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A Epopéia do Jenipapo.

A Epopéia do Jenipapo

Por Adrião Neto

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A Epopéia do Jenipapo, de Adrião Neto

Há alguns dias recebi do amigo escritor Adrião Neto, natural e residente no estado do Piauí, mais um exemplar de um dos seus livros. Neste momento terminei de ler a Epopéia do Jenipapo.

À primeira vista, pode parecer tratar-se de uma obra de cunho folclórico ou então humorístico. Mas, conhecendo o trabalho de Adrião, logo lembrei de ter visto esse título citado em outra de suas obras. Adrião é funcionário público, mas dedica grande parte de seu tempo livre à escrever. O material para seus escritos ele o busca na história do estado natal, quase que na totalidade.

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Incursão ao futuro.

Pesquisa histórica no futuro.

Nos últimos dias me peguei pensando, procurando imaginar a vida de um pesquisador, daqui a um século, pouco mais ou menos, revirando os arquivos escritos, virtuais, ou sejam os meios então disponíveis, no afã de escrever sua Tese de Doutorado em história. Na sequência imaginei que ele tenha escolhido o período da história nacional, envolvendo as duas primeiras décadas do século XXI.

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Parangolé! Arre égua!

 

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Dedicatória de Adrião Neto, ao enviar-me o seu livro Parangolé.

Parangolé.

Para quem não conhece o “nordestinês” e para quem conhece recordar, essa palavra tem por significado, pelo menos em terras piauienses: ” lero-lero, conversa fiada, lábia, história contada com floreios e arrodeios”.

Pode parecer que o livro seja um amontoado de lero-lero, conversa fiada. Ledo engano. Adrinão Neto, consegue em seu linguajar, entremeado de expressões típicas do nordestinês, do qual apresenta um pequeno glossário ao final do livro, nos contar uma história fictícia, enquanto paralelamente narra fatos históricos que remontam ao tempo da independência nacional.

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Parangolé, de Adrião Neto.

É uma prosa leve, que prende nossa atenção, da primeira à última página, sendo difícil interromper a leitura por algum motivo que não seja muito forte.

Recebi o livro pelo correio na última segunda feira e já na quarta feira o havia lido totalmente, desde as orelhas da capa, as páginas introdutórias e o glossário com termos regionalistas encontrados ao longo do  texto.

Não bastassem os comentários elogiosos encontrados impressos na orelha da capa, bem como no marcador de páginas que o acompanhou, para apurar os sentidos do leitor apaixonado, logo de saída encontramos as páginas do primeiro capítulo que prendem a atenção. Não bastassem as figuras dos padres, um deles quase morto por uma sucuri durante o banho nas águas refrescantes de um riacho, há as figuras do guia e do acólito, típicos da época e região.

As estripulias de uma tribo indígena, sempre em disposição de guerra, dão um tempero bem próprio ao tempo do Brasil Colônia e Império. Somos conduzidos pelas páginas de Adrião Neto pela história piauiense nas primeiras décadas do século XIX, com a tentativa dos militares portugueses que por lá estavam aquartelados, de manter as províncias do norte brasileiro, sob domínio português. Aos poucos os nativos os derrotaram e aderiram ao grande país Brasil, sob os auspícios de Dom Pedro I, mesmo sendo ele filho de Dom João VI, rei de Portugal. Deixara de existir o Reino do Brasil, unido ao de Portugal e algarves.

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Contra-capa.

Adrião Neto, é um prazer ler sua prosa, viajar na história de seu estado natal, bem como a ficção entrelaçada no meio dos fatos históricos. Há momentos em que temos dificuldade em separar a ficção, da parte real da história. É preciso estar atento para não misturar as duas partes.

O uso das expressões regionais, misturadas ao texto, torna-lhe o sabor todo típico. Leva-nos a sentir as areias das praias nordestinas, o calor do sol, o sabor dos cajus, côcos e peixes, a brisa marinha trazendo a maresia repleta de sal.

