua nova condição de metalúrgico, foi para o Pacaembu. As torcidas entravam separadas, para evitar tumultos já antes do ingresso no estádio. Entrou pelo lado da torcida alvi-negra, indo sentar-se em um lugar bem retirado, o mais no alto da arquibancada. Seu desejo era ficar o mais possível afastado de qualquer confusão. A cantoria das massas torcedoras, separadas por um alambrado além de um espaço deixado vazio, não paravam de cantar, rufar tambores, tocar cornetas e agitar bandeiras.
Não perdeu tempo, pondo-se a registrar da maneira que sabia as imagens que conseguia captar em sua camera. Estava preparado com filme sobressalente para o caso de querer bater mais chapas, ou alguma não ficar bem focalizada. Deixou a maior parte das chapas de que dispunha para serer usadas durante o jogo. Mandaria revelar tudo, separando as melhores imagens para enviar aos irmãos em Ancede, Portugal.
Pacaembu em dia de jogo.
 
A partida ia começar e a entrada dos times foi saudada com uma gritaria ensurdecedora das torcidas. Uma aplaudindo e apoiando, enquanto a adversária vaiava o time que entrava. Depois a cena se repetia, ao entrar o time adversário. Nessa época era comum os times entrarem separadamente em campo. O jogo começou e era bem disputado. Teve que reconhecer que era bem disputado. Não fora sem motivo que recentemente o Brasil se sagrara campeão da Copa do Mundo na Suécia. Os craques brasileiros jogavam de uma maneira de encher os olhos. Era uma opção para ocupar os domingos a tarde, quando não estivesse empenhado em outra atividade. Valia a pena assistir um belo jogo de futebol.
Os lances de ataque e defesa se sucediam de lado a lado. Os dribles, as roubadas de bola, algumas trombadas mais rudes que eram apontadas como faltas a serem cobradas pelo time que sofrera o lance. Os goleiros se empenhavam em evitar que a bola entrasse nas metas sob sua responsabilidade. Quase ao final do primeiro tempo ocorreu um lance de falta a favor do Coríntians nas proximidades da área do Palmeiras. A barreira foi formada, os restantes jogadores se dispuseram em posições estratégicas e por fim o juiz autorizou a cobrança. O jogador encarregado do lance, foi de uma felicidade tal que fez a bola descrever uma caprichosa curva por cima da barreira, indo encontrar a rede de proteção no canto oposto ao que o goleiro se preocupara em guarnecer pessoalmente.
A cobrança da falta fora perfeita. A trajetória da pelota foi tal que se transformou em um lance indefensável. Nesse momento o juiz apontou o centro do gramado e a torcida alvi-negra estrugiu em delírio. Do lado de verde reinou silêncio, onde pouco antes eram ouvidos gritos de vaia ao cobrador e aos adversários. Pouco depois a primeira etapa foi encerrada, seguindo-se um período de pessoas se movimentando para irem ao banheiro, tentativas de lançamento de objetos de um lado a outro entre as torcidas nos pontos em que ficavam mais próximas. Manoel nunca havia ido assistir a um jogo de futebol em um grande estádio. Imaginou por que razão os torcedores queriam se agredir mutuamente. Não havia liberdade de escolha? Cada um torcia pelo time que mais lhe agradasse. Não fazia sentido querer negar aos outros a livre escolha.
Ficou consigo a pensar na incongruência da situação. O que seria do time que sempre fosse vencedor, que tivesse todos os torcedores? Não tendo torcedores, o time deixaria de existir. Deixando de existir, o outro não teria mais adversário e também perderia o sentido de existência. Na sua concepção imaginava que depois do jogo deveriam se reunir e comemorar a vitória ou lamentar a derrota, mas sem maiores consequências. O bom do esporte era exatamente o fato de que, ora um ora outro poderia ser vencedor. Bastava por vezes um lance de sorte para definir o resultado de uma partida. Os treinamentos, a busca por jogadores mais talentosos, tinham como objetivo melhorar o desempenho do time de um clube. Era esse o motivo dos torcedores pagarem o ingresso para assistir às partidas. Prover recursos aos dirigentes para pagar pelos direitos dos clubes detentores de contrato com os jogadores. Assim poderiam ter os mesmos em seus plantéis.
Quando o jogo terminou, haviam acontecido mais dois gols, sendo um segundo do Coríntians, dessa vez em jogada vinda da esquerda para o meio da área. Ali um jogador habilidoso dera um único toque na bola que for a parar no fundo das redes. Novamente a torcida alvi-negra foia o delírio enquanto a de verde iniciou algumas vaias ao próprio time. O treinador palmeirense fez duas substituições em sua zaga, além de uma outra no ataque. O time ficou mais consistente, conseguindo evitar as sucessivas investidas alvi-negras e organizar por suas vezes alguns ataques. Por diversas vezes o goleiro corintiano foi obrigado a realizar defesas espetaculares.
