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Mineiro sovina! – Capítulo XIX

 

Vista de Sete Lagoas.
Encontrando o rival.
         Conforme combinado na terça feira a família Pires se dirigiu para a cidade. Começaram por visitar o escritório da empresa estadual de energia elétrica. Levaram os documentos de identificação da ligação existente e expuseram suas inteções de ampliar o uso da energia. Seria preciso instalar um transformador mais potente no ponto de distribuição para suportar a nova demanda. Além disso precisaria ser colocado mais um cabo, completando as três fases. A vantagem existente era que recentemente fora implantado um benefício que tornava o custo da energia para instalações rurais mais atraente. Havia redução de impostos e taxas, de modo que, provavelmente, apesar do maior consumo haveria talvez uma leve queda na fatura mensal. Na pior das hipóteses a elevação seria insignificante.
         Encaminharam a solicitação de realização dos serviços necessários e autorizaram a cobrança dos custos relativos a isso. Ao saírem dali Isabel olhou bem para o pai e disse:
         – E o senhor preocupado com a conta de energia, hein pai! No final das contas vai ainda economizar com a coisa toda.
         – Uai! Tem alguma coisa contra economizá?
         – Não, pai. Claro que não. Só chamei a atenção para o fato de que, pensando em ter um gasto maior, ele vai ser menor ainda. Mas não tem problema. Prometi e vou pagar a conta.
         – Parem de ranzinzar aí, vocês dois! – falou Maria Luisa.
         – Melhor mesmo, mãe. Vamos agora ver as máquinas.
         A concessionária das máquinas de beneficiamento de café estava instalada a poucas quadras e em poucos minutos estavam estacionando no gigantesco pátio. Era um grande número de máquinas ali expostas para propriedades de todos os tamanhos. A Fazenda Pires era uma das grandes e precisaria o que fosse a última palavra no assunto. Ao ver os preços coronel Onofre se arrepiou inteiro. Já estava pronto a dizer que não iria querer nada e continuar a colher, manusear o café na forma como sempre fizera.
         Isabel não lhe deu ouvidos e falou ao vendedor:
         – Me veja o tudo que for preciso para beneficiar o café na fazenda de meu pai. Ele está querendo ir embora, mas pode fazer o orçamento. Eu vou pagar e dar de presente a ele.
         – Venha aqui que vou mostrar o que vai resolver seus problemas.
         Caminhou resolutamente na direção das máquinas maiores e mais modernas. Rapidamente descreveu o que cada uma fazia e quanto seria o custo, o consumo de energia elétrica além de pessoal necessário na sua operação.
         – E tem como treinar os empregados para trabalhar com isso? São todos xucros e nunca mexeram em dada disso.
         – A empresa fornece treinamento no local. Depois fica supervisionando por uma semana ou mais dependendo da necessidade.
         Vendo a soma de tudo, Isabel viu que teria como arcar com esse custo sem nenhum problema. Depois do sucesso que fizera na Europa, provavelmente se pusesse à venda meia dúzia de seus novos trabalhos já arrecadaria muito além do necessário. Sem contar com o seu fundo resultante da venda e excursão durante a maior parte do ano. Chamou o pai e falou:
         – Está tudo comprado, pai!
         – Uai! Eu num falei nada. Tava esperando ocies para ir embora.
         – Deixe de ser sovina, meu pai! Eu já fiz o cheque da entrada e quando instalarem, pago o restante. Do total que ganhei com meu trabalho, sobrou muito mais da metade.
         – Nem começa a resmungar, veio! – disse Maria Luisa.
         – Uma me chama de sovina, a outra me chama de véio, eu mereço isso. Devo de ter jogado pedra na cruiz di Nosso Sinhor!
         – Agora vai se fazer de coitadinho. Isso não vale.
         Nisso José, desconfiado de onde estariam, chegou e ouviu as últimas palavras. Chegou e cumprimentou sem dizer mais nada. Apenas ficou olhando para coronel Onofre.
         – Uai! Num é isso mesmo que tão fazeno? A fia me chama de sovina, a muié me chama de véio! Tô bem arranjado dessa manera.
         – Coronel! Não reclame de barriga cheia.
