Arquivo mensais:dezembro 2014

A todos um ótimo 2015.

Te recebemos de braços abertos!

Seja bem-vindo ano 2015!

A cada 365 dias repetimos os mesmos rituais. Preparamos uma ceia especial, bebidas variadas, muitos compram roupas novas e especiais, compilam listas de propósitos a serem postos em prática no novo ano que está se avizinhando. Fazemos a contagem regressiva esperando o momento exato do término de um ano e após um segundo, estmos no novo ano. Em um instante estamos no ano velho. Um mísero segundo depois, estamos no novo ano. 
Enviamos mensagens de Feliz Ano novo aos amigos, parentes, colegas e vizinhos. Hoje, com o advento das redes sociais, usamos esses meios para enviar  nossas mensagens para os quatro cantos do país e por que não dizer, do mundo. Raramente o espaço que circunda o globo é percorrido por tamanha quantidade de ondas eletromagnéticas, transportando as mais diversas mensagens, imagens recentemente colhidas. Tudo isso é ótimo, porém, há certo exagero se pensamos que a simples troca de um algarismo nas datas que iremos apor aos nossos documentos a partir desse momento, irá fazer grande diferença. Essa troca simplesmente é um fato cronológico indicador da passagem inexorável do tempo. Tempo esse que por vezes não aproveitamos na devida forma. Esquecemos de fazer nossa parte, de com nossa parcela na construção de um mundo melhor e mais humano. Somos muito rápidos em lançar às costas de outros personagens o ônus pelo insucesso ou fracasso de nossas vidas.
Habitualmente encontramos algum “bode” expiatório para arcar com a culpa pelos fatos, por vezes terríveis, catastróficos mesmo que acontecem ao nosso redor e pelo resto do mundo. Muito pouco vemos uma atitude de “mea culpa”, onde alguém, reconhecendo sua omissão, sua falta de empenho assumindo a responsabilidade por algo de desagradável que aconteceu. No entanto somos bem mais rápidos em nos apropriarmos dos méritos por algo de bom que tenha acontecido. Gostamos de ficar sob os holofotes da mídia, mesmo quando nossa contribuição foi infima e até mesmo nula. Existindo uma pequena chance de usarmos os fatos positivos em nossa autopromoção, é raro haver alguém que hesite. Nosso  ego é, via de regra, bem maior que a nossa capacidade de assumir as nossas culpas. 
Por isso, costumo sempre acrescentar em minhas mensagens de Feliz Ano Novo, os seguintes dizeres: Que sejamos todos capazes de fazer nossa parte, dar nossa contribuição, para que o ano seja realmente melhor. Tenho convicção absoluta de que, se isso acontecer, sem nos importarmos com o que os outros fazem, se todos ficarmos atentos aos nossos atos e cumprirmor nossa tarefa, ao final do ano, no próximo 31 de dezembro, estaremos comemorando a despedida de um ano que ficará na história. Um ano que terá valido a pena viver. Não quero dizer que tudo terá sido resolvido. Isso é utopia, pois a cada solução implementada, novas carências, novas necessidades irão aparecer e novos propósitos serão feitos. Essa é a dinâmica da humanidade. Não podemos deixar de fazer nossa cota, sob a justificativa de que os outros também não fazem a sua, portanto não adiantará nada. De fato, se todos pensarmos assim, iremos caminhar de marcha a ré, em lugar de progredir. 
Vamos fazer individualmente um exame em nossas ações durante 2014 que está prestes a expirar em nosso fuso horário (há lugares em que nesse momento já é 2015). O que passou, passou e não há como desfazer o passado. Façamos o propósito sincero de mudar algumas coisas, por pequenas que sejam, em nossas atitudes, nosso comportamento, e chegaremos no próximo Revelion com a alma mais leve, a satisfação do dever cumprido e com ânimo para iniciar um outro ano, igualmente produtivo, cheio de realizações e conquistas. 
Deixo aqui a todos os leitores, amigos, seguidores, um Próspero e feliz ano de 2015. Muita saúde, paz, amor e fraternidade. 

Décio Adams

Um japonês especialista em cachaça – Capítulo XI

 

 

Paróquia São Pedro Apóstolo, Moóca – SP

 

11. Cresce popularidade do Bar.
            O funcionamento simultâneo do bar junto com o restaurante, além das mesas de jogos, tudo muito bem organizado e limpo, fez crescer a popularidade do estabelecimento de Manoel. As fotos tiradas durante a inauguração ficaram boas e teve dificuldade em escolher algumas para tirar mais cópias. Para isso teve a ajuda de Eduarda e também de Francisco. Levou as escolhidas com os negativos ao laboratório e em três dias estavam prontas. Pode escrever no verso de cada uma algumas palavras, além de uma carta à família. Colocou tudo em um envelope reforçado e foi colocar no correio.
 
            Devido ao peso o preço foi um pouco salgado, e ainda o envio registrado contribuiu para isso. Queria que não ocorresse risco de extravio, pois as fotos eram importantes. Os documentos para o casamento haviam sido encaminhados estando tudo dentro do previsto. A data foi escolhida e marcada a hora. Por disponibilidade de horários escolheram o dia 08 de janeiro. Teriam preferido uma data no começo de dezembro, mas era muito próximo e não havia como encaixar o dia, nem horário. Era bom dessa forma. Teriam alguns dias a mais para providenciar tudo com mais calma. O mês de janeiro, devido ao período de férias, era, segundo falou Francisco, menos movimentado e poderiam usufruir de alguns dias para viajar em Lua de Mel. Faltava escolher o local para essa viagem.
 
            Ir para casa de parentes nem pensar. Era um momento exclusivamente deles. Queriam estar a vontade para se dedicar sem reservas um ao outro, se descobrir, se saborear e assim estabelecer um vínculo que esperavam fosse eterno. A época era de muitos desquites, falava-se em legalização do divórcio, mas nem Eduarda, tampouco Manoel pensavam nessa hipótese. Os dois não estavam exatamente em idade de fazer loucuras. Ela tinha completado 28 anos e ele beirava os 50. Estavam maduros para um relacionamento duradouro. Pretendiam ter filhos, mas com moderação, pois os tempos não estavam para colocá-los no mundo apenas pelo prazer de dizer: meu filho. Era necessário cuidar de alimentação, vestuário, educação e garantir um futuro mais promissor.
 
            Junto com a popularidade, vieram fregueses de outros bairros, mesmo viajantes que passavam a passeio ou a trabalho, passavam horas de lazer à noite ali. Assim ficou sendo um ponto de encontro de pessoas de diferentes procedências e atividades de trabalho. Uma verdadeira salada de profissões, cores, origens e idades. Havia quem viajasse pelo nordeste, pelo centro oeste, pelo sul, sudeste e norte. Em cada lugar que visitavam era possível identificar alguma coisa de típico. As conversas geraram amizades, trocas de informações e até negócios de certa monta começaram a ser combinados ali, durante uma partida de sinuca, futebol de botão, ou diante de um copo de cerveja com salgadinhos.
 
            Depois de percorrer as diferentes regiões, alguns apareceram e deram a Manoel exemplares de garrafas com cachaças típicas das mais diferentes regiões. Em pouco tempo tinha uma grande variedade. Inicialmente ele as havia colocado em exposição, mas com o aumento do seu número, ameaçavam ocupar o espaço necessário para expor as bebidas que estavam à venda. Como as havia recebido de presente, não tinha intenção de vende-las. Ficariam ali para formar uma coleção. Um cliente sugeriu que mandasse fazer um armário estreito, para colocar junto à parede. Ocuparia pouco espaço vital e deixaria as garrafas expostas para todos verem.
 
            O casamento estava chegando perto e Manoel decidiu deixar essa decisão para depois da volta da lua de mel. Haviam resolvido passar alguns dias em uma pousada no interior de Minas Gerais. A primeira escolha tinha sido Salvador, Bahia. Quando participaram do curso de preparação para o casamento exigido pelo padre da paróquia, a médica encarregada da palestra sobre cuidados com saúde, fez algumas ponderações. O fato de iniciarem um relacionamento íntimo, especialmente se a noiva ainda fosse virgem, tornava a água salgada desaconselhavel. O rompimento do himen, a fricção dos órgãos genitais durante o ato conjugal, aliados ao sal, poderiam ocasionar irritações. Algo indesejável no momento que estariam iniciando a vida a dois. A profissional foi clara e direta sobre esses assuntos, levando uma porção de casais a mudar seus planos imediatos.
 
            Uma estadia em uma estância de águas termais, seria bem mais aconchegante e tranquila nesse momento. Foi por isso que escolheram fazer um tour pelo interior de Minas, sem se fixar em um único lugar. Manoel estava bem acostumado a dirigir na estrada e teriam tempo para apreciar cada momento, cada lugar. Seriam os primeiros dias só deles dois. O resto de suas vidas dependeria em grande parte do sucesso ou fracasso desse começo. Escolheram um roteiro, percorrendo a capital Belo Horizonte, Sete Lagoas, Uberlândia, Uberaba e mais alguns lugares. Haveria sempre a possibilidade de mudar o roteiro se alguma coisa assim exigisse.
 
            Os últimos tempos haviam sido de reforma geral na moradia do andar superior. Muitas vezes Manoel tinha que cuidar para não tropeçar nos materiais que ficavam por ali, para serem usados. A pintura foi toda refeita, assunto em que a future dona da casa foi chamada a dar sua opinião. Depois de feitas as reformas, trataram de adquirir o mobiliário básico. Nem tudo iriam comprar no primeiro momento, em especial os utensílios e mesmo eletro domésticos menores. Os convidados poderiam escolher para lhes dar de presente e ficariam com duplicidade. Isso significaria ser obrigado a trocá-los por outras coisas. Poderiam deixar para completar o que faltasse depois de fazer o balanço final. A paróquia onde o casamento seria realizado, dispunha de amplo salão de festas que era colocado à disposição, por uma pequena taxa, especialmente para a limpeza posterior ao uso.
 
            Isso deixava a preocupação com o espaço para a festa resolvido. Os convites haviam sido confeccionados e enviados. Manoel não tinha parentes aqui e convidou os antigos colegas de trabalho mais próximos, bem como os irmãos. Apenas o mais velho deles prometeu vir, talvez mais algum membro da família viesse junto. Não tinha certeza. A mãe gostaria muito de vir, mas sua saúde precária não permitia a viagem. Torcia para viver até conhecer o primeiro neto desse seu filho que casava tardiamente. O movimento do bar havia aumentado muito e tinham sido contratados mais um garçom e uma garçonete, bem como uma ajudante de cozinha. A casa vivia cheia de fregueses, em quase todas as horas do dia, menos nos horários de expediente do comércio, quando ocorria um alívio.
 
            Francisco se encarregaria de controlar as questões financeiras em sua ausência, orientado pelo contador que se comprometeu a vir inspecionar o andamento das coisas no período de ausência do dono. Ele lhe dissera que era preciso delegar alguma coisa. Ninguém consegue cuidar de tudo, sem fazer concessões a alguém. A tentativa de fazer isso levaria a uma situação de cansaço em tão pouco tempo que inviabilizaria a continuidade do trabalho.
 
            As festas de final de ano Natal, Ano Novo passaram voando e o dia tão esperado chegava cada vez mais perto. Os pais de Eduarda se encarregaram de cuidar dos preparativos, supervisionando tudo no aspecto de alimentos, bebidas e demais detalhes. O vestido de Eduarda estava pronto para experimentar às vésperas do Ano Novo e ela foi fazer a prova para evitar transtornos de última hora. Por sorte a costureira tinha acertado a mão. Apenas pequenos detalhes para ficar em ótimas condições. Manoel encomendara um terno no atelier de um alfaiate que conhecia a muitos anos. Também se encarregou de deixar o noivo em condições de fazer inveja a muitos endinheirados.
 
            Chegou o dia e às 16 h os noivos, acompanhados dos pais e padrinhos estavam diante do juiz que realizou a cerimônia civil rapidamente. Diante da lei dos homens estavam casados. Faltava agora a benção do sacerdote como representante de Deus para deixar a união de ambos dentro do que preconiza a sociedade. Embora houvesse quem dissesse ser desnecessário tanto papel, eles preferiam seguir os ditames tradicionais. Não custava nada cumprir os ritos e se colocar dentro do que é de costume.
 
            Depois da cerimônia civil, seguiram novamente para seu domicílios e se prepararam para a cerimônia religiosa. Agora a noiva usaria seu vestido branco, a grinalda e o véu, bem como o bouquet de flores. Quando os relógios marcara 18 h estava Manoel a postos ao lado do altar, rodeado dos padrinhos e seu irmão com a esposa que haviam vindo para a festa. Haviam chegado antes do Ano Novo e aproveitaram para conviver alguns dias, bem como conhecer a nova integrante da família. Logo depois da partida dos noivos para sua viagem, o casal embarcaria de retorno para Portugal.
 
            A cerimônia foi singela, sem muita ostentação. A igreja fora ornamentada com capricho, mas sem exagero. O fato mais importante iria ocorrer ali diante do altar, não no meio da igreja, ou ao longo do corredor. Após a cerimônia, foi o momento de assinatura dos livro de registros de casamento por noivos, padrinhos pais, irmãos e outras testemunhas, além do padre é claro. A tradicional chuva de arroz aguardava os noivos ao saírem da porta da igreja, onde embarcaram no automóvel e deram volta a quadra, entrando pelo lado oposto para chegarem ao salão de festas. Os convidados haviam passado por uma porta interna para o espaço de festas. Outros tinham ido diretamente do exterior para ali.
 
            Foram recepcionados com discursos dos padrinhos, um colega de Manoel disse algumas palavras, elogiando a atuação do mesmo enquanto haviam trabalhado juntos. Logo veio a comunicação de o jantar estava servido, esperando os comensais. Como membros da comunidade portuguesa, não poderiam deixar de predominar pratos à base de bacalhau, além de outras iguarias. De bebidas havia vinho e também cerveja, além dos refrigerantes variados. Algumas brincadeiras foram realizadas durante o transcurso da refeição, homenagens foram rendidas aos noivos, poesias foram declamadas, um grupo de canto e viola executou alguns números de músicas típicas, antes de ser cortado e distribuído o bolo de casamento.
 
            Os noivos se posicionaram adequadamente para que o fotógrafo conseguisse obter uma imagem nítida e clara do momento. O enorme bolo foi sendo cortado depois por mulheres presentes, sendo distribuídos pequenos pratos plásticos com garfinhos também plásticos. A enorme quantidade de talheres que seria necessária, tornava o uso dos metálicos de uso diário, inviável. Dessa forma, uma vez terminado de consumir seu pedaço, deixava-se o prato e garfo sobre a mesa, de onde eram recolhidos e jogados em uma lixeira estrategicamente posicionada. Entre abraços, desejos de felicidade, boa sorte e outros votos, chegou o momento de partirem. Tinham reservado um apartamento em um hotel de São Paulo mesmo, do qual apenas os familiares de Eduarda sabiam o endereço e telefone.
 
            Na manhã seguinte continuariam a viagem para Minas Gerais onde iniciariam realmente seu passeio e descanso. Realmente partiram cedo, por volta das 7h 30minutos. A estrada estava mediamente movimentada, sendo que o sol começava a elevar a temperatura. Algum tempo depois do almoço alcançaram a divisa entre São Paulo e Minas, de onde ainda iriam percorrer um trecho até chegarem ao primeiro hotel reservado. Haviam planejado ficar ali apenas uma noite e talvez parte do dia seguinte, quando concluiriam o percurso até Belo Horizonte. Assim aconteceu, chegando ao destino perto do anoitecer do segundo dia de casamento. Os próximos 5 dias seriam gastos em conhecer todos os pontos pitorescos da capital mineira e seus arredores.
Rua de Belo Horizonte.

 

Vista aérea parcial de BH
 
            Nesse ritmo seguiram por três semanas, percorrendo uma porção de lugares, cada qual mais interessante, todos no interior do estado mineiro. Quando finalmente empreenderam o caminho de retorno, estavam próximos à divisa com o estado de Goiás. Partiram bem cedo pela manhã, pretendendo alcançar São Paulo, encerrando a viagem, até o começo da noite, com alguma folga. Se ocorresse algum imprevisto, poderiam pernoitar no caminho, mas a meta era chegar em casa. Eram quase oito horas da noite do dia 30 de janeiro quando chegaram ao portão de entrada para a garage de sua moradia a partir desse momento. O bar ainda estava em pleno movimento e pouca gente se deu conta de sua chegada.
 
            Francisco e os auxiliares estavam ocupados demais em atender aos fregueses, para poderem cuidar do movimento no exterior. Dessa forma, ficaram todos surpresos, quando por volta de 9h30, Manoel entrou subitamente no recinto, vindo da parte interna. Em seu encalço vinha Eduarda e os dois foram saudados pela maioria dos frequentadores já seus conhecidos. Os que eram novos logo souberam de quem se tratava e se uniram aos vivas dados pelos demais. Os frequentadores que haviam estabelecido uma relação de amizade, vieram de imediato cumprimentar o casal, indagar da viagem, se tudo correra bem.
Ouro preto

 

Ouro Preto 2
 
            Enquanto Manoel circulava pelo salão cumprimentando a todos, Eduarda foi até a cozinha. Foi ver Arminda e a nova auxiliar que estavam ali ultimando a limpeza e deixando algumas coisas preparadas para alguns pedidos tardios que sempre havia. Embora fosse dia de semana, um e outro freguês em geral ficava para até depois das 22 horas. Arminda a cumprimentou e olhou fixamente  seu rosto sorridente, bem disposto, concluindo que a viagem, como também o início da vida conjugal havia corrido da melhor forma possível. Viúva que vivera uma vida profícua com o marido por longos anos, sabia ler no olhar de uma semelhante os sinais de satisfação com seu estado do momento. Ficou contente, pois vira mulheres passarem anos sofrendo as consequências de uma lua de mel com desfecho desagradável.
 
