Arquivo da tag: #prisão

Mineiro sovina! – Capítulo XVIII

Galeria do museu do Vaticano.

 

Pirâmide do museu do Louvre.

 

Prédio de museu em Roma.

 

Um rival na parada.
 
 
         Naquela noite José Silvério teve um pouco mais de privacidade com a noiva. Ela mesma voltara do longo período de ausência aparentemente famainta de carinho, intimidade. Os pais foram dormir e eles permaneceram sentados nos confortáveis estofados da sala. Estavam bem juntos, trocaram beijos, primeiro levemente tímidos e aos poucos ganharam em ardor. Parecia que o contato com os diferentes povos da Europa especialmente, haviam deixado marcas nas atitudes e sentimentos da jovem. Antes que ultrapassassem determinados limites José fez uma pausa e falou:
         – Meu bem! Eu te amos mais que a qualquer coisa nesse mundo. Sou feito de carne e osso. Se nós continuarmos teremos que ir amanhã para diante do juiz e fazer nosso casamento.
         – E isso faria você ficar encabulado?
         – Digamos que não era exatamente isso que estava em meus planos. Mas, não havendo alternativa, eu encaro essa sem problema. É isso que você quer, meu amor?
         – Também não era meu roteiro de vida, mas esses meses todos longe me deixaram muito carente. Gostaria de poder partilhar todos os momentos com você.
         – Não teremos que esperar muito. Apenas os meses para providenciar onde vamos morar, preparar a festa do casamento, tramitar os papéis na Igreja e no civil. Leva algum tempo, mas não é demais.
         – De fato não será conveniente pisar diante do padre usando um vestido branco de noiva e já ter perdido a pureza própria da situação. Acho que mamãe ficaria muito triste. Não custa muito dar a ela essa alegria.
         – Sua mãe merece todo respeito de nossa parte. Se foi possível mantermos nossos instintos sob controle até hoje, podemos esperar mais uns meses.
         – Eu li algumas notícias na Europa e Estados Unidos que mostram isso como coisa ultrapassada. Até aqui no Brasil já há gente dando a minima para a virgindade e essas coisas todas.
         – Provavelmente daqui a alguns anos esses conceitos e tradições serão coisa do passado. O que dá um certo receio é que, estão querendo derrubar as tradições, proibições do passado, mas ninguém sabe ao certo o quê colocar no lugar.
         – Há muita gente dizendo que família é uma instituição falida, não tem mais sentido. Gostaria de saber como vão ser educados os filhos nascidos nesse caos resultante dessas mudanças todas. Qualquer hora vão aprovar a legalização do divórcio, há mesmo quem queira o mesmo para o aborto. Acho que é muita mudança para uma vez só.
         – Fico feliz em saber que você tem uma visão equilibrada sobre essas questões. Ficaria preocupado se estivesse imbuida de que essas modificações são algo necessário de imediato. Que irão acontecer em algum momento no futuro não resta dúvida. Importa que antes seja realizada uma análise profunda de todas as consequências e implicações que trarão consigo.
         – Eu imagino como ficarão vocês advogados quando essas leis forem aprovadas.
         – Teremos que nos adaptar, mesmo que custe um pouco da nossa maneira de ver os fatos. Seremos obrigados a nos manter dentro dos limites legais estabelecidos.
         – Eu sempre me pergunto se a palavra fria da lei consegue abranger toda a variada gama de situações possíveis.
         – Com certeza que não. Demora uma boa temporada até que seja estabelecida uma certa jurisprudência. Ela servirá de baliza aos novos processos e suas decisões ao final. Cada juiz que inferior uma forma inovadora de aplicar a palavra da lei constitui um marco nesse conjunto de normas informais. São a parte não escrita da lei, que passa a fazer parte dos processos e das decisões transformadas em sentenças.
         – Pensei que minha vida de pintora era complicada, mas vejo que a de advogado é muito mais. Não deve ser fácil encontrar o caminho no meio de todo esse emaranhado de leis, decretos e normas. Ainda mais essa tal jurisprudência para aumentar a confusão.
         – A prática ajuda bastante. Hoje temos uma facilidade ampliada com as compilações em compêndios. Pior era algumas décadas passadas. Os advogados sofriam para conseguir encontrar o caminho. Eram noites inteiras em claro para encontrar a forma de defender um cliente, acusar um malfeitor. Houve gente que fez verdadeiras maratonas nesse frenesí. Quando o julgamento está marcado, não há como deixare de comparrecer. Às vezes conseguimos adiar a realização, mas precisamos de um motive justificado para isso.
         – Acho que vou fazer o meu atelier ao lado de seu estúdio de trabalho em nossa casa. Enquanto você estuda seus processos em desenvolvo meu trabalho de pintura.
         – Será que é uma boa ideia? No começo creio que corremos o perígo de esquecer de nossos afazeres e partir para outras coisas.
         – O jeito vai ser colocar uma divisória gradeada para nos manter afastados.
         – Melhor começar cada um em seu canto. Depois poderemos ficar mais próximos.
         – Acho melhor irmos dormir. Amanhã você terá que sair cedo para cuidar de seus compromissos. Eu por minha vez vou aprontar meu atelier para começar a pintar. Etou cheia de ideias para colocar em prática. Técnicas novas que aprendi, só de olhar alguns artistas da Europa trabalhar.
         – Mas sobrou tempo para aprender coisas novas, com toda correria que foi sua excursão?
         – Sempre sobra e a gente aprende apenas num rápido olhar. O resto fica por conta da criatividade.
         Um último e prolongado beijo encerrou a noite. Depois um abraço carinhoso, os corpos colados sentindo o pulsar mútuo dos coraçoes, antes de se dizerem Boa noite. José já sabia onde deveria deitar e foi para o quarto. Fez isso a contragosto, pois tinha vontade mesmo de tomar a noiva nos braços e deposit-la na cama, iniciando um prolongado processo de despí-la lentamente. Depois viria a última etapa antes da união física dos corpos. Ansiava por esse momento, mas estava encaminhado para a realização de seus desejos em tempo não muito longo. Tinha que ser forte nesse interval. Não queria manchar sua reputação de advogado destacado, transgredindo as normas do respeito à casa do futuro sogro.
         Era tido praticamente como um filho tanto por Onofre, quanto por Maria Luisa. Eles não mereciam que manchasse a honra da casa, deixando de corresponder à confiança que nele depositavam. Passou um longo tempo deitado com a mente em turbilhão. Sentados no estofado haviam trocado carícias signficativamente mais íntimas do que jamais haviam ousado antes. Sentra sob suas mãos, através do fino tecido a pele fremindo de desejo. Os seios bem proporcionados haviam se enrijecido sob o efeito da proximidade do corpo masculine. Conseguira perceber que ela ardia em desejo por ele com intensidade semelhante ou até mesmo maior que ele por ela. Fora a educação recebida desde a infância que os fizera se conrolar.
         No outro aposento por seu lado Isabel rolava de um lado para outro em sua cama. Tinha dificuldade em acalmar o fogo que lhe consumia as entranhas. O que ficara por tanto tempo submisso e controlado, explodira igual um vulcão ao toque suave das mãos de José. Nesse momento, a simples lembrança do noivo, suscitava em se user sucessivas ondas de calor. Precisou de grande esforço para não levantar e se esgueirar para o quarto do noivo. Ocorreu-lhe que, não faria nenhuma diferença se o encontro tão desejado dos dois corpos se realizasse agora ou dali a alguns meses. Nesse momento lembrou de seu pai de olhar severo, a mãe sonhadora e se controlou. O tempo agiria a seu favor. Mergulharia no trabalho, extravasando toda sua paixão em formas e cores, bem mais ousadas do que qualquer coisa que já pintara até o dia de hoje. Mil imagens dançavam diante seus olhos e um arco-írias de mil cores se espraiava no espaço.
         Ambos dormiram algumas horas de sono agitado. Mal o sol apareceu no horizonte, estavam em pé. José para empreender a viagem até a cidade depois de um rápido desjejum providenciado pela cozinheira sob o comando de dona Maria Luisa. Ele estava à meio com seu café, quando entrou e o cumprimentou Isabel. Eram visíveis nos olhos de ambos as horas insones transcorridas antes de acalmarem seus hormônios. Sentou-se para também tomar se desjejum. Alguns minutos depois José se despediu, depois de olhar em seu relógio de pulso. Se não se apressasse chegaria atrasado, sem esquecer que, cada minute ao lado da noiva aumentava o risco de atrasar mais um pouco.
         Nas primeiras semanas ambos mergulharam no trabalho. José vira a pilha de processos em sua mesa crescere, apesar de seu empenho em dar andamento diário a tudo que fosse possível. Acontecia que, sua crescente notoriedade no mundo jurídico, fizera crescere o número de clientes que procuravam seus serviços. Não havia mais necessidade de o diretor do escritório destinar trabalho a ele. Os clientes por si mesmos solicitavam atendimento de parte dele. Junto com um acrséscimo aos rendimentos, vinha também um enorme aumento de horas dedicadas ao estudo das leis, seus artigos, parágrafos e ítens a serem aplicados a cada caso. Não tardou e começou a sair do escritório apenas depois de oito ou nove horas da noite.

Museu do Vaticano.
Ruinas romanas.
Turistas visitando museu do Vaticano.


         Já Isabel começou por vir até a cidade arrematar praticamente o estoque de telas, tintas, pincéis, espátulas e outros apetrechos usados em seus trabalhos. Havia alguns que nunca usara, mas estava disposta a experimentar. Em pouco tempo descobriu um imenso campo novo descortinar-se ante os olhos da mente. Os trabalhos se sucederam e rápida sequência, chegando a estarem lado a lado mais de um deles. Enquanto refletia sobre os próximos traços, cores e tons de um aplicava palhetas, espátulas e outros recursos no trabalho no cavalete ao lado. Em menos de um mês uma variedade ampla e em bom número de trabalhos estava colocado nos ganchos dispostos ao longo da parede. Dali sairiam depois de completarem a secagem.
         Em determinado dia da segunda semana, Maria Luisa ousara abrir a porta do atelier e encontrou a filha inteira suja de tintas. O avental dava a impressão de ter sido usado por um pintor de paredes durante alguns meses sem lavar. Até seus lindos cabelos haviam recebido alguns respingos. A tentativa de remover a tinta com a mão, espalhara-a, tornando o estrago mais intense. Os olhos arregalados da mãe a fizeram perguntar:
         – O que foi mãe? Viu fantasma?
         – Eu vi você, minha filha, toda suja de tinta. – falou controlando a vontade de rir.
         – Sei que estou toda suja, mas não vou parar antes de concluir esses dois quadros. Minha alma inteira está se derramando sobre as telas e variadas cores.
         – Quer um refresco ou um café, querida?
         – Vou aceitar sim, mãe. Um café com bolo se tiver. Mas traga aqui no atelier. Não vou sair daqui.
         Alguns minutos depois a mãe chegou com o café recém coado, uma travessa com fatias de bolo, alguns biscoitos e procurou um lugar para apoiar o que lhe ocupava as mãos. Isabel afastou potes de tinta e outros apetrechos. Depois ajudou a mãe a se livrar do que trazia. Pucharam duas banquetas em que sentaram e tomaram café, comeram bolo e biscoitos. Maria Luisa olhou para as telas quase acabadas e tomou um leve susto. O que a filha estaria sentindo, para traduzir naquelas formas e cores tão diferentes do que até ali pintara? Era forçada a reconhecer que era possível antever um efeito de beleza rara. Um vigor pictórico incrível.
         Quando terminaram de comer, juntou os utensílios e os levou para cozinha. Antes de sair falou:
         – Até mais tarde, filha. Vou chamar para a hora do jantar.
         – Obrigada mãe. Até lá vou ter terminado isso aqui. Vou tomar banho antes de jantar.
         Continuou trabalhando com dedicação. Por volta de 18 h e 30 min. deu-se por satisfeita com seu trabalho. Conseguira colocar na tela seus sentimentos mais intensos. Traduzira um turbilhão que rugia em seu íntimo nas cores fortes e contrastantes dos quadros que acabava de pintar. Retirou o avental, removeu com um líquido especial o excesso de tinta de suas mãos e olhou uma última vez para as duas telas ainda nos cavaletes. Ficariam ali até o dia seguinte para a eventualidade de querer fazer algum retoque de última hora.
         Foi para o banheiro e tomou um longo banho morno. Junto com a água que escorria por sua pele sentiu descer para o ralo alguns de seus temores mais recentes. Chegara a recear de ser incapaz de porn a tela o que sentia. O que ficara sobre os dois cavaletes mostrava que era capaz. Dera um passo importante em  sua nova fase de artista. Faria uma série de trabalhos nessa linha antes de se aventurar em algo mais sofisticado. Tivera contato com artistas de outros níveis e sentia-se tentada a galgar esses mesmos patamares. Apenas não iria colocar os pés pelas mãos. Haveria tempo suficiente para tudo isso. Conseguia antever um futuro diversificado em sua produção artística. Inclusive faria tentativas de misturar técnicas diversas no mesmo trabalho. Tentaria harmonizer o traço dos pincéis com as espátulas, esponjas produzindo esfumação, tudo num mesmo conjunto.
         Enquanto isso José Silvério não conseguia se livrar do acúmulo de trabalho. Pediu ao diretor do escritório para lhe providenciar um assistente, pois era forçoso delegar tarefas mais simples para alguém em início de carreira. Tratou-se de conseguir um formando ou recentemente formado. Bastou abrir as inscrições e surgiram um bom número de candidatos. Especialmente os alunos da primeira turma de bacharelandos do curso de direito local. Em poucas semanas estariam colando grau e se pudessem se encaixar em uma posição de assistente de um advogado bem posicionado dentro da carreira, teriam a tarefa de ingressar na profissão bem facilitada.
         As inscrições logo foram encerradas e iniciou-se a seleção. Tinham necessidade de mais dois assistentes para os demais gabinetes. Depois da triagem prévia, chegou o momento da seleção final entre os melhor qualificados. Nessa fase José Silvério quis participar do processo. Queria saber com quem estaria trabalhando. Precisava obter as informações mais detalhadas possíveis do que seria possível esperar do auxiliar. Haveria momentos em que teria necessidade de delegar algumas atividades e poder confiar integralmente no desempenho de quem estivesse sob seu comando.
         Depois de entrevistas, exercícios práticos e uma participação em uma audiência, finalmente foi feita sua escolha. A opção de José recaiu sobre uma jovem, um pouco tímida, mas extremamente competente. Entre todos os candidatos era quem melhor desempenho tivera em todas as atividades a que for a submetida. Foi providenciada uma escrivaninha para colocar num dos cantos do amplo gabinete. Assim a assistente estaria ali para assumir qualquer atividade menos complexa, na impossibilidade do titular. Assim em alguns dias conseguiram colocar a pauta de processos praticamente zerada. À noite ao encerrarem o expediente, ficava apenas uma ou duas pastas ali para o dia seguinte, com entrevistas ou audiências marcadas.
         Dessa forma, no primeiro final de semana José foi para a fazenda. Nas semanas anteriores estivera tão ocupado que nem pensare em ir ver a noiva. Seus pensamentos estariam constantemente voltados para o trabalho e isso não seria justo nem para ele, quanto menos para ela. Haviam se falado por telefone e soubera que ela também estava tendo um nível de produção inesperado. Nunca pintara tanto em tão pouco tempo. Eram até o momento mais de 10 telas prontas. Pelo que ela lhe contou iria se surpreender com o resultado. Eram totalmente diferentes de tudo que pintara até aquele momento.
         Sábado após o almoço colocou algumas roupas numa apequena valise, pegou seu material de barba, loção, escovas de dentes e demais utensílios. Deixaria para tomar banho e fazer a barba na casa de Isabel. Assim estaria limpo e mais apresentável do que se fizesse isso antes. Enfrentar a estrada poeirenta nesses dias de verão, era difícil. Chegava-se ao destino sempre suado e sujo, pouco importando o estado do início da viagem. Chegou e foi recepcionado por Onofre. Isabel ainda estava no atelier. Estava próxima do final de mais dois quadros. Dera agora para pintar dois ao mesmo tempo, com técnicas diferentes. Tinha produzido um monte de coisas novas e o depósito estava cheio de telas para serem usadas.
         – Então é bom deixar ela terminar. Se perturbar agora pode atrapalhar o desenvolvimento do raciocínio e esquecer o que tinha em mente.
         – Eu e Maria Luisa nem entramo no atelier. Está todo atravancado de coisas que nem dá para andar por lá.
         – Essa tournê pelo exterior mexeu com os brios dela, atiçou o gênior criativo e ela está em uma fase de grande produção.
         – Inté parece qui o mundo vai cabaá hoje ou minhã. Percisa faze tudo num dia só.
         – Mas isso passa. Aos poucos ela se acalma. Então volta a ser a doce e meiga Isabel de sempre.
         – Num é que ela tá deferente de dantes. Só não sai daquele atelier. A custo vem pra mesa pra mode come com a gente.
         – Ela ficou muito tempo acumulando ideias e teme que a inspiração vá embora. Quando se der conta que isso só faz aumentar mais ainda a criatividade, ela retorna ao normal.
         – Qui Deus le ouça, José. Nóis quasi num cunversa mais cum ela essas semana despois que vorto dos estrangero.
         – Vou tomar banho e fazer a barba, depois vou espiar no atelier. Vamos ver se consigo tirar ela de lá.
         Pegou sua valise e foi para o quarto que sabia estava sempre pronto à sua espera. Pegou suas roupas limpas, os utensílios para a barba, toalha e sabonete indo para o banheiro. Quando saiu dali, bem barbeado, perfumado, rescendendo loção de barba, uma roupa leve para enfrentar o forte calor, apesar do adiantado da hora, ouviu um leve rumor no cômodo ao final do pequeno corredor. Era o atelier de Isabel. Foi guardar suas coisas, deixando tudo bem arrumado e foi até a porta do atelier.
         Bateu de leve na porta e ouviu a vol dizer lá de dentro:
         – Pode entrar que a porta não está trancada.
         Abriu devagar e falou:
         – Dá licença!
         – Oi! Meu Deus! É você!
         – Quem você pensou que era?
         – Estava tão distraida olhando os meus trabalhos que acabei de terminar e nem percebi que já é tarde. Não vem nem perto de mim pois estou imunda, toda lambusada de tinta e cola.
         – E eu lá me import com isso! O que me interessi é você. O que tem por foram não faz mal.
         – Mas estou vendo que acabou de sair do banho, está perfumado. Eu estou cheirando sour e tinta. Preciso fazer uma ventilação nesse atelier.
         – Por que não põe um ar condicionado?
         – Nem tinha pensado nisso. Agora não preciso mais pedir licença ao papai. Tenho dinheiro para pagar. Aliás acho que vou por isso em toda casa. Chega de dormir mal em noitess de verão.
         – Essa é uma vantagem que ter dinheiro para gastar traz. Pode-se usufruir de algumas comodidades for a do normal das pessoas. Posso ver os seus quadros ou ainda não estão prontos?
         – Estão sim. Estava vendo se tem alguma imperfeição que precise de retoque.
         Ele foi até perto dela e quis abraçá-la, mas ela se esquivou. Ele não insistiu e virou-se para olhar os quadros. O que teve diante de seus olhos era algo incrível. Duas obras primas diria ele em sua pequena capacidade de percepção artística. Mesmo assim era possível ver que, esses estavam em um patamar bem acima dos primeiros que vira. Se daquela vez ficara visivelmente impressionado, imaginem agora. A criatividade de Isabel desabrochara num conjunto de traços vigorossos, cores suaves e tons fortes alternados em perfeita combinação. Permaneceu estático por um longo momento. Seus olhos miravam ora o da direita, ora o da esquerda.
         Ficava difícile dizer qual era mais encantador. Eram executados em técnicas visivelmente diferentes, no entanto tinham igual harmonia. A alma da artista parecia sorrir através das pinturas. Tão ensimesmado ficou que Isabel decidiu falar e tirá-lo daquele enlevo:
         – Não vai falar nada meu bem? Estão tão horrorosos?
         – O quê? Eu estou sem palavras para dizer o que sinto. Você superou qualquer espectativa que eu poderia ter a respeito de seu trabalho. Isso aqui vai fazer furor no mercado de artes. Espera só para ver.
         – Tem tudo isso aqui pronto, – disse ela apontando uma longa fileira de obras colocadas convenientemente suspensas de ganchos fixados no teto.
Ele nem se deu ao trabalho de contar, apenas viu que eram mais de 15. Isso representava a produção de mais de duas pinturas por semana, provavelmente tres ou quatro. Impressionante era a força criadora presente naquele corpo aparentemente frágil de mulher. Tinha no entanto uma energia inerior inigualável.
– Parabéns querida. Vou querer ver um por um, mas não agora. Seus pais estão preocupados com seu rítmo de trabalho. Eu também estive muito atarefado, mas agora com a contratação de uma assistente consegui colocar mais ou menos em ordem.
– Aham! Uma assistente!
– O que tem isso?
– Tinha que ser “uma”, não podia serm “um” assistente?
– Escolhemos o que havia de mais competente disponível. Não acredito que vai ficar com ciumes de mim agora!
– Imagine! Eu com ciumes? Nunca.
– Ainda bem. Eu iria ficar preocupado com isso.
– Afinal eu convivi com uma porção de gente por quase um ano viajando e você ficou aqui. Que eu saiba nunca ficou com ciumes.
– E deveria?
Ela tinha na mão um pincel sujo com resto de tinta e ameaçou passar no rosto dele.
– Vou mostrar como se faz com noivos ciumentos.  
         Ele ficou estático esperando que ela passasse o pincel em seu rosto. Porém parou alguns centímetros antes e sorriu.
         – Você ia deixar eu sujar seu rosto de tint
         – E por que não? Amo você tanto que aceitaria ser pintado inteiro pelos seus pincéis, ou melhor com as mãos. Deve ficar ótimo.
         – Há necessidade de cuidados. Eu preciso comprar luvas para proteger as maos contra alguns componentes tóxicos das tintas.
         Ela retirou o avental e o colocou pendurado em um gancho na parede.
– Vamos que eu também vou tomar banho. Tenho que remover uma tonelada de suor e tinta do corpo.
Sairam e ela entrou no seu quarto, dando antes um beijo bicudo no rosto dele. Sumiu no interior depois de fechar a porta. José foi até a sala, onde não encontrou ninguém e saiu para a varanda. Ali estavam, apreciando o entardecer, Onofre e dona Maria Luisa.
– Conseguiu desentocar a toupeira?
– Consegui. Ela vai tomar banho e depois vem ficar com a gente.
– Qui é que ela tá pintando tanto nesses últimos dias?
– Ela explodiu em cores e formas variadas. Tem mais de quinze quadros novos prontos e dois que terminou há pouco. No rítmo que vai, em seis meses vai ter um estoque de 150 ou 200 para excursionar outra vez.
– Uai! Qui é qui deu nessa? Tá queremo pintá o mundo em um mês?
– O ano passado ela não teve tempo de pintar quase nada. Aprendeu uma enormidade de coisas novas, técnicas diferentes. Está com a cabeça fervendo de ideias e formas.
– Mais ela precise descansar. Não pode trabalhar tanto.
– Vamos ver se convencemos ela a moderar o ritmo.
– Eu vi outro dia dois que ela tava terminando e achei uma coisa muito linda. Apenas não entendi direito o que queria dizer.
– É a pintura mais moderna. É assim mesmo e ela parece que captou muito bem a essência dessa nova vertente artística.
Dona Maria Luisa ofereceu um copo de refresco e todos saborearam um longo gole. Antes de retomarem a conversa, Isabel chegou, com o cabelo ainda molhado do banho. Estava com uma camisa folgada, uma Bermuda deixando ver um maravlhos par de pernas. Essa visão provocou uma perturbação em José Silvério, mas manteve o controle. Estava diante dos pais da noiva e era inconveniente demonstrar suas emoções assim abertamente.
– Té qui enfim, fia. Pensei qui ia ficar pra sempre naquele atelier. Senta aí e toma um refresco.
– Vou tomar sim. Estou mesmo com sede. O refresco vem a calhar.
– Seu noivo tava contano aqui das suas pintura. Pode ir mais devagar qui num vai fartá tempo. Tem a vida inteira pela frente.
         – Vou fazer isso mesmo. Aliás segunda feira vamos para cidade comprar ar condicionado. E não diga que é gastar dinheiro à toa pai. Eu vou pagar. Chega de dormirmos mal nos dias quentes.
         – Carece não minha fia. Nóis veve tantos ano aqui sem isso e nunca sentimo farta.
         – É que nunca tiveram. Não se sente falta do que nunca teve. Depois que tem e fica sem, começa a sentir falta.
         – I já penso na eletricidade que isso vai gastá?
         – Olha aí o sovina! Só podia vir do senhor pai! Pode deixare que eu pago a conta de energia. Importa que a gente tenha mais conforto.
         – Não é isso que estou querendo, mas não se deve nunca gastar mais que o necessário.
         – Quando não for necessário a gente desliga e pronto. Ali no atelier eu pago os meus pecados nesses dias quentes. Tenho vontade de ir lá par baixo das árvores e pintar.
         – I pur que qui num fais isso?
         – A poeira na tinta molhada faria um serviço muito sujo.
         – Talvez servisse como parte da pintura, filha, – falou Maria Luisa.
         – Quero minhas pinturas nas cores que eu pinto e não as que o vento resolver colocar por sua vontade.
         – Tumem num temo razão de brigá, fia. Fais tua vontade. Vamo junto segunda o terça-fera comprá esses tar de ar condicionado.
         – Vão ter que trazer alguém para fazer a instalação. Talvez seja necesário adequar a rede de energia para suportar a carga.
         – Você tem como orientar a gente, José. Contamos com você. Se for preciso trocamos a rede de entrada toda.
         – Pode ser necessário. Não sei a carga que o senhor tem instalada, coronel. Pode ser realmemente preciso trocar tudo. Mas isso é coisa de um ou dois dias de serviço. Os postes são os mesmos. É só puxar os novos cabos, talvez por um novo relógio e pronto. É bom instalar um Sistema trifásico. Assim fica pronto para o uso de motores para automatização de partes do processamento do café, secagem seleção dos grãos e tal.
         – Nós vamos ver isso. Está passado da hora de tornar isso mais prático. Mas podemos ir com calma. Agora até a colheita não dá mais tempo mesmo. É coisa para o outro ano.
         – Viu só veia! Tão queremo comandar a fazenda. Inda to vivo aqui.
         – Pai não estamos querendo passar por cima do senhor. Apenas modernizar as coisas. Para que serve o dinheiro que está guardado no banco?
         – Serve para os caso de percisão, uai!
         – Enquanto isso um mundo de gente sofre trabalhando igual escravo para dar conta do serviço na época da colheita. Vamos entrar para a vida moderna.
         – Sumana qui vem vamo ver isso, fia. Afinal você vai ser a dona da fazenda quando nóis partir dessa vida, tem que começar a pensar no futuro.
         – Essa decisão sua coronel, é muito sábia. Por toda parte pode-se ver as fazendas instalando modernos sistemas de secagem e outros procedimentos. Sua filha está certa e o senhor mais ainda ao aceitar as sugestões dela.
         – Vem comigo filha! Vamos ver como está o andamento do jantar. Me ajuda um pouco lá.
         Com um aceno de mão para o noivo Isabel seguiu a mãe em direção à cozinha. Lá encontraram a cozinheira com quase tudo pronto. Faltava apenas coar o café, coisa de habitualmente ficava a cargo de Isabel. Os pratos e talheres foram levados para a mesa arrumando tudo. Em instantes o cheiro de café recém coado se espalhou pela casa, chegando à varanda onde estavam José Silvério e Onofre. O cheiro inconfundível mexeu com os sentidos dos dois. Nunca deixariam de reagir à sensação desse odor. Ele penetrava em suas narinas e ia diretamente ao cérebro despertando a vontade de tomar uma xícara do líquido saboroso.
         Logo Maria Luisa veio chamar para o jantar. Depois da refeição, um café ainda quentinho, foi saboreado como complemento àos alimentos degustados. Logo estavam vendo as notícias transmitidas pelo jornal nacional na TV Glogo. Foi informado que um pintor bastante famoso na Europa, de nacionalidade italiana, estaria na semana seguinte expondo suas telas no MAM de Belo Horizonte.
         – Os artistas daqui vão expor na Europa e os de lá vem expor aqui também. É uma troca. Vamos ver se a Isabel conheceu esse artista na sua viagem.
         – Qual artista você está falando, meu bem?
         – Deu agora mesmo no Jornal. Um artista italiano está em BH expondo as pinturas dele. Talvez você tenha conhecido ou ouvido falar dele.
         Nisso a notícia voltou a ser apresentada ao retornar dos comerciais e ela apontou dizendo:
         – Conheço ele sim. Ele foi ver minhas exposições na Itália. Até me convidou para almoçarmos uma vez.
         – I ocê aceito, fia?
         – Tive um pouco de receio, mas meu agente foi junto e não aconteceu nada demais.
         – Não haveria por que acontecer alguma coisa. As pessoas são civilizadas pelo mundo.
         – Mas eu não conhecia o homem e não tinha por quê confiar assim sem mais nem menos. Por isso me garanti de minha parte.
         – Tá certa você filha.