Diz o ditado que água mole, em pedra dura, tanto bate, até que fura. Foi o que aconteceu nessa partida. De tantas tentativas, finalmente, agora já aos 44 minutos da segunda etapa, um atacante palmeirense deu um drible fenomenal no zagueiro corintiano e chutou da entrada da área, no canto contrário ao daquele em que o goleiro estava mais perto. A bola sacudiu a rede e agora foi a vez da torcida verde levantar e vibrar. Mas o tempo estava se esgotando rapidamente. Havia mais três minutos de acréscimo devido às interrupções do jogo em várias ocasiões. O time verde se empenhou ao máximo para conseguir a igualdade no placar, mas o alvi-negro se manteve intrépido na defesa. Chutavam a bola para o lado que o nariz estivesse apontado. Seguiam uma expressão segundo a qual nessa hora: “Chuta para o mato, que o jogo é de campeonato”.
Quando soou o apito final, houve um princípio de tumulto no qual alguns torcedores tentaram atingir os adversários, mas um contingente de policiais estava ali para impedir a briga. Houve muitos que sairam resmungando e gritando ameaças, outros fazendo gestos relativos à vitória por 2 x 1 do time corintiano. Enquanto isso Manoel esperou pacientemente até que o clima amainasse e só então iniciou o deslocamento na direção da saída. Do lado de fora, o policiamento estava empenhado em manter os torcedores o mais separados que fosse possível. Mesmo assim seria impossível manter a distância entre eles, na medida em que se afastassem do estádio.
Geralmente ocorriam alguns incidentes de agressões após as partidas, pois havia quem não se satisfazia em caçoar dos adversários derrotados. Tinha necessidade de manifestar de modo físico sua superioridade e isso sempre descambava em violência, não raramente até ferimentos com armas. Um fato extremamente lamentável. Por maior que fosse o empenho das autoridades, não se conseguia evitar esses fatos. Tendo esperado o tempo adequado Manoel finalmente embarcou em paz no ônibus e foi para a pensão. Levava consigo a camera e o cartucho com o filme todo exposto que havia trocado pelo outro. Aproveitaria para tirar algumas poses no dia seguinte no novo emprego e depois mandaria revelar os dois de uma vez.
Chegou à pensão e ali havia entre os hóspedes tanto corintianos quanto palmeirenses. Mas esses não eram exaltados e sequer haviam ido ao estádio. Tinham ouvido o jogo pelo radio de dona Marinês, instalado na sala de refeições. Ao verem Manoel, trazendo a camera na mão, quiseram saber de onde vinha e ele lhes contou do jogo que for a assistir. Logo choveram perguntas diversas que ficaram na maioria sem respostas. Ele não sendo torcedor de nenhum dos times, apenas um espectador interessado em apreciar o espetáculo, não reparara em determinados detalhes.
Expressou sua estranheza com as agressões entre as torcidas, as atitudes literalmente beligerantes demosntradas por muitos dos presentes. Isso tornava a presença de pessoas com filhos ou familiares, idosos um ato temeroso. Havia o risco de sofrer agressões, ser pisoteado em caso de tumulto ou correria.
– É por isso que a gente não vai ao estádio, Manoel.
– Eu fui hoje por ter prometido aos meus irmãos em Portugal umas fotografias de um jogo aqui no Brasil. Depois do campeonato mundial na Suécia, o povo de lá está muito interessado em saber como é o futebol do Brasil.
– Conseguiu tirar boas fotos?
– Creio que sim. Não tenho prática com essas máquinas. Vamos ver o que vai sair. Quero mandar umas para meus irmãos e contar sobre o jogo.
– O jogo como foi na sua opinião?
– Gostei. Os dois times jogaram bem. Apenas o primeiro gol do coríntians foi de falta e uma cobrança perfeita. O goleiro não tinha nada a fazer. O segundo gol foi o mais bonito, pois foi uma jogada rápida e bem feita.
– E o gol do Palmeiras, como foi?
– Uma jogada de craque do palmeirense. Nem deu para ver direito como ele passou por aquele adversário. Sei apenas que passou e chutou de maneira indefensável no canto esquerdo do goleiro, longe das mãos deste.
– Se tem mais uns minutos de jogo, o verdão arrancava o empate.
– Acordaram tarde demais, – falou um corintiano.
– Se houvessem empatado, não seria um resultado injusto. Mas jogo é jogo e não tem muita lógica, – falou Manoel.
 
