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Mineiro sovina! – Capítulo XX (final)

 

Bonsai de Azaleia.
Cactos florido.

 

Orquídeas Paphiopedilum.

 

20. Os sonhos se realizam.
         Com o assédio do galante pintor italiano afastado, José Silvério respirou aliviado. Convidou Isabel a irem a Belo Horizonte durante o final de semana em que ele estaria expondo na capital. Queria mostrar a ele que eles estavam juntos e decididos a construírem uma vida a dois. Não iriam se esconder, pois não tinham motivo para isso. O intruso era ele e deveria se convencer da necessidade de deixar aos dois em paz.
         Isabel não achou boa idéia. Iria parecer provocação e não era possível prever a reação do outro.
         – Não o conhecemos suficientemente bem para prever como vai reagir.
         – Se ficarmos aqui, daremos a impressão de que temos medo dele. Não é isso que vai parecer?
         – Vou conversar com meus pais a respeito. Eles já me deram um aperto bem sério sobre isso. Se eu for com você lá cutucar o homem, acho que não vai ser legal.
         – Também tem essa questão. Não devemos desgostar seus pais. Até mesmo os meus não sei se aprovariam minha proposição.
         – Amanhã a gente vai estar com a cabeça mais serena e teremos condições de tomar uma decisão mais acertada.
         – Eu tive vontade de ir até a Rodoviária atrás dele, mas fiquei sabendo que saiu do hotel com passagem para dali a vinte minutos. Não daria mais tempo. Já estava na estrada.
         – Foi melhor assim, meu amor. Imaginou como ficaria sua reputação se tivesse encontrado com ele e acontecesse uma briga entre vocês dois?
         – Bem pensado. Na hora eu não vi nada na minha frente. Parecia que tudo era vermelho. Igual o boi sendo provocado pelo toureiro.
         – Calma, amor. Não tem motivo para se exaltar tanto. Eu amo você e mais ninguém.
         – Esse “bepi” que vá para bem longe e não volte mais.
         – O melhor é ignorar. Ele é homem livre e pode ir onde quiser. É famoso no mundo inteiro. Não vou conseguir me esconder para sempre dele. Em algum momento da vida vamos nos ver e então veremos como fica a questão.
         – Ele que não se meta a besta! Mostro a ele o que acontece com quem mexe com mulher minha.
         – Alto lá! Não sou sua propriedade. Quero ser sua esposa, mãe dos nossos filhos, mas não lhe pertenço como um carro ou um pedaço de terra.
         – Nem é isso que eu quis dizer, meu bem.
         – Infelizmente em muitos casos é o que os homens acham que acontece com o casamento. A mulher se torna “propriedade” deles. Podem usar e abusar. Isso eu não vou aceitar, pode esquecer.
         – Nunca vou agir assim. Desculpe se eu passei dos limites. Vou me manter mais calmo. É que quando vi aquele “almofadinha” todo empoado ali como que dizendo: Olhem como eu sou charmoso, gostoso e bonitão. Todas as mulheres me acham lindo.
         – Pelo menos eu não pensei isso. Aquele bigodinho dele não me atrai nem um pouco. Depois já está quase careca.
         – Isso vai acontecer comigo também com o passar dos anos.
         – Mas eu também vou envelhecer, vamos ficar enrugados os dois. Parou para pensar como vamos estar daqui uns vinte anos? Deveria ser possível ver como iremos ficando com o passar do tempo.
         – Acho melhor não. Seria sofrer por antecipação.
         – Vamos falar de outros assuntos, meu bem. Jogue uma pá de cal sobre esse assunto e vamos cuidar de aproveitar nosso tempo juntos.
         Levantaram e foram até o atelier onde Isabel passou a mostrar seus quadros produzidos nas últimas semanas. Dois estavam ainda sobre os cavaletes, esperando completar a secagem. José contou um por um e constatou que ela pintara mais do que havia imaginado. Ao todo eram 20 telas, onde uma nova artista surgia. Se os primeiros que vira há pouco mais de um ano, eram lindíssimos, estes de agora eram divinos. A força do traço, a harmonia das cores, o efeito estético final era estonteante. Cada um mostrava uma nova faceta da pintora. Ela colocava toda sua alma, sua personalidade na pintura.
 
Phragmipedium.

 

Phragmipedium
 
         – Você já tem material para nova exposição aqui. A maioria das exposições não tem muito mais que isso do mesmo artista.
         – Vou expor no ano que vem. Tenho muito que pintar, antes disso. Se for pensar em exposição agora, perco o ímpeto e a inspiração passa.
         – Parece produção em série, igual linha de montagem das fábricas de automóveis.
         – A diferença é que aqui só tem um operário que faz todas as etapas.
         – Estou vendo que daqui a uns anos, existirão mil, dois mil quadros pintados por você. Não vai desvalorizar seu trabalho?
         – Acho que não. Se não tiver tanto valor, mais gente poderá comprar e ter um quadro meu em casa.
         – Tem esse lado. Vamos ver quando você estiver na eternidade o quanto vão valer seus quadros. Ainda bem que não estaremos aqui para ver.
         – Há pintores que em vida passaram fome, até que não venderam um único quadro. Eu já vendi um monte. Ao todo são mais de 150 vendidos.
         Nisso ouviram Maria Luisa chamando para jantar. Recolocaram os quadros em seus lugares e foram para a sala de jantar. Não era boa política fazer os pais esperarem para eles virem participar da refeição. Ao chegarem ali ouviram Onofre resmungar:
         – Pensei que iam ficar naquele atelier até amanhã.
         – Tínhamos que guardar os quadros no lugar para não ficar tudo bagunçado.
         – Quem mandou tirar tudo do lugar?
         – Para mostrar ao José, pai.
         – Estou embasbacado, coronel. Ela está pintando como uma louca. Tem mais de vinte quadros prontos naquele cubículo. Quase tudo ocupado. Logo vai ter que ocupar um outro lugar.
         – Igual antes. Havia quadros por toda parte, – disse Maria Luisa.
         – Nem tanto mãe.
         – Não, é? Eu que sei pois sabia onde estavam. Só faltou por alguns embaixo de nossa cama. Tinha no quarto dela, na despensa, no outro quarto de hóspedes, por tudo.
         – Lembro. Quando começou a tirar quadro não parava mais de sair. Era de toda parte.
         – Nem posso dizer nada, afinal você ajudou a carregar tudo.
         – Ansim o’cê vai gastar o estoque de tinta da cidade tudo.
         – Isso eles providenciam depressa. Nem se preocupe, pai.
         O jantar transcorreu em silêncio depois disso, ocupados que estavam em comer. Terminada a refeição foram sentar-se diante do aparelho de TV assistir ao Jornal Nacional. Era preciso ficar ao par das notícias do país e do resto do mundo. Em um momento apareceu o italiano, chegando de retorno à capital. Acabara de desembarcar e ia pegar um taxi para dirigir-se ao hotel. Não quis dar explicações sobre suas andanças durante o dia. Ninguém o havia visto viajar e os repórteres estavam curiosos por saber onde estivera. Por mais que tentassem, não conseguiram que seus lábios emitissem algo além de um sorriso pouco expressivo.
         Deixou literalmente claro que aquele dia não faria parte dos noticiários mundiais. Ele o vivera somente para si e não tinha disposição de partilhar o que havia acontecido. Ninguém saberia onde estivera, salvo se algum jornalista de Sete Lagoas o associasse à sua passagem rápida pela cidade. Esperava que isso não acontecesse. Quanto menos se falasse nesse evento, melhor seria para ele. Chegou ao hotel e depois de pagar a corrida, entrou rapidamente, sumindo de vista.
         Em pouco tempo uma pequena multidão de repórteres jornalísticos e televisivos, fotógrafos e cinegrafistas se formou diante da portaria do estabelecimento. Houve um pequeno tumulto quando os seguranças pediram que o acesso aos clientes ficasse desimpedido. Alguns se exaltaram tentando reivindicar direitos de informação. O gerente chegou perto e lhes falou:
         – Aqui é propriedade privada e eu peço que não criem tumulto. Se isso ocorrer, não vou hesitar em chamar a polícia. Portanto, fiquem afastados da entrada do hotel. Estão impedindo nossos clientes de acessar e deixar o lugar livremente. Isso é invasão de propriedade privada.
         Um mais alterado tentou argumentar mas ele virou-lhe as costas e voltou para o interior. Pegou o telefone e começou a discar. Nesse momento a turba se deu conta de que as palavras haviam sido ditas a sério. Os mais moderados acalmaram os outros e foram se postar em posição que não atrapalhasse o livro acesso ao estabelecimento. Vendo isso o gerente deixou a ligação ao meio. Na verdade apenas fizera o gesto de discar para mostrar que não estava brincando, fazendo ameaças vazias. Não havia por que temer.
         Em pouco tempo houve quem ligasse de Sete Lagoas afirmando ter visto o artista lá entre o meio dia e as cinco horas da tarde. Almoçara num restaurante, conversara com pessoas e de um momento para outro entrara no hotel para logo depois sair apressadamente e retornar a Belo Horizonte. Ninguém havia feito imagens, apenas a informação falada. Quando a ser a mesma pessoa não restava dúvida, uma vez que ao chegar ainda vestia as mesmas roupas com que se apresentara lá. Não houvera tempo de trocar, na rápida saída do hotel.
         A exposição transcorreu normalmente, vários trabalhos do pintor foram adquiridos por colecionadores e ele seguiu seu roteiro por outras capitais do país. Demorou ao todo quase três meses em sua tourné. No dia de seu embarque para a Europa, antes de ir para a área de embarque aproveitou e mandou a mensagem para Isabel:
         – Tchau, bella Isabel Pires. Io volverei.
         Ninguém entendeu o que ele quisera dizer, pois ninguém associara o nome à jovem pintora mineira. O jornalista que ligara informando da sua estada na cidade, ouviu a mensagem e associou as coisas. Tentou investigar o assunto, mas deparou com um mutismo total.
 
Catleya.

 

Catleya.
 
         Isabel e José Silvério estavam de casamento marcado. Ao mesmo tempo a artista estava expondo sua produção mais recente na galeria de Sete Lagoas. O trabalho de poucos meses era um acervo de mais de cem pinturas. Era uma artista aparentemente nova, não guardando nada de sua primeira exposição. Os entendidos no entando, colocando os trabalhos lado a lado, conseguiam perceber a semelhança no traço firme, na harmonia das cores. Apenas o vigor, a energia que transpareciam nos novos quadros era a antiga multiplicada por dez. Pareciam ter vida própria seus novos trabalhos.
         Os visitantes eram unânimes em elogiar as pinturas ora expostas, sem no entanto deixar de gloriar os antigos. Uma verdadeira multidão de visitantes veio ver e fazer ofertas de compra. Por sugestão do agente, não haviam sido colocados preços mínimos nas pinturas. Quem quisesse fazer ofertas poderia fazê-lo, mas não havia promessa de aceitação. Esperariam para ver os valores que iriam aparecer e assim avaliar mais adequadamente os trabalhos. No mês seguinte seguiriam para Belo Horizonte e já estavam em negociação com São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre para novos eventos. Não tardaria para aparecerem os representantes de galerias europeias para negociar contratos.
         O mês de maio estava reservado para o casamento e a viagem em lua de mel. Nada seria planejado para esse mês. Mesmo nos demais meses do ano, teriam um limite para aceitar contratos. Estariam vivendo os primeiros meses de casados e pretendiam ter sempre alguns dias para estarem juntos. A fúria interior de Isabel estava temporariamente aplacada, mas não extinta. Poderia dizer que o vulcão estava adormecido, mas a qualquer momento poderia entrar em erupção com todo vigor. Cada dia que vivia, cada cena que visualizava, acrescentava um pouco de energia ao seu íntimo.
         As exposições nas capitais brasileiras foram escalonadas ao longo do resto do ano, permitindo no intervalo entre uma e outra a estadia em casa ou um recanto sossegado para viverem seu amor. O mês de maio chegou e no dia 6 foi realizada a cerimônia de casamento, presidida pelo vigário da igreja matriz e o juiz de direito. Foi uma celebração conjunta, seguida de uma recepção movimentada no clube local. A comida e ornamentação foi contratada com um fuffet fundado recentemente. Foi o maior evento que eles já haviam organizado. Se esmeraram ao máximo para que tudo saísse a contento e realmente foi isso que aconteceu. Por volta de 15 horas os noivos embarcaram em um pequeno avião que os deixou no aeroporto de Belo Horizonte.
         Ali chegando fizeram o check-in e foram para a área de embarque. Antes das 18 horas decolavam rumo ao Recife de onde pegaram outro voo para a França. Ficariam uma semana em Paris, depois iriam até outras cidades, mas não revelaram para ninguém, exceto os pais, onde estariam. Queriam paz e tranquilidade.
         Os dias idílicos vividos foram fartamente registrados em fotografias e filmes em Super 8. Queriam guardar lembranças para reverem muitos anos depois. Depois de visitar todos os lugares dignos de serem vistos em Paris, alugaram um carro e foram até a Alemanha. Visitaram Bohn, Stutgard, Colônia e depois foram para Austria onde visitaram Viena e outras cidades. Por último foi a vez da Suiça, onde pegaram o degelo, pois se avizinhava o verão. Antes de retornarem passaram por Milão, Roma e de lá tomaram um voo para o Brasil. Traziam na bagagem uma enormidade de lembranças de todos os lugares visitados. Porém o tesouro mais precioso que tinham eram as lembranças de cada momento partilhado nos lugares mais incríveis do mundo.
         Algumas semanas depois de voltarem e se instalarem em um apartamento adquirido na cidade, foi a vez de Isabel viajar para Porto Alegre para sua primeira aparição no cenário artístido da capital gaúcha. Ao voltar, já estava pensando na próxima que era Curitiba, vindo na sequência Salvador, Recife e por último Rio de Janeiro. Isso encerraria o ano de 1980. Era o primeiro ano do governo do último presidente do regime militar. Por toda parte espoucavam manifestações em prol de abertura política, grandemente favorecida pelo programa de abertura posto em marcha pelo General João Batista Figueiredo, ocupante atual do palácio da Alvorada.
         Nos dias que Isabel estava longe, José ia frequentemente à fazenda para ver como estavam os sogros, ambos já um pouco debilitados. O distanciamento em relação à filha devido ao seu trabalho, parecia ter abalado os dois idosos. Talvez o anúncio de um neto a caminho conseguisse levantar o ânimo dos dois. Quando terminou o périplo de viajens e perídos de afastamento, foram passar algumas semanas na fazenda. José vinha cedo para cidade e voltava ao anoitecer. Foi nesse período que ela notou o atraso em suas regras. Inicialmente pensou que seria um alarme falso, mas na medida que os dias avançavam e nada acontecia se convencia mais de que estava grávida. Quando amanheceu e logo depois ao escovar os dentes sentiu um acesso de enjoo violento seguido de vômito, teve certeza. José já havia partido ela não teve como ocultar o fato de Maria Luisa.
 

 

Phalenopsis.
Phalenopsis.
 
         A mulher idosa não poderia ter tomado um elixir mais poderoso do que esse. Pareceu recobrar o vigor instantaneamente. Milhões de ideias logo povoavam sua -aí a fora. Onofre que fora ver o café nas proximidades, já iniciando a maturação, chegou e viu as duas numa agitação só. Parou na porta e perguntou:
         – Uai! Que é qui aconteceu?
         – Senta aí, meu veio. Escuta sentado ou vai cair sentado.
         – Por mode que eu vou cair sentado?
         – Ocê vai ser avô!
         O homem teve um tremor, levando as duas a temer pela sua saúde. Parecia ter recebido um choque. Mas logo mais soltou-se lhe a língua e desandou a falar sem parar. Dizia a todo momento:
         – Uai sô! Um neto! Não me diga que vou ter um neto?
         O último a saber da novidade foi o pai da criança que iria nascer. Quando chegou em casa, um pouco atrasado devido a uma audiência que se estendeu além da hora, foi recebido pelo sogro na beira da varanda, numa excitação que não via há tempo. Estranhou o fato e foi logo perguntando:
         – Aconteceu alguma coisa, coronel?
         – Adivinha, meu genro. Nóis tamo na maior felicidade.
         – Mas qual é o motivo de tudo isso?
         – Home! Ocê vai ser pai. Eu vou ser avô.
         – Mas como, quando souberam?
         – Hoje cedo, Isabel, sua mulher levantou com enjoos e está com as regras atrasadas faz mais de mês. Ela está grávida e estão as duas lá dentro fazendo milhões de planos para a criança.
         José não esperou um instante e correu até onde estava a esposa. Ao vê-la estacou e ficou olhando para ela. As duas nem haviam percebido a presença dele, tão ocupadas estavam com os planos para a criança por nascer. Foi preciso perguntar:
         – Alguém pode me dizer o motivo de tanto alvoroço?
         – Muito simples, meu amor. Você vai ser pai. Não vai dar um abraço e um beijo na mãe do seu filho?
         Levantou-se e caiu nos braços do marido. Ficaram um tempo interminável naquele amplexo. Os corpos pareciam se fundirem e ora rolavam lágrimas ora sorrisos se estampavam em seus rostos. O que menos se ouvia eram palavras que entre eles eram desnecessárias. Tinham uma sintonia tão fina que se comunicavam apenas pelos gestos e sinais do corpo. Aquela foi uma noite de muita alegria. Os dias que se seguiram foram testemunhas de um verdadeiro milagre na vida dos avós. Quem logo foi informado da novidade foram os avós paternos também e se estabeleceu um intenso vaivém da cidade para a fazenda e vice versa. Era o primeiro neto ou neta de ambos os lados.
         Se os avós tiveram uma injeção de ânimo com a notícia, José adquiriu uma postura ainda mais firme e decidida no seu trabalho. O relacionamento com os colegas e demais pessoas ficou mais cordial do que já era antes. Queria tornar o mundo um pouco melhor para esperar o filho que estava por nascer. Havia toda uma série de providências a tomar. Havia exposições acordadas para o decorrer do próximo ano e seria necessário algum ajuste, tendo em vista a nova situação da pintora. Haveira necessidade mais tempo de descanso, mais cuidado com o uso das tintas por causa de seus componentes químicos.  
         O menino nasceu no final do mês de julho. As demais exposições do segundo semestre haviam sido renegociadas para o próximo ano. Os primeiros meses de vida seriam exclusivos do filho. Quando ele tivesse condições de acompanhar a mãe, ela retomaria as viagens, sem no entanto exagerar para não submeter o pequeno ser a excessos de stress, exposição pública e demais riscos. José estava eufórico com o nascimento do filho. Em comum acordo com Isabel decidiram batizar o rebento com o nome Pedro Onofre da Silva. Dessa forma os avós ficaram ambos cheios de razão. O neto levava o seu nome. Pouco importava se era o primeiro ou segundo nome, pois dizer os dois juntos soava melhor do que qualquer um deles separadamente.
         O tempo passou, chegou 1982. O pequeno Pedro Onofre já podia viajar e acompanhou a mãe em várias viagens. O pai acompanhava a família quando era possível, mas a carga de trabalho no escritóri estava elevada, mantendo-o na maior parte do tempo em casa. O que mais maltratava nesse tempo era a saudade imensa que sentia dos dois seres que mais amava no mundo. Deitar na cama e imaginar que sua mulher e o filho estavam a milhares de quilômetros de distância, era um verdadeiro tormento. Mas o tempo passou e cada reencontro era motivo de grande regozijo. Os avós viajaram ao encontro da filha e do neto na Itália. Lá ocorreu o encontro de Isabel com Giovanni.
         Ele elogiou o filho e não demonstrou nada do que parecera algo tão certo na ocasião de sua ida ao Brasil. Pelo menos ele soube disfarçar muito bem. Ao contrário do que parecia, ele não sentira sua paixão por ela diminuir e agora, feliz em sua maternidade recente, estava mais radiante que antes. A vida do casal foi uma sucessão de períodos de afastamento e reencontros emocionantes. Pedro Onofre com o tempo ganhou a companhia de um irmão e duas irmãs, espaçados por intervalos de aproximadamente dois anos. Quando Tancredo Neves e José Sarney estavam prestes a subirem a rampa do palácio de governo, Isabel estava grávida pela terceira vez. A longa agonia do presidente eleito, mas não empossado, antes de sua morte, foi um período que comoveu todo o país, especialmente sua terra natal o estadode Minas Gerais.
         Na época do processo de impeachment de Fernando Collor de Melo Pedro Onofre estava completando 10 anos de vida. Os pais viviam suas vidas profissionais conseguindo com bastante sacrifício harmonizar suas agendas tão diversas. Com o tempo passaram a residir a maior parte do tempo na cidade por causa das crianças que tinham que ir a escola. Nos finais de semana quase sempre iam para a fazenda, salvo um final de semana que era destinado ao encontro com os avós paternos.
         Quando cresceram eles seguiram diversas carreiras, menos as dos pais. A mãe Isabel, reduziu o número de exposições e concentrou seu trabalho em um leque menor de opções. Tinha agora a opção de escolher a dedo onde e quando queria expor seus trabalhos. Assim a convivência com o marido e os filhos pode se tornar mais efetiva. Assim aumentou a harmonia geral. Os avós assistiram aos primeiros passos dos netos na vida acadêmica, antes de partirem para a eternidade.

 

                        Fim.
 
Orquídea.

 

Orquídea.

 

Paphiopedilum.
 