            Nunca conseguiam uma harmonia total, restando sempre alguma coisa, um ressentimento, um trauma ou uma ponta de tristeza. Algo que não fora satisfatório era motivo de muita tristeza depois. Trocaram algumas palavras e as duas estavam se preparando para voltarem para casa. A hora de encerrar o trabalho já havia passado, mas se deixassem tarefas inconclusas teriam mais trabalho na manhã seguinte. Assim, mesmo se chegassem alguns minutos depois da hora, encontrariam tudo em condições de iniciar logo as atividades do dia, sem sobras do anterior por terminar. Despediu-se de ambas e foi para junto do marido que estava em meio a um grupo de frequentadores conversando.
Uberaba, turismo (Chico Xavier)

 

Vista de Uberaba
 
            A sua chegada silenciou a conversação em geral, sinal de que haviam estado a falar de assuntos, considerados impróprios para serem comentados diante da jovem esposa do amigo. Percebendo o fato ela falou sem rodeios:
            – Por que foi que se calaram de repente? Pensam que meus ouvidos são muito delicados para o que estavam falando?
            – É que a gente não lhe conhece direito e não queremos ofender nem melindrar a senhora, – disse um dos mais falantes.
            – Pois podem continuar. Todos os assuntos que interessam ao meu Manoel, também me interessam.
 
            Entreolharam-se de modo significativo e Manoel, para descontrair, fez a apresentação da esposa aos fregueses. Todos indistintamente apertaram sua mão e desejaram muita felicidade na nova vida que iniciavam.
            – Obrigado a vocês. Sei que em muitos momentos vou estar ali, atrás do balcão atendendo vocês a partir de hoje. Por isso, façam de conta que sou apenas mais um de vocês e sejam alegres, brinquem e falem as besteiras que quiserem.
            – Cuidado, meu bem! Essa turma fala cada uma de arrepiar até cabelo de relógio. Imagine você, minhã dama, minhã rainha. Não é bom dar liberdade demais a eles.
            – Para começar eu consegui ouvir parte de uma frase que fazia alusão a capacidade de meu Manoel ser capaz de me satisfazer como mulher. Pois saibam que ele é um homem com H maiúsculo. Acho que se não fossem as pílulas ele teria me deixado grávida umas dez vezes só nessas três semanas.
 
            Manoel ficou vermelho igual a um tomate e os amigos caíram em uma gargalhada que se espalhou por todo salão, chamando a atenção dos demais presentes. Logo outros vieram para perto, curiosos por saber o que se passava. Depois de se recuperar do rubor, Manoel falou:
            – Minha querida, assim você tu me deixas encabulado. Vão pensar que eu sou um maníaco insaciável ou coisa parecida.
            – Eu é que não quero catar sabonete do chão perto dele num banheiro de sauna ou vestiário de clube, – falou um mais afoito.
            – E tu pensas que eu iria olhar para uma bunda peluda? Tenho coisa melhor e mais bonita para olhar.
 
            As risadas foram gerais e logo o casal foi chamado para perto de umas mesas no salão de refeições, onde havia casais terminando de beber umas cervejas e comer salgadinhos. Conversavam animadamente e fizeram questão que eles sentassem um momento com eles. As esposas cumprimentaram afetuosamente Eduarda e trocavam com ela olhares maliciosos. Diziam mais com os olhos do que poderiam exprimir em palavras. A hora já estava adiantada e pouco depois, começou o êxodo deixando gradativamente o salão vazio. Francisco e o garçom se encarregaram de baixar as pesadas cortinas de aço, trancando-as. As portas de vidro foram por sua vez fechadas, mas sem ser chaveadas. Em caso de arrombamento, iriam oferecer pouquíssima resistência e apenas provocariam a destruição do vidro, aumentando o prejuízo.
 
            Francisco resumiu os fatos relevantes ocorridos na ausência do patrão e deixaram para analisar tudo com mais detalhes no dia seguinte. Era hora de irem dormir, pois se aproximava das onze horas. Arminda e a ajudante haviam se retirado há mais de uma hora. Provavelmente já estariam em casa, talvez mesmo dormindo. Manoel propôs levar os dois em casa ao que eles se opuseram. Certamente ele viera dirigindo por longas horas, pois havia avisado por telefone sobre a viagem naquele dia. Não moravam muito longe o os ônibus nesse momento andavam depressa, com pouco movimento de passageiros. Iam de metrô e em pouco tempo estariam em suas casas.
 
            Com a saída de todos, Manoel e Eduarda se viram sozinhos em sua casa. Subiram para a moradia e se prepararam para dormir. Os presentes de casamento estavam empilhados em um canto da sala, esperando serem abertos e grande parte. Isso esperaria pelos dias seguintes. Não havia pressa para isso. Estavam cansados da viagem e queriam descansar. Tudo isso sem esquecer antes uma sessão de amor em sua casa. Até aquele momento haviam se amado em diversas camas, sofás, tapetes de apartamentos e mesmo sob o chuveiro. Dessa vez iriam estrear a própria cama, que ainda não fora usada por ninguém.
 
            Um banho reparador viria a calhar para terem um repouso mais efetivo depois. As roupas ainda estavam nas malas, mas o que não tinham levado na viagem estava guardado no guarda roupa. A mãe de Eduarda se encarregara, junto com uma nora de levar para lá os pertences da filha e arrumar tudo a seu modo. Ao voltar ela daria a destinação que gostasse a cada peça, mas pelo menos não estava tudo jogado de qualquer forma pela casa. Ela olhou e encontrou roupas de dormir que costumava usar antes. Estava ansiosa por vestir suas roupas mais aconchegantes. Na viagem tudo havia sido novo e nem sempre eram muito confortáveis nas primeiras vezes. Manoel fez o mesmo em seu lado do guarda roupa e nas gavetas, de onde retirou o pijama predileto, além de um roupão bem surrado.
 
            Entraram juntos no chuveiro e enquanto se lavavam faziam carícias mútuas. Ele ensaboou e esfregou as costas da mulher. Depois foi a vez de receber o mesmo tratamento. Dessa forma saíram do chuveiro tendo mal se enxugado e caíram sobre a cama abraçados. O estado de excitação estava elevado e em instantes estavam entrelaçados se amando apaixonadamente. Manoel não tivera muitas experiências com mulheres enquanto solteiro e Eduarda casara virgem. Mesmo assim, ele soubera conduzí-la ao prazer sem dificuldades e ela se entregara sem reservas ao carinho do marido/amante. Não tardara a aprender retribuir e assim haviam alcançado êxtases intensos, mesmo nos primeiros dias de sua vida a dois.
 
            Ao atingiram o clímax, ainda ficaram alguns minutos trocando carícias e sem perceberem, adormeceram. Algum tempo depois acordaram e apenas puxaram uma colcha para se cobrir pois não fazia frio, apenas o ar mais fresco da madrugada, habitualmente com um pouco de garoa de São Paulo. Dormiram até tarde na manhã seguinte. Nem a preocupação de verificar o andamento de todos os assuntos referentes ao estabelecimento comercial haviam dado resultado. O cansaço e o desejo satisfeito, fizeram a ambos dormirem profundamente.
 
            Ao acordarem e olharem para o relógio de parede, passava das oito horas. No andar de baixo já era audível o ruido do movimento dos primeiros fregueses. Na cozinha os ruídos de panelas, utensílios sendo manuseados, lavados ou guardados. Eduarda acordou por último e viu o olhar do marido dirigido a ela. Tinha um sorriso maroto no olhar e indagou:
            – Já é tarde?
            – Que é que tu achas, meu bem?
            – Meu Deus! Eu dormi igual uma pedra.
            – E eu então! Nem vi a noite passar. Agora já foi e pronto.
 
            Levantaram, fizeram sua higiene matinal alternadamente.  Primeiro foi Manoel enquanto Eduarda arrumava os lenções e travesseiros na cama. Acordou nua e nem pensou em se vestir. Apenas colocou um velho peignoir para cobrir o dorso. Estava só com o marido e, nos poucos dias juntos, tinham passado muitas horas apenas usando a própria pele. Quando ele estava terminando de se lavar, ela chegou e o abraçou pelas costas, encostando a pele em seu corpo. Ele estremeceu e falou:
            – Deixa de me provocar, querida. Assim nós vamos voltar para a cama e só saímos daí bem mais tarde.
            – Algum problema com isso, meu amor?
            – Problema não, apenas vamos deixar de cuidar das outras coisas.
            – Isso tudo tem tempo. Eu te amo tanto, meu homem.
 
            Antes mesmo de se vestirem caíram novamente um nos braços do outro sobre a cama, onde teve lugar mais um ato de amor intense e prolongado. Ao terminarem foram para baixo do chuveiro e tomaram banho. Agora era para remover qualquer cheiro remanescente do suor e emanações dos corpos durante os momentos de sexo intenso. Enxugaram a pele e, enquanto ela se vestia, Manoel desceu para ir ver como estava o movimento. Cumprimentou os funcionários, indagou se havia alguma providência urgente a tomar. Apenas alguns item precisariam ser comprados, mas não havia pressa. Estavam acabando. Não convinha esperar que o estoque se esgotasse, para providenciar a reposição. Poderia deixar para depois, sem problema.
 
            Tomou uma xícara de café com leite, comeu um pão com manteiga e queijo que havia ali. Foi até a porta da frente olhar o movimento da rua, encontrando o tempo nublado, ameaçando chover. O ar estava abafado e quente. Não tardaria a cair uma chuva bem forte de verão, pelo que era possível observar. Logo a esposa, vestindo um conjunto de saia e blusa leves estava ao seu lado. Ele a abraçou pelos ombros, apontou para o céu e disse:
            – Acho que o céu vai abençoar nossa volta com uma chuva bem forte.
            – Minha mãe sempre diz que chuva é benção de Deus! As vezes acho que não é bem isso. Especialmente quando vem com tempestade, granizo, raios e trovões.
            – Isso faz parte da coisa toda.
            – Com certeza. Não se pode fazer nada além de se proteger e cuidar para não sofrer as consequências.
            – Tu já tomaste café?
            – Tomei um pouco e comi um pedacinho de pão. Não estou com muita fome.
            – Vou precisar providenciar algumas coisas para a cozinha. Tu vais junto?
            – Acho que vou. Dessa forma eu conheço os lugares onde tu fazes as compras. Pode ser que um dia eu precise tomar conta do estabelecimento e vou saber onde ir.
            – Seria uma boa ideia aprenderes a dirigir o carro. Tirar carta de motorista também.
            – Tu deixas eu dirigir tua jóia?
            – Não te esqueças que ele é tão teu quanto meu agora. Não temos minhas propriedades, tuas propriedades. Temos nossas propriedades.
            – Vou ver uma auto-escola para aprender e fazer tudo certo. Assim quando sair na rua vou ter tudo documentado.
            – Vamos providenciar isso nos próximos dias.
 
            Os dois pegaram a lista de compras, verificaram com Francisco a situação do Bar quanto à bebidas e demais ingredientes, depois saíram para tratar das compras necessárias. A presença de Eduarda ao seu lado fez com que demorassem mais, pois ele fazia questão de lhe mostrar cada detalhe, cada lugar, conversar com os atendentes ou proprietários. Dessa forma ela seria conhecida e poderia fazer tudo em sua ausência ou impedimento. Voltaram já era próximo de uma hora da tarde. O almoço já estava terminando, havendo apenas alguns fregueses retardatários, que habitualmente vinham nessa hora para comer, devido às suas atividades. Outros tinham trabalhos mais livres e algumas vezes chegavam cedo, outras vinham mais tarde. Isso era corriqueiro.
 
            Os auxiliares se encarregaram de descarregar as compras e colocar tudo em seus devidos lugares. Haviam comprado também mantimentos para uso em sua casa, embora na maior parte suas refeições viessem a ser feitas ali mesmo no restaurante. Estavam começando agora a vida de comerciantes. Iriam dividir as tarefas da melhor maneira possível, procurando evitar sobrecarga tanto para um, como para o outro. Almoçaram e Eduarda subiu para dar um jeito no monte de presentes. Verificar o que poderia ser colocado em uso de imediato, o que seria guardado, o que estava duplicado. Infelizmente havia se recusado a fazer a famosa lista de presentes, para não constranger ninguém a gastar o que estivesse for a de suas posses. Considerava presente algo dado de coração e dentro do poder de comprá da pessoa.
 
            Em algumas ocasiões ouvira pessoas, convidadas para casamentos reclamarem. Tendo sido entre os últimos a fazer a comprá, lhes restara um utem muito caro e que nem eles mesmos dispunham em sua casa. Considerava presente algo da escolha de quem oferece e não uma exigência de quem recebe. Esse procedimento fazia pensar que a festa de casamento tinha por objetivo equipar a casa do casal, sem ser necessário dispor de nada dos recursos próprios. Isso talvez funcionasse entre pessoas todas de mesmo nível econômico, onde essas despesas eram de menor importância. Ao se convidar pessoas queridas, de condição mais humilde, corria-se o risco de provocar situações deveras indesejáveis.
 
            Ao final da tarde havia empilhado uma porção de itens repetidos, junto com os embalagens e possibilidades de identificação da origem. Talvez seria possível efetuar a troca por outras coisas de que tivessem necessidade. O que não fosse possível trocar, guardaria e usaria para presentear pessoas em ocasiões futuras. Para isso precisaria guardar dentro da embalagem e sem danificar. Havia também louças, jogos de faqueiros, travessas de porcelana, e diferentes objetos. Muita coisa era mais ornamental do que útil, mesmo assim deixaria para escolher em comum acordo com Manoel o que ficaria para seu uso no presente ou futuro.
 

 

            A tarde transcorreu depressa. Nesse meio tempo Manoel havia ido ao banco, verificar a situação das contas, os investimentos, pagar taxas e faturas diversas. Era preciso passar em várias agências e dessa forma consumiu a tarde inteira, ficando alguma coisa para o dia seguinte. Era comum precisar enfrentar filas em vários lugares, de forma que não se podia chegar, resolver e sair. 
 
OBS.: imagens tiradas de páginas na internet, identificadas como imagens de determinado lugar, ou sites da instituição, prefeitura. 
 
 
Uberlândia vista noturna.

 

Aeroporto de Montes Claros.

 

 

 

Reminiscências da minha infância.

Meua avós maternos, Berta Dewes e Mathias Dewes. Saudades.

Vista de propriedade rural tradicional.

Por do sol em minha terra natal.
Reminiscências da 

infância!
            Ano novo chegando, expectativas variadas sempre presentes nesses dias. Ao mesmo tempo me ocorrem determinadas lembranças guardadas na memória, do tempo de criança, nesses dias de festas. Nasci e cresci no interior do Rio Grande do Sul, bisneto de imigrantes alemães, o que faz minhas recordações terem forte teor da cultura herdada dos antepassados vindos do exterior. Por outro lado trazem traços de integração às diversas culturas encontradas aqui nas décadas pós-colonização.

            Com relação ao Ano Novo, tenho especial lembrança de uma atividade desenvolvida por meu avô materno Mathias Dewes. Ele sabia declamara maravilhosamente uma poesia em que evocava a despedida do ano velho e saudava a chegada do ano novo. Em determinados momentos a letra do poema pedia música e então meus tios Otmar no acordeão e Raimundo no violão, faziam um ligeiro floreio. Logo depois ele prosseguia com a declamação.

            Tudo isso era feito diante da porta de um morador da comunidade. As colônias na região eram feitas dos dois lados de uma estrada em linha reta, aberta através da floresta. Eu morava na casa deles desde antes dos dois anos de idade. Um pequeno grupo iniciava na casa do primeiro morador, no começo da Linha Paranaguá e prosseguia até o último morador da comunidade. Isso acontecia nas primeiras horas da noite do dia 31 de dezembro. Era normal chegarem em silêncio. Diante da porta, de hábito fechada, meu avô iniciava a declamação e batendo simultaneamente na porta. Pedia ao dono para abrir sua casa e receber o anúncio do Ano Novo. Ao terminar o poema, em geral o grupo era convidado a entrar e lhes era servida alguma comida, como bolo, cuca, bolachas (biscoitos caseiros). Em grande parte das vezes, a comida era acompanhada de um copo de vinho, ou em outros casos de uma espécie de caipirinha, num copo bem grande. Os músicos tocavam e cantavam uma ou duas músicas. Se despediam da família e seguiam para a próxima casa.

            Muitas vezes um membro da família visitada se juntava ao grupo e o acompanhava, até o ponto que considerasse conveniente. Depois retornava à sua casa. Até mesmo alguns descendentes de poloneses que moravam no meio da colônia, recebiam com extremo carinho o grupo. Apesar de não entenderem a língua ou pouco pelo menos, sabiam qual era o espírito que animava, especialmente o declamador da poesia, meu avô. Geralmente, quando chegavam à própria casa onde meu avô residia, passava bastante de meia noite. Lembro de algumas vezes em que acordei e assisti aquele ritual. Era emocionante ouvir a voz forte e grave de seu Mathias declamando a poesia. Ali ele não era o dono da casa, era o anunciador do Ano Novo. Quem fazia as vezes de dono, era minha avó, Berta (Seibt) Dewes. A essa altura o grupo já se multiplicara bastante, apesar de alguns terem voltado algum tempo antes. Nesse ritmo, demorando ora mais ora menos, dependendo da situação, era comum retornarem para casa somente ao clarear do dia, até mesmo com o sol despontando no horizonte.