Vista da Vila Belmiro em Santos.

 

Outra vista da Vila Belmiro.

 

Vista aérea da Vila Belmiro.
 
Continuaram a defender cada um o seu time, caçoando dos derrotados, estes lembrando de outras ocasiões em que a vitória sorrira ao time verde e assim passou o tempo. Não tardou e o jantar foi servido. Alguns hóspedes que tinham viajado para cidades vizinhas, voltaram e se juntaram aos que estavam presentes. Formaram-se grupos diversos, onde as conversas giravam ou em torno do jogo do Pacaembu, outros falavam de um encontro entre São Paulo e Santos na Vila Belmiro, resultando em empate. Manoel passou por todos os grupos, trocou algumas palavras e foi deitar cedo. Queria levantar cedo para não perder a hora de entrar.
O primeiro dia seria provavelmente de recepção, apresentação dos documentos, a identificação dos locais de trabalho, os chefes de setores, normas internas da empresa, equipamentos de segurança. Ainda não existiam muitas leis regulamentando os aspectos de segurança, mas as empresas por sua própria conta mantinham seus próprios sistemas internos. Estava em jogo o uso de máquinas de altíssimo custo e precisariam ser usadas de modo adequado. Qualquer descuido poderia significar danos ao equipamento, como também acidentes com os trabalhadores. Isso sempre representava uma série de transtornos.
Durante o sono teve sonhos agitados, misturando cenas do estádio com o que viria a ser seu local de trabalho a partir da manhã seguinte. Quando percebeu era hora de levantar e ainda estava um pouco sonolento. Teria que tomar uma xícara de café bem forte para ficar bem desperto. Pegou a pasta em que colocara todos os documentos que precisariam ser entregues e desceu para a sala de refeições. O café acabava de ser coado e exalava um odor característico. Pegou uma xícara e pediu um pouco de café para tomar sem açúcar mesmo.
Tomou pequenos goles da bebida escaldante até sorver a última gota. Sentiu que os sentidos ficavam mais alertas e logo estaria em forma para enfrentar seu primeiro dia de trabalho, no novo emprego. Sentou-se à mesa onde já estava colocado o pão ainda quentinho que o padeiro entregara. Um bule com leite, geléia, um pote com manteiga, e o açucareiro. Serviu o leite e depois que dona Marinês trouxe café, colocou um pouco misturado ao leite. Gostava, como ele dizia”, de leite com café, apenas o suficiente para dar uma ligeira cor. Tomava-o sem açúcar desde criança.
Passou manteiga no pão, um pouco de geléia e comeu, mastigando bem. Depois pegou outro pedaço de pão e repetiu a operação. Era aconselhavel reforçar o café, pois não sabia a que horas teria oportunidade de comer alguma coisa novamente. O primeiro dia era uma incognita. Antes de sair, relembrou se não esquecera nada e foi buscar a câmera para tirar algumas fotos do local e de seus colegas de setor. Estava orgulhoso de sua nova condição. Dava mais um passo no caminho da realizção de seu sonho. Disse adeus a dona Marinês e saiu. Em quinze minutos chegava ao local de embarque no transporte que o deixaria logo depois no ponto para seguir até a fábrica.
Como havia saido um pouco mais cedo, chegou faltando ainda vinte minutos para a hora da entrada em serviço. Foi dos primeiros a chegar. Havia colegas de trabalho no ônibus em que viera, outros vinham caminhando pois moravam nas proximidades, ou haviam descido de transportes coletivos em outros pontos. Em poucos minutos formou-se uma aglomeração razoável diante do portão de entrada. Do lado interno foi notada a movimentação dos encarregados de abrir e liberar o acesso ao recinto da indústria. Era uma entrada especial, diferente da de clientes, fornecedores ou outros visitantes. Formaram uma fila dupla, sendo orientados para terem em mãos os documentos solicitados anteriormente.
 