         O jornal terminou e em seguida veio um capítulo da novella do horário. Os pais, Onofre e Maria Luisa levantarm para irem dormir. Os jovens ficaram à vontade e tomaram as precauções que julgaram convenientes para evitarem se colocar em situações que pudessem lhes causar aborrecimentos posteriores. No domingo a tardinha, quase início da noite, José retornou para casa. Ficou combinado que na terça feira se veriam na cidade quando Isbel e os pais fossem comprar os aparelhos de ar condicionado e também tratar da negociação das instalações mais modernas no cafezal. Fariam a solicitação de instalação da rede trifásica de energia para cobrir as necessidades futuras.
            Sem querer, José se viu pensando no tal artista italiano como alguém que poderia perturbar o relacionamento que tinha com Isabel. Não sabia dizer por quê, mas pressentia nuvens no horizonte e em vários momentos da semana se pegou com os pensamentos voltados para o tal artista. Era já um homem de uns 45 anos, muito bem apessoado e charmoso. Não seria difícil uma jovem artista se apaixonar por um artista já consagrado que estivesse disponível. Não tinha motivos para suspeitar de Isabel, mas algo lhe espicaçava o espírito. Seria um rival surgindo em sua vida?

Vista do museu do Louvre.

 

Vista do museu do Vaticano.

Fotografias baixadas da internet pelo site de buscas do google.




Mineiro sovina! – Capitulo XVII

Museu de Arte Moderna Belo Horizonte.

 

MAM de São Paulo.

 

 O sucesso bate à porta.
            Coronel Onofre arregalou os olhos quando soube do sucesso de vendas dos quadros de sua filha. Somente os que faziam parte do acervo usado na casa não haviam sido vendidos. Ele estava com saudades deles. O lugar ficara vazio, parecia despido da beleza que as pinturas emprestavam ao ambiente. Queria saber quando eles voltariam ao seu lugar.
            Isabel prometeu pintar outros e colocar no lugar. Depois da primeira tournê de exposições eles voltariam ao seu lugar e ali ficariam. Haveria novos sendo pintados e fariam parte de futuras exposições. O valor total das vendas alcançava uma pequena fortuna. O lucro de uma boa colheita de café não seria suficiente para cobrir tudo.
            – I eu que num pensei que isso tivesse algum valor! Oia só minha veia! Nossa fia encheu os bolso de dinheiro de uma única pancada.
            – E tem mais por ganhar. Ela foi convidada para exposições em São Paulo, Rio de Janeiro e até nos estrangeiro. Maginou!
            – Mas ocê vai cum ela, num vai?
            – Quem vai cuidá de ocê meu veio?
            – Uma empregada dá conta disso.
            – Vamo vê isso adespois. Agora é hora de dar um abraço na nossa fia e valorizar o trabaio dela.
            – Ela podia ficar aqui, pintar seus quadro. Quanto tivesse bastante, fazia outra exposição e ganhava o seu. Num é suficiente?
            – Mas é um pecado enterrar ela aqui na fazenda! Ela tem esse tal de Talento. Nem sei dereito qui é isso.
            – Talento? Sei dereito qui é não. Mas que importa?
            Nisso Isabel veio, guiando seu automóvel novo, comprador com uma pequena parcela do dinheiro ganho com a venda de seus quadros. O promotor de justiça for a suficientemente inteligente. Oferecera um bom dinheiro por dois dos mais bonitos e ficara com eles. Lhe dera pessoalmente os parabens. Desejara muito sucesso.
            – Ele falou que espera me ver brilhar nos museus da Franca, Itália, Inglaterra, Estados Unidos, e nem sei mais onde. Não vai sobrar tempo pra pintar mais os meus quadros.
            – Proveita pra mode descansa um tempo. Quando voltar torna pintar tudo novamente.
            – Meus dedos estão com cócegas por pegar num pincel e nos potes de tintas. Vestida assim cheia de luxo, parece que não sou eu. Quando estou com o avental todo sujo de tinta me sinto viva.
            – O tal José Silvério falou com ocê direito?
            – Sobre o quê pai?
            – Uai! Ele tinha pedido minha permissão pra mode namorar cocê e eu não dei licença. Agora ele me provou que é um advogado de sucesso, ganha um bom dinheiro e eu permiti.
            – E ocê num tinha falado nada disso, veio! Isso num si fais. As coisa não é mais como era de antigamente.
            – Pra mim é tudo igual. Mas eu já dei permissão e oceis pode namorá. Não quero saber de agarração nem coisa do tipo. Namoro longo também num serve.
            – Pai! O senhor está esquecendo que estamos no final do século XX! As coisas não são mais assim. Isso é coisa lá do seu tempo de juventude.
            – Agora tá feito e pronto. Ele nem reclamou. Aguentou firme e provou que é home de valor. Isso que é sujeito de fibra sô.
            – Que ele é um homem de valor nós sabemos. Veja o que ele fez com os meus quadros. Não tinha motive nenhum para fazer o que fez. Foi graças a ele que minha vida mudou. Hoje estou me tomando uma pintora famosa.
            – Eta ferro sô! Mais aqui em casa tudo continua nas mesmas. Não tem nada de fama.
            – Pode ficar sossegado. Não vamos lhe causar desgosto. O meu namorado é também um cavalheiro. Isso mesmo, um cavalheiro.
            – Quem diria! Chegou aqui, um devogadozinho meio sem sal nem açúcar e agora é Cavalheiro. Como as coisa mudaram!
            – Vou dar um passeio pela fazenda. Vai comigo pai?
            – Vai de jipe ou de cavalo?
            – Estou morrendo de vontade de motnar no meu baio. Ele também deve estar com saudades de mim.
            – Vou mandar selá os bicho. Enquanto isso ocê si apronta. Põe uma roupa de montaria.
            – Vamos junto mãe?
            – Vou cuidar das coisa pro jantar. Vai você com seu pai.
            Isabel foi para seu aposento vestir uma roupa adequada para montar, um par de botas e o pai saiu para ordenar a preparação das montarias. Quando saiu o rapaz das baias estava terminando de selar o baio de Isabel. Em minutos estavam pái e filha montados deixando os animais a passo, percorrendo os cafezais, nesse tempo verde escuros, os grãos em crescimento. Os galhos começavam a vergas sob o peso da carga. Se não houvesse contratempos teriam uma safra muito boa.
            Passaram pelo local da fonte onde ainda havia a cerca por ser refeita no lugar certo e os pés de café que haviam sido cortados. Logo seria tudo colocado nos devidos lugares. No final daquela semana se reuniriam diante do juiz para assinarem os documentos para acertar toda aquela pendenga com Jerônimo. Estava disposto a retirar a queixa contra o vizinho. Afinal nem sentia mais nada do tiro que levara e não carecia guardar ressentimentos por uma coisa que ficara no passado. Não sabia se o juiz iria concordar em aliviar o peso da justiça sobre o vizinho. Aí era uma questão que não estava em suas mãos.
            Enquanto percorriam as últimas etapas do passeio, o sol atingiu o horizonte. Sentia-se plenamente feliz. Tivera seus dias de glória durante a exposição e havia um bom tanto deles pela frente nos próximos meses. Estava com seu pai, passeando pelo cafezal, paisagem que fazia parte de sua vida e também da arte desde a infância. Haveria uma semana de descanso antes de iniciar a preparação da exposição no MAM – Museu de Arte Moderna. Depois já no mês de dezembro seria a vez do Rio de Janeiro. Estava em negociação uma excursão ao exterior. Projeto para o próximo ano quase inteiro. Haveria uma ou outra folga para vir ver a família entre as exposições nos diversos centros mundiais.
            Na quinta feira a tarde Coronel Onofre, José Silvério, Jerônimo e seu advogado encontraram-se diante do juiz para o acerto final das desavenças. Onofre havia retirado a queixa na delegacia, mas o juiz não aceitou arquivar o processo. Decidiu ali mesmo que os transgressores teriam uma pena atenuada, mas não ficariam impunes. Jerônimo vendo que o vizinho fizera o possível se conformou e aguardou a decisão final do magistrado. Talvez tivesse uma prisão domiciliar, sendo obrigado a se apresentar semanalmente ao delegado. Não poderia se ausentar da comarca. Isso seria ótimo, pois não o impediria de cuidar de sua propriedade. Queria, o quanto antes, pôr tudo em ordem.
            Foi assinado um documento final sobre a questão da divisa, os pagamentos da indenização, as demais condições fixadas judicialmente. Qualquer quebra de cláusula pactuada invalidaria o restante do acordo. Ao sairem da sala do juiz, encontraram-se com o promotor ele agradeceu a José pela informação. Adquirira dois quadros maravilhosos. Pelo visto em pouco tempo valeriam uma pequena fortuna. Sabia do convite recebido por Isabel para expor em São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades.
            – O melhor de tudo é que ela foi convidada para expor na França, Itália, Alemnha, Londres, Nova York, Tóquio e outros lugares.
            – Minha nossa! Ficou famosa da noite para o dia. Parabens coronel pela filha talentosa.
            – Obrigado, doutor.
            – O senhorr deve estar cheio de orgulho. Não é qualquer um que pode dizer que sua filha é uma artista famosa. Ainda mais na pintura. Os verdadeiros talentos são um tanto raros.
            – O doutor aqui que vai ficar de cabeça quente!
            – Mas por quê, doutor José?
            – Ele é agora o namorado da minha fia.
            – Entendi. Vai chover de gala à volta dela. Se cuida amigo. Falando nisso, podemos jantar amanhã à noite?
            – Podemos, doutor.
            – Combinado. Nos encontramos na esquina da praça e vamos naquele restaurante em frente.
            – Às oito?
            – Está ótimo.
            Despediram-se e retornaram ao escritório. Ali Isabel estava a espera. Fora falar com o agente e na volta sentara para esperar pelo pai. Ela viera dirigindo em seu automóvel e voltariam para casa. Quando os dois chegaram, ela perguntou:
            – Tudo em ordem pai?
            – Tudo sim, fia. Está tudo resolvido. Vamo vive em paz com as vizinhança toda. O único que tava dando trabaio tomou jeito agora.
            – Que bom. Como está José?
            – Muito bem. Vocês poderiam ficar para jantar comigo. Fui convidado pelo promotor e vai ser hoje à noite.
            – Nós vamos para casa. A mãe vai ficar preocupada. Depois vocês devem ter seus assuntos a conversarem, principalmente depois daquele caso famoso.
            – Não vou insistitir. Teremos ocasião de nos encontrar em outros dias. Domingo vou almoçar em sua casa.
            – Tamo combinado, José. Nóis vamo ino.
            Deram adeus e em minutos estavam percorrendo sob um sol ainda forte a distância que os separava da fazenda. Ainda com o sol alto chegaram em casa e encotraram tudo na mais perfeita paz. Dona Maria Luisa apareceu na varanda e ficou esperando os dois desembarcarem e virem sentar-se à sombra. O ar ainda estava morno do sol da tarde. Trouxe-lhes um refresco que eles beberam com gosto e agradeceram. Depois de um tempo sob o sol forte, era coisa excelente sentar à sombra e beber um refresco bem geladinho. Bendita invenção de alguém a tal geladeira. Primeiro haviam tido uma à querosene, depois a gás e por fim, uma elétrica depois de a energia chegar à propriedade.
            O jantar foi cheio de conversar interessantes. José ficou sabendo de várias fofocas que corriam nos bastidores do forum. Nada grave, apenas pequenos mexericos, uma ou outra infidelidade conjugal de alguém e assim por diante. Habitualmente discrete, José ouviu tudo, sem intenção de fazer uso inadequado das informações que estava recebendo assim de maneira tão fácil. Estava sendo alvo de uma consideração elevada e era mister mostrare-se digno de tal distinção.
            Na hora de pagar a conta José fez menção de pagar a sua parte e o promotor não permitiu.
            – Você colega, é meu convidado hoje. Em outra ocasião a situação é diferente. Hoje é por minha conta.
            – Não haveria problema algum. O simples prazer de sua comapania vale o preço do jantar.
            – Guarde seu dinheiro, amigo.
            – Seja feita sua vontade.
            A conta foi paga e os dois caminharam algumas quadras até o local em que haviam deixado os automóveis. Era uma área bem movimentada e no momento não tinham encontrado vaga para estacionar. Caminharam e continuaram a conversa de antes. Quem primeiro alcançou seu carro foi José. Despediram-se e ele embarcou, ligou o motor e depois partiu. O promotor andou mais um pouco e fez o mesmo.
            Domingo perto da hora do almoço José chegou à fazenda e foi recebido por Isabel. Ele lhe deu um beijo carinhoso na face e entraram em casa abraçados. Assim chegaram diante da mãe e do pai sentados na sala naquele momento.
            – Mas formam um belo par! Não acha meu veio?
            – É sim. Uai! É minha fia. Tinha que dar nisso!
            – Mas quanta vaidade, pai.
            – Bom dia coronel. Bom dia dona Maria Luisa.
            – Dia, doutor.
            – Bom dia, – disse dona Maria Luisa.
            – Sente-se, meu bem. Quer um café ou um refresco?
            – Acho que um refresco vai bem. Está bem quente.
            – Nóis tava vendo a corrida de formula 1. As veis eu gosto de assistir.
            – Então o senhor é chegado em corrida de carros! Eu gosto, mas não sou muito viciado em assistir.
            – Tamem não. Mais as veis eu assisto quando dá no jeito.
            – Terminou?
            – Indagorinha memo. Acabaram de derramar o champagne.
            – Uma pena! Poderiam distribuir para o povo tomar um gole.
            – Mais isso faz parte do negócio. Dá o charme.
            – Isso lá é verdade. Há tanto tempo que isso acontece que ninguém ousaria questionar.
            – Tanta coisa que se perde por esse mundão veio que um litro ou dois de champagne não vai fazer diferença.
            – Me passou pela cabeça agora. Imaginou se fosse café quente?
            – Vixi Nossa Sinhora! Iam se queimar tudo!
            – Aí ninguém iria querer deramar uma gota.
            – Nem iria fazer toda aquela pressão na garrafa.
            – Isso mesmo.
            Maria Luisa foi pra cozinha supervisionar a cozinheira na preparação do almoço. Onofre convidou José e a filha a irem para a varanda. Ali o ar era mais fresco. No verão ele passava maior parte do dia ali fora. Sentaram-se em confortáveis cadeiras de vime e realmente se sentiram bem melhor ali fora. Tomaram mais um copo de refresco enquanto esperavam o almoço. Logo mais a dona da casa chegou até a porta e falou:
            – Vamos para a mesa que a comida tá servida.
            – Já vamo, veia.
            – Dia desses vou te ensiná quem é veia!
            – Modo carinhoso di tratá ocê, muié.
            – Tá bom, veio.
            – Ela chama eu de veio, eu chamo ela de veia. Tamo quite, não tamo?
            – Esses dois não tomam jeito. É essa eterna implicância um com o outro.
            – Mas eles se amam, pelo que sei.
            – Andem pra mesa de uma veis.
            Levantaram-se e foram para a sala de refeições. O almoço estava sobre a mesa esperando pelos comensais. Almoçaram e depois ficaram conversando na varanda. À tardinha, antes da volta para a cidade, os namorados foram até a pequena vila próxima para tomarem um sorvete. Voltaram já perto do escurecer. José despediu-se e voltou para cidade. Tinha compromissos cedo e se ficasse por ali para voltar na manhã, era provável que se atrasaria. Voltou e no meio da semana era hora de Isabel viajar para Belo Horizonte. Naquele final de semana seria inaugurada a exposição na capital. Os quadros haviam sido embalados cuidadosamente e despachados por trem, com um bom seguro contra qualquer eventualidade. Eram agora um produto precioso, além de perecível.
            O agente estava na capital desde a semana anterior tratando dos detalhes da instalação. Isabel chegou quinta feira à tarde e se hospedou no hotel reservado para ela. No sábado havia uma aglomeração de fotógrafos, jornalistas, cinegrafistas, todos sedentos de imagens e uma palavra da mais nova celebridade do mundo da pintura. Isabel, acompanhada de José, enfrentou com galhardia a maratona. Os flashes espoucavam de todos os lados, microfones eram colocados diante de seus lábios em busca do registro de alguma palavra dita.
            Um esquema de segurança foi acionado para proteger a artista. Uma multidão de populares ensandecida queria entrar no recindo. Na primeira noite seria apenas para os convidados de honra. Os agentes de segurança precisaram usar toda sua força para conter a massa. Após a abertura os convidados entraram e as portas foram fechadas, ficando um cinturão de segurança do lado de fora. Ouviam-se de todo lado exclamações de admiração diante da perfeição dos quadros. Os lamentos foram constantes diante da informação de que estavam todos vendidos. Seria preciso esperar a artista produzir mais obras para ser possível adquirir alguma coisa. Ou então oferecer um valor mais alto que o pago pelos primeiros compradores. Talvez houvesse quem aceitasse vender.
            Foram diversas as ofertas de somas elevadas por algumas obras. O comprador inicial seria informado da oferta e se aceitasse deveria se entender com o pretendente. Dessa vez os ingressos tinham um valor condizente com a fama já conquistada. O número posto à venda se esgotava rapidamente tão logo eram abertas as bilheterias. A semana chegou ao final e ficou uma porção de gente sem ter chance de ver as obras. Tiveram que se contentar com um filme feito pelos donos da galeria e o entregaram ao canal de TV para exibir num programa cultural.
            Ao final da semana o valor arrecadado em ingressos era bastante alto. As despesas estavam cobertas e sobrara um bom lucro. No começo de dezembro, dali a duas semanas, seria aberta a exposição no MAM em São Paulo. Foram dias de atividade quase ininterrupta. Isabel chegou em casa e foi para o atelier. Queria pintar alguma coisa para levar junto e poder oferecer a alguém que quisesse muito comprar. Antes de viajarem para a nova exposição, ficaram sabendo que um dos primeiros compradores vender aos seus por um preço igual ao triplo do que havia pago a um industrial de Belo Horizonte. Ele teria que concordar com o transporte dos mesmos para São Paulo e depois Rio de Janeiro.
            Isabel conseguiu pintar em tempo recorde dois belíssimos quadros. Parecia que a energia represada em suas mãos e seu íntimo explodira em criatividade. Além dos dois, levou um terceiro iniciado para terminar durante a exposição. Ficaria em um canto pintando, permitindo aos visitantes verem ela em ação. Ao término o quadro seria vendido a quem oferecesse o lance mais alto. Repetiu-se o tumulto na portaria do Museu na noite da inauguração da exposição. Os dois novos trabalhos não ficaram sem dono por mais de algumas horas. Houve diversas ofertas pore eles e uma pequena multidão ficava assistindo a artista pintar.
            Fotografias eram tiradas o tempo todo, chegando a perturbar a serenidade da artista. Aos poucos se habituou e continuous seu trabalho. Em alguns momentos ela fazia um pequeno interval e vinha conversar. Quem tinha a sorte de trocar algumas palavras com ela, ficava realizado. Ganhava um autógrafdo no bilhete do ingresso, em caderninhos de autógrafos e um pedaço de papel qualquer. Ao final, uma pilha de envelopes se fez ao lado do quadro que ainda não estava pronto. Os pretendentes faziam suas ofertas, querendo garantir o direito de serem os donos da obra que todos estavam assistindo ser pintada.
            Ver um pintor em ação durante a exposição era algo, se não inédito, porém bastante incomum. Dessa forma a fama da pintora se espalhou por todo país e também pelos diferentes cantos do mundo. Jornalistas vieram do exterior para ver e mandavam por telex suas fotografias e textos para publicar nos jornais e revistas. Todos queriam saber quando os trabalhos seriam levados para Europa, Estados Unidos. Já estava definida a viagem. Começariam em fevereiro pelos Estados Unidos, depois iriam para a França, Londres, Milão, Roma, Bohn e finalmente Tóquio. Com isso transcorreria quase o ano inteiro. Cada evento teria a duração de duas semanas e mesmo três.
            Isabel viajou sózinha, prometendo vir passar alguns dias no Brasil depois das exposições de Paris e Londres. Antes de ir para o Japão também haveria tempo de fazer uma pequena visita. Retornaria definitivamente quando já fosse novembro. Levou consigo seus apetrechos de trabalho para aproveitar a grande variedade de imagens que teria diante dos olhos e assim encontrar inspiração para pintar mais alguma coisa. Dessa forma se manteria ocupada. O que passou a ser integrante dos eventos era sua demostração de seu trabalho durante a pintura. Em todos os lugares havia quem quisesse ver o quadro surgindo aos poucos das sussecivas pinceladas.
            O ano passou, somando um evento ao outro. Convites para entrevistas, programas de televisão, palestras em escolas de artes e museus foram uma constante. Em todas as ocasiões sua conta bancária saia um pouco mais gorda. Ela nem mais se importava com os valores. Era tanto dinheiro que ela nem saberia dizer ao certo quanto foi. Dessa forma chegou novembro e finalmente os quadros, inclusive os pintados no decurso dos eventos, estavam com ela. Seriam agora enviados aos respectivos adquirentes em segurança.
            Os pertencentes à casa, após mais de um ano for a de seu lugar, voltaram a ocupar suas posições. A casa voltou a ser o que era. Quem não era mais a mesma era Isabel. Vivera tantas emoções naquele ano que não saberia dizer o que for a mais intense. Abraçou os pais ao chegar e não queria desgrudar deles. José recebera sua cota ao desembarcar do avião em Belo Horizonte. Ele for a recebê-la no aeroporto e a levara de carro para Sete Lagoas e depois para a casa dos pais. A primeira coisa que José providenciou foi um par de alianças. Queria oficializar a relação deles, antes que ela iniciasse nova série de viagens.
            – Por enquanto quero ficar bem quieta aqui no meu canto. Quero pintar e pintar até não querer mais.
            – Se arrependimento matasse eu estaria morto.
            – Por quê, meu bem?
            – Eu que fiz a besteira de colocar você nessa vida de gente famosa. Levei a pior. Ficou famosa e eu fico aqui esperando você voltar.
            – Não vai me dizer que está com ciumes!
            – Um pouco, mas a saudade é maior.
            – Dá logo aqui essas alianças. Vamos ficar noivos para você não começar a ter um chilique.
            – Também não é para tanto. Mas não é fácil ficar aqui lidando com bandido, assassin e ladrão, enquanto você viaja pelo mundo.
            Isabel chegou perto e recebeu sua aliança. Depois colocou a outra na mão dele. Um beijo caloroso na boca selou aquele momento. Onofre pigarreou, avisando que ali não era momento para demonstrações desse tipo.
            – Ih pai! Precisa ver o que eu vi na Europa, no Japão e por esse mundão de Deus.
            – Nós tamo no Brasil, em Minas Gerais.

 

            Isso vai dar briga. Vamos sentar um pouco na varanda. Hoje eu não volto para o escritório. Os processos que aguardem para amanhã e depois. 

Museu de Belo Horizonte.
Imagem do museu do Louvre.

Mineiro sovina! – Capítulo XV

Mapa de Minas Gerais.

 

Rodoviária de Sete Lagoas.

 

Laga no perímetro urbano em Sete Lagoas.