A  religiosidade popular, contrastando com o zelo dos padres, empenhados em levar o evangelho aos rincões mais distantes, com elevado teor de sacrifício e abnegação. Mesmo assim, por vezes, são tratados com pouca consideração. Os índios, parcialmente aculturados, mantém suas tradições na medida do possível, mas misturam parte dos costumes do homem  branco, transformando-se em algo intermediário do silvícola nativo e o homem civilizado.

Sem dúvida é uma leitura agradável, instrutiva. Com o glossário de palavras regionalistas do final, não restam dúvidas na compreensão de todo o texto, pois a linguagem geral é tal qual a nossa aqui do sul.

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Marcador de página de Adrião Neto.

Ao amigo Adrião Neto, meus cumprimentos e espero no futuro ter oportunidade de saborear outros trabalhos de sua lavra. Receba um caloroso abraço de um gaúcho, nascido na terra das Missões do Rio Grande do Sul, porém há longos anos afastado, vivendo em terras paranaenses, com uma incursão breve no Mato Grosso nos anos 80/90 do século findo. Desejo que nos brinde com outros produtos de rara beleza e conteúdo típico do nordeste.

Curitiba, 04 de julho de 2015.

Décio Adams

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Utopia – A falsa premissa de segurança baseada em armamento.

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Variedade de armas brancas.

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Armas de fogo pequeno porte.

UTOPIA.

A palavra Utopia traz em sua etimologia o significado de algo irrealizável, pelo menos num dado momento. É corriqueiro ouvirmos falar que a segurança nacional, pública, mundial, depende da quantidade de armas disponíveis. Uma arma serve para que? Qualquer objeto, capaz de ferir e por último matar, pode, em circunstâncias particulares, ser considerado como arma. Se a arma serve para ferir e matar, como é possível acreditar que a segurança dependa da quantidade de armas disponíveis?

Ao longo dos milênios, vemos registrados na história humana, muito mais eventos bélicos, exaltações de atos de heroísmo, louvação de estratégias de combate, habilidades no manejo de determinada espécie de arma, do que histórias de amor, altruísmo e desprendimento em favor do próximo. Para falar apenas da época mais recente, vejamos a quantidade de conflitos bélicos ocorridos no decorrer do século XX. Vamos começar com o que ocorreu no território nacional. O século XIX terminou com uma revolução federalista, surgida no Rio Grande do Sul, em oposição ao novel governo republicano, recém implantado. Nem bem terminou o conflito no sul, eclodiu outro fato conhecido como Guerra de Canudos, no nordeste. Sem dúvida, o custo material e humano de ambos foi elevado. Ainda no começo do século XX, 1912/16, o território em litígio limítrofe entre Paraná e Santa Catarina, conhecido como Contestado, foi assolado pela Guerra do Contestado, onde novo dispêndio material e humano foi realizado.

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Na senda dos monges! – Capítulo I, (Revisto)

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Morro Araçoiaba, Sorocaba, SP.

Na senda dos monges.

 

  1. Giovanni Maria D’Agostini.

 

– Buon jorno, signiori!

– Bom dia!

– E qui que necessito me apresentar para ter documento de strangero?

– Sim. É aqui mesmo.

O funcionário da prefeitura de Sorocaba, responsável pelo cartório, em pleno dia 24 de dezembro de 1844, levantou-se e pegou no grosso livro de registro de estrangeiros. Abriu-o procurando a primeira página em branco, para fazer mais um assentamento. Nesse dia haviam se apresentado vários outros. Esse pelo jeito de falar, deveria ser italiano. Usava uma espécie de hábito religioso, estatura mediana, cabelos compridos, barba cerrada longa, caindo sobre o os ombros e peito. Tinha semelhança com os Freis Capuchinhos, que nessa época andavam pelo interior do país, evangelizando a população.