            Houve uma nota de desgosto em todos os anos que eu assisti meu avô, sair a cada novo ano que surgia, anunciar as boas novas. Infelizmente, o fato de servirem bebidas na maioria das casas, levou alguns acompanhantes interessados apenas nesse aspecto, a exagerar e cometer deslizes, causando alguns desentendimentos com moradores. Nos últimos dois ou três anos que meu avô dispôs de saúde para fazer o anúncio, ele deixou de fazê-lo por causa dos problemas ocorridos. Havia quem se recusasse a abrir a casa, com receio de comportamento inadequado de parte de algum dos acompanhantes. Tamanho foi o desgosto que, nem deixar a poesia escrita para a posteridade ele quis. Pensei que um dos meus tios, Edgar Deves, tivesse guardado um caderno com a anotação, mas não existe cópia. Era meu desejo tentar traduzir o poema e, mesmo não sendo possível fazer o anúncio, poderia servir para alguma forma de atividade a ser desenvolvida nesses dias tão carentes
de anúncios de boas novas.

            Em 1958, ano em que eu completei 10 anos, meu avô ficou doente. Uma aterosclerose progressiva nas artérias cerebrais, gradativamente lhe tirou os movimentos, a fala e em 1964 o levou para a sepultura aos 66 anos de idade. Lembro de seus cabelos brancos, um pouco crespos, cortados curtos; suas rugas, as mãos calejadas, o chinelo de couro, sempre um pouco mal encaixado, especialmente no pé direito, onde o calcanhar sempre apoiava na terra. Levava os chinelos meio soltos, arrastando a parte posterior, levantando uma pequena nuvem de poeira na estrada de terra. Eu o vi de sapatos nos pés em poucas ocasiões. Adorava ler, contar histórias, tinha uma gargalhada característica que era emitida em ocasiões mais raras. Foi ele que comprou o primeiro rádio a bateria que eu conheci. Lembro o formato, o dial, os botões de comando, liga/desliga, volume, ondas curtas, médias e sintonia. Apenas esqueci a marca. Depois dessa aquisição o lugar de reunião da família após o almoço era na sala ao redor do rádio, ouvindo um programa da Rádio Cerro Azul, de Cerro Largo, onde um locutor de origem alemã fazia um programa de variedades, falando em alemão.

Era em algo assim que eu ouvi minhas primeiras notícias, músicas e outros programos nos anos 50.

Esse também é do tempo de minha infância.

            Ele era ouvido em toda região, inclusive na província de Missiones na Argentina, onde existe uma vasta colônia de origem alemã. Uma das partes mais apreciadas eram as homenagens de aniversário. Eram oferecidas músicas ao homenageado, sempre precedidas de algumas frases, previamente escritas por alguém que havia preparado o programa e enviado ao locutor. Lembro em especial de um aniversário de minha avó. Ele, seu Mathias preparou em segredo uma longa lista de músicas oferecidas pelos filhos, netos, amigos e vizinhos, cada uma precedida por algumas frases escritas por ele em combinação com que era o que dedicava a música. Era um momento de confraternização inigualável. Muito mais que hoje a televisão consegue, mesmo nos momentos mais impactantes.

            Seu Mathias era habitualmente um homem calmo, comedido em suas palavras. A única ocasião em que alterava a voz era quando voltava do “bolicho” depois de tomar um “martelinho”, ou seja um ou dois goles de cachaça. Não era alcoólatra, mas acompanhava os conhecidos que ali se reuniam e, antes de fazer suas compras, aproveitavam para tomar um trago e depois voltar para casa. Nessas ocasiões ele chegava um pouco tonto e se alguém dissesse algo a respeito ele ficava bravo. Nesses momentos ele alterava a voz, no resto do tempo falava firme e decidido, mas nunca elevava a voz acima do tom de conversação. Ele faleceu pouco antes de eu completar 16 anos. Hoje estou com 66, portanto já se passaram 50 anos e eu consigo evocar sua imagem sorridente, bonachona e querida como se o tivesse visto há bem poucos dias. Vovô Mathias e vovó Berta, suas imagens estão para sempre gravadas em minha mente. Posso viver mais muitos anos e creio que jamais os esquecerei.
Tio Otmar e esposa Clara (madrinha)

            Meu tio Otmar, tocava acordeon, na minha opinião com ótimo desempenho. Lembro que passei algumas horas parado ou agachado ao lado de sua cadeira ouvindo ele tocar e acompanhando com o pé o ritmo da melodia. Quando ele se casou com minha madrinha Clara Bogorni, eu tinha 4/5 anos (ainda não estava na escola). Ao voltarmos da igreja após a cerimô
nia religiosa, estávamos na carroceria do caminhão do dono da cervejaria e produtora de bebidas, Aloísio Bieger. Quem dirigia era o filho mais velho Armando.
            Meu tio Raimundo, meu padrinho, casou algum tempo depois com Irena Hartmann, na Linha Acre. Lembro que tentei beber um gole de vinho na hora do almoço, mas não gostei. Preferi beber a “sangria”, uma espécie de refresco feito com água misturada ao vinho e um pouco de açúcar.
            Nessa época convivi com os tios Evaldo, Edgar, as tias Hedda e Florida. Essa foi minha babá, pois quando nasci, ela estava completando 10 anos de idade, tendo portanto hoje 76 e mora em Brasnorte – MT. Foi casada com Dionísio Wagner, de saudosa memória. Meus anos de infância foram de convivência em grande parte com adultos. Encontrava pessoas de minha idade na escola e aos domingos a tarde, ao visitar os vizinhos. Nessas ocasiões nos divertíamos com variadas brincadeiras, alternando o uso de bicicletas de pau, triciclos, pneu velho usado para rolar e fazer estripulias diversas. Em outras ocasiões tínhamos estilingues (chamávamos de bodoque) e caçávamos passarinhos. Para meu desgosto na época, eu era ruim de pontaria. Dificilmente acertava o tiro. Na época isso me frustrava, ficava triste e acabrunhado, fazendo-me abandonar logo o brinquedo. Anos mais tarde, passei a bendizer essa minha falta de pontaria. Assim não carrego na consciência o remorso de ter matado um grande número de pequenas aves, que para nada serviam em geral, além de satisfazer o ego do atirador.

Tio Evaldo e esposa Lilian

Na casa de tio Evaldo em 1982. 


            Em minha infância jamais imaginei que, ao chegar a idade que hoje tenho, estaria sentado em minha cama, encostado nos travesseiros, com um notebook no colo, digitando textos para publicar em um blog na internet. Conheci telefone ao servir o exército, quando tinha 18 anos de idade. Foi nessa ocasião que vi o primeiro televisor. Ajudei a pagar o aparelho que foi colocado no alojamento de minha companhia, no 2º BCCL em Santo Ângelo em 1967.

            Quanto tempo se passou, mas muito maiores foram as transformações do mundo nesse período. Sei que o tempo não volta. Nem direi que gostaria de voltar no tempo. Dificilmente me acostumaria novamente. Se fosse possível reviver por algumas horas, acho que eu aceitaria de bom grado. Seria ótimo poder correr despreocupado pelo espaço aberto, tropeçar em uma pedra, um toquinho, pisar num espinho, mas sentir o cheiro de mato, terra, vida em plenitude. Isso me dá saudade, não resta a menor dúvida. Tive uma infância muito boa, apesar das aparentes privações e carências de alguma espécie. Porém o que tive, compensou sobejamente o que não tive. Isso é o mais importante. 

Tio Edgar em 1982

Reunião para comer melancia em casa de tio Edgar

Tia Hedda e esposo Edwino Czapla

Lavoura de milho na região nos tempos atuais.

Propriedade de Valdomiro Seibt, visitada em junho passado.

Portal da entrada de Cândido Godoi, sede do município.

Colheita de soja há alguns anos.


Um japonês especialista em cachaça – Capítulo X

 



Um bar movimentado em São Paulo.
Mesa futebol de botão com pés dobráveis.
Mesa de pebolim dobrável.

10. Estabelecimento 

inaugurado.

Pontualmente às 14 h, Manoel e Francisco destrancaram as amplas portas da frente do estabelecimento. Do lado de fora era audível um vozerio levemente alterado. Estavam ansiosos por ver as novidades que o novo proprietario lhes iria apresentar. Haviam estendido do lado interno da porta principal uma vistosa fita de cetim que seria cortada antes de dar acesso à pequena multidão que aguardava do lado de fora. Moveram primeiramente as folhas das portas de vidro em armação de madeira. Depois levantaram a pesada porta de aço que fechava o recinto.
 
Quando terminaram de abrir, os ansiosos fregueses ameaçaram invadir instantaneamente o ambiente, porém um fotógrafo estava postado do lado de fora e falou bem alto:
– Esperem aí gente! Temos que tirar uma foto do seu Manoel cortando a fita de inauguração. Chame a namorada que está na cozinha para fazer parte desse momento.
– Corra á Francisco, chame a Eduarda para vir aqui.
 
Francisco foi logo e Eduarda, vestindo avental, veio meio a contragosto. Antes de se aproximar retirou o avental e a touca que trazia sobre os cabelos para não parecer uma doméstica em serviço. Manoel fez ela segurar a tesoura e cortar a fita, enquanto o fotógrafo tirava sucessivas imagens do evento. Uma vez cortada a fita, Manoel falou:
– Convido a todos para tomarem uma taça de champanha comigo e com minhã cabrocha Eduarda.
– Viva o Manoel! Viva a Eduarda! – gritou Francisco.
O povo respondeu: Viva!


Em instantes o interior se encheu de gente, que se espalhou por todos os cantos. Alguns mais afoitos logo estavam inspecionando as mesas de sinuca, pebolim e máquinas de fliperama. Havia ali diversão para diversos gostos, Francisco e Manoel dedicaram os próximos minutos a remover as rolhas de uma porção de garrafas de champanha, bem gelado. As taças foram distribuídas e a bebida nelas despejada. Quando todos estavam com suas taças, o freguês mais antigo falou:
 
– Um brinde ao sucesso do novo Bar, sinuca do Portuga.
 
Todos ergueram as taças, os cristais tilintaram e logo todos bebiam um gole de suas taças. Ao se esvaziarem, havia mais bebida para ser tomada. O que for a aberto deveria ser consumido. Não havia como tornar a fechar. Nem foi preciso, pois não tardou a ficarem vazias todas as garrafas. Houve que quisesse mais e Manoel disse que havia terminado. Previra a presença de menos pessoas do que vieram de fato.
 
Nesses momento os salgadinhos foram colocados em diversos pontos sobre as mesas do restaurante e também no balcão. Havia pequenos pastéis, empadinhas, coxinhas, porções de queijo e salame, pãezinhos com pate, azeitonas e outros quitutes. Diante da pequena multidão, Eduarda fez sinal ao noivo para lhe dizer que, talvez fosse conveniente providenciar mais alguma coisa para servir, pois viera bem mais gente do que o esperado. Ele decidiu que o que havia providenciado era suficiente. Ao terminar, estaria terminado e quem quisesse permanecer, a partir dali passaria a pagar para consumir. Não prometera um “forra bucho” na inauguração, apenas um coquetel e isso for a servido.
 
De fato. Em poucos minutos as bandejas estavam vazias e garrafas de refrigerante também estavam espalhadas por toda parte. Começaram a recolher tudo e aqueles que haviam vindo apenas pela comida gratuita começaram a retirar-se. No entanto mais da metade do povo permaneceu ali. Alguns organizaram na hora uma competição de sinuca, outro grupo formou duplas de pebolim e também vieram comprar fichas para as máquinas de fliperama. Em poucos minutos o recinto se encheu de conversas animadas ao redor das mesas de sinuca. As de pebolim estavam rodeadas por um grupo menor, porém mais barulhento e as três máquinas de fliperama espalhavam os seus sons por todos os lados.
Jogando futebol de botão.


Em pouco tempo uma grande quantidade de cerveja havia sido consumida, junto com travessas e mais travessas de salgadinhos, agora em regime de comércio. As porções eram anotadas para as mesas, bem como as bebidas. Também apareceram outros querendo jogar baralho e, verificando o alvará, Manoel constatou que não haveria problema, desde que não se apostasse somas elevadas. Tinha um pacote de feijão, cujos grãos serviriam de fichas para o carteado e alguém trouxe os maços de baralho. Dessa forma, a tarde e noite foram movimentadíssimas.
 
Antes do anoitecer houve que viesse perguntar se haveria comida para o jantar, pois não queriam se retirar. Iriam aproveitar esse dia, com preço de inauguração, para matar a vontade de jogar sinuca, ali perto de casa, coisa que até aquele momento tinham que fazer bem longe de casa. Em determinado momento uma guarnição de polícia militar se fez presente para super visionar o andamento de tudo e Manoel os convidou a comerem um salgadinho e tomar um refrigerante. Havia oferecido uma cerveja, mas o comandante recusara. Não era permitido tomar bebidas alcoólicas em serviço. Depois de comerem e tomarem seu refrigerante, deram uma volta por todo recinto, verificando que nada estava fora do normal e se retiraram.
 
Foi preciso providenciar algumas coisas de que Manoel se encarregou, para preparar alguns pratos rápidos para atender aos fregueses. Por sorte encontrou um mercadinho aberto onde comprou carne moída, macarrão, massa de tomate, salada e mais pequenos itens que havia esquecido. Estava tendo um dia deveras cansativo, na inauguração do estabelecimento. O fotógrafo tirara um bom número de fotos para depois poder escolher as melhores. Faria um álbum para guardar e mandaria algumas mais significativas para a mãe e os irmãos. Assim saberiam que ele estava se encaminhando para um futuro promissor.
Mesa de pebolim.


Os fregueses haviam aguardado ansiosos pela reinauguração e agora, pareciam querer ficar ali. Até dava impressão de que temiam sair e ao voltar tudo ter retornado ao que era antes. Os mais entusiasmados vieram um a um congratular-se com Manoel pelo bom gosto na escolha das cores de pintura, os modelos das mesas. Até os mais jovens que se divertiam nas máquinas de fliperama, gastando fichas e mais fichas para superar a pontuação dos colegas. Em determinado momento foi preciso chamar atenção de alguns mais entusiasmados que se punham a bater nas laterais das máquinas. Isso poderia causar danos e o concerto significaria prejuízo. Havia custo e tinha que pensar no tempo em que ela ficaria parada sem uso.
 
            Deu graças a Deus por ter mantido no serviço Francisco da Silva. Era um homem de meia idade, incansável no servir aos fregueses, sempre sorridente e alegre. Nunca se ouvia de seus lábios uma palavra mais rude, uma grosseria. Era importante preservar um servidor deste naipe. Seria seu braço direito no atendimento, em especial nos dias de feriado, finais de semana, começo da noite. Eram estas as horas que os homens aproveitavam para espairecer, jogar conversa fora, tomar uma geladinha, um conhaque ou caninha.
 
Não tardou muito e Manoel sentiu um vazio em sua vida. Conversando com Alfredo durante um intervalo de menos movimento, comentou com ele sua solidão. Após pensar por um instante, o parceiro lhe disse:
– Está na hora de colocar uma mulher na casa. Isto que o senhor está sentindo é solidão, falta de companhia feminina. Eu é que não fico sem minha Esmeralda, de jeito nenhum. Sempre que posso levo uma flor, um mimo qualquer para agradar. Ajudo no serviço da casa, cuido das crianças quando posso.
– Estou noivo e com casamento combinado para o começo, mas tardar metade do ano que vem. Pena que eu acho que já estou passado da idade. Estou chegando nos cinquenta.
            – De maneira nenhuma. Tem mulher que gosta de homem um pouco mais velho. Não reparou no jeito de Eduarda olhar para o senhor? Ela está mesmo apaixonada. Disso pode ter certeza.  
– Sabes que tu tens razão. Vou mesmo dar um jeito nisso. Quem sabe ainda posso ter uns pequeninos. Sabes como chamamos os pequeninos lá na terrinha?
– E como é que chamam as crianças?
– Lá em Portugal as crianças são os “putos”. Isso mesmo que você está ouvindo. Putos e pronto. Aqui é que essa palavra tem outro significado.
– Ora essa. Se eu chegasse lá e ouvisse alguém falar isso dos filhos, ia ficar horrorizado.
– Sabes o pão que aqui chamam “francês”? Em Portugal chamamos isso de “cacetinho”. A baguete, aquele pão francês comprido, é um cacetão.
– Sinceramente, eu ia ficar meio perdido nos primeiros tempos por lá, até me acostumar com esse jeito de falar.
– Isso é coisa fácil. Eu quando vim para cá passei por isso. Várias vezes quase apanhei na rua quando ia comprar pão, ou então quando falava com alguém que tinha crianças pequenas. Precisei acostumar depressa ou teria passado maus bocados.
– Com toda certeza. O povo daqui deve achar estranhíssimo essas formas de usar as palavras. Não ficaria nada admirado se me contasse que tinha apanhado por isso.
– Depois da primeira promessa eu aprendi depressa. Depois da primeira visita na padaria eu aprendi o nome do pão também.
– Pudera. Se fosse mulher a atender então iria ser um pouco pior.
– Mas e quem tu achas que era? A filha do dono e eu quase entrei na lenha, igual cachorro magro.
– Hoje já está bem acostumado com a vida aqui. Até se tornou proprietário de um estabelecimento, o que eu, que nasci aqui, e trabalhando a vida toda não consegui.
– Passei muito apuro, mas nunca deixei de guardar um bocadinho do que ganhava todo mês. Nem que fosse preciso comer pão seco algumas vezes.
– Mas isso também já é exagero.
– Pode ser, mas foi assim que consegui juntar capital para investir na bolsa de valores e ganhei bastante com ações. Fiz vários cursos no SENAI e isso me deu um cargo mais alto, onde ganhava mais. Agora no final ocorreu um acidente e perdi esse dedo da mão direita, além de um pedaço do pé esquerdo.
– Então é isso que o senhor manca um pouco?
– Que dúvida! É pouca coisa mas não consigo dar os passos normalmente por falta da parte da frente do pé esquerdo.
– E lhe pagaram uma indenização?
– Uma indenização e me aposentaram. Por isso eu consegui comprar isso aqui. Se não acontecesse isso eu ainda estaria trabalhando na indústria por pelo menos  10 anos mais.
– Até que não faltava mais muito. A maior parte já tinha passado. Difícil deve ser para quem começa no primeiro dia e pensa na aposentadoria, depois de 35 anos de trabalho.
– Eu nem me importaria. Mas já que aconteceu, que seja feita a vontade de Deus.
 