         – Estou dando de presente para ele as máquinas, a nova rede de energia e os aparelhos de ar condicionado. Ainda por cima a conta de energia vai até baixar um pouco quem sabe. Mas vou manter minha promessa. Vou pagar a conta. E mesmo assim está reclamando.
         José olhou sorridente para o coronel que, diante das palavras da filha e do olhar do seu noivo ficou sem ação. Depois de instantes falou:
         – Estou virado um traste sem serventia memo. Acho que vou para um asilo de véio. Assim não dou trabaio.
         – E quem disse que o senhor dá trabalho, pai?
         – Já fecharam negócio?
         – Falta só emitirem a nossa via do pedido e providenciar tudo. Tem uns itens faltando no estoque. Em uma ou duas semanas vão começar a instalar tudo. Talvez ainda dê tempo de beneficiar o café dessa colheita que está começando a madurar.
         – Mas isso é ótimo. Anime-se coronel. Sua propriedade vai ganha muito com isso. Diminui as perdas, obtém melhor classificação no mercado. Só tem a ganhar.
         Nisso o vendedor chegou trazendo a via do pedido e o recibo de pagamento da entrada. Entregou nas mãos de Isabel que os dobrou e guardou na bolsa. Estendeu a mão ao vendedor dando adeus e convidou os demais a seguirem até uma loja que vendia os aparelhos de ar condicionado. Havia várias na cidade, mas uma era habitualmente a mais barateira, além de vender os melhores aparelhos. José fizera no dia precedente algumas indagações por telefone e confirmara essa informação.
         Era nessa loja que se encontrava a maior variedade de modelos, tamanhos e marcas, sem contar os melhores preços da praça. Foram até lá e Isabel retirou da bolsa uma folha de papel onde anotara as dimensões dos cômodos onde pretendia instalar os aparelhos. Em vista disso havia a indicação apropriada da potência necessária para uma melhor refrigeração dos ambientes. Um de menor potência, além de não obter o rendimento desejado, corria o risco de queimar devido ao funcionamento continuado na potência máxima. O objetivo era instalar e não ter incômodo por muitos anos, salvo as manutenções de limpeza que eram de praxe. Vendo a soma dos vários aparelhos, Onofre quis diminuir a quantidade, dizendo:
         – Num percisa tanto parelho. Apenas dois ou três basta pra casa toda.
         – Pai, se quiser que um ou dois aparelhos refrigerem a casa inteira, não dá certo. É preciso fechar a porta do quarto e regular para não ficar nem muito frio, nem quente. O objetivo é ter um ambiente agradável. Merecemos dormir bem à noite.
         – Coronel Onofre! Isabel tem razão. Esses aparelhos são feitos de diferentes tamanhos para atender às necessidades de ambientes maiores e menores. Tem lugares que se instalam dois para ficar bom num ambiente um pouco maior.
         – Mais viu o quanto isso vai custa?
         – Isso é uma pechincha.
         – Pechincha por que não é de seu bolso que vai sair a gaita.
         – Nem do seu, pai. Eu vou pagar como prometi. Por isso fique sossegado e deixe-me negociar com o homem aqui.
                   Após alguns minutos de propostas, somas, subtrações, contrapropostas e no fim um generoso desconto para pagamento à vista, o negócio foi fechado. A entrega ficou combinada para o final da semana. Isabel perguntou ao vendedor:
         – O senhor pode nos indicar alguém para fazer a instalação correta desses aparelhos?
         – A rede de energia comporta?
         – No escritório da Companhia de Eletricidade nos informaram que o que temos instalado dá para suportar a carga dos ar condicionados. Mas contratamos a troca da rede por uma trifásica por causa das maquinas de beneficiamento de café. Então vai ser tudo mudado.
         – Mas aí será apenas uma mudança de uma rede para a outra. Isso não atrapalha.
         – Procure esse endereço e diga que fui eu que mandei. Eles vão fazer um preço camarada e o serviço é garantido.
         Isabel fez mais um cheque e o coronel Onofre só olhava. Sentiu-se sem chão. Sempre fora sua a decisão de efetuar investimentos, fazer despesas na fazenda. Era de seu bolso que saia o talão de cheques para pagar. Hoje estava apenas assistindo uma pequena fortuna ser gasta e não tinha nem sido perguntado. De sua livre vontade, nada disso tudo teria sido gasto. Achava desnecessário. Não carecia tanta modernidade, tanto dinheiro limpo gasto, na sua visão, sem necessidade. Mas não tinha mais autoridade sobre a filha que era maior de idade, ganhara o dinheiro com seu trabalho e gastava como queria.