 

O encontro de 
 
conciliação.
        Tendo recebido de coronel Onofre o sinal verde para marcar o encontro com Jerônimo, José Silvério telefonou para o colega Estevão, naquela tarde mesmo. Pela manhã tivera um compromisso com uma audiência no forum e não sobrara tempo. Pediu a Roberta para fazer a ligação. Em alguns minutos o aparelho tocou. Ao terceiro toque ele levantou o fone:
            – Fala Roberta.
            – O doutor Estevão está na linha.
            – Deixa comigo agora.
            A conexão foi completada e ouviu-se do outro lado da linha a voz típica do doutor Estevão, um pouco anasalada:
            – Doutor José Silvério?
            – Sim, colega. Sou eu mesmo.
            – Tem boas novas para me dar?
            – Meu cliente concordou em conversar com o seu, mas tem que ser aqui na minha sala. Pode ser?
            – Eu até preferiria um lugar neutro, mas dadas as circunstâncias, não se pode fazer exigências. Aceito. Pode marcar data.
            – Para nós pode ser qualquer dia, menos hoje e amanhã. Que tal semana que vem, na segunda de manhã?
            – Deixe-me ver minha agenda.
            Tapou o bocal do fone e falou para sua secretária verificar a disponibilidade do horário da próxima segunda feira pela manhã. Ela verificou e informou não haver compromisso nesse horário.
            – Pode ser colega. Não tenho compromisso nesse horário. Dessa maneira dá tempo de avisar tranquilamente o meu cliente para evitar contratempos.
            – Combinado, colega. Lhes esperamos aqui na próxima segunda às 10 horas.
            – Eu havia esquecido. O seu Jerônimo pediu para sondar se é possível aliviar a queixa relative ao atentado. Se ele for condenado e ficar preso vai ficar difícil de cumprir os demais compromissos.
            – Quanto a isso não posso falar nada por ora. Vou ter que sondar o coronel. Ele não tem falado mais nada a respeito, já está praticamente recuperado do tiro. Só não posso responder por ele agora.
            – Se fosse possível retirar a queixa ou algo assim, seria mais fácil. O delegado e o juiz estão dispostos a levar ele julgamento. Se tiver uma atenuante, pode ser que consiga o regime de prisão domiciliar. Mesmo que tenha que se apresentar todas as semanas ao juiz ou delegado. Assim ele poderá administrar a propriedade e sair do atoleiro em que se meteu.
            – Um atoleiro sério. Se ele não tivesse inventado a história do atentado, acabava tudo facil, se houver um acordo.
            – Nem adianta ficar conjuturando agora. O que está feito, está feito e pronto. O remédio é minimizer os efeitos.
            – Se o coronel concordar, não tenho nada a opor. A questão é essa. Pelo que conheço do velho ele é um bocado sistemático e quando embirra com uma coisa, custa a mudar de ideia.
            – Vamos ver se conseguimos amaciar ele com um bom acordo. Talvez consigamos selar a paz entre eles e acabar com essa pinimba. Aliás toda ela culpa do meu cliente. O coronel não tem culpa nenhuma. O próprio Jerônimo reconheceu na minha frente.
            – Haveremos de encontrar uma saída para a questão. Depois eles precisam aprender a conviver como bons vizinhos.
            – Assim espero, colega. Dá licença agora. Está chegando um cliente nesse momento. Outra hora nos falamos.
            – Até logo, doutor Estevão.
            Desligaram os aparelhos aoa mesmo tempo. Coincidentemente José Silvério também estava diante de um cliente novo, que entrava no exato momento em que a ligação era desfeita. Mal colocou o fone no gancho e ele tocou, avisando da chegada do cliente. Mandou entrar.   
            A tarde transcorreu entre diversos clientes de causas menores vindo trazer documentos, assinar procurações e outros detalhes necessários. Pouco depois das 5 horas, Roberta lhe trouxe uma pilha de processos em cuja montage final estivera trabalhando. Precisavam de uma conferência final do advogado e aposição de sua assinatura em petições, mandados e outros documentos. Não havia nenhuma outra entrevista marcada para aquela hora. Houve tempo suficiente para conferir meticulosaamaente cada processo, verificando estarem na mais perfeita ordem. À medida que os conferia, assinava onde fosse preciso. Dava graças a Deus por ter convidado Roberta para sua secretária. Era de uma competência inigualável. Sabia a ordem correta dos documentos para facilitar o acesso a eles pelo juiz ao analisar cada um.
            Lembrou de sugerir ao diretor da empresa uma gratificação ou um aumento de salário para a secretária. Fazia por merecer. O esquecimento com relação a essa questão poderia significar a perda de uma funcionáriaa competentíssima. Depois arranjar outra do mesmo nível, seria demorado. Sem contar com o período de adaptação ao serviço, pois, por mais esforçada que fosse, demoraria algum tempo para ficar a par de todas as minúcias do mundo jurídico. Isso é coisa que não se aprende de uma hora para outra.
            Na quinta-feira a tarde, foi surpreendido pelo coronel Onofre ao telefone. Estaria ele na cidade e ligara para saber do andamento das coisas?
            – Boa tarde, coronel. Como tem passado?
            – Tive uma boa surpresa essa semana. Os home da companhia de telefone vieram instalar o dito cujo. Tô le ligando aqui de casa memo.
            – Que beleza. Agora fica tudo mais fácil. Parabéns.
            – Tô inaugurando a linha. Hahahahah!
            – Vamos aproveitar para combinar o encontro com seu vizinho. Marcamos para segunda feira às 10 horas.
            – O home tá com pressa de resolver as pendenga. To gostando de ver.
            – Ele quer colocar a vida em ordem, pelo jeito. Não sei se o senhor vai concordar, mas ele pediu se daria para retirar a queixa do atentado, ou algo assim para aliviar a pena.
            – E essa agora! Ele manda dois capanga atirar em mim, quase me mata e quer que retire a queixa? Acho que ele tem que arcar com as consequência do mal feito.
            – Eu não dei resposta. Sugiro conversar primeiro sobre o acordo da divisa e acertar tudo aí. Depois temos tempo para tratar do resto. Concorda comigo, coronel?
            – Uma boa ideia. Num dianta esquentar a cabeça antes da hora.
            – E Isabel terminou de pintar o quadro para apresentar na exposição?
            – Sei não. Hoje de manhã tava lá no atelier mexendo com suas pintação. Tá que é uma pilha de nervo. Deixou até a Lourdes meia dos casco vir-ado.
            – É a ansiedade pela estreia. Faltam poucos dias. É assim mesmo. Igual estudante em tempo de provas finais ou véspera de concurso.
            – Inté parece muié buchuda em véspera de pari.
            – Acho que a situação é semelhante. O senhor deve saber melhor que eu. Nem sou casado, quanto mais tive mulher gravida, perto de ganhar filho.
            – Nem queira saber. Elas fica um nervo só e a gente que guenta as consequência.
            – É a parte que nos cabe, já que não podemos ser mães.
            – Te esconjuro, home! Eu lá ia quere ter filho? Isso é coisa das muié.
            – Dê lembranças a dona Lourdes e Isabel, coronel. Está na hora de voltar para casa. Estou um caco hoje de tanto ouvir histórias e depoimentos no forum.
            – Vai descansar, doutor. Lhe desejo uma boa noite de sono.
            – Até segunda feira, coronel. Não esqueça. Às 10 horas.
            – Isqueço não.
            A sexta-feira era em geral pouco movimentada na área jurídica. Os juízes via de regra não marcavam julgamentos, especialmente juris para esse dia. Se demorasse, avançariam para o sábado e domingo. Isso ninguém queria. José Silvério aproveitou para por em dia todos os pequenos servicinhos que tinham sido deixados para depois por conta do era prioritário. Assim o dia passou, deixando a impressão de não ter feito nada, mas na verdade haviam sido um número enorme de pequenos detalhes que estavam agora devidamente encaminhados.
Cine Fox em Sete Lagoas.

 

Monumento em homenagem à FEB em Sete Lagoas
            O final de semana foi passado com a família, uma ida ao cinema sábado à noite em companhia da irmã e do namorado. Não lhe agradava muito servir de vigia ou como se dizia “segurar vela”. Pensava que os dois deveriam saber o que queriam da vida. Consequentemente precisavam arcar com as consequências dos seus atos. Orientação ambos tinham recebido dos pais, se isso não bastasse, nem mesmo um guardião seria capaz de impedir alguma coisa se eles assim o desejassem. Mas valeu à pena, pois a fita era muito boa. Pessoalmente gostava de filmes sobre espionage e esse era um dos bons nessa variedade.
            No domingo assistiu ao jogo dos dois maiores clubes da capital se enfrentando pelo campeonato nacional. Ele era cruzeirense até a raiz do cabelo. Já o pai era atleticano convicto. O jogo foi disputado, não que estivesse valendo algum título, mas perder para o maior rival era sempre uma humilhação. Pouco importava se o jogo era oficial ou mesmo amistoso. O resultado final, depois de alguns lances mais rudes, alguns cartões amarelos, foi um honroso 1×1. Ao término as indefectíveis reclamações contra o juiz de parte a parte. A genitora do árbitro foi premiada com vários nomes pouco honrosos. As ruas ao redor do estádio estavam cheias de policiais para garantir a volta para casa em segurança.
            Dessa forma chegou segunda-feira, quando se encontraram frente à frente o coronel Onofre Pires e Jerônimo para uma conversa séria e franca. O começo da reunião foi tenso e José se encarregou de quebrar o gelo:
            – Senhores, estamos aqui para uma conversa franca, visando encontrar um termo de conciliação entre os vizinhos coronel Onofre e Jerônimo. Sugiro que mantenhamos a calma e cada um terá a sua hora de falar. Doutor Estevão, eu lhe dou a palavra para apresentar ao meu cliente a proposta que me apresentou aqui na semana passada.
            – Eu fui encarregado pelo meu cliente senhor Jerônimo de apresentar ao senhor coronel, uma proposta para quitar a indenização relativa à questão da divisa e também a reposição da cerca no lugar de sempre.
            – Pode falar, doutor. É pra isso qui eu estou aqui.
            – O senhor Jerônimo, por conta de uns contratempos, ficou com as finanças abaladas e pede ao senhor coronel, aceitar um parcelamento da dívida.
            – E qual é essa proposta? Quero ouvir do senhor mesmo.
            – Se pudermos parcelar o total em parcelas de valores menores, vencendo uma a cada seis meses. Calculamos os juros devidos, num prazo final de três anos.
            – Eu tinha intendido qui seria em um ano.
            – É o que eu havia proposta, mas o senhor Jerônimo verificou que iria ficar em dificuldades. Melhor estabelecer um prazo maior e pagar direito, que ser curto e depois não conseguir vencer fazer os pagamentos.
            – Coronel, creio que um p:razo maior não irá atrapalhar sua vida financeira. E as palavras do colega são sábias. Não nos vale de nada se o prazo for curto e não cumprido ao final.
            Nesse momento Jerônimo pediu ao seu advogado para deixá-lo falar e ele permitiu:
            – Coronel Onofre, eu preciso lhe pedir perdão por todas as besteiras que eu fiz em relação ao senhor nesses anos todos. Meu pai sempre se deu bem com o senhorr e me falou muitas vezes sobre isso. Eu era um cabeça de vento e deixei os amigos me levar para o mau caminho. Fiz muita coisa errada nessa vida. A última foi essa da divisa e depois o atentado. Depois que fiquei duas noites na cadeia, vi que não sou feito para ficar em gaiola. Vi meu pai, como se estivesse vivo ali na minha frente, falando das cosas erradas que fiz. Resolvi mudar de vida. Sei que vou ter que acertar com a justiça a questão do atentado, mas isso é outro problema. Quero levar outra vida a partir de agora, começando por acertar toda essa questão da divisa de uma vez.
            – Si é assim, Jerônimo, eu até faço um batimento. Vamo deixa por 60 mil invei dos 100 qui o doutor juiz determinou. Dividimo tudo em seis partes iguais e você me paga cada seis meis. Você coloca a cerca no lugar certo e depois eu planto os pé de café de vorta naquela parte. Num sei si vo podê faze alguma coisa na questão do tiro que levei.
            – Isso facilita as coisas, coronel, – falou doutor Estevão. – Fica mais fácil para o senhor Jerônimo pagar sem problemas e só falta resolvermos depois a questão com o juiz.
            – Se o meu cliente concordar, podemos dar um depoimento atenuando a gravidade da queixa e assim diminuir a apena imposta pelo juiz.
            – Concordo. Uai! Seu pai e eu fomos bons amigos e depois nós viramos inimigos. Tá na hora de acaba com essa pinimba de uma vez.
            – Proponho que os dois vizinhos se deem as meem as mãos em sinal de entendimento e vivam de hoje em diante em paz. Aos poucos as mágoas que vão restar virarão apenas lembranças do passado e o tempo se encarrega delas.
            A sugestão foi aceita e Jerônimo esteve prestes a verter lágrimas de satisfação. Estava realamente arrependido do rumo que dera a sua vida. Queria poder esquecer o passado, se isso fosse possível. Combinaram que os advogados preparariam os documentos necessários ao acordo, encaminhariam tudo ao juiz e pediriam o arquivamento do processo, uma vez que estava havendo o entendimento. Aguardariam a fixação da data do julgamento dos acusados pelo atentado. Os capangas estavam da cadeia e seria conveniente que lá ficassem pelo menos até o julgamento. Se fossem soltos, poderiam fugir e causar problemas com o magistrado. Ele fazia questão absoluta de manter a maior lisura nos processos sob sua responsabilidade.
            Depois de realizados os entendimentos, sairam e foram almoçare num restaurante ali perto, a convite de coronel Onofre. Sentia um peso sendo removido de seu espírito. Nunca aceitara que aquele menino que vira crescere, tivesse se transformado em seu mais ferrenho inimogo, coisa que sempre evitara ao longo da vida toda. Fazia questão de pagar a comida naquele dia. Todos aceitaram de bom grado. A reunião estava terminando e a hora do almoço chegava. Lá fora o peão que acompanhara Jerônimo e o outro do coronel olharam para os quatro homens saindo do escritório. Aparentemente conversavam sem ressentimentos. Até ali não haviam trocado palavra, mas vendo os patrões juntos e conversando, se cumprimentaram também. Depois chegaram até o grupo aguardando um pouco afastados.
            – Podem vir os dois. Vamos almoçar todos juntos ali no fim da rua. Servem uma comida muito boa ali.
            Seguiram logo atrás e o grupo inteiro foi almoçar. O coronel tinha razão. Apesar da aparente simplicidade do estabelecimento, os pratos eram preparados primorosamente. José Silvério teve que congratular-se com o seu cliente por saber desse detalhe, uma vez que ele, residente ali não sabia disso. Comeram de se fartar, beberam umas cervejas e depois voltaram para seus afazeres. Os advogados macaram a tarde da próxima sexta feira para se reunirem e elaborar tudo relativo ao acordo, bem como o encaminhamento que dariam no aspecto judicial.
            – Sempre ouvi os professors falarem. Um mau acordo é melhor que uma boa demanda. Pena que o nosso amigo se deu conta disso meio tarde. Teria evitado uma porção de transtornos.
            – Mas podemos nos dar por satisfeitos. Eles parece que vão se entender daqui para frente.
            – O coronel é ótima pessoa. Só não pise nos calos dele, que daí a coisa fica feia.
            – No fundo todos somos assim. Varia um pouco de um para o outro, mas ninguém gosta de ser desrespeitado, ter as propriedade invadida. Isso sempre dá encrenca grossa.
            – Vamos fazer nossa parte para que isso fique resolvido por aqui e não tenha desdobramentos depois.
            – Creio que isso nos torna um pouco amigos também, colega.
            – No que me diz respeito, nada a opor.
            – Vou andando, pois ainda tenho várias coisas para resolver durante a tarde. Até mais ver, colega.
            – Boa tarde. Também vou cuidar da vida.
            José estava próximo de seu trabalho e não tinha nenhum compromisso especial para aquela tarde. Lembrou de falar com o diretor a respeito do aumento para a secretária e comentar sobre a reviravolta no caso entre o coronel e seu vizinho. Alguns dias antes não teria nem imaginado ser capaz tamanha mudança. Por vezes ainda sentia uma pontinha de preocupação. O outro poderia estar tratando de ganhar tempo e depois voltar a carga com mais energia. Procurou lembrar da fisionomia de Jerônimo na hora em que falara e pedira perdão ao coronel. Não conseguiu ver traço de falsidade no rosto. O homem estava sendo sincere, ou então era um perfeitissimo ator, capaz de convencer a todos de sua sinceridade.
            Ao ter semelhantes pensamentos sentiu um leve arrepio. Seria uma frustração imensa se isso viesse a acontecer. Decidiu confiar em Deus, colocar nas suas mãos a questão. Estavam tomando todas as medidas de precaução possíveis, tudo passaria pelas mãos do juiz e levaria sua chancel ao final. No caso da ocorrência de alguma falseta de um ou outro lado, teria que se haver com o representante máximo da lei ali naquela época.
            O aumento para Roberta foi concedido. Ela foi chamada e na presença de José o diretor lhe informou do valor de seu novo salário. Ela teve dificuldade em acreditar no primeiro momento, mas foi tranquilizada quanto a ser uma brincadeira. For a José pessoalmente que sugerira. O diretor, levando em conta a eficiência e dedicação da servidora, concordara em elevar seus vencimentos. Ela agradeceu e saiu sorrindo. Intimamente exultava. Assim seria possível dar à sua mãe uma ajuda mais consistente para manter a casa. O pai estava doente e inválido, recebendo um auxílio doença que não cobria nem os medicamentos, quanto mais outras despesas.
            Os dois conversaram longamente, tendo José relatado seus últimos feitos no forum ao chefe. Não tinham tempo diariamente de sentarem e narrar os detalhes de alguns processos em que José atuara. Conseguira virar o jogo em várias situações aparentemente de derrota. Um argumento encontrado em suas longas leituras de sentenças e processos famosos publicados em livros ou revistas jurídicas. Isso lhe valera bons desempenhos em diversas ocasiões. A sutileza da argumentação e sequência de apresentação das provas no caso do coronel e seu vizinho tinha sido considerada genial. Haviam temido em alguns momentos que poderia haver uma derrota, mas a sentença favorável não deixara pesar dúvidas sobre o lado em que estava a justiça.
            Depois de colocar as novidades em dia, José voltou para sua sala e se dispôs a ler minuciosamente os autos de um processo em que iria atuar no tribunal do júri em duas semanas. Era um caso de assassinato, mas havia falta de provas concludentes. O reu confessara e depois se retratara afirmando ter confessado sob tortura e caberia a ele, José Silvério atuar no apoio ao promotor, cocntratado pela família da vítima. Procurava um argumento forte o suficiente para desmascarar o reu em sua afirmação de tortura. O laudo do exame de corpo de delito era inconclusivo. O reu afirmava que haviam usado métodos não contundentes, por isso não havia marcas no seu corpo. Já os policiais, o delegado e detetives negava veementemente a ação delituosa. A confissão for a espontânea, sem muita pressão na verdade.
            Leu todo o processo, dedicando especial atenção à primeira confissão, à retratação posterior, acusação de tortura, laudo médico em busca de um mísero fio. Um vestígio apenas poderia ser suficiente para levantar o pano que parecia envolver o caso. Ao reler a confissão e depois a retratação do reu, encontrou o que procurava. Havia incongruência entre as duas situações e ele usaria esse fato para provocar o réu. Era fortemente provável que, ao ser confrontado com a contradição, ele ficaria agitado e se delataria sem muita dificuldade. Haviam passado ao seu encargo esse caso, pois todos os outros haviam concluido ser trabalho insano e infrutífero tentar conseguir a condenação. A acusação de tortura pendente sobre a cabeça do delegado, um detective e dois agentes, significaria um golpe severo para esses profissionais. Depois que se certificou de tudo, escreveu cuidadosamente a forma como faria as perguntas, possíveis variações dependendo das respostas que recebesse. Tudo pronto, tornou para a sala do diretor e lhe mostrou o que estivera fazendo.
            O chefe leu, releu e indagou de onde tirara essa ideia?
            – Do próprio processo. – e abriu onde estavam as duas passagens conflitantes das declarações do reu, feitas em momentos diferentes. Ele tinha previsto eventuais esquivas e saidas pela tangent. Encurralaria o malfeitor de tal forma que não lhe restaria alternative a não ser confessar. Depois de olhar tudo, o chefe lhe deu razão. Aconselhou-o a não deixar escapar uma única sílaba de tudo isso. Poderia por tudo a perder, se alguém, especialmente os advogados de defesa, ficassem sabendo de sua artimanha. Era perfeitamente correta a sua intenção. Colocaria a pergunta de tal forma que o acusado seria obrigado a dizer uma coisa ou outra. Cada uma delas o conduzia a um beco sem saída. Quando se desse conta da cilada, seria tarde.
            Ao olharem viram que passava de 18h 30min. Haviam estado a conversar por tanto tempo que esqueceram a hora. Levantaram-se e verificaram que não havia mais ninguém no prédio. Fecharam as salas e depois a porta principal. Despediram-se e foram para suas casas. O diretor ia pensando em seu íntimo:

 

            – Foi uma ótima decisão contratar esse jovem, recém saido da faculdade. Transformou-se, em menos de dois anos, no melhor causídico da Advogados Associados. Estava se tornando hábito transferir para sua agenda todos os casos mais complexos, se não de todo, pelo menos o comando da equipe que atuaria na defesa ou acusação, conforme o caso. Se não o tivesse contratad na época, oferecendo um pouco mais do que teria sido normal, hoje estaria arrependido, vendo-o atuando em julgamentos no lado oposto ao seu. Seria algo profundamente lamentável. 
 
Vista aérea de Sete Lagoas.

 

Schoping Center Sete Lagoas.

 

Mais um lago no perímetro urbano.
 

Mineiro sovina! – Capítulo XIV

 