– Qual é o seu nome?

– Mio nuomo es Giovanni Maria D’Agostini. Nascito en Italia. Puode vere qui en este papel. – falou o homem entregando um papel dobrado, quase ilegível de tanto uso. Sujo de suor e terra das estradas do mundo.

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História do Brasil – Guerra do Paraguai – Final melancólico e vergonhoso.

 

 

Cerro Corá

Vista de maciço rochoso em Cerro Corá, hoje Parque Nacional de Cerro Corá.

Final melancólido e vergonhoso.

 

 

“Acá jazen diez valientes guerreros paraguaios, muertos por un covarde brasileño.”

Batalha da Guerra do Paraguai.

Pintura representando a Batalha de Tuyuti, na Guerra do Paraguai.

 

Morei em Foz do Iguaçu de maio de 1968 a início de fevereiro de 1976. Nesse período trabalhei no extinto Banco Comercial do Paraná S.A., depois na empresa de exportação Irmãos Keller Ltda, sendo que de 1972 ao final de 1975, também lecionei Matemática no Ginásio Estadual Dom Manoel Könner, no período noturno.

Durante esses praticamente 8 anos, convivi com muitas pessoas de todos os cantos do Brasil e estrangeiros, principalmente paraguaios durante o período na empresa exportadora. Em frequentes ocasiões ouvi a frase que destaquei no começo desse texto, ser pronunciada em meio a sonoras gargalhadas e diferentes expressões de chacota, relativas ao povo paraguaio, derrotado pelo Brasil e seus aliados Argentina e Uruguai, na Guerra do Paraguai (1865/1870).

Inicialmente aderi ao espírito galhofeiro com que a frase era contada, referindo-se a um suposto monumento em homenagem a cidadãos mortos na guerra. A pergunta sempre presente era:

– Se um covarde” brasileiro foi capaz de matar a dez valentes guerreiros paraguaios, o que não faria um valente brasileiro? Certamente daria cabo de meio exército inimigo.

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Na senda dos Monges – Capítulo I – Giovanni Maria D'Agostini.

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Morro de Araçoiaba, floresta de Ipanema, Sorocaba, SP

 

Na senda dos monges.

 

  1. Giovanni Maria D’Agostini.

 

– Buon jorno, signiori!

– Bom dia!

– E qui que necessito me apresentar para ter documento de strangero?

– Sim. É aqui mesmo.

O funcionário da prefeitura de Sorocaba, em pleno dia 24 de dezembro de 1844, levantou-se e pegou no grosso livro de registro de estrangeiros. Abriu-o procurando a primeira página em branco, para fazer mais um assentamento. Nesse dia já haviam se apresentado vários outros. Esse pelo jeito de falar, deveria ser italiano. Usava uma espécie de hábito religioso, estatura mediana, cabelos compridos, barba cerrada longa, caindo sobre o os ombros e peito.

– Qual é o seu nome?

– Mio nuomo es Giovanni Maria D’Agostini. Nascito en Italia. Puode vere qui en este papel. – falou o homem entregando um papel dobrado, quase ilegível de tanto uso. Sujo de suor e terra das estradas do mundo.

– Vou fazer seu documento com o nome João Maria D’Agostini. Fica mais fácil de pronunciar, certo.

– Pode ser. Non importa.

O registro foi feito no livro e um novo documento identificando o seu portador como João Maria D’Agostini, natural da Itália. Antes de terminar, o funcionário perguntou:

– Veio direto da Itália para Sorocaba?

– Non. Io pase por Belém, em Pará. Desembarque en Rio de Janeiro dia 19 de augusto.

– Importante é a data de hoje, que vai constar do documento, como se tivesse chegado hoje. O que o senhor faz para viver?

– Come? Para viver?

– Em que o senhor trabalha?

– Io sono de verdade Frade Giovanni. Sou ermitão. Mio alimento es de fructas, alguna cosa que una buena alma me dá e pronto.