O dia da inauguração terminara, quando era mais de meia noite. Manoel e Francisco limparam todas as mesas, conferiram as geladeiras e abasteceram com o que restava no depósito. O consume havia ultrapassado em muito a expectativa. Na cozinha as duas mulheres estavam mais que cansadas e Manoel se prontificou a levar os empregados e a noiva para casa, antes de ele mesmo se recolher para dormir. Iria ter problemas de acordar na manhã seguinte para abrir. Mas não queria que eles saíssem a procurar transporte naquela hora adiantada. Fecharam tudo e seguiram rapidamente, graças ao pouco movimento de veículos existente naquele momento. A maior demora foi chegar à casa de Eduarda, pois era mais longe.
Refrigeradores cheios de bebidas.
Cafeteira elétrica .


Isso levou Manoel a propor a antecipação do casamento para a época de dezembro ou janeiro. Ela prometeu analisar a questão e lhe daria resposta no dia seguinte. Teria que verificar também com os pais se estariam dispostos a concordar com a antecipação. Estavam se preparando para arcar com as despesas do vestido e uma participação nas despesas da festa. A antecipação significaria antecipar essas despesas e precisaria ver se isso não iria por em cheque as finanças da família.
 
Manoel voltou, estava com um pouco de fome. Pegou um pão com salame e queijo, um copo de vinho para acompanhar. Terminou de comer, tomou uma chuveirada rápida e foi dormir.

Na manhã seguinte, um pouco sonolento, às 7h e 20 minutos estava abrindo o estabelecimento. Nesse momento lhe ocorreu a hipótese de adotar segunda feira como dia de descanso. Foi então que lembro não ser segunda feira, pois ontem havia sido feriado. Estava na manhã de sábado e não tardou muito para aparecer um freguês que queria um pingado. Por sorte, antes de abrir, preparara café na cafeteria e pusera leite para esquentar. Estava preparado para servir ao freguês. Serviu um tanto de leite num copo e perguntou:
            – Assim está bom de leite?
            – Um bocadinho mais. Gosto de leite com café.
            – O amigo gosta de uma loira então.
            – Isso mesmo. Tem aí por acaso um pão com manteiga?
            – Vou providenciar já. O padeiro trouxe cedo e deixou na porta de entrada.
            – Isso é ótimo. Me veja um no capricho.
            Manoel serviu o café, colocou açúcar à disposição e foi até o armário onde estava guardado o pão, pegou a manteiga e preparou o que o freguês havia pedido. Colocou o pão em um prato pequeno, junto com uma faca e também um guardanapo. Deixou sobre o balcão diante dele e foi até o caixa conferir se tinha a disposição troco para dar na hora de acertar a conta. O freguês não estivera na inauguração no dia anterior. Chegara de viagem tarde da noite e estava indo até o escritório da fábrica para a qual trabalhava para fazer o relatório da viagem. Não tinha tempo de esperar a esposa ou filhas levantarem para preparar seu desjejum. Deu graças a Deus por encontrar o estabelecimento de Manoel reaberto.
            Pagou a conta e saiu, prometendo voltar, especialmente quando tivesse tempo para disputar umas partidas de sinuca ou futebol de botão. Era amante dos dois esportes. Quando ele se retirou, em poucos minutos chegaram Francisco, Arminda e logo depois Eduarda. Os três traziam no rosto os sinais do dia anterior que for a cansativo. Manoel logo falou para eles:
            – Eu vou estabelecer a segunda feira como dia de descanso. Do contrário a gente não vai aguentar o rojão.
            – No tempo de seu Joaquim a gente revezava e ficava aberto todos os dias.
            – Se ficar pesado assim como ontem, só com mais gente trabalhando e isso preciso ver se cabe no orçamento.
            – Senhor quem mandá, patrão.
            – Olhem só a Eduarda e dona Arminda! Estão que é um trapo de cansaço. Vão chegar domingo à noite em frangalhos. Segunda feira é dia de folga para a gente descansar. Os fregueses vão entender com certeza.

            O dia prosseguiu com movimento médio, alguns antigos frequentadores voltaram para almoçar e elogiaram a comida da cozinheira ou cozinheiro. Logo após o almoço, deu um intervalo em que ficou quase vazio. Por volta das quatro horas os primeiros fregueses de sinuca, pebolim e fliperama começaram a chegar. Logo as garrafas de cerveja estavam saindo sucessivamente do refrigerador. Por sorte o caminhão da distribuidora de bebidas passara pela manha e refizera o estoque de bebidas, deixando tudo pronto para enfrentar o sábado e o domingo. Manoel fora até o armazém e mercado municipal, onde providenciara os legumes, saladas e outros produtos indispensáveis para a cozinha. Arminda e Eduarda haviam feito a lista das compras.

            Ao voltar estava com o porta malas do opala, além do banco traseiro, lotados com compras diversas. Francisco o ajudou prontamente a descarregar. Logo começaria o movimento do almoço e diversos fregueses antigos haviam passado pela porta, avisando que viriam avisar. Sábado era dia habitual de feijoada e ele dera essa informação às cozinheiras. Por sorte os ingredientes estavam à disposição na despensa e as duas prontamente haviam iniciado o preparo do prato principal e os acessórios. A couve, as laranjas e detalhes que Arminda gostava de usar para incrementar suas feijoadas, vieram nas compras trazidas por Manoel.

            O almoço foi concorrido e houve quem levasse uma porção para aquecer em casa na hora do jantar. Um fogareiro resolvia o problema e evitava a necessidade de sair de casa. Dessa forma não sobrou caroço de feijão na panela nem farofa, couve ou outra coisa. Por pouco não faltou. Eles mesmos tiveram que se contentar com um pouco de arroz, carne moída com molho e salada.

            Só houvera calmaria por umas duas horas, antes de iniciar o vai vem de gente entre as mesas. Logo havia alguns fregueses sentando às mesas e pediam para jantar. Por sorte havia sido preparada uma refeição leve para servir. Teriam que elaborar um cardápio à medida que fossem descobrindo os gostos e hábitos alimentares dos fregueses. O salão de refeições encheu de gente e novamente a comida ficou por pouco para faltar. Enquanto isso os jogadores consumiam porções e mais porções de salgados, junto com uma enorme quantidade de garrafas de cerveja. Um e outro pedia um refrigerante, ou então um conhaque, mas a maioria pedia mesmo era cerveja. Manoel ficou preocupado com o estoque. Temia ficar sem bebida no final do domingo. Talvez isso colocasse em prática sua ideia de fechar na segunda feira para descanso, mesmo sem querer.

            Em torno de 22 horas da noite, os policiais fizeram a habitual visita para conferir se estava tudo em ordem. O movimento já começara a diminuir e próximo da meia noite os últimos retardatários se retiravam.

            – Ufa! Foi mais um dia de movimento como nunca vi, – falou Francisco.
            – Oigalê! Isso está começando bem, minhã gente. Se continuar nessa toada, vou ser obrigado a contratar mais gente para dar conta do serviço. Só nós não seremos capazes de atender tudo.

            As cozinheiras também estavam exaustas. Concordaram com as palavras de Manoel. Se precisassem fazer essa jornada todos os dias que viessem, não aguentariam com certeza. Até aquele momento os noivos não havia tido tempo de conversar o dia inteiro. Quando não era ele, era ela ou os dois ocupados em fazer tudo que era necessário. Novamente partiram na viajem para casa e depois de deixar Arminda e Francisco os dois seguiram sozinhos. Ela falou:
            – Meus pais concordam com a antecipação do casamento. Não haverá problema. Podemos tratar dos detalhes.
            – Que ótimo, minhã querida. Uma coisa que vai melhorar é não precisar percorrer todo dia essa distância toda para ir e voltar.
            – Não podemos deixar para muito tarde com os documentos. Tanto na igreja como no civil. Costumam demorar um pouco e se formos fazer isso em cima da hora vão criar caso.
            – Certamente, certamente. Vamos tratar disso logo na semana que vem ou depois. Acho que então dá tempo de tudo ficar pronto.

            Ao chegarem ao portão ela deu nele um beijo rápido, desceu e entrou. Estava cansada a mais não poder e queria dormir logo. Ele pós o carro em movimento e iniciou a volta. Demorava bem meia hora para chegar e também estava mais que cansado. Nem teve tempo de sentir fome. Tomou um rápido banho e caiu na cama. Só levantou na manhã seguinte com o toque da campainha da porta. Era Francisco chegando e ele se apressou em descer. O empregado o encarou sorridente, caçoando de seu aspecto de cansaço:

            – Nossa Senhora patrão! Desse jeito não vai aguentar o trance.
            – E tu ainda pensas que não devemos fechar na segunda para descansar?
            – Se isso continuar, de fato não vamos ter outro jeito. Outra alternativa é ter mais gente para o serviço. Precisamos esperar uns dias para poder tirar uma base. Pode ser que em uma semana diminua e fique normal, como era antes.
            – Também pode ser que fique sempre mais forte. A reforma, as mesas de jogos e tudo isso, pode fazer aumentar o movimento no geral.
            – Isso seria ótimo. Crescer é uma coisa boa. Progredir já estava fora das ambições de seu Joaquim. Ele só pensava ultimamente em manter o movimento para vender o estabelecimento e voltar para Portugal.
            – Eu não tenho nada contra crescer. Ao contrário, vou ficar satisfeito se o bar ficar sempre movimentado.

            Nesse momento Eduarda, seguida de Arminda entraram. Cumprimentaram os dois e foram para a cozinha iniciar suas atividades. Tinham uma tarefa razoável a desempenhar até ao meio dia.
            Os dois tomaram café e depois se puseram a conferir as bebidas, colocar em ordem as mesas de jogos, limpar o salão para o almoço. Tudo precisava estar em perfeita ordem. Ainda estavam atarefados quando começaram a aparecer alguns fregueses para se divertir no fliperama. A notícia da existência das máquinas ali se espalhara igual rastilho de pólvora pela redondeza. Os garotos adolescentes de toda redondeza começaram a afluir ao estabelecimento e queriam uma chance de jogar uma partida com os companheiros. As três máquinas não pararam um instante durante toda manhã, desde pouco antes das nove horas. Sempre havia alguém a espera, com uma ficha na mão e logo iniciar o jogo. Os pontos se somavam no visor e a torcida era geral. Uns a favor outros contra, parecendo uma competição de grande importância.

            Em torno de onze e meia começaram a chegar os primeiros fregueses adultos. Alguns queriam apenas tomar um aperitivo e depois almoçar, outros tomar uma cerveja e jogar sinuca. De modo que logo o salão se encheu de movimento em todos os lugares. A comida começou a ser servida e o cheiro pareceu atrair os demais fregueses. Muitos moradores das redondezas decidiram dar às esposas um dia de folga, levando a família a almoçar no restaurante reaberto. Novamente foi preciso reforçar a quantidade de alimentos para atender a todos os fregueses. Houve que esperasse por mais de meia hora pela liberação de uma mesa para sentar, mas não desistiram.

            O almoço encerrou e começou a romaria de gente vindo em busca de diversão. Em determinado momento Manoel temeu que faltaria bebida, mas ficou por pouco. Seria preciso providenciar maior quantidade de vasilhame para suprir as necessidades que estavam se mostrando além da atual quantidade existente. Sem dúvida segunda feira seria dia de fechar e manter fechado para descansar. Era necessário refazer as forças para suportar a continuação do trabalho. Estava satisfeito, pois isso demonstrava que fizera um excelente negócio ao adquirir o estabelecimento e o imóvel em um único ato de compra.

            Dessa vez o movimento diminuiu mais cedo e por volta de 22h e 30 os últimos fregueses se retiravam. Trataram de fechar as portas e deixar tudo em ordem para o dia seguinte. Nesse momento Manoel anunciou que estavam dispensados do dia seguinte. Não abriria pois não aguentaria ficar em pé o dia inteiro ali atendendo os fregueses. Queria um tempo para dormir, descansar, ir ao banco depositar o dinheiro que enchia seu cofre naquele momento. Era temerário deixar tamanha soma de numerário no estabelecimento. Um assalto deixaria zerado seu caixa e o estoque. Talvez depois mudasse essa decisão, mas no momento era isso que tinha decidido e não iria mudar.

            Levou os três para suas casas e dessa vez demorou alguns minutos em casa de Eduarda. Os pais estavam se preparando para deitar e aproveitaram para falar e combinar os primeiros detalhes relativos ao casamento. Combinou com Eduarda irem na segunda feira a tarde tratar de encaminhar os documentos na igreja e no civil. Os pais concordaram em que isso era importante providenciar imediatamente. Qualquer atraso nos trâmites deixaria tudo atrapalhado sem tempo de remediar. Isso era desaconselhável.

            Voltou para o bar e estacionou seu carro na garagem, fechando logo depois a porta e conferindo se estava bem trancada. Subiu e logo depois deitava para dormir. A noite passou sem se dar conta e pela manhã ao acordar o sol já estava alto. Levantou, ouviu algumas vozes na porta falando e comentando o aviso que afixara ali de que essa segunda seria de descanso. Houve quem concordasse e aprovasse. Um ou dois discordavam pois um estabelecimento público tinha que estar aberto sempre, a espera dos fregueses. Nem se importou. Eles se acostumariam a isso.


Um pouco de história do Brasil – Cerco da Lapa e Guerra do Contestado, parte IITele

Munumento erigido em Irani, primeiro reduto combatido por tropas do exército.

Área de sepultamente de alguns mortos em combate. 

Capela com um grande cruzeiro na frente.


Guerra do Contestado

Parte II
           
            Quando o clima estava num nível elevado de ebulição. Insatisfeitos, desempregados, despossuídos e carentes por toda região, surgiu um novo personagem. Ele se apresentou como José Maria, irmão ou parente do segundo João Maria que por ali havia perambulado. Há quem lhe atribua origem argentina, outros dizem que era ex-cabo do exército, sem que ninguém saiba a verdade. Paira sempre uma dúvida, pois não existem documentos, pelo menos até o momento, para comprovar alguma coisa.

            Dizendo-se irmão de João Maria, possuidor de algum grau de instrução, tanto que tinha conhecimento de propriedades curativas de plantas, além de rudimentos de escrita e leitura. Facilmente se apropriou da herança de João Maria, venerado por muitos como santo, especialmente o primeiro. Em Taquaruçu, perto de Curitibanos, durante uma festa comemorativa, ocorreu um ajuntamento de povo vindo de diferentes direções. José Maria estava presente e o ajuntamento se prolongou. Dividiam os alimentos por igual entre todos, os mais abastados mantinham os demais. Isso causou preocupação em Coronel Albuquerque, superintendente (prefeito) do município. Era também membro do congresso estadual, pelo mesmo partido do governador do estado.

            Pediu ao governador reforço de tropas da guarda nacional e polícia catarinense para dispersar o ajuntamento. O povo estava ali  não reunido para combate, mas em busca de ajuda, sustento e cura de seus males. A dispersão ocorreu o grande parte dos já seguidores de José Maria migraram para a região de Palmas, mais precisamente no Irani, onde se formou um reduto, já sob a chefia de José Maria. Mantinham no entanto características pacíficas, falavam em “santa religião”, monarquia, e algo que mais tarde foi denominado de “comunismo caboclo”. Junto com José Maria haviam migrado um dos seguidores mais próximos Eusébio e sua mulher Querubina.

            A nova localização do reduto, preocupou as autoridades paranaenses, que consideravam a região parte do seu território. O Coronel João Gualberto, chefiando uma tropa de mais de 300 homens, com armas de guerra, fuzis, metralhadoras e obuses de campanha se deslocou para lá. Ao acampar nas proximidades, o comandante recebeu um bilhete, levado por um caboclo de parte de José Maria. Dizia que não tinham necessidade de brigar, pois não eram intrigados. O reduto não tinha finalidades bélicas, não pretendiam agredir ninguém. João Gualberto, saíra de Curitiba levando cordas, prometendo levar José Maria e os outros líderes amarrados para desfilar na capital. Acreditavam que os redutos de caboclos era estratégia das autoridades catarinenses para forçar a execução da sentença demarcatória dos limites, exarada pelo STF no Rio de Janeiro. Pensavam assim dar um susto nos catarinenses e reverter o quadro.
Coronel João Gualberto, morto em Irani.

       
     Com essa intenção João Gualberto disse ao mensageiro que não recebia o bilhete e iria cumprir a promessa feita. Levaria o líder e seus chegados para desfilar amarrados em Curitiba. Levou consigo apenas 60 homens e encaminhou-se para o acampamento. Os moradores do ajuntamento, não dispunham de armas, além de algumas espingardas, velhos fuzis da revolução federalista e mais antigos. Tinham no entanto uma habilidade ausente nos soldados.  Conheciam os segredos do sertão, eram hábeis no manejo de arma branca como facão, adaga e mesmo algumas espadas. Acoitados no meio do mato, caíram de surpresa sobre a pequena tropa que foi praticamente toda dizimada, inclusive o comandante. Há depoimentos que afirmam ter ele sido degolado por José Maria enquanto tentava fazer funcionar a metralhadora que engasgara, parando de funcionar. Entre os caboclos não houve baixas significativas, além do líder José Maria.

            Os remanescentes da tropa militar, por falta de comando, retornaram para Curitiba, derrotados. Já os caboclos, liderados por Eusébio e Querubina, tendo a filha Theodora como “virgem” que falava em sonhos com José Maria, voltaram para o Taquaruçu e iniciaram um movimento, dessa vez revolucionário. Sentiam-se acossados, de um lado pelas autoridades catarinenses,  por outro pelas paranaenses e ainda sofriam com a presença dos homens da segurança da Brazil Railway e Brasil Lumber and Colonization. Criaram as “formas”, levantaram cruzes, proclamavam o retorno de José Maria dentro de um ano. Ele teria ao seu serviço o exército encantado de São Sebastião. Dentro do reduto era tido tudo em comum. No começo houve quem fizesse doações e mesmo quem se juntasse ao reduto colocando seus bens à serviço da comunidade. Durante algum tempo o comando foi exercido por Theodora, sob inspiração de Querubina e Eusébio.