Exposição se aproxima.
        Diante da proposta trazida por Estevão, José Silvério sentiu necessidade de visitar seu cliente. Mandar recado e pedir que ele viesse até o escritório, estando ele ainda em recuperação das consequências do atentado, era inconveniente. Também estava com vontade de rever a bela Isabel. Saber em que estágio estava a questão da exposição de seus quadros. Até mesmo ouvir sua voz melodiosa lhe fazia bem. Verificou sua agenda para o outro dia. Remanejou uma entrevista que estava marcada para as últimas horas da tarde para um pouco mais cedo.
            Com isso poderia sair às 4 h e haveria tempo de discutir com o coronel a questão do acordo proposto e também matar a vontade de ver a filha. Fazia esforço para colocar maior empenho nos aspectos profissionais da visita, mas não conseguia êxito por muito tempo. Logo a imagem inconfundível de Isabel ocupava seus pensamentos e ficava difícil concentrar-se em outra coisa. Pegou em sua gaveta, numa caixa trancada à chave, algumas fotos da moça e assim passou um tempo contemplando os traços delicados, que em sua opinião eram perfeitos. Pouco lhe importaria se outrem tivesse opinião diferente. Para ele era a mulher ideal, perfeita.
            Na manhã seguinte, uma quarta feira, tinha um cliente detido para entrevistar e preparar sua defesa na audiência preliminar com o juiz, além de um cliente que viria para tratar de outra questão de litígio de divisas. Assim a manhã passaria voando. Logo depois do almoço tinha a entrevista remanejada que seria, em vista do andamento do processo, coisa rápida, mas tinha que encaminhar alguns documentos de processos em andamento. Não costumava deixar que ficassem acumulados papeis em sua mesa, esperando destino. Se isso acontecesse, uma hora se veria enterrado em uma pilha de papéis e teria dificuldades para por tudo em ordem. Evitava assim o risco de deixare documentos sem o devido encaminhamento, que resultaria em prejuizos no resultado dos processos.
            Às 4 horas avisou que visitaria o cliente na fazenda. Voltaria ao escritório na manhã seguinte. A família estava avisada de sua pequena viagem, sendo provável que retornasse tarde, ou talvez passasse a noite na fazenda. Dependeria de um convite do coronel. Evitaria forçar uma situação que poderia se voltar contra ele na questão de aplainar o caminho para o coração de Isabel.
            Sentou-se ao volante de seu Opala, modelo especial de luxo, recentemente adquirido e percorreu calmamente os poucos quilômetros até a fazenda. Chegou faltando um pouco para as 5 h da tarde e encontrou o coronel sentado tranquilamente na varanda, em sua rede. Vira a pequena nuvem de poeira levantada pelo automóvel e ficara atento para ver de quem se tratava. Ao se aproximar logo percebeu ser o carro do advogado. Empertigou-se na rede e ficou a espera. Logo lhe acorreu a lembrança da ação cuja sentença lhe for a favorável e do inquérito do atentado. Ficou curioso em saber de que assunto o advogado vinha tratar.
            Deixando o belo carro, todo branco com frisos cromados, estacionado à sombra de uma frondosa mangueira, sem frutas nessa época. Se estivesse com carga alguma poderia se desprender e causar danos à lataria do veículo. Nesse momento não corria esse risco. Ao chegar perto da varanda, foi saudado alegremente:
            – Uai! Que ventos lhe trazem aqui hoje, doutor?
            – Vim trazer novidades, coronel.
            – Venha sentar-se aqui e vamo conversa então. Fiquei curioso sobre que novidade o senhor vem trazer.
            Subiu um degrau e sentou-se em uma cadeira de vime que havia ali, à distância conveniente do coronel. Este permaneceu sentado, apenas estendeu a mão ao recem chegado em cumprimento.
            – Pois então, coronel. As novidades são notícias de seu vizinho Juvenal.
            – Qui é que ele está inventando agora?
            – Para lhe dizer sinceramente, eu também não sei ao certo. Mas ontem o advogado dele, doutor Estevão me procurou para fazer uma proposta. Contou uma história engraçada e confesso, fiquei com a pulga atrás da orelha. Mas a decisão é sua e vim lhe contar o que aconteceu. Depois o senhor decide se aceita ou não. Isso é coisa sua. Não quero influenciar. Não me sinto confortável em fazer isso.
            – Uai, home! Desembucha logo então. Aceita uma xícara de café, um biscoito?
            – Pensando bem, não comi nada depois do almoço, um café com biscoito vai cair bem, enquanto conversamos.
            – O Lourdes! …. O Lourdes! Isabel!
            – O que foi meu velho? – perguntou da porta a esposa, atraida com o chamado dele.
            Nisso viu o advogado e cumprimentou:
            – Boa tarde, doutor José Silvério. Como tem passado?
            – Trabalhando bastante. Mas isso faz parte do negócio.
            – Ajuda a tornar a vida melhor eu penso.
            – Exatamente, dona Lourdes. E a senhora como vai?
            – Vou bem graças a Deus. Agora mais tranquila com o fim dessa pinimba com o processo.
            – Ele ainda não terminou totalmente. Mas pode ser que acabe logo.
            – Isso seria ótimo. Essa angústia de não saber o que vai acontecer me deixa muito aflita. Esse atentado sofrido pelo Onofre então, foi a gota d’água para completar.
            – As coisas vão melhorar.
            – O Lourdes! Serve um café aqui pro doutor e traz também uns biscoitos ou um pedaço de bolo.
            – Esperem só um cadinho. Vou providenciar. Dá licença.
            Ela se dirigiu para a cozinha e se pôs a preparar o café, separar os biscoitos, bem como alguns pedaços de bolo que fizera há pouco. De passagem avisou Isabel no atelier que o doutor estava ali. Ela prometeu vir cumprimentá-lo, tão logo terminasse umas coisas que estava fazendo.
            Enquanto o café era providenciado, José Silvério narrou ao coronel o teor da proposta de acordo que recebera e expos suas dúvidas quanto à mudança de atitude do oponente. Ao que o coronel falou:
            – Quem conheceu o pai dele, não diz que esse é filho dele. Homem honesto, trabalhador, direito nos negócios dele, estava ali. O filho parece fruto que caiu e rolou para longe do pé. Devia ser uma ribanceira forte para haver tanta distância.
            – É uma coisa realmente estranha. Os filhos normalmente saem bastante aos pais, salvo algumas excessões. Talvez estejamos diante de uma delas.
            – Lembro como se fosse hoje o pai reclamando dos descaminhos do filho. Quando tinha uns 16 para 18 anos, começou a fazer estrepolias junto com uns maus elementos mais velhos, gente de má conduta mesmo. Diversas vezes o pai teve que tirare le de apuros. Sempre aconselhou e inclusive botou de castigo. Mas diantou não. Parecia que tinha o tinhoso no couro. Não obedecia, fugia de casa e voltava a fazer das suas. Quando o pai morreu, pouco antes ele voltou para casa. Parecia adivinhar que o velho estava no fim. Veio e assumiu a fazenda. Logo deixou claro seu mau gênio.
            – Quanto tempo faz isso, coronel?
            – Coisa de cinco a seis anos se estou bem alembrado.
            – O pai tinha muitas dívidas?
            – Tinha algumas, principalmente por conta dos prejuízos causados pelo Jerônimo. Um par de processos em que foi condenado tendo que pagar indenização. Foi então que eu emprestei aquele dinheiro de que falou na audiência.
            – Em sua opinião ele pode ter se arrependido? Ter lembrado dos conselhos do pai e estar mudando de verdade?
            – Sei não, doutor. Nois costumamo dizer qui pau que nasce ou cresce torno, num endireita.
            – Isso diz o ditado popular. Mas há casos em que a pessoa envereda por um caminho errado e um dia acorda, muda de atitude, passando a ter comportamento exemplar.
            – Contece, mais é dificil. Eu inté qui torço pra qui ele se endereite. Era tão bão no tempo do pai dele. Des que ele veio tocar a fazenda, virou um inferno. Nunca mais tive sossego de verdade.
            – Imagino, coronel. Eu vou deixar o senhor pensar bem no assunto e decidir o que pretende fazer. Vou seguir suas determinações à risca.
            – Vamo tomar um café e comer uns biscoito, antes que esfrie.
            Serviram-se de café que acabara de ser colocado numa mesinha à sua frente, junto com uma luxuosa travessa replete de biscoitos e uma tigela com pedaços de bolo. Comeram alguns instantes em silêncio, que foi quebrado por José Silvério:
            – Esses biscoitos de dona Lourdes são impagáveis. Muito bons. O bolo então é uma delícia.
            – Sempre falo pra Lourdes. Ela me pegou foi pelo estômago e ela diz qui usou a arma que tinha, pra mode mi pega.
            – Além de tudo tem senso de humor invejável.
            – Sempre fois assim. Num tem tempo triste com ela. Memo nas hora mais dificil, ela consegue ficar animada, fazer a gente rir e esquecer um pouco as preocupação.
            – Feliz do senhor em ter uma companheira dessas. Conviver com alguém sempre triste, lamentosa deve ser complicado. Sei minha mãe e pai são parecidos nesse sentido. Um anima o outro nos momento de dificuldades.
            – Eu sempre digo que tenho tudo que pedi a Deus. Meu cafezal, uma muié qui nem a Lourdes, e a fia Isabel. Posso pidi mais arguma cosa? Ach’qui não.
– De fato, preciso concordar com o senhor.           
– É bom saber que o senhor está feliz, pai. – falou Isabel que estava parada à porta da varanda.  
– O fia! Tu tava aí? Num tinha percibido.
– Boa tarde, doutor. Como vai o senhorr?
– Eu estóu ótimo, senhorita. E a exposição, quase tudo pronto?
– Parece que sim. Mas sempre aparece alguma coisa a mais. Acho que nunca se consegue lembrar de tudo, mas tudo mesmo. É bem complicado esse mundo da arte.
– Não é só o mundo da arte. Em toda atividade há os problemas. Mas a superação deles traz no final a alegria da vitória.
– Parabéns pelo seu trabalho na defesa de papai. Soube que foi brilhante!
– Obrigado. É bondade de coronel Onofre.
– Bondade nada! Pura verdade, das verdadeiras mesmo.
– Fico lisonjeado com isso. Senhorita precisa de alguma ajuda, algo que eu possa fazer para facilitar as coisas?
– O organizador está providenciando tudo. Nunca vi alguém com tanta energia, apesar da idade. Parece que tem um motorzinho nele. Não para. Toda hora lembra de algo, apresenta de uma novidade.
– Precisando é só falar.
– O senhor já fez muito me pondo em contato com ele. Espero contar com sua presença na inauguração da exposição.
– E eu iria perder essa oportunidade? Estou curioso por conhecer seus trabalhos um por um. Só vi alguns e foi suficiente para ficar encantado.
– Dentro de quatro semanas é o grande dia. Deve vir gente de Bel Zonte, São Paulo e até Rio de Janeiro. Imagina! Vou ficar perdida no meio de tanto grão fino.
– Vai é brilhar igual uma estrela no meio de uma porção de planetas.
– Agora é o senhor que está exagerando. Mas obrigado pelas suas palavras. Vou buscar o álbum de fotos que foi feito. Foram mandadas cópias para um monte de gente importante e veio uma porção de cartas elogiando, confirmando presença.
– Se me fizer o favor, eu agradeço. Vai ser diferente de ver os quadros ao vivo, mas serve de aperitivo.
Ela levantou e foi até o atelier, voltando em seguida trazendo um álbum volumoso com fotografias ampliadas dos quadros. José Silvério abriu e começou a admirar os trabalhos um a um, soltando um assobio, arregalando os olhos a cada página que virava. Podia-se ver a história artística da jovem. Nítidamente era possível ver o crescimento, apesar do vigor presente desde o princípio. A cada quadro a harmonia do traço, o contraste de cores, enfim o aperfeiçoamento acompanhava a evolução da primeira à última imagem.
– Só de ver o álgum já fico emocionado. Estou imaginando o que dirão os críticos, os apreciadores de arte quando virem seu trabalho na galeria. Já há preços mínimos estabelecidos?
– Sim. Estabelecemos algo não exagerado, para evitar espantar os possíveis compradores. Mas não vai ser colocado a mostra, somente vai ser informado aos interessados em adquirir. Dependendo do efeito isso poderá ser modificado no decorrer da exposição.
– Boa ideia, pois se a aceitação for elevada, é possível pedir algo a mais, pois certamente haverá quem pague o preço.
– Vou querer que escolha um para ser seu presente, doutor.
– Eu estava pensando em economizar para comprar um ou dois ao menos. Vou esperar vê-los na exposição e iluminados adequadamente para fazer a opção.
– O papai está cada vez mais envaidecido com isso. Até parece que o pintor é ele.
– I num era pra ficar orgulhoso? De um dia pro outro toda hora tem gente estranha aí vendo, saindo admirada e falando um montão de coisa. Só podia ficar estufado iguar sapo boi.
– Até eu ficava envaidecido no seu lugar, coronel. Acho que vou andando. O senhor me avisa de sua decisão em relação à proposta do Jerônimo e se for o caso, marcamos um encontro para acertar os ponteiros.
– Mas o senhor não espera a janta? Temo inté um quarto de hospede e pode dormi aqui. Manhã cedo volta pra cidade.
– Não quero incomodar, coronel.
– Incomodo nada, doutor. Senhor é de casa. Vai sê uma honra lhe dar pouso por uma noite. Fia, avisa a sua mãe que o doutor vai pousar aqui. Manda por mais água no feijão.
– Um convite tão gentile u não posso recusar. Mas preciso sair bem cedo amanhã para não chegar atrasado ao escritório.
– Vai ver como nois levanta cedo aqui no mato. O galo canta e nóis alevanta.
Isabel pediu licença e foi até a cozinha, ficando por lá. Ajudava a mãe nos afazeres de preparar a janta. Levou com ela o bule com o resto frio do café, os biscoitos e bolos sobreviventes. Era ótimo respirar o ar do anoitecer ali em meio à natureza. Os cafeeiros estavam terminando de florir e o perfume ainda era perceptivel no ar. Isso dava ao lugar um aspecto peculiar. Era diferente de outras propriedades com criação de animais que tivera oportunidade de visitar. Não havia cheiro de sour, estrume e tal. Não que esses fossem essencialmente desagradáveis, mas as flores deixavam um aroma levemente adocicado no ar.
José Silvério instigou o coronel a contar causos dos tempos de antigamente e ele prontamente atendeu ao seu pedido. Estava próximo dos 60 anos e tinha em sua memória muitas histórias para contar. Contou de como era o trabalho nos tempo de sua infância. Tudo era manual, mais rústico e difícil. Mas era a forma conhecida de fazer tudo e ninguém reclamava. Hoje, com boa parte modificada para automatização, máquinas assumindo o trabalho mais monótono e demorado do processo de produção, havia quem reclamasse das tarefas minimamente cansativas. Precisavam estar aí antigamente para ver como é que a coisa ia.
Uma história puxa a outra e mais outra. O tempo passou e quando viram, a janta estava na mesa. Lourdes veio chamar e permaneceu um momento à porta ouvindo, antes de falar:
– Deixa um pouco de histórias pra contar depois e venham jantar.
– Uai! Mais já tá na hora? Tinha nem reparado que o tempo passou.
– É, coronel. Contando histórias o tempo voa sem a gente ver. Igual o vento. Quando vê, já foi.
– Mas vamo si lava e depois come.
Levantaram e foram até o lavatório instalado ao lado da cozinha para lavarem as mãos. A casa fora construida em tempos passados, ficando devendo um pouco no quesito funcionalidade. Mas coronel Onofre nem queria ouvir falar em trocar de casa. Essa estava é muito boa. Por quê mudar?
Sentaram-se, agradeceram a Deus pelo alimento e começaram a refeição. Nada de especial e as palavras do coronel de botar mais água no feijão faziam sentido. Realmente havia feijão, arroz e salada, além de pão, queijo, nata e melado. Praticamente tudo produto da terra, produzido ali mesmo ou nas redondezas. Comeram devagar, intercalando garfadas de comida com algumas palavras, mais histórias iam sendo contadas, comentários tecidos, observações feitas.
Sentaram-se na sala, onde havia um toca discos e também um televisor. O coronel aderira à modernidade, instalando uma antenna parabólica próximo da casa e também puxara a rede de energia elétrica, tornando as coisas mais fáceis. Assistiram ao noticiário e depois de mais um pouco de conversa, José acompanhou Isabel até o atelier para ver o trabalho inédito que estava elaborando para apresentar na exposição. Não constaria no catálogo. Era algo desconhecido até do organizador. Ele o veria no momento de levar para a galeria.
Era diferente de tudo que produzira até ali. Estava enveredando por uma nova vertente. Pensava em acompanhar a tendência atual da pintura. Faltava uma boa parte do trabalho, mas era possível antever o efeito final. Seria um impacto diferente sobre os críticos e aficionados do mundo da pintura. Isabel explicou as ideias que tinha em mente para a conclusão do trabalho e deixou José de boca aberta. Pelo que ouviu, percebeu que o resultado seria realmente surpreendente. Demonstrou claramente com o brilho no olhar o que sentia.
– O que achou da ideia, doutor?
– Vai ser um sucesso, senhorita.
– A ideia é surpreender. Estou iniciando uma nova fase em meu trabalho.
– Com jeito de ser arrasadora essa sua nova fase. Imagino o que virá no futuro.
– Vou me esforçar para corresponder às espectativas. Tenho que lhe agradecer sempre pelo fato de levar meus trabalhos para serem vistos.
– Isso vai ser orgulho para mim. Ter descoberto um talento tão promissor é compensador o suficiente.
– Vou descansar, pois passei o dia em pé pintando, ou ajudando a mãe na cozinha. Quase não tive tempo de sentar hoje.
– Precisa dar descanso às pernas para não sentir os efeitos mais tarde.
– Costumo fazer pequenas caminhadas a cada duas ou três horas. Movimentar o sangue para não inchar os pés.
– Isso mesmo. Não se descuide e sofrerá menos daqui a alguns anos.
Ao retornarem à sala o coronel tivera tempo de trocar ideias com a esposa Lourdes e falou:
– Doutor! Pode marcar o encontro com o homem, mas no seu escritório. Em outro lugar eu não confio. Vou dar um voto de confiança a ele, mas nunca é demais ser prevenido.
– Com certeza, coronel. Precaução nunca é demais. Em se tratando que gente de passado pouco recomendável, mais cuidado ainda é necessário. Vou marcar a data e lhe mando aviso. Dependendo do caso, venho aqui lhe avisar.
– Estou esperando que a telefônica puxe a linha até aqui para por um telefone. Faz falta.
– Certamente. O telefone poupa muito tempo, evita despesas.
– Enquanto não vem esse dia, temo que levar como dá.
– Tudo ao seu tempo. Um dia ele chega e a coisa se resolve.
– Hora de velho ir para cama. Se quiser ver o filme que vai passar, fica a vontade.
– Acho que vou dormir cedo. Tenho um livro comigo. Leio um pouco e logo adormeço.
– Boa noite, doutor.
– Boa noite, coronel.
Mãe e filha ficaram vendo o começo do filme. José lhes fez companhia e depois foram dormir. Logo cedo estavam todos em pé e por volta de 7 h 30 min. estavam de café tomado. José embarcou no seu carro e percorreu a estrada para Sete Lagoas. Chegou em casa e rapidamente tomou banho, trocando de roupas. Tinha audiência naquele dia e não convinha chegar diante do juiz de roupa amassada. A apresentação pessoal era muito importante. Não podia descuidar desse particular.
Ainda pela manhã ligou para o colega Estevão e agendaram o encontro entre os dois vizinhos para a terça feira da semana seguinte. Daria tempo de avisarem aos clientes e estes se fazerem presentes no escritório da Advogados Associados. José antegozava o momento de rever Isabel. Não se importava com o fato de se necessário levar o recado ao coronel pessalmente. Bendita telefônica que ainda não puxara a linha até lá. Isso lhe dava uma desculpa para visitar a fazenda.
O final de semana chegou depressa entre audiências, entrevistas, pareceres e montage de processos. No sábado à tarde, após tomar banho, barbear-se e passear um pouco pela cidade, enveredou pela estrada, indo parar na fazenda. Por sorte encontrou o coronel antes de ele sair com a família para visitar um primo alguns quilômetros dali. Ficariam na outra propriedade, retornando somente no domingo a tardinha. Entregou o recado e logo depois voltou para casa. Vinha um pouco frustrado por não ter tido tempo para gozar da presença de Isabel por um período maior do que alguns minutos apenas. Era parte do processo. Ela não estaria sempre ao seu dispor.
Passou a noite de sábado em casa, conversando com os pais e vendo televisão. Nas últimas semanas deixara a desejar em sua atenção à família. Precisava cuidar para não esquecer de quem lhe dera tudo o que era. Boa parte do mérito era seu, mas as condições para por tudo em prática, havia sido providas pela família. Nunca deveria olvidar tal fato.

Mineiro sovina! – Capítulo XIII

 

Prisão do mandante.
        Terminada a audiência e proferida a sentença, doutor Estevão preparava seus papéis e bloco de anotações para se retirar, junto com o cliente. O favorecido com a sentença, seu advogado e testemunhas haviam saido. Nesse momento três policiais militares, sob o comando de um sargento se postaram nas proximidades, em posição de quem aguarda uma ordem da autoridade. O juiz Dr. Osmar, olhou fixamente para Jerônimo e sua voz foi ouvida:
            – Senhor Jerônimo, seus problemas apenas começaram. O senhor está preso sob a acusação de ser o mandante do atentado ocorrido contra a pessoa de seu vizinho Senhor Onofre Pires.
            – Eu não tenho nada a ver com isso, doutor.
            – Os executores do atentado confessaram e ambos disseram que quem os contratara era o senhor. O seu advogado poderá procurar os seus direitos, mas nesse momento o senhor irá daqui para a cadeia. Sargento, pode prender o acusado.
            Os policiais se aproximaram para cumprir a ordem do magistrado. Nesse momento o advogado se interpôs e dirigindo-se ao juiz falou:
            – Permite uma palavra, meritíssimo?
            – Depois no meu gabinete. Agora seu cliente irá para a detenção.
            – Meu cliente se compromete a comparecer para depoimento e não se ausentar enquanto o inquérito não estiver concluido.
            – Ele fugiu e se escondeu por mais de uma semana. Tentamos exaustivamente encontrá-lo sem resultado. Poderia ter se apresentado antes e poderia ter obtido o benefício legal. Por ora ele é considerado fugitivo e não há como atender ao seu pedido.
            Estevão voltou-se para Jerônimo e falou a ele:
            – Acompanhe os policiais e não crie problema para não agravar a situação. Vou ver o que consigo fazer para tirá-lo da cadeia.
            – Eu sou inocente, doutor.
            – Não teime e faça o que eu disse. Se tentar resistir, vai apenas piorar as coisas.
            Diante da situação Jerônimo estendeu as mãos e permitiu ser algemado. Naquele momento seu íntimo fervia de ódio. Sair escoltado e algemado do forum, não estivera em seus planos. Seus homens poderiam reagir e isso o preocupava. Pediu:
            – Doutor Estevão! Por favor avise meus homens que estão lá fora para ficarem quietos e voltar para casa.
            – Faço isso aos air. Vou na frente.
            Os policiais esperaram um pouco dando tempo a que o doutor Estevão chegasse a área exterior e desse o recado aos homens do fazendeiro. Era uma medida preventiva. Não tinham nenhuma chance de enfrentar uma porção de peões armados e dispostos a defender o chefe. Poderia resultar uma carnificina. O resultado seria altamente imprevisível. As pessoas residentes e em trânsito pelo lugar não deveriam ser expostas à nenhum risco.
            Ao julgarem que o recado for a dado e o risco era mínimo, iniciaram o deslocamento até o exterior, no patio do forum, embarcando numa viatura. Dali sairam sem demora rumo a delegacia, onde eram esperados por uma equipe de interrogatório a quem entregariam o detido.
           
            – Viu lá, coronel? Estão levando o seu vizinho para a delegacia.
            – Naquele jipe? Esse juiz é porreta!
            – Ele não é sopa. Tem a mão pesada, quando se trata de punir transgressors da lei.  
            – Preciso lhe dar os parabéns, doutor. O senhor foi brilhante. Não deu chance ao advogado dele. Ele pensou que tinha um trunfo com aquele mapa falso, mas se deu mal. Vi a cara do juiz quando olhou para os dois papéis.
            – Montamos um processo perfeito e não havia como perder a questão.
            – O senhor acaba de merecer cada centavo que vou lhe pagar pelo serviço. Será meu advogado de hoje para frente.
            – Obrigado, coronel. Vamos para o escritório. Depois tenho algumas providências a tomar para amanhã.
            Onofre chamou o empregado mais categorizado informando que acompanharia o doutor José Silvério e deveriam segui-los de longe. Em pouco tempo voltariam para a fazenda.
            Já no gabinete de José, sentaram-se e Onofre puxou do bolso o talão de cheques.
            – Pode falar quanto lhe devo, doutor.
            José tinha na gaveta uma anotação das custas, discriminando cada parte. Despesas com material, taxas, distribuidor público e demais gastos, acrescido dos honorários considerados justos para o caso. Estendeu o papel ao cliente que o pegou para ler. Estava ali discriminado tudo que teria que pagar. Franziu o cenho e depois se pos a preencher um cheque, assinou, destacou do talonário. Estendeu ao advogado que o recebeu e olhou de volta inquisitivo. O valor constante no documento era maior que o total das despesas.
            – A diferença é uma gratificação especial para seu trabalho muito bem feito.
            – Eu já cobrei o que era justo, coronel. Isso não é certo.
            – Quer que eu faça dois cheques, separando a gratificação?
            – Não é isso. É que não acho certo receber mais do que é a conta.
            – Considere um presente. O Jerônimo vai ter mesmo que me pagar esse gasto.
            – Digamos que isso seja um adiantamento pelo próximo serviço, coronel.
            – Estamos certos então. Vou andando para chegar em casa de dia claro. Não gosto de andar por aí de noite.
            – Leve lembranças a dona Lourdes e a senhorita Isabel.
            – Pode deixare que me encarrego disso. Elas vão ficar satisfeitas com o resultado da audiência. A Isabel anda entusiasmada com a exposição. Já tiraram um monte de retrato, fizeram um álbum complete para divulgação.
            – A exposição tem tudo para fazer sucesso. O próximo passo vai ser levar tudo isso para a capital. Depois quem sabe, São Paulo, Europa, Estados Unidos.
            – Vamos devagar, doutor. Não ponha minhoca demais na cabeça de minha filha.
            – Não é minhoca. É a verdade. O senhor vai ver. Vai ter uma filha sendo projetada no mundo da pintura. E não falta muito. No mês que vem e pronto. Passa rápido.
            – Passar bem, doutor. Vou indo.
            – Se cuide, coronel. O senhor foi ferido há poucos dias.
            – Pode deixare que a minha Lourdes cuida disso como se eu fosse uma criança.
            – Ela tem razão em cuidar bem. Sabe o valor que o senhor tem.
            O coronel foi encontrar seus homens do lado de fora. Em segundos todos embarcaram nos veículos e foram embora. Iam atentos a qualquer coisa diferente que fosse vista nos lugares que poderiam servir de tocaia. O coronel escapara barato da primeira vez. Numa segunda tentative poderia não ser tão bem sucedido. Tinham por ele muita consideração e estima. Mas a viagem transcorreu sem maiores novidades.
            José Silvério foi até o gabinete do director da empresa de advocacia e foi cumprimentado pela bela vitória no tribunal. Tinha sido arrasador na montage e preparação do processo. Não diexara nada escapar, fechara todas as saidas e o resultado estava ali. O cheque foi entregue e a diferença de valor explicada. O chefe concordou em que essa diferença lhe cabia por seu desempenho. Fariam a separação do percentual que cabia à empresa, sendo o restante creditado nos haveres de José. Trocaram algumas informações sobre processos em dandamento e José voltou a sua sala. Ainda tinha trabalho por fazer.
            Para sua sorte a audiência não se estendera além do normal e podia perfeitamente concluir seu trabalho pendente até o momento de voltar para casa. Não teria necessidade de fazer serão, ou levar processos para casa. Queria comemorar com a família aquela vitória. Havia atuado em diversos processos naqueles últimos meses e em sua maioria obtivera êxito no que se tinha proposta. Apenas em dois casos os clientes haviam ocultado informações importantes e isso causara uma sentença desfavorável. Se houvessem sido francos, ele teria como encontrar uma forma de amenizar o dano, mas a ocultação apenas fizera ele perder a causa.
            Mesmo sendo sua remuneração básca garantida por contrato, era frustrante receber uma sentença contrária do esperado. Fazendo um balanço até aquele dia, tivera muito mais êxitos do que fracassos. Até mesmo esses não eram consequência de sua inaptidão, mas de falta de sinceridade dos clientes no relatar os fatos em discussão.
            Encontrou os pais em casa e os convidou para irem a um restaurante jantar. Queria oferecer uma refeição diferente aos familiares depois da vitória daquele dia. Foi cumprrimentado e em pouco tempo estavam a caminho de uma casa típica que servia comida ao puro estilo mineiro. Comeram e beberam vinho até sentirem uma leve tontura. No retorno para casa, José foi especialmente cauteloso no dirigir. Sabia que a bebida inibe os reflexos e não queria terminar o dia com um acidente. Percorreu a distância até a casa com redobrada precaução. Chegaram sem contratempos e foram dormir.
            No dia seguinte todo o escritório estava ciente da fragorosa vitória de José na questão do litígio de divisas entre os fazendeiros. Cada um dos colegas fez questão de vir até ele cumprimentar pelo feito. Estava alcançando uma notoriedade considerável em um curto espaço de tempo. Habitualmente os novos membros da equipe alvançavam resultados mais expressivos após um ou dois anos de prática. Estavam diante de um craque do direito. Os donos do escritório conversaram e decidiram indicar seu nome para atuar em causas consideradas complexas. Haveria sempre a possibilidade de um resultado, se não de vitória, mas de minimização de prejuizo, tendo alguém de maior habilidade na linha de frente do processo.
            Enquanto isso doutor Estevão quebrava a cabeça, lendo e relendo sentenças e mandados judiciais antigos para vislumbrar uma brecha que permitiria tirar Jerônimo da prisão. Sabia que dependia de sua soltura a obtenção de seus honorários e também deveria providenciar o recurso ou então tentar um acordo, ulterior à audiência e pagar as custas do processo de ambos os lados. Com ele na prisão, não havia como receber. Não lhe seria permitido ir ao banco sacar dinheiro, nem teria nas mãos talonário de cheques para fazer o pagamento.
            Depois de muito estudar, ler todos os processos que dispunha ao alcance das mãos, uma luz brilhou no seu cérebro. Proporia ao juiz a realização de um depósito em dinheiro como garantia de que o cliente não se furtaria às sessões de audiência e nem se ausentaria da região. Ligou ao Dr. Osmar e agendou um encontro para conversarem. Um pouco a contragosto o magistrado acedeu ao seu pedido e ele foi para lá esperançoso. Falara com Jerônimo sobre sua ideia este não gostara muito da coisa, mas concordara, pois não tinha vocação para passarinho. Não suportava gaiola.
            Com os trunfos na mão, Estevão foi até o forum onde iria se encontrar com o juiz ao final do expediente. Esperou um pouco e depois foi levado à presença do homem. Foi prudente na exposição do assunto e tentou ser persuasivo ao máximo. Com calma explicou que o cliente tinha necessidade de ter o mínimo de liberdade para poder administrar sua propriedade. Caso contrário não teria como sequer arcar com as custas do processo, pagar a indenização determinada. Tampouco teria como se defender da nova acusação. No final saiu de lá com um mandado de soltura, assinado por Dr. Osmar, mas deixava um documento assinado responsabilizando-se pelo preso, bem como pelo depósito do valor combinado em nome da justiça, como garantia, além da fiança que for a fixada.
            Chegou na delegacia com os documentos e em alguns minutos saia dali com Jerônimo. Embarcaram no automóvel do advogado e foram para a fazenda. No caminho Estevão repetiu pela enésima vez os compromissos assumidos e, caso Jerônimo lhe criasse problemas, ele seria o primeiro a providenciar para que fosse preso novamente. Poderia procurar outro advogado para prover sua defesa nesse caso de atentado. Jerônimo escutou quieto, remoendo intimamente a raiva. Aos poucos se tranquilizou e lembrou das palavras que seu pai costumava dizer:
            – Filho, quem anda direito, não tem o que temer. Já quem faz o mal aos outros, acaba fazendo isso a si mesmo. Seja sempre honrado e direito.
            Ele em seus anos de juventude se deixara desencaminhar por más companhias e assim prosseguira até hoje. E estava colhendo o que plantara. A imagem do pai não lhe saia da cabeça. Pelo menos o doutor Estevão conseguira livrá-lo da cadeia e poderia por os pensamentos em ordem depois de dormir direito naquela noite, coisa que não conseguira na cama desconfortável da cadeia. Chegaram na propriedade por volta de nove horas da noite e os peões vieram saber das novidades. Estevão estranhou a calma e serenidade de Jerônimo ao falar com o capataz. Parecia mudado e ficou de sobreaviso. Estaria ele articulando alguma artimanha?
            Entraram e a cozinheira que estivera igual barata tonta na ausência do patrão, se apressou em providenciar alguma coisa para os dois comererm. Estevão não recusou pois estava há horas sem por nada no estômago. Comeram e depois sentaram para conversar mais um pouco. Tudo foi repassado novamente e Jerônimo entregou a Estevão um cheque para cobrir as despesas iniciais e falou:
            – Estive pensando na vinda para cá e lembrei de meu pai. Eu parecia ver o rosto dele me falando para andar direito, não fazer mal aos outros e eu não quis ouvir. Hoje estou pagando o preço.
            – E isso significa o que, Jerônimo?
            – Vou me esforçar para mudar. Primeiro preciso entrar num acordo com o coronel Onofre para acertar essa questão da indenização. O juiz pegou pesado, mas se a gente negociar talvez possa redizir isso, num acordo por for a.
            – Não sei, amigo. Mas podemos tentar.
            – Será que ele aceita retirar a queixa do atentado?
            – Duvido muito, mas não custa nada tentar. O pior que pode acontecer ouvir um não e pronto.
            – Preciso mudar, ou vou acabar mofando na cadeia e a fazenda vai para o barro.
            – Isso é verdade. Sem a mão firme do dono não vai para frente.
            – Eu quero acertar as contas com a justiça e depois andar direito. Será que o agrimensor já foi embora?
            – Acho que sim.
            – Tive medo que o juiz mandasse prender ele também. Paguei para ele falsificar aquele mapa.
            – É o que eu desconfiava e ficou demonstrado na audiência pelos depoimentos e documentos do coronel.
            – Pensei que um documento novo ia enganar ele. Mas não caiu na cilada. Ainda bem, pois seria mais um peso na consciência.
            – Se o juiz queria mandar prendê-lo perdeu a chance, pois duvido que ele ainda esteja na cidade. Deve ter saido dali voando, depois de ver a coisa preta.
            – Se ele quiser algum tipo de acerto depois me entendo com ele. Não vai poder pedir muita coisa, pois também agiu errado. Eu paguei e ele executou o serviço.
            – Por isso pensei que ia sobrar para ele no dia, mas parece que Dr. Osmar não estava interessado em peixe miudo.
            – E ele me pescou direitinho. Mas vamos combinar uma coisa. Procura o advogado do coronel e propõe um acerto dessa indenização. Depois sonda sobre a retirada da queixa, assim meio por cima para não ofender o homem.
            – Amanhã cedo vou começar por acertar as questões de dinheiro e depois dou um jeito de falar com o doutor José Silvério. É advogado novo, mas tinhoso que só. Ganhou quase tudo que é causa que pegou. É o caçula dos Advogados Associados, mas pelo tipo já dá sova até em gente escolada de anos.
            – Então tem que ser mais cuidadoso ainda. Vai com calma para não espantar a caça.
            – Quer dizer que é sincera sua intenção de mudar de vida?
            – Sincera. Tão sincera como nada que eu disse antes em minha vida. Estou falando de meu futuro. De repente me dei conta de que o futuro ia ser pior do que isso. Apenas dois dias na cadeia foi bastante.
            – Não garanto conseguir livrar sua cara nesse outro processo. Atentado, tentativa de homicídio é coisa grave, homem.
            – Eu sei, eu sei. Mas não tem como voltar atrás. O que está feito, está feito. Temos que encontrar um meio de sair da melhor maneira desse atoleiro.
            – Espero que o juiz acredite na sua boa vontade. Isso será meio caminho andado. Se ele “comprar” sua disposição, temos uma boa chance de amenizar a situação.
            – Estou disposti a conversa pessoalmente com o coronel, se for preciso. Só não sei se ele vai aceitar se encontrar comigo. Deve estar mais ressabiado que bicho acuado.
            – E com razão. Quem levou um tiro foi ele e teve sorte de ser na perna. Se pega mais para cima, a coisa ia complicar para ele.
            – Graças a Deus. Assim temos uma possibilidade de dar um jeito. Se o homem more, adeus. Nem sei o que ia dar em mim. Se tivesse que ficar alguns anos na cadeira, morria muito antes de terminar o tempo.
            – Ótimo, Jerônimo. Eu vou indo, pois tenho muito trabalho para amanhã. Pense bastante e se continuar com as mesmas intenções mande me avisar.
            – Carece não pensar mais. Estou decidido.
            – Então boa noite. Qualquer coisa diferente mande me avisar. Não me faça nenhuma surpresa nem bobagem.
            – Pode deixar doutor. Aprendi a lição. Não quero mais desse remédio.
            – Vou ter prazer em ser seu advogado depois dessa mudança. Com certeza as causas vão ser mais fáceis de ganhar do que essa que perdemos.
            – Essa não tinha chance desd’um começo, acho eu.
            – Olhando agora, só se pode chegar a essa conclusão. Na forma como me foi apresentada, parecia favas contadas.
            – O errado fui eu. Fui falso, menti, fiz coisa errada e é justo pagar por isso, por mais que doa no bolso. Na cara também. Mas vou ter que encarar o povo e ir em frente.
            O doutor Estevão embarcou em seu carro e dirigiu aliviado pelo caminho de retorno para casa. Ainda tinha algumas dúvidas se o cliente iria mesmo mudar de vida. A modificação havia sido um tanto brusca e poderia ser que na manhã seguinte tivesse mudado compeltamente de opinião. Dormiu aliviado e logo cedo estava na rua correndo para dar conta de tudo que tinha a fazer no dia. Passou no escritório, conferiu com a secretária a agenda do dia para não deixar passar alguma audiência que tivesse marcada. Não podia dar-se ao luxo de perder clientes. Por sorte aquele dia não tinha nenhum compromisso no forum.
            Depois de cuidar das questões relativas ao dinheiro, sentou-se em sua sala e procurou na lista de telefones o número da Advogados Associados. Discou e depois de três toques do aparelho, a secretária atendeu:
            – Alô, advogados associados, boa tarde!
            – Boa tarde, senhorita. Seria possível falar com o doutor José Silvério?
            – Quem devo anunciar?
            – Eu sou doutor Estevão, ele me conhece.
            – Vou ver se pode lhe atender. Aguarde um momento.
            Levantou o interfone e apertou a tecla correspondente à sala de José e logo ouviu:
            – Sim, Roberta.
            – O doutor Estevão está ao telefone e quer falar com o senhor. Posso passar a ligação?
            – Pode passar.
            (Que será que o advogado do vizinho de coronel Onofre iria lhe propor?)
            – Doutor Estevão? Doutor José vai falar com o senhorr.
            Transferiu a ligação e José Silvério atendeu:
            – Alô!
            – Doutor José! Sou seu oponente de outro dia. Poderíamos nos encontrar para conversar?
            – Sobre o que seria?
            – Meu cliente, senhor Jerônimo, quer fazer um acordo com o coronel Onofre.
            – Mas por que ele não falou na hora da audiência?
            – Ele estava muito brabo e não pensava direito. Hoje consequi livra-lo da cadeia e ele está mais calmo. Decidiu mudar de vida e quer um acordo par acertar todas as contas.
            – Mas isso não devemos tratar por telefone. Me procure amanhã, ao final da tarde, aqui na minha sala. Sabe o endereço, ou não?
            – Sei sim, colega. Por volta das cinco horas?
            – Isso mesmo. Vou deixar minha agenda livre para não ter nada a incomodar.
            – Obrigado, colega. Não irá se arrepender de me receber. Me tornei seu admirador, pode ter certeza.
            – Até amanhã, então, doutor Estevão.
            O telefone foi desligado e José Silvério permaneceu alguns minutos pensativo. O que teria feito o homem tão arrogante e autoconfiante mudar radicalmente de opinião? Poder-se-ia confiar nessa mudança? Não caberia nem a ele decidir. O seu cliente iria tomar essa decisão e ele apenas serviria de mediador. O que não lhe entrava na cabeça era o fato de que o homem rejeitara qualquer possibilidade de conciliação e agora a propunha, quando a sentença estava lavrada, aguardando eventual recurso.
            Decidiu sentar com o superior e se aconselhar. Estava literalmene perplexo diante dos fatos. Levantaram todas as hipóteses possíveis, analisaram todos os ângulos e mesmo assim não puderam tirar um consenso. Teriam que palmilhar o caminho com todo cuidado possível. O chefe, em longos anos de exercício do direito, vivenciara diversas situações, umas até bastante difíceis de entender. Porém nunca se deparara com nada assim. Uma mudança tão radical era um bocado difícile de engolir. Deveria existir uma motivação forte por trás disso ou então ali havia uma grande e sutil armadilha. O advogado não era dos mais renomados na cidade. Atuava de modo geral em causas de menor relevância, defendendo pessoas de reputação duvidosa, ou então de menor poder aquisitivo. A prudência recomendava cautela.
            Na hora marcada, lá estava o Dr. Estevão Camposd, disposto a dialogar com seu colega Dr. José Silvério. Vinha a mando do cliente, objetivando uma negociação extrajudicial. objetivava conseguir um acerto mais vantajoso na solução da pendência criada com a sentença imposta pelo juiz.
– Boa tarde, caro colega! – cumprimentou.
            – Boa tarde. Sente-se por favor, – indicou uma poltrona confortável. – Bons ventos o tragam a esse humilde escritório.
            – Quanta modéstia. Se isto aqui é um humilde escritório, imagino o que seria um escritório luxuosamente instalado. Creio que não devemos mais desperdiçar nosso tempo com rodeios. Estou aqui, trazendo uma proposta do meu cliente, dirigida ao seu cliente em vista da solução satisfatória da pendência entre eles.
            – Concordo e sou todo ouvidos. Faça o obséquio de apresentar a proposta. Mas aviso que não será possível um acerto aqui, sem a aquiescência do meu cliente.
            – Evidente. Estou ciente disso. Meu cliente está passando por um mau momento financeiro. A queda no preço da arroba do boi gordo, somada com alguns insucessos com investimentos feitos na bolsa de valores, deixaram o Sr. Jerônimo impossibilitado de fazer frente as despesas com a indenização e demais custas. Ele propõe pagar a indenização de forma parcelada em doze vezes. Vencendo a primeira em cento e vinte dias. A questão dos limites poderá ser resolvida dentro de aproximadamente seis meses.
– Está bem. Entrarei em contato com o coronel Onofre e o informarei da resposta. Talvez possamos combinar um encontro numa das propriedades para dirimir essas divergências. Quem sabe conseguimos reconciliar esses vizinhos. Não faz muito sentido brigarem por questões tão pequenas. Em situações de emergência, podem ser os primeiros a prestar auxílio, providenciar socorro.
            – Quanto a isso, não sei se há alguma chance, mas nada custa tentar. Vou aguardar suas notícias. Já é tarde e ainda tenho algumas coisas a fazer. Até mais ver, colega.
            Estendeu a mão que foi apertada calorosamente. Depois saiu e disse adeus à secretária. Roberta olhou interrogativamente para José que logo depois apareceu na porta, parecia dizer:
            – O que aconteceu com ele? Chegou com cara de desconfiado e arredio. Ao sair estava que era só sorrisos.
            – Ele veio propor um acordo do cliente dele com o meu, o coronel Onofre.
            – O do atentado.