O funcionário terminou de redigir o documento, conferiu, esperou a tinta secar e o deu ao seu dono para conferir.

– Faça o favor de verificar se está bem assim? Depois não vai ser possível modificar mais tarde.

João Maria pegou o documento, leu e balançou afirmativamente a cabeça.  Dobrou o papel, colocando-o em uma espécie de caderneta de couro, bastante surrado, onde não havia mais nada. Nem uma moeda ou nota de vinte reis que fosse.

– Molta gracia! Un felice dia de Natal!

O funcionário inclinou levemente a cabeça em sinal de despedida e esperou o imigrante sair. Depois que o viu suficientemente longe, falou ao colega que trabalhava na mesa ao lado:

– Mais um maluco para se juntar aos muitos que há por aqui!

– E esse parece dos bem malucos!

– Ermitão! Tem graça. Vai é morrer de fome por algum canto dessa terra.

– Sempre encontram uma alma piedosa para lhes dar algo de comer. O povo é de boa índole.

– Eu de minha parte, botava essa turma de refugos humanos toda para fora do país, se estivesse no lugar do Imperador.

– Nosso Imperador ainda é um menino. Tem coração de criança e não fará uma coisa dessas.

– O que é uma lástima.

O novo integrante da população brasileira saiu e perambulou algum tempo pela cidade, sendo olhado de esguelha em vários lugares, ou então nem lhe deitavam um olhar. Faziam de contas que não o viam. Ele não se importava. Estava acostumado a essas coisas. Lentamente se afastou da área central e dirigiu-se à periferia, saindo da aglomeração de casas. Encontrou pequenos sítios e não tardou a ver uma casa perto da estrada, que tinha ao lado um pomar cheio de frutas. Havia bananas, goiabas e uma variedade de frutas. Um pé de goiabas estava bem na beira da estrada, tendo belos frutos maduros ao alcance da mão.

Viu uma senhora no pátio e gritou:

– Buona cera, signiora! Puodo comer una fruta?

– Pode, mas não estrague. Colha só o que vai comer. – e ficou ali tratando suas galinhas enquanto um cão latia, mas não fazia menção de avançar.

João Maria colheu uma fruta, mordeu com gosto e sentiu o sabor. Estava madura e muito saborosa. Muito doce. Mentalmente elevou uma prece ao céu agradecendo pelo fruto. Dirigiu outra prece pedindo que aquela fruteira fosse a mais produtiva e de frutos mais saborosos da região. Depois de comer vários frutos, colocou dois em cada bolso de seu hábito para comer mais tarde, se não encontrasse outra coisa. Olhou para a casa e viu a mulher sentada na varanda, aparentemente descansando. Era pouco depois do meio dia. A mulher estava olhando para a estrada e quando o viu ele gritou:

– Molta gratia signiora! A la outra volta!

Rogou a Deus que abençoasse a bondosa senhora por permitir a ele saciar a fome com tão saborosas frutas. Voltou para a estrada e seguiu o caminho.

Alguns dias depois os membros da família, ao comerem das goiabas do pomar, notaram que aquelas frutas, do pé na beira da estrada, estavam mais bonitas, saudáveis e doces. Nunca antes haviam notado qualquer diferença e agora algo mudara.

– Vai ver que foi o “monge” que comeu dela, abençoou a goiabeira e fez isso, – falou a mulher aos filhos.

– Monge! Que monge, mamãe?

– Na véspera de Natal logo depois do meio dia, quando vocês estavam lá no fundo, limpando o paiol, parou uma espécie de franciscano ou sei lá que ordem e pediu para comer umas goiabas. Eu deixei, afinal estão caindo os frutos de tanto que tem.

– Reparou que daquele pé nenhuma fruta tem bicho dentro? Todas elas estão saudáveis e muito mais doces que dos outros. São gostosos, mas aquele está diferente.