Mineiro sovina! – Capítulo XVI

 

16. A exposição acontece.
           
            O tempo passara célere e o dia da inauguração da exposição de Isabel na galeria de arte da cidade estava próxima. Os últimos dias foram de uma azáfama intensa. Havia uma porção de coisas lembradas na última hora e requeriam a atenção do responsável pelo evento. Os álbuns fotográficos dos trabalhos haviam sido enviados para a capital Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro e outros centros culturais de relevância. Diversos especialistas haviam confirmado presença na dia da inauguração ou durante os dias em que exposição ficaria aberta.
            José Silvério, dois dias antes da inauguração obteve uma confissão completa e incontestável, resultando na condenação inapelável do réu. Isso foi motivo de celebração no escritório. A equipe em peso veio abraçar o mais jovem advogado pela sua indiscutível habilidade na condução do interrogatório do acusado. Suas anotações foram imprescindíveis para alcançar o objetivo que tinha em mente. O julgamento em questão virou peça de estudos e passou a integrar o rol dos processos famosos. Uma artimanha, um ardil com as palavras certas levara o acusado a se delatar, tornando, a partir daí, infrutíferas as tentativas dos advogados de defesa em sequer amenizar a pena.
            A sentença foi finalmente proferida já altas horas da noite. Toda equipe de acusação, bem como defesa e jurados estava exausta. Foi com um suspiro que todos ouviram o juiz pronunciar os termos condenatórios e por fim encerrar a sessão. O réu, agora condenado, foi conduzido à carceragem, de onde seria recambiado para a penitenciária em Belo Horizonte. O promotor junto ao qual José Silvério atuara na acusação, apertou calorosamente a mão do assistente. Em seguida falou:
            – Doutor! Lhe devo um enorme favor.
            – Por quê o senhor me deve algo?
            – Se não fosse a sua habilidade com as palavras, estaríamos agora vendo o passarinho sair voando livre e desimpedido. Nunca mais o pegaríamos. Assim ele vai ficar uma boa temporada engaoiolado.
            – Nada não, doutor. Apenas usei as palavras de maneira correta. O resto ficou por conta dele.
            – Essa é a questão exatamente. A forma como usou as palavras, como colocou a pergunta, induziram ele em contradição. Quando viu o que tinha falado, não havia mais como retornar. Caira na armadilha e foi só apertar o laço.
            – Foi para isso que estudei tanto tempo, me preparei para o exame da OAB. Na última semana passei horas me debruçando sobre os autos do processo até encontrar o ponto que procurava. Preparei as minhas questões, prevendo possíveis respostas evasivas e joguei a isca. O peixe caiu direitinho.
            – Será meu convidade para jantar no melhor restaurante num dia desses. Eu ligo para combinarmos.
            – Eu aproveito para lhe convidar a visitar a exposição de pintura de uma amiga muito querida. A inauguração é sábado na galeria e vai até o outro domingo.
            – Mas ela já tem alguma fama, ou é iniciante?
            – Primeira exposição. Mas tem mais de cem quadros pintados desde cedo. Enquanto fazia o curso de pintura pintou os primeiros trabalhos e evoluiu gradativamente.
            – Gente da terra?
            – Filha de um cafeeicultor do município.
            – E o pai no mínimo foi seu cliente! Estou certo?
            – Foi sim e eu trouxe uns quadros para o especialista ver. O resultado foi que o homem ficou encantado. Na galeria vai ser possível ver todo o crescimento artística da moça. Vale à pena conferir.
            – Sou apreciador e até entendo um pouco do assunto. Vou ver sim e, se possível, adquirir um ou dois para minha coleção particular. Podem vir a valer um bom dinheiro se ela se tornar mínimamente famosa.
            – Fique à vontade. Ela vai adorar saber que há quem aprecie as suas pinturas.
            – Nos veremos na exposição e semana que vem lhe ligo para marcarmos o jantar.
            – Será um prazer doutor.
            – Somos colegas, doutor.
            – Boa noite. Vou descansar. Amanhã ainda tenho umas audiências pela manhã e à tarde para variar.
            – Vá com Deus, amigo.
            José Silvério foi para a porta de saída, levando em sua valise os papéis que levara para usar no julgamento. Guardaria aquele material como relíquia. Tivera uma atuação brilhante mesmo. Sentia que esse momento ficaria marcado em sua vida profissional. Ao chegar em casa a mãe estava preocupada com sua demora. Habitualmente ele chegava mais cedo ou então lhe ligava avisando que iria se atrasar. Estando no recinto do juri não havia possibilidade de sair nos momentos mais críticos da sessão. Somente ao terminar pudera sair. Nem se dera mais ao trabalho de procurar um telefone público. Em minutos estaria em casa.
            Precisou esclarecer o motive de tudo. Ao saber de tudo a mãe ficou exultante. O seu filho estava atingindo o sucesso que procurara com tanta dedicação e empenho. Em pouco tempo seria olhado como advogado de gabarito. Todos os sacrifícios que ela e o pai haviam feito durante os longos anos de estudos na capital, estariam sendo recompensados. Serviu-lhe o jantar e ele sentou-se para comer. A mãe era toda solicitude e desvelo. Chegava ao exagero. Sua irmã se estivesse ali ficaria enciumada. Voltaria em pouco tempo do cinema onde for a com o namorado.
            Logo o pai veio da sala de televisão e conversaram, ficando também ele satisfeitíssimo com o desempenho do filho.
            – Pelo jeito você está chegando no topo, meu filho.
            – Ninguém no escritório quis pegar essa causa de hoje. Julgavam tempo perdido conseguir a condenação do acusado. Agora que está superado, o problema parece fácil. Na hora não foi brincadeira. Bastaria uma palavra errada, uma entonação titubeante, e ele me escaparia.
            – Mas então estamos diante de um advogado de alto gabarito. Isso merece uma comemoração. Traz aí um vinho.
            – Que é isso pai? Não precisa. Se eu beber agora, amanhã não levanto cedo.
            – E uma taça de vinho vai fazer o que? Vai te fazer dormir melhor.
            Em instantes uma garrafa de bom vinho teve a rolha retirada e as taças foram servidas. Levantaram um brinde:
            – Ao mais novo e famoso advogado de Sete Lagoas!
            – E aos melhores pais do mundo!   
            Os cristais tilintaram e todos beberam um gole do vinho. José continou comendo enquanto os pais ficaram ali, dando sinais de sentirem um orgulho enorme pelo desempenho dele. Quando estava terminando de jantar, chegou a irmã. Ao ver o vinho aberto quis saber o motivo da comemoração.
            – Seu irmão hoje subiu mais um degrau na fama entre os advogados da cidade. Conseguiu a condenação daquele assassin que todos diziam que seria absolvido. Foi a habilidade dele que fez a diferença.
            – Deixe-me abraçar esse homem famoso. Parabéns mano. Eu sabia que iria ficar famoso logo.
            – Você também vai chegar lá.
            – José, esse é Luiz Carlos, meu namorado.
            – Olá cunhado! Tudo bem com você?
            – Tudo ótimo. Parabéns pelo sucesso.
            – Obrigado, Luiz Carlos. Precisamos nos conhecer melhor.
            – Vocês vão ter tempo para isso. Ele vai estar por aqui frequentemente.
            – Gente! Estou exausto. O dia foi longo e cansativo. Vou tomar um banho e dormir. Tenho que levantar cedo amanhã.
            – Durma bem, José. Depois de um gole de vinho e bom janta, vai dormir igual um bebê.
            – Estou precisando. Boa noite a vocês. Sua bênção pai e mãe.
            – Deus lhe abençoe, filho, – disseram os pais em uníssono.
            – Boa noite mano. Durma com os anjos.
            Foi para seu quarto e alguns minutos depois terminava de tomar uma ducha refrescante. Vestiu o pijama, conferiu sua agenda do dia seguinte e deitou par adormir. Elevou o pensamento a Deus pedindo que a exposição de Isabel fosse um sucesso, assim como sua vida pessoal estava virando um sucesso brilhante. Bastaria um empurrão inicial para fazer decolar a carreira da mulher que ele amava em silêncio. Mesmo assim fazia tudo que fosse possível para que ela alcançasse um lugar no mundo artístico.
            As audiências da sexta-feira eram preparatórias de julgamentos posteriors. Em ambos os casos ele atuaria como advogado de defesa. O promotor que no dia anterior estava ao seu lado, estaria na acusação e tentariam medir suas forças intelectuais. Esforçou-se por conseguir o julgamento mais justo possível do seu cliente. Não concordaria em provar inocência de réu confesso, pois isso iria contra as suas convições. Faria o possível para que no dia do juri o acusado recebesse a melhor defesa possível, dentro dos termos da lei. As duas sessões não foram demasiadamente cansativas e ainda cedo estava em casa. De seu quarto ligou para a fazenda, pedindo para falar com Isabel.
             Foi informado de que ela estava na cidade, para cuidar dos últimos detalhes da exposição. Coronel Onofre e a mãe viriam no dia seguinte para a inauguração. Pediu o hotel onde estava hospedada e depois ligou para lá. Em instantes ouviu a voz querida dizendo:
            – Alo!
            – Isabel!
            – Sim, sou eu.
            – José Silvério. Está livre daqui a pouco?
            – Tenho um compromisso, mas é rápido.
            – Aceita jantar comigo?
            – Onde?
            – No lugar que você quiser. Preciso contar umas coisas e desejar sucesso amanhã.
            – Daqui a uma hora estarei esperando. Pode ser?
            – Passo aí lhe pegar. Vamos comer uma comidinha muito fina.
            – Vou ir agora, para não me atrasar.
            – Até depois então.
            Os telefones foram desligados e José cuidou de seu banho, caprichou na barba, dando um último retoque. Usou um perfume suave que ele descobrira ser do agrado de Isabel. Vestiu-se com esmero, sem ostentação. Avisou a mãe de que iria jantar fora. Ela quis saber com quem e ele desconversou. Ficou imaginando quem seria a companhia de seu filho. Será que ele estava sendo tão inteligente na escolha da mulher como se mostrava nos tribunais? Decidiu deixar isso nas mãos de Deus. Esperaria o tempo passar e veria no que isso resultaria. O filho era adulto, profissional e saberia tomar conta de sua vida. Não era mais o seu bebê, como muitas vezes se via no dia a dia.
            Assistiu um pouco de televisão, vendo um jornal local e depois embarcou em seu automóvel, indo buscar Isabel. Ela acabava de chegar do compromisso de última hora que tivera que dar atendimento. Era na verdade uma entrevista a uma equipe de jornalismo da televisão e radio, sobre os seus quadros que seriam expostos na galeria. Mal teve tempo de ir até o seu apartamento pegar uma blusa leve para se proteger do ar mais frio da noite. Desceu e falou:
            – Podemos ir, doutor.
            – Não me chame de doutor, Isabel. Para você sou José.
            – Então José, podemos ir.
            – Assim está melhor. Apenas José.
            Embarcaram no automóvel e foram a um dos restaurantes mais refinados da praça. Ele usare o telefone do quarto para fazer uma reserva de última hora. Graças a Deus conseguira. Chegaram, ele entregou as chaves a um manobrista e conduziu Isabel para a entrada do estabelecimento. Ela ficou maravilhada com o luxo da instalação. Nunca estivera em um restaurante desse nível. Mesmo sendo filha de quem era. O pai não ligava para isso.
            – Aqui você vai conhecer um pouco da alta sociedade de Sete Lagoas, Isabel.
            – Que chique! Quanto luxo! Dá até medo de entrar e sujar.
            – Nem se preocupe. Tem gente para limpar tudo depois. Para isso a gente paga. Tudo isso está incluido no preço dos pratos.
            – Mas que dá pena, isso dá.
            – Vamos ver nossa mesa. Está reservada. Deve ser aquela ali.
            Nisso um garçom se aproximou e perguntou se poderia ajudar.
            – Reservei uma mesa para duas pessoas.
            – Seu nome?
            – José Silvério.
            – Ah! O doutor José Silvério! Sua fama já chegou por aqui. Seja bem vindo a nosso estabelecimento. Por aqui.
            Levou o casal até a mesa cuidadosamente posta à sua espera. Quando ligara o gerente imediatamente ligara o nome ao julgamento do dia anterior e eixigira dos subalternos o máximo de esmero no serviço.
            – Sentem-se por favor! – disse o garçom puxando as cadeiras.
            – Obrigada! – falou Isabel sentando.
            Na mesma hora surgiu nas mãos do garçom o cardápio e colocou um exemplar nas mãos de cada um deles. Ao mesmo tempo perguntou:
            – Aceitam a entrada da casa para hoje?
            – Podemos testar para ver se faz jus à fama, não acha Isabel?
            – Por mim pode ser.
            – Pode trazer. Enquanto isso examinamos o cardápio.
            – Com sua licença, – e o servente se retirou em busca das entradas.
            – Está ficando famos, doutor, alias José.
            – Consequências do trabalho. Não tem como não ficar conhecido. Prefiro ser conhecido e famoso por fazer coisas boas do que por outros motivos.
            – Não resta dúvida. Eu estou nervosa até o último. Não vejo a hora de terminar a inauguração. Nos outros dias tudo vira rotina, mas no primeiro é um sufoco.
            – Por isso eu lhe trouxe aqui hoje. Precisa pensar em coisas diferentes e bonitas. Boa comida e bebida ajuda a deixare a cabeça em melhores condições.
            – Tomara que isso me ajude. Aquela entrevista foi de fazer suar. Me senti flutuando diante das cameras, microfones e tudo isso.
            – Depois você acostuma e vira rotina também.
            Nisso o garçom chegou trazendo as entradas. Eles haviam escolhido para prato principal salmão, acompanhado de aipim, saladas e tempero leve. Não queriam complicações digestivas para o dia de sábado. Enquanto eles comiam os petiscos da entrada e degustavam uma tacinha de aperitivo à base de maracuja, o garçom providenciava os pratos. José Silvério, aproveitou para perguntar:
            – Isabel! Se seu pai concordar, você aceita ser minha namorada?
            – Assim de repente? Não posso pensar um pouco?
            – Eu pedi a seu pain a primeira visita, mas cometi o erro de levar cigarros e fósforos. Ele aceitou um cigarro. Eu gastei dois palitos de fósforos para acender o dele e outro para mim.
            – Já sei o que aconteceu. Ele lhe chamou de perdulário. Onde já se viu gastar dois palitos de fósforos se havia fogo na lareira.
            – Mas ele contou isso?
            – Não. Eu conheço a figura. Ele é sovina como todo mineiro que se preze.
            – Bem, se ele tivesse lhe contado eu iria ficar envergonhado. Mas acho que já posso provar a ele que não vou lhe fazer passar fome depois de casados.
            – Isso só poderia vir de papai. Ele logo pensa em penúria, passar fome e essas coisas. Mas esse é assim e não muda nunca.
            – Eu agora tenho uma posição ótima no escritório, estou ganhando notoriedade profissional. Ganho bem e então vou poder dar a você a vida que merece.
            – Então esses meses todos você está esperando a hora para falar comigo?
            – E eu iria querer afrontar o coronel?
            – Não lhe ocorreu que eu poderia pensar diferente?
            – Espero não tê-la ofendido.
            – Ofender não, mas poderia ter falado comigo antes disso. Eu também fiquei balançada quando lhe vi a primeira vez ali no escritório. Mas pensei que um advogado da cidade não iria querer saber de uma moça da fazenda.
            – Ah! Sim senhorita. Uma moça da fazenda que pinta quadros lindíssimos e logo vai alcançar fama no mundo das artes.
            – Se conseguir vender meus quadros, ganhar alguma coisa com eles já me sinto contente. Nem almejo fama.
            – Escreva o que estou falando. Vou querer garantir minha vez nessa fila antes de os gaviões das capitais colocarem os olhos na sua beleza.
            Os pratos pedidos chegaram e a conversa foi interrompida. O mais importante agora era saborear o sabor do excelente peixe, com o aipim, um crème de legumes, saladas de tomates e alfaces. Para completar pediram um vinho branco de boa procedência. A refeição demorou quase duas horas, desde a hora da chegada até o final. Às 22 h e 15 minutos eles estavam saindo. O vinho que tinham bebido não era dos mais fortes em teor alcoólico e seu efeito já estava terminando. José levou Isabel até a portaria do hotel e antes de se despedir repetiu a pergunta:
            – Você aceita?
            – Aceito, José. Desculpe. Nossa conversa lá no restaurante me fez esquecer de dar a resposta.
            – Sempre é tempo, querida. Posso lhe dar um beijo de boa noite?
            – Aqui em público?
            – Apenas no rosto, é claro.
            Ela aproximou o rosto e ele depositou um beijo suave nas us face. Depois levou a mão aos lábios, beijando-os também.
            – Boa noite e durma bem. Quero você deslumbrante amanhã.
            – Vou fazer o possível.
            Chegou a hora da inauguração. As horas do sábado correram depressa e ao se darem conta era hora de estar a postos para a cerimônia. Uma pequena multidão de fotógrafos, cinegrafistas e reporteres estavam presentes. A fita inaugural foi cortada por Isabel, auxiliada pelos pais. Em seguida os convidados de honra, autoridades, pintores, escultores e outros expoentes do mundo artístico puderam apreciar em primeira mão os quadros. Estavam dispostos traçando a trajetória da artista e a cada passo os visitantes ficavam maravilhados com a clara evolução da técnica. A cada obra o traço ficava mais definido, as cores se fundiam e destacavam ao mesmo tempo, formando um conjunto de uma harmonia incrível. Um coquetel foi oferecido aos convidados e depois a galeria foi fechada. Seria aberta no dia seguinte às 14 horas e ficaria aberta até às 22horas.
            Seria a vez dos visitantes com ingressor, vendidos a preços pouco mais que simbólicos. Dariam, se houvesse um afluxo razoável, para cobrir os custos gerais do evento. Os dias seguintes foram uma verdadeira roda-viva. Os quadros começaram a ter propostas de compra que foram recebidas. No final seriam abertos os envelopes e levaria a obra quem oferecesse o valor mais alto. Desde já ficava reservado à artista o direito de levar os trabalhos, mesmo os vendidos, para a exposição que seria organizada no mes de dezembro em Belo Horizonte. Ao chegar a hora de encerrar, havia uma bela pilha de envelopes com propostas pelos diversos trabalhos.
            Incluindo o último, pintado especialmente para a exposição, todos eles tinham propostas de compra. Fariam a abertura na segunda feira. Depois seria feita a comunicação aos vencedores. Uma porção de escolas levaram os alunos para ver a exposição, sendo que foi feito um acordo para permitir o acesso aos alunos dos estabelecimentos mais carentes. A entrada era franca. O afluxo de visitantes era constante durante todas as horas de abertura da galeria. Assim, o valor arrecadado na venda dos ingressos cobriu folgadamente as despesas e os quadros foram arrematados em sua totalidade por valores até cinco vezes superiors ao mínimo que haviam estabelecido.
            O organizador ficou radiante. Assim ganharia uma bela comissão e teria em mãos uma jóia rara. Levaria seus trabalhos para Belo Horizonte e depois para São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e outras capitas. Talvez até para o exterior, se fosse possível reunir todas ou bom número dos trabalhos. Entre os compradores havia inclusive representantes do exterior. Um colecionador francês havia adquiriro dez dos mais bonitos e queria que o acervo todo fosse levado para França no momento oportuno.

 

            Os adquirentes ficaram muito satisfeitos e concordaram em ceder temporáriamente as obras para integrar exposições em diversos outros centros artísticos. Isso significaria uma grande valorização para o seu investimento. 

Mineiro sovina! – Capítulo XIV

 