         Sentiu que aquela coisinha pequena crescera, virara mulher, e que mulher, ficara famosa, viajara mundo. Agora estava ali gastando o próprio dinheiro e fazendo a própria vontade. O noivo, como um boi sonso, nem ousava abrir a boca. Apenas sabia dar razão à noiva. A mulher, também dava razão à filha. Estavam todos fazendo complô conta ele, um pobre velho, sem serventia.
         Faltava pouco para o meio dia e deixaram a visita ao homem que seria contratado para instalar os aparelhos para depois do almoço. Foram alamoçar juntos no restaurante que ficava a poucas quadras do escritório. Assim José teria tempo de voltar lá a tempo de atender aos compromissos marcados para a tarde.
         Em meio à refeição os olhos de Isabel custaram a crer no que viam. Algumas mesas distante da que ocupavam viu, de perfil, o pintor que conhecera em Milão. Seu nome era Giovanni dal Piccollo. Voltou os olhos para o prato e logo depois voltou a olhar. Não se enganara. Era ele mesmo, não havia dúvida. O que estaria ele fazendo ali em Sete Lagoas? Sua estréia em Belo Horizonte estava marcada para a semana seguinte. Não lembrou se lhe havia informado seu endereço, mas isso não teria sido difícil para descobrir. Bastaria olhar os folhetos espalhados aos quatro cantos da Europa inteira. Sentiu um misto de apreensão e dúvida.
         Continuou comendo mas ficou pensativa. José Silvério não tardou a notar o olhar fixo da noiva naquela mesma direção seguidas vezes. Disfarçadamente virou para trás, como que olhando para o outro lado, mas se virara o suficiente para ver para quem ela olhava. Viu um rosto masculino que ficara gravado na mente desde a hora do jornal na noite se sábado. Suas suspeitas recrudesceram. Ele tinha vindo por causa de Isabel. Mas por que razão ela deixara de lhe falar sobre isso? Estaria tentando abafar um sentimento que julgava inconveniente e inoportuno? O noivado e seu mergulho no trabalho representavam uma fuga?
         Tanto um quanto o outro perderam o apetite a partir daquele momento. Logo depois o homem levantou ao terminar sua refeição e ter pago a conta. Dirigiu-se para o balcão da recepção e perguntou ao caixa alguma coisa. Este escutou atentamente e em seguida se inclinou, falando alguma coisa e apontando na direção da mesa em que eles estavam sentados. Este lance passou desapercebido pois por um momento haviam estado ocupados e saborear a sobremesa que acompanhava a refeição.
         O susto foi grande quando ouviram uma voz estranha ao lado da mesa, dizendo:
         – Bona cera, signiorina Isabel! Bona cera, signiora i signiores.
         Tomados de surpresa passaram-se alguns segundos até que Isabel conseguisse articular as palavras:
         – Boa tarde, Giovanni! Como vai?
         – Io voglio bene. Uma agradabile surpresa!
         – José, pai e mãe, esse é o Giovanni que conheci em Milão.
         Três mãos foram estendidas alternadamente e apertarama mão do estranho, dizendo por sua vez Boa tarde!
         – Quer sentar-se, Giovanni?
         – Gratie! Neste minuto teminé de almoçar.
         – O que está fazendo por aqui? Sabia que vai estar em Belo Horizonte semana que vem.
         – Io veni fazere una visita a mi amica Isabel.
         Aquela conversa não estava agradando a José. Sentiu o verme do ciúme corroer sua alma. O que aquele italiano velhusco tinha vindo fazer ali? Só podia estar em busca do amor de Isabel, da sua Isabel. Ele que sentasse para esperar, pois seria um páreo à altura. O outro poderia ser famoso na pintura, ter experiência com mulheres, coisa bem provável. Mas ele tinha de seu lado as leis e a juventude. Além disso os pais da noiva lhe dariam apoio certamente. Mesmo assim sentiu-se flutuar num mar de incertezas. O que fazer para perscrutar o fundo da alma da mulher que dizia amá-lo e agora recebia a visita de um estrangeiro, estranho de todos, apenas visto uma ou duas vezes na Itália meses passados.