Sendo dos primeiros a chegar, Manoel era o terceiro de uma das filas e logo a entrada foi liberada. Caminharam por uma passagem e chegaram a um balcão onde havia quatro funcionáarios para receber e conferir os documentos. Depois de passar por essa etapa, foram dirigidos a uma sala maior onde eram separados em seus grupos. Aos poucos ia conhecendo quem seriam seus colegas de trabalho. Os outros grupos estariam trabalhando ali, apenas em setores diversos. Inicialmente as conversas foram poucas. Eram todos desconhecidos e era preciso se conhecerem para estabelecer conversações. Começaram a se apresentar enquanto esperavam e aos poucos um murmurio se fez ouvir no recinto que em pouco tempo se encheu de gente. Em dado momento um homem de seus quarenta anos, chegou junto ao grupo de Manoel e falou:
– Bom dia pessoal!
– Bom dia, – ouviu-se um pouco mais que um murúrio.
– Eu sou Paulo de Oliveira e vou levar vocês ao setor em que irão trabalhar. Parece que o grupo está complete. Vou fazer a chamada para verificar.
Começou nomeando um a um em ordem alfabética. Eles por sua vez respondiam com um “presente” decidido. Não queriam ser tidos como tímidos ou desinteressados. Não havia faltado nenhum dos chamados.
– Muito bem. Me acompanhem até a sala de uniformes para escolherem seus jalecos. Tomara que ninguém precise de tamanho especial, – disse correndo o olhar pelo grupo. – Parece que não vai acontecer isso. Devemos ter um par para cada um.
 
Indústria metalúrgica moderna.

 

Outra visão de indústria metalúrgica.
 