– Eu quero ver isso de perto, – falou a mãe e foi saindo para ir lá experimentar uma fruta de cada e tirar a dúvida.

Os filhos correram acompanhando a mãe e mostraram. Naquele pé de goiaba não havia frutas caídas, nos outros uma porção se estragavam pelo chão. Experimentou uma fruta de um pé, depois de outro, por fim daquele perto da estrada. Sentiu o sabor, observou a beleza das frutas e foi obrigada a concordar. As frutas dali eram mais saborosas e estavam totalmente saudáveis.

– Vamos ver se isso continua a ser assim. Se na próxima safra acontecer o mesmo, alguma coisa houve. Esse homem é um santo. Eu quase mandei ele ir embora, mas era véspera de Natal e tive a impressão de que ele tinha tanta fome.

– Vai ver que era o Menino Jesus disfarçado, mãe!

– Ou São José, talvez!

– Não vamos dizer nada ainda para ninguém. Ou o povo vai comer até as raízes da goiabeira.

– Vamos fazer uma cerca bem alta ao redor para ninguém chegar perto.

João Maria, depois de perambular por algum tempo, retornou por outro caminho para as proximidades da cidade. Viu ali perto uma indústria, de onde subia bastante fumaça. Sinal de que usavam fogo para fabricar alguma coisa. Ao chegar mais perto, ouviu o ruído de ferro sendo batido e se deu conta de que era uma fábrica de objetos de metal. Na verdade era a fábrica de ferro. Poucas centenas de metros dali, viu um morro, dando a impressão de que ali haveria alguma gruta que pudesse lhe servir de abrigo durante a noite. Sempre havia encontrado um lugar para pernoitar na natureza. Muito raras vezes fora obrigado a aceitar um lugar no paiol ou celeiro para dormir.

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Vista do alto do Morro de Araçoiaba

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Vista aérea da região de Araçoiaba.

 

Dirigiu-se para lá e encontrou uma espécie de trilha que avançava pela ladeira acima até um determinado ponto. Dali em diante, abriu passagem entre a vegetação e caminhou mais algum tempo. De repente viu diante de si o que procurava. Uma gruta, ampla o suficiente para lhe dar abrigo e uma fonte de água ao lado. Era tudo que precisava. Limpou o lugar e quebrou alguns galhos verdes para forrar o chão, onde iria dormir naquela noite. Encontrou ali perto frutas silvestres e experimentou uma para testar. Não a conhecia e poderia ser tóxica. As goiabas que trouxera, ficariam para mais tarde ou na manhã seguinte.

Depois de algum tempo sem sentir reação adversa com a ingestão da fruta estranha, mas de agradável sabor, decidiu comer mais algumas. Se aquela primeira não lhe fizera mal, mais algumas também não fariam. Trazia no bolso uma pederneira que servia para obter fogo. Reuniu lenha seca que encontrou nas redondezas, numa quantidade suficiente para passar a noite ali. O fogo espantaria algum animal selvagem que se aproximasse. Não havia vestígios de ser habitada, mas nunca se sabe. Confiava em Deus, mas não era seu hábito pôr o Altíssimo à prova. Depois de acender o fogo, sentou-se e se pôs a comer as goiabas. A escuridão cobria a floresta e em seu abrigo natural reinava absoluto silêncio. Uma coruja piou no toco da árvore seca que ficava perto. Os grilos cricrilavam, os pirilampos voavam para todos os lados, iluminando com suas luzes esverdeadas a mata. Parecia um céu estrelado, só que recobrindo a superfície da terra.

Havia caminhado bastante. Estava cansado e decidiu deitar-se depois de colocar lenha no fogo para fornecer um pouco de calor, pois não sabia como seria a madrugada. Não convinha deixar o fogo apagar. Decisão acertada, a madrugada foi fria e com neblina. Acordou sentindo o ar frio e ativou o fogo com mais alguns pedaços de lenha. Voltou a dormir. A cama de folhas que fizera estava confortável como poucas.