 

            – Esse mesmo. Não sei, mas vamos ver o que o coronel decide sobre isso. 

Mineiro sovina! – Capítulo XII

 

Vista da cidade de Sete Lagoas.
Rio que corta a cidade de Sete Lagoas.

 

Ação de litígio é julgada.
Na hora estipulada todos os envolvidos na questão, o proponete da ação, o acionado, as testemunhas, os respectivos advogados e algumas pessoas assistentes estavam diante da mesa do Juiz. De um lado estavam Dr. José Silvério, coronel Onofre e quatro testemunhas, sendo dois empregados e dois vizinhos próximos. Eles haviam estado presentes anos antes na ocasião da demarcação que Onofre tinha registrado no cartório junto à documentação de propriedade das terras. Do outro lado Dr. Estevão, Jerônimo e três de seus empregados, além de um outro indivíduo que ninguém ali conhecia. Era o tal agrimensor que fizera a nova demarcação, sem que o coronel tivesse tomado ciência.
O Juiz se dirigiu aos presentes em geral, pronunciando as palavras de abertura da sessão, identificando o assunto em discussão, bem como os envolvidos. Em continuidade passou a palavra ao advogado da acusação, dizendo:
– Doutor José Silvério, há alguma proposta de conciliação de parte de seu constituinte?
– Meu cliente procurou entendimentos anteriores com o citado, mas foi recebido com grosserias e ameaças. Por isso procurou as vias judiciais. No entanto estamos abertos a ouvir qualquer proposta que seja apresentada pelo colega advogado do senhor Jerônimo.
– Doutor Estevão, seu cliente quer fazer alguma proposta de conciliação?
– Vou trocar algumas palavras com meu cliente e já respondo sua pergunta, meritíssimo.
Ficaram alguns instantes falando em voz baixa, mostrando-se Jerônimo bastante agitado. Por fim o advogado dirigiu-se ao Juiz dizendo:
– Meritíssimo, meu cliente não se considera culpado de nenhuma violação do direito de propriedade do seu vizinho e não quer propor nada em termos de conciliação.
– Diante disso, vamos seguir com a audiência. Doutor José, pode apresentar suas testemunhas.
– Vou começar com o senhor Gregório da Silva, vizinho e testemunha de uma demarcação feita em comum acordo entre meu cliente e o pai do senhor Jerônimo.
O citado sentou-se na cadeira das testemunhas e José Silvério continuous:
– Senhor Gregório, o senhor esteve presente quando o coronel Onofre e seu vizinho Juvêncio fizeram a demarcação de suas terras, ficando a divisa claramente estabelecida?
– Sim senhor. Eles se davam bem e fizeram a demarcação para não haver problemas. Os dois trabalham com ramos diferentes. Plantação de café e criação de gado. Não dá para misturar.
– Consegue lembrar quando foi isso?
– Sei ao certo não. Mas foi dantes da revolução de março de 1964. Pouco despois da nauguração de Brasília.
– Sabe se os dois receberam um mapa com a indicação das divisas claramente?
– Isso foi alguns dias despois. O grimensor vorto trazendo um mapa igual pra cada um deles. Cunferiram tudo e eram guarzinho os dois.
– Saberia dizer se esse documento é aquele que viu? – mostrou o papel amarelado pelo tempo, depois de descobrá-lo com cuidado. O senhorr Gregório olhou detidamente e falou:
– É esse sim. Penasmente está um pouco marelado agora. Mas não tenho duvida. É esse mesmo.
– Meritíssimo eu não tenho mais perguntas.
– Doutor Estevão, a testemunha é sua.
– Eu não tenho perguntas.
– Pode chamar outra testemunha.
– Vou chamar o senhor Augusto Ferreira, também testemunha da demarcação.
O nominado sentou-se na cadeira indicada e José Silvério falou:
– Senhor Augusto, o senhor ouviu as perguntas que eu fiz ao seu amigo Gregório e as respostas que ele deu.
– Sim senhor.
– Confirma que esteve presente no mesmo dia e viu o que ele viu?
– Confirmo. Lembro inté como estava o tempo. Era uma seca meia braba e fazia muito calor. Mas estava presente e tudo qui cumpadre Gregório falo é verdade.
– Reconhece o mapa que os dois vizinhos receberam do agrimensor?
– Si reconheço? Mas craro. É esse memo que sinhor tem aí na mesa.
– Obrigado senhor Augusto. Eu não tenho mais perguntas.
– A testemunha é sua doutor Estevão.
– Sem perguntas.
– Pode chamar outra testemunha.
– O senhor Paulo Francisco Alves, empregado do senhor Onofre.
Paulo sentou-se na cadeira e olhou para os lados levemente assustado. Aquele ambiente não condizia com o que era habitual em sua vida. Ouviu o advogado falando e presto atenção:
– Fique calmo Paulo. Só lhe vou perguntar umas poucas coisas. Deve responder só o que eu perguntar.
– Sim sinho! To ouvindo.
– Pode nos contar como foi que descobriram a cerca deslocada e os pés de café cortados naquele ponto da divisa, perto da nascente de água?
– Fais coisa di quatro cinco mes noi stava vistoriano o cafezal pra quelas bandas. Quando chegamo na divisa, eu mais Osvardo Faria, quando vimo aquele monte de pé de café cortado e montoado. Mais adiante vimo a cerca mudada de lugar, um buraco cavado em torno da nascente pra mode o gado beber ali. Estava tudo pisoteado.
– A cerca foi mudada só no lugar da nascente ou a mudança foi maior?
– Mudaro de uns 200 m antes, até outro tanto despois da nascente. Parece inté que fico quase reto. Apenas oiando de longe si pode ver a curva.
– Saberia apontar no mapa o lugar onde isso aconteceu.
– Posso tentar.
José levou até ele o mapa e permitiu que o olhasse atentamente.
– Eu num intendedo dereito esses mapa, mas deve de ser nesse ponto. Começando mais dantes até ali acima. – falou e apontou com o dedo.
– E o que vocês fizeram?
– Nois oiamo dereito e fomo logo contar pra coronel Onofre. Dispois acompanhamo ele até la pra mode ver o acontecido.
– Pela aparência, era coisa recente, ou fazia mais tempo?
– Era coisa de pocos dias dantes. As foia dos cafeeiros ainda num tinha caido.
– Vocês deixaram como estava ou fizeram alguma mudança?
– Coronel mando deixar ansim cumo tava. Num mexemo im nada não.
– Obrigado Paulo. Era só isso.
– Dr. Estevão, quer inquirir a testemunha?
– Uma pergunta, Paulo. Não foram vocês que cortaram a cerca e os cafeeiros a mando do coronel, só para processor o senhor Jerônimo?
– Coronel Onofre é home dereito, doutor. Nunca que ia de mandá faze uma coisa dessa. Te esconjuro, home.
– Não tenho mais perguntas.
– Doutor José, pode chamar outra testemunha.
– Só mais o senhor Osavaldo Farias.
Osvaldo sentou-se na cadeira e sabia que não tinha nada a temer. Olhou firme para frente, esperando as perguntas do advogado.
– Pode nos contar o que viu junto com seu companheiro de trabalho naquele dia na divisa das duas propriedades.
– Tudinho que Paulo Francisco falo é a pura verdade. Eu só quero acrescentá que vi, assim meio de revesgueio, alguém iscondido detrais de umas pedra que tem no pasto do seu Jerônimo. Parecia espreitar o qui noi stava fazendo.
– E essa pessoa fez alguma coisa, se movimentou, falou que o senhor se lembre?
– Só fico bem iscundido. Deve di tê ido contá pro patrão despois qui nois viemo embora. Inquanto nóis tava ali, num si mexeu não.
– E a distância que a cerca foi mudada é em sua opinião o tanto que Gregório disse, é maior ou menor?
– Nóis num medimo, mais deve de ser mai o meno isso qui Gregório disse. No totar uns quatrocentos metro.
Levou até ele o mapa e logo o dedo indicou o ponto em que a violação fora cometida.
– Obrigado Osvaldo. Não tenho mais perguntas.
– Eu também não tenho perguntas, – falou Estevão.
– Doutor Estevão, queira chamar as testemunhas de defesa.
O advogado de defesa levantou, endireitou os óculos sobre o nariz, percorreu com o olhar todos os presentes e falou:
– Vou chamar para depor o senhor Ambrósio Pereira.
O chamado era o mais jovem entre as testemunhas e estava visivelmente perturbado. Sentou-se na cadeira e esperou que lhe perguntasse, dando sinais claros de que, se descuidassem sairia correndo dali, sem olhar para trás.
– Fica tranquilo Ambrósio. Ningém aqui vai lhe fazer mal. Aqui é uma sala onde se administra justiça. Não tenha nenhum medo.
Esperou alguns instantes que as suas palavras fizessem efeito e ao ver que o jovem se sentia mais seguro falou:
– Quanto tempo você está trabalhando para o senhor Jerônimo?
– Eu nasci na fazenda e desde pequeno trabalho lá. Nunca saí de la inté hoje.
– Então conhece aquele terreno como a palma da mão?
– Conheço sim.
– Lembra dessa demarcação que o coronel Onofre está usando para acusar seu patrão de violar a demarcação da divisa?
– Eu devia de ser bem criança. Lembro que meu pai falou disso mas num estive junto durante o serviço.
– Durante esses anos todos, ouviu alguma vez ser falado a respeito de a divisa estar errada?
– Patrão fais anos fala que divisa ali tá errada.
– Esteve junto quando o seu Firmino, aqui presente, fez a nova demarcação, colocando a cerca onde está agora?
– Estive sim sinhor. Ajudei no serviço.
– Ajudou a mudar a cerca?
– Patrão mandou nois mudar a cerca dispois qui empregados di coronel Onofre cortaro os arame, deixando o gado entrar no cafezal.
– Não tenho mais perguntas.
– Doutor José Silvério, a testemunha está à sua disposição.
– Ambrósio, pode me dizer por quê o gado não andou mais longe, causando estrado em outros lugares, só ali naquele ponto perto da nascente?
– Isso eu num sei dizê doutô.
– Vocês estavam vendo eles cortar os arames e foram logo tocar o gado de volta.
– Num sinhô. Nóis vimo isso só dia seguinte. Tinha mais que vinte cabeça do outro lado da cerca.
– E vinte e poucas cabeças de gado, estragaram só o café que estava na parte que seria atingida pela mudança da cerca? Não acha isso um pouco dificil de acreditar?
– Sei dizer não senhor.
– Não tenho mais perguntas.
O juiz determinava ao escrivão algumas anotações específicas, em decorrência das palavras da testemunha.
– Pode chamar outra testemunha.
O doutor Estevão chamou um a um os outros dois e suas respostas ficaram no mesmo nível do prmeiro. Em verdade não tinham muito a acrescentar. O trunfo seria o agrimensor com sua nova demarcação e o novo mapa elaborado.
Pelos depoimentos dos dois outros dois empregados de Jerônimo, José Silvério achou desnecessário fazer perguntas a eles. A última testemunha foi chamada. Era Nicodemos de Almeida Prado. Um home alto e atlético, sinal de que sua atividade transcorria em lugares frequentemente de acesso difícile, sendo necessária uma compleição física avantajada. Sentou-se na cadeira das testemunhas e aguardou. Doutor Estevão passeou o olhar sobre os presentes e falou:
– Senhor Nicodemos, pode nos apresentar suas credenciais de agrimensor?
– Estão aqui, doutor. – retirou do bolso interno do paletó uma carteira de onde retirou um documento com fotografia que o identificava como agrimensor credenciado. Junto entregou também a sua identidade.
Estevão pegou os documentos e os apresentou ao Juiz que os leu, entregou ao escrivão para copier os dados com clareza.
– Já devolve seus documentos, senhor Nicodemos.
Enquanto isso Estevão trocou algumas palavras com a testemunha. Quando o juiz falou:
– Aqui estão seus documentos. Pode guardar. Os dados foram anotados devidamente.
Estevão entregou os documentos e depois se colocou na posição de inquiridor, dizendo:
– Como foi que o senhor veio trabalhar para meu cliente, uma vez que mora bem distante?
– Fui procurado pelo senhor Jerônimo para fazer o serviço, indicado por um cliente que é amigo dele. Me falou não confiar nos demais profissionais. Não posso recusar serviço e vim fazer o trabalho.
– O senhor teve algum contato com o outro interessado, o coronel Onofre aqui presente?
– Sei que ele foi convidado a estar presente, mas não quis saber. Disse confiar na demarcação feita há mais de 15 anos atrás.
– Como foi o trabalho? Encontrou alguma coisa errada?
– Começamos localizando os marcos nas cabeceiras. Depois coloquei o Teodolito e iniciamos a determinação dos pontos de 100 em 100 metros. Na altura da nascente encontrei um desvio da cerca para o lado da propriedade do senhor Jerônimo, de modo que ela ficava do lado do coronel Onofre. O mapa que deixei e que deve estar com o senhor mostra claramente o desvio.
– O o senhor se refere a esse mapa? – disse Estevão levantando bem alto o referido documento.
– Esse mesmo, doutor.
– Vou entregar às mãos do Meritíssimo uma cópia heliográfica para integrar os autos do processo.
Levou até a mesa do magistrado o document original e sua cópia. Foi comparada a cópia com o original e dado como verdadeira. A juntada ao processo foi ordenada.
– Teria mais algo a acrescentar senhor Nicodemos?
– Eu não, doutor.
– Doutor José Silvério, alguma pergunta?
– Sim Meritíssimo. – disse e se dirigiu à testemunha que não esperava por isso. Imaginava que seu depoimento se resumiria ao que dissera. – O senhor sabe identificar detalhes em uma fotografia, senhor Nicodemos?
– Não sou especialista, mas sei sim.
– Eu estive no local, depois que o queixoso senhor Onofre me procurou e com minha camera tirei algumas chapas do local. Mandei fazer ampliações que estão aqui. Poderia olhar para elas e dizer o que nota de errado.
As fotografias mostravam a cerca vista de longe e esta apresentava claramente a existência de uma curva ao redor da nascente. Foram olhadas atentamente pela testemunha e depois ele falou:
– Estas fotos foram tiradas antes. Agora a cerca deve estar reta. Pode ver que eu tenho razão.
– E como explica a existência desses cafeeiros cortados aqui ao lado, mostrados mais detalhadamente na outra foto tirade mais de perto?
– São imagens de épocas diferentes.
– Veja na margem inferior tem a data das imagens. Mostram quando foram feitas.
– Os negativos permitem fazer cópias muito tempo depois.
– Quando o senhor fez a demarcação, havia esse buraco ao redor da nascente que se pod ever aqui nessa outra foto?
– Não, mas isso é o que falei. São de outra data.
– Vou pedir ao Meritíssimo que junte essas cópias aos autos do processo como prova. – Entregou as imagens ao juiz que as observou, depois olhou significativamente para José Silvério e um leve sorriso aflorou ao seu rosto. Mandou ao assistente juntar todas as imagens ao processo.
– Não tenho mais perguntas.
– Doutor Estevão, tem mais testemunhas?
– Tenho sim. O próprio senhor Jerônimo. Faz favor!
Jerônimo levantou e foi sentar-se na cadeira indicada:
– Como foi que o senhor se tornou proprietário da fazenda?
– Sou o herdeiro de meu pai. Tinha uma irmã, mas ela faleceu há alguns anos e não deixou filhos, nem marido.
– O senhor viveu sempre com seu pai?
– Desde criança vivo na fazenda. Aprendi a lidar com gado desde menino.
– Está lembrado da demarcação que o coronel Onofre e seu pai fizeram no começo dos anos 60?
– Lembro. Eu era um menino de 13 anos. Meu pai foi coagido pelo coronel por conta de uma dívida que ele tinha com o coronel. Por isso aceitou aquela demarcação.
– E depois o senhor decidiu colocar a divisa em ordem.
– Demorei um pouco, ocupado com outras coisas. Meu pai deixou umas dívidas que tinham que ser pagas e me preocupei com isso. Agora que está tudo quitado, decidi por esse assunto em ordem.
– Ficou surpreso com a constatação do erro na demarcação?
– Eu não fiquei surpreso, pois sabia pela boca de meu pai que ali havia erro, mas ele aceitou para não ter que pagar na hora a dívida. Inclusive o resto eu paguei depois da morte dele.
– Tem os recibos desses pagamentos?
– Estão aqui. – Tirou de uma pequena bolsa um maço de papéis e separou os recibos relativos à quitação da dívida.
– Vou mostrare esses documentos ao Meritíssimo. Pena que não fizemos cópias deles.
– Se for preciso pode deixare eles no processo.
– Mas eles são documentos seus. Não podem ficar no processo.
– Doutor, me entregue os documentos. Vou pedir ao meirinho para leva-los para tirar cópias. Resolvemos isso já.
Os recibos foram levados para providenciar as cópias pedidas.
– O senhor procurou o coronel para fazerem a nova demarcação?
– Mandei recado mas ele não fez caso. Disse que não carecia de fazer nova demarcação.
– Quem foi levar o recado?
– Foi o Ambrósio, doutor.
– Não tenho mais perguntas.
– Eu também não tenho perguntas.
– Os dois advogados queremo chamar mais alguém?
– Eu vou pedir para que o Ambrósio volta para a cadeira das testemunhas, – falou José Silvério.
Com a autorização do juiz o indicado voltou a sentar na cadeira que lhe causava arrepios. Estava mais apavorado agora do que da primeira vez. Teria que mentir e isso o deixava nervoso demais. Sentou-se e esperou:
– Ambrósio, você levou o recado ao coronel Onofre?
– Levei sim sinhô.
– Lembra que hora foi isso?
– Num lembro dereito. Acho que foi perto de meio dia.
– O que aconteceu na fazenda do coronel?
– Ele mandou os capanga me botar para correr. Disse que não carecia de fazer outra demarcação. Que a diferença era tudo mentira de coronel Onofre.
– Você foi à pé ou à cavalo?
Ambrósio ficou pensativo, parecendo em dúvida sobre o que seria mais conveniente dizer. Sua hesitação deixou evidente que não estava dizendo toda a verdade, ou até mesmo era tudo mentira o que dissera.
– Acho que foi à cavalo, doutô.
d- Não é um pouco esquisito esquecer algo que aconteceu há bem pouco tempo?
– Meritíssimo, o advogado do queixoso está induzindo as respostas de minha testemunha. Ele não está em julgamento.
– Protesto aceito. Retire essas palavras dos autos.
– Não tenho mais perguntas.
– Eu também não, meritíssimo, – falou Estevão.
– Mais algum depoimento para completar a audiência?
Nesse momento coronel Onofre falou ao seu advogado que queria depor.
– Meritíssimo, meu cliente quer contar sua versão dos fatos.
– Pode chamar seu cliente, doutor José.
Sentado na cadeira das testemunhas, Onofre pigarreou preparando-se para falar:
– Coronel, conte-nos o que de fato aconteceu.
Em rápidas palavras o queixoso relatou sua longa relação amistosa com a família de Jerônimo, apenas depois de sua morte, quando o filho deixare a vida de andarilho em companhia de alguns elementos de maus bofes, começaram os problemas. Depois que havia quitado a última parcela da dívida que o pai tinha com ele, coronel Onofre, nunca mais haviam trocado palavra pacífica. Não tinha entendido de início, vindo a perceber tudo recentemente quando vira a mudança da cerca e o estragon no seu cafezal. Pedia a José Silvério para apresentar as cópias do cartório onde tudo estava registrado.
O advogado pegou as citadas cópias e levou até as mãos do juiz. Houve alguns minutos de demora enquanto os documentos eram examinados, lidos, registrados nos autos e anexados ao processo. Doutor Estevão pediu vistas dos documentos e foi nitida sua mudança de atitude. Parecia ter recebido uma ducha de água gelada. Ali estava claramente demonstrada a culpabilidade do seu cliente. Ele subornara o agrimensor que poderia ser inclusive responsabilizado criminalmente pela fraude. Isso era outro assunto, mas o seu cliente estaria inapelavelmente complicado. Ainda mais depois das confissões dos bandidos que cometeram o atentado à seu mando. Teria trabalho em livrar a cara dele de ser peso imediatamente e processado por ser o mandante de uma tentative de homicídio. Via dificuldades pela frente.
– Senhores advogados, querem por acaso seus clientes pensar um momento para saber se não convém fazerem um acordo e encerrar a ação?
– Meu cliente não quer ouvir falar de acordo, – falou doutor Estevão. Estava furioso com Jerônimo, mas nada havia a fazer.
– Meu cliente aceitaria um acordo mediante o retorno da cerca à posição correta e uma indenização menor pelos prejuizos. Poderiamos até pensar na retirada da queixa pelo atentado de que o coronel Onofre foi vítima recentemente. – falou José Silvério.
Ouvindo isso Estevão sentiu renascer as esperanças, mas o cliente estava irredutível, fazendo gestos negativos. Confiava em seus homens e iria dali para sua casa. O coronel lhe pagaria cara essa derrota. Não encontrando respaldo para suas argumentações em favor de um acordo, não restou alternativa ao doutor Estevão e aceitou a situação.
Depois de ter ouvido todos os testemunhos, visto as provas documentais apresentadas pelas partes, diante da negativa da parte acusada de fazer um acordo, o juiz demorou alguns momentos confabulando com o assistente. Determinou ao escrivão a redação da sentença, o que foi feito rapidamente. A máquina de datilografia matraqueava violentamente, enquanto as palavras ditadas em voz baixa pelo magistrado iam sendo registradas no papel. Terminada a redação, feita em três vias, sendo a primeira para ficar anexa ao processo e as outras duas seriam entregues aos querelantes. Assinadas as vias o juiz determinou ao seu assistente a leitura da sentença que dizia, depois de uma introdução identificando os envolvidos, resumindo a queixa:
– Diante de tudo isso, eu, Dr. Osmar Dias Ferreira, Juiz desta comarca condeno o Sr. Jerônimo da Luz a pagar, a título de indenização por danos causados à propriedade de Onofre Pires, a quantia de Cem mil Cruzeiros. Igualmente deverá, às suas custas exclusivas, contratar um agrimensor credenciado para fazer o levantamento dos limites das duas propriedades. Em se constatando o deslocamento dos limites de seu local original, deverá recolocar a cerca na posição devida, deixando um metro de espaço entre a mesma e a divisa. Outrossim, as custas judiciais deverão ser custeadas pelo Sr. Jerônimo. Ambas as partes tem o direito de recorrer desta sentença no prazo máximo estipulado em lei. A sessão está encerrada.
            Quando chegaram a um local afastado convenientemente do gabinete judicial, sentaram-se para conversar. O Cel. Onofre não cabia em si de contentamento. Disse entusiasmado:
            – Quero ver o Jerônimo recorrer. Ele que se meta a besta. A única coisa que vai conseguir é aumentar o tamanho da despesa. O advogado dele deveria aconselhar a ele de não entrar com o recurso.
            – Acho que ele está sujeito a sair do forum direto para a cadeia. Depois de tudo que fez, não duvido um muito. Teremos que esperar para ver o que eles irão fazer. Só podemos tomar qualquer iniciativa depois que eles derem o primeiro passo. Por ora nosso objetivo foi alcançado, – disse o Dr. José Silvério.
 