Exposição se aproxima.
        Diante da proposta trazida por Estevão, José Silvério sentiu necessidade de visitar seu cliente. Mandar recado e pedir que ele viesse até o escritório, estando ele ainda em recuperação das consequências do atentado, era inconveniente. Também estava com vontade de rever a bela Isabel. Saber em que estágio estava a questão da exposição de seus quadros. Até mesmo ouvir sua voz melodiosa lhe fazia bem. Verificou sua agenda para o outro dia. Remanejou uma entrevista que estava marcada para as últimas horas da tarde para um pouco mais cedo.
            Com isso poderia sair às 4 h e haveria tempo de discutir com o coronel a questão do acordo proposto e também matar a vontade de ver a filha. Fazia esforço para colocar maior empenho nos aspectos profissionais da visita, mas não conseguia êxito por muito tempo. Logo a imagem inconfundível de Isabel ocupava seus pensamentos e ficava difícil concentrar-se em outra coisa. Pegou em sua gaveta, numa caixa trancada à chave, algumas fotos da moça e assim passou um tempo contemplando os traços delicados, que em sua opinião eram perfeitos. Pouco lhe importaria se outrem tivesse opinião diferente. Para ele era a mulher ideal, perfeita.
            Na manhã seguinte, uma quarta feira, tinha um cliente detido para entrevistar e preparar sua defesa na audiência preliminar com o juiz, além de um cliente que viria para tratar de outra questão de litígio de divisas. Assim a manhã passaria voando. Logo depois do almoço tinha a entrevista remanejada que seria, em vista do andamento do processo, coisa rápida, mas tinha que encaminhar alguns documentos de processos em andamento. Não costumava deixar que ficassem acumulados papeis em sua mesa, esperando destino. Se isso acontecesse, uma hora se veria enterrado em uma pilha de papéis e teria dificuldades para por tudo em ordem. Evitava assim o risco de deixare documentos sem o devido encaminhamento, que resultaria em prejuizos no resultado dos processos.
            Às 4 horas avisou que visitaria o cliente na fazenda. Voltaria ao escritório na manhã seguinte. A família estava avisada de sua pequena viagem, sendo provável que retornasse tarde, ou talvez passasse a noite na fazenda. Dependeria de um convite do coronel. Evitaria forçar uma situação que poderia se voltar contra ele na questão de aplainar o caminho para o coração de Isabel.
            Sentou-se ao volante de seu Opala, modelo especial de luxo, recentemente adquirido e percorreu calmamente os poucos quilômetros até a fazenda. Chegou faltando um pouco para as 5 h da tarde e encontrou o coronel sentado tranquilamente na varanda, em sua rede. Vira a pequena nuvem de poeira levantada pelo automóvel e ficara atento para ver de quem se tratava. Ao se aproximar logo percebeu ser o carro do advogado. Empertigou-se na rede e ficou a espera. Logo lhe acorreu a lembrança da ação cuja sentença lhe for a favorável e do inquérito do atentado. Ficou curioso em saber de que assunto o advogado vinha tratar.
            Deixando o belo carro, todo branco com frisos cromados, estacionado à sombra de uma frondosa mangueira, sem frutas nessa época. Se estivesse com carga alguma poderia se desprender e causar danos à lataria do veículo. Nesse momento não corria esse risco. Ao chegar perto da varanda, foi saudado alegremente:
            – Uai! Que ventos lhe trazem aqui hoje, doutor?
            – Vim trazer novidades, coronel.
            – Venha sentar-se aqui e vamo conversa então. Fiquei curioso sobre que novidade o senhor vem trazer.
            Subiu um degrau e sentou-se em uma cadeira de vime que havia ali, à distância conveniente do coronel. Este permaneceu sentado, apenas estendeu a mão ao recem chegado em cumprimento.
            – Pois então, coronel. As novidades são notícias de seu vizinho Juvenal.
            – Qui é que ele está inventando agora?
            – Para lhe dizer sinceramente, eu também não sei ao certo. Mas ontem o advogado dele, doutor Estevão me procurou para fazer uma proposta. Contou uma história engraçada e confesso, fiquei com a pulga atrás da orelha. Mas a decisão é sua e vim lhe contar o que aconteceu. Depois o senhor decide se aceita ou não. Isso é coisa sua. Não quero influenciar. Não me sinto confortável em fazer isso.
            – Uai, home! Desembucha logo então. Aceita uma xícara de café, um biscoito?
            – Pensando bem, não comi nada depois do almoço, um café com biscoito vai cair bem, enquanto conversamos.
            – O Lourdes! …. O Lourdes! Isabel!
            – O que foi meu velho? – perguntou da porta a esposa, atraida com o chamado dele.
            Nisso viu o advogado e cumprimentou:
            – Boa tarde, doutor José Silvério. Como tem passado?
            – Trabalhando bastante. Mas isso faz parte do negócio.
            – Ajuda a tornar a vida melhor eu penso.
            – Exatamente, dona Lourdes. E a senhora como vai?
            – Vou bem graças a Deus. Agora mais tranquila com o fim dessa pinimba com o processo.
            – Ele ainda não terminou totalmente. Mas pode ser que acabe logo.
            – Isso seria ótimo. Essa angústia de não saber o que vai acontecer me deixa muito aflita. Esse atentado sofrido pelo Onofre então, foi a gota d’água para completar.
            – As coisas vão melhorar.
            – O Lourdes! Serve um café aqui pro doutor e traz também uns biscoitos ou um pedaço de bolo.
            – Esperem só um cadinho. Vou providenciar. Dá licença.
            Ela se dirigiu para a cozinha e se pôs a preparar o café, separar os biscoitos, bem como alguns pedaços de bolo que fizera há pouco. De passagem avisou Isabel no atelier que o doutor estava ali. Ela prometeu vir cumprimentá-lo, tão logo terminasse umas coisas que estava fazendo.
            Enquanto o café era providenciado, José Silvério narrou ao coronel o teor da proposta de acordo que recebera e expos suas dúvidas quanto à mudança de atitude do oponente. Ao que o coronel falou:
            – Quem conheceu o pai dele, não diz que esse é filho dele. Homem honesto, trabalhador, direito nos negócios dele, estava ali. O filho parece fruto que caiu e rolou para longe do pé. Devia ser uma ribanceira forte para haver tanta distância.
            – É uma coisa realmente estranha. Os filhos normalmente saem bastante aos pais, salvo algumas excessões. Talvez estejamos diante de uma delas.
            – Lembro como se fosse hoje o pai reclamando dos descaminhos do filho. Quando tinha uns 16 para 18 anos, começou a fazer estrepolias junto com uns maus elementos mais velhos, gente de má conduta mesmo. Diversas vezes o pai teve que tirare le de apuros. Sempre aconselhou e inclusive botou de castigo. Mas diantou não. Parecia que tinha o tinhoso no couro. Não obedecia, fugia de casa e voltava a fazer das suas. Quando o pai morreu, pouco antes ele voltou para casa. Parecia adivinhar que o velho estava no fim. Veio e assumiu a fazenda. Logo deixou claro seu mau gênio.
            – Quanto tempo faz isso, coronel?
            – Coisa de cinco a seis anos se estou bem alembrado.
            – O pai tinha muitas dívidas?
            – Tinha algumas, principalmente por conta dos prejuízos causados pelo Jerônimo. Um par de processos em que foi condenado tendo que pagar indenização. Foi então que eu emprestei aquele dinheiro de que falou na audiência.
            – Em sua opinião ele pode ter se arrependido? Ter lembrado dos conselhos do pai e estar mudando de verdade?
            – Sei não, doutor. Nois costumamo dizer qui pau que nasce ou cresce torno, num endireita.
            – Isso diz o ditado popular. Mas há casos em que a pessoa envereda por um caminho errado e um dia acorda, muda de atitude, passando a ter comportamento exemplar.
            – Contece, mais é dificil. Eu inté qui torço pra qui ele se endereite. Era tão bão no tempo do pai dele. Des que ele veio tocar a fazenda, virou um inferno. Nunca mais tive sossego de verdade.
            – Imagino, coronel. Eu vou deixar o senhor pensar bem no assunto e decidir o que pretende fazer. Vou seguir suas determinações à risca.
            – Vamo tomar um café e comer uns biscoito, antes que esfrie.
            Serviram-se de café que acabara de ser colocado numa mesinha à sua frente, junto com uma luxuosa travessa replete de biscoitos e uma tigela com pedaços de bolo. Comeram alguns instantes em silêncio, que foi quebrado por José Silvério:
            – Esses biscoitos de dona Lourdes são impagáveis. Muito bons. O bolo então é uma delícia.
            – Sempre falo pra Lourdes. Ela me pegou foi pelo estômago e ela diz qui usou a arma que tinha, pra mode mi pega.
            – Além de tudo tem senso de humor invejável.
            – Sempre fois assim. Num tem tempo triste com ela. Memo nas hora mais dificil, ela consegue ficar animada, fazer a gente rir e esquecer um pouco as preocupação.
            – Feliz do senhor em ter uma companheira dessas. Conviver com alguém sempre triste, lamentosa deve ser complicado. Sei minha mãe e pai são parecidos nesse sentido. Um anima o outro nos momento de dificuldades.
            – Eu sempre digo que tenho tudo que pedi a Deus. Meu cafezal, uma muié qui nem a Lourdes, e a fia Isabel. Posso pidi mais arguma cosa? Ach’qui não.
– De fato, preciso concordar com o senhor.           
– É bom saber que o senhor está feliz, pai. – falou Isabel que estava parada à porta da varanda.  
– O fia! Tu tava aí? Num tinha percibido.
– Boa tarde, doutor. Como vai o senhorr?
– Eu estóu ótimo, senhorita. E a exposição, quase tudo pronto?
– Parece que sim. Mas sempre aparece alguma coisa a mais. Acho que nunca se consegue lembrar de tudo, mas tudo mesmo. É bem complicado esse mundo da arte.
– Não é só o mundo da arte. Em toda atividade há os problemas. Mas a superação deles traz no final a alegria da vitória.
– Parabéns pelo seu trabalho na defesa de papai. Soube que foi brilhante!
– Obrigado. É bondade de coronel Onofre.
– Bondade nada! Pura verdade, das verdadeiras mesmo.
– Fico lisonjeado com isso. Senhorita precisa de alguma ajuda, algo que eu possa fazer para facilitar as coisas?
– O organizador está providenciando tudo. Nunca vi alguém com tanta energia, apesar da idade. Parece que tem um motorzinho nele. Não para. Toda hora lembra de algo, apresenta de uma novidade.
– Precisando é só falar.
– O senhor já fez muito me pondo em contato com ele. Espero contar com sua presença na inauguração da exposição.
– E eu iria perder essa oportunidade? Estou curioso por conhecer seus trabalhos um por um. Só vi alguns e foi suficiente para ficar encantado.
– Dentro de quatro semanas é o grande dia. Deve vir gente de Bel Zonte, São Paulo e até Rio de Janeiro. Imagina! Vou ficar perdida no meio de tanto grão fino.
– Vai é brilhar igual uma estrela no meio de uma porção de planetas.
– Agora é o senhor que está exagerando. Mas obrigado pelas suas palavras. Vou buscar o álbum de fotos que foi feito. Foram mandadas cópias para um monte de gente importante e veio uma porção de cartas elogiando, confirmando presença.
– Se me fizer o favor, eu agradeço. Vai ser diferente de ver os quadros ao vivo, mas serve de aperitivo.
Ela levantou e foi até o atelier, voltando em seguida trazendo um álbum volumoso com fotografias ampliadas dos quadros. José Silvério abriu e começou a admirar os trabalhos um a um, soltando um assobio, arregalando os olhos a cada página que virava. Podia-se ver a história artística da jovem. Nítidamente era possível ver o crescimento, apesar do vigor presente desde o princípio. A cada quadro a harmonia do traço, o contraste de cores, enfim o aperfeiçoamento acompanhava a evolução da primeira à última imagem.
– Só de ver o álgum já fico emocionado. Estou imaginando o que dirão os críticos, os apreciadores de arte quando virem seu trabalho na galeria. Já há preços mínimos estabelecidos?
– Sim. Estabelecemos algo não exagerado, para evitar espantar os possíveis compradores. Mas não vai ser colocado a mostra, somente vai ser informado aos interessados em adquirir. Dependendo do efeito isso poderá ser modificado no decorrer da exposição.
– Boa ideia, pois se a aceitação for elevada, é possível pedir algo a mais, pois certamente haverá quem pague o preço.
– Vou querer que escolha um para ser seu presente, doutor.
– Eu estava pensando em economizar para comprar um ou dois ao menos. Vou esperar vê-los na exposição e iluminados adequadamente para fazer a opção.
– O papai está cada vez mais envaidecido com isso. Até parece que o pintor é ele.
– I num era pra ficar orgulhoso? De um dia pro outro toda hora tem gente estranha aí vendo, saindo admirada e falando um montão de coisa. Só podia ficar estufado iguar sapo boi.
– Até eu ficava envaidecido no seu lugar, coronel. Acho que vou andando. O senhor me avisa de sua decisão em relação à proposta do Jerônimo e se for o caso, marcamos um encontro para acertar os ponteiros.
– Mas o senhor não espera a janta? Temo inté um quarto de hospede e pode dormi aqui. Manhã cedo volta pra cidade.
– Não quero incomodar, coronel.
– Incomodo nada, doutor. Senhor é de casa. Vai sê uma honra lhe dar pouso por uma noite. Fia, avisa a sua mãe que o doutor vai pousar aqui. Manda por mais água no feijão.
– Um convite tão gentile u não posso recusar. Mas preciso sair bem cedo amanhã para não chegar atrasado ao escritório.
– Vai ver como nois levanta cedo aqui no mato. O galo canta e nóis alevanta.
Isabel pediu licença e foi até a cozinha, ficando por lá. Ajudava a mãe nos afazeres de preparar a janta. Levou com ela o bule com o resto frio do café, os biscoitos e bolos sobreviventes. Era ótimo respirar o ar do anoitecer ali em meio à natureza. Os cafeeiros estavam terminando de florir e o perfume ainda era perceptivel no ar. Isso dava ao lugar um aspecto peculiar. Era diferente de outras propriedades com criação de animais que tivera oportunidade de visitar. Não havia cheiro de sour, estrume e tal. Não que esses fossem essencialmente desagradáveis, mas as flores deixavam um aroma levemente adocicado no ar.
José Silvério instigou o coronel a contar causos dos tempos de antigamente e ele prontamente atendeu ao seu pedido. Estava próximo dos 60 anos e tinha em sua memória muitas histórias para contar. Contou de como era o trabalho nos tempo de sua infância. Tudo era manual, mais rústico e difícil. Mas era a forma conhecida de fazer tudo e ninguém reclamava. Hoje, com boa parte modificada para automatização, máquinas assumindo o trabalho mais monótono e demorado do processo de produção, havia quem reclamasse das tarefas minimamente cansativas. Precisavam estar aí antigamente para ver como é que a coisa ia.
Uma história puxa a outra e mais outra. O tempo passou e quando viram, a janta estava na mesa. Lourdes veio chamar e permaneceu um momento à porta ouvindo, antes de falar:
– Deixa um pouco de histórias pra contar depois e venham jantar.
– Uai! Mais já tá na hora? Tinha nem reparado que o tempo passou.
– É, coronel. Contando histórias o tempo voa sem a gente ver. Igual o vento. Quando vê, já foi.
– Mas vamo si lava e depois come.
Levantaram e foram até o lavatório instalado ao lado da cozinha para lavarem as mãos. A casa fora construida em tempos passados, ficando devendo um pouco no quesito funcionalidade. Mas coronel Onofre nem queria ouvir falar em trocar de casa. Essa estava é muito boa. Por quê mudar?
Sentaram-se, agradeceram a Deus pelo alimento e começaram a refeição. Nada de especial e as palavras do coronel de botar mais água no feijão faziam sentido. Realmente havia feijão, arroz e salada, além de pão, queijo, nata e melado. Praticamente tudo produto da terra, produzido ali mesmo ou nas redondezas. Comeram devagar, intercalando garfadas de comida com algumas palavras, mais histórias iam sendo contadas, comentários tecidos, observações feitas.
Sentaram-se na sala, onde havia um toca discos e também um televisor. O coronel aderira à modernidade, instalando uma antenna parabólica próximo da casa e também puxara a rede de energia elétrica, tornando as coisas mais fáceis. Assistiram ao noticiário e depois de mais um pouco de conversa, José acompanhou Isabel até o atelier para ver o trabalho inédito que estava elaborando para apresentar na exposição. Não constaria no catálogo. Era algo desconhecido até do organizador. Ele o veria no momento de levar para a galeria.
Era diferente de tudo que produzira até ali. Estava enveredando por uma nova vertente. Pensava em acompanhar a tendência atual da pintura. Faltava uma boa parte do trabalho, mas era possível antever o efeito final. Seria um impacto diferente sobre os críticos e aficionados do mundo da pintura. Isabel explicou as ideias que tinha em mente para a conclusão do trabalho e deixou José de boca aberta. Pelo que ouviu, percebeu que o resultado seria realmente surpreendente. Demonstrou claramente com o brilho no olhar o que sentia.
– O que achou da ideia, doutor?
– Vai ser um sucesso, senhorita.
– A ideia é surpreender. Estou iniciando uma nova fase em meu trabalho.
– Com jeito de ser arrasadora essa sua nova fase. Imagino o que virá no futuro.
– Vou me esforçar para corresponder às espectativas. Tenho que lhe agradecer sempre pelo fato de levar meus trabalhos para serem vistos.
– Isso vai ser orgulho para mim. Ter descoberto um talento tão promissor é compensador o suficiente.
– Vou descansar, pois passei o dia em pé pintando, ou ajudando a mãe na cozinha. Quase não tive tempo de sentar hoje.
– Precisa dar descanso às pernas para não sentir os efeitos mais tarde.
– Costumo fazer pequenas caminhadas a cada duas ou três horas. Movimentar o sangue para não inchar os pés.
– Isso mesmo. Não se descuide e sofrerá menos daqui a alguns anos.
Ao retornarem à sala o coronel tivera tempo de trocar ideias com a esposa Lourdes e falou:
– Doutor! Pode marcar o encontro com o homem, mas no seu escritório. Em outro lugar eu não confio. Vou dar um voto de confiança a ele, mas nunca é demais ser prevenido.
– Com certeza, coronel. Precaução nunca é demais. Em se tratando que gente de passado pouco recomendável, mais cuidado ainda é necessário. Vou marcar a data e lhe mando aviso. Dependendo do caso, venho aqui lhe avisar.
– Estou esperando que a telefônica puxe a linha até aqui para por um telefone. Faz falta.
– Certamente. O telefone poupa muito tempo, evita despesas.
– Enquanto não vem esse dia, temo que levar como dá.
– Tudo ao seu tempo. Um dia ele chega e a coisa se resolve.
– Hora de velho ir para cama. Se quiser ver o filme que vai passar, fica a vontade.
– Acho que vou dormir cedo. Tenho um livro comigo. Leio um pouco e logo adormeço.
– Boa noite, doutor.
– Boa noite, coronel.
Mãe e filha ficaram vendo o começo do filme. José lhes fez companhia e depois foram dormir. Logo cedo estavam todos em pé e por volta de 7 h 30 min. estavam de café tomado. José embarcou no seu carro e percorreu a estrada para Sete Lagoas. Chegou em casa e rapidamente tomou banho, trocando de roupas. Tinha audiência naquele dia e não convinha chegar diante do juiz de roupa amassada. A apresentação pessoal era muito importante. Não podia descuidar desse particular.
Ainda pela manhã ligou para o colega Estevão e agendaram o encontro entre os dois vizinhos para a terça feira da semana seguinte. Daria tempo de avisarem aos clientes e estes se fazerem presentes no escritório da Advogados Associados. José antegozava o momento de rever Isabel. Não se importava com o fato de se necessário levar o recado ao coronel pessalmente. Bendita telefônica que ainda não puxara a linha até lá. Isso lhe dava uma desculpa para visitar a fazenda.
O final de semana chegou depressa entre audiências, entrevistas, pareceres e montage de processos. No sábado à tarde, após tomar banho, barbear-se e passear um pouco pela cidade, enveredou pela estrada, indo parar na fazenda. Por sorte encontrou o coronel antes de ele sair com a família para visitar um primo alguns quilômetros dali. Ficariam na outra propriedade, retornando somente no domingo a tardinha. Entregou o recado e logo depois voltou para casa. Vinha um pouco frustrado por não ter tido tempo para gozar da presença de Isabel por um período maior do que alguns minutos apenas. Era parte do processo. Ela não estaria sempre ao seu dispor.
Passou a noite de sábado em casa, conversando com os pais e vendo televisão. Nas últimas semanas deixara a desejar em sua atenção à família. Precisava cuidar para não esquecer de quem lhe dera tudo o que era. Boa parte do mérito era seu, mas as condições para por tudo em prática, havia sido providas pela família. Nunca deveria olvidar tal fato.

Mineiro sovina! – Capítulo XIII

 

Prisão do mandante.
        Terminada a audiência e proferida a sentença, doutor Estevão preparava seus papéis e bloco de anotações para se retirar, junto com o cliente. O favorecido com a sentença, seu advogado e testemunhas haviam saido. Nesse momento três policiais militares, sob o comando de um sargento se postaram nas proximidades, em posição de quem aguarda uma ordem da autoridade. O juiz Dr. Osmar, olhou fixamente para Jerônimo e sua voz foi ouvida:
            – Senhor Jerônimo, seus problemas apenas começaram. O senhor está preso sob a acusação de ser o mandante do atentado ocorrido contra a pessoa de seu vizinho Senhor Onofre Pires.
            – Eu não tenho nada a ver com isso, doutor.
            – Os executores do atentado confessaram e ambos disseram que quem os contratara era o senhor. O seu advogado poderá procurar os seus direitos, mas nesse momento o senhor irá daqui para a cadeia. Sargento, pode prender o acusado.
            Os policiais se aproximaram para cumprir a ordem do magistrado. Nesse momento o advogado se interpôs e dirigindo-se ao juiz falou:
            – Permite uma palavra, meritíssimo?
            – Depois no meu gabinete. Agora seu cliente irá para a detenção.
            – Meu cliente se compromete a comparecer para depoimento e não se ausentar enquanto o inquérito não estiver concluido.
            – Ele fugiu e se escondeu por mais de uma semana. Tentamos exaustivamente encontrá-lo sem resultado. Poderia ter se apresentado antes e poderia ter obtido o benefício legal. Por ora ele é considerado fugitivo e não há como atender ao seu pedido.
            Estevão voltou-se para Jerônimo e falou a ele:
            – Acompanhe os policiais e não crie problema para não agravar a situação. Vou ver o que consigo fazer para tirá-lo da cadeia.
            – Eu sou inocente, doutor.
            – Não teime e faça o que eu disse. Se tentar resistir, vai apenas piorar as coisas.
            Diante da situação Jerônimo estendeu as mãos e permitiu ser algemado. Naquele momento seu íntimo fervia de ódio. Sair escoltado e algemado do forum, não estivera em seus planos. Seus homens poderiam reagir e isso o preocupava. Pediu:
            – Doutor Estevão! Por favor avise meus homens que estão lá fora para ficarem quietos e voltar para casa.
            – Faço isso aos air. Vou na frente.
            Os policiais esperaram um pouco dando tempo a que o doutor Estevão chegasse a área exterior e desse o recado aos homens do fazendeiro. Era uma medida preventiva. Não tinham nenhuma chance de enfrentar uma porção de peões armados e dispostos a defender o chefe. Poderia resultar uma carnificina. O resultado seria altamente imprevisível. As pessoas residentes e em trânsito pelo lugar não deveriam ser expostas à nenhum risco.
            Ao julgarem que o recado for a dado e o risco era mínimo, iniciaram o deslocamento até o exterior, no patio do forum, embarcando numa viatura. Dali sairam sem demora rumo a delegacia, onde eram esperados por uma equipe de interrogatório a quem entregariam o detido.
           