Carta do tempo do conflito do contestado.

            No ano de 1914 ocorreram diversas derrotas de tropas, tanto federais, como estaduais, apoiadas por caboclos denominados “vaqueanos”. Estes estavam mais aptos a combater os caboclos dos redutos, por serem de mesma origem. Tinham habilidades que os soldados ignoravam. O principal inimigo das forças regulares era a floresta com suas armadilhas. Estavam treinados a lutar em trincheiras, ou então em campo aberto, usando as baionetas. Os facões e adagas tinham desempenho superior na floresta. As várias derrotas dos soldados deixaram para trás um grande número de armas e munições. Todas elas foram recolhidas e distribuídas entre os caboclos. Dessa forma chegou um momento em que dispunham tanto das armas brancas em cujo uso eram superiores, como armas de fogo, reabastecidas de munição por comerciantes que não tinham escrúpulos em negociar com eles.
Telegrama de Setembrino ao governo.

            Eram extremamente hábeis em armar “esperas” aos soldados, em locais onde não eram esperados e infligiam pesadas baixas às tropas oficiais. Em 1914 o comando das tropas encarregadas de liquidar os redutos era o General Setembrino de Carvalho, transferido do nordeste para assumir o comando. Preparou uma estratégia de cerco, visando sufocar os rebeldes. Dividiu as tropas em vários grupos que foram deslocados para posições de onde avançariam até encurralar os caboclos. Mesmo assim, o desconhecimento do terreno, a audácia e valentia dos caboclos causaram estragos consideráveis. Em poucos dias atacaram duas estações de trem, causando destruição e morte. O que havia começado como um movimento com ideias pacíficas, por falta de sensibilidade política das autoridades, se transformara numa luta por independência, implantação de uma monarquia em que todos seriam livres, não haveria senhores.
            Entre os rebeldes sucederam-se várias lideranças. Após Theodora veio um rapazola que recebeu o título de “menino-deus”, mas com características similares à virgem. Depois surgiu a neta de Eusébio, Maria Rosa, retratada vestida de branco e montada em um cavalo branco, comandando os rebeldes. Aos poucos as chefias mais moderadas e idealistas foram substituídas por outras lideranças mais próximas das atividades guerreiras. Os assassinatos eram lugar comum.
            Uma coisa era comum nos redutos. A higiene precária, aliada à alimentação deficiente, pouca disponibilidade de água potável, fizeram eclodir epidemias de tifo. Quase imediatamente ocorria uma mudança para outro lugar, onde geralmente era levantado novo povoado de casebres. Um deles foi o de Caraguatá, depois de esvaziarem Taquaruçu. Ali o General Setembrino conquistou relativa vitória, sendo depois disso as tropas federais recolhidas. Ficou ao cargo das autoridades estaduais a conclusão da dissolução de outros ajuntamentos. Esse trabalho se estendeu por 1915 e parte de 1916.

Capitão Ricardo Kirk, primeiro aviador brasileiro, morto em acidente na guerra do contestado.

Hangares construidos para abrigar os aviões.

Aviões sendo montados ao chegar. 

            Pesquisando na internet sobre fotografias da época, encontrei algumas de aviões da época. Na continuação encontrei um texto narrando a vinda, de três aeronaves sobre um vagão de trem para serem usadas no conflito. Construiram-se hangares, pistas de decolagem em vários pontos como União da Vitória, Rio Negro e outros. O primeiro piloto brasileiro a dispor de brevet, expedido na França, além de outro italiano, instrutor de voo no aeroclube do Rio de Janeiro vieram para voar. Dois aparelhos caíram, sendo que o segundo vitimou fatalmente o capitão Kirk, primeiro piloto e também primeira vítima de acidente aéreo em terras brasileiras. Foi ali que se tentou usar pela primeira vez o novo meio de transporte como arma de guerra. Assim encerrou-se essa atividade, antes mesmo de entrar em ação efetivamente.

Rebeldes prontos para combate.

Soldados protegidos por parapeito de madeira.

Grupo rebelde disposto a luta. 

            O último chefe rebelde foi Deodato ou Leodato. Homem cruel e sanguinário segundo alguns depoimentos. Já outros o consideraram justo e bom. Pouco antes de seu tempo havia os líderes menores como Castelhano, Chico Ventura, Negro Olegário e outros que estiveram de certa forma sitiando a cidade de Lages. Ao assumir o comando, Deodato mandou todos os “piquetes xucros” recolher causando descontentamento nos líderes. Castelhano e Olegário ao que consta, não se submeteram. Lutaram em diferentes lugares por sua conta com as forças de que dispunham. O último ajuntamento foi em Santa Maria, num local bastante seguro e difícil acesso. Ali resistiram por muito tempo, até que um oficial vindo do setor norte, de nome Potiguara, conseguiu atravessar a densa área de floresta e surpreendeu os rebeldes pelo lado em que não esperavam.
            Isso provocou a fuga de muita gente, além de grande número de rendições pacíficas. Havia muitos que tinham sido levados para ali a força e na verdade estavam esperando uma oportunidade de escapar. O comandante Leodato conseguiu evadir-se, ficando por alguns meses escondido no mato. Por último se entregou às autoridades dizendo-se cansado de lutar.  Foi conduzido para Florianópolis, onde foi submetido a julgamento e condenado. Enquanto cumpria a pena, aprendeu o ofício de sapateiro e trabalhava na sapataria da prisão. Um desentendimento levou-o a matar um companheiro de prisão. O encarregado da prisão, dizendo-lhe facilitar a fuga, simulou sua evasão. Quando ia sair, alvejou-o pelas costas, com um tiro certeiro, matando-o ali mesmo.
            Muitos caboclos, mesmo não sendo parte dos rebeldes, foram caçados e mortos ou apri
sionados no interior. Demorou um tempo longo para cicatrizar as feridas abertas pelos combates que se estenderam por longos quatro anos. Ao final da contenda, finalmente ocorreu também a assinatura de um acordo entre as autoridades paranaenses e catarinenses, relativo aos limites de território. Desde então os passaram a existir onde antes havia litígio as cidades de União da Vitória do lado paranaense e Porto União do lado catarinense. Assim também Rio Negro e Rio Negrinho. Um vasto território hoje pertencente a Santa Catarina, desde Palmas até a divisa com Argentina na região de São José do Cedro, Santo Antonio do Oeste, São Miguel do Oeste, e outros, passou longos anos sob litígio. Depois disso essa região foi colonizada por um contingente considerável de colonos provenientes do Rio Grande do Sul, descendentes de imigrantes italianos, alemães e outras etnias.
Mapa da região do contestado.

Familia cabocla. Mulheres vestidas de branco.

Militares em momento de descanso durante a guerra.

            Não tenho pretensão de escrever um tratado histórico sobre essa época. Isso é atividade para historiadores. As fontes que consultei, apresentam os dados bastante difusos, sem uma cronologia definida. A tese de Paulo Pinheiro Machado, é riquíssima de informações, mas cheia de idas e vindas. Ora avança para os dias finais, ora retorna ao começo. Uma compilação detalhada, organizando os fatos em ordem cronológica, tornaria o assunto mais acessível ao leitor em geral. Existe material em boa quantidade disponível na internet. Basta disposição para procurar e depois ler um por um, levando ao final a formação de uma noção conjunta.
            Como última pincelada, quero acrescentar que o líder Deodato, era filho de criação de um fazendeiro Neco Peppe. Em determinado momento Deodato invadiu a fazenda de Necco e o assassinou sem motivo justificável. Matou sua mulher e se casou com a comadre, viúva. Havia entre eles um escrivão que se encarregava de fazer os registros civis, pelo menos de parte das ocorrências como nascimentos, mortes e casamentos.
            É lamentável o fato de que, pelo menos nas escolas paranaenses, muito pouco ou mesmo nada é estudado sobre esses acontecimentos nas aulas de história. Tirei a dúvida perguntando ao meu filho e ele sabe alguma coisa de notícias veiculadas na mídia, especialmente por ocasião do filme nacional produzido sobre o conflito. Naquele momento houve uma divulgação de alguns fatos. Mesmo um filme, por mais longo que seja, é incapaz de retratar um conflito de cerca de quatro anos de duração. Seriam necessários vários filmes, uma verdadeira série e mesmo assim grande parte das particularidades ficariam sem ser retratadas.

Obs.: Quem tiver curiosidade, procure no site da FGV e encontrará alguns arquivos em PDF que podem ser baixados para leitura. Digitando no google a expressão Guerra do Contestado, irá aparecer uma boa quantidade de links que remetem de alguma forma a informações. Dentre esses há o de imagens. Este é o lugar de onde baixei algumas fotos usadas para ilustrar as publicações dessas matérias no meu blog. Como são fotos antigas, todas são em preto e branco. O crédito de produção dessas imagens são devidas a diversos fotógrafos que registraram os diferentes momentos e deixaram a imagem gravada para a posteridade. 

Grupo de moradores de reduto.

Locomotiva tombada fora dos trilhos.

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NOTA: Ainda estou lendo o material. Volto em outro momento para dar mais detalhes, com outros enfoques e pontos de vista. 

Um japonês especialista em cachaça – Capítulo IX

 

Pátio de embarque aeroporto de Lisboa.

 

 

Aviões taxiando em Lisboa.

 

 

Fachada do aeroporto de Lisboa.

 

9. Mudança total de vida.
            Enquanto aguardava pelo crédito da indenização na conta, Manoel aproveitou para percorrer o bairro da Lapa, Mooca, Bom Retiro e adjacências em busca de algo para comprar. Encontrou vários estabelecimentos à venda. Em alguns casos logo percebia que estariam além de suas possibilidades, outros, embora aparentassem menor valor, os atuais donos pediam valores exorbitantes. Houve um momento em que pensou ser necessário procurar em regiões mais distantes, pois não poderia gastar todo seu capital apenas na compra. Haveria necessidade de dinheiro para algumas reformas, adaptações e para capital de giro.
 
            Decidiu fazer primeiro a viagem à terra natal e depois, com mais tempo, poderia procurar melhor. Dirigiu-se a uma agência de aviação. Iria por esse meio para não gastar tando tempo. Mesmo aposentado, tinha certa pressa em voltar e começar a tratar de seu próprio negócio. Enquanto aguardava o dia do embarque, passou casualmente por uma rua que ainda não havia visitado. Ali deparou-se com um estabelecimento a venda. Em certo momento viu diante de si uma placa que lhe chamou atenção. Lia-se:
           VENDE-SE ESTE ESTABELECIMENTO
 
Tratava-se de um bar, com algumas mesinhas onde eram servidas refeições caseiras. O proprietário, também imigrante da terrinha, já em idade avançada, tinha decidido terminar seus dias junto aos familiares remanescentes em Tras os Montes. Ele  aqui vivia sozinho. Nunca se casara, nem tivera envolvimento sentimental. Com o que tinha guardado no banco e com o valor da venda do bar, poderia custear as despesas para viver uma vida humilde e pacata junto aos irmãos e descendentes, com os quais se correspondia regularmente. Estavam a sua espera havia já algum tempo. Não se cansavam de insistir para que voltasse.
 
Iriam passar as tardes sentados nas praças, quando o tempo permitisse, quando não, ficariam se aquecendo junto à lareira. O que não iriam deixar de fazer, seriam boas caminhadas seguidas de intermináveis partidas de gamão, dominó, trilha e xadrez ou jogando conversa fora. Não queria terminar seus dias aqui, entre amigos, porém estranhos. Estava se sentindo cada vez mais solitário.
 
Manoel pensou um pouco, entrou e foi encontrar o patrício, de nome Joaquim José Lopes. Logo conversavam animadamente sobre negócios e ao final de duas horas haviam combinado o preço e o dia em que iriam a um cartório para formalizar o negócio. A vontade de voltar para a patria fez Joaquim pedir um preço razoável, dentro das possibilidades de Manoel. Isso facilitou a realização da comprá. Para comemorar, Joaquim foi buscar uma garrafa de vinho do Porto, guardada desde longa data. Não faria sentido transportar de volta para Portugal algo tão frágil. A ocasião merecia uma comemoração e nada melhor do que um bom vinho.
 
O excelente vinho acompanhou um prato de queijo e presunto picados, regados a azeite de oliva e orégano. Quando terminaram o vinho, se avizinhava a hora em que Joaquim devia, por enquanto, dar atenção aos seus fregueses. Estes, ao retornarem para casa vindo do trabalho, passavam por ali. Jogar um dedo de prosa fora com algum conhecido, saborear uma cerveja ou então uma branquinha. Depois seguiam seu caminho para casa. Tinham que descansar do dia de trabalho, pois na manhã seguinte a labuta recomeçava.
Avião decolando em Lisboa.

 

Area de check in aeroporto Lisboa.
 
Para Manoel, era imprescindível que os fregueses ficassem contentes, pois logo seria ele que estaria atrás do balcão. Já estava fazendo planos para algumas mudanças, mas isto ficaria para o dia em que estivesse no comando. Por ora apenas haviam acertado os detalhes do negócio. Faltava, no dia seguinte, logo pela manhã, irem ao cartório, formalizar o contrato e registrar os documentos de garantia de uma parte do valor a ser pago com algum prazo. Se fosse pagar o preço à vista, ficaria completamente sem capital de giro e não seria possível tocar o negócio. Era importante reservar um tanto de capital para as mudanças que iria fazer no bar e para garantir o estoque de bebidas e demais mercadorias que iria vender.
 
O representava uma grande vantagem era o fato de que adquirira não apenas o estabelecimento, mas o edifício, incluindo uma ampla moradia no andar superior. Com calma poderia fazer uma reforma em regra e teria onde residir com a future esposa. Voltou para casa assobiando alegremente, em outros momentos cantarolava canções que lhe vinham a memória, evocando os tempos de juventude e adolescência. Antes de ir para o quarto de pensão, passou pela casa de Eduarda e lhe contou as novidades. Queria partilhar com ela sua nova fase, uma vez que, ao que indicavam os acontecimentos, ela seria a companheira de seus dias no futuro.
 
Na manhã seguinte, quando as portas do cartório de registro civil abriram, lá estavam Joaquim e Manoel, ansiosos por terminar com as formalidades e concretizar o negócio. Joaquim estava radiante, pois tivera medo de que demorasse muito para encontrar um comprador para o bar. Manoel por outro lado, estava eufórico com a perspectiva de tornar-se dono de um estabelecimento que, conforme pudera verificar, era bem movimentado. Provavelmente não ficaria milionário, mas esta não era sua intenção. Queria sim ter seu canto para viver com sua cabrocha. Já poderia pedi-la em casamento. Tomou como exemplo o caso de Joaquim, que nunca se casara e levava hoje uma vida solitária e um tanto triste. Queria voltar para Portugal em busca de companhia, alguém com quem compartilhar a solidão.
 
Explicaram ao funcionário do cartório os detalhes do negócio e este, em pouco tempo redigira os termos do contrato, bem como os anexos como Notas Promissórias, integrantes do contrato, para garantir ao vendedor o recebimento dos valores que iriam ficar para trás. Quando tudo ficou pronto, antes de assinarem, dirigiram-se à agência da CEF que ficava perto e fizeram a transferência do dinheiro da conta de Manoel para Joaquim. Com o comprovante de pagamento em mãos, retornaram ao cartório e assinaram os documentos, que ficaram devidamente registrados nos livros do estabelecimento. Saíram dali, cada um com uma cópia do contrato nas mãos e voltaram para casa. Ao se despedirem, combinaram que na segunda feira seguinte iriam iniciar a transferência do estabelecimento.
 
Enquanto isto Manoel iria conversar com o contador, para se inteirar dos aspectos fiscais que o bar envolvia. Tinha necessidade de estar a par de todos os detalhes para não ser tomado de surpresa por alguma coisa de que não tinha conhecimento. Era necessário encaminhar a mudança da razão social para o seu nome. Isto demoraria algum tempo, pois envolvia órgãos públicos, onde geralmente é preciso ter muita paciência, voltar várias vezes para levar mais algum documento que ficara faltando e por aí a fora. Em se tratando de estabelecimento que vendia bebidas e alimentos, bem como a sua intenção de instalar numa área em desuso na parte do fundo mesas de sinuca, futebol de botão, pebolim, havia alguns requisitos que precisariam ser preenchidos para que fosse autorizado o funcionamento. Não queria arrumar confusões com as autoridades. Sua intenção era trabalhar com tudo nos devidos lugares. Licenças, autorizações, atestados e qualquer coisa exigida por lei.
 
            Tratou logo de encontrar um empreiteiro para realizar a reforma. Iria demolir uma parede, para anexar ao salão do bar a área em desuso. Tudo combinado como era de seu gosto, foi dado início à reforma. Quando os trabalhos estavam encaminhados, foi em busca de um fornecedor dos equipamentos que precisava. Não demorou a encontrar uma empresa que lhe alugaria as duas mesas de sinuca, uma de futebol de botão e perolem. Providenciou cadeiras novas, mesinhas para servir bebidas, conseguidas como propaganda da distribuidora de bebidas.
Vista aérea do aeroporto de Lisboa.
Em questão de duas semanas o senhor Joaquim se despediu de Manoel e lhe desejou sucesso com as modificações que estava realizando. Depois tomou um ônibus até o porto de Santos, onde embarcou em um navio de passageiros com destino à Europa. Bem que Manoel lhe havia sugerido viajar de avião. Tinha medo deste bicho que voava. Ele é que não iria arriscar a sua vida naquilo. Era preferível demorar mais alguns dias para chegar, mas não iria por os pés em um avião. Nem amarrado, posto em uma camisa de forças ele iria entrar num troço daqueles. Voasse quem quisesse. Ele iria com o bom e velho navio que era bem mais seguro.
 