          Giovanni não deixou de notar o ambiente pesado que se fez no lugar. Viu que nas mãos direitas dos jovens havia alianças e tentou lembrar se o hábito brasileiro era de usa-las na mão esquerda ou direita quando casados. Não pode ter certeza, mas percebeu que alguma coisa havia entre eles. Teria que disputar a preferência da bela Isabel com esse brasileiro e sentiu-se autoconfiante. Tinha contra si a idade, mas contava com seu charme, sua experiência adquirida em longos anos de viagens ao redor do mundo, expondo e visitando exposições. Participara de encontros de pintores, artistas plásticos em geral e tivera um grande número de aventuras, tanto com jovens aspirantes ao estrelado artístico, como outras já consagradas.
         No entanto em nenhum momento sua alma ficara tão enlevada como diante da desconhecida brasileira. Ela lhe arrebatara o coração ao ponto de quase cometer uma loucura na ocasião. Conseguira, a muito custo, controlar os impulsos e um evento fortuito contribuira para impedir a realização de seu intento. Agora a encontrava noiva ou casada com um patrício. Isso complicava tudo. Precisaria ter cuidado, pois não deixara de ouvir ela chamar o casal idoso de pai e mãe. Com certeza eles ficariam do lado do noivo, uma vez que estavam almoçando juntos ali no restaurante. Viera antes para a região, esperando ter tempo de estabelecer um contato mais duradouro.
         Passou um longo momento a meditar sobre qual decisão tomar. Ir embora e debitar seu entusiasmo na conta de mais uma frustração amorosa? Ou partir para a luta, disputar com o outro, bem mais jovem, o coração da linda mulher e excelente artista? Nesse momento lhe ocorreu perguntar:
         – Onde es sua casa?
         – Fica a uns trinta quilômetros daqui, Giovanni. Moramos numa fazenda de café.
         – Interessante. Com certeza és mui bonito!
         – Nós gostamos demais.
         – Io gostaria de conhecer. Posso?
         Isabel olhou para os pais interrogativamente e Maria Luisa falou:
         – O que ele quer?
         – Quer conhecer a fazenda.
         – Eu levo ele no sábado, – falou José Silvério abrindo a boca pela primeira vez.
         Isabel percebeu em suas palavras um frêmito de indignação e se deu conta do que acontecia. O seu noivo estava enciumado até a raiz do cabelo. E não deixava de ter razão, uma vez que ela também sabia quais eram as intenções do italiano. Viera tentar completar a conquista que não conseguira concluir em Milão. Ela não queria criar uma cena ali e nem magoar o noivo. Buscou freneticamente em seu intelecto por uma saída que a deixasse em boas condições tanto de um quanto de outro lado. Indispor-se com um artista já famoso poderia significar perder admiradores de sua arte. Já provocar ainda mais o ciúme já à flor da pele do noivo, lhe traria sérios problemas para o futuro.
         Sabia desde muito jovem que, confiança uma vez perdida, nunca mais se reconquista totalmente. Sentiu-se presa em uma cilada. Para o lado que se virasse via diante de seus olhos um resultado desastroso. Finalmente resolveu dizer:
         – Giovanni, meu noivo José, se propôs a leva-lo no sábado até a fazenda. Assim haverá tempo de preparar um outro aposento para acomodar vocês dois, um em cada lugar.
         – Non posso ire hoje?
         – Estamos fazendo uma pequena reforma na casa e está tudo desarrumado.
         Maria luisa sentiu um arrepio na espinha. Percebeu que ali havia coisa. De onde a filha tirara a ideia de reforma na casa? Nem sequer haviam sido citada tal hipótese. Se fosse preciso, teriam todos que confirmar as palavras dela. O próprio José percebeu a manobra de Isabel e se tranquilizou. Ela estava achando uma forma polida de se livrar do inconveniente italiano. Dissera diante da TV ao vê-lo que ele tentara uma aproximação na Itália e ela o mantivera a distância. Certamente concordava com ela não querer causar nenhum escândalo em prol de sua carreira artística.
         Diante da situação o visitante, um pouco frustrado, falou:
         – Podemos al menos dare um passeo por la citá? Me pode mostrar o que tem de bonito. Dopo io volto para Belo Horizonte.
 