            – Viu lá, coronel? Estão levando o seu vizinho para a delegacia.
            – Naquele jipe? Esse juiz é porreta!
            – Ele não é sopa. Tem a mão pesada, quando se trata de punir transgressors da lei.  
            – Preciso lhe dar os parabéns, doutor. O senhor foi brilhante. Não deu chance ao advogado dele. Ele pensou que tinha um trunfo com aquele mapa falso, mas se deu mal. Vi a cara do juiz quando olhou para os dois papéis.
            – Montamos um processo perfeito e não havia como perder a questão.
            – O senhor acaba de merecer cada centavo que vou lhe pagar pelo serviço. Será meu advogado de hoje para frente.
            – Obrigado, coronel. Vamos para o escritório. Depois tenho algumas providências a tomar para amanhã.
            Onofre chamou o empregado mais categorizado informando que acompanharia o doutor José Silvério e deveriam segui-los de longe. Em pouco tempo voltariam para a fazenda.
            Já no gabinete de José, sentaram-se e Onofre puxou do bolso o talão de cheques.
            – Pode falar quanto lhe devo, doutor.
            José tinha na gaveta uma anotação das custas, discriminando cada parte. Despesas com material, taxas, distribuidor público e demais gastos, acrescido dos honorários considerados justos para o caso. Estendeu o papel ao cliente que o pegou para ler. Estava ali discriminado tudo que teria que pagar. Franziu o cenho e depois se pos a preencher um cheque, assinou, destacou do talonário. Estendeu ao advogado que o recebeu e olhou de volta inquisitivo. O valor constante no documento era maior que o total das despesas.
            – A diferença é uma gratificação especial para seu trabalho muito bem feito.
            – Eu já cobrei o que era justo, coronel. Isso não é certo.
            – Quer que eu faça dois cheques, separando a gratificação?
            – Não é isso. É que não acho certo receber mais do que é a conta.
            – Considere um presente. O Jerônimo vai ter mesmo que me pagar esse gasto.
            – Digamos que isso seja um adiantamento pelo próximo serviço, coronel.
            – Estamos certos então. Vou andando para chegar em casa de dia claro. Não gosto de andar por aí de noite.
            – Leve lembranças a dona Lourdes e a senhorita Isabel.
            – Pode deixare que me encarrego disso. Elas vão ficar satisfeitas com o resultado da audiência. A Isabel anda entusiasmada com a exposição. Já tiraram um monte de retrato, fizeram um álbum complete para divulgação.
            – A exposição tem tudo para fazer sucesso. O próximo passo vai ser levar tudo isso para a capital. Depois quem sabe, São Paulo, Europa, Estados Unidos.
            – Vamos devagar, doutor. Não ponha minhoca demais na cabeça de minha filha.
            – Não é minhoca. É a verdade. O senhor vai ver. Vai ter uma filha sendo projetada no mundo da pintura. E não falta muito. No mês que vem e pronto. Passa rápido.
            – Passar bem, doutor. Vou indo.
            – Se cuide, coronel. O senhor foi ferido há poucos dias.
            – Pode deixare que a minha Lourdes cuida disso como se eu fosse uma criança.
            – Ela tem razão em cuidar bem. Sabe o valor que o senhor tem.
            O coronel foi encontrar seus homens do lado de fora. Em segundos todos embarcaram nos veículos e foram embora. Iam atentos a qualquer coisa diferente que fosse vista nos lugares que poderiam servir de tocaia. O coronel escapara barato da primeira vez. Numa segunda tentative poderia não ser tão bem sucedido. Tinham por ele muita consideração e estima. Mas a viagem transcorreu sem maiores novidades.
            José Silvério foi até o gabinete do director da empresa de advocacia e foi cumprimentado pela bela vitória no tribunal. Tinha sido arrasador na montage e preparação do processo. Não diexara nada escapar, fechara todas as saidas e o resultado estava ali. O cheque foi entregue e a diferença de valor explicada. O chefe concordou em que essa diferença lhe cabia por seu desempenho. Fariam a separação do percentual que cabia à empresa, sendo o restante creditado nos haveres de José. Trocaram algumas informações sobre processos em dandamento e José voltou a sua sala. Ainda tinha trabalho por fazer.
            Para sua sorte a audiência não se estendera além do normal e podia perfeitamente concluir seu trabalho pendente até o momento de voltar para casa. Não teria necessidade de fazer serão, ou levar processos para casa. Queria comemorar com a família aquela vitória. Havia atuado em diversos processos naqueles últimos meses e em sua maioria obtivera êxito no que se tinha proposta. Apenas em dois casos os clientes haviam ocultado informações importantes e isso causara uma sentença desfavorável. Se houvessem sido francos, ele teria como encontrar uma forma de amenizar o dano, mas a ocultação apenas fizera ele perder a causa.
            Mesmo sendo sua remuneração básca garantida por contrato, era frustrante receber uma sentença contrária do esperado. Fazendo um balanço até aquele dia, tivera muito mais êxitos do que fracassos. Até mesmo esses não eram consequência de sua inaptidão, mas de falta de sinceridade dos clientes no relatar os fatos em discussão.
            Encontrou os pais em casa e os convidou para irem a um restaurante jantar. Queria oferecer uma refeição diferente aos familiares depois da vitória daquele dia. Foi cumprrimentado e em pouco tempo estavam a caminho de uma casa típica que servia comida ao puro estilo mineiro. Comeram e beberam vinho até sentirem uma leve tontura. No retorno para casa, José foi especialmente cauteloso no dirigir. Sabia que a bebida inibe os reflexos e não queria terminar o dia com um acidente. Percorreu a distância até a casa com redobrada precaução. Chegaram sem contratempos e foram dormir.
            No dia seguinte todo o escritório estava ciente da fragorosa vitória de José na questão do litígio de divisas entre os fazendeiros. Cada um dos colegas fez questão de vir até ele cumprimentar pelo feito. Estava alcançando uma notoriedade considerável em um curto espaço de tempo. Habitualmente os novos membros da equipe alvançavam resultados mais expressivos após um ou dois anos de prática. Estavam diante de um craque do direito. Os donos do escritório conversaram e decidiram indicar seu nome para atuar em causas consideradas complexas. Haveria sempre a possibilidade de um resultado, se não de vitória, mas de minimização de prejuizo, tendo alguém de maior habilidade na linha de frente do processo.
            Enquanto isso doutor Estevão quebrava a cabeça, lendo e relendo sentenças e mandados judiciais antigos para vislumbrar uma brecha que permitiria tirar Jerônimo da prisão. Sabia que dependia de sua soltura a obtenção de seus honorários e também deveria providenciar o recurso ou então tentar um acordo, ulterior à audiência e pagar as custas do processo de ambos os lados. Com ele na prisão, não havia como receber. Não lhe seria permitido ir ao banco sacar dinheiro, nem teria nas mãos talonário de cheques para fazer o pagamento.
            Depois de muito estudar, ler todos os processos que dispunha ao alcance das mãos, uma luz brilhou no seu cérebro. Proporia ao juiz a realização de um depósito em dinheiro como garantia de que o cliente não se furtaria às sessões de audiência e nem se ausentaria da região. Ligou ao Dr. Osmar e agendou um encontro para conversarem. Um pouco a contragosto o magistrado acedeu ao seu pedido e ele foi para lá esperançoso. Falara com Jerônimo sobre sua ideia este não gostara muito da coisa, mas concordara, pois não tinha vocação para passarinho. Não suportava gaiola.
            Com os trunfos na mão, Estevão foi até o forum onde iria se encontrar com o juiz ao final do expediente. Esperou um pouco e depois foi levado à presença do homem. Foi prudente na exposição do assunto e tentou ser persuasivo ao máximo. Com calma explicou que o cliente tinha necessidade de ter o mínimo de liberdade para poder administrar sua propriedade. Caso contrário não teria como sequer arcar com as custas do processo, pagar a indenização determinada. Tampouco teria como se defender da nova acusação. No final saiu de lá com um mandado de soltura, assinado por Dr. Osmar, mas deixava um documento assinado responsabilizando-se pelo preso, bem como pelo depósito do valor combinado em nome da justiça, como garantia, além da fiança que for a fixada.
            Chegou na delegacia com os documentos e em alguns minutos saia dali com Jerônimo. Embarcaram no automóvel do advogado e foram para a fazenda. No caminho Estevão repetiu pela enésima vez os compromissos assumidos e, caso Jerônimo lhe criasse problemas, ele seria o primeiro a providenciar para que fosse preso novamente. Poderia procurar outro advogado para prover sua defesa nesse caso de atentado. Jerônimo escutou quieto, remoendo intimamente a raiva. Aos poucos se tranquilizou e lembrou das palavras que seu pai costumava dizer:
            – Filho, quem anda direito, não tem o que temer. Já quem faz o mal aos outros, acaba fazendo isso a si mesmo. Seja sempre honrado e direito.
            Ele em seus anos de juventude se deixara desencaminhar por más companhias e assim prosseguira até hoje. E estava colhendo o que plantara. A imagem do pai não lhe saia da cabeça. Pelo menos o doutor Estevão conseguira livrá-lo da cadeia e poderia por os pensamentos em ordem depois de dormir direito naquela noite, coisa que não conseguira na cama desconfortável da cadeia. Chegaram na propriedade por volta de nove horas da noite e os peões vieram saber das novidades. Estevão estranhou a calma e serenidade de Jerônimo ao falar com o capataz. Parecia mudado e ficou de sobreaviso. Estaria ele articulando alguma artimanha?
            Entraram e a cozinheira que estivera igual barata tonta na ausência do patrão, se apressou em providenciar alguma coisa para os dois comererm. Estevão não recusou pois estava há horas sem por nada no estômago. Comeram e depois sentaram para conversar mais um pouco. Tudo foi repassado novamente e Jerônimo entregou a Estevão um cheque para cobrir as despesas iniciais e falou:
            – Estive pensando na vinda para cá e lembrei de meu pai. Eu parecia ver o rosto dele me falando para andar direito, não fazer mal aos outros e eu não quis ouvir. Hoje estou pagando o preço.
            – E isso significa o que, Jerônimo?
            – Vou me esforçar para mudar. Primeiro preciso entrar num acordo com o coronel Onofre para acertar essa questão da indenização. O juiz pegou pesado, mas se a gente negociar talvez possa redizir isso, num acordo por for a.
            – Não sei, amigo. Mas podemos tentar.
            – Será que ele aceita retirar a queixa do atentado?
            – Duvido muito, mas não custa nada tentar. O pior que pode acontecer ouvir um não e pronto.
            – Preciso mudar, ou vou acabar mofando na cadeia e a fazenda vai para o barro.
            – Isso é verdade. Sem a mão firme do dono não vai para frente.
            – Eu quero acertar as contas com a justiça e depois andar direito. Será que o agrimensor já foi embora?
            – Acho que sim.
            – Tive medo que o juiz mandasse prender ele também. Paguei para ele falsificar aquele mapa.
            – É o que eu desconfiava e ficou demonstrado na audiência pelos depoimentos e documentos do coronel.
            – Pensei que um documento novo ia enganar ele. Mas não caiu na cilada. Ainda bem, pois seria mais um peso na consciência.
            – Se o juiz queria mandar prendê-lo perdeu a chance, pois duvido que ele ainda esteja na cidade. Deve ter saido dali voando, depois de ver a coisa preta.
            – Se ele quiser algum tipo de acerto depois me entendo com ele. Não vai poder pedir muita coisa, pois também agiu errado. Eu paguei e ele executou o serviço.
            – Por isso pensei que ia sobrar para ele no dia, mas parece que Dr. Osmar não estava interessado em peixe miudo.
            – E ele me pescou direitinho. Mas vamos combinar uma coisa. Procura o advogado do coronel e propõe um acerto dessa indenização. Depois sonda sobre a retirada da queixa, assim meio por cima para não ofender o homem.
            – Amanhã cedo vou começar por acertar as questões de dinheiro e depois dou um jeito de falar com o doutor José Silvério. É advogado novo, mas tinhoso que só. Ganhou quase tudo que é causa que pegou. É o caçula dos Advogados Associados, mas pelo tipo já dá sova até em gente escolada de anos.
            – Então tem que ser mais cuidadoso ainda. Vai com calma para não espantar a caça.
            – Quer dizer que é sincera sua intenção de mudar de vida?
            – Sincera. Tão sincera como nada que eu disse antes em minha vida. Estou falando de meu futuro. De repente me dei conta de que o futuro ia ser pior do que isso. Apenas dois dias na cadeia foi bastante.
            – Não garanto conseguir livrar sua cara nesse outro processo. Atentado, tentativa de homicídio é coisa grave, homem.
            – Eu sei, eu sei. Mas não tem como voltar atrás. O que está feito, está feito. Temos que encontrar um meio de sair da melhor maneira desse atoleiro.
            – Espero que o juiz acredite na sua boa vontade. Isso será meio caminho andado. Se ele “comprar” sua disposição, temos uma boa chance de amenizar a situação.
            – Estou disposti a conversa pessoalmente com o coronel, se for preciso. Só não sei se ele vai aceitar se encontrar comigo. Deve estar mais ressabiado que bicho acuado.
            – E com razão. Quem levou um tiro foi ele e teve sorte de ser na perna. Se pega mais para cima, a coisa ia complicar para ele.
            – Graças a Deus. Assim temos uma possibilidade de dar um jeito. Se o homem more, adeus. Nem sei o que ia dar em mim. Se tivesse que ficar alguns anos na cadeira, morria muito antes de terminar o tempo.
            – Ótimo, Jerônimo. Eu vou indo, pois tenho muito trabalho para amanhã. Pense bastante e se continuar com as mesmas intenções mande me avisar.
            – Carece não pensar mais. Estou decidido.
            – Então boa noite. Qualquer coisa diferente mande me avisar. Não me faça nenhuma surpresa nem bobagem.
            – Pode deixar doutor. Aprendi a lição. Não quero mais desse remédio.
            – Vou ter prazer em ser seu advogado depois dessa mudança. Com certeza as causas vão ser mais fáceis de ganhar do que essa que perdemos.
            – Essa não tinha chance desd’um começo, acho eu.
            – Olhando agora, só se pode chegar a essa conclusão. Na forma como me foi apresentada, parecia favas contadas.
            – O errado fui eu. Fui falso, menti, fiz coisa errada e é justo pagar por isso, por mais que doa no bolso. Na cara também. Mas vou ter que encarar o povo e ir em frente.
            O doutor Estevão embarcou em seu carro e dirigiu aliviado pelo caminho de retorno para casa. Ainda tinha algumas dúvidas se o cliente iria mesmo mudar de vida. A modificação havia sido um tanto brusca e poderia ser que na manhã seguinte tivesse mudado compeltamente de opinião. Dormiu aliviado e logo cedo estava na rua correndo para dar conta de tudo que tinha a fazer no dia. Passou no escritório, conferiu com a secretária a agenda do dia para não deixar passar alguma audiência que tivesse marcada. Não podia dar-se ao luxo de perder clientes. Por sorte aquele dia não tinha nenhum compromisso no forum.
            Depois de cuidar das questões relativas ao dinheiro, sentou-se em sua sala e procurou na lista de telefones o número da Advogados Associados. Discou e depois de três toques do aparelho, a secretária atendeu:
            – Alô, advogados associados, boa tarde!
            – Boa tarde, senhorita. Seria possível falar com o doutor José Silvério?
            – Quem devo anunciar?
            – Eu sou doutor Estevão, ele me conhece.
            – Vou ver se pode lhe atender. Aguarde um momento.
            Levantou o interfone e apertou a tecla correspondente à sala de José e logo ouviu:
            – Sim, Roberta.
            – O doutor Estevão está ao telefone e quer falar com o senhor. Posso passar a ligação?
            – Pode passar.
            (Que será que o advogado do vizinho de coronel Onofre iria lhe propor?)
            – Doutor Estevão? Doutor José vai falar com o senhorr.
            Transferiu a ligação e José Silvério atendeu:
            – Alô!
            – Doutor José! Sou seu oponente de outro dia. Poderíamos nos encontrar para conversar?
            – Sobre o que seria?
            – Meu cliente, senhor Jerônimo, quer fazer um acordo com o coronel Onofre.
            – Mas por que ele não falou na hora da audiência?
            – Ele estava muito brabo e não pensava direito. Hoje consequi livra-lo da cadeia e ele está mais calmo. Decidiu mudar de vida e quer um acordo par acertar todas as contas.
            – Mas isso não devemos tratar por telefone. Me procure amanhã, ao final da tarde, aqui na minha sala. Sabe o endereço, ou não?
            – Sei sim, colega. Por volta das cinco horas?
            – Isso mesmo. Vou deixar minha agenda livre para não ter nada a incomodar.
            – Obrigado, colega. Não irá se arrepender de me receber. Me tornei seu admirador, pode ter certeza.
            – Até amanhã, então, doutor Estevão.
            O telefone foi desligado e José Silvério permaneceu alguns minutos pensativo. O que teria feito o homem tão arrogante e autoconfiante mudar radicalmente de opinião? Poder-se-ia confiar nessa mudança? Não caberia nem a ele decidir. O seu cliente iria tomar essa decisão e ele apenas serviria de mediador. O que não lhe entrava na cabeça era o fato de que o homem rejeitara qualquer possibilidade de conciliação e agora a propunha, quando a sentença estava lavrada, aguardando eventual recurso.
            Decidiu sentar com o superior e se aconselhar. Estava literalmene perplexo diante dos fatos. Levantaram todas as hipóteses possíveis, analisaram todos os ângulos e mesmo assim não puderam tirar um consenso. Teriam que palmilhar o caminho com todo cuidado possível. O chefe, em longos anos de exercício do direito, vivenciara diversas situações, umas até bastante difíceis de entender. Porém nunca se deparara com nada assim. Uma mudança tão radical era um bocado difícile de engolir. Deveria existir uma motivação forte por trás disso ou então ali havia uma grande e sutil armadilha. O advogado não era dos mais renomados na cidade. Atuava de modo geral em causas de menor relevância, defendendo pessoas de reputação duvidosa, ou então de menor poder aquisitivo. A prudência recomendava cautela.
            Na hora marcada, lá estava o Dr. Estevão Camposd, disposto a dialogar com seu colega Dr. José Silvério. Vinha a mando do cliente, objetivando uma negociação extrajudicial. objetivava conseguir um acerto mais vantajoso na solução da pendência criada com a sentença imposta pelo juiz.
– Boa tarde, caro colega! – cumprimentou.
            – Boa tarde. Sente-se por favor, – indicou uma poltrona confortável. – Bons ventos o tragam a esse humilde escritório.
            – Quanta modéstia. Se isto aqui é um humilde escritório, imagino o que seria um escritório luxuosamente instalado. Creio que não devemos mais desperdiçar nosso tempo com rodeios. Estou aqui, trazendo uma proposta do meu cliente, dirigida ao seu cliente em vista da solução satisfatória da pendência entre eles.
            – Concordo e sou todo ouvidos. Faça o obséquio de apresentar a proposta. Mas aviso que não será possível um acerto aqui, sem a aquiescência do meu cliente.
            – Evidente. Estou ciente disso. Meu cliente está passando por um mau momento financeiro. A queda no preço da arroba do boi gordo, somada com alguns insucessos com investimentos feitos na bolsa de valores, deixaram o Sr. Jerônimo impossibilitado de fazer frente as despesas com a indenização e demais custas. Ele propõe pagar a indenização de forma parcelada em doze vezes. Vencendo a primeira em cento e vinte dias. A questão dos limites poderá ser resolvida dentro de aproximadamente seis meses.
– Está bem. Entrarei em contato com o coronel Onofre e o informarei da resposta. Talvez possamos combinar um encontro numa das propriedades para dirimir essas divergências. Quem sabe conseguimos reconciliar esses vizinhos. Não faz muito sentido brigarem por questões tão pequenas. Em situações de emergência, podem ser os primeiros a prestar auxílio, providenciar socorro.
            – Quanto a isso, não sei se há alguma chance, mas nada custa tentar. Vou aguardar suas notícias. Já é tarde e ainda tenho algumas coisas a fazer. Até mais ver, colega.
            Estendeu a mão que foi apertada calorosamente. Depois saiu e disse adeus à secretária. Roberta olhou interrogativamente para José que logo depois apareceu na porta, parecia dizer:
            – O que aconteceu com ele? Chegou com cara de desconfiado e arredio. Ao sair estava que era só sorrisos.
            – Ele veio propor um acordo do cliente dele com o meu, o coronel Onofre.
            – O do atentado.

 

            – Esse mesmo. Não sei, mas vamos ver o que o coronel decide sobre isso. 

Mineiro sovina! – Capítulo XI

Estrada na Serra do Cipó.

 

Vista Canion do Travessão.

 

Vista do Canion, com águas transparentes no fundo.
Se esconder, melhor solução.
 
Jerônimo chegou à sua fazenda. Mal apontou no patio da casa grande e alguns peões apareceram para saber o que houvera. O patrão saira sem dizer nada, nem chamar ninguém para o acompanhars e estavam apreensivos com o que poderia ter acontecido. Não deu explicações, apenas mandou todos dormirem e ficarem atentos para qualquer coisa diferente que ouvissem ou vissem. Nenhuma ação por conta própria. Deveriam aguardar ordens suas para tomarem qualquer atitude. Pouco importava o que houvesse.
Entrou em casa, sentou-se e tomou um bom copo de cachaça de sua garrafa especial guardada num canto do armário. O whisky era bom, mas perdia longe para nossa cachaça de alambique, destilada ali nas fazendas de modo artisanal e envelhecida nos barris. Havia os de sassafras e várias outras madeiras que davam uma cor especial, sem falar no sabor. O ardido da cachaça nova sumia ficando o gosto da cana, junto com um gostinho desprendido da madeira. Enquanto bebericou sua bebida pensou longamente no próximo passo a ser dado.
Sabia que os dois sacanas haviam dado o serviço completo e era quase certo que, logo cedo, nas primeiras horas da manhã teria diante da porta um par de viaturas da polícia. Viriam para prendê-lo como mandante do atentado ao vizinho ou ao menos convidá-lo a prestar depoimento. Analisou as diversas possibilidades que tinha de se safar da acusação e todas as hipóteses que a mente lhe apresentava, recaiam no mesmo lugar. As palavras dos jagunços seriam igual a duas flechas apontadas para ele. Poderia apenas negar, mas poderia haver alguém que o tivesse visto na cidade naquela noite. Nunca se sabe quem pode estar de espreita ou mesmo por acaso.
Vai que alguém o tinha visto e por puro acaso fica sabendo da encrenca. Vai lá, solta o verbo no ouvido de um policial, ou então do próprio delegado e está feita a porcaria. Depois de muito pensar, lembrou que tinha na gaveta um cartão do advogado onde estava escrito o número do telefone do escritório. Procurou e logo o encontrou. Guardou na carteira, colocou algumas peças de roupa numa sacola. Um par de sapatos, botas, um chinelo e algumas coisinhas de uso foram reunidos também. Pegou no cofre um maço de dinheiro que sempre guardava ali para as emergências, colocou em dois ou três lugares por medida de precaução. Passou na cozinha, comeu um pedaço de carde defumada, duas fatias de pão com queijo e melado, depois voltou para o carro e deu partida.
O capataz em instantes estava ao seu lado e pediu suas orientações. Adivinhava que o patrão estava em apuros e queria saber que providências deveriam ser tomadas em sua ausência. Em poucas palavras deu suas ordens, dizendo apenas que precisava se ausentar por alguns dias e não era da conta de ninguém onde estaria. Nenhuma alteração da rotina de trabalho deveria ser feita. Fizessem de conta de que ele saíra e voltaria dali a pouco. Na hora certa estaria de volta para cuidar de tudo.
– Suas ordens serão cumpridas, patrão. Vá com Deus. Qui Nos’siñora le proteja.
– Cuide de tudo aí e fique de olho aberto. Não dê bobeira.
– Pod’xa, patrão.
O carro fez um giro rápido e saiu levantando poeira pela estrada. Pegou o caminho oposto ao de Sete Lagoas e seguiu na direção das montanhas da Serra do Cipó. Tinha lá, cerca de 40 minutos de viagem, um antigo companheiro de seus tempos de rapazola. Era um pouco mais velho, mas gostava de uma arruaça. Quando cansou dessa vida, foi viver numa cabana na encosta da serra, bem retirado de toda povoaçao. Ele certamente não lhe negaria um canto por alguns dias. Poderiam caçar, pescar e comer um pouco de mantimentos que lembrara de colocar no bando de três do jipe. Percorreu a distância, em tempo menor do que normal, tão preocupado estava. Quando viu estava na picada de acesso à cabana e enveredou por ela.
Riacho cristalino na Serra do Cipó.
Rochas imponentes na Serra do Cipó.

 

Vista panorâmica, tendo ao fundo uma cachoeira na Serra do Cipó. 

 

 
 
 
Após percorrer cerca de cem metros, lembrou de voltar a pé e apagar os sinais de sua passagem por ali. Não tinha intenção de que o encontrassem. Antes de sair ligara para o doutor Estevão avisando de que iria ficar fora de circulação até a noite anterior à audiência na ação da divisa e indenização. Iria fazer contato dentro de uns dias para saber como andava o caso. O advogado quis saber onde poderia encontrá-lo em caso de necessidade. Ele falou que, quanto menos gente soubesse onde estava, melhor. Deixasse por conta dele que se garantia. Pegou de dentro de uma caixa de ferramentas uma lantern e voltou. Observou que havia sinais dos pneus na terra mais fofa no começo da trilha. Pegou um galho e com ele, assim como com os pés, apagou o melhor que pode as marcas.
Levou o galho consido e foi apagando os sinas de sua passagem até chegar no veícuo. Dificilmente alguém viria tão longe para buscar sinais da passagem de alguém. Embarcou e seguiu até a cabana. Lá chegando, o companheiro de outros tempos já estava à porta, tentando ver quem estava chegando àquela hora pertubar seu sossego. A luz de uma lanterna brilhou na escuridão, iluminando Jerônimo por alguns instantes. Quando o reconheceu, o homem se aproximou curiosos.
– Mas que mar le pergunte, cumpanheiro! Qui é que li trais aqui numa hora dessa? Coisa boa não deve di sê!
Desembarcou, estendeu a mão ao amigo e falou:
– Amigo Gonçalo! Estou precisado de uns dia de discanso e lembrei de vosmecê. Desculpe o adiantado da hora, pois tive muito trabalho na fazenda e resolve de ultima hora vir até aqui.
– Sun’ce num tá mi iscondeno nada, não é Jerome?
– Fica tranquilo, Gonçalo. Tenho la minhas pendengas, mas nada demais. Vim só descansá mesmo.
– Vo aquentá uma água, mode coá um cadim de café pra nois tomá inquanto tiramo dois dedo de prosa.
– Eu vou tirar minhas coisas e colcar aí dentro para proteger do sereno.
– Si quisé colocá o jipe ali intráis daquela pedra, ele fica fora dais vista.
– Uma boa ideia. Se algum curioso aparecer não precisa ficar sabendo que estou aqui. Melhor assim.
Descarregou suas coisas. Depois levou o jipe para o lugar indicado e colocou-o bem escondido. Só quem chegasse perto mesmo o veria.
O café foi coado e servido em canecas esmaltadas, já descascadas em vários pontos. Mesmo assim, feito da forma mais rustica e do melhor grão, torrado e moido a mão, dava um sabor inigualavel. O açucar mascavo ajudava a realçar o gosto característico. Tomaram o café e falaram do tempo, das caçadas de agora, estrepolias dos tempos antigos. O amigo Gonçalo não ficara convencido da conversa de Jerônimo e tentou em vários momentos extrair alguma informação a mais do visitante. Este, porém, sempre desviava do assunto, não dando a entender o real motivo que o levara ali.
Por fim decidiram ir dormir. Jerônimo que ficasse com seu segredo. Eram amigos de velha data e aos amigos era necessário estender a mão em qualquer circunstância. Também, quanto menos soubesse do assunto, melhor para ele. Não tinha precisão de se envolver com confusão de graça. Estava ali, distante, justamente para viver sem problemas, que tinha ele que caçar chifre em cabeça de cavalo? Devia muitos favores e poderia precisar de outros no futuro ao amigo. Era hora de pagar uma parte da conta, sem fazer perguntas demais. Dormiram e de madrugada uma forte tempestade desabou sobre aquela região.
Ao levantar e ver o resultado da noite, Jerônimo ficou intimamente satisfeito. A forte chuva deveria ter apagado os últimos vestígios de sua passagem pela picada. Poderia ficar em paz até o dia que decidisse voltar. Não poderia esquecer que a audiência estava marcada para a segunda-feira da semana seguinte. Portanto, teria uma semana e dois dias para ficar ali. Teriam tempo de relembrar todas as aventuras compartilhadas há tantos anos, quando se juntara a Gonçalo e mais dois amigos, já falecidos. Tinham tombado em um entrevero havido numa cidadezinha mais ao norte. Alias fora depois daquele acontecido que Gonçalo decidira deixar essa vida de aventuras e arruaças. Encontrou aquele recanto no meio da mata, na encosta da serra e ali vivia há longos anos.
Raramente saia para comprar alguns mantimentos, pólvora, chumbo, espoleta para a espingarda de caça, um par de botinas, umas calças de brim. Algumas camisas, um casaquinho ou dois e pronto. Tinha lá suas rendas que não contava a ninguém de onde vinham. Ninguém tinha por que saber que ele encontrara um pequeno veio de diamantes numa grota e dali levava um punhado de pedras, vendia pra um lapidador e logo sumia de vista. Seu retorno era bem planejado, chegando a percorrer léguas de trilhas, dando voltas, subindo e descendo, até chegar a sua morada.
Bastava alguém saber de seu segredo e não tardava chegaria um bando de gente em busca de pedras. Estragariam o seu recanto. Depois que ele se fosse, não se importava com o que aconteceria. Enquanto tinha precisão de ter seu canto, nao queria saber de zoeira por perto. Andava com a pulga coçando a orelha com essa vinda for a de hora de Jerônimo e só ficou quieto para não bulir com vespeiro. Desconfiava até da prória sombra, quanto mais de um amigo, cujo gênio esquentado conhecia de sobra.
Os dias passaram. Caçaram nhambus, jacutingas, tatus, um cateto. Pescaram belos peixes nas águas límpidas de um pequeno riacho que havia por perto, formado por várias nascentes que desciam das encostas e se uniam perto do sopé, formando pequenos lagos e depois continuando seu curso. Em cada um havia belos exemplares de peixes, um mais saboroso que o outro. Comeram carne de todo tipo. Assada, frita, cozida com abóbora e outros legumes que Gonçalo cultivava para o consume. Tinham feijão, a gordura era tirade das caças abatidas. Não faltava nada e a vida correu suave naquela semana.

 

Orquídea nas rochas. 