 

Mineiro sovina! – Capítulo XI

Estrada na Serra do Cipó.

 

Vista Canion do Travessão.

 

Vista do Canion, com águas transparentes no fundo.
Se esconder, melhor solução.
 
Jerônimo chegou à sua fazenda. Mal apontou no patio da casa grande e alguns peões apareceram para saber o que houvera. O patrão saira sem dizer nada, nem chamar ninguém para o acompanhars e estavam apreensivos com o que poderia ter acontecido. Não deu explicações, apenas mandou todos dormirem e ficarem atentos para qualquer coisa diferente que ouvissem ou vissem. Nenhuma ação por conta própria. Deveriam aguardar ordens suas para tomarem qualquer atitude. Pouco importava o que houvesse.
Entrou em casa, sentou-se e tomou um bom copo de cachaça de sua garrafa especial guardada num canto do armário. O whisky era bom, mas perdia longe para nossa cachaça de alambique, destilada ali nas fazendas de modo artisanal e envelhecida nos barris. Havia os de sassafras e várias outras madeiras que davam uma cor especial, sem falar no sabor. O ardido da cachaça nova sumia ficando o gosto da cana, junto com um gostinho desprendido da madeira. Enquanto bebericou sua bebida pensou longamente no próximo passo a ser dado.
Sabia que os dois sacanas haviam dado o serviço completo e era quase certo que, logo cedo, nas primeiras horas da manhã teria diante da porta um par de viaturas da polícia. Viriam para prendê-lo como mandante do atentado ao vizinho ou ao menos convidá-lo a prestar depoimento. Analisou as diversas possibilidades que tinha de se safar da acusação e todas as hipóteses que a mente lhe apresentava, recaiam no mesmo lugar. As palavras dos jagunços seriam igual a duas flechas apontadas para ele. Poderia apenas negar, mas poderia haver alguém que o tivesse visto na cidade naquela noite. Nunca se sabe quem pode estar de espreita ou mesmo por acaso.
Vai que alguém o tinha visto e por puro acaso fica sabendo da encrenca. Vai lá, solta o verbo no ouvido de um policial, ou então do próprio delegado e está feita a porcaria. Depois de muito pensar, lembrou que tinha na gaveta um cartão do advogado onde estava escrito o número do telefone do escritório. Procurou e logo o encontrou. Guardou na carteira, colocou algumas peças de roupa numa sacola. Um par de sapatos, botas, um chinelo e algumas coisinhas de uso foram reunidos também. Pegou no cofre um maço de dinheiro que sempre guardava ali para as emergências, colocou em dois ou três lugares por medida de precaução. Passou na cozinha, comeu um pedaço de carde defumada, duas fatias de pão com queijo e melado, depois voltou para o carro e deu partida.
O capataz em instantes estava ao seu lado e pediu suas orientações. Adivinhava que o patrão estava em apuros e queria saber que providências deveriam ser tomadas em sua ausência. Em poucas palavras deu suas ordens, dizendo apenas que precisava se ausentar por alguns dias e não era da conta de ninguém onde estaria. Nenhuma alteração da rotina de trabalho deveria ser feita. Fizessem de conta de que ele saíra e voltaria dali a pouco. Na hora certa estaria de volta para cuidar de tudo.
– Suas ordens serão cumpridas, patrão. Vá com Deus. Qui Nos’siñora le proteja.
– Cuide de tudo aí e fique de olho aberto. Não dê bobeira.
– Pod’xa, patrão.
O carro fez um giro rápido e saiu levantando poeira pela estrada. Pegou o caminho oposto ao de Sete Lagoas e seguiu na direção das montanhas da Serra do Cipó. Tinha lá, cerca de 40 minutos de viagem, um antigo companheiro de seus tempos de rapazola. Era um pouco mais velho, mas gostava de uma arruaça. Quando cansou dessa vida, foi viver numa cabana na encosta da serra, bem retirado de toda povoaçao. Ele certamente não lhe negaria um canto por alguns dias. Poderiam caçar, pescar e comer um pouco de mantimentos que lembrara de colocar no bando de três do jipe. Percorreu a distância, em tempo menor do que normal, tão preocupado estava. Quando viu estava na picada de acesso à cabana e enveredou por ela.
Riacho cristalino na Serra do Cipó.
Rochas imponentes na Serra do Cipó.

 

Vista panorâmica, tendo ao fundo uma cachoeira na Serra do Cipó. 

 

 
 
 
Após percorrer cerca de cem metros, lembrou de voltar a pé e apagar os sinais de sua passagem por ali. Não tinha intenção de que o encontrassem. Antes de sair ligara para o doutor Estevão avisando de que iria ficar fora de circulação até a noite anterior à audiência na ação da divisa e indenização. Iria fazer contato dentro de uns dias para saber como andava o caso. O advogado quis saber onde poderia encontrá-lo em caso de necessidade. Ele falou que, quanto menos gente soubesse onde estava, melhor. Deixasse por conta dele que se garantia. Pegou de dentro de uma caixa de ferramentas uma lantern e voltou. Observou que havia sinais dos pneus na terra mais fofa no começo da trilha. Pegou um galho e com ele, assim como com os pés, apagou o melhor que pode as marcas.
Levou o galho consido e foi apagando os sinas de sua passagem até chegar no veícuo. Dificilmente alguém viria tão longe para buscar sinais da passagem de alguém. Embarcou e seguiu até a cabana. Lá chegando, o companheiro de outros tempos já estava à porta, tentando ver quem estava chegando àquela hora pertubar seu sossego. A luz de uma lanterna brilhou na escuridão, iluminando Jerônimo por alguns instantes. Quando o reconheceu, o homem se aproximou curiosos.
– Mas que mar le pergunte, cumpanheiro! Qui é que li trais aqui numa hora dessa? Coisa boa não deve di sê!
Desembarcou, estendeu a mão ao amigo e falou:
– Amigo Gonçalo! Estou precisado de uns dia de discanso e lembrei de vosmecê. Desculpe o adiantado da hora, pois tive muito trabalho na fazenda e resolve de ultima hora vir até aqui.
– Sun’ce num tá mi iscondeno nada, não é Jerome?
– Fica tranquilo, Gonçalo. Tenho la minhas pendengas, mas nada demais. Vim só descansá mesmo.
– Vo aquentá uma água, mode coá um cadim de café pra nois tomá inquanto tiramo dois dedo de prosa.
– Eu vou tirar minhas coisas e colcar aí dentro para proteger do sereno.
– Si quisé colocá o jipe ali intráis daquela pedra, ele fica fora dais vista.
– Uma boa ideia. Se algum curioso aparecer não precisa ficar sabendo que estou aqui. Melhor assim.
Descarregou suas coisas. Depois levou o jipe para o lugar indicado e colocou-o bem escondido. Só quem chegasse perto mesmo o veria.
O café foi coado e servido em canecas esmaltadas, já descascadas em vários pontos. Mesmo assim, feito da forma mais rustica e do melhor grão, torrado e moido a mão, dava um sabor inigualavel. O açucar mascavo ajudava a realçar o gosto característico. Tomaram o café e falaram do tempo, das caçadas de agora, estrepolias dos tempos antigos. O amigo Gonçalo não ficara convencido da conversa de Jerônimo e tentou em vários momentos extrair alguma informação a mais do visitante. Este, porém, sempre desviava do assunto, não dando a entender o real motivo que o levara ali.
Por fim decidiram ir dormir. Jerônimo que ficasse com seu segredo. Eram amigos de velha data e aos amigos era necessário estender a mão em qualquer circunstância. Também, quanto menos soubesse do assunto, melhor para ele. Não tinha precisão de se envolver com confusão de graça. Estava ali, distante, justamente para viver sem problemas, que tinha ele que caçar chifre em cabeça de cavalo? Devia muitos favores e poderia precisar de outros no futuro ao amigo. Era hora de pagar uma parte da conta, sem fazer perguntas demais. Dormiram e de madrugada uma forte tempestade desabou sobre aquela região.
Ao levantar e ver o resultado da noite, Jerônimo ficou intimamente satisfeito. A forte chuva deveria ter apagado os últimos vestígios de sua passagem pela picada. Poderia ficar em paz até o dia que decidisse voltar. Não poderia esquecer que a audiência estava marcada para a segunda-feira da semana seguinte. Portanto, teria uma semana e dois dias para ficar ali. Teriam tempo de relembrar todas as aventuras compartilhadas há tantos anos, quando se juntara a Gonçalo e mais dois amigos, já falecidos. Tinham tombado em um entrevero havido numa cidadezinha mais ao norte. Alias fora depois daquele acontecido que Gonçalo decidira deixar essa vida de aventuras e arruaças. Encontrou aquele recanto no meio da mata, na encosta da serra e ali vivia há longos anos.
Raramente saia para comprar alguns mantimentos, pólvora, chumbo, espoleta para a espingarda de caça, um par de botinas, umas calças de brim. Algumas camisas, um casaquinho ou dois e pronto. Tinha lá suas rendas que não contava a ninguém de onde vinham. Ninguém tinha por que saber que ele encontrara um pequeno veio de diamantes numa grota e dali levava um punhado de pedras, vendia pra um lapidador e logo sumia de vista. Seu retorno era bem planejado, chegando a percorrer léguas de trilhas, dando voltas, subindo e descendo, até chegar a sua morada.
Bastava alguém saber de seu segredo e não tardava chegaria um bando de gente em busca de pedras. Estragariam o seu recanto. Depois que ele se fosse, não se importava com o que aconteceria. Enquanto tinha precisão de ter seu canto, nao queria saber de zoeira por perto. Andava com a pulga coçando a orelha com essa vinda for a de hora de Jerônimo e só ficou quieto para não bulir com vespeiro. Desconfiava até da prória sombra, quanto mais de um amigo, cujo gênio esquentado conhecia de sobra.
Os dias passaram. Caçaram nhambus, jacutingas, tatus, um cateto. Pescaram belos peixes nas águas límpidas de um pequeno riacho que havia por perto, formado por várias nascentes que desciam das encostas e se uniam perto do sopé, formando pequenos lagos e depois continuando seu curso. Em cada um havia belos exemplares de peixes, um mais saboroso que o outro. Comeram carne de todo tipo. Assada, frita, cozida com abóbora e outros legumes que Gonçalo cultivava para o consume. Tinham feijão, a gordura era tirade das caças abatidas. Não faltava nada e a vida correu suave naquela semana.

 

Orquídea nas rochas. 

 

 

 

 

Orquídeas na Serra do Cipó.
No domingo seguinte, Gonçalo já estava pensando que a estadia do amigo iria se prolonger, quando o viu aprontando suas coisas e perguntou:
– Suncê vai imbora?
– Sim, amigo. Tenho que estar em Sete Lagoas amanhã ao meio dia. Vou falar com o Juiz, numa audiência.
– Tá certo. Eu bem que tava desconfiado de que arguma coisa num tava nos conforme.
– Eu não quis lhe contar, amigo, para não se preocupar. Hoje, no comecinho da noite, vou voltar para a fazenda e ninguém fica sabendo onde estive. Nunca vão vir aqui lhe fazer perguntas ou coisa assim.
– Eu num sei di nada, num vi nada, nem ouvi. Sô surdo, cego e mudo.
– Esse é o meu velho companheiro de farra. Vou lhe trazer um belo presente, depois que passar essa fase de minha vida. Vai ver só. Pode sentar e esperar. Talvez demore um pouco, mas na hora certa vou trazer.
– Vô faze di conta qui num ouvi.
Passaram o resto do dia conversando sobre diversos assuntos e Gonçalo não fez mais nenhuma pergunta. O amigo não queria falar e não seria ele que o perturbaria com perguntas for a de hora.
No princípio da noite, o jipe foi retirado do esconderijo, conferido se estava funcionando direito e as coisas de Jerônimo foram colocadas na parte de trás do assento. Gonçalo lhe dera um belo couro de anta que caçara tempos atrás, tirara o couro e secara. Estava bem curtido, pronto para servir de tapete em sua casa. Despediu-se do amigo, prometendo voltar quando desse e partiu. Seguiu cuidadosamente pela estrada, atento a tudo que pudesse representar algum perigo. Deu uma grande volta, de modo a chegar como se estivesse vindo de outro lado. Alguém que estivesse de espreita, nunca saberia de onde ele estava vindo. Não viu nada que chamasse sua atenção e entrou no patio de sua propriedade.
Tão logo estacionou o capataz estava ao seu lado em atitude de espera. Foi logo perguntando:
– Como tão as coisas por aqui? Tudo em paz ou houve muito fordunço?
– Sabado di manhã cedim, chego aqui dois carro de polícia. Tinha uns oito, cheio das armas, revolver, pistola e fuzir. Vinham pra mode prender o patrão. O juiz tinha mandado le buscar para interrogatório. Tinham inté um tar de mandad’e prisão contra o sinhor.
– Bem que eu imaginei que ia ser isso e me mandei na hora certa. Mas voltaram depois, fizeram muitas pergutas?
– Mandaro chamá todos peão, empregada, as muié dos peão. Fizerom monte di pregunta, mais ninguém sabia di nada. Qui é que ia responde?
– Por isso eu não dei explicações. Ninguém pode dizer o que não sabe. Eu por minha vez passei uma semana caçando e pescando. Apenas não pergunte onde, que não conto. Segredo e daqueles que si leva pro túmulo.
– Faço questão de saber nao, patrão.
– Amanhã vamos para a audiência. Prepara os peão que vão servir de testemunhas para sair logo de manhã. Vamos até a casa do advogado e de lá pro forum. Não vamo dá sopa por lá não. Quando terminar a audiência, si mandamo de volta, cada um por um caminho diferente. Quero ver eles segui todo mundo!
– Vo ordená agora memo que todos se prepare para manhã cedo. Não quero corre atrais di ninguém atrasado na hora de saí.
– Nem pensar. Quem se atrasar está despedido. Pode caçar trabaio em outro lugar.
– Boa noite, patrão. Percisa de ajuda?
– Leva lá pra dentro essas coisas ai de trás do assento. Aproveita e leva mais uns três pra fazer segurança. Não podemos saber o que vai acontecer.
– Os home andiron percorrendo tudo essas istrada por aí. Vimo as viatura umas par de veis passano na istrada. Vieron mais duas veis aqui no patio ver si o patrão tinha vortado. Cada veis era uma turma deferente de dantes.
– Eles não são facil não. Nem desistem sem mais nem menos. Esse delegado que tem aí agora é osso duro de roer. Parece ter parte c’o capeta.   
O capataz e um outro peão, pegaram as coisas do patrão e levaram para dentro de casa, deixando onde ele pudesse guardar cada um em seu lugar. Não se atreveriam a mexer e guardar. Sequer sabiam se ele ficaria em casa depois da audiência. Bem capaz de ser obrigado a se seconder outra vez para não ser preso. Agora todos sabiam do envolvimento de Jerônimo no atentado ao coronel Onofre. Ninguém no entanto ousaria dizer palavra. Em boca fechada não entra mosca, diz o ditado.
A empregada estava na cozinha e preparou uma refeição ao gosto de Jerônimo. Por ordem do mesmo, não precisava se esmerar demais. Queria comer logo e depois deitar para dormir. Os dias na cabana, por mais agradáveis que tivessem sido, haviam deixado marcas em suas costas. A cama de tarimba, pouco confortável, só o deixava dormir depois de muito virar de um lado para outro. Estava com saudades de sua cama macia e confortável.
Jantou e depois deu ordem para ser chamado cedo. Queria estar pronto e a caminho, antes que alguém tivesse tempo de perceber sua presença na redondeza. Daria tempo de chegar à cidade e ficar mocado no escritório ou na casa de Estevão.
Enquanto o mandante do atentado ficava escondido, os autores foram interrogados seguidas vezes sobre possíveis esconderijos do comparsa. Não tinham a mais vaga idéia, mas para se livrar das longas sessões de perguntas, sentados em posição desconfortável, com uma forte lâmpada brilhando diante dos olhos, inventavam possíveis esconderijos. A polícia passou a semana inteira procurando, gastando tanques e mais tanques de combustível na busca. Todos os lugares indicados pelos dois foram encontrados e se mostraram falsos. Ao serem confrontados com essa verdade, diziam que eles não haviam afirmado que ele estaria lá. Poderia estar, mas não tinham nenhuma certeza disso. Por fim o delegado desistiu. Havia notado que eles o estavam fazendo de trouxa. Não seria brinquedo dessa gente por mais nem uma hora. Mandou suspender as buscas por enquanto. O advogado havia garantido que, na segunda feira, o cliente estaria presente na audiência.
Tudo estava preparado para efetuarem a prisão no momento em que a audiência terminasse. O próprio juiz sabia do esquema de prisão, uma vez que for a ele que indeferira o habeas corpus dos dois presos e expedira o mandado de prisão contra o mandante. A hora do malfeitor chegaria no momento oportuno.
Na segunda bem cedo, quem esteve na estrada para Sete Lagoas, pode perceber um comboio de vários jipes e caminhonetes lotados de homens da fazenda de Jerônimo. Pareciam ir para alguma festa ou comemoração. Estavam vestidos, não para o trabalho, mas sim para uma visita à cidade.
Um pouco mais tarde foi a vez de um novo comboio, um pouco menor, mas também cheio de homens da fazenda do coronel Onofre. Este seguia com a filha e a esposa, em seu carro de passeio. A filha havia obtdido algum tempo antes sua habilitação de motorista e dirigia, uma vez que o pai estava com a perna ainda enfaixada devido ao ferimento sofrido. Chegaram à porta do escritório da Advogados Associados de Sete Lagoas. Os que serviriam de testemunhas entraram na sala de espera junto com o coronel e a família. Os demais ficaram sentados nos carros ou na calaçada em frente. Estavam sempre atentos a qualquer movimento suspeito.
Às onze horas o grupo inteiro foi para um restaurante para almoçare, ocupando várias mesas. Era preciso almoçar antes, pois a audiência estava marcada para as 13 h 15 min. O juiz não detestava atrasos. Um descuido poderia por todo um trabalho primoroso a perder. Faziam questão de chegar na hora estipulada. Preferível era esperar alguns minutos que chegar um sequer depois da hora. Terminado o almoço, todos sairam para os veículos, retornaram ao escritório. Quando deu 12 h 45min. embarcaram nos veículos e seguiram para o forum. Na frente ia o automóvel de José Silvério. Os ganhos no escritório haviam permitido adquirir um 0 km, financiado em 24 meses.
Pontualmente às 13 h estavam todos os envolvidos, na sala de espera. Os demais empregados ficaram nos carros, sem deixarem de prestart atenção em qualquer movimento suspeito. Traziam armas, mas não estavam à vista, para não levantar suspeitas ou acusação de porte ilegal.

Menos de cinco minutos depois chegou o comboio trazendo por sua vez Jerônimo e seu séquito. O Dr. Estevão, havia vindo um pouco na frente, mas entraram juntos. Estavam ali os dois grupos de empregados, separados por coisa de 20 m. Alguns agentes de polícia haviam sido destacados com esse intúito. Manter a ordem ali no forum, uma vez que facilmente alguma provocação causaria um tumult e não se saberia em que iria terminar.