Parque e lago de Sete Lagoas.

 

Cinema de Sete Lagoas.
 
  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
       Essa proposição agradou a José mais do que a possibilidade de estarem os dois, ele e o estranho na fazenda, literalmente disputando a preferência de Isabel. Era visível o olhar cobiçoso que o mesmo lançava sobre o corpo jovem dela. Um passeio, acompanhada dos pais pela cidade seria algo menos arriscado. Pediram a conta e depois José se despediu dizendo:
         – Vou ter uma audiência muito importante daqui a pouco. Do contrário iria com vocês.
         Deu um beijo carinhoso em Isabel e foi para o seu carro. Os quatro restantes embarcaram no carro dela e foram falar com o homem encarregado da instalação dos aparelhos de ar condicionado. Essa questão veio exatamente a calhar. Combinava com a realização de uma pequena reforma e posterior instalação dos aparelhos. Giovanni estava estranhando o calor e imaginou o que seria dormir uma noite sem o conforto do ar condicionado. Realmente essa vida não era para ele. Perdera mais uma partida. Porém mal sabia o quanto estava longe da verdadeira história.
         Depois de combinada o serviço para ser realizado na semana seguinte, Isabel levou o amigo para conhecer os principais lugares turísticos da cidade. Os lagos que davam o nome à cidade, a vista da Serra do Cipó ao longe, o fórum onde o noivo atuava frequentemente, a Igreja matriz, um pequeno museu, a galeria de artes onde começara sua vida artística para o público cerca de um ano atrás. Quando o sol se aproximava do horizonte, ela o deixou na portaria do hotel e se despediu.
         Numa última tentativa ele tentou leva-la para um lado e conversar mas ela não aceitou. Em desespero ele suplicou ao menos um beijo:
         – Um bacho! Solo um bacho!
         – Eu nunca lhe dei esperança, Giovanni. Você veio aqui a minha procura por sua vontade. Não lhe convidei nem disse onde morava.
         – Arrivederche Bella! Te levare nel mio cuore por tuta la vita.
         – Seremos sempre bons amigos, – disse Isabel.
         Virou-se e entrou no carro. Quando viraram a primeira esquina, ela viu o italiano acenando no meio da rua. Se expunha a ser atropelado, pois o lugar era relativamente bem movimentado. Mas ele parecia não se importar com mais nada. Por sorte nada aconteceu. Alguns carros freiaram forte e buzinaram. Ele saíu da rua de um salto e em seus olhos era visível o pranto correndo. Era a própria imagem do desespero. Os funcionários da portaria do hotel viram a cena e ficaram perplexos. Haviam visto que ele estivera falando com a filha do coronel Onofre Pires. Ela era uma pintora famosa agora e motivo de orgulho de todos os moradores do lugar.
         Em pouco tempo o homem descia com suas malas e pediu para fechar a conta. Ninguém lhe fez perguntas e nem ele falou nada. O estranho era que havia chegado pouco antes do meio dia e antes do anoitecer ia embora. Nem a cama fora desfeita. Não entenderam nada direito, apenas sabiam que ali existia amor não correspondido. Pouco depois que ele saiu em direção à rodoviária, chegou ao hotel o doutor José Silvério, figura igualmente conhecida nessas alturas. Indagou do italiano e lhe foi informado que o mesmo partira há questão de meia hora com destino determinado.
         Por medida de precaução José voltou para o seu opala e foi direto para a fazenda. Não teria paz para dormir não sabendo ao certo que a ameaça havia mesmo partido ou se acaso ainda rondava por ali. Isabel estranhou, quando, pouco tempo depois de chegarem em casa, escutou o carro de José chegar e parar no lugar habitual. Preparou-se para viver um momento de crise. Foi cautelosamente para a varanda esperar pelo noivo.
         – Que aconteceu, meu bem?
         – Você pergunta? Vim ter certeza que aquele “bepi” de uma figa foi embora. De outra forma não teria paz para dormir essa noite.
         – Fico lisonjeada com esse ciúme todo, meu bem.
         – Eu vim para lutar pelo seu amor, minha querida. Ou não tenho razão de estar preocupado?
         – Razão de preocupação você não tem, porque eu nunca dei nenhuma esperança ao Giovanni. Ele veio por iniciativa própria e deu com os burros na água. Portanto, chega de esquentar a cabeça, meu amor.
         – Ufa! Essa foi por pouco. Vi que aquele almofadinha metido a galã ia se aboletar por aqui e ficar caçando encrenca.
         – Não viu como eu desviei do assunto?

         – E a questão dos condicionadores de ar serviu perfeitamente de pretexto.


Vista aérea de Sete Lagoas – MG.