Enquanto eles saiam os outros grupos também procediam à chamada para conferir a presença dos novos contratados. Ao chegarem à uma sala cheirando a tecido novo, havia vários roupeiros encarregados de trazer os jalecos. A experiência adquirida em empregos anteriores os habilitava a determinar a olho o número do candidato a sua frente. Em poucos minutos todos eles dispunham de um par de jalecos e um cadeado numerado com chave. O número correspondia ao armário que seria de uso pessoal de cada um. Ali ficariam guardados seus pertences pessoais, bem como o jaleco ao sair ao final do expediente.
Na sala contígua ao local em que iriam trabalhar, estavam os armários e ali vestiram os jalecos. Se algum não servisse, deveriam voltar ao local da distribuição para efetuar a troca. Manoel experimentou os seus, movimentou os braços e todos os sentidos percebendo que não havia problemas para fazê-lo. Haveria um tempo para se acostumar ao uniforme. Era ótimo, pois aprendera no curso do SENAI a necessidade do uso de vestuário apropriado, diferente do que costumavam usar na vida diária. O melhor seria usar por baixo uma camiseta ou outra roupa de malha, para não tolher os movimentos. Fechou os demais pertences no armário e foi para perto do senhor Paulo a espera do passo seguinte. Em poucos minutos o grupo todo estava ali, exceto um colega mais magro que trouxera os jalecos de tamanho maior que o seu número e fora fazer a troca. Logo voltou e se juntou a eles, quando foram levados para um amplo salão onde se encontravam enfileirados um grupo de máquinas de mesmo modelo.
Eram praticamente iguais a um que tivera oportunidade de manejar durante o curso no SENAI. Seria facílimo o início do trabalho, pois em minutos estaria senhor da máquina que lhe caberia usar. Receberam a chave para acionamento da respectiva máquina. Deveriam deixar tudo em ordem ao final do expediente, pronto para reiniciar o trabalho no horário seguinte. Essa chave ficaria em poder de cada um, até o dia em que deixasse a empresa. A máquina ficaria sob a responsabilidade do operador. Sua manutenção e eventual interrupção do uso, no caso de apresentar problemas de funcionamento. Feitas essas recomendações, cada um recebeu uma folha com as especificações técnicas graficas e escritas de uma peça. Eram pré moldadas na fundição e que precisavam ser usinadas para deixá-las nas especificações da montadora.
O ganho no final do mês seria influenciado pelo desempenho de cada um. Deveriam se preocupar com a perda de tempo, mas também com a percisão na execução do serviço. Cada peça refugada pelo controle de qualidade representaria perdas para o responsável. Significava que deveriam trabalhar diligentemente para render o máximo, mas igualmente estar atentos às medidas. Alguns do grupo fizeram perguntas que o senhor Paulo respondeu atenciosamente. Depois foram liberados para iniciarem o trabalho. O almoço seria ali mesmo na indústria. Saberiam depois a localização do refeitório. Talvez o primeiro dia não trouxesse um almoço primoroso, pois a equipe também estava iniciando naquele momento, embora tivessem recebido treinamento na semana anterior.
Em poucos segundos os enormes tornos começaram a ronronar e foram verificados todos seus comandos antes de iniciarem a execução do serviço. As ferramentas de corte foram conferidas uma a uma. Depois começou-se a ouvir o ruido das ferramentas cortando o aço. Uma pequena pilha de finas ritas metálicas enroladas foi se formando aos pés de cada máquina. As máquinas eram novas e facilitavam o trabalho. A fundição era de boa qualidade, não exigindo habilidades especiais. Sempre existia o risco de haver rebarbas de metal restantes de defeitos de fundição, o que representava um atraso na execução do serviço de torno. Cada peça pronta, era colocada em uma bancada existente a retaguarda do operador.
O grupo começou a operar quase no mesmo rítmo. Apenas dois colegas tiveram alguma dificuldade com as máquinas, pois haviam aprendido a operar máquinas ligeiramente diferentes o que exigia algum tempo para se adaptar. Haviam iniciado o trabalho em torno de 9 h e às 10 h 15 min, sou uma sirene, avisando que era hora de um pequeno interval de quinze minutos. Suficiente para irem ao banheiro e tomar um copo de café com biscoitos servidos na sala ao lado. Nas bancadas estavam empilhadas algumas peças usinadas. No momento da interrupção para o almoço seriam removidas, anotadas na ficha de cada operador e etiquetadas.
Dali seguiriam para o controle de qualidade, para depois seguirem até a expedição. Manoel foi ao banheiro e tomou seu café, sentindo-se aliviado da tensão anterior. O batismo de fogo havia passado. Sentia-se agora dono do lugar. Estava senhor da sua máquina. Ele a operava com perfeição. Ao seu lado os companheiros, quase todos oriundos dos diversos cursos do SENAI, estavam em igualdade condições com ele. Os seus movimentos pareciam quase sincronizados, diferindo por frações de segundos. Quando um se virava para colocar uma peça na bancada, logo os outros também faziam o mesmo.
No momento em que soou novamente a sirene cada um tinha em sua bancada um bom número de peças prontas. Foram levados ao refeitório onde o cheiro de comida despertou o apetite de todos. O cheiro percebido quando ainda estavam a uma distância de 50 metros do lugar, deixava saber que a refeição seria de boa qualidade. Um almoço excelente foi servido. Carne com molho, arroz, feijão e saladas diversas, completadas com sobremesa. Sem esquecer o refresco à escolha de cada um.
Manoel num primeiro momento ficara pensando em ir almoçar na rua e na visita durante a semana anterior indagara nas redondezas da existência de restaurantes populares. Agora via que o almoço era servido na própria empresa e isso o deixava mais tranquilo. Nenhuma empresa quereria ter seus operários doentes por conta de alimentação inadequada ou com problemas. Almoçaram e depois foram espairecer por pouco mais de meia hora, antes do reinício do trabalho. O total do às 12 horas, sendo que cinco minutos antes soara a sirene. Era o tempo para que cada um juntasse em um recipiente as aparas metálicas acumuladas sob a máquina. Elas seriam prensadas e enviadas novamente para a fundição. Não havia como desperdiçar o metal.