Ao raiar do dia, o alegre chilrear dos pássaros da floresta o acordou com uma suave melodia. Era a sinfonia da natureza saudando o novo dia que chegava. Levantou-se, foi até a fonte, lavou o rosto. A água pura que brotava abundante era um convite. Retirou o hábito e lavou o corpo. Estava sozinho e longo de qualquer olhar indiscreto. Não precisava tomar cuidados nesse sentido. Esperou por uns minutos, sacudiu as últimas gotas de água da pele e tornou a vestir-se. Comeu a última goiaba, depois de fazer uma prece matinal, agradecendo a noite de sono, a água da fonte, o sol que brilhava radioso. Era o dia de Natal. O aniversário do Divino Mestre.

Nesse momento muitas crianças certamente estavam recebendo seus presentes, habitualmente distribuídos nessa ocasião. Sentia que o dia tão sagrado estivesse sendo transformado em motivo de comércio. Lembrou de Jesus expulsando os vendilhões do Templo do Senhor em Jerusalém, há mais de 1800 anos atrás. Verificou se o fogo não iria se alastrar e depois de meditar por alguns minutos, desceu o morro, cantarolando salmos que sabia de memória. Quando não tinha algum especial, criava os versos com suas palavras e seguia alegre. Ou caminhava silencioso, meditando.

Os operários da fábrica que ficava próximo, ouviram o cantar do ermitão. No dia precedente alguns haviam visto o homem enveredar na direção do morro e agora ouviam o seu cantar. Embora fosse feriado, sempre havia alguns que tinham alguma tarefa especial por fazer e estavam na fábrica. A voz do homem era forte e grave. Um deles brincou:

– Parece um bugio roncando!

– Ou um carvoeiro, – disse outro.

Em alguns minutos viram o dono da voz surgir de entre as árvores e se aproximar da fábrica. Quando chegou perto, começaram a fazer troça desabridamente, sem se importarem com a possibilidade de o mesmo ficar ofendido. Julgavam-se membros de uma nova classe social, acima da plebe mais humilde dos casebres da região periférica da cidade. Fabricavam ferramentas, utensílios, equipamentos agrícolas, armas em um setor especial ao qual só os mais especializados tinham acesso.

– Ei, bugio!

– Homem das cavernas!

Um dos operários, vendo que ele não reagia, continuando a caminhar serenamente, o olhar calmo e tranquilo, chegou e parou em sua frente:

– Quem mora no mato é índio ou bugio! O que veio fazer na cidade?

– Felice Natal, fratello!

– O que foi que você falou?

– Io chamei você de meu irmão.

– E pensa você que eu tenho um irmão de sua estirpe?  Vê se olha no espelho.

– Eu acho que ele nem sabe o que é um espelho, – falou outro.

– Bom dia, feliz Natal! – voltou a dizer João Maria.

– Deixem o homem em paz! Ele não quer nada com vocês, não estão vendo? – falou o chefe dos operários que viera ver o que estavam fazendo ali foram em lugar de estarem trabalhando.

– A la próxima volta, fratello! – disse João Maria ao novo personagem que entrara na história.

Ele seguiu seu caminho e os operários foram, embora relutantes, para o seu trabalho. Tinham perdido uma ocasião de se divertir um pouco a custa daquele espantalho, vestido de frade. Ao passar pela região central, encontrou tudo quieto e parado. Ao longe se ouvia som de música e o espocar de alguns fogos de artifício. Iria ver o que era aquilo. Deveria ser a famosa feira se Sorocaba, onde se reuniam tropeiros de todos os cantos do país. Uns vinham vender tropas de muares, cavalos, bois e outros animais menores. Outros tinham como objetivo comprar esses mesmos animais para o serviço, ou para abate em sua região. Era a maior feira de animais de todo o país. Muito próprio para conhecer pessoas de todos os lados. Caminhou calmamente até lá e era realmente a feira.