 

 

 

 

Orquídeas na Serra do Cipó.
No domingo seguinte, Gonçalo já estava pensando que a estadia do amigo iria se prolonger, quando o viu aprontando suas coisas e perguntou:
– Suncê vai imbora?
– Sim, amigo. Tenho que estar em Sete Lagoas amanhã ao meio dia. Vou falar com o Juiz, numa audiência.
– Tá certo. Eu bem que tava desconfiado de que arguma coisa num tava nos conforme.
– Eu não quis lhe contar, amigo, para não se preocupar. Hoje, no comecinho da noite, vou voltar para a fazenda e ninguém fica sabendo onde estive. Nunca vão vir aqui lhe fazer perguntas ou coisa assim.
– Eu num sei di nada, num vi nada, nem ouvi. Sô surdo, cego e mudo.
– Esse é o meu velho companheiro de farra. Vou lhe trazer um belo presente, depois que passar essa fase de minha vida. Vai ver só. Pode sentar e esperar. Talvez demore um pouco, mas na hora certa vou trazer.
– Vô faze di conta qui num ouvi.
Passaram o resto do dia conversando sobre diversos assuntos e Gonçalo não fez mais nenhuma pergunta. O amigo não queria falar e não seria ele que o perturbaria com perguntas for a de hora.
No princípio da noite, o jipe foi retirado do esconderijo, conferido se estava funcionando direito e as coisas de Jerônimo foram colocadas na parte de trás do assento. Gonçalo lhe dera um belo couro de anta que caçara tempos atrás, tirara o couro e secara. Estava bem curtido, pronto para servir de tapete em sua casa. Despediu-se do amigo, prometendo voltar quando desse e partiu. Seguiu cuidadosamente pela estrada, atento a tudo que pudesse representar algum perigo. Deu uma grande volta, de modo a chegar como se estivesse vindo de outro lado. Alguém que estivesse de espreita, nunca saberia de onde ele estava vindo. Não viu nada que chamasse sua atenção e entrou no patio de sua propriedade.
Tão logo estacionou o capataz estava ao seu lado em atitude de espera. Foi logo perguntando:
– Como tão as coisas por aqui? Tudo em paz ou houve muito fordunço?
– Sabado di manhã cedim, chego aqui dois carro de polícia. Tinha uns oito, cheio das armas, revolver, pistola e fuzir. Vinham pra mode prender o patrão. O juiz tinha mandado le buscar para interrogatório. Tinham inté um tar de mandad’e prisão contra o sinhor.
– Bem que eu imaginei que ia ser isso e me mandei na hora certa. Mas voltaram depois, fizeram muitas pergutas?
– Mandaro chamá todos peão, empregada, as muié dos peão. Fizerom monte di pregunta, mais ninguém sabia di nada. Qui é que ia responde?
– Por isso eu não dei explicações. Ninguém pode dizer o que não sabe. Eu por minha vez passei uma semana caçando e pescando. Apenas não pergunte onde, que não conto. Segredo e daqueles que si leva pro túmulo.
– Faço questão de saber nao, patrão.
– Amanhã vamos para a audiência. Prepara os peão que vão servir de testemunhas para sair logo de manhã. Vamos até a casa do advogado e de lá pro forum. Não vamo dá sopa por lá não. Quando terminar a audiência, si mandamo de volta, cada um por um caminho diferente. Quero ver eles segui todo mundo!
– Vo ordená agora memo que todos se prepare para manhã cedo. Não quero corre atrais di ninguém atrasado na hora de saí.
– Nem pensar. Quem se atrasar está despedido. Pode caçar trabaio em outro lugar.
– Boa noite, patrão. Percisa de ajuda?
– Leva lá pra dentro essas coisas ai de trás do assento. Aproveita e leva mais uns três pra fazer segurança. Não podemos saber o que vai acontecer.
– Os home andiron percorrendo tudo essas istrada por aí. Vimo as viatura umas par de veis passano na istrada. Vieron mais duas veis aqui no patio ver si o patrão tinha vortado. Cada veis era uma turma deferente de dantes.
– Eles não são facil não. Nem desistem sem mais nem menos. Esse delegado que tem aí agora é osso duro de roer. Parece ter parte c’o capeta.   
O capataz e um outro peão, pegaram as coisas do patrão e levaram para dentro de casa, deixando onde ele pudesse guardar cada um em seu lugar. Não se atreveriam a mexer e guardar. Sequer sabiam se ele ficaria em casa depois da audiência. Bem capaz de ser obrigado a se seconder outra vez para não ser preso. Agora todos sabiam do envolvimento de Jerônimo no atentado ao coronel Onofre. Ninguém no entanto ousaria dizer palavra. Em boca fechada não entra mosca, diz o ditado.
A empregada estava na cozinha e preparou uma refeição ao gosto de Jerônimo. Por ordem do mesmo, não precisava se esmerar demais. Queria comer logo e depois deitar para dormir. Os dias na cabana, por mais agradáveis que tivessem sido, haviam deixado marcas em suas costas. A cama de tarimba, pouco confortável, só o deixava dormir depois de muito virar de um lado para outro. Estava com saudades de sua cama macia e confortável.
Jantou e depois deu ordem para ser chamado cedo. Queria estar pronto e a caminho, antes que alguém tivesse tempo de perceber sua presença na redondeza. Daria tempo de chegar à cidade e ficar mocado no escritório ou na casa de Estevão.
Enquanto o mandante do atentado ficava escondido, os autores foram interrogados seguidas vezes sobre possíveis esconderijos do comparsa. Não tinham a mais vaga idéia, mas para se livrar das longas sessões de perguntas, sentados em posição desconfortável, com uma forte lâmpada brilhando diante dos olhos, inventavam possíveis esconderijos. A polícia passou a semana inteira procurando, gastando tanques e mais tanques de combustível na busca. Todos os lugares indicados pelos dois foram encontrados e se mostraram falsos. Ao serem confrontados com essa verdade, diziam que eles não haviam afirmado que ele estaria lá. Poderia estar, mas não tinham nenhuma certeza disso. Por fim o delegado desistiu. Havia notado que eles o estavam fazendo de trouxa. Não seria brinquedo dessa gente por mais nem uma hora. Mandou suspender as buscas por enquanto. O advogado havia garantido que, na segunda feira, o cliente estaria presente na audiência.
Tudo estava preparado para efetuarem a prisão no momento em que a audiência terminasse. O próprio juiz sabia do esquema de prisão, uma vez que for a ele que indeferira o habeas corpus dos dois presos e expedira o mandado de prisão contra o mandante. A hora do malfeitor chegaria no momento oportuno.
Na segunda bem cedo, quem esteve na estrada para Sete Lagoas, pode perceber um comboio de vários jipes e caminhonetes lotados de homens da fazenda de Jerônimo. Pareciam ir para alguma festa ou comemoração. Estavam vestidos, não para o trabalho, mas sim para uma visita à cidade.
Um pouco mais tarde foi a vez de um novo comboio, um pouco menor, mas também cheio de homens da fazenda do coronel Onofre. Este seguia com a filha e a esposa, em seu carro de passeio. A filha havia obtdido algum tempo antes sua habilitação de motorista e dirigia, uma vez que o pai estava com a perna ainda enfaixada devido ao ferimento sofrido. Chegaram à porta do escritório da Advogados Associados de Sete Lagoas. Os que serviriam de testemunhas entraram na sala de espera junto com o coronel e a família. Os demais ficaram sentados nos carros ou na calaçada em frente. Estavam sempre atentos a qualquer movimento suspeito.
Às onze horas o grupo inteiro foi para um restaurante para almoçare, ocupando várias mesas. Era preciso almoçar antes, pois a audiência estava marcada para as 13 h 15 min. O juiz não detestava atrasos. Um descuido poderia por todo um trabalho primoroso a perder. Faziam questão de chegar na hora estipulada. Preferível era esperar alguns minutos que chegar um sequer depois da hora. Terminado o almoço, todos sairam para os veículos, retornaram ao escritório. Quando deu 12 h 45min. embarcaram nos veículos e seguiram para o forum. Na frente ia o automóvel de José Silvério. Os ganhos no escritório haviam permitido adquirir um 0 km, financiado em 24 meses.
Pontualmente às 13 h estavam todos os envolvidos, na sala de espera. Os demais empregados ficaram nos carros, sem deixarem de prestart atenção em qualquer movimento suspeito. Traziam armas, mas não estavam à vista, para não levantar suspeitas ou acusação de porte ilegal.

Menos de cinco minutos depois chegou o comboio trazendo por sua vez Jerônimo e seu séquito. O Dr. Estevão, havia vindo um pouco na frente, mas entraram juntos. Estavam ali os dois grupos de empregados, separados por coisa de 20 m. Alguns agentes de polícia haviam sido destacados com esse intúito. Manter a ordem ali no forum, uma vez que facilmente alguma provocação causaria um tumult e não se saberia em que iria terminar.

Mineiro sovina! – Capítulo X

 

Atentado contra cliente.
A indiferença com que fora tratado por Onofre diante de uma porção de testemunhas, à porta da agência de Banco do Brasil, deixou Jerônimo deveras injuriado. Esperara uma reação violenta, palavras ásperas, que lhe ensejassem eventualmente motive para chamar em seu socorro os capangas espalhados nas redondezas. Um Onofre, aparentemente inofensivo, frustrara seu propósito. Voltou para casa remoendo a humilhação, planejando vingança. Não queria engolir esse angú com farinha. Quando estava próximo de casa, um dos capangas sugeriu que fizessem uma tocaia ao vizinho. Nem que fosse apenas para dar-lhe um susto, deixar as marcas de balas em seu couro.
Jerônimo não respondeu de imediato. Não convinha envolver os seus empregados numa ação dessa natureza. Mesmo os mais novos contratados haviam sido vistos com ele. Se fossem pegos, acabariam denunciando o mandante e não tinha necesidade alguma de responder a outro processo. Um só já era suficiente. Mas a ideia de dar um susto no coronelote lhe agradou. Lembrou de uma dupla de “justiceiros” residente na vila próxima. Pouco depois de haver chegado no meio da tarde, chamou dois outros empregados e ordenou que o acompanhassem. Os que havia levado para a cidade estavam ausentes, cuidando de outros afazeres. Embarcou em sua caminhonete, tendo os cois ao seu lado, foi até a residência da dupla.
Encontrou os dois numa birosca da esquina, tomando uma cachacinha. Ordenou aos que o acompanhavam permanecerem na caminhonete, até receberem alguma ordem. Sentou-se numa mesa do canto, pediu uma garrafa de caninha da boa, pondo-se a bebericar um “martelinho”. Num momento fez um sinal discrete a um dos dois que for a procurar e sem demor eles se aproximaram. Convidou-os a sentar e ofereceu um trago. O dono do estabelecimento trouxe os copos e os encheu. Depois deixou-os sozinhos, pois tinham assunto sério a tratar.
Sem muitos rodeios falou o que desejava que fizessem. Forneceu os detalhes da vítima, seus hábitos, lugares onde costumava ir. Costumeiramene andava desacompanhado o que deveria tornar o trabalho mais fácil de ser executado. Diante do exposto, o trabalho foi considerado fácil e o preço acertado. Jerônimo fez o pagamento de metade adiantado. A outra metade pagaria com o serviço concluido. A finalidade era apenas dar um susto no coronel. Poderiam lhe dar um tiro, mas não letal. De preferência que lhe quebrasse uma perna, talvez o joelho. Uma boa surra também, mas havia o risco de eles serem reconhecidos e assim complicassem o caso. Melhor mesmo um tiro, aparentemente casual, preferencialmente sem se deixare ver.
Se quisessem disparar bastantes vezes para dar a impressão de um grande tiroteio, poderiam ficar à vontade. Habitualmente o coronel saia todas as sextas feiras para levar a mulher e a filha no comércio da cidade fazer as compras necessárias. Sugeriu que fizessem o serviço nessa ocasião.
– Pode ficar sossegado chefe. Vamos dar um susto no seu “amigo” de que ele não vai esquecer tão cedo.
– Espero o resultado.
Levantou, pagou a cachaça, deixando os dois com o que sobrara. A garrafa ia pela metade, permitindo prever que em pouco tempo não sobraria nada. Foi até a porta e chamou os dois empregados. Poderiam tomar um trago, antes de voltar para casa. Deixá-los ali, sem terem direito a um trago sequer, os faria ficarem frustrados. Precisaria de todos os homens ao seu lado, sem insatisfação alguma. Depois de tomarem uma segunda dose, a noite começara a cair, eles embarcaram no veículo empreendendo a viagem de retorno. Apesar da curiosidade, os dois não indagaram o que o patrão viera fazer. Quanto menos soubessem, melhor seria, em caso de alguma coisa em andamento sair errada. Levavam a sério o ditado “o que o ouvido não ouve, a boca não fala”.
Estavam na terça feira e, a partir dessa data, Jerônimo ficou torcendo para chegar sexta-feira. Disfarçou como pode sua ansiedade para não permitir a ninguém desconfiar de suas inenções. O mesmo capanga que sugerira, tornou a perguntar e els lhe falou:
– E vosmece pensa que vou arrumar encrenca, logo agora que está chegando o dia da audiência, sobre a questão da divisa? Deixa passar que depois damo um susto no velho.
– Pode contar c’a gente, para o que for preciso.
– É bom saber, Chico.
Nessa expectativa os dias passaram. Os “justiceiros” contratados vistoriaram a fazenda de Onofre, chegaram até próximo da casa, escondidos no meio do cafezal, observaram atentamente, imaginando um modo de fazer o serviço encomendado. Ali nas proximidades da casa seria perigoso, pois teriam que percorrer boa distância até a estrada. Observaram que o coronel saia para percorrer sua propriedade, mas sempre acompanhado de pelo menos três dos empregados. Isso não estava de acordo com a informação do contratante. Teriam que buscar um meio de chegar perto, durante a ida a cidade na sexta-feira.
Pontualmente às 8h30min do dia marcado, o veículo de Onofre saiu pela alameda de acesso, precedido por um jipe com três empregados e mais outro fechava o cortejo. Tudo estava ficando mais complicado do que o previsto. Pelo visto alguém alertara a pretensa vítima, fazendo-a tomar precauções com que não contavam. Mesmo assim seguiram de longe em uma caminhonete, suficientemente possante para permitir uma evasão rápida em caso de necessidade. Carregavam carabinas caliber 38, podendo assim atirar de maior distância. O pequeno comboio parou diante de um supermercado. Dois dos empregados acompanharam a família ao interior e os outros ficaram esperando ao lado dos jipes. Seus olhos estavam sempre atentos aos arredores e à porta do estabelecimento.
Os dois ficaram frustrados. Não seria ali que poderiam realizar o serviço. Precisariam encontrar um lugar mais propício. Uma tentativa de cumprir o contrato ali, no estacionamento do supermercado, poriam em risco outras pessoas e não tencionavam atingir mais ninguém. Apenas o coronel era seu alvo. Se ao menos o contratante tivesse falado que poderiam atingir qualquer membro da família, seria mais fácil. Mas fora taxativo nesse particular.
Após uma hora no interior do mercado, a família saiu, um funcionário levou as compras até a caminhonete do coronel. Este deu uma pequena gorjeta ao rapaz e embarcou. Dali foram até o centro, parando diante de uma loja de roupas. Provavelmente tinham intenção de adquirir alguma roupa para as damas. Novamente tudo se repetiu. Houve apenas um momento em que teriam podido atingir o alvo, mas estavam em movimento e perderam a oportunidade.
Perto da hora do almoço o grupo iniciou o caminho de volta. Eles decidiram se adiantar até uma curva que tinha ao lado um penhasco bem elevado. Dali tentariam usar suas carabinas para cumprir o combinado. Chegaram, esconderam a caminhonete em local suficientemente distante e seguiram até o local. Tinham que ser rápidos pois logo o grupo estaria passando por ali. Chegaram, escolheram um bom lugar para se ocultar, que oferecesse boa visibilidade da estrada. Dariam alguns tiros, tendo a preocupação de atingir o coronel e mais ninguém. Isso feito, retornariam depressa ao local do veículo e empreenderiam fuga. Havia uma estrada secundária que permitia chegar à vila dando uma boa volta. Isso os tiraria da cena do ataque.
Não tardou e os veículos apontaram ao longe. Pouco antes da curva escolhida, uma pequena reta permitia escolher o momento certo de atirar. Depois de atingir o alvo, os demais tiros poderiam atingir as rodas, o radiador e mesmo o chão. Não importava onde pegassem, queriam fazer bastante barulho. Quando tiveram o alvo na mira, atiraram e repetiram a operação diversas vezes. Assim como havia começado o tiroteio cessou e os dois sairam rapidamente do local.
Na estrada, o coronel havia sido atingido na coxa direita, pois vinha sentado ao volante. O projétil atravessou o parabrisas estilhaçando-o e ferindo o coronel. Os demais projéteis atingiram os pneus, o radiador, o capô e um vidro traseiro. Mesmo ferido Onofre conseguiu parar o veículo. Vinha reduzindo a velocidade devido à proximidade da curva, o que facilitou a parade, evitando uma possível colisão ou a saída da estrada. Os empregados saltaram e se protegeram atrás dos veículos, pondo-se a revidar, mas os atacantes já haviam ido embora. Verificaram o estado dos veículos, constatando que apenas um dos jipes tivera o radiador perfurado, vazando o líquido refrigerador.
Um dos empregados assumiu o volante do carro do coronel e este foi levado rapidamente ao hospital na cidade, depois de davem meia volta. Enquanto ocorria o atendimento do ferido, o chefe dos empregados foi até a delegacia de polícia. Não tardou e uma equipe de agentes se fez presente, tomando os depoimentos prévios. Depois o grupo todo foi até a delegacia formalizar a queixa. O delegado determinou que uma equipe de policiais seguisse até o local do ataque, onde o jipe danificado ficara aos cuidados de dois dos empregados. Dois empregados iam com eles, enquanto os outros dois levaram a familia para um hotel. O veículo precisava ter o parabrisas substituido, o que demoraria algum tempo. O ferido descansaria até o momento em que pudesse retornar para casa.  
Não existia em princípio nenhuma pista, apenas o fato de os tiros terem partido do alto do penhasco. Os policiais subiram por um trilho existente e encontraram as cápsulas dos tiros, jogadas no local. Os agressores não haviam tomado a precaução de coletar esses vestígios, que serviriam de provas em eventuais perícias de armas encontradas. Encontraram os sinais por onde o(s) agressor(es) havia(m) fugido e seguiram até o lugar em que o carro ficara. Uma marca de pneus patinando no chão seco mostrava a pressa com que haviam saído dali. Um deles portava uma camera fotográfica e tirou umas fotos dos rastos deixados na beira da estrada. O tipo de pneu serviria para incriminar quem praticara o atentado.
Depois de coletar todas as informações, suspeitas e indícios os policiais retornaram para a delegacia. Os empregados usaram o segundo jipe para rebocar o outro até a cidade. Precisavam trocar o radiador, pois o outro ficaram bastante avariado. Quando o sol estava perto do horizonte, o grupo ainda receoso, iniciou o retorno para casa. Por precaução um carro da polícia os precedeu até ao patio da fazenda. Chegaram sem novidade e a equipe de policiais retornou à cidade. Tinham em mãos um caso típico de uma ação de vingança ou execução. Os dados para elucidar o crime eram vagos. O indicio mais forte, era a desconfiança em relação ao vizinho. Mas isso não permitia nenhuma conclusão. Antes de retornar, o mais antigo dos agentes sugeriu que passassem pela fazenda do vizinho. Certamente ele não estaria esperando uma visita a essa hora.
Foram até lá e ao chegarem encontraram uma caminhonete parada diante da casa principal da propriedade. O policial das fotografias passou perto do veículo estacionado e teve a curiosidade de focalizar sua lantern nos pneus. Sua surpresa foi grande ao ver a forma dos pneus. Conferia com a marca vista na estrada. Chamou o chefe e lhe mostrou sua observação. Olharam detidamente e depois chegaram perto da casa. Nesse momento dois homens saiam e se encaminhavam para a caminhonete. O policial teve um lamapejo e falou:
– Voces dois podem me responder uma pergunta?
– Sim senhor! – falou o mais alto.
– Onde vocês estavam hoje por volta do meio dia?
– Nós estávamos em casa, na Vila Santa Rita. Por quê?
– Por acaso não estavam na estrada, naquela curva perto de Sete Lagoas, onde tem um penhasco?
– Nem sei onde fica essa curva, doutor.
– A gente nunca vai a Sete Lagoas. Trabalhamos na vila mesmo.
– Me mostre os documentos pessoais e do carro.
– Mas que é isso agora?
– Se não tem o que temer, por que não pode mostrar?
– Isso é abuso. Nós não fizemos nada.
– Apenas uma verificação de rotina, amigo.
Os outros agentes ficaram estratégicamente posicionados. Jerônimo chegara à varanda e observava a cena. Quando viu os homens apresentarem os documentos, gelou. Se os policiais ligassem os dois ao atentado, estaria perdido. Pensou em algo a fazer e optou por retroceder para o interior da casa. Aparentemente não havia sido visto. Ficaria espiando pela fresta da janela para ver o que aconteceria. Os documentos foram observados, anotados os nomes e número dos mesmos. Foi quando chegou o momento de examinar os documentos do veículo que ficou evidente que se tratava dos agressores. O documento constava em nome de um conhecido infrator, frequentemente envolvido em atos de desordem e violência.
– Por quê estão com esse carro? Trabalham para o dono?
– Nós pegamos emprestado.
– Muito conveniente isso. Esse nome é bem conhecido nosso. Estamos invetigando um crime e esse carro tem o mesmo tipo de pneu das marcas encontradas perto do lugar. Para piorar estão no patio de uma pessoa suspeita.  
– Não temo nada a ver com essa encrenca. Viemos tratar de um serviço com o dono da fazenda.
– E que serviço é esse? Não seria fazer uma tocaia ao Coronel Onofre?
Ao ouvir isso um deles olhou significativamente para o outro. Vendo o olhar, o agente deu voz de prisão aos dois e ordenou aos auxiliares que os algemassem. Foram colocados no banco traseiro do veículo sob a guarda dos dois policiais. O agente que comandava foi até a varanda, chamando:
– Ó de casa!
Jerônimo chegou à porta e perguntou:
– O que se passa? O senhor é de onde?
Mostrando a sua credencial, falou:
– Sou o detective Arthur da Silva e estou procurando suspeitos de um atentado contra o coronel Onofre, seu vizinho. Esses dois homens que sairam agora mesmo de sua casa estão sendo levados à delegacia para interrogatório. O senhor tem alguma coisa a ver com o caso?
– Mas de onde lhe vem essa idéia, policial?
– Eu apenas estou perguntando. O carro que os dois estão usando é de um bandido conhecido, tem pneus iguais às marcas deixadas na estrada perto do lugar do atentado e demonstraram sinais de medo quando os questionei agora pouco.
– Eles vieram aqui em busca de trabalho e eu não estou precisando.
– Fique de sobre-aviso, senhor Jerônimo. O senhor é suspeito de ser o mandante do atentado. Dependendo do resultado das investigações, vamos lhe chamar e é bom não se ausentar nas próximas semanas.
– Essa agora! Tenho minhas pinimbas com o vizinho, mas não sou bandido. Tenho nada com isso.
– Vamos averiguar. Se não tiver nada a ver mesmo, nada tem a temer. Boa noite, senhor Jerônimo.
Desceu da varanda e foi até o carro, ordenando a partida. Um dos policiais dirigiu a caminhonete que estava em mãos dos detidos. Foram direto para a delegacia, sem se demorarem. Levavam a suspeita de que o fazendeiro faria alguma coisa para resgatar os dois. O comandante do grupo estava convicto da culpabilidade dos dois. Todavia chegaram à delegacia sem problemas. Mal sabiam que pouco atrás havia chegado o carro de Jerônimo, que se dirigiu direto à casa do advogado. Expôs rapidamente o caso, omitindo a questão de seu envolviemnto. Pediu que fosse impetrado um habeas corpus o mais rápido possível. Ficou sabendo que dificilmente esse mandado seria conseguido antes do almoço de sábado. O juiz de plantão para atender essas emergências era o mesmo encarregado da ação de Onofre contra Jerônimo. Era capaz de associar uma coisa e outra e a situação se complicaria.
– Eu falei ao senhor! Não tome nenhuma attitude precipitada! Mas parece que quer saber mais do que eu.
– Não tenho nada a ver com isso. São meus conhecidos e vim para ajudar. Eles são inocentes.
– Tem certeza disso?
– Não posso jurar, mas eles estavam lá em casa pedindo trabalho e nisso os policiais chegaram. Cismaram com eles e os trouxeram para a delegacia.
– Se não tem o que temer, mais tardar amanhã meio dia estão na rua. Se tiverem a ver com o atentado, o caldo entorna seu Jerônimo.
– Providencia logo esse mandado. Eu pago o que precisarr. Peça para o delegado estabelecer a fiança!
– Vou tentar, mas não garanto nada. Acho bom o senhor ficar aqui, bem quieto e esperar minha volta. Nem pense em aparecer na delegacia, pois isso irá implicá-lo no caso.
– Não perca tempo doutor. Eles precisam sair daquela delegacia o quanto antes.
O advogado percebeu que o cliente estava envolvido até o pescoço na questão. Do contrário não estaria tão nervosa. Como isso iria lhe render bons honorários, foi fazer o que precisava. Antes ligou para o juiz para saber se poderia ser atendido antes do amanhecer e ficou sabendo que o meritíssimo estava em uma festga e voltaria mais tarde. Não era bom palpate incomodar tarde da noite. O homem ficava uma arara quando isso acontecia. O jeito era ir até a delegacia tentar convencer o delegado a soltar a dupla. O quanto antes pudesse fazer isso, aumentaria a chance de não fazerem eles cantar até o que não sabiam. Conhecia bem a habilidade dos invertigadores vindos recentemente. Eram capazes de fazer um defunto falar, quanto mais dois vivinhos da silva.
Deixou Jerônimo sentado em seu gabinete doméstico, diante de um litro de whisky e café numa térmica. Ele que servisse o que quisesse, pois a conta seria salgada depois. Sem hesitar dirigiu-se resolutamente à delegacia para avistar os detidos. Ao chegar ali, verificou que a repartição estava movimentada. Isso era visível pela presença do carro do delegado em pessoa. Teria que tomar cuidado com as palavras para não arrumar encrencas para seu lado. Frequentemente precisava da boa vontade das autoridades e uma palavra errada, dita no momento indevido, podia causar um grande estragon nesse relacionamento.
Chegou ao balcão da recepção e perguntou ao agente que ali estava de plantão:
– O Delegado Demétrio está aí?
– Está sim, doutor. Qual é o problema que o traz aqui?
– Fui avisado que dois clientes meus estão detidos e vim assistir aos depoimentos deles.
– Aguarde um momento por favor.
Levantou o telefone, discou um número e logo falou com alguém, certamente em outra sala.
– Doutor Delegado!
– Fala, Douglas.
– Está aqui o doutor Estevão. Ele quer falar com os detidos!
– Mande ele aguardar. Estamos terminando com eles dentro de cinco minutos.
– Certo, chefe. Vou avisar.
Desligou o aparelho e voltou-se para o doutor Estevão, dizendo:
– O Delegado já vail he receber. Espere um minute. Quer um café?
– Obrigado. Não quero tomar café a essa hora. Me dá dor de cabeça.
– Sente-se um pouco.
Estevão fez menção de ir para a área interna da delegacia, sendo impedido pelo policial.
– O senhor não pode entrar antes de receber autorização para isso. Faça o favor de sentar-se.
– Mas eu tenho pressa de falar com os meus clientes.
– Quem foi mesmo que lhe contratou, doutor Estevão?
– Eles mesmos.
– Se eles foram detidos na fazenda do seu Jerônimo e vieram diretamente para cá. Como eles puderam lhe avisar?
– Acontece que eu sou advogado do fazendeiro e ele me avisou por telefone. Vim atender a eles, pois tenho outras causas em que autuo a favor deles.
– Entendo, doutor.
Sentou-se e fez de conta que lia uma revista aberta sobre a mesa, mas os olhos vigiavam o advogado. Era melhor que ele se mantivesse quieto ali, salvo se quisesse arrumar encrenca. Enquanto isso, o delegado separara os dois detidos, colocando ambos sob os cuidados de interrogadores diferentes. Em dado momento um outro agente entrou numa sala dizendo:
– Pode confessar, amigo. Seu parceiro já deu todo o serviço.
– O quê? Aquele desgraçado abriu a boca.
Sem dizer mais nada o agente saiu e foi dizer ao delegado:
– A artimanha acaba de funcionar. O pássaro cantou legal. Foi dizer que o parceiro havia dado o serviço, ele ficou revoltado e perguntou se o outro tinha aberto o bico.
– Quer dizer que encontramos os dois mais depressa do que poderíamos imaginar. E pelo visto aquele fazendeiro está envolvido nisso.
– É o que iremos ver. Agora os colegas podem apertar bem e logo saberemos toda a verdade.
Em poucos minutos os dois interrogadores vieram, quase ao mesmo tempo, com largo sorriso no rosto. Tinham em mãos a confissão complete dos dois, apenas cada um dizia que for a apenas servir de motorista. O colega fora fazer a tocaia.
– Notável isso. Depois que a casa cai eles tentam incriminar um ao outro. Não se faz mais bandido como antigamente.
– É Doutor. Na hora do pega para capar, salve-se quem  puder.
– Vamos tomar o depoimento deles para não voltarem atrás. Tem um advogado aí na porta para falar com eles. Deve ter alguém no comando. Aposto meu soldo que isso é obra do fazendeiro onde eles foram encontrados.
– Eles não disseram ainda, mas dá para deduzir sem problema.
– Aperta um pouco e tira o resto do suco. Enquanto isso eu vou conversar com o advogado. Dou uma trovada nele até vocês terminarem o serviço.
Chamaram um escrivão e foram tomar os depoimentos. O delegado saiu até a portaria e fingiu surpresa com a presença do advogado.
– Boa noite, doutor Estevão! Tudo bem? E que lhe posso ser útil?
– Eu vim conversar com dois clientes meus que estão detidos. Preciso encaminhar um habeas corpus logo cedo e tenho que saber detalhes para elaborar o documento.
– Só um momento. Estamos remanejando uns pássaros aí dentro e logo lhe coloco diante dos seus clientes. Enquanto isso, venha até minha sala e conversamos um pouco.
Não tendo alternative, doutor Estevão entrou e sentou na poltrona diante da escrivaninha que o delegado lhe apontou. O assento parecia ter espinhos e não conseguia parar quieto. Ouviu o delegado dizer:
– O que o deixa tão inquieto doutor?
– Estou com uma dor incômoda na coluna e isso me faz procurar uma posição melhor.
– Sei como é isso.
– Preciso procurar um médico na semana que vem. Isso está me deixando maluco. Pior que tenho uma montanha de processos para atender e não sobra tempo para cuidar da saúde.
– Mas se não se cuidar, vai chegar uma hora em que não terá mais condições de levantar. Tem que se tratar. 
Nisso o agente veio até a porta e faz sinal ao delegado. Os depoimentos estavam tomados e devidamente assinados pelos dois detidos. Agora haviam sido colocados na mesma sala e tinham se lançado olhares furiosos mutuamente. Sinal de que se sentiam traídos pelo companheiro.
O advogado foi levado à presença dos dois e passaram a conversar sigilosamente. Ao ouvir a troca de acusações entre eles viu que chegara tarde. Nada mais poderia fazer. Tanto os dois como o fazendeiro estavam mais enrolados que novelo de linha. Determinou aos dois que não falassem mais nada sem a sua presença. O estragon feito já era grande o suficiente. Não precisariam dizer mais uma palavra para complicar. Falou-lhes que teriam que aguardar para ver se conseguiria encontrar uma maneira de eles responderem ao processo em liberdade. Não sabiam ainda que o coronel Onofre nada sofrera além de uma perfuração dos músculos da perna e já estava em casa. Se ele tivesse ido a óbito, o problema ficaria muito maior. O envolvimento de Jerônimo com o atentado, complicava tudo. O processo do litígio da divisa estava para ser julgado e provavelmente o delegado informaria ao juiz sobre o caso, quando desse entrada no habeas corpus. A chance de êxito era minima.
Voltou para casa e comunicou ao cliente tudo o que havia ocorrido. Determinou que ele voltasse para casa e não andasse por aí, sem ser chamado. Qualquer coisa seria motivo para sua prisão. Se o procurassem em casa, deveria ficar oculto, deixando o automóvel em algum lugar for a de vista. Enquanto isso tentaria manobrar, mexer os pauzinhos, para conseguir livrá-lo da cadeia antes do julgamento. Mandaria notícias assim que pudesse.
Jerônimo obedeceu e voltou para casa. Ia se recriminando pela sua imbecilidade em se deixar levar pelos sentimentos de vingança. Se tivesse mantido a cabeça fria, estaria agora perto de infligir uma derrota ao vizinho, como o doutor Estevão lhe garantira.
Agora não restava alternativa. Teria que aceitar que estava em dificuldades e não agravar mais a situação.