Mineiro sovina! – Capítulo X

 

Atentado contra cliente.
A indiferença com que fora tratado por Onofre diante de uma porção de testemunhas, à porta da agência de Banco do Brasil, deixou Jerônimo deveras injuriado. Esperara uma reação violenta, palavras ásperas, que lhe ensejassem eventualmente motive para chamar em seu socorro os capangas espalhados nas redondezas. Um Onofre, aparentemente inofensivo, frustrara seu propósito. Voltou para casa remoendo a humilhação, planejando vingança. Não queria engolir esse angú com farinha. Quando estava próximo de casa, um dos capangas sugeriu que fizessem uma tocaia ao vizinho. Nem que fosse apenas para dar-lhe um susto, deixar as marcas de balas em seu couro.
Jerônimo não respondeu de imediato. Não convinha envolver os seus empregados numa ação dessa natureza. Mesmo os mais novos contratados haviam sido vistos com ele. Se fossem pegos, acabariam denunciando o mandante e não tinha necesidade alguma de responder a outro processo. Um só já era suficiente. Mas a ideia de dar um susto no coronelote lhe agradou. Lembrou de uma dupla de “justiceiros” residente na vila próxima. Pouco depois de haver chegado no meio da tarde, chamou dois outros empregados e ordenou que o acompanhassem. Os que havia levado para a cidade estavam ausentes, cuidando de outros afazeres. Embarcou em sua caminhonete, tendo os cois ao seu lado, foi até a residência da dupla.
Encontrou os dois numa birosca da esquina, tomando uma cachacinha. Ordenou aos que o acompanhavam permanecerem na caminhonete, até receberem alguma ordem. Sentou-se numa mesa do canto, pediu uma garrafa de caninha da boa, pondo-se a bebericar um “martelinho”. Num momento fez um sinal discrete a um dos dois que for a procurar e sem demor eles se aproximaram. Convidou-os a sentar e ofereceu um trago. O dono do estabelecimento trouxe os copos e os encheu. Depois deixou-os sozinhos, pois tinham assunto sério a tratar.
Sem muitos rodeios falou o que desejava que fizessem. Forneceu os detalhes da vítima, seus hábitos, lugares onde costumava ir. Costumeiramene andava desacompanhado o que deveria tornar o trabalho mais fácil de ser executado. Diante do exposto, o trabalho foi considerado fácil e o preço acertado. Jerônimo fez o pagamento de metade adiantado. A outra metade pagaria com o serviço concluido. A finalidade era apenas dar um susto no coronel. Poderiam lhe dar um tiro, mas não letal. De preferência que lhe quebrasse uma perna, talvez o joelho. Uma boa surra também, mas havia o risco de eles serem reconhecidos e assim complicassem o caso. Melhor mesmo um tiro, aparentemente casual, preferencialmente sem se deixare ver.
Se quisessem disparar bastantes vezes para dar a impressão de um grande tiroteio, poderiam ficar à vontade. Habitualmente o coronel saia todas as sextas feiras para levar a mulher e a filha no comércio da cidade fazer as compras necessárias. Sugeriu que fizessem o serviço nessa ocasião.
– Pode ficar sossegado chefe. Vamos dar um susto no seu “amigo” de que ele não vai esquecer tão cedo.
– Espero o resultado.
Levantou, pagou a cachaça, deixando os dois com o que sobrara. A garrafa ia pela metade, permitindo prever que em pouco tempo não sobraria nada. Foi até a porta e chamou os dois empregados. Poderiam tomar um trago, antes de voltar para casa. Deixá-los ali, sem terem direito a um trago sequer, os faria ficarem frustrados. Precisaria de todos os homens ao seu lado, sem insatisfação alguma. Depois de tomarem uma segunda dose, a noite começara a cair, eles embarcaram no veículo empreendendo a viagem de retorno. Apesar da curiosidade, os dois não indagaram o que o patrão viera fazer. Quanto menos soubessem, melhor seria, em caso de alguma coisa em andamento sair errada. Levavam a sério o ditado “o que o ouvido não ouve, a boca não fala”.
Estavam na terça feira e, a partir dessa data, Jerônimo ficou torcendo para chegar sexta-feira. Disfarçou como pode sua ansiedade para não permitir a ninguém desconfiar de suas inenções. O mesmo capanga que sugerira, tornou a perguntar e els lhe falou:
– E vosmece pensa que vou arrumar encrenca, logo agora que está chegando o dia da audiência, sobre a questão da divisa? Deixa passar que depois damo um susto no velho.
– Pode contar c’a gente, para o que for preciso.
– É bom saber, Chico.
Nessa expectativa os dias passaram. Os “justiceiros” contratados vistoriaram a fazenda de Onofre, chegaram até próximo da casa, escondidos no meio do cafezal, observaram atentamente, imaginando um modo de fazer o serviço encomendado. Ali nas proximidades da casa seria perigoso, pois teriam que percorrer boa distância até a estrada. Observaram que o coronel saia para percorrer sua propriedade, mas sempre acompanhado de pelo menos três dos empregados. Isso não estava de acordo com a informação do contratante. Teriam que buscar um meio de chegar perto, durante a ida a cidade na sexta-feira.
Pontualmente às 8h30min do dia marcado, o veículo de Onofre saiu pela alameda de acesso, precedido por um jipe com três empregados e mais outro fechava o cortejo. Tudo estava ficando mais complicado do que o previsto. Pelo visto alguém alertara a pretensa vítima, fazendo-a tomar precauções com que não contavam. Mesmo assim seguiram de longe em uma caminhonete, suficientemente possante para permitir uma evasão rápida em caso de necessidade. Carregavam carabinas caliber 38, podendo assim atirar de maior distância. O pequeno comboio parou diante de um supermercado. Dois dos empregados acompanharam a família ao interior e os outros ficaram esperando ao lado dos jipes. Seus olhos estavam sempre atentos aos arredores e à porta do estabelecimento.
Os dois ficaram frustrados. Não seria ali que poderiam realizar o serviço. Precisariam encontrar um lugar mais propício. Uma tentativa de cumprir o contrato ali, no estacionamento do supermercado, poriam em risco outras pessoas e não tencionavam atingir mais ninguém. Apenas o coronel era seu alvo. Se ao menos o contratante tivesse falado que poderiam atingir qualquer membro da família, seria mais fácil. Mas fora taxativo nesse particular.
Após uma hora no interior do mercado, a família saiu, um funcionário levou as compras até a caminhonete do coronel. Este deu uma pequena gorjeta ao rapaz e embarcou. Dali foram até o centro, parando diante de uma loja de roupas. Provavelmente tinham intenção de adquirir alguma roupa para as damas. Novamente tudo se repetiu. Houve apenas um momento em que teriam podido atingir o alvo, mas estavam em movimento e perderam a oportunidade.
Perto da hora do almoço o grupo iniciou o caminho de volta. Eles decidiram se adiantar até uma curva que tinha ao lado um penhasco bem elevado. Dali tentariam usar suas carabinas para cumprir o combinado. Chegaram, esconderam a caminhonete em local suficientemente distante e seguiram até o local. Tinham que ser rápidos pois logo o grupo estaria passando por ali. Chegaram, escolheram um bom lugar para se ocultar, que oferecesse boa visibilidade da estrada. Dariam alguns tiros, tendo a preocupação de atingir o coronel e mais ninguém. Isso feito, retornariam depressa ao local do veículo e empreenderiam fuga. Havia uma estrada secundária que permitia chegar à vila dando uma boa volta. Isso os tiraria da cena do ataque.
Não tardou e os veículos apontaram ao longe. Pouco antes da curva escolhida, uma pequena reta permitia escolher o momento certo de atirar. Depois de atingir o alvo, os demais tiros poderiam atingir as rodas, o radiador e mesmo o chão. Não importava onde pegassem, queriam fazer bastante barulho. Quando tiveram o alvo na mira, atiraram e repetiram a operação diversas vezes. Assim como havia começado o tiroteio cessou e os dois sairam rapidamente do local.
Na estrada, o coronel havia sido atingido na coxa direita, pois vinha sentado ao volante. O projétil atravessou o parabrisas estilhaçando-o e ferindo o coronel. Os demais projéteis atingiram os pneus, o radiador, o capô e um vidro traseiro. Mesmo ferido Onofre conseguiu parar o veículo. Vinha reduzindo a velocidade devido à proximidade da curva, o que facilitou a parade, evitando uma possível colisão ou a saída da estrada. Os empregados saltaram e se protegeram atrás dos veículos, pondo-se a revidar, mas os atacantes já haviam ido embora. Verificaram o estado dos veículos, constatando que apenas um dos jipes tivera o radiador perfurado, vazando o líquido refrigerador.
Um dos empregados assumiu o volante do carro do coronel e este foi levado rapidamente ao hospital na cidade, depois de davem meia volta. Enquanto ocorria o atendimento do ferido, o chefe dos empregados foi até a delegacia de polícia. Não tardou e uma equipe de agentes se fez presente, tomando os depoimentos prévios. Depois o grupo todo foi até a delegacia formalizar a queixa. O delegado determinou que uma equipe de policiais seguisse até o local do ataque, onde o jipe danificado ficara aos cuidados de dois dos empregados. Dois empregados iam com eles, enquanto os outros dois levaram a familia para um hotel. O veículo precisava ter o parabrisas substituido, o que demoraria algum tempo. O ferido descansaria até o momento em que pudesse retornar para casa.  
Não existia em princípio nenhuma pista, apenas o fato de os tiros terem partido do alto do penhasco. Os policiais subiram por um trilho existente e encontraram as cápsulas dos tiros, jogadas no local. Os agressores não haviam tomado a precaução de coletar esses vestígios, que serviriam de provas em eventuais perícias de armas encontradas. Encontraram os sinais por onde o(s) agressor(es) havia(m) fugido e seguiram até o lugar em que o carro ficara. Uma marca de pneus patinando no chão seco mostrava a pressa com que haviam saído dali. Um deles portava uma camera fotográfica e tirou umas fotos dos rastos deixados na beira da estrada. O tipo de pneu serviria para incriminar quem praticara o atentado.
Depois de coletar todas as informações, suspeitas e indícios os policiais retornaram para a delegacia. Os empregados usaram o segundo jipe para rebocar o outro até a cidade. Precisavam trocar o radiador, pois o outro ficaram bastante avariado. Quando o sol estava perto do horizonte, o grupo ainda receoso, iniciou o retorno para casa. Por precaução um carro da polícia os precedeu até ao patio da fazenda. Chegaram sem novidade e a equipe de policiais retornou à cidade. Tinham em mãos um caso típico de uma ação de vingança ou execução. Os dados para elucidar o crime eram vagos. O indicio mais forte, era a desconfiança em relação ao vizinho. Mas isso não permitia nenhuma conclusão. Antes de retornar, o mais antigo dos agentes sugeriu que passassem pela fazenda do vizinho. Certamente ele não estaria esperando uma visita a essa hora.
Foram até lá e ao chegarem encontraram uma caminhonete parada diante da casa principal da propriedade. O policial das fotografias passou perto do veículo estacionado e teve a curiosidade de focalizar sua lantern nos pneus. Sua surpresa foi grande ao ver a forma dos pneus. Conferia com a marca vista na estrada. Chamou o chefe e lhe mostrou sua observação. Olharam detidamente e depois chegaram perto da casa. Nesse momento dois homens saiam e se encaminhavam para a caminhonete. O policial teve um lamapejo e falou:
– Voces dois podem me responder uma pergunta?
– Sim senhor! – falou o mais alto.
– Onde vocês estavam hoje por volta do meio dia?
– Nós estávamos em casa, na Vila Santa Rita. Por quê?
– Por acaso não estavam na estrada, naquela curva perto de Sete Lagoas, onde tem um penhasco?
– Nem sei onde fica essa curva, doutor.
– A gente nunca vai a Sete Lagoas. Trabalhamos na vila mesmo.
– Me mostre os documentos pessoais e do carro.
– Mas que é isso agora?
– Se não tem o que temer, por que não pode mostrar?
– Isso é abuso. Nós não fizemos nada.
– Apenas uma verificação de rotina, amigo.
Os outros agentes ficaram estratégicamente posicionados. Jerônimo chegara à varanda e observava a cena. Quando viu os homens apresentarem os documentos, gelou. Se os policiais ligassem os dois ao atentado, estaria perdido. Pensou em algo a fazer e optou por retroceder para o interior da casa. Aparentemente não havia sido visto. Ficaria espiando pela fresta da janela para ver o que aconteceria. Os documentos foram observados, anotados os nomes e número dos mesmos. Foi quando chegou o momento de examinar os documentos do veículo que ficou evidente que se tratava dos agressores. O documento constava em nome de um conhecido infrator, frequentemente envolvido em atos de desordem e violência.
– Por quê estão com esse carro? Trabalham para o dono?
– Nós pegamos emprestado.
– Muito conveniente isso. Esse nome é bem conhecido nosso. Estamos invetigando um crime e esse carro tem o mesmo tipo de pneu das marcas encontradas perto do lugar. Para piorar estão no patio de uma pessoa suspeita.  
– Não temo nada a ver com essa encrenca. Viemos tratar de um serviço com o dono da fazenda.
– E que serviço é esse? Não seria fazer uma tocaia ao Coronel Onofre?
Ao ouvir isso um deles olhou significativamente para o outro. Vendo o olhar, o agente deu voz de prisão aos dois e ordenou aos auxiliares que os algemassem. Foram colocados no banco traseiro do veículo sob a guarda dos dois policiais. O agente que comandava foi até a varanda, chamando:
– Ó de casa!
Jerônimo chegou à porta e perguntou:
– O que se passa? O senhor é de onde?
Mostrando a sua credencial, falou:
– Sou o detective Arthur da Silva e estou procurando suspeitos de um atentado contra o coronel Onofre, seu vizinho. Esses dois homens que sairam agora mesmo de sua casa estão sendo levados à delegacia para interrogatório. O senhor tem alguma coisa a ver com o caso?
– Mas de onde lhe vem essa idéia, policial?
– Eu apenas estou perguntando. O carro que os dois estão usando é de um bandido conhecido, tem pneus iguais às marcas deixadas na estrada perto do lugar do atentado e demonstraram sinais de medo quando os questionei agora pouco.
– Eles vieram aqui em busca de trabalho e eu não estou precisando.
– Fique de sobre-aviso, senhor Jerônimo. O senhor é suspeito de ser o mandante do atentado. Dependendo do resultado das investigações, vamos lhe chamar e é bom não se ausentar nas próximas semanas.
– Essa agora! Tenho minhas pinimbas com o vizinho, mas não sou bandido. Tenho nada com isso.
– Vamos averiguar. Se não tiver nada a ver mesmo, nada tem a temer. Boa noite, senhor Jerônimo.
Desceu da varanda e foi até o carro, ordenando a partida. Um dos policiais dirigiu a caminhonete que estava em mãos dos detidos. Foram direto para a delegacia, sem se demorarem. Levavam a suspeita de que o fazendeiro faria alguma coisa para resgatar os dois. O comandante do grupo estava convicto da culpabilidade dos dois. Todavia chegaram à delegacia sem problemas. Mal sabiam que pouco atrás havia chegado o carro de Jerônimo, que se dirigiu direto à casa do advogado. Expôs rapidamente o caso, omitindo a questão de seu envolviemnto. Pediu que fosse impetrado um habeas corpus o mais rápido possível. Ficou sabendo que dificilmente esse mandado seria conseguido antes do almoço de sábado. O juiz de plantão para atender essas emergências era o mesmo encarregado da ação de Onofre contra Jerônimo. Era capaz de associar uma coisa e outra e a situação se complicaria.
– Eu falei ao senhor! Não tome nenhuma attitude precipitada! Mas parece que quer saber mais do que eu.
– Não tenho nada a ver com isso. São meus conhecidos e vim para ajudar. Eles são inocentes.
– Tem certeza disso?
– Não posso jurar, mas eles estavam lá em casa pedindo trabalho e nisso os policiais chegaram. Cismaram com eles e os trouxeram para a delegacia.
– Se não tem o que temer, mais tardar amanhã meio dia estão na rua. Se tiverem a ver com o atentado, o caldo entorna seu Jerônimo.
– Providencia logo esse mandado. Eu pago o que precisarr. Peça para o delegado estabelecer a fiança!
– Vou tentar, mas não garanto nada. Acho bom o senhor ficar aqui, bem quieto e esperar minha volta. Nem pense em aparecer na delegacia, pois isso irá implicá-lo no caso.
– Não perca tempo doutor. Eles precisam sair daquela delegacia o quanto antes.
O advogado percebeu que o cliente estava envolvido até o pescoço na questão. Do contrário não estaria tão nervosa. Como isso iria lhe render bons honorários, foi fazer o que precisava. Antes ligou para o juiz para saber se poderia ser atendido antes do amanhecer e ficou sabendo que o meritíssimo estava em uma festga e voltaria mais tarde. Não era bom palpate incomodar tarde da noite. O homem ficava uma arara quando isso acontecia. O jeito era ir até a delegacia tentar convencer o delegado a soltar a dupla. O quanto antes pudesse fazer isso, aumentaria a chance de não fazerem eles cantar até o que não sabiam. Conhecia bem a habilidade dos invertigadores vindos recentemente. Eram capazes de fazer um defunto falar, quanto mais dois vivinhos da silva.
Deixou Jerônimo sentado em seu gabinete doméstico, diante de um litro de whisky e café numa térmica. Ele que servisse o que quisesse, pois a conta seria salgada depois. Sem hesitar dirigiu-se resolutamente à delegacia para avistar os detidos. Ao chegar ali, verificou que a repartição estava movimentada. Isso era visível pela presença do carro do delegado em pessoa. Teria que tomar cuidado com as palavras para não arrumar encrencas para seu lado. Frequentemente precisava da boa vontade das autoridades e uma palavra errada, dita no momento indevido, podia causar um grande estragon nesse relacionamento.
Chegou ao balcão da recepção e perguntou ao agente que ali estava de plantão:
– O Delegado Demétrio está aí?
– Está sim, doutor. Qual é o problema que o traz aqui?
– Fui avisado que dois clientes meus estão detidos e vim assistir aos depoimentos deles.
– Aguarde um momento por favor.
Levantou o telefone, discou um número e logo falou com alguém, certamente em outra sala.
– Doutor Delegado!
– Fala, Douglas.
– Está aqui o doutor Estevão. Ele quer falar com os detidos!
– Mande ele aguardar. Estamos terminando com eles dentro de cinco minutos.
– Certo, chefe. Vou avisar.
Desligou o aparelho e voltou-se para o doutor Estevão, dizendo:
– O Delegado já vail he receber. Espere um minute. Quer um café?
– Obrigado. Não quero tomar café a essa hora. Me dá dor de cabeça.
– Sente-se um pouco.
Estevão fez menção de ir para a área interna da delegacia, sendo impedido pelo policial.
– O senhor não pode entrar antes de receber autorização para isso. Faça o favor de sentar-se.
– Mas eu tenho pressa de falar com os meus clientes.
– Quem foi mesmo que lhe contratou, doutor Estevão?
– Eles mesmos.
– Se eles foram detidos na fazenda do seu Jerônimo e vieram diretamente para cá. Como eles puderam lhe avisar?
– Acontece que eu sou advogado do fazendeiro e ele me avisou por telefone. Vim atender a eles, pois tenho outras causas em que autuo a favor deles.
– Entendo, doutor.
Sentou-se e fez de conta que lia uma revista aberta sobre a mesa, mas os olhos vigiavam o advogado. Era melhor que ele se mantivesse quieto ali, salvo se quisesse arrumar encrenca. Enquanto isso, o delegado separara os dois detidos, colocando ambos sob os cuidados de interrogadores diferentes. Em dado momento um outro agente entrou numa sala dizendo:
– Pode confessar, amigo. Seu parceiro já deu todo o serviço.
– O quê? Aquele desgraçado abriu a boca.
Sem dizer mais nada o agente saiu e foi dizer ao delegado:
– A artimanha acaba de funcionar. O pássaro cantou legal. Foi dizer que o parceiro havia dado o serviço, ele ficou revoltado e perguntou se o outro tinha aberto o bico.
– Quer dizer que encontramos os dois mais depressa do que poderíamos imaginar. E pelo visto aquele fazendeiro está envolvido nisso.
– É o que iremos ver. Agora os colegas podem apertar bem e logo saberemos toda a verdade.
Em poucos minutos os dois interrogadores vieram, quase ao mesmo tempo, com largo sorriso no rosto. Tinham em mãos a confissão complete dos dois, apenas cada um dizia que for a apenas servir de motorista. O colega fora fazer a tocaia.
– Notável isso. Depois que a casa cai eles tentam incriminar um ao outro. Não se faz mais bandido como antigamente.
– É Doutor. Na hora do pega para capar, salve-se quem  puder.
– Vamos tomar o depoimento deles para não voltarem atrás. Tem um advogado aí na porta para falar com eles. Deve ter alguém no comando. Aposto meu soldo que isso é obra do fazendeiro onde eles foram encontrados.
– Eles não disseram ainda, mas dá para deduzir sem problema.
– Aperta um pouco e tira o resto do suco. Enquanto isso eu vou conversar com o advogado. Dou uma trovada nele até vocês terminarem o serviço.
Chamaram um escrivão e foram tomar os depoimentos. O delegado saiu até a portaria e fingiu surpresa com a presença do advogado.
– Boa noite, doutor Estevão! Tudo bem? E que lhe posso ser útil?
– Eu vim conversar com dois clientes meus que estão detidos. Preciso encaminhar um habeas corpus logo cedo e tenho que saber detalhes para elaborar o documento.
– Só um momento. Estamos remanejando uns pássaros aí dentro e logo lhe coloco diante dos seus clientes. Enquanto isso, venha até minha sala e conversamos um pouco.
Não tendo alternative, doutor Estevão entrou e sentou na poltrona diante da escrivaninha que o delegado lhe apontou. O assento parecia ter espinhos e não conseguia parar quieto. Ouviu o delegado dizer:
– O que o deixa tão inquieto doutor?
– Estou com uma dor incômoda na coluna e isso me faz procurar uma posição melhor.
– Sei como é isso.
– Preciso procurar um médico na semana que vem. Isso está me deixando maluco. Pior que tenho uma montanha de processos para atender e não sobra tempo para cuidar da saúde.
– Mas se não se cuidar, vai chegar uma hora em que não terá mais condições de levantar. Tem que se tratar. 
Nisso o agente veio até a porta e faz sinal ao delegado. Os depoimentos estavam tomados e devidamente assinados pelos dois detidos. Agora haviam sido colocados na mesma sala e tinham se lançado olhares furiosos mutuamente. Sinal de que se sentiam traídos pelo companheiro.
O advogado foi levado à presença dos dois e passaram a conversar sigilosamente. Ao ouvir a troca de acusações entre eles viu que chegara tarde. Nada mais poderia fazer. Tanto os dois como o fazendeiro estavam mais enrolados que novelo de linha. Determinou aos dois que não falassem mais nada sem a sua presença. O estragon feito já era grande o suficiente. Não precisariam dizer mais uma palavra para complicar. Falou-lhes que teriam que aguardar para ver se conseguiria encontrar uma maneira de eles responderem ao processo em liberdade. Não sabiam ainda que o coronel Onofre nada sofrera além de uma perfuração dos músculos da perna e já estava em casa. Se ele tivesse ido a óbito, o problema ficaria muito maior. O envolvimento de Jerônimo com o atentado, complicava tudo. O processo do litígio da divisa estava para ser julgado e provavelmente o delegado informaria ao juiz sobre o caso, quando desse entrada no habeas corpus. A chance de êxito era minima.
Voltou para casa e comunicou ao cliente tudo o que havia ocorrido. Determinou que ele voltasse para casa e não andasse por aí, sem ser chamado. Qualquer coisa seria motivo para sua prisão. Se o procurassem em casa, deveria ficar oculto, deixando o automóvel em algum lugar for a de vista. Enquanto isso tentaria manobrar, mexer os pauzinhos, para conseguir livrá-lo da cadeia antes do julgamento. Mandaria notícias assim que pudesse.
Jerônimo obedeceu e voltou para casa. Ia se recriminando pela sua imbecilidade em se deixar levar pelos sentimentos de vingança. Se tivesse mantido a cabeça fria, estaria agora perto de infligir uma derrota ao vizinho, como o doutor Estevão lhe garantira.
Agora não restava alternativa. Teria que aceitar que estava em dificuldades e não agravar mais a situação.

 

Mineiro sovina! – Capítulo IX.

 

Entrega das intimações
Três semanas depois de encaminhados os processos, foi marcada a audiência para eventual conciliação ou julgamento da matéria. Em havendo evidências para o proferimento de sentença, o Meritíssimo Juiz da vara cível proferiria a sentença, da qual caberia recurso, para produção de novas provas de ambas as partes litigantes. Não havendo recurso, a sentença seria executada e o processo arquivado como concluido. As intimações às partes e testemunhas foram emitidas, havendo um prazo entra a data de intimação e a realização da audiência, visando permitir à parte demandada constituir sua defesa, arrolar testemunhas e provas em seu favor.
A entrega das intimações precise ser realizada em mãos pelo oficial de justiça. Como ambas as partes residiam na mesma redondeza, um mesmo oficial foi encarregado da entrega de todas as intimações. Chegou primeiramenete na casa de Onofre, onde não encontrou dificuldade em realizer sua tarefa. Ao contrário, o mesmo ficou contente em saber o dia em que seria feita justiça em seu favor, disso tinha certeza. Depositava no doutor José Silvério uma confiança quase cega. Faria o possível e o impossível para ganhar essa causa em seu favor.
Quando chegou na propriedade de Jerônimo de Alcântara, a situação ficou complicada. Ao ver o veículo com placa oficial o proprietário ficou de cabelo em pé. Ouvira murmúrios de que o vizinho havia contratado advogado para questionar seu direito ao uso da água da vertente, próxima da divisa. Sempre desconfiara de que aquela demarcação realizada anos antes, no tempo de seu pai, quando ele era criança, não for a feita com lisura. Quando teve oportunidade contratou um agrimensor que fez, sem avisar o vizinho, uma nova demarcação e agora a vertente estavam em seus domínios.
Acolheu o oficial com a carra amarrada, esperando para ver o que viria. Ao saber do que se tratava, ficou furioso. Deu um berro e imediatamente um par de capangas surgiu ao seu lado, perguntando o que acontecia e ele lhes dissect:
– Botem para correr esse oficialzinho de justiça. Não vou assinar intimação alguma e quero ver quem vai me obrigar.
– Senhor, não precise de violência. Nós vamos embora e o senhor receberá de outra forma essa intimação.
Deu meia volta, embarcou no jipe e voltaram para a cidade. Alguns dias depois, duas viaturas da polícia militar, transportando um contingente de oito soldados e um sargento, escoltaram a viatura do oficial de justiça ao patio da fazenda de Jerônimo. Os policiais ficaram aguardando, mantendo as armas ao alcance das mãos, enquanto o oficial fazia a entrega da intimação. Diante dessa demonstração de força, Jerônimo manteve a custo a raiva, e assinou a intimação. Havia nesse interim procurado um advogado que lhe aconselhara receber por bem a intimação, do contrário iria responder por mais um ato delituoso. Desacato à autoridade, por ter usado a intimidação diante do oficial de justiça. Tinha que cuidar para não complicar mais o que parecia não ser tão simples como ele pensare que fosse.
Depois de assinar a intimação, o sargento desceu da viatura e chegou perto, dizendo:
– Senhor Jerônimo, eu trago uma ordem de prisão contra sua pessoa, emitida pelo Exmo. Juiz da vara cívil, por desacato a autoridade do oficial de justiça no dia em que veio lhe entregar a intimação que agora o senhor recebeu. O senhor me acompanha por bem, ou vou ter que usar a força?
Olhou ao redor e ali estavam os soldados com as mãos prontas para empunhar as armas em defesa de seu chefe.
– Eu vou, mas no meu automóvel.
– Alguém vai levar seu automóvel e o senhor nos acompanha na viatura. Quando o Juiz lhe liberar vai voltar com quem lhe for buscar.
– Mas sargento…
– Nada de mas, senhor Jerônimo! Nem meio mas! Ou prefere ser algemado agora mesmo?
– Casimiro, pega aqui as chaves e os documentos do auto. Venha atrás da gente para me buscar. Aliás já passa logo no doutor Paulo e peça para ele providenciar minha soltura.
– Pois não patrão. Vou levar o Chico comigo para não ir sozinho.
– Mas não siga muito perto das viaturas. Mantenha pelo menos cem metros de distância, – falou o sargento.
Todos embarcaram, fizeram a volta e rumaram para a cidade. Em poucos minutos era possível ver, seguindo atrás dos veículos oficiais, a caminhonete de Jerônimo, indo em sentido da cidade. Quem passava pela estrada ficava achando estranha a presença de Jerônimo do veículo policial e os empregados dirigindo sua caminhonete. Não tardou a notícia chegar aos ouvidos de Onofre e este se rachou de dar risada. Ficara sabendo que o vizinho botara para correr o oficial de justiça na primeira vez e agora estava levando o que merecia. Aprenderia a respeitar autoridade.
Chegaram ao forum e levaram Jerônimo direto para a ante-sala do gabinete do juiz. Foi anunciada a sua presença e logo o magistrado mandou que o fizessem entrar. Era um homem bem menos arrogante e altivo que estava ali. Mantinha-se de cabeça baixa esperando o veredito do juiz. Este folheou uma pequena pasta e, puxando os óculos sobre a ponta do nariz, encarou o homem a sua frente e falou:
– Então esse é o homem que não recebe intimação das mãos do oficial de justiça? Chama os capangas e manda por para correr a autoridade! Que tal fazer isso agora, aqui na minha frente, senhor Jerônimo! Vamos, comece.
Diante do mutismo do homem, o juiz tornou a falar:
– Engraçado, parece que o gato comeu sua língua agora, ou a perdeu na estrada! Eu devia lhe botar na cadeia por trinta dias pelo menos, seu Jerônimo. Mas como tem pouco mais que isso para providenciar sua defesa no processo de litígio de divisas e outras pendengas, vou fixar sua fiança. Providencia um advogado para trazer o dinheiro e depois o libero. Levem ele para a sala de detenção provisória até que o advogado venha livrá-lo dessa enrascada.
– Meu advogado daqui a pouco estará aqui. Pode fixar a fiança que e providencio o dinheiro.
– Já vou fazer isso, mas não quero lhe ver mais na minha frente antes do dia da audiência. Agora pode ir e se controle, ou mando lhe aplicar um corretivo.
Em questão de meia hora o advogado, doutor Paulo de Andrade, chegou e recebeu das mãos do juiz a fiança estipulada. Foi falar com Jerônimo e lhe disse:
– Fique calmo e vamos logo providenciar esse dinheiro. O senhor escapou liso. Esse juiz é severo e não gosta de ser desobedecido. Onde foi que estava com a cabeça ao botar para correr o oficial de justiça?
– Nem eu sei direito, doutor! Me deu uma raiva naquele dia e não me controle. Quando vi já tinha feito.
– Isso poderia ter custado bem mais caro, seu Jerônimo.
– Posso fazer um cheque para retirar no banco antes que feche?
– Faça logo pois não demora para fechar o expediente.
O cheque foi preenchido, sendo acresdido do honorário do advogado. Ele tivera que interromper uma entrevista importante para atender a emergência do cliente. Não faria isso sem cobrar seu trabalho.
Quando o dinheiro da fiança chegou às mãos do juiz, feito o recibo, imediatamente foi dada a ordem de soltura do detido. Os capangas aguardavam do lado de fora com a caminhonete para levar o patrão para casa. Estavam assustados, pois nunca haviam passado por uma situação dessas. O mais perto que haviam chegado de um juiz era alguns quilômetros de distância. Hoje tinham ficado a espera diante do forum, vendo entrar e sair grupos de policiais, viaturas adentrando o patio, homens de terno e gravata chegando e saindo. Queriam rapidamente sair dali e voltar a sentir-se em seu elemento, bem longe daquele lugar.
Jerônimo não estava para muita conversa. Apenas respondeu com monossílabos às perguntas dos capangas que logo notaram e se mantiveram em silêncio. Não era aconselhável perturbar o patrão quando estava enfezado. Os dias seguintes foram de intensa movimentação na propriedade de Jerônimo. Foram frequentes visitas ao advogado, levando testemunhas, documentos solicitados pelo advogado, para preparar adequadamente a defesa. O tempo era escasso, pois a teimosia do acusado, consumira preciosos dias que teriam sido importantes na preparação da defesa.
Nesse meio tempo, Antônio B. Lemos visitou, em companhia de José Silvério, a fazenda de Onofre, para fazer o levantamento detalhado de todos os quadros de Isabel. Ao todo catalogou 112 peças, incluindo os que estavam na casa, enfeitando as paredes. Foi preciso identificar cada um com um nome e foi Isabel que teve a tarefa de fazer a escolha dos nomes. Muitos eram óbvios devido ao objeto retratado, outros ao contrário, exigiam uma denominação diferenciada para evitar a repetição de nomes. Fez uso de indices numéricos para tal. Cada um recebia, junto ao nome, a data de conclusão. Dessa forma formou-se um acervo bem seleto. Nada havia a excluir, mesmo os produzidos logo no início da atividade. Permitiam traçar a trajetória evolutiva da artista.
Com um catálogo de fotografias detalhadas em mãos, Antônio procurou os proprietários da galeria e negociou o evento. Conseguiu uma semana livre em um prazo de 90 dias. Levou Isabel para assinar o contrato com a galeria e patrocinadores. Foi estabelecido um valor mínimo para cada peça a ser exposta e feito o mapa da exposição. Ao entrar o visitante encontraria os trabalhos de início da carreira e aos poucos vinham os de datas mais recentes, até o dia mais próximo da data do evento. Instada por Antônio ela levou uma tela inacabada e cada dia dava algumas pinceladas dando a impressão de um trabalho em construção. Dessa forma era comum os visitants encontrarem a pintora com o avental, pincéis e tintas em punho, dando algumas pinceladas.
Enquanto aguardavam a realização do evento, eram feitos contatos com outras galerias, principalmente da capital e muitos machand’s confirmaram a presença para conhecer a nova artista. Alguns expoentes do mundo artístico confirmaram presença na noite de inauguração, o que viria abrilhantar a noite. Nos dias subsequentes haveria horários de visitação no período da manhã, tarde e começo da noite.
As semanas passaram rapidamente e o dia da audiência se aproximava. Num dia desses, Onofre se viu frente a frente com o vizinho Jerônimo, aos air de uma agência do Banco do Brasil. Onofre ia passar sem dizer palavra. O vizinho o interpelou:
– Está imaginando que vai ganhar a causa, coronel? Pode esquecer. Meu advogado vai dar uma surra no seu, aquele molecote, filho do dono da mercearia e vai arancar de você uma boa indenização.
– Tem certeza?
– Se tenho! São favas contadas. Depois vou dar uma festa em comemoração, paga com seu dinheiro, coronel de meia pataca.
– Veremos, Jerônimo. Tenho mais o que fazer. Passar bem vizinho.
O que Jerônimo não sabia é que Onofre, com o mapa e laudo da demarcação feita anteriormente, fora ao cartório e registrara o documento. Dessa forma ele passara a fazer parte da documentação da propriedade e nele estava claramente especificada a localização da vertente motivadora da discórdia. O doutor Paulo, recebendo um mapa inverso, datado de época mais recente, mas sem o devido registro, tinha absoluta certeza de que a causa estava ganha. Disso resultava a certeza de Jerônimo quanto ao resultado do julgamento que resolveria a questão.
Antes de empreender o retorno, Onofre passou no escritório e contou a José Silvério o encontro que tivera com o seu desafeto. Foi aconselhado a não revidar nenhuma provocação. Até mesmo os seus empregados deveriam reagir a eventuais agressões provenientes de empregados de Jerônimo. Qualquer ato impensado viria prejudicar o resultado do processo. Seria preciso manter a serenidade, mesmo a custa de muito esforço. Havia a possibilidade de ser contratado algum pistoleiro para executar alguma forma de vingança, antes ou depois do julgamento. Era recomendavel não sair sozinho da propriedade e nem percorrer sem acompanhante os seus domínios. Infelizmente ainda não era possível confiar inteiramente nos trâmites da justiça. Uma bala perdida, disparada de tocaia era capaz de causar muito mal e depois não haveria sentença que desse resultado.