O movimento de pessoas e animais era imenso. Mesmo em dia de feriado, o povo estava ali fazendo negócios, pagando e recebendo, separando o que fora vendido, fazendo os lotes que iriam para seu novo destino. Suas vestimentas não permitiriam muita velocidade em caso de algum estouro de boiada ou outro animal desembestado. Por isso se manteve mais nas bordas, onde se localizavam os quiosques de comidas típicas de todas as regiões. Havia mulheres da Bahia vendendo seus acarajés, nordestinos vendendo redes, laços de couro cru, selas, arreios em geral. Também havia carne de cabrito e carneiro assada, buchada de bode, toda sorte de artigos. Sentou-se em um tronco de pau e ficou observando o movimento.

Em dado momento apareceu um touro, distribuindo chifradas para todo lado. Vinha na direção de um menino de cinco ou seis anos e o teria trucidado. João Maria levantou-se com agilidade inimaginável e pulou para a frente do animal dizendo:

– Calma boizinho! É apenas um menino. Vai procurar alguém do seu tamanho!

O animal estacou e escarvou o chão bufando! Nisso o dono que de quem ele fugira chegou e o laçou certeiro. Em segundos, outro laço, jogado do outro lado, impedia os movimentos do imenso animal. A mãe do menino o abraçou com os olhos marejados de lágrimas. Veio para perto de João Maria e falou:

– Deus seja louvado, seu padre.

– Cuida de suo figlio! Dio no sta sempre presto para fazer um milagro.

A mulher fez questão de beijar a mão do homem que salvara o menino, pondo-se entre ele e o animal furiosos. Os circundantes ficaram admirados com a coragem e serenidade do estranho. Se antes o haviam olhado com certo desdém, agora o olhavam com admiração, apesar de seus trajes bastante surrados e sujos. Não demorou e alguém falou que ali deveria estar um homem santo, debaixo daquelas vestes humildes. Os cochichos se espalharam e logo alguém lhe ofereceu um acarajé, depois um pedaço de carne assada, que ele recusou. Comeu uma espiga de milho assada, uma pamonha e sentiu-se satisfeito. Comera algumas frutas como desjejum. Em uma bica bebeu água para matar a sede, pois o dia estava quente.

Caminhou por entre as barracas e os olhares de admiração o seguiam por toda parte. Quando a tarde ia a meio, encetou a caminhada de volta até seu reduto. Levava, embrulhados em um papel pardo algumas pamonhas e acarajés. Seriam seu jantar. Quando se aproximou da saída da cidade, já perto da fábrica, encontrou casualmente uma tábua, bastante larga e comprida o suficiente. Ela iria servir como sua cama, apoiada sobre as pedras. Assim o corpo ficaria melhor apoiado durante as horas de sono. Era um pouco pesada, mas iria devagar para conseguir levar sua “cama”. Fora providencial sua passagem por aquela rua, diferente da que passara pela manhã.

Chegou a entrada da gruta bastante cansado, melhor dizendo, exausto. Sem perder tempo arrumou a tábua sobre as pedras, calçou os pontos onde não ficara apoiada e sentou para testar. Faltava colocar mais uma pedra num ponto, onde sobrara espaço. Colocou logo a pedra e tratou de providenciar lenha e mais algumas folhas, especialmente de samambaias e xaxim. Acendeu o fogo e usando uma frigideira que encontrara no caminho, jogada fora. Estava sem cabo e não tinha tampa, mas serviria para aquecer alguma comida de vez em quando. Lavou-a cuidadosamente na água da fonte.