 

Mineiro sovina! – Capítulo IX.

 

Entrega das intimações
Três semanas depois de encaminhados os processos, foi marcada a audiência para eventual conciliação ou julgamento da matéria. Em havendo evidências para o proferimento de sentença, o Meritíssimo Juiz da vara cível proferiria a sentença, da qual caberia recurso, para produção de novas provas de ambas as partes litigantes. Não havendo recurso, a sentença seria executada e o processo arquivado como concluido. As intimações às partes e testemunhas foram emitidas, havendo um prazo entra a data de intimação e a realização da audiência, visando permitir à parte demandada constituir sua defesa, arrolar testemunhas e provas em seu favor.
A entrega das intimações precise ser realizada em mãos pelo oficial de justiça. Como ambas as partes residiam na mesma redondeza, um mesmo oficial foi encarregado da entrega de todas as intimações. Chegou primeiramenete na casa de Onofre, onde não encontrou dificuldade em realizer sua tarefa. Ao contrário, o mesmo ficou contente em saber o dia em que seria feita justiça em seu favor, disso tinha certeza. Depositava no doutor José Silvério uma confiança quase cega. Faria o possível e o impossível para ganhar essa causa em seu favor.
Quando chegou na propriedade de Jerônimo de Alcântara, a situação ficou complicada. Ao ver o veículo com placa oficial o proprietário ficou de cabelo em pé. Ouvira murmúrios de que o vizinho havia contratado advogado para questionar seu direito ao uso da água da vertente, próxima da divisa. Sempre desconfiara de que aquela demarcação realizada anos antes, no tempo de seu pai, quando ele era criança, não for a feita com lisura. Quando teve oportunidade contratou um agrimensor que fez, sem avisar o vizinho, uma nova demarcação e agora a vertente estavam em seus domínios.
Acolheu o oficial com a carra amarrada, esperando para ver o que viria. Ao saber do que se tratava, ficou furioso. Deu um berro e imediatamente um par de capangas surgiu ao seu lado, perguntando o que acontecia e ele lhes dissect:
– Botem para correr esse oficialzinho de justiça. Não vou assinar intimação alguma e quero ver quem vai me obrigar.
– Senhor, não precise de violência. Nós vamos embora e o senhor receberá de outra forma essa intimação.
Deu meia volta, embarcou no jipe e voltaram para a cidade. Alguns dias depois, duas viaturas da polícia militar, transportando um contingente de oito soldados e um sargento, escoltaram a viatura do oficial de justiça ao patio da fazenda de Jerônimo. Os policiais ficaram aguardando, mantendo as armas ao alcance das mãos, enquanto o oficial fazia a entrega da intimação. Diante dessa demonstração de força, Jerônimo manteve a custo a raiva, e assinou a intimação. Havia nesse interim procurado um advogado que lhe aconselhara receber por bem a intimação, do contrário iria responder por mais um ato delituoso. Desacato à autoridade, por ter usado a intimidação diante do oficial de justiça. Tinha que cuidar para não complicar mais o que parecia não ser tão simples como ele pensare que fosse.
Depois de assinar a intimação, o sargento desceu da viatura e chegou perto, dizendo:
– Senhor Jerônimo, eu trago uma ordem de prisão contra sua pessoa, emitida pelo Exmo. Juiz da vara cívil, por desacato a autoridade do oficial de justiça no dia em que veio lhe entregar a intimação que agora o senhor recebeu. O senhor me acompanha por bem, ou vou ter que usar a força?
Olhou ao redor e ali estavam os soldados com as mãos prontas para empunhar as armas em defesa de seu chefe.
– Eu vou, mas no meu automóvel.
– Alguém vai levar seu automóvel e o senhor nos acompanha na viatura. Quando o Juiz lhe liberar vai voltar com quem lhe for buscar.
– Mas sargento…
– Nada de mas, senhor Jerônimo! Nem meio mas! Ou prefere ser algemado agora mesmo?
– Casimiro, pega aqui as chaves e os documentos do auto. Venha atrás da gente para me buscar. Aliás já passa logo no doutor Paulo e peça para ele providenciar minha soltura.
– Pois não patrão. Vou levar o Chico comigo para não ir sozinho.
– Mas não siga muito perto das viaturas. Mantenha pelo menos cem metros de distância, – falou o sargento.
Todos embarcaram, fizeram a volta e rumaram para a cidade. Em poucos minutos era possível ver, seguindo atrás dos veículos oficiais, a caminhonete de Jerônimo, indo em sentido da cidade. Quem passava pela estrada ficava achando estranha a presença de Jerônimo do veículo policial e os empregados dirigindo sua caminhonete. Não tardou a notícia chegar aos ouvidos de Onofre e este se rachou de dar risada. Ficara sabendo que o vizinho botara para correr o oficial de justiça na primeira vez e agora estava levando o que merecia. Aprenderia a respeitar autoridade.
Chegaram ao forum e levaram Jerônimo direto para a ante-sala do gabinete do juiz. Foi anunciada a sua presença e logo o magistrado mandou que o fizessem entrar. Era um homem bem menos arrogante e altivo que estava ali. Mantinha-se de cabeça baixa esperando o veredito do juiz. Este folheou uma pequena pasta e, puxando os óculos sobre a ponta do nariz, encarou o homem a sua frente e falou:
– Então esse é o homem que não recebe intimação das mãos do oficial de justiça? Chama os capangas e manda por para correr a autoridade! Que tal fazer isso agora, aqui na minha frente, senhor Jerônimo! Vamos, comece.
Diante do mutismo do homem, o juiz tornou a falar:
– Engraçado, parece que o gato comeu sua língua agora, ou a perdeu na estrada! Eu devia lhe botar na cadeia por trinta dias pelo menos, seu Jerônimo. Mas como tem pouco mais que isso para providenciar sua defesa no processo de litígio de divisas e outras pendengas, vou fixar sua fiança. Providencia um advogado para trazer o dinheiro e depois o libero. Levem ele para a sala de detenção provisória até que o advogado venha livrá-lo dessa enrascada.
– Meu advogado daqui a pouco estará aqui. Pode fixar a fiança que e providencio o dinheiro.
– Já vou fazer isso, mas não quero lhe ver mais na minha frente antes do dia da audiência. Agora pode ir e se controle, ou mando lhe aplicar um corretivo.
Em questão de meia hora o advogado, doutor Paulo de Andrade, chegou e recebeu das mãos do juiz a fiança estipulada. Foi falar com Jerônimo e lhe disse:
– Fique calmo e vamos logo providenciar esse dinheiro. O senhor escapou liso. Esse juiz é severo e não gosta de ser desobedecido. Onde foi que estava com a cabeça ao botar para correr o oficial de justiça?
– Nem eu sei direito, doutor! Me deu uma raiva naquele dia e não me controle. Quando vi já tinha feito.
– Isso poderia ter custado bem mais caro, seu Jerônimo.
– Posso fazer um cheque para retirar no banco antes que feche?
– Faça logo pois não demora para fechar o expediente.
O cheque foi preenchido, sendo acresdido do honorário do advogado. Ele tivera que interromper uma entrevista importante para atender a emergência do cliente. Não faria isso sem cobrar seu trabalho.
Quando o dinheiro da fiança chegou às mãos do juiz, feito o recibo, imediatamente foi dada a ordem de soltura do detido. Os capangas aguardavam do lado de fora com a caminhonete para levar o patrão para casa. Estavam assustados, pois nunca haviam passado por uma situação dessas. O mais perto que haviam chegado de um juiz era alguns quilômetros de distância. Hoje tinham ficado a espera diante do forum, vendo entrar e sair grupos de policiais, viaturas adentrando o patio, homens de terno e gravata chegando e saindo. Queriam rapidamente sair dali e voltar a sentir-se em seu elemento, bem longe daquele lugar.
Jerônimo não estava para muita conversa. Apenas respondeu com monossílabos às perguntas dos capangas que logo notaram e se mantiveram em silêncio. Não era aconselhável perturbar o patrão quando estava enfezado. Os dias seguintes foram de intensa movimentação na propriedade de Jerônimo. Foram frequentes visitas ao advogado, levando testemunhas, documentos solicitados pelo advogado, para preparar adequadamente a defesa. O tempo era escasso, pois a teimosia do acusado, consumira preciosos dias que teriam sido importantes na preparação da defesa.
Nesse meio tempo, Antônio B. Lemos visitou, em companhia de José Silvério, a fazenda de Onofre, para fazer o levantamento detalhado de todos os quadros de Isabel. Ao todo catalogou 112 peças, incluindo os que estavam na casa, enfeitando as paredes. Foi preciso identificar cada um com um nome e foi Isabel que teve a tarefa de fazer a escolha dos nomes. Muitos eram óbvios devido ao objeto retratado, outros ao contrário, exigiam uma denominação diferenciada para evitar a repetição de nomes. Fez uso de indices numéricos para tal. Cada um recebia, junto ao nome, a data de conclusão. Dessa forma formou-se um acervo bem seleto. Nada havia a excluir, mesmo os produzidos logo no início da atividade. Permitiam traçar a trajetória evolutiva da artista.
Com um catálogo de fotografias detalhadas em mãos, Antônio procurou os proprietários da galeria e negociou o evento. Conseguiu uma semana livre em um prazo de 90 dias. Levou Isabel para assinar o contrato com a galeria e patrocinadores. Foi estabelecido um valor mínimo para cada peça a ser exposta e feito o mapa da exposição. Ao entrar o visitante encontraria os trabalhos de início da carreira e aos poucos vinham os de datas mais recentes, até o dia mais próximo da data do evento. Instada por Antônio ela levou uma tela inacabada e cada dia dava algumas pinceladas dando a impressão de um trabalho em construção. Dessa forma era comum os visitants encontrarem a pintora com o avental, pincéis e tintas em punho, dando algumas pinceladas.
Enquanto aguardavam a realização do evento, eram feitos contatos com outras galerias, principalmente da capital e muitos machand’s confirmaram a presença para conhecer a nova artista. Alguns expoentes do mundo artístico confirmaram presença na noite de inauguração, o que viria abrilhantar a noite. Nos dias subsequentes haveria horários de visitação no período da manhã, tarde e começo da noite.
As semanas passaram rapidamente e o dia da audiência se aproximava. Num dia desses, Onofre se viu frente a frente com o vizinho Jerônimo, aos air de uma agência do Banco do Brasil. Onofre ia passar sem dizer palavra. O vizinho o interpelou:
– Está imaginando que vai ganhar a causa, coronel? Pode esquecer. Meu advogado vai dar uma surra no seu, aquele molecote, filho do dono da mercearia e vai arancar de você uma boa indenização.
– Tem certeza?
– Se tenho! São favas contadas. Depois vou dar uma festa em comemoração, paga com seu dinheiro, coronel de meia pataca.
– Veremos, Jerônimo. Tenho mais o que fazer. Passar bem vizinho.
O que Jerônimo não sabia é que Onofre, com o mapa e laudo da demarcação feita anteriormente, fora ao cartório e registrara o documento. Dessa forma ele passara a fazer parte da documentação da propriedade e nele estava claramente especificada a localização da vertente motivadora da discórdia. O doutor Paulo, recebendo um mapa inverso, datado de época mais recente, mas sem o devido registro, tinha absoluta certeza de que a causa estava ganha. Disso resultava a certeza de Jerônimo quanto ao resultado do julgamento que resolveria a questão.
Antes de empreender o retorno, Onofre passou no escritório e contou a José Silvério o encontro que tivera com o seu desafeto. Foi aconselhado a não revidar nenhuma provocação. Até mesmo os seus empregados deveriam reagir a eventuais agressões provenientes de empregados de Jerônimo. Qualquer ato impensado viria prejudicar o resultado do processo. Seria preciso manter a serenidade, mesmo a custa de muito esforço. Havia a possibilidade de ser contratado algum pistoleiro para executar alguma forma de vingança, antes ou depois do julgamento. Era recomendavel não sair sozinho da propriedade e nem percorrer sem acompanhante os seus domínios. Infelizmente ainda não era possível confiar inteiramente nos trâmites da justiça. Uma bala perdida, disparada de tocaia era capaz de causar muito mal e depois não haveria sentença que desse resultado.

 

Onofre falou que já adotara desde algumas semanas, especialmente quando soubera do episódio do oficial de justiça posto a correr pelo vizinho, a providência de estar sempre acompanhado de pelo menos um de seus tabalhadores. Não convinha se expor sem necessidade. Talvez depois da sentença, com algum tempo para digerir a questão, o vizinho viesse a se tornar menos agressivo e truculento. 

Mineiro sovina! – Capítulo VIII

 

Foto de uma fazenda típica de Minas Gerais.

 

Processo é encaminhado
Naquela noite, antes de adormecer, José passou um longo tempo lembrando do rosto, silhueta, os longos e sedosos cabelos de Isabel. O conjunto era estonteante e ele estava irremediavelmene apaixonado. Fez um propósito firme de fazer o máximo empenho em todas as causas que ficassem sob sua responsabilidade. Alcançaria sucesso e posição de destaque dentro da empresa. Isso o colocaria em posição vantajosa do ponto de vista da opinião de coronel Onofre. Não teria como se opor ao romance, dele José Silvério, com a bela filha. Em especial colocou como questão de honra alcançar uma sentença favorável ao cliente no processo que iria encaminhar no decorrer dessa semana.
      Um ganho de causa, com sentença vantajosa para Onofre, daria ao advogado um trunfo importante na consecução de seu objetivo maior: conquistar as boas graças da filha. Não esqueceria de mandar reveler as fotografias na manhã seguinte, pois queria tê-las em mãos para serem anexadas ao processo como prova documental das transgressões cometidas pelo vizinho de seu cliente. Havia aproveitado para fazer uma sequência de exposições, gastando todo o filme. Assim teria imagens para lembrar do lugar onde a razão de suas aspirações afetivas passava seus dias. Pensando em tudo isso, adormeceu e sonhou com encontros românticos, passeios no cafezal, exposições de arte na capital, sendo a estrela a pintora que conhecera naquele dia.
      A manhã de segunda feira o encontrou a postos no seu gabinete, cuidando de alguns processos prontos para encaminhamento, faltando apenas revisar, evitando alguma falha eventual que passara despercebida. Logo cedo, pediu a secretária para chamar o contínuo. Quando o jovem se apresentou colocou em suas mãos o filme e pediu que o levasse ao laboratório mais próximo para reveler. Insistiu para que pedisse urgência no trabalho, pois havia ali provas importantes para um processo. O rapaz saiu e em questão de meia hora entregou à Roberta o comprovante de entrega do filme para processamento. Ficaria pronto ao final da tarde de quarta feira. Havia pedido que fosse terminado antes, mas não houvera jeito.
      Um pouco contrariado José, pensou um pouco e concluiu que, se deixasse tudo pronto, faltando apenas anexar as imagens, poderia encaminhar o processo na quinta feirra. Com um pouco de sorte dentro de uma semana ou no máximo duas, a data da audiência estaria fixada. As intimações seriam expedidas e entregues, para que ninguém pudesse alegar ignorância do fato.
      Em meio a uma série de processos, uns em fase de instrução, outros coletando documentos e informações, estava agora o processo de Onofre Pires contra Jerônimo de Alcântara. Os nomes das testemunhas do queixoso haviam sido arrolados e identificados, indo fazer parte do processo. Inicialmente teria algumas páginas com a descrição dos fatos relatados e constatados in loco pelo advogado, tendo como prova as fotografias tiradas.
      Pontualmente na tarde de quarta feira os negativos e uma cópia de cada uma das fotografias chegaram às mãos de José Silvério. O processo estava pronto, faltando apenas anexar as imagens. Apressou-se em fazer sua parte e encaminhou à secretária para concluir a montagem do processo. Olhou rapidamente as demais fotografias e depois guardou tudo em sua pasta para ver mais detalhadamente à noite quando estivesse em casa. 
            Antes de fechar o gabinete, teve tempo de revisar o processo, aliás eram dois. No primeiro estaria em julgamento o ato de violação do limite das propriedades e no outro um pedido de indenização pelos danos causados nos cafeeiros pelos animais de Jerônimo. Onofre fazia questão absoluta de ser indenizado até o ultimo centavo. Onde já se viu perder algumas sacas de café por causa das vacas do vizinho. Era causo fora de questão. Mostraria ao turrão do vizinho o quanto doia desrespeitar a propriedade alheia.
            No outro di aos processos, junto com vários outros, seguiu pelas mãos do contínuo, para o cartório do distribuidor público. Dali seriam encaminhados para as respectivas varas de justiça, muito embora não houvesse grande diversidade de juízes. Cada um deles acumulava mais de uma vara. O número de processos a serem julgados não era ainda tão elevado, permitindo aos três magistrados da comarca dar conta da tarefa.
            Nos momentos de relativa folga, José Silvério aproveitava para investigar a questão das pinturas de Isabel. Contatou vários amigos, ligados ao setor artístico para obter informações sobre eventuais especialistas na área de pintura na cidade. Ficou sabendo que existiam alguns, mas entre eles havia dois apenas que tinham algum renome no ramo. Os outros eram mais agenciadores de exposições do que experts em pintura. Pediu a quem lhe deu essas informações o endereço, telefone e alguns detalhes pessoais para poder fazer um contato mais personalizado. Julgou que, se a conversa fosse mais informal, teria meior chance de conseguir que um deles ao menos, se dispusesse a fazer uma avaliação dos quadross de Isabel.
            Se houvesse necessidade aproveitaria o final de semana para fazer uma visita pessoal aos dois. Isso permitiria formar uma opinião melhor sobre a capacidade de cada um. Na sexta feira conseguiu falar, primeiro com um deles e depois com o outro. Expôs a questão e encontrou receptividade de parte de pelo menos um deles, enquanto o outro ficou numa posição de neutralidade. Não se negou, mas não ficou entusiasmado. Sabendo que o interlocutor era membro do escritório de advocacia que os representava em algumas situações legais, predispuseram-se a recebê-lo em sua casa. Seria bom se tivesse uma ou duas amostras para levar. Dependendo da primeira impressão, fariam uma avaliação mais abrangente num momento posterior.
            As visitas ficaram marcadas para sábado à tarde. José aproveitaria a manhã par air até a fazenda e traria dois ou três quadros que Isabel se dispusesse a ceder. Assim teria, já na segunda feirra, uma ideia da opinião que os dois especialistas faziam do trabalho. Ele mesmo os achava encantadores, mas havia que levar em conta o fato de seu envolvimento emocional na questão. Isso altera a percepção da realidade. Não estava predisposto a notar imperfeições, falhas na execução das técnicas de pintura e outros pequenos detalhes.
            Ao chegar em casa na sexta à tarde, conversou com o pai sobre a possibilidade de usar o automóvel no sábado pela manhã. O pai quis saber qual era o objetivo e ele falou de que se tratava, recebendo de volta um olhar interrogador, como que a dizer:
            – Você está ficando apaixonado pela filha de seu cliente. Tome cuidado.
            Ficou com as chaves e documentos do automóvel desde aquele momento. Pretendia sair bem cedo e nesse momento o pai estaria provavelmente envolvido no processo de abrir o mercado. Qualquer coisa seria suficiente para atrasar e sabia da preocupação do seu genitor em ser pontual. Costumava abrir às 7 h 30 min, nem mais nem menos. A noite transcorreu sem novidades e sábado, logo aos primeiros raios de sol, o Ford Corcel GT, iniciava nova viagem até a fazenda de coronel Onofre. José ia alegre, cantarolando canções da bossa nova, Roberto Carlos, Ronie Von, Vanderleia e outros. Assim, quando menos esperava, chegou ao portal de acesso à fazenda. Percorreu a alameda ladeada de cafeeiros, onde agora estava ficando visível o avanço na maturação ocorrido ao longo da semana.