 

Onofre falou que já adotara desde algumas semanas, especialmente quando soubera do episódio do oficial de justiça posto a correr pelo vizinho, a providência de estar sempre acompanhado de pelo menos um de seus tabalhadores. Não convinha se expor sem necessidade. Talvez depois da sentença, com algum tempo para digerir a questão, o vizinho viesse a se tornar menos agressivo e truculento. 

Mineiro sovina! – Capítulo VIII

 

Foto de uma fazenda típica de Minas Gerais.

 

Processo é encaminhado
Naquela noite, antes de adormecer, José passou um longo tempo lembrando do rosto, silhueta, os longos e sedosos cabelos de Isabel. O conjunto era estonteante e ele estava irremediavelmene apaixonado. Fez um propósito firme de fazer o máximo empenho em todas as causas que ficassem sob sua responsabilidade. Alcançaria sucesso e posição de destaque dentro da empresa. Isso o colocaria em posição vantajosa do ponto de vista da opinião de coronel Onofre. Não teria como se opor ao romance, dele José Silvério, com a bela filha. Em especial colocou como questão de honra alcançar uma sentença favorável ao cliente no processo que iria encaminhar no decorrer dessa semana.
      Um ganho de causa, com sentença vantajosa para Onofre, daria ao advogado um trunfo importante na consecução de seu objetivo maior: conquistar as boas graças da filha. Não esqueceria de mandar reveler as fotografias na manhã seguinte, pois queria tê-las em mãos para serem anexadas ao processo como prova documental das transgressões cometidas pelo vizinho de seu cliente. Havia aproveitado para fazer uma sequência de exposições, gastando todo o filme. Assim teria imagens para lembrar do lugar onde a razão de suas aspirações afetivas passava seus dias. Pensando em tudo isso, adormeceu e sonhou com encontros românticos, passeios no cafezal, exposições de arte na capital, sendo a estrela a pintora que conhecera naquele dia.
      A manhã de segunda feira o encontrou a postos no seu gabinete, cuidando de alguns processos prontos para encaminhamento, faltando apenas revisar, evitando alguma falha eventual que passara despercebida. Logo cedo, pediu a secretária para chamar o contínuo. Quando o jovem se apresentou colocou em suas mãos o filme e pediu que o levasse ao laboratório mais próximo para reveler. Insistiu para que pedisse urgência no trabalho, pois havia ali provas importantes para um processo. O rapaz saiu e em questão de meia hora entregou à Roberta o comprovante de entrega do filme para processamento. Ficaria pronto ao final da tarde de quarta feira. Havia pedido que fosse terminado antes, mas não houvera jeito.
      Um pouco contrariado José, pensou um pouco e concluiu que, se deixasse tudo pronto, faltando apenas anexar as imagens, poderia encaminhar o processo na quinta feirra. Com um pouco de sorte dentro de uma semana ou no máximo duas, a data da audiência estaria fixada. As intimações seriam expedidas e entregues, para que ninguém pudesse alegar ignorância do fato.
      Em meio a uma série de processos, uns em fase de instrução, outros coletando documentos e informações, estava agora o processo de Onofre Pires contra Jerônimo de Alcântara. Os nomes das testemunhas do queixoso haviam sido arrolados e identificados, indo fazer parte do processo. Inicialmente teria algumas páginas com a descrição dos fatos relatados e constatados in loco pelo advogado, tendo como prova as fotografias tiradas.
      Pontualmente na tarde de quarta feira os negativos e uma cópia de cada uma das fotografias chegaram às mãos de José Silvério. O processo estava pronto, faltando apenas anexar as imagens. Apressou-se em fazer sua parte e encaminhou à secretária para concluir a montagem do processo. Olhou rapidamente as demais fotografias e depois guardou tudo em sua pasta para ver mais detalhadamente à noite quando estivesse em casa. 
            Antes de fechar o gabinete, teve tempo de revisar o processo, aliás eram dois. No primeiro estaria em julgamento o ato de violação do limite das propriedades e no outro um pedido de indenização pelos danos causados nos cafeeiros pelos animais de Jerônimo. Onofre fazia questão absoluta de ser indenizado até o ultimo centavo. Onde já se viu perder algumas sacas de café por causa das vacas do vizinho. Era causo fora de questão. Mostraria ao turrão do vizinho o quanto doia desrespeitar a propriedade alheia.
            No outro di aos processos, junto com vários outros, seguiu pelas mãos do contínuo, para o cartório do distribuidor público. Dali seriam encaminhados para as respectivas varas de justiça, muito embora não houvesse grande diversidade de juízes. Cada um deles acumulava mais de uma vara. O número de processos a serem julgados não era ainda tão elevado, permitindo aos três magistrados da comarca dar conta da tarefa.
            Nos momentos de relativa folga, José Silvério aproveitava para investigar a questão das pinturas de Isabel. Contatou vários amigos, ligados ao setor artístico para obter informações sobre eventuais especialistas na área de pintura na cidade. Ficou sabendo que existiam alguns, mas entre eles havia dois apenas que tinham algum renome no ramo. Os outros eram mais agenciadores de exposições do que experts em pintura. Pediu a quem lhe deu essas informações o endereço, telefone e alguns detalhes pessoais para poder fazer um contato mais personalizado. Julgou que, se a conversa fosse mais informal, teria meior chance de conseguir que um deles ao menos, se dispusesse a fazer uma avaliação dos quadross de Isabel.
            Se houvesse necessidade aproveitaria o final de semana para fazer uma visita pessoal aos dois. Isso permitiria formar uma opinião melhor sobre a capacidade de cada um. Na sexta feira conseguiu falar, primeiro com um deles e depois com o outro. Expôs a questão e encontrou receptividade de parte de pelo menos um deles, enquanto o outro ficou numa posição de neutralidade. Não se negou, mas não ficou entusiasmado. Sabendo que o interlocutor era membro do escritório de advocacia que os representava em algumas situações legais, predispuseram-se a recebê-lo em sua casa. Seria bom se tivesse uma ou duas amostras para levar. Dependendo da primeira impressão, fariam uma avaliação mais abrangente num momento posterior.
            As visitas ficaram marcadas para sábado à tarde. José aproveitaria a manhã par air até a fazenda e traria dois ou três quadros que Isabel se dispusesse a ceder. Assim teria, já na segunda feirra, uma ideia da opinião que os dois especialistas faziam do trabalho. Ele mesmo os achava encantadores, mas havia que levar em conta o fato de seu envolvimento emocional na questão. Isso altera a percepção da realidade. Não estava predisposto a notar imperfeições, falhas na execução das técnicas de pintura e outros pequenos detalhes.
            Ao chegar em casa na sexta à tarde, conversou com o pai sobre a possibilidade de usar o automóvel no sábado pela manhã. O pai quis saber qual era o objetivo e ele falou de que se tratava, recebendo de volta um olhar interrogador, como que a dizer:
            – Você está ficando apaixonado pela filha de seu cliente. Tome cuidado.
            Ficou com as chaves e documentos do automóvel desde aquele momento. Pretendia sair bem cedo e nesse momento o pai estaria provavelmente envolvido no processo de abrir o mercado. Qualquer coisa seria suficiente para atrasar e sabia da preocupação do seu genitor em ser pontual. Costumava abrir às 7 h 30 min, nem mais nem menos. A noite transcorreu sem novidades e sábado, logo aos primeiros raios de sol, o Ford Corcel GT, iniciava nova viagem até a fazenda de coronel Onofre. José ia alegre, cantarolando canções da bossa nova, Roberto Carlos, Ronie Von, Vanderleia e outros. Assim, quando menos esperava, chegou ao portal de acesso à fazenda. Percorreu a alameda ladeada de cafeeiros, onde agora estava ficando visível o avanço na maturação ocorrido ao longo da semana.






Cafezal florido.
Ladeiras cobertas de cafeeiros.
Cafezal sem fim, cobrindo morros e baixadas.
Montanha ao fundo e plantio nas proximidades.


            Estacionou na mema posição em que deixare o veículo no domingo e desembarcou. Logo se fez ouvir a voz de Onofre, parado na varanda que dizia:
            – Uai, doutor! Mas já de vorta?
            – Bom dia, coronel. Vim lhe comunicar que os processos já foram para as mãos do juiz e vamos aguardar a marcação das datas, expedição das intimações e tal.
            – E os retrato que tirou, ficaram bom?
            – Ficaram perfeitos. Acho que não vai sobrar dúvida quando o juiz pegar nas mãos. Mas só podemos cantar vitória depois da sentença.
            – Qui espero seja favorável!
            – Vai ser favorável, sim coronel.
            – Vem pra dentro. O café tá saindo agorinha mesmo do coador.
            Entraram e logo saboreavam uma ótima xícara de café fumegante. Quando Isabel trouxe o bule e as xícaras, ele aproveitou para dizer:
            – Em primeiro lugar, bom dia senhorita.
            – Bom dia doutor! Como tem passado?
            – Tudo ótimo e trago boas notícias para seus quadros.
            – Sim!
            – Vim ver se pode me emprestar dois ou três que estejam prontos para server de amostra para dois especialistas no assunto. São de Sete Lagoas mesmo.
            – Vamos ter que escolher. Tem uma porção ali no depósito. O difícil é escolher os menos ruins.
            – Não pense assim, senhorita. Pense em escolher os melhores. Pensamento positivo faz bem.
            – Vou ver com a mãe. Ela vai me ajudar a separar uns.
            – Não podem ser muito grandes para caber no carro.
            – Grandes mesmo só pintei os dois que estão na sala da lareira. Os outros são todos pequenos ou médios.
            – Se quiser, posso ajudar na separação. Apesar de não entender muito do assunto, posso ser uma opinião mais isenta.
            – Eu vou lhe chamar, depois que limparmos um pouco o lugar. Com licença, vou falar já com a mãe.
            José lançou um olhar para as paredes da sala de refeições onde se encontravam e percebeu novas nuances nos detalhes dos quadros ali expostos. Estava vendo de outro ângulo e isso lhe fez ver coisas que não percebera no domingo anterior. Estavam mais vigorosos os traços. As pinceladas pareciam mais perfeitas do que conseguia lembrar de ter visto antes. Até dava impressão de terem sido retocados desde a primeira vez que os vira.
            – O doutô fico mermo impressionado com os qudro de mia fia. Eu também gosto, apenas não tinha pensado em ser isso um meio de ganhar algum dinheiro.
            – Sou suspeito em falar, mas creio que cada um deles vale bom dinheiro, principalmente no momento em que a autora ficar conhecida no meio artístico.
            – Mas isso não vai faze ela viajar mundo, atrás de exposição?
            – E que tem isso, coronel? O mundo está cheio de gente que viaja levando seu trabalho para todos os lugares. É o mundo moderno. Estamos em l977 e o homem já foi até na luz.
            – Voismecê me conte outra, que nessa eu não credito não! Isso é tudo inventação desses americano. Só pra faze inveja nos russo.
            – Mas eles foram mesmo. Tem filme mostrando tudo. Trouxeram até umas pedras de lá.
            – Pedras da lua! Mais essa agora. Já num tem pedra qui chegue aqui na terra, tem que buscar umas na lua.
            – Não é por isso. É para estudo, análise de composição. Ver se lá tem os mesmos minerais que aqui na terra.
            – I pudera ser deferente? Homessa! Materiar é tudo a mesma coisa, num importa de onde vier.
            – Mas é possível existirem diferenças, detalhes não vistos aqui. É preciso investigar.
            Nisso dona Maria Luiza chegou à porta e falou:
            – Bons dias doutor. Que bons ventos o trazem aqui hoje?
            – Bom dia dona Maria. Eu vim dizer ao coronel que os processos estão na mão do juiz. Também vim ver se Isabel quer me emprestar uns dois ou três quadros para levar aos especialistas. Eles queremo ver para fazer uma avaliação prévia.
            – Ela está no depósito lhe esperando. Venha comigo, deixe o Onofre um pouco aí.
            Seguiram por uma porta lateral, passando por uma área coberta e logo à frente encontraram uma porta, onde já havia uma porção de quadros encostados, enquanto Isabel trazia mais dois para colocar ali. José olhou para dentro e viu ali uma quantidade enorme de quadros. Deveriam ser fruto de anos de trabalho incessante. Ficou admirando um a um os que estavam ali a mostra e, para ser sincere, ficou com uma dúvida atroz sobre qual escolher para levar. Cada um trazia novos detalhes. Os motivos eram variados sendo que em todos estava presente o vigor do traço da mão de Isabel. Pareciam traduzir simultaneamente a leveza e a força existente naquelas mãos. Como era necessário escolher, sugeriu alguns, meio a esmo e pediu que Isabel fizesse a seleção final. Por ele levaria todos eles, mas não tinha espaço para tanto e combinara levar no máximo três.
            Feita a separação, fizeram o envolvimento dos mesmos em mantas de lá para poupar de eventuais atritos e choques. Depois levaram até o carro, onde foram colocados no porta malas, tomando precaução para não ficarem encostados em nada que os pudesse danificar. O espaço que sobrou nos lados foi preenchido com acolchoados e assim evitariam o deslizamento uns sobre os outros. Depois de se certificar da imobilização total das obras, o porta malas foi fechado e José despediu-se de coronel Onofre, Isabel e dona Maria Luiza. Queriam que esperasse pelo almoço, mas não haveria tempo. A primeira visita estava marcada para as 14 horas e não queria se atrasar.
            Sem mais demora pegou a estrada e seguiu para casa. Chegou pouco antes da hora do almoço. Deu tempo de mostrar aos pais os trabalhos de Isabel. Ficaram vivamente impressionados com a beleza e imaginaram como ficariam bem uns quadros daqueles na sala de estar, próximo à mesa de jantar e outras dependências. José recolocou tudo no devido lugar e deixou assim. Almoçaram e pouco depois ele se dirigiu ao encontro do primeiro endereço constante em sua agenda. Era relativamente perto e se deparou com uma casa ampla, mas despretensiosa à primeira vista. Só depois de ver os detalhes se percebia a harmonia do conjunto.
            Foi recebido amavelmente por um homem de cabelos grisalhos, ostentando no rosto os sinais da idade. Deveria estar beirando os sessenta anos de idade, mas ainda dono de um admirável vigor físico. Caminhava com desenvoltura e convidou José a entrar. Após a troca de algumas amabilidades, foi o momento de apresentar o trabalho que vinha trazer. Foi até o automóvel e o dono da casa estava ao seu lado, curioso por ver o que dali sairia. Viu com satisfação o cuidado com que os quadros estavam acondicionados, demonstrando a preocupação com a manutenção da integridade física deles.
            José retirou o primeiro quadro e o passou às mãos do dono da casa, que o levou para dentro, colocando-o em um cavalente existente num canto da sala. José chegou com o Segundo que foi colocado em outro cavalete, ao lado do primeiro. Depois foi buscar o último que foi colocado no canto oposto. Enquanto isso o dono da casa ficou observando detidamente o primeiro, depois o segundo e por ultimo do terceiro. Caminhou até ficar a dois passos de cada um e mirou demoradamente os traços firmes, o contraste das cores, a suavidade do conjunto. Fez o mesmo com os outros dois, depois sentou-se na poltrona, em frente de José. Perguntou há quanto tempo a autora pintava e a pergunta foi negativa pois José esquecera de perguntar. No entanto era possível depreender que isso era algo que Isabel fazia desde vários antos precedentes, pois no canto inferior direito, abaixo da assinatura constava a data de conclusão.
            Um deles era de 1971, outro de 1975 e o outro de 1977. Portanto há pelo menos seis ou sete anos ela se dedicava a arte da pintura. Quis saber onde fizera seus estudos e as respostas foram vagas, pois não houvera tempo de entrar em muitos detalhes a respeito da vida de Isabel. O especialista foi bastante objetivo em fazer sua avaliação. Disse:
            – É nítidamente perceptível a evolução da técnica da autora. Temos aí três trabalhos de um intervalo de vários anos e sem dúvida o último é bem mais perfeito que o primeiro. Isso ao contrário do que possa parecer em primeiro momento, é sinal de que ela está cada dia evoluindo, aperfeiçoando a técnica. O traço fica mais definido, a harmonia aumenta. Para encurtar a conversa, ela é uma artista de futuro sem sombra de dúvida.
            – Fico satisfeito com isso. Quer dizer que valeria a pena tentar levar a coleção inteira ou parte dela para uma exposição em uma galeria, primeiramente aqui em Sete Lagoas e depois talvez na capital.
            – Estou disposto a organizer essa exposição. Queria apenas ter acesso ao acervo complete para fazer uma seleção dos melhores trabalhos e mesmo fazer um escalonamento por época. Evidenciar a trajetória evolutiva do artista é importante num primeiro momento. Pelo que me disse, ela é totalmente desconhecida.
            – Sim. Os únicos quadros expostos estão na casa da fazendo do pai, próximo a região dos lagos.
            – Faz ideia de quantos trabalhos ela tem ao todo?
            – Não tive tempo de contar, mas pelo que observei no espaço em que estão guardados, devem ser perto de cem, se não mais.
            – Ufa! Isso é coisa. Como ela nunca tentou uma exposição?
            – Sabe como é. O pai é fazendeiro, daqueles severos ao máximo. Ela é um pouco tímida. Tinha vontade de ser arquiteta, mas o pai só deixou ela cursar magistério. Ela aproveitou e fez o curso de pintura. É onde ela busca compensação da frustração de não poder fazer o que realmente queria.
            – Perdemos uma arquiteta, mas ganhamos uma ótima pintora. Quem pode saber o que é melhor!
            – Vamos combiner o seguinte. Eu falo com ela e inform sobre sua impressão. Talvez o senhor gostaria de escrever algumas linhas dizendo a ela de sua intenção?
            – Só um instante. Já faço isso e o senhor leva a ela minha proposta.
            – Enquanto isso eu torno a acondicionar os quadros no carro.
            – É uma pena, mas eu até gostaria de ficar com um deles pelo menos.
            – Eu agendei com outro especialista e tenho que levar a ele. Não sabia qual seria sua avaliação e por isso não posso deixare de levar. Mas depois eu converso com ela e podemos chegar a um acordo.
            José acomodou os quadros novamente, tomando cuidado para não esquecer de nenhum canto descoberto ou desprotegido. Nisso o homem lhe estendeu um envelope onde estava a folha de papel timbrado transmitindo à Isabel o desejo de organizar uma exposição com seus trabalhos. Agradeceu a atenção e se despediu. Havia cerca de uma hora até o momento marcado para a segunda visita. Essa transcorreu de modo semelhante à primeira, com a diferença de que o novo especialista era sensivelmente mais jovem. Tinha preferência por trabalhos em linha mais modernista, menos conservadora. Gostou dos trabalhos, apenas deixou clara sua predileção por pinturas mais abstratas, naturezas mortas e coisas assim. José agradeceu a atenção e, levando sua preciosa carga, voltou para a casa dos pais.
            O envelope que levava não estava fechado e ele olhou o que o homem escrevera. Em letra bem traçada dizia primeiramente sentir-se encantado em servir de intermediário para encaminhar tão promissora artista ao mundo da pintura. Depois detalhava os passos que deveriam ser seguidos para a realização de tale vento. José mostrou aos pais e à irmã a carta, depois a guardou cuidadosamente. Tinha motivo para nova viagem até a fazenda e faria isso no dia seguinte. Tinha receio de deixar os quadros no carro ou guardados em algum lugar. Eles poderiam sofrer algum dano e não se perdoaria por isso. 
            Por isso, na manhã seguinte refez o caminho e, quase à mesma hora de sábado, chegou à fazenda. Sua volta em tão curto espaço de tempo, causou estranheza, mas ele logo avisou;
            – Venho trazer boas notícias para Isabel.
            – Bom dia, doutor, – disse Maria Luiza.
            – Bom dia, senhora.
            – Isabel! Isabel! – chamou virada para o interior da casa.
            – O que é mãe? – indagou essa chegando à porta.
            – Escuita o que o doutor tem para dizer pra você.
            José pegou o envelope e o estendeu à jovem. As mãos trêmulas pegaram no objeto com respeito, abriram e retiraram uma fina folha de papel, onde leu palavras de elogio e proposta de realizer uma exposição. Estava assinado com um belo Antônio B. Lemos.
            O primeiro impulse foi gritar, mas se conteve e estendeu a folha para a mãe. Esta demorou um pouco a ler, pois era pouco menos que analfabeta e havia muitos anos não lia nada, além de uma ou outra bula de remédio, isso quando a lia. Depois de decifrar a mensagem, olhou firme para a filha e falou:
            – Eu não falei! Um homem entendido ia dar valor ao seu trabalho.
            Nisso Onofre veio saindo do interior e falou:
            – Uai! O doutor tá querendo afundá o trilho da estrada aqui di casa!
            – Quero não, coronel. Vim devolver os quadros de Isabel e trazer a boa notícia para ela.
            – Boa notícia? Qui é qui o senho tá dizendo?
            – Um dos especialistas ficou encantado com os quadros de Isabel. Quer conhecer todos eles, classificar em ordem de data, depois fazer uma exposição. Primeiro em Sete Lagoas e dependendo do resultado, levar para Belo Horizonte.
            – Oi! Nossa fia ficano famosa, muié! Entonce quer dizer que us quadro qui ela pinta tem valor! Mia Nossa Sinhora!
            – Fique contente, coronel. Estamos diante de uma grande artista.
            – Mais hoji sinhor vai almuçá cu a gente! Ah si vai!
            – Pensando bem, não tenho pressa em voltar para casa. Não vai ter problema nenhum em voltar mais tarde.
            – Vamu prosear aqui na varanda enquanto as miué prepara a boia.
            – Vou primeiro descarregar os quadros. Eu trouxe para evitar acontecer algum dano a qualquer um. Ah! Ia esquecendo Isabel. O seu Antônio Lemos queria ficar com um dos seus quadros. Não deixei pois tinha que levar para o outro. E depois isso vocês acertam depois quando forem preparer a exposição.
            – Minha nossa! Imagine um quadro meu, na sala de um especialista em arte!
            – Vai se acostumando, senhorita. Vai ter muito mais que isso no futuro.


Casario de fazenda.
Rocha pura com formato estranho em Minas Gerais.