Mineiro sovina! – Capítulo XVI

 

16. A exposição acontece.
           
            O tempo passara célere e o dia da inauguração da exposição de Isabel na galeria de arte da cidade estava próxima. Os últimos dias foram de uma azáfama intensa. Havia uma porção de coisas lembradas na última hora e requeriam a atenção do responsável pelo evento. Os álbuns fotográficos dos trabalhos haviam sido enviados para a capital Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro e outros centros culturais de relevância. Diversos especialistas haviam confirmado presença na dia da inauguração ou durante os dias em que exposição ficaria aberta.
            José Silvério, dois dias antes da inauguração obteve uma confissão completa e incontestável, resultando na condenação inapelável do réu. Isso foi motivo de celebração no escritório. A equipe em peso veio abraçar o mais jovem advogado pela sua indiscutível habilidade na condução do interrogatório do acusado. Suas anotações foram imprescindíveis para alcançar o objetivo que tinha em mente. O julgamento em questão virou peça de estudos e passou a integrar o rol dos processos famosos. Uma artimanha, um ardil com as palavras certas levara o acusado a se delatar, tornando, a partir daí, infrutíferas as tentativas dos advogados de defesa em sequer amenizar a pena.
            A sentença foi finalmente proferida já altas horas da noite. Toda equipe de acusação, bem como defesa e jurados estava exausta. Foi com um suspiro que todos ouviram o juiz pronunciar os termos condenatórios e por fim encerrar a sessão. O réu, agora condenado, foi conduzido à carceragem, de onde seria recambiado para a penitenciária em Belo Horizonte. O promotor junto ao qual José Silvério atuara na acusação, apertou calorosamente a mão do assistente. Em seguida falou:
            – Doutor! Lhe devo um enorme favor.
            – Por quê o senhor me deve algo?
            – Se não fosse a sua habilidade com as palavras, estaríamos agora vendo o passarinho sair voando livre e desimpedido. Nunca mais o pegaríamos. Assim ele vai ficar uma boa temporada engaoiolado.
            – Nada não, doutor. Apenas usei as palavras de maneira correta. O resto ficou por conta dele.
            – Essa é a questão exatamente. A forma como usou as palavras, como colocou a pergunta, induziram ele em contradição. Quando viu o que tinha falado, não havia mais como retornar. Caira na armadilha e foi só apertar o laço.
            – Foi para isso que estudei tanto tempo, me preparei para o exame da OAB. Na última semana passei horas me debruçando sobre os autos do processo até encontrar o ponto que procurava. Preparei as minhas questões, prevendo possíveis respostas evasivas e joguei a isca. O peixe caiu direitinho.
            – Será meu convidade para jantar no melhor restaurante num dia desses. Eu ligo para combinarmos.
            – Eu aproveito para lhe convidar a visitar a exposição de pintura de uma amiga muito querida. A inauguração é sábado na galeria e vai até o outro domingo.
            – Mas ela já tem alguma fama, ou é iniciante?
            – Primeira exposição. Mas tem mais de cem quadros pintados desde cedo. Enquanto fazia o curso de pintura pintou os primeiros trabalhos e evoluiu gradativamente.
            – Gente da terra?
            – Filha de um cafeeicultor do município.
            – E o pai no mínimo foi seu cliente! Estou certo?
            – Foi sim e eu trouxe uns quadros para o especialista ver. O resultado foi que o homem ficou encantado. Na galeria vai ser possível ver todo o crescimento artística da moça. Vale à pena conferir.
            – Sou apreciador e até entendo um pouco do assunto. Vou ver sim e, se possível, adquirir um ou dois para minha coleção particular. Podem vir a valer um bom dinheiro se ela se tornar mínimamente famosa.
            – Fique à vontade. Ela vai adorar saber que há quem aprecie as suas pinturas.
            – Nos veremos na exposição e semana que vem lhe ligo para marcarmos o jantar.
            – Será um prazer doutor.
            – Somos colegas, doutor.
            – Boa noite. Vou descansar. Amanhã ainda tenho umas audiências pela manhã e à tarde para variar.
            – Vá com Deus, amigo.
            José Silvério foi para a porta de saída, levando em sua valise os papéis que levara para usar no julgamento. Guardaria aquele material como relíquia. Tivera uma atuação brilhante mesmo. Sentia que esse momento ficaria marcado em sua vida profissional. Ao chegar em casa a mãe estava preocupada com sua demora. Habitualmente ele chegava mais cedo ou então lhe ligava avisando que iria se atrasar. Estando no recinto do juri não havia possibilidade de sair nos momentos mais críticos da sessão. Somente ao terminar pudera sair. Nem se dera mais ao trabalho de procurar um telefone público. Em minutos estaria em casa.
            Precisou esclarecer o motive de tudo. Ao saber de tudo a mãe ficou exultante. O seu filho estava atingindo