Cafezal florido.
Ladeiras cobertas de cafeeiros.
Cafezal sem fim, cobrindo morros e baixadas.
Montanha ao fundo e plantio nas proximidades.


            Estacionou na mema posição em que deixare o veículo no domingo e desembarcou. Logo se fez ouvir a voz de Onofre, parado na varanda que dizia:
            – Uai, doutor! Mas já de vorta?
            – Bom dia, coronel. Vim lhe comunicar que os processos já foram para as mãos do juiz e vamos aguardar a marcação das datas, expedição das intimações e tal.
            – E os retrato que tirou, ficaram bom?
            – Ficaram perfeitos. Acho que não vai sobrar dúvida quando o juiz pegar nas mãos. Mas só podemos cantar vitória depois da sentença.
            – Qui espero seja favorável!
            – Vai ser favorável, sim coronel.
            – Vem pra dentro. O café tá saindo agorinha mesmo do coador.
            Entraram e logo saboreavam uma ótima xícara de café fumegante. Quando Isabel trouxe o bule e as xícaras, ele aproveitou para dizer:
            – Em primeiro lugar, bom dia senhorita.
            – Bom dia doutor! Como tem passado?
            – Tudo ótimo e trago boas notícias para seus quadros.
            – Sim!
            – Vim ver se pode me emprestar dois ou três que estejam prontos para server de amostra para dois especialistas no assunto. São de Sete Lagoas mesmo.
            – Vamos ter que escolher. Tem uma porção ali no depósito. O difícil é escolher os menos ruins.
            – Não pense assim, senhorita. Pense em escolher os melhores. Pensamento positivo faz bem.
            – Vou ver com a mãe. Ela vai me ajudar a separar uns.
            – Não podem ser muito grandes para caber no carro.
            – Grandes mesmo só pintei os dois que estão na sala da lareira. Os outros são todos pequenos ou médios.
            – Se quiser, posso ajudar na separação. Apesar de não entender muito do assunto, posso ser uma opinião mais isenta.
            – Eu vou lhe chamar, depois que limparmos um pouco o lugar. Com licença, vou falar já com a mãe.
            José lançou um olhar para as paredes da sala de refeições onde se encontravam e percebeu novas nuances nos detalhes dos quadros ali expostos. Estava vendo de outro ângulo e isso lhe fez ver coisas que não percebera no domingo anterior. Estavam mais vigorosos os traços. As pinceladas pareciam mais perfeitas do que conseguia lembrar de ter visto antes. Até dava impressão de terem sido retocados desde a primeira vez que os vira.
            – O doutô fico mermo impressionado com os qudro de mia fia. Eu também gosto, apenas não tinha pensado em ser isso um meio de ganhar algum dinheiro.
            – Sou suspeito em falar, mas creio que cada um deles vale bom dinheiro, principalmente no momento em que a autora ficar conhecida no meio artístico.
            – Mas isso não vai faze ela viajar mundo, atrás de exposição?
            – E que tem isso, coronel? O mundo está cheio de gente que viaja levando seu trabalho para todos os lugares. É o mundo moderno. Estamos em l977 e o homem já foi até na luz.
            – Voismecê me conte outra, que nessa eu não credito não! Isso é tudo inventação desses americano. Só pra faze inveja nos russo.
            – Mas eles foram mesmo. Tem filme mostrando tudo. Trouxeram até umas pedras de lá.
            – Pedras da lua! Mais essa agora. Já num tem pedra qui chegue aqui na terra, tem que buscar umas na lua.
            – Não é por isso. É para estudo, análise de composição. Ver se lá tem os mesmos minerais que aqui na terra.
            – I pudera ser deferente? Homessa! Materiar é tudo a mesma coisa, num importa de onde vier.
            – Mas é possível existirem diferenças, detalhes não vistos aqui. É preciso investigar.
            Nisso dona Maria Luiza chegou à porta e falou:
            – Bons dias doutor. Que bons ventos o trazem aqui hoje?
            – Bom dia dona Maria. Eu vim dizer ao coronel que os processos estão na mão do juiz. Também vim ver se Isabel quer me emprestar uns dois ou três quadros para levar aos especialistas. Eles queremo ver para fazer uma avaliação prévia.
            – Ela está no depósito lhe esperando. Venha comigo, deixe o Onofre um pouco aí.
            Seguiram por uma porta lateral, passando por uma área coberta e logo à frente encontraram uma porta, onde já havia uma porção de quadros encostados, enquanto Isabel trazia mais dois para colocar ali. José olhou para dentro e viu ali uma quantidade enorme de quadros. Deveriam ser fruto de anos de trabalho incessante. Ficou admirando um a um os que estavam ali a mostra e, para ser sincere, ficou com uma dúvida atroz sobre qual escolher para levar. Cada um trazia novos detalhes. Os motivos eram variados sendo que em todos estava presente o vigor do traço da mão de Isabel. Pareciam traduzir simultaneamente a leveza e a força existente naquelas mãos. Como era necessário escolher, sugeriu alguns, meio a esmo e pediu que Isabel fizesse a seleção final. Por ele levaria todos eles, mas não tinha espaço para tanto e combinara levar no máximo três.
            Feita a separação, fizeram o envolvimento dos mesmos em mantas de lá para poupar de eventuais atritos e choques. Depois levaram até o carro, onde foram colocados no porta malas, tomando precaução para não ficarem encostados em nada que os pudesse danificar. O espaço que sobrou nos lados foi preenchido com acolchoados e assim evitariam o deslizamento uns sobre os outros. Depois de se certificar da imobilização total das obras, o porta malas foi fechado e José despediu-se de coronel Onofre, Isabel e dona Maria Luiza. Queriam que esperasse pelo almoço, mas não haveria tempo. A primeira visita estava marcada para as 14 horas e não queria se atrasar.
            Sem mais demora pegou a estrada e seguiu para casa. Chegou pouco antes da hora do almoço. Deu tempo de mostrar aos pais os trabalhos de Isabel. Ficaram vivamente impressionados com a beleza e imaginaram como ficariam bem uns quadros daqueles na sala de estar, próximo à mesa de jantar e outras dependências. José recolocou tudo no devido lugar e deixou assim. Almoçaram e pouco depois ele se dirigiu ao encontro do primeiro endereço constante em sua agenda. Era relativamente perto e se deparou com uma casa ampla, mas despretensiosa à primeira vista. Só depois de ver os detalhes se percebia a harmonia do conjunto.
            Foi recebido amavelmente por um homem de cabelos grisalhos, ostentando no rosto os sinais da idade. Deveria estar beirando os sessenta anos de idade, mas ainda dono de um admirável vigor físico. Caminhava com desenvoltura e convidou José a entrar. Após a troca de algumas amabilidades, foi o momento de apresentar o trabalho que vinha trazer. Foi até o automóvel e o dono da casa estava ao seu lado, curioso por ver o que dali sairia. Viu com satisfação o cuidado com que os quadros estavam acondicionados, demonstrando a preocupação com a manutenção da integridade física deles.
            José retirou o primeiro quadro e o passou às mãos do dono da casa, que o levou para dentro, colocando-o em um cavalente existente num canto da sala. José chegou com o Segundo que foi colocado em outro cavalete, ao lado do primeiro. Depois foi buscar o último que foi colocado no canto oposto. Enquanto isso o dono da casa ficou observando detidamente o primeiro, depois o segundo e por ultimo do terceiro. Caminhou até ficar a dois passos de cada um e mirou demoradamente os traços firmes, o contraste das cores, a suavidade do conjunto. Fez o mesmo com os outros dois, depois sentou-se na poltrona, em frente de José. Perguntou há quanto tempo a autora pintava e a pergunta foi negativa pois José esquecera de perguntar. No entanto era possível depreender que isso era algo que Isabel fazia desde vários antos precedentes, pois no canto inferior direito, abaixo da assinatura constava a data de conclusão.
            Um deles era de 1971, outro de 1975 e o outro de 1977. Portanto há pelo menos seis ou sete anos ela se dedicava a arte da pintura. Quis saber onde fizera seus estudos e as respostas foram vagas, pois não houvera tempo de entrar em muitos detalhes a respeito da vida de Isabel. O especialista foi bastante objetivo em fazer sua avaliação. Disse:
            – É nítidamente perceptível a evolução da técnica da autora. Temos aí três trabalhos de um intervalo de vários anos e sem dúvida o último é bem mais perfeito que o primeiro. Isso ao contrário do que possa parecer em primeiro momento, é sinal de que ela está cada dia evoluindo, aperfeiçoando a técnica. O traço fica mais definido, a harmonia aumenta. Para encurtar a conversa, ela é uma artista de futuro sem sombra de dúvida.
            – Fico satisfeito com isso. Quer dizer que valeria a pena tentar levar a coleção inteira ou parte dela para uma exposição em uma galeria, primeiramente aqui em Sete Lagoas e depois talvez na capital.
            – Estou disposto a organizer essa exposição. Queria apenas ter acesso ao acervo complete para fazer uma seleção dos melhores trabalhos e mesmo fazer um escalonamento por época. Evidenciar a trajetória evolutiva do artista é importante num primeiro momento. Pelo que me disse, ela é totalmente desconhecida.
            – Sim. Os únicos quadros expostos estão na casa da fazendo do pai, próximo a região dos lagos.
            – Faz ideia de quantos trabalhos ela tem ao todo?
            – Não tive tempo de contar, mas pelo que observei no espaço em que estão guardados, devem ser perto de cem, se não mais.
            – Ufa! Isso é coisa. Como ela nunca tentou uma exposição?
            – Sabe como é. O pai é fazendeiro, daqueles severos ao máximo. Ela é um pouco tímida. Tinha vontade de ser arquiteta, mas o pai só deixou ela cursar magistério. Ela aproveitou e fez o curso de pintura. É onde ela busca compensação da frustração de não poder fazer o que realmente queria.
            – Perdemos uma arquiteta, mas ganhamos uma ótima pintora. Quem pode saber o que é melhor!
            – Vamos combiner o seguinte. Eu falo com ela e inform sobre sua impressão. Talvez o senhor gostaria de escrever algumas linhas dizendo a ela de sua intenção?
            – Só um instante. Já faço isso e o senhor leva a ela minha proposta.
            – Enquanto isso eu torno a acondicionar os quadros no carro.
            – É uma pena, mas eu até gostaria de ficar com um deles pelo menos.
            – Eu agendei com outro especialista e tenho que levar a ele. Não sabia qual seria sua avaliação e por isso não posso deixare de levar. Mas depois eu converso com ela e podemos chegar a um acordo.
            José acomodou os quadros novamente, tomando cuidado para não esquecer de nenhum canto descoberto ou desprotegido. Nisso o homem lhe estendeu um envelope onde estava a folha de papel timbrado transmitindo à Isabel o desejo de organizar uma exposição com seus trabalhos. Agradeceu a atenção e se despediu. Havia cerca de uma hora até o momento marcado para a segunda visita. Essa transcorreu de modo semelhante à primeira, com a diferença de que o novo especialista era sensivelmente mais jovem. Tinha preferência por trabalhos em linha mais modernista, menos conservadora. Gostou dos trabalhos, apenas deixou clara sua predileção por pinturas mais abstratas, naturezas mortas e coisas assim. José agradeceu a atenção e, levando sua preciosa carga, voltou para a casa dos pais.
            O envelope que levava não estava fechado e ele olhou o que o homem escrevera. Em letra bem traçada dizia primeiramente sentir-se encantado em servir de intermediário para encaminhar tão promissora artista ao mundo da pintura. Depois detalhava os passos que deveriam ser seguidos para a realização de tale vento. José mostrou aos pais e à irmã a carta, depois a guardou cuidadosamente. Tinha motivo para nova viagem até a fazenda e faria isso no dia seguinte. Tinha receio de deixar os quadros no carro ou guardados em algum lugar. Eles poderiam sofrer algum dano e não se perdoaria por isso. 
            Por isso, na manhã seguinte refez o caminho e, quase à mesma hora de sábado, chegou à fazenda. Sua volta em tão curto espaço de tempo, causou estranheza, mas ele logo avisou;
            – Venho trazer boas notícias para Isabel.
            – Bom dia, doutor, – disse Maria Luiza.
            – Bom dia, senhora.
            – Isabel! Isabel! – chamou virada para o interior da casa.
            – O que é mãe? – indagou essa chegando à porta.
            – Escuita o que o doutor tem para dizer pra você.
            José pegou o envelope e o estendeu à jovem. As mãos trêmulas pegaram no objeto com respeito, abriram e retiraram uma fina folha de papel, onde leu palavras de elogio e proposta de realizer uma exposição. Estava assinado com um belo Antônio B. Lemos.
            O primeiro impulse foi gritar, mas se conteve e estendeu a folha para a mãe. Esta demorou um pouco a ler, pois era pouco menos que analfabeta e havia muitos anos não lia nada, além de uma ou outra bula de remédio, isso quando a lia. Depois de decifrar a mensagem, olhou firme para a filha e falou:
            – Eu não falei! Um homem entendido ia dar valor ao seu trabalho.
            Nisso Onofre veio saindo do interior e falou:
            – Uai! O doutor tá querendo afundá o trilho da estrada aqui di casa!
            – Quero não, coronel. Vim devolver os quadros de Isabel e trazer a boa notícia para ela.
            – Boa notícia? Qui é qui o senho tá dizendo?
            – Um dos especialistas ficou encantado com os quadros de Isabel. Quer conhecer todos eles, classificar em ordem de data, depois fazer uma exposição. Primeiro em Sete Lagoas e dependendo do resultado, levar para Belo Horizonte.
            – Oi! Nossa fia ficano famosa, muié! Entonce quer dizer que us quadro qui ela pinta tem valor! Mia Nossa Sinhora!
            – Fique contente, coronel. Estamos diante de uma grande artista.
            – Mais hoji sinhor vai almuçá cu a gente! Ah si vai!
            – Pensando bem, não tenho pressa em voltar para casa. Não vai ter problema nenhum em voltar mais tarde.
            – Vamu prosear aqui na varanda enquanto as miué prepara a boia.
            – Vou primeiro descarregar os quadros. Eu trouxe para evitar acontecer algum dano a qualquer um. Ah! Ia esquecendo Isabel. O seu Antônio Lemos queria ficar com um dos seus quadros. Não deixei pois tinha que levar para o outro. E depois isso vocês acertam depois quando forem preparer a exposição.
            – Minha nossa! Imagine um quadro meu, na sala de um especialista em arte!
            – Vai se acostumando, senhorita. Vai ter muito mais que isso no futuro.


Casario de fazenda.
Rocha pura com formato estranho em Minas Gerais.


Mineiro sovina! – Capítulo VII

 

   Tentando conquistar o “sogro”.
 