Enquanto isso na cidade corria o boato de que existia um santo caminhando pela urbe. Casualmente o filho mais velho da mulher, dona da goiabeira, ouvira falar no homem e sua descrição. Tudo combinava. Deveria ser o mesmo homem e ficava, em sua opinião, provada a intervenção divina por meio do homem. Contou o caso do touro à sua mãe ao chegar em casa e começaram a se recomendar à proteção do monge, como começaram a chama-lo. Sem muito alarde, contaram aos vizinhos a história da goiabeira e agora parecia ser o mesmo homem que operara o aparente milagre de parar o touro, antes de atingir o menino.

Logo a novidade se espalhou por toda redondeza, entre os sitiantes, agricultores e a classe trabalhadora mais humilde. Passaram a prestar atenção para ver onde ele passava a noite. Ninguém sabia onde ele se abrigava, especialmente nessa época do ano, bastante chuvosa. Em menos de uma semana o segredo estava desvendado e ele começaram a procura-lo em busca de alívio para os males do corpo. Ele não receitava ou indicava. Recomendava chá, ervas para emplastros, bochechos, escalda-pés, e outras providências. Sua fama se espalhou por toda parte e passaram a se referir a ele como “monge de Ipanema”. Haviam descoberto que permanecera albergado na região de Ipanema no Rio de Janeiro nos primeiros meses após desembarcar.

Nas noites enluaradas era ouvida sua voz forte entoando salmos. Nessas ocasiões os operários da fábrica diziam uns aos outros:

– O bugio está roncando novamente!

Observavam diariamente grupos de pessoas subindo o morro em busca do monge. Levavam pessoas doentes, aleijadas e fracas para que o “santo homem” lhes indicasse um remédio para o mal. Ele em geral recomendava que procurassem um médico e sugeria algumas ações lenitivas. Como em geral os sintomas cediam com as beberagens, banhos, emplastros e outras providências, o médico ficava para depois. Vez ou outra ele voltava para a feira e ali conheceu tropeiros, peões e gente de todos os cantos do país. Ao mesmo tempo estes ficavam sabendo da fama do monge e levavam as notícias para seus lugares de origem. Assim, em alguns meses, a fama do monge santo, monge milagroso de Sorocaba alcançava praticamente o país inteiro de Sul a Norte.

Conversou seguidamente com tropeiros do Rio Grande do Sul. Assim ficou sabendo que o clima desse estado era mais semelhante ao de sua terra natal. Em sua mente se formou a decisão de deixar Sorocaba e peregrinar para o Sul. Se não se adaptasse poderia retornar, acompanhando os tropeiros que vinham o ano inteiro trazer tropas de animais. Quando estava próximo de completar um ano inteiro ali, iniciou a viagem para o sul. Despediu-se de alguns moradores mais próximos, que sempre lhe ofereciam pequenos donativos na forma de alimentos, alguma peça de vestuário. Uma senhora ajustara várias sotainas que já não serviam, consertara os estragos e assim podia vestir uma roupa limpa periodicamente.

Tropeiros que conhecera na feira ofereceram uma montaria para a viagem, mas ele recusou, dizendo que iria caminhando. Não se adaptava ao lombo de um animal. Deus lhe dera duas pernas para caminhar e era assim que ele iria. O povo humilde de toda região lamentou imensamente a partida desse homem que irradiava bondade. Além das indicações para os males do corpo, aconselhava na vida espiritual. De sua boca só se ouvia palavras serenas, conselhos sábios e recomendações de bondade. Mesmo assim ele dizia haver nascido para ser peregrino. Não deveria ficar num lugar por muito tempo. Um dia talvez voltasse e tornasse a partir.

Durante semanas seguidas, levantava cedo, caminhava nas horas mais frescas da manhã, até encontrar uma sombra e água na beira do caminho. Sempre estava atendo à existência de frutas silvestres, recolhia algumas e guardava em uma sacola. Na hora aprazada serviriam de alimento. Matava a sede nas fontes. Diversas vezes encontrou viandantes nos pontos de descanso e mantinha animada conversação, deixando em todos um lampejo de bondade.

 

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