Quando deu 13 h 20 soou a sirene chamando para se apresentarem às dali a dez minutos nos postos de trabalho. Alguns projetos de amizades, conversas haviam sido iniciadas. Era uma convivência, projetada para ser prolongada, que se iniciava. Sem demora cada um se encaminhou para seu lugar de trabalho, passando pelos banheiros antes. Às 13 h 30 soou a sirene para início do turno de trabalho. Cada um acionou sua máquina e deu início ao turno de trabalho. As peças a serem usinadas eram as mesmas e continuariam sendo por aquele e mais dois dias pelo visto. Aos poucos os operários se habituaram e dominaram melhor as suas máquinas, conseguindo acelerar sua produção, sem descuidar dos detalhes.
Às 15 h soou a sirene novamente para os quinze minutos de intervalo, o cafezinho e uma ida ao banheiro, se necessário. Havia é claro um grande filtro com água para matar a sede. O ambiente era levemente climatizado para evitar a transpiração excessiva dos operários. As bancadas já apresentavam um bom número de peças usinadas e e a pilha de peças a trabalhar existente ao lado de cada máquina parecia não diminuir sensivelmente. Era um trabalho aparentemente monótono, porém exigia atenção constante para evitar falhas. Nisso residia a necessidade de boa preparação técnica dos operadores. O controle emocional e capacidade de manter a concentração eram fundamentais.
E quando menos esperavam, soou o sinal de encerramento do expediente. Tinham os dez minutos para proceder à limpeza do local e deixare a máquina em condições de uso na manhã seguinte. As ferramentas usadas eram devolvidas para passarem pela equipe de afiação. Na manhã seguinte teriam à disposição novo kit para usar naquele dia. O que se viu nos rostos daquele grupo de operadores ao deixare o lugar de trabalho. Antes de saírem ouviram uma rápida preleção de seu Paulo sobre o primeiro dia de trabalho. Em sua maioria haviam tido um ótimo desempenho. As dificuldades iniciais de alguns estavam superadas e tudo prometia fluir sem problemas dali por diante. Desejou-lhes bom descanso e os liberou.
A maioria saiu dali orgulhosa. Esse emprego representava o começo de uma vida de trabalho ou o reinício de uma carreira interrompida por um motive qualquer. Os colegas mais próximos se despediram entre si e Manoel foi até a pousada para combinar sua mudança para ali no final de semana. Queria fazer isso com calma, sem atropelos. Seria perfeitamente viável percorrer a distância até à capital nos dias dessa primeira semana. Depois veria a possibilidade de adquirir uma bicicleta e percorrer a distância da pousada até a indústria pedalando. Demorou cerca de meia hora para chegar ao estabelecimento e não teve dificuldades em deixar combinado o aluguel de um quarto com café da manhã e jantar.
Estava orgulhoso de seu trabalho e fez questão de apresentar o crachá que lhe haviam entregue ao sair. Era agora operário da indústria de peças que iniciara suas operações naquele dia. Depois de combinar tudo, voltou até perto da indústria e tomou o ônibus para voltar à capital. Chegaria um pouco atrasado na pensão. Teria que comer alguma coisa que tivesse sobrado do jantar, salvo o caso de dona Marinês ter guardado um prato para ele. Isso não tinha importância. Comeria o que houvesse ou iria até um bar e comeria um salgado. Um dia não fazia mal algum. Os outros seriam diferentes.
A semana transcorreu sem novidades. Cada dia a camaradagem entre os colegas aumentava, encontravam-se ao chegarem pela manhã, sorriam e se davam palmadinhas nos ombros. Depois ficavam por horas sem trocar palavra praticamente enquanto prestavam atenção máxima nas ferramentas que cortavam o aço, transformando peças brutas fundidas em aço, em algo bem acabado. Sentiam satisfação em ver as aparas de metal caindo e formando aquela pilha característica no chão. Eram o resultado que sobrava do seu trabalho. Em outra ocasião esse mesmo metal poderia estar novamente em suas mãos na forma de outras peças, de outras formas sendo trabalhadas para uso posterior.
A primeira semana chegou ao fim e todos se despediram para o descanso merecido. No sábado Manoel fez sua mudança para a nova moradia. Um colega de pensão foi com ele ajudando a carregar parte de suas bagagens. Assim ficaria sabendo onde o amigo estaria morando a partir daquele dia. Manoel despediu-se de dona Marinês. Já fizera o acerto com a dona do estabelecimento e agradecera o grande carinho que lhe dispensara. Depois de se instalar na nova moradia, levou o colega para almoçarem juntos. Depois procurou e encontrou uma loja que estava aberta e adquiriu uma bicicleta. Aprendera a andar anos antes, mas fazia tempo que não pedalava. Aproveitaria o resto da tarde e o domingo para lembrar como se fazia e não ter problemas na segunda feira.
Não precisou de muito tempo para sentir-se dono da situação e o resto do dia, bem como o domingo para passear por todos os lados, explorando os bairros de São José dos Campos, sua nova cidade. Encontrou um laboratório fotográfico e lá deixou os filmes que estavam totalmente utilizados. Ficariam prontas na semana seguinte. Quando fosse retirar poderia escolher as fotografias de que quisesse cópias e elas seriam providenciadas. Haveria tempo para fazer isso após a saída do trabalho que ocorria às 17 h 30. Indo de bicicleta chegaria antes de fechar o estabelecimento. Então poderia mandar aos irmãos as fotos do jogo de futebol e também de seu novo local de trabalho.

Pedira ao chefe para bater uma pose mostrando ele em ação no torno, outra no refeitório, no patio de recreio e diante da fachada da indústria. Queria que a família sentisse orgulho de seu sucesso na nova patria. 

Indústria metalúrgida nos primórdios.

 

Peças diversas feitas em cobre.