Quando as obras ficassem prontas, Manoel estaria voltando de Portugal. Estavam em meados de julho e em dois dias embarcaria para Lisboa. Dali seguiria de trem ou ônibus, o que se apresentasse mais vantajoso. Avisara antes de partir aos familiares de sua próxima chegada. Aqui ficou tudo encaminhado para ficar pronto quando voltasse. O funcionário herdado entrou em férias e voltaria ao trabalho na reinauguração do estabelecimento. Uma cozinheira havia sido contatada para preparar as refeições a serem servidas aos freguêses. Todos eles lamentaram o período em que teriam necessidade de procurar outro lugar para fazer suas refeições. Quem gostou da ideia, foram os fregueses vespertinos e noturnos. Passariam uma temporada sem lugar para ir, mas no retorno haveria à sua disposição os jogos para se entreter.
 
Havia entre os fregueses e vizinhos apreciadores desse tipo de divertimento e antegozavam as horas passadas ali, disputando acaloradas partidas com os companheiros e amigos. Havia quem se preparasse para organizar campeonatos tanto de sinuca como de pebolim. Era ótimo o fato de a venda ter ocorrido entre dois patrícios portuguêses. Assim manteria boa parte das suas características, apreciadas pelos frequentadores.
 
A viagem foi rápida. Quando menos esperava descia no aeropoerto de Lisboa, indo depois buscar sua bagagem. Em pouco tempo estava embarcando em um ônibus que o levou para o Porto. Dali tomou um trem que o deixou em Ancede. Ao chegar, caminhou alegremente para a casa de seus irmãos, onde estava também a mãe. Morava em casas pouco distantes entre si. Em mais de trinta anos, essa era a segunda vez que voltava ali. A última for a poucos anos antes. A mãe ficou preocupada com o fato de ele estar mutilado. Pensou que teria dificuldades no futuro, mas ele lhe afiançou que não tinha com que se preocupar. Estava aposentado e deixara para trás um estabelecimento em reformas, junto com uma ampla moradia. Na volta pediria a namorada Eduarda em casamento e ficariam noivos.
 
Com essas notícias a velha senhora ficou mais serena. Seu estado de saúde era deveras preocupante. Fizera bem em vir visitá-la nesse momento, pois correria o risco de não ter outra ocasião para fazê-lo. Passou um mês visitando todos os lugares de sua infância, conhecidos ainda vivos, antigos colegas, sobrinhos já casados, formados em cursos universitários. Exerciam suas profissões ali mesmo em Ancede ou lugares próximos. A família se encaminhara para uma perspectiva de vida melhor do que nos tempos de sua infância e adolescência. Infelizmente quando se está a passeio, o tempo transcorre mais depressa do que em outras condições.
 
O dia do seu embarque de retorno se avizinhava. Passou dois dias inteiros junto à mãe, como querendo compensar os longos anos de separação. Sabia que, provavelmente essa seria a última vez que se viam. O momento da partida chegou e dos olhos da senhora lágrimas rolaram. Ela também sabia que ali estava se despedindo definitivamente do filho. Era o curso da vida e não poderia ser alterado. Desejou-lhe boa viagem e sucesso em seu empreendimento. Queria ter tido ocasião de lhe conhecer os filhos, mas isso estaria fora das possibilidades. Um sobriho, levou Manoel até Lisboa, aproveitando a necessidade de se deslocar para a capital. Iria participar de um curso de aperfeiçoamento em odontologia e assim poderia dar carona ao tio.
 
Foi uma viagem diferente. O veículo era usado e de menor potência que o seu Opala, deixado no Brasil. Ficou tentando comparer o desempenho do modelo europeu com o seu, de fabricação brasileira. O que ficava evidente era o menor consume de combustível, coisa que na Europa começava a ser levado em alta conta. A necessidade de importação de petróleo, aliada à alta do produto no mercado internacional, exigia o uso comedido do produto. Pensou consigo mesmo que, graças a Deus, o Brasil caminhava a passos largos em busca da autosuficiência na produção. O preço dos combustíveis ainda estava em nível razoável.
 
Foi deixado no aeroporto pelo sobrinho que logo depois foi para o local da realização do curso de que iria participar. Manoel procurou o balcão da Varig e ali fez os procedimentos necessários ao embarque para o Brasil. Teria que fazer uma baldeação em Marraquesh, até onde iria em uma aeronave menor. Estaria embarecando pouco antes do anoitecer e seria obrigado a uma espera de três a quatro horas antes de continuar para Recife, depois Rio de Janeiro, a seguir São Paulo.
Chegando a Congonhas.

 

Decolagem em Congonhas.

 

Patio de embarque em Congonhas.

 

Área de check in em Congonhas.
 
Ao chegar aqui, encontrou os trabalhos da reforma praticamente concluidos. Faltavam apenas detalhes de acabamento, a colocação da nova placa de identificação. Procurou pelo responsável para verificar a necessidade de algum material faltante. Este lhe informou que adquiria os materiais e os incluiria no valor final do serviço, junto com os comprovantes. Adiantou os valores e Manoel considerou que não havia exagero. Já previra a ororrência dessa situação. O automóvel estava a sua espera e para matar a vontade, deu um longo passeio com Eduarda por diversos bairros. Pararam em um restaurante para almoçar e depois foram ao cinema.
 
Ao sairem da sessão da tarde, anoitecia e foram até a casa da moça. Jantou ali, contando as novidades encontradas em Portugal. O novo governo estava se empenhando em melhorar as condições gerais da economia, o que se refletia na evolução positiva da qualidade de vida da população. O objetivo dos novos governantes era inserir o país no Mercado Comum Europeu. Isso facilitaria uma porção de coisas. Havia porém alguns requisitos a serem preenchidos para ser aceito nessa organização. Tanto a Espanha como Portugal estavam nessa busca. Era possível que o ingress na comunidade aconteceria quase simultaneamente. Eram por assim dizer o mesmo território.
 
Ao ir levara fotografias de seu carro, da namorada e também do estabelecimento adquirido. Haviam ficado com a mãe e os irmãos. De lá trouxera uma porção de rolos de filme para revelar aqui. Teria o que mostrar da terra natal. O interessante era que, mesmo tendo nascido lá, sentire-se estrangeiro ao chegar. Havia se abrasileirado de tal modo que até seu sotaque característico havia se modificado sensivelmente. Era agora quase imperceptível. Sua mãe percebera a diferença tão logo lhe pusera os olhos ao chegar. No final estava novamente falando igual aos familiares, coisa que demoraria poucos dias e teria perdido novamente.
 
Aproveitou e pediu naquele dia mesmo a mão de Eduarda ao pai, Isidoro. Fez o pedido sem delongas, prometendo levar a moça no dia seguinte a uma joalheria para comprar as alianças e um anel de noivado condizente. Ela ficou encantada com o pedido e aceitou prontamente. O pai não se opôs por ver que a filha estaria em boa companhia, apesar de o noivo já ter alguma idade. O que importante era se amarem e terem garantidas as condições de uma vida material minima para não sofrerem privações. Ele mesmo trabalhara a vida inteira e teria ainda alguns anos pela frente para se aposentar. Nunca tivera sobras, mas também não faltara o suficiente para alimentar, vestir e educar os filhos.
 
A mãe sempre trabalhara, ficando inativa somente nos períodos de gestação avançada. Mesmo com os filhos pequenos, deixara-os aos cuidados da avó e retomara o trabalho em uma pequena indústria. Em mais algum tempo poderia também se aposentar, de forma que teriam uma velhice sem grandes sobressaltos. Bastaria que não os atingisse nenhuma doença grave e poderiam aproveitar os anos da velhice para gozar um pouco a vida. Isso era algo bem próximo de um ideal, nem sempre ao alcance de todas as pessoas. Para comemorar o fato de a filha caçula ser pedida em casamento, foi aberta uma garrafa de vinho. Era produção brasileira, mas de boa qualidade.
 
Eduarda perguntou se haveria quem prepararia as refeições no estabelecimento ao ser reaberto. Manoel falou que havia mantido contato com uma senhora para ocupar essa vaga, mas que poderia dispensar seus serviços se ela assim o desejasse. Ela lhe disse:
– Pensei em trabalhar junto com ela para aprender mais sobre cozinha. Depois eu assumiria o comando, quando nos casassemos.
– Tu sabes que nem havia pensado nisso. Mas é um excelente arranjá. Melhor não poderia ser, minhã querida.
– Vou pedir para sair da loja. Estou mesmo cansada de atender aqueles fregueses nada gentís que aparecem.
– Acho que freguêses chatos vamos ter também no restaurante/bar. Mas tu vais ficar na cozinha e não terás contato tão direto com os mesmos.
– Sempre gostei de cozinhar e vou me sentir melhor nesse trabalho que vendendo sapatos a filhinhos de papai, metidos a besta.
– Acho que esses não irão aparecer no nosso estabelecimento. Ali a maioria é trabalhador que mora na região e alguns amigos que vou chamar para a inauguração. Assim eles se encarregam de fazer propaganda.
– Tu não vais te arrepender das mesas de sinuca e pebolim? O pessoal começa a beber e pode se tornar inconveniente.
– Deixa comigo e com o Francisco. Ele sabe lidar com esse povo. Está no ramo faz muito tempo. Vai ser importante como auxiliar.
– Sorte ele ter ficado para trabalhar contigo.
– Eu não iria deixar ele sair. Fiz questão de pagar seu salário pelas férias que está tirando para garantir que fique comigo.
 
Era hora de voltar para seu lugar de hospedagem. Poderia providenciar nos próximos dias uma cama, colchão e guarda roupa para poder se mudar. Tinha agora onde morar, não precisaria mais pagar hospedagem. Em poucos dias inauguraria o estabelecimento e teria onde fazer as refeições. Planejava fazer a inauguração por ocasião do feriado de sete de setembro, data da independência. Haveria um clima festivo para receber os clientes no retorno. As comemorações se restringiriam ao primeiro dia, depois começariam a pagar por tudo que fosse consumido. Não era nenhum perdulário capaz de rasgar dinheiro. Queria dar as boas vindas aos antigos e novos fregueses, nada mais.
 
Ninguém vai para frente em um negócio, pondo-se a distribuir presentes, comida e bebida de graça. Estava jogando uma isca, para depois puxar o anzol e fisgar todos eles. Que eles fossem, além de fregueses, seus amigos, não havia problema nenhum. Apenas não iria misturar negócios com amizade. Faria valer o ditato: Amigos, amigos! Negócios a parte.
 
Com a aproximação da inauguração começou a receber perguntas do tipo:
– Quando vamos poder nos divertir no seu estabelecimento, Manoel?
– Estou louco para jogar umas partidas de sinuca aqui perto de casa. Não vou mais ter que andar longe para isso.
– Vou inaugurar no dia sete de setembro, na hora depois do almoço. Vou aproveitar para ter mais gente aqui, pois no dia seguinte é sábado e domingo. Assim posso ter três dias de bom movimento.
– Bem esparto você, Manoel. Estou torcendo para que o dia sete chegue depressa.
– Calma que ele chegá logo. Ainda preciso terminar algumas coisas.

 

 
Seguiam seu caminho e ele trabalhava na arrumação de tudo para o dia sete. Havia instalado sua residência no andar superior e estranhava o enorme espaço vazio. Ficou preocupado com a situação, pois a vida toda vivere sempre próximo de uma porção de gente. Houvera ocasião em que dividira o mesmo quarto com colegas nas pensões em que ficara hospedado. Precisava se acostumar à solidão. Em alguns meses estaria casando com Eduarda e iria dividir aquele espaço com ela. Aproveitaria a presença dela na cozinha para decidirem sobre as reformas e móbilia para o espaço que seria o lar deles. Esperava ter vários filhos, se Deus lhe concedesse essa alegria. Apenas lamentava não ter tido tempo de dar essa alegria à mãe.
 
O tempo correu célere e logo estava na véspera da inauguração. Todas as providências haviam sido tomadas. O estoque de bebidas, os ingredientes para a preparação dos salgados e comida estavam armazenados no depósito, ou na geladeira. Dormiu um sono agitado naquela noite, sonhando que havia esquecido alguma coisa imperdoável e se recriminava. Ao acordar percebia que tudo não passava de sonho. Na dúvida chegou a descer para conferir se estava tudo em ordem. Constatou pela enésima vez que nada faltava. Voltou para cama e dormiu. Algum tempo depois novamente o sonho do esquecimento, agora de um outro ítem. Acordou e percebeu que havia tido novo sonho. Esteve a ponto de voltar para conferir tudo novamente, mas desistiu. Estaria cansado ao extreme logo no dia da inauguração.
Máquina de fliperama.

 

Máquina de fliperama.
 
Receber os fregueses com festa, mas a fisionomia cansada e aparentando um estado de ânimo incompatível com o clima, não condizia com o que esperava que fosse. Decidiu tomar um copo de água com açúcar e dormir. Dessa vez conseguiu e dormiu até ser acordado pela campainha da porta de entrada. Era a cozinheira, Francisco e logo se juntou a eles Eduarda. Desceu rapidamente depois de se vestir, mesmo antes de lavar o rosto. Daria uma desculpa e depois tornaria a subir para terminar sua preparação matinal. Em minutos os três assumiram seus lugares e começaram a trabalhar. Havia uma porção de coisas a providenciar antes que chegasse a hora de abrir.
 
Fizeram sem demora um bule de café bem forte e aqueceram também leite. Eduarda foi até uma padaria nas proximidades e comprou alguns pães para acompanhar. Assim ao descer o aroma do café recém coado veio ao encontro de Manoel. Era isso mesmo que estava precisando para terminar de acordar, depois da noite mal dormida que tivera. Sentou-se e tomou uma xícara de café e passou manteiga em um pão, pondo-se a comer incontinenti. Francisco por sua vez estava arrumando as mesas, limpando tudo com esmero. Queria que tudo estivesse impecável no momento de abrir o estabelecimento. Manoel observou o vai vem do empregado e se congratulou pela ideia de mantê-lo a qualquer custo. Não saberia o que seria dele sem sua ajuda, pelo menos nos primeiros tempos. Era uma atividade completamente diferente em sua vida.
 
Ao terminar, perguntou à dona Arminda e Eduarda se havia alguma coisa faltando na cozinha e foi informado de que estava tudo perfeito. Se constatassem alguma coisa em falta, daria tempo de avisá-lo para providenciar. Deu um beijo na noiva, depois foi se juntar à Francisco no serviço de limpeza e arrumação do salão de jogos e refeições. Conferiu as bebidas colocadas no refrigerador para gelar. Seria imperdoável faltar cerveja gelada, gêlo para uma caipirinha, um uísque ou qualquer outro destilado que algum freguês decidisse pedir.
 
Depois de revisar tudo, com ajuda de Francisco que era mais experiente no assunto, sentou-se por um momento e olhou para as mesas, do restaurante, caminhou depois até a entrada do salão de jogos. Ali correu o olhar por sobre as mesas de sinuca, o pebolim, a um canto uma máquina de fliperama. Testou o funcionamento, colocando uma ficha na ranhura destinada a isso. Realizou uma jogada, coisa que fazia pela primeira vez e viu a bolinha ser lançada na região superior, tocar nos diversos sensores, produzindo um ruido característico. Enquanto a bolinha era lançada de um sensor contra o outro e ameaçava chegar à base, onde seria sua função usar os controles existentes na lateral para impedir a passagem. Se conseguisse lançar a bolinha de retorno à região superior, ela poderia repetir o processo, enquanto os pontos seriam acumulados no visor.
 
Na primeira tentativa conseguiu leva-la até uma lateral, de onde ela foi lançada para um ponto mais acima e dali retornou como um risco para a base. Tentou em vão evitar a passagem. Ela vinha com muita velocidade e foi cair no local apropriado. Dali seria transportada ao reiniciar o jogo colocando nova ficha. Tinha ao todo cinco bolinhas. Gastara por enquanto apenas a primeira e acabou se entretendo por alguns minutos até concluir que conseguira, para uma primeira tentativa, acumular uma soma de pontos considerável. Deixou a máquina e foi conferir as mesas de sinuca. As bolas estavam em seus lugares, os tacos colocados nos suportes e giz disponível em quantidade suficiente para muitas partidas que provavelmente seria jogadas ali, dentro de algumas horas.
 
O preço por partida no dia da inauguração estava pela metade do preço, para cativar os fregueses. Um antigo fregues lhe falara que estava tratando de organizar um campeonato e queria saber se Manoel lhe daria apoio na iniciativa. Ele concordara, apenas queria saber o que isso implicaria em seus compromissos financeiros. Precisaria apenas adquirir os troféus para os vencedores, segundos e terceiros colocados. Ele passara em uma loja especializada, fazendo um levantamento para saber quanto isso iria lhe custar. Observou que, se a quantidade de partidas jogadas alcançasse determinado número, poderia arcar com a despesa adicional, sem haver prejuízo. Havia que levar em consideração também o consume de bebidas.
 
Era hora de almoçarem para estarem prontos no momento de abrir. Isso ocorreria exatamente às 14 horas. Uma dupla de tocador de violão e sanfona haviam sido contratados para animar o ambiente nesse primeiro dia. Eles haviam chegado pouco antes e estavam a postos, os instrumentos afinados e em condições de uso. Também foram convidados a almoçar e eles não recusaram. Sabiam que depois teriam uma tarde inteira para tocar e alegrar os fregueses de Manoel. Em toda redondeza não se falava nada além da inauguração do bar/restaurante reformado. Do lado de for a começou a se formar uma aglomeração, uns conversando com os outros, olhando para os relógios à espera domomento de serem abertas as portas.
 
     Manoel não seria condescendente. Faria como prometido. Abriria exatamente no momento em que o relógio estivesse indicando 14 horas, do dia sete de setembro de 1983. Era algo que seria uma característica de seu estabelecimento a pontualidade no abrir. Não poderia garantir nada sobre a hora de fechar, pois dependeria da disposição dos freguêses em jogar e gastar seu dinheiro. Ele não seria bobo em dispensar alguém disposto a deixar seu dinheiro em sua caixa registradora. Esperava apenas que lhe deixassem algum tempo para dormir, pois precisaria estar em pé no dia seguinte pela manhã. A sorte era o ajudante Francisco que poderia ir dormir mais cedo e vir em seu auxílio pela manhã.
 

 

Para mais imagens de aeroportos, mesas de sinuca e máquinas de Fliperama, basta digitar o nome no google. Pode-se escolher os sites.
 
 
 

Um pouco de história do Brasil – Cerco da Lapa e Guerra do Conterstado, parte I.

Um pouco de 

história do Brasil!


I
            Durante anos ouvi falar, vi notícias na televisão e jornais sobre o Cerco da Lapa, Guerra do Contestado. Por algum tempo cheguei mesmo a ligar as duas coisas como parte de um mesmo acontecimento bélico.

            Há alguns meses uma amiga, em conversa no bate-papo do facebook, falou que é professora na Universidade do Contestado, no Estado de Santa Catarina. Lembro que indaguei sobre detalhes dessa tal guerra e ela prometeu me enviar algum material sobre o assunto. Me adiantei e pesquisei na internet, encontrando material até bem farto sobre o assunto. O mais completo é, em minha opinião, uma tese de doutorado, apresentada por Paulo Pinheiro Machado e aprovada pela comissão julgadora em 17/12/2001. Isso aconteceu no Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, sob orientação do Prof. Dr. Cláudio Henrique de Moraes Batalha.

Local de repouso dos restos mortais dos mortos no cerco da Lapa.

Tratado jurídico sobre o litígio de limites entre Paraná e Santa Catarina.

            O texto foi escrito tomando por base uma extensa bibliografia existente, um grande número de entrevistas de pessoas que viveram na época, sendo então crianças ou adolescentes, um imenso acervo do processos jurídicos, registros civis e toda sorte de fontes de informações. Outras entrevistas com pessoas, nascidas em data posterior, porém filhos de quem vivenciou aqueles dias. Em suas investigações para determinar a origem de todos os fatos, retrocedeu à meados do século XIX. Aliás a área de litígio entre os estados do Paraná e Santa Catarina, coincidentemente fazia parte da região que foi dominada pelos rebeldes “pelados” (usavam cabeças raspadas). Desde a criação da então Província do Paraná em 1853, havia divergências sobre os limites. Uma longa disputa, ora de forma amigável, ora nos tribunais, acabou por conceder ganho de causa ao governo de Santa Catarina.
Degola de prisioneiros, hábito comum na revolução federalista.

Pintura representando proclamação da república. 

            O que não aconteceu foi a implementação da sentença do STF. As autoridades catarinenses tentaram por todas as maneiras obter a execução da sentença, o que as paranaenses se empenhavam em impedir. Tal estado de coisas persistiu até 1916, quando do encerramento das hostilidades entre tropas do governo e os rebeldes caboclos. Antes da delimitação definitiva, grande parte do atual território de Santa Catarina era reivindicado pelas autoridades do Paraná. Além disso uma extensa região na parte oeste era pretendida pela Argentina. Essa ficava entre os rios Uruguai e Iguaçu, alcançando a região de Palmas.
Canhões usados no cêrco da Lapa.
Canhão usado na realização do filme sobre Cerco da Lapa.

            Nas últimas décadas do século XIX a região foi percorrida, em épocas distintas, por dois indivíduos que se intitulavam João Maria. O primeiro deixou de ser visto no final dos anos 70. Há ecos de que seria originário de países de língua espanhola. Vivia uma vida de “monge”, sempre afastado de aglomerações humanas. Vez ou outra se aproximava para pregar sobre religiosidade, costumes, uma forma de governo monárquico e convivência fraterna entre a população. A falta absoluta de padres disponíveis, levou alguns deles a autorizar em determinadas ocasiões que ele pregasse aos seus fiéis em sua ausência. Ensinava o uso de ervas medicinais e dava conselhos diversos. É hoje lembrado como São João Maria de Agostinho.  
Monge João Maria ou São João Maria de Agostinho.

 Depois do primeiro, algum tempo se passou e outro, com a mesma alcunha, começou a percorrer a mesma área. Não é sabida sua origem exata. Há suspeitas de que seja de descendência síria. O que ambos tinham em comum eram os hábitos de vida, desapego ao material, pregando o retorno aos velhos usos e costumes da religião. Tinha, ninguém sabe de onde vinha, conhecimentos de botânica que lhe permitiam poderes de curar algumas doenças que afetavam a população planaltina usando para isso as plantas da natureza. Costumavam indicar o uso de ervas para os males do corpo que afligiam a população. Malgrado a inexistência de informações sobre os seus conhecimentos botânicos, obtinham alguns resultados considerados “milagrosos”. Isso lhes rendeu muito prestígio.

            A mesma região era cortada de um extremo a outro e em diversas direções por trilhas usadas pelos tropeiros em suas viagens do Rio Grande do Sul para São Paulo, levando especialmente mulas para o trabalho de tração e carga no destino. O resultado foi uma extensa rede de parentela que se estendia desde o pampa gaucho até o interior do Paraná e mesmo parte de São Paulo. Foi por essas trilhas que vieram ter às portas da cidade da Lapa, não longe da capital paranaense, os combatentes maragatos de Gumercindo Saraiva em 1893/95, durante a revolução federalista. Tentavam expandir para os territórios vizinhos as ideias de mudanças na forma de governo republicano, recentemente implantado, após o XV de Novembro de 1889. Ali o General Carneiro, resistiu heroicamente, com pouco mais de 600 homens ao cerco promovido por uma tropa superior aos 3000 combatentes de Gumercindo Saraiva.

            Com a resistência da Lapa, celebrada até os dias de hoje no Paraná como um momento heroico, perdeu a vida o comandante do feito General Carneiro e mais um pequeno grupo de 12 homens. Com a derrota para os “legalistas”, Gumercindo retrocedeu para o Rio Grande do Sul, onde acabou assassinado na véspera de uma batalha planejada. Muitos dos homens de suas tropas permaneceram na região, estabelecendo-se em diversos lugares.
Pátio de serraria cheia de toras(Brazil Lumber).

            No início do século XX, a Brazil Railway, encarregada de construir a ferrovia São Paulo/Rio Grande do Sul. Por coincidência o traçado atingia exatamente a mesma região antes usada pelos tropeiros. No contrato, a empresa recebeu em concessão uma faixa de 15 km ao longo dos dois lados da linha ferroviária. Surgiu assim a Brazil Lumber and Colonization, encarregada de explorar as terras, madeiras e por à venda as terras. Isso acabou desalojando os ocupantes dessa região, estabelecidos ali há muito tempo.
Ferrovia chegando ao estado de SC

Guindaste carregando toras em vagão ferroviário.

            A conclusão dos trabalhos de construção, deixou por sua vez desempregados um grande número de residentes e agregados dos fazendeiros que, durante a construção, tinham encontrado uma forma de ganhar dinheiro ajudando na subsistência familiar. O coronelismo reinante sobreviveu ao fim do império e se perpetuou na república. Isso gerara um clima de submissão forçada de grande parte da população, ao domínio dos detentores do poder político nos municípios do interior.

            Cabe aqui um esclarecimento. Durante boa parte de minha vida convivi com uma dúvida. Sempre encontrei os termos Coronel e Capitão em obras literárias, referindo-se a figuras de destaque no cenário político do interior do Brasil de norte à sul. O que eu desconhecia era a origem dessas “patentes” militares atribuídas a indivíduos ocupados principalmente em criar gado, plantar café, ou cacau, conforme as características regionais em que estavam inseridos. Na leitura da tese citada, tive o esclarecimento. Eles adquiriam essas mesmas, tanto no império como na república, pelo fato de disporem a seu serviço ou domínio um vasto contingente de homens possíveis de mobilização em caso de necessidade. Além disso tinham recursos financeiros para manutenção desses efetivos em períodos de campanha bélica. Eram integrantes da Guarda Nacional e não aceitariam nada menos que uma patente de nível mais alto. Não se encontram majores, tenentes coronéis, muito menos tenentes nesse cenário.

            Usando de seu prestígio, manipulavam politicamente para ocupar as posições administrativas, legislativas nos seus municípios e congressos legislativos das províncias (depois estados). Indicavam seus apaniguados para cargos menores como chefes de polícia, juízes, oficiais de justiça, cartórios e o que mais houvesse. A quem não aceitasse esse estado de coisas restava migrar para lugares mais distantes, outros municípios ou entrar para o serviço de opositores de quem estava na posição de mando.

            O  interior do Paraná e também Santa Catarina apresentava áreas de pastagens naturais, outras de mata fechada com pinheirais e à sua sombra se desenvolviam os arbustos de Ilex Paraguariensis. É a planta que fornece a matéria prima da erva mate. Grande parte da população tirava a subsistência da coleta das folhas e galhos mais finos, que eram processados produzindo a erva mate. Produto cujo consumo se espalhou por toda região sul e largamente exportado. As áreas de pastagens foram ocupadas pelos fazendeiros, ficando os denominados faxinais ou áreas de transição entre a floresta e as pastagens naturais. Ali os menos favorecidos desenvolviam a abertura de posses, implantando cultivo de sobrevivência e pequenas criações de animais. Depois de limpas e cultivadas, passavam a ser alvo da cobiça dos fazendeiros e não raro as plantações eram atacadas pelo gado destes, em especial nos períodos de escassez de pastagens.
Casa feita de rachão de pinheiro.

Sertanejos derruband
o pinheiros.

            Não raro aconteciam atritos severos entre os pequenos proprietários e os donos das fazendas. Muitos foram vítimas de açambarcamento de suas posses por parte dos grandes. Na região somou-se uma série de fatores geradores de insatisfação da população menos favorecida. Os desmandos dos coronéis, a expropriação de extensa área por parte da Brazil Railway e sua subsidiária Brazil Lumber and Colonization, a substituição dos tropeiros pelo transporte ferroviário, além da superposição de jurisdição dos dois estados em litígio por uma extensa área. Tudo isso criou um clima propício ao surgimento do movimento de rebeldia da população dessa região.

            O rio do peixe, timbó, canoas, negro e outros cortam a região. Ali existiam grandes áreas de pinheirais, explorados pelas serrarias da Brazil Lumber. O uso de guindastes para arrastar os troncos destruía grande parte dos arbustos de erva mate. As toras eram transportadas sobre trilhos e até a entrada das mesmas até o local da serragem, era automatizada. Restava para os trabalhadores não qualificados apenas algumas tarefas meramente sem importância. As rivalidades políticas entre grupos diversos contribuíram também com sua parcela para as insatisfações populares.

            Nesse caldo de efervescência surgiu um indivíduo, sob o nome José Maria, dizendo-se seguidor ou enviado de João Maria, começando a aglutinar ao seu redor o povo descontente. Estavam em busca de alguém que os acolhesse e protegesse.

Máquina escavadeira da ferrovia.

(Essa parte vou tratar em outro capítulo, pois ficaria muito extenso para um único artigo. Até outro dia. Feliz Natal.)

Quem desejar mais imagens, basta digitar no espaço de buscas do google a expressão “Cerco da Lapa”, “Guerra do Contestado”.  Ali encontrará os links para páginas de imagens de ambos os eventos. As que aqui estão reproduzidas eu baixei de um desses dois endereços. 

Quatro mil visualizações! Agora rumo às cinco mil.


Quase quatro mil!

Rumar agora para cinco mil!

No decurso do mes de julho meu amigo Jorge Purgly me convidou a escrever um artigo para publicar em um blog que ele mantém, falando do surgimento de meu primeiro livro. Aceitei prontamente e logo estava publicado o primeiro artigo em um blog. Isso despertou minha atenção para esse meio de comunicação e logo, no dia 22/07 criei esse blog, publicando um artigo de apresentação. Depois disso foram inúmeros artigos, sobre assuntos variados, tratando de viagens, fatos da vida, capítulos de livros e mesmo pequenas histórias. É provável que hoje sejam alcançadas as 4000 visualizações e tenho como objetivo alcançar logo as 5000. Com a ajuda de todos isso pode acontecer até a virada do ano, ou logo depois. 

Quero deixar a todos meus votos de Feliz Natal e um próspero Ano Novo. Que o Natal traga paz, alegria, fraternidade e amor aos lares de todos que acessam, leem visualizam e mesmo comentam ou compartilham os artigos publicados aqui. No Ano Novo sejamos capazes de fazer acontecer as coisas que nos ajudem a realizar os sonhos que acalentamos em nossas vidas. Sabemos que nem tudo será alcançado nesse ano que vem, mas com empenho e tenacidade, podemos dar passos importantes na busca da consecução desses anelos do coração. 

Preferivelmente coloquemos nossas aspirações em níveis mais tangíveis, evitando chegar ao final do ano sem sequer nos aproximarmos da realização de uma pequena parte dos objetivos. Se conseguirmos superar nossas espectativas, teremos com certeza a alegria de sentir um regozijo maior com esse fato do que com a eventual frustração de ficarmos distantes da realaização de nossas metas. 

Para encerrar, quero reiterar o Feliz Natal e próspero Ano Novo, a todos os amigos, simpatizantes e leitores. Que uma chuva de bençãos cubra suas vidas em todos os caminhos que venham a percorrer em 2015.

Até mais. 

Um japonês especialista em cachaça – Capítulo VIII

Desfile japonês em São Paulo, bairro Liberdade.

 

Comércio de rua na Liberdade.

 

Imigrantes japoneses viajando de trem.

 

Imigrantes no abrigo de imigração em São Paulo.

 

Hospedagem no abrigo.

 

Kasato Maru, atracado no porto de Santos.

 

Cartaz de propaganda japonesa emigração.

 

8. Eis nosso
 
 japonês.
 
 
            O Brasil, desde as últimas décadas do segundo império, sofria com a falta de mão de obra para o trabalho na agricultura. Acordos internacionais restringiram a vinda de escravos da África e aqui leis restritivas como: A Lei dos Sexagenários, Lei do ventre livre, diminuiam a força de trabalho. Por outro lado a necessidade de expansão da produção exigia mais braços para o trabalho. O recurso foi estimular a imigração. Os europeus eram estimulados a virem ocupar o espaço livre, especialmente italianos, alemães, poloneses e outros. Existia uma restrição com relação aos asiáticos, por serem considerados pelos ocidentais como uma raça inferior e com religião totalmente diversa.
            O Japão abriu-se para o comércio mundial depois de 1846, com o término do Xogunato Tokugawa. Foram 265 anos de isolamento, terminando com uma agricultura limitada a produzir apenas o suficiente para o consumo, sem permitir a formação de estoques para enfrentar catástrofes. Iniciou-se uma rápida mecanização da agricultura, provocando o desemprego ou endividamento rual. Os proprietários insolventes perdiam suas terras para os credores. Isso gerou um aumento na população urbana, onde não existia emprego para tantos braços.  A solução era negociar com países com território capaz de acolher o excedente populacional.
            Houve o início de negociações com o Brasil nos anos 60/70, porém somente em 1895 foi assinado um acordo nesse sentido. Houve inclusive a lei nº 528 de 1890, assinada por Floriano Peixoto, proibindo a imigração de asiáticos. Um decreto sob o número 97, posterior, tornou essa lei sem efeito. O primeiro embarque foi suspenso na véspera, devido à queda internacional nos preços do café, motivada por uma superssafra ocorrida naqueles anos. Situação essa que persistiu até 1906. Em 1907 um pequeno grupo formado por profissionais liberais como juizes, advogados e outros, estabeleceu-se em território do Estado do Rio de Janeiro. A inexperiência, falta de apoio e aparente esgotamento do solo, levou o projeto ao fracasso.
Imigrantes desembarcando em Santos.

 

Passageiros do Kasato Maru no porto de Santos (desembarque)
 
            Em 1908 o navio Kosato Maru, desembarcou 781 imigrantes no porto de Santos. Era o primeiro contingente significativo de trabalhadores vindos do oriente. Seguiram-se outros grupos até 1914, quando ocorreu uma interrupção até 1917, quando terminou a Primeira Guerra Mundial. Nesse período, especialmente nas décadas de 20/30 ingressou no Brasil um enorme contingente de imigrantes japoneses. Muitos deles vinham pensando em fazer fortura e voltar para o Japão. Por isso sequer se preocuparam em aprender o idioma.
            As dificuldades de adaptação ao clima, remuneração reduzida e o trabalho pesado, levaram muitas famílias a abandoner o campo nos primeiros anos. Já um bom grupo conseguiu estabelecer com os proprietários parcerias que ao final de um período de sete anos lhes dava direito a um pequeno pedaço de terra, além de serem donos de tudo que produzissem além do café que tinham que formar. Sendo a primeira safra de sua propriedade. Assim, após alguns anos, começou a existir em todo interior um considerável grupo de pequenos proprietários de terras.
 
Familia de imigrantes cultivando sua terra.

 

Imigrantes peneirando café.

 

Imigrantes derrubando mato.

 

Imigrangtes capinando cafezal.
 
            Era de esperar que os donos não iriam entregar a eles as melhores terras, destinadas às seus cafezais. A vantagem dos agricultores japoneses era serem acostumados a trabalhar em locais difíceis. O território de sua patria é em grande parte acidentado, com pouco solo fértil e em grande parte de difícile cultivo. Assim, optaram por plantar bananas, abacaxi, arroz e outras culturas, que ofereciam retorno em menos tempo que o café.
            Hiromoto Sakaguti, casado com Sakira Kumabe, Hiroji Fujita, casado com Kisoku Yamashita, estavam entre esses. Junto com os filhos que nasceram depois de virem trabalhar aqui, trabalharam por mais algum tempo para os patrões no café, enquanto faziam suas lavouras de subsistência. Logo perceberam a carência de hortaliças no mercado da capital paulista. Culturas essas de ciclo curto, com retorno em tempo curtíssimo, além de exigirem pequenas áreas. Dessa forma tinham, em pouco tempo, uma considerável quantidade de produtos para colocar no mercado. A dificuldade maior era a intermediação dos grandes atacadistas.
            Um grande contingente de imigrantes que haviam deixado os cafezais, estava instalada na região do bairro da Liberdade, até hoje reduto da população de descendência nipônica. O filho caçula de Hiromoto, Kenji, casou-se com Kimiko Fujita, filha do casal amigo vindo no mesmo navio para o Brasil. Desde muito havia demonstrado pouco interesse em cultivar a terra, menos ainda trabalhar para os fazendeiros de café. Procurou no bairro japonês da capital e ali estabeleceu uma pequena mercearia. Isso no ano de 1937. Com um caminhão ford usado, trazia do interior as hortaliças, bananas, abacaxis e outros produtos. Em pouco tempo o movimento de seu estabelecimento cresceu sensivelmente.
            Numa de suas passagens pelo Mercado Municipal, travou conhecimento com alguns comerciantes nipônicos ali estabelecidos. Lembrou de lhes oferecer a possibilidade de fornecer os produtos que trazia do interior. Poderia oferecer um preço mais acessível do que eles pagavam aos atacadistas além de remunerar melhor os produtores. A possibilidade de obter produtos melhores e com preço mais acessível, além da voz do sangue, estabeleceu o relacionamento quase que imediatamente. Em poucos dias estava empenhado em viajar constantemente para o interior para buscar produtos. Seu veículo era pequeno e trazia uma pequena quantidade de cada vez.
 
Comércio japonês em São Paulo(Liberdade)

 

Liberdade hoje.
 
            Logo conseguiu economizar algum dinheiro e negociou um veículo de maior capacidade, além de ser mais novo. Trazia a dupla vantagem de transportar mais e as panes eram menos frequentes, aumentando sua capacidade de atendimento. A concorrência com os grandes atacadistas gerou alguns atritos, mas um advogado residente nas vizinhanças o ajudou a remover os obstáculos. Dessa forma o crescimento da mercearia foi uma consequência imediata, tornando-se em pouco tempo um estabelecimento de maiores proporções. Um dos principais fornecedores de alimentos à população do bairro da Liberdade.
            O português aprendido na escola e a convivência diária na capital, ajudaram-no a dominar suficientemente o idioma. Tinha desde criança propensão aos números, auxiliando-o a fazer o controle de seus negócios, gerenciar os preços e lucros. Os filhos Toshiro, Hideki e Nagori frequentaram a escola pública e mais tarde ingressaram em escolas pagas pelos pais. Dessa forma alcançaram condições de ingressar na universidade. Caminho seguido por todos. Toshiro cursou química, Hideki formou-se em Biologia e Nagori completou o curso de direito.
            Toshiro ingressou em uma empresa de produtos químicos para agricultura. Sua área de atuação era o nordeste e dessa forma passava a maior parte do tempo viajando pelo interior nordestino. Ali não havia muito que fazer com produtos químicos, devido à precariedade do clima. Os moradores dali tinham grandes dificuldades de obterem o suficiente para alimentar suas famílias. Dessa forma as vendas que conseguia realizar restringiam-se às regiões metropolitanas, além de alguns poucos fazendeiros que haviam conseguido implantar sistemas de irrigação.
            Desde criança tivera facilidade em gravar os sabores de alimentos e bebidas. Conhecera diversas variedades de saquê, produzido no interior paulista por alguns agricultores, em pequenos alambiques. Aprendera a degustar e identificar as características de sabor, textura, envelhecimento das bebidas. Em suas andanças pelo nordeste teve oportunidade de experimentar diversas variedades de cachaça. Algumas apreciadas em grandes regiões, outras de alcance local. Sua memória prodigiosa registrara o sabor e o nome, bem como o tempo de envelhecimento de cada uma.
            Um sucesso considerável, apesar das dificuldades regionais, levou a indústria a trazê-lo para estados sulinos, onde percorreu o interior do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul. Depois foi a vez de trabalhar em São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais. Ao longo de mais de 20 anos percorreu estradas do interior, enfrentando toda sorte de dificuldades, poeira, calor, frio, chuva e outros obstáculos. Sempre tinha um sorriso no rosto e onde chegava não tardava em conquistar admiradores. Alguns o chamavam de japonês sorridente.
Quando foi trazido para uma posição de chefia na capital, havia percorrido um equivalente a muitas voltas ao redor do globo terrestre. Veio concluir sua vida de trabalho na sede da indústria, onde usou de sua vasta experiência no campo, em todos os estados do país, para dirigir a equipe de trabalho, visando atender as características regionais. Não era possível ter a mesma política de preços, quantidades de produtos para os diferentes estados. Cada região tinha necessidades diferentes. Os parasitas não eram os mesmos, as carências minerais e doenças eram outras. Isso exigia medicamentos diferentes, suplementos diversos. Sem contar com a variedade de raças animais com características próprias.
Dessa forma a empresa conseguiu uma maior penetração no mercado em expansão. Viajou algumas vezes para regiões de expansão recente da agricultura e pecuária, indo verificar pessoalmente as condições locais, para depois sentar com a equipe de planejamento e traçar as diretrizes a serem aplicadas.
Enquanto isso acontecia, Manoel continuou em sua trajetória de trabalho e economia. Sua incursão no campo do mercado de ações tiveram algum sucesso e ele diversificou suas aplicações. O crescimento intense da Petrobrás e do Banco do Brasil, além de outras empresas de destaque, permitiu a formação de um pecúlio considerável. Em 1976 recebeu de Ancede a comunicação do falecimento do pai. Ao receber a notícia, o sepultamento havia ocorrido algumas horas antes, não permitindo sequer a tentative de viajar para o funeral. Projetou ma visita à família para o ano seguinte, no período de suas férias. Em meados de 1977 viajou para Portugal, onde há três anos havia sido deposto o regime do successor de Salazar e começava a reinar um clima de otimismo. Passou os dias com sua mãe, já idosa e doente.
Verificou que a família no todo estava em boas condições e poderiam se manter adequadamente. Não era necessário enviar ajuda, mas também não dispunham de condições para lhe fornecer nenhum auxílio. Sua vida dependia de suas próprias forças. Ao contar à mãe o montante de suas economias, ela ficou admirada. Nenhum de seus irmãos conseguira reunir nada parecido. Mesmo assim aconselhou-lhe a seguir assim e procurar uma mulher para se casar. Já estava na casa dos 40 anos e deveria constituir sua família, para não ser pain a idade de ser avô. Ele prometeu pensar no assunto.  
Junto com suas economias, sabia que era participante do programa de Fundo de Garantia desde sua criação e mais recentemente do PIS. Quando se aposentasse poderia usar esses fundos para adquirir imóveis, montar seu próprio negócio ou viver de rendas se soubesse aplicar de maneira adequada no mercado financeiro. Isso era projeto para dali a uns quinze anos. Antes, se quisesse se aposentar, poderia fazê-lo mas perderia uma parcela significativa de seu rendimento inicial, devido à proporcionalidade.
A vantagem do FGTS era que o saldo poderia ser usado em qualquer época na aquisição de imóveis residenciais. Estava ficando cansado de viver, há muitos anos em pensões e pousadas. Mudara várias vezes, fizera uma experiência de morar em forma de república junto com outros colegas solteiros. Isso se mostrare também um problema. Havia sempre quem gostasse de levar vantagem sobre os companheiros. Em 1980, ocorreu a eleição de João Batista Figueiredo em substituição a Ernesto Geisel para ocupar a presidência da República, pelo colégio eleitoral. Eleição da qual o povo não participava. A eleição era indireta. O congresso nacional, maioria da ARENA, votava maciçamente no candidato oficial das forças armadas. O candidato do MDB era mero coadjuvante, para legitimar o processo como democrático. Estava longe disso na verdade.
Nessa época começou o movimento operário pela renovação política. O embrião do partido representative dos trabalhadores nasceu, vindo posteriormente a ser consolidado na forma do PT. Figueiredo implantou a “abertura política” na forma de uma gradual liberalização do regime, resultando no movimento das “Diretas Já”. Com isso ocorreu em 1985 a eleição de Tancredo Neves e José Sarney para presidente e vice respectivamente. Em todos esses momentos Manoel se manteve atento, mas nunca se envolveu diretamente nas manifestações. Em 1983, ocorreu uma explosão de uma caldeira em local próximo ao de trabalho dele.
O impacto derrubou a parede e parte do teto, ficando vários dos companheiros de trabalho presos sob os escombros. Depois de um trabalho árduo dos bombeiros, conseguiram resgatar todos com vida, sendo que apenas um estava em estado crítico. Sofrera traumatismo craniano e corria risco de vida. Depois de socorrido, Manoel foi levado para o Hospital da Beneficiência Portuguesa, onde foi submetido a uma série de exames. Constatou-se que não sofrera nenhum problema na cabeça, torax ou coluna. Apenas o pé esquerdo fora parcialmente esmagado por um pedaço de concreto que o atingira. Além disso o dedo inficador da mão direita for a decepado, deixando os demais ilesos. Tinha algumas outras escoriações, porém nada de sério.
Após algumas tentativas de salvar o pé, os medicos lhe comunicaram que seria necessária a amaputação dos dedos e uma parte do pé. Ficaria em condições de caminhar, embora com alguma dificuldade. No primeiro momento ficou abalado, mas vendo o estado de outros que precisavam amputar um braço, uma perna, consolou-se. Fora beneficiado pela providência divina e sua lesão era de menor monta, perto de outros deitados em leitos ao seu lado. O pé foi amputado e uma semana depois recebeu alta. Foi preciso usar um par de muletas por alguns dias, depois apenas uma e finalmente conseguia caminhar, claudicando levemente.
Durante seu período de internamento os funcionários da empresa haviam feito visitas frequentes para verificar sua situação. Era lamentável o ocorrido e estavam a disposição para qualquer necessidade. Manoel comunicou o fato à família só depois de já estar recuperado. A mutilação do pé permitiria que ele continuasse trabalhando, porém a falta do dedo iria dificultar suas ações profissionais. Dessa forma o advogado que o procurou logo depois da alta lhe informou que poderia se aposentar por invalidez. A mutilação acidental lhe permitiria aposentar-se sem perder nada em seus vencimentos. Poderia sacar seu fundo de garantia, o saldo do PIS além de receber uma indenização considerável.
Embora isso lhe sugerisse que o plano que fizera para dali a dez ou mais anos, poderia ser realizado imediatamente. De certo modo a mutilação sofrida o beneficiara. Mesmo assim teria preferido seu corpo inteiro e continuar a trabalhar. Gostava do que fazia. Cada peça terminada era como um filho colocado no mundo da mecânica. Não raro se via imaginando os lugares diversos em que estariam todas as peças que haviam saído prontas de suas mãos ao longo dos anos. Tentava imaginar a montanha de aço que seria possível formar com todas as suas peças produzidas.
Fazia uma ligeira conta do número médio diário e os dias de cada semana, era possível fazer uma estimativa do total que havia usinado em todos esses anos. Era possível haver coisas em que pusera a mão em todos os cantos do país e até mesmo no exterior para onde haviam sido exportados veículos. Preferiu se concentrar no presente. Precisou se acostumar a escrever em o dedo indicador o que levou algum tempo. A letra saia um pouco irregular na primeira carta que se animou a escrever. Endereçou-a ao irmão, pois sabia do estadode saúde debilitado da mãe. Se ela recebesse a notícia assim diretamente, poderia inclusive sofrer de um acidente vascular, ou cardíaco, levando-a a morte. Se ocorresse sua aposentadoria, antes de se estabelecer com algum negócio em definitive, faria uma visita à família. Estivera há algum tempo flertando com uma jovem, filha de um patrício. Talvez fosse o caso de levar isso mais a sério e talvez casar-se com ela.
Primeiro esperaria o desenrolar dos fatos. Enquanto esperava o processo de aposentadoria encaminhado pela própria empresa, encontrou-se com a jovem Eduarda de Almeida. Tentou seconder sua mutilação mas não teve êxito. Ela logo percebeu e, em lugar de o rejeitar por causa disso, se compadeceu de sua condição. Começaram a namorar e ela o apressentou aos pais. O fato de estar em vias de se aposentar era favorável, pois a moça era filha única. Os pais gostariam que ela ficasse morando nas imediações em que residiam. Manoel deixou tudo em suspenso, esperando pelo desfecho do seu processo.  
            Qualquer decisão mais importante seria tomada depois disso definido. Passou o tempo reaprendendo a pedalar, agora com o pé esquerdo faltando uma parte, exercitou bastante o corpo. Ingressou em uma auto-escola para ver se poderia tirar a carta de motorista, mesmo depois da mutilação sofrida. Com um pouco de esforço achava que seria possível. No começo sentiu dificuldade por ter a tendência de usar a ponta do pé, agora inexistente, para acionar o pedal da embreagem. Aos poucos acostumou-se a usar mais a parte posterior, próxima do calcanhar. Nos calçados enchia a ponta com jornal, de modo a disfarçar a lesão. Quem o visse caminhando, apenas claudicando um pouco, dizia que tinha algum problema de quadril ou mesmo de joelho.
            Depois de algum tempo, poucos dias antes de fazer a perícia para deferir ou não sua aposentadoria, realizou com êxito o exame de motorista e menos de uma semana depois recebia em seu endereço o documento que o habilitava a dirigir veículos automotores pequenos. Não poderia dirigir caminhões ou ônibus. Poderia mudar de categoria depois de permanecer na inicial durante cinco anos. Não tinha essa pretensão. Um automóvel ou caminhonete era mais que suficiente para ele. Com certeza não nutria o desejo de sair pelas estradas do país ao volante de um caminhão de cargas.
            Quando se submeteu à perícia, tinha em mãos o atestado médico indicando as lesões sofridas e em poucos minutos estava aprovado seu processo. Poderia esperar pela correspondência que lhe levaria o resultado final e a agência bancária para poder receber seus vencimentos. Também havia sido avaliado o dano sofrido e estabelecida a indenização correspondente. Levou um leve susto quando soube que receberia pela parte do pé e o dedo decepado o valor equivalente a 150 vezes o seu salário no momento do acidente. Isso significaria um montante bem além de tudo que conseguira economizar até o presente momento, mesmo com seus investimentos na bolsa de valores, onde nunca deixara de ter algum lucro, mesmo nos momentos mais críticos. Não perdere dinheiro, quando muita gente amargava sérios prejuízos em diversas ocasiões. Isso era um fato importante.
            Decidida a questão de sua aposentadoria, procurou uma agência de automóveis. Olhou bem os novos, experimentou pois agora era motorista habilitado e podia testar o que tinha intenção de comprar. Também foi aos revendedores de usados, com um ou dois anos de uso. Comparando a diferença de preço e as possíveis despesas de manutenção com os usados, chegou à conclusão de que era mais vantajoso adquirir um novo. Verificou seu saldo na CEF e constatou que poderia comprar vários automóveis e ainda sobraria um bom dinheiro. Decidiu-se pela comprá de um da marca Chevrolet, modelo Opala, quatro cilindros e duas portas. Ficou indeciso com a cor e por fim optou por um de cor bege. O branco era muito suscetível à sujeira, aparecendo qualquer coisa que houvesse.
            Havia feito uma transferência da conta poupança para a conta corrente e pagou com um cheque. Na própria agência fez contato com um despachante para encaminhar o emplacamento, bem como um seguro total, para se precaver contra roubos e eventuais acidentes. Feito isso, saiu passeando alegremente com seu automóvel. Parou diante de um estúdio fotográfico e pediu ao profissional para tirar diversas poses com ele ao lado do carro, sentado ao volante, embarcando e desembarcando. Feito isso ficou satisfeito e continuous. Foi fazer uma visita à dona Marinês, agora idosa e tendo posto a pensão aos cuidados de uma neta. Ficou contente ao ver o antigo inquilino. Lamentou o fato de ter sofrido o acidente, mas se alegrou com sua aposentadoria a significativa indenização que iria receber.
            Levou a velha senhora a dar uma volta em seu carro, depois a deixou novamente em casa. Voltou ao pensionato onde morava atualmente, depois passou na casa da namorada Eduarda para lhe mostrar sua aquisição. Levou a família para passear no final de semana em Santos. Procurou pelo antigo companheiro, mas ficou sabendo que o mesmo viera a falecer alguns meses antes. Deixara a esposa e três filhos já crescidos. Viviam e trabalhavam no mesmo estabelecimento, um pouco ampliado com que o amigo havia iniciado tantos anos antes. Hospedaram-se em um hotel de porte médio, passearam na praia, tomaram banho de mar e no domingo à noite retornaram a capital.
            Na segunda feira recebeu o aviso do dia em que seria depositado em sua conta bancária, bem como o dia em que seria depositado o montante da indenização. Pouco depois foi até a empresa se despedir dos antigos colegas, rever os funcionários administrativos com quem havia tido contato. Agradeceu pelo bom relacionamento que haviam lhe dispensado durante os longos anos de convivência. A partir de agora viveria uma vida diferente. Sabia que sentiria saudades das máquinas suas companheiras por tantos anos. Mais de uma vez haviam sido substituidas por outras mais modernas ao longo de sua vida profissional desenvolvida toda ali na mesma empresa. Eram praticamente vinte e cinco anos.

 

            Poderia começar a procurar uma casa para comprar, ou um negócio que estivesse à venda. Poderia ser uma mercearia, um bar, ou uma loja de aviamentos ou coisa semelhante. Tinha tempo para procurar. Não necessitava ter pressa. 
 
Barri da Liberdade nos dias de hoje.

 

Imigrantes cultivando batatas.

 

Família de imigrantes cultivando bananas.