 
Enquanto coronel Onofre tirava seu cochilo, José Silvério apreciava o panorama a perder de vista dos cafezais, cobrindo encostas e baixadas. Um ou outro ponto de cor diferente, onde havia uma afloração de pedras, um morro mas íngreme e impróprio para o cultivo, quebrando a monotonia da paisagem. Maria Luiza e Isabel se ocuparam em deixare a cozinha arrumada para ser usada a qualquer momento em que fosse preciso. Trabalhavam de modo sincronizado, levando ao término das tarefas em pouco tempo.
Após a conclusão, Maria Luiza foi até o quarto e viu Onofre ressonando suavemente. Deixou-o quieto e veio até a varanda, sentando-se em uma confortável cadeira de balanço que ali estava colocada. Ao ver que o advogado estava ali e também cochilava, pensou em se retirar para não perturbar lhe o descanso. Ao se mover ele acordou e falou:
– Desculpe. Eu não havia percebido que a senhora estava aí, dona Maria Luiza.
– Tem nada não, doutor. Eu já ia me retirar para não lhe incomodar.
– Nada disso, senhora. Será um prazer conversar com a senhora. Eu cochilei um momento, mas não tenho o hábito de dormir após o almoço.
– Eu raras vezes também deito uns minutos. Geralmente aproveito para pegar um trabalho manual. Faço croche, bordado. Costuro um pouco, mas apenas o suficiente para o gasto.
– São atividades que mantem as mãos e mente ocupados.
– Minha filha é mais prendada. Aprendeu na escola na cidade a fazer pinturas. Está agora lá no atelier dela trabalhando no quadro que está quase pronto.
– Ela se formou em quê, senhora?
– Formou-se professor, mas não tem onde exercer a profissão. Só se for lá para a vila, mas é longe. O diploma por enquanto está enfeitando a parede apenas.
– Para as mulheres ainda é restrito o campo de trabalho. São poucas que conseguem ingressar em cursos mais concorridos. Acho que não é falta de capacidade, mas sim, incentive para enfrentar.
– A Isabel queria ser arquiteta, mas para isso ia precisar morar em Belo Horizonte e o pai, muito ciumento, não concordou com isso. Disse que tinha a fazenda para sustentar ela e não ia precisarr se arriscar na cidade grande. Sabe como é. Ele tem jeito à moda antiga. Filha é para a casa, depois casar, ter filhos e cuidar da casa.
– Um dia isso vai mudr. Por enquanto o quê fazer? E ela não se rebelou?
– Encontrou na pintura uma maneira de compensar a frustração. Viu os quadros na sala, na copa?
– Ví sim. São dela?
– Todinhos. Já pintava nos tempos de estudante e agora, todo dia ela pinta um pouco. Vai haver uma hora que não terá mais lugar para por tanto quadro.
– Nunca tentou expor alguns?
– Ela acha que não vale a pena. Diz que não são bons o suficiente para por no mercado de arte.
– Quem tem que julgar isso são as pessoas que vão apreciar. Geralmente quem faz, encontra defeitos em toda parte.
– Não vou lhe levar lá pois ela não gosta que perturbem quando está pintando. Quando sair de lá, pode conversar com ela e pedir para mostrar o que tem pronto.
– Nem pensar em perturbar a concentração dela. Não podemos olhar melhor os que estão da sala de estar e da de refeições? Olhei de relance antes, mas agora fiquei interessado em ver com detalhes.
– Acho que não há problema. Tem no corredor dos quartos também. Sem contar uma pilha guardada no depósito.
– Então ela produz bastante. Pelo visto é a timidez que a impede de expor seu trabalho. Dá licença que vou olhar detalhadamente esses aqui da sala.
Levantaram-se e foram até perto da lareira, onde havia uma paisagem grande, retratando a vista que estivera apreciando pouco antes, apenas num momento diverso. Os grãos de café estavam quase no ponto de colher. Um colorido de doer nos olhos de tão viva a cor. Um pequeno e delicado Isabel, colocado no canto inferior direito, identificava a autoria da pintura. José observou longamente o quadro e ficou encantado. Olhou de perto, de longe e admirou a perfeição do traço, a nitidez das cores que retratavam o vasto cafezal com os frutos maduros.
Na parede oposta outro retratava uma pessoa, de perfil, provavelmente o pai, num ponto diverso, tendo como fundo outro setor dos cafezais, porém totalmente floridos. Formavam uma vista perfeita. Ali estavam as plantas iniciando o ciclo de produção, do outro lado, no ponto de colheita. Os frutos resultantes da floração mostrada aqui. As outras paredes apresentavam pinturas menores, onde os vastos terreiros de secagem do café estavam cobertos de grãos em diferentes fases de secagem. Os trabalhadores na faina de revirar constantemente, tendo em vista a secagem uniforme e impedir a deterioração dos grãos ainda molhados. Eram pinturas dignas de nota.
Na sala de refeições, os motivos eram outros. Um apresentava uma sala com lareira, confortáveis poltronas onde algumas pessoas estavam sentadas palestrando e saboreando uma xícara de café. Até mesmo o vapor desprendido pelo calor do líquido estava representado. Em outra pintura estava a entrada da propriedade. A mesma placa de madeira que o acolhera naquela manhão ao chegar, estava ali pintada com perfeição, tendo como pano de fundo a alameda de cafeeiros, dessa vez com poucas folhas, mostrando que o quadro havia sido feito na época entre a colhaita e nova floração. Estavam admirando os belos trabalhos, quando a própria autora deles apareceu no ambiente. Ficou por instantes em silêncio, vendo o olhar fixo de José sobre um dos quadros e então falou:
– Não há muito que apreciar nesses quadros, doutor. Não passo de uma principiante.
– Pode até ser principiante, não duvido. O que não deixa dúvida é a força de sua arte. Consegue traduzir a alma do que está retratando de modo muito sutil e vibrante.
– Bondade sua. Mamãe sempre quer que eu leve alguns dos meus quadros para um especialista ver e avaliar. Não creio que valha a pena. São fracos demais. Tenho muito que evoluir em minha técnica de pintura.
– Em seu lugar daria ouvidos à sua mãe e levaria uma amostra para avaliação. Depois de ouvir a opinião de alguém especializado poderá ter uma ideia do real valor do seu trabalho.
– Acha mesmo que vale a pena?
– Só tentando para saber. Em geral somos levados por nossa humildade, timidez a subestimar nossos trabalhos. Alguém que tenha uma visão neutra poderá dar uma opinião mais abalizada, apoiada na experiência e conhecimento que tem.
– Em Sete Lagoas tem algum entendido no assunto? Nunca ouvi falar pelo menos.
– Se me autorizar posso fazer uma pesquisa e saber se existe essa pessoa especializada. Faço uma visita e vejo se ela realmene tem conhecimento ou não passa de alguém curioso, aventureiro em busca de ganhos fáceis às custas de gente desavisada.
– Está vendo filha! Não sou apenas eu que acho seus quadros lindos. Dr. José também e el epode verificar se há quem possa fazer a avaliação.
– Se não houver, podemos verificar alguém na capital. O coronel pode custear as despesas para levar o material até lá e fazer a avaliação.
– Não sei se papai vai querrer gastar dinheiro com isso. Ele gosta de ver os quadros aí, mas nunca falou em vender algum deles.
– Do que oceis tão falando? – perguntou coronel Onofre, que acabara de levantar de seu cochilo.
– Os quadros pintados por sua filha, coronel. São muito bons. Eu tinha visto antes e não sabia quem era o pintor.
– O doutor está se prontificando a intermediar com algum entendido em pinturas uma avaliação dos meus trabalhos. Pode ser preciso levar alguns para a capital.
– Uai, sô! Minha fia aparecer nas revistas e jornais, numa exposição de pintura! Sei não.
– Pode acreditar, coronel. Apesar de não ser entendido no assunto, mas posso garantir que não são de jogar fora. Creio que vale a pena verificar o valor que de fato tem.
– Seis cumbina aí. O dinheiro para a viagem eu arrumo. Só tenho uma fia e vou guardar para quem? Se é para o bem dela, num tem problema ninhum.
            – Vou me informar direito e depois aviso do que for averiguado.
            – Eu vou para coizinha fazer um café e server uns biscoitos a mode lanche da tarde, – disse Maria Luiza.  
            – Só se for para arrematar o almoço que ainda está quase inteiro aqui.
            – Vou com a senhora mãe.
            – Nóis vamo pra perto da lareira, que o frio está pegando. Parece que vai chuvê à noite.
            Em instantes estavam as mulheres na cozinha ocupadas com os apetrechos para coar o café e separar os biscoitos, além de outros doces como pé de moleque e paçoca.
            Indo para a sala de estar, sentaram-se confortavelmente diante da lareira que emitia um suave calor no ambiente. Coronel Onofre avivou o fogo e colocou mais um pedaço de lenha. Não seria necessário muito fogo. Apenas o suficiente para deixare o ambiente agradável. Ficaram alguns minutos em silêncio, antes de José Silvério criar ânimo para trazer à baila o principal motive que o trouxera ali. Não sabia exatamente como iniciar a conversa e optou por tentar cativar o candidato a sogro, com o que julgava ser algo interessante.  
Puxou do bolso um maço de cigarros, retirou-lhe o lacre e fez emergir algumas unidades pela abertura que fizera. Ofereceu um ao coronel, que o aceitou, depois retirou um para si. A seguir pegou uma caixa de fósforos, retirou um palito, riscou e acendeu o cigarro do coronel. Tomou outro palito, fez o mesmo com o seu cigarro. Após algumas tragadas, uma pequena nuvem de fumaça enchia o ambiente e ele atacou.
            – Eu vim aqui, coronel, com mais um objetivo, além de tirar as fotografias da cerca.
– Uai, sô! Qui é mais qui o senhor veio faze, doutor?
– Eu fiquei deveras impressionado com a beleza e delicadeza de sua filha, coronel. Confesso que meu coração dispara cada vez que a vejo e por isso vim lhe pedir a mão dela em namoro. Se ela me aceitar e nos entendermos, em algum tempo poderemos marcar o casamento.
            O coronel pensou por alguns instantes, olhou bem nos olhos do moço e disse:
– O senhor acha que eu sou louco?
            – Não senhor, muito pelo contrário, lhe tenho muita consideração.
– Então vou entregar uma jóia como a minha fia na mão de quem irá fazê-la passar fome! Eu não faria isso nem em sonho.
            – De maneira nenhuma. Sou advogado, estou bem encaminhado na profissão e desejo dar a sua filha a melhor das vidas que estiver ao meu alcance.
            – Vivendo como um perdulário? O senhor não vê que o cigarro é artigo muito caro para ir distribuindo por aí a qualquer um? Dispois, gastar dois paus de fósforos para acender dois cigarros, com tanto fogo ai mesmo na lareira? Não e não. Com minha fia o senhor não se casa. É mior que fique sorteira.
            – Vamos deixar esse assunto para um outro dia. Vou cuidar de alcançar sucesso na profissão e lhe mostrar que sou capaz de dar a senhorita Isabel uma vida digna. Voltaremos a falar no assunto em outra oportunidade.
            – Qui é que le parece o causo da ação contra o muquirana do meu vizinho?
            – Creio que, com as fotos que tirei, poderei instruir muito bem a petição que farei ao juiz. Quando for marcada a audiência, eu lhe avisarei.
– Desculpe o mau jeito. Sou muito observador dos detalhes. E a sua atitude hoje, demonstrou que não tem o devido cuidado com o dinheiro que ganha. Isto pode se tornar um problema com o tempo. Acaba-se gastando mais do que ganha e quando se dá conta, está enterrado em dívidas.
            – Tenha certeza que vou tratar de aprender a lição e espero que o senhor não me poupe de suas observações. Vou me tornar digno de sua confiança e então me confiará a mão de sua filha. Mas isso fica para outra ocasião.
            Nesse momento Isabel entrou trazendo o bule fumegante de café e a mãe Maria Luiza a seguia com uma bandeja onde havia biscoitos, páezinhos de queijo, paçoca e pés de moleque. Tudo foi posto sobre a mesa de centro e Isabel se pôs a server as xícaras luxuosas com o conteúdo do bule. Entregou a cada um a sua e ofereceu o açucareiro para que se servissem. Depois colocou a bandeja com os doces mais perto e pediu que se servissem do que lhes fosse do agrado. Serviu para si mesma uma xícara de café, sentou e se pos a sorver em pequenos goles. Tomava o café sem açúcar. De acordo com suas palavras não queria engordar.
            A conversa correu leve, falando de amenidades, notícias vindas recentemente da capital federal sobre o andamento do governo do General Ernesto Geisel. Pessoalmente coronel Onofre preferia que houvessem colocado no posto mais importante da nação um representante mineiro, mas nesses tempos era melhor manter o bico fechado, para não entrar mosca. Quem se aventurasse a falar demais, poderia enfrentar situações bastante desagradáveis. Isso era algo que não apetecia ao nosso coronel. Prezava sobremaneira sua liberdade, a propriedade e seus bens em geral. Pensava duas, três e mesmo mais vezes antes de dizer o que quer que fosse relacionado ao governo e mesmo qualquer autoridade.
            Após o café, alguns biscoitos, uma segunda xícara e um pé de moleque, José julgou ser hora de bater em retirada. Para uma primeira visita era bastante. Não convinha demorar demais para não dar impressão de ser aproveitador. Deixou combinado com Isabel fazer tudo para saber da existêncie de alguém capaz de fazer a avaliação de seus quadros. Se não pudesse ser em Sete Lagoas, seria na capital Belo Horizonte.
            – Bem coronel, dona Maria Luiza, senhorita Isabel. Já são quatro horas, o tempo passou depressa. Foi um prazer visitar sua propriedade. O almoço foi maravilhoso, seu café Isabel, e seus doces dona Maria, muito bons. Coronel, parabens pela propriedade e pela família. Tudo perfeito. Gostaria de ficar mais um pouco, mas quero chegar cedo em casa e me preparer para a semana de trabalho.
            – A pressa é sua, doutor. Nóis ficamo muito honrado em le receber em nossa casa. A porta está sempre aberta para os amigos.
            – Doutor, obrigada pelos elogios aos meus dotes culinários. Dê um abraço em sua mãe, seu pai e irmãos.
            – Obrigada pelo elogio aos meus trabalhos. Se conseguir um avaliador não sei como poderei lhe agradecer.
            – Imagine! É um prazer server a quem me recebeu tão gentilmente, me serviu café e comida tão bem preparados. Espero ser merecedor de estar aqui em outras oportunidades.
            Levantaram-se e sairam para a varanda. José estendeu a mão a todos, despedindo-se e depois foi até o automóvel. Em pouco estava a caminho de casa. Ia pensativo sobre as palavras do coronel. Não imaginara que o velho fosse ser tão “sovina” a ponto de considerer sua attitude como perdulária. Não era à toa que no resto do país os mineiros eram conhecidos como mão fechada. Os famosos mãos de vaca. Percorreu a distância sem pressa e antes do por do sol estacionava na garagem da casa de seus pais. Ouviu ruido de conversação ao se aproximar da porta da moradia. Uma tia, irmã da mãe e seu marido haviam vindo passear. Moravam num vilarejo a alguns quilômetros de distância. Certamente estariam se despedindo em pouco tempo. Habitualmente não gostavam de andar na estrada em horas da noite.
            Ao entrar foi recebido alegremente. A tia e o tio não o viam há bastante tempo e estavam orgulhosos do progresso que ele vinha obtendo na carreira de advogado. Congratularam-se com ele e lhe desejaram sucesso. Quiseram saber como havia transcorrido a visita que acabava de fazer ao cliente, aparentemente importante. Lhes informou brevemente o que acontecera, omitindo os detalhes que só a ele interessavam evidentemente.

 

            Em pouco os tios se despediram para retornar ao lar. Tinham alguns animais domésticos que precisavam ser cuidados antes de escurecer e o sol estava se pondo. 

Mineiro sovina! – Capítulo VI.

 

    Visitando o cliente
Domingo cedo, vestiu uma roupa elegante, sem ser formal. A visita que faria envolvia aspectos profissionais, no entanto deveria guarder uma aura de informalidade. Fez uso de um perfume discrete e marcante que lhe agradava muito. Deu um retoque no penteado, ajeitou a gola da camisa e conferiu o aspecto geral olhando-se de longe no espelho. Passou no mercado para pegar com o pai as chaves do automóvel. Aproveitou para colocar nos bolsos do blazer, um maço de cada uma das melhores marcas de cigarros e algumas caixas de fósforos. Despediu-se do pai e da mãe.
Foi até o automóvel, abriu a porta, colocou a chave na ignição, deu a partida. Aguardou alguns instantes enquanto verificava se estava tudo em ordem, o motor já aquecido, saiu dirigindo devagar, saboreando o sol radioso daquele dia, que para ele era especial. Durante cerca de quarenta e cinco minutos, percorreu estradas secundárias. Cafezais de um lado e outro ou então cercas de pastagens povoadas de animais de raça, criados na região. Em pouco, surgiu à sua frente o portal da propriedade que iria visitar. Não havia portão, mas a entrada era encimada por uma vistosa placa na qual se podia ler, entalhado em uma enorme prancha de madeira de mogno Fazenda Pires, propriedade de Onofre Pires.
Parou por alguns instantes, apreciando a soberba entrada. À sua frente se estendia, em linha reta, uma estrada bem conservada, ladeada de plantações de café em ambas as margens. A próxima safra prometia ser boa. Os cafeeiros estavam vergando os galhos sob o peso das frutas que traziam, ainda verdes, mas não muito distantes de atingir o ponto de maturação. Inspirou profundamente, premiu o acelerador suavemente e fez o Ford Corcel GT rodar em velocidade moderada para o interior da fazenda. Em minutos estava diante da imponente casa, um verdadeiro palacete, onde residia o Cel. Onofre e sua família.            Estacionou à sombra de uma árvore frondosa próxima da casa. Após desligar o motor, abriu a porta e desceu. Imediatamente ouviu a voz forte do coronel, que lhe dizia, parado na ampla varanda que circundava a frente e uma lateral da casa:
– Seja bem vindo, Dr. José. Venha tomar um café, recém coado.
            – Bom dia, coronel Onofre. Que dia lindo está hoje. Bela propriedade o senhor tem aqui. Se o resto for de acordo com o que pude ver até aqui, é uma maravilha. Só posso lhe parabenizar.
            – Bom dia, doutor., – cumprimentou o coronel quando José chegou perto e lhe estendeu a mão. – Ainda não viu nada. O que viu, é apenas uma pequena amostra do que tenho aqui. Vamos entrando, que já mandei servir o café.
Entraram e o coronel lhe indicou uma confortável poltrona, instando-o o a se sentar, enquanto ele mesmo ocupava outra igual, bem à sua frente      .
            – Isabel, minha filha, traga o café. Nosso visitante chegou. Hoje é o dia de folga dos criados, por isso é minha filha que vai nos servir o café.
Foi assim que José ficou a par do nome da filha do coronel. Quando a conhecera no escritório, não se lembrava se havia sido dito o nome da jovem. Importante era o fato de que não se lembrava do nome. Era mais provável que não havia sido pronunciado o nome dela. No mesmo instante adentraram a sala a jovem Isabel, portando a bandeja com as xícaras, açúcar e um fumegante bule de um café que espalhava seu delicioso aroma. Era sinal de que o produto usado era de excelente qualidade. Junto com a jovem, veio sua mãe, uma elegante senhora, sobriamente vestida.
            – Dr. José, esta é minha esposa, Maria Luiza. Isabel, minha, filha o senhor já teve ocasião de conhecer.
José levantou-se e apertou a mão que a senhora lhe estendia, dizendo:
            – Encantado, minha senhora. Bom dia para ti também, Isabel.
            – É um prazer tê-lo em nossa casa, doutor.
            – O prazer é todo meu, em visitar uma propriedade tão aprazível. Sua casa é decorada com muito bom gosto.
            – Boa parte disto se deve à minha filha Isabel. Recentemente fizemos uma remodelação nos móveis. Foi dela a escolha da maior parte dos móveis e dos itens de decoração.
            – O velho Onofre aqui, só era convidado a assinar os cheques para pagar as contas, sem direito a reclamar, – resmungou o coronel em sua poltrona.  
            – Pai, não reclame. Bem que o senhor gostou. Cansei de ouvir o senhor se gabar diante das visitas que recebe. O senhor fala um bocado alto. Mesmo não querendo pode-se escutar o que diz, no último recanto da casa.
            – E qual é a coruja que não gaba o seu toco? Sou igual a todo mundo.
            – Vocês dois não podem deixar as rabugices para outra hora?
            – Creio eles tem o temperamento parecido. E como dois bicudos não conseguem se beijar, fica explicada a pendenga, – disse José, enfiando sua colher na conversa.
            Acabaram todos numa sonora gargalhada.
            – Mas vamos tomar o café, antes que esfrie. O melhor café, depois de frio, fica horrível.
            – Concordo com a senhora, – atalhou José, recebendo a sua xícara das mãos delicadas de Isabel. Sorveram lentamente o líquido de aroma delicioso.
            Ao final, José falou:
– Parabéns, dona Maria Luiza. O seu café é realmente muito bom.
            – Não fui eu que fiz, foi Isabel. Pode crer, ela sabe melhor do que eu fazer um bom café. A quantidade exata do pó, a temperatura ideal da água. Ela é quem detém esses segredos.
            – Não é preciso exagerar mamãe, – replicou a jovem.
– Não é exagero. Tua mãe está com a razão. Ela te ensinou, mas você se tornou melhor do que a professora.
            – De qualquer modo, parabéns a quem fez este café. Até vou aceitar mais uma xícara. Normalmente não tomo muito café, mas este merece uma reprise, com toda certeza.
            – Pode tomar a vontade. Café é o que aqui não falta. E logo vamos ter nova safra e, pelo jeito, das boas. Deve ter visto pelo caminho a carga que tem nos cafeeiros.
            – Pois é mesmo impressionante. Os galhos estão quase quebrando de tão carregados que estão.
            – E esta é a área em que não está mais bonito. Depois iremos ver outras partes onde a carga é mais plena.
            Terminaram de tomar o café e o coronel Onofre convidou:
            – Vamos aproveitar que ainda é cedo, não está muito quente e vamos olhar o lugar que motivou a encrenca. No caminho aproveitamos para ver o cafezal que me enche de orgulho e alegria.
            – Por mim podemos ir, pois do contrário acabo bebendo o restante do bule de café e isto é muito para uma manhã.
            – Venha por aqui. Não quer aproveitar e colocar umas botas? Este seu sapato vai ficar cheio de terra, o que vai tornar difícil caminhar.
            – Se tiver algum par que me sirva.
            – Qual é o número que o senhor calça? Me parece que é do tamanho do meu.
            – Meus sapatos são número quarenta e um.
            – Pois tenho um par sob medida para o senhor.
            Saíram para os fundos da casa, onde, em uma área coberta, havia diversos pares de botas. O coronel Onofre pegou um deles e ofereceu ao convidado. Dr. José descalçou os sapatos e tratou de colocar as botas, que realmente lhe serviram perfeitamente. Enquanto isso, coronel Onofre também calçou o seu par de botas predileto. Colocou um chapéu, oferecendo um ao advogado que aceitou. Saíram e, enquanto caminhavam, o proprietário foi mostrando os detalhes de seus domínios. Passaram por um açude, onde, nas palavras do coronel, nadavam as carpas mais gordas e grandonas de toda a redondeza. Quando tinha vontade de saborear um peixe frito ou assado, era só capturar uma ou duas e estava pronta a festa.
Após meia hora de caminhada, chegaram ao ponto da divisa entre as propriedades, motivo da demanda em andamento. José fez perguntas que achou pertinentes e o coronel respondeu, explicou o que o levara a entrar com o processo. José, que se prevenira com uma pequena câmera fotográfica, bateu algumas fotografias em que ficava patente a ação fraudulenta do vizinho. Elas o auxiliariam na instrução do processo. Nelas ficava evidente que a cerca fora deslocada e também mostravam o local onde o gado do vizinho invadira a propriedade do coronel, causando danos aos cafeeiros. Havia uma meia centena deles que estavam totalmente quebrados. Para sua recuperação era necessário o corte baixo e esperar a brotação nova vir. Só depois voltariam a produzir novamente.
            – Pelas fotografias vai ser mais fácil mostrar o que motiva o pedido de indenização e a volta da cerca ao local original, – disse José ao coronel.
            – Destas coisas o senhor entende mais do que eu. Tenho certeza de que vai saber tirar uns bons cobres do muquirana do meu vizinho. Eu não quero mal a ele, mas tentei conversar e ele me mandou para aquele lugar. Disse que fosse dar queixa ao Bispo, ou então ao Papa. Pode uma coisa dessas? Me causa um prejuízo dos bons e ainda não quer nem conversar! Então vamos conversar na frente do homem da capa preta. Uai! Não é à toa que sou conhecido como coronel Onofre Pires por essas bandas. Sou de ficar no prejuizo não, sô.  
            – Os seus empregados viram os fatos e podem testemunhar em seu favor?
            – Com certeza. Posso levar uns cinco, se for preciso.
            – São mais do que suficientes, – foi a resposta de José.
            Deram mais uma volta para ver outra parte da propriedade e tomaram o rumo da casa. O sol estava ficando quente e a hora do almoço estava se aproximando. Não queriam fazer as mulheres ficar esperando por eles. Se havia algo que Onofre prezava era a pontualidade da hora do almoço. Não lhe agradava chegar atrasado para esta hora.
            Quando Maria Luiza escutou o ruído dos passos na área de serviço e a conversa dos dois homens, chegou à porta e falou:
            – Mais um pouco e eu iria atrás de vocês. O assado está pronto, as saladas temperadasa. É o tempo de se lavarem e virem para a mesa.
            – Já estamos indo, mulher. É só descalçar as botas, jogar um bocado de água no rosto e nas mãos e estamos prontos. Doutor, aqui tem sabonete, toalha e a pia. Quer lavar as mãos e passar uma água no rosto? Use à vontade. 
José lavou as mãos, enxaguou o rosto, depois se enxugou com a toalha que ali havia. Foi secundado por Onofre e em instantes adentravam a sala de refeições, luxuosamente decorada, sem exageros. Uma ampla mesa em mogno, rodeada de oito cadeiras finamente torneadas e envernizadas. Sobre a mesa uma toalha de linho fino, acabada com um barrado de crochet. Os pratos eram de fina porcelana e os talheres em aço inoxidável, encrustados de filigranas de ouro. Onofre indicou a Rodrigo uma cadeira, onde o mesmo se sentou, enquanto ele sentou-se à cabeceira.
Logo entraram Maria Luiza, trazendo um apetitoso assado de pernil suíno, seguida de Isabel com a travessa de salada nas mãos. Acomodaram o que traziam sobre a mesa, retirando-se em busca dos complementos para o almoço. Pão caseiro, uma tigela com farofa, uma jarra com vinho tinto, produzido na fazenda, com as uvas cultivadas em uma encosta pedregosa que havia perto da casa. Aipim cozido ao ponto de estar quase derretendo e também maionese feita pelas mãos de dona Maria Luiza. Após terminarem de por a mesa, as mulheres sentaram-se para almoçar.
            – Vamos nos servir, doutor. Se demorarmos a comida esfria e perde o sabor.
            – É a mesma coisa que a minha mãe sempre diz. Os comensais devem esperar pela comida e não o contrário.
            Atacaram com vontade os pratos e em questão de meia hora, sobravam apenas os restos mortais do que antes fora uma refeição primorosamente preparada, apesar da simplicidade dos pratos.
Com o término da refeição, as mulheres pediram licença e retiraram os pratos, talheres, as travessas e tigelas. Em pouco, puseram no lugar os pratos e talheres para sobremesa, que consistia de um delicioso pudim trazido pelas mãos de Isabel. Serviram-se do pudim, degustaram-no com prazer.
            – Um digno acompanhamento para uma refeição soberba. Parabens dona Maria Luiza e a você também senhorita Isabel. Obrigado pelo almoço.
            – Vamos tomar um cafezinho e depois iremos para a sala de estar. Vou lhe servir um licor, que garanto, o senhor nunca experimentou. É obra das mãos de minha querida Maria Luiza.
            O café foi servido e lentamente saboreado. Quando as xícaras ficaram vazias, dirigiram-se para a sala de estar, onde, a um canto, crepitavam algumas achas de lenha em uma lareira, apresar do clima relativamente quente da época. José Silvério, acomodou-se em uma confortável poltrona, forrada de fino couro, enquanto o Cel. Onofre foi até um barzinho, pegou uma garrafa com o licor, duas taças onde verteu um pouco do conteúdo da garrafa. Entregou uma ao advogado e, com a outra nas mãos, sentou-se em outra poltrona ao lado. Bebericaram lentamente o licor e José teve que admitir. Era de um sabor inimaginável. Dona Maria Luiza tinha verdadeiras mãos de fada. Nunca tinha provado um licor com sabor semelhante.
            – Coronel, sua senhora tem um poder mágico nas mãos. Este licor é algo que eu jamais tinha tido o prazer de experimentar. Faça o favor de lhe dar os parabéns.
            – É herança de família. Ela vem de linhagem residente nessa região há mais de dois sécculos, sempre lidando com gado, depois café e outras atividades.
            – Essa sabedoria precise ser tansmitida de geração em geração para não se perder. Seria bom mesmo escrever a receita e deixare para a posteridade.
            – Isso é lá com elas. Se tiverem vontade de fazer algo assim, tenho nada contra. Fico contente em ter aqui para meu consume. O dinheiro para viver e gastar vem do café. As outras coisas são acessórios.
            – Nem pensaria em questão de ganhos, mas em preserver o sabor que é único.
            – Depois vocês conversam e se elas quiser anotar, muito bem, doutor. Aceita deitar um pouco para uma sesta?
            – Não sou habituado, mas não faça cerimônia, coronel. Se tem o costume, faça sua sesta. Eu por meu turno me acomodo ali na varanda naquela rede. Faz tempo que não deito numa rede e aprecio o verde, o ar puro. O dia hoje está especial.
            – Pois entonce, fique à vontade, que eu vou cochilar um bocadinho. Um instante apenas que já é de hábito.
            – Descanse tranquilamente, coronel.
            – Com licença e esteja à vontade.
            Coronel Onofre foi para o quarto e se acomodou para o cochilo. Um hábito cultivado há muitos anos. José por sua vez foi até a varanda e verificou se não existia nenhum inseto ou coisa estranha na rede, depois deitou-se confortavelmente. Dali podia ver uma ampla área das plantações de café da propriedade de seu cliente. Nunca tivera oportunidade de observer os cafeeiros nessa fase de desenvolvimento. Formavamo um espetáculo belo. O verde escuro das folhas, contrastando com o tom levemente mais claro dos grãos que se destacavam ao longo dos caules de seus galhos.
            Passou um bom tempo ali, meditando sobre a vida bucólica que levavam os proprietários das fazendas de café. Havia a temporada da colheita, antecipada pela manutenção da limpeza, quando a faina era intensa. Mas nos intervalos a vida corria plácida e serena. Muito diversa da agitação urbana, onde desde o clarear do dia ao anoitecer havia sempre gente em constante movimento. Indo, vindo e um corre corre incessante. Até mesmo no período noturno havia movimento, menos intense é claro, mas, nas capitais, certos pontos em determinadas noites eram mais movimentadas que as horas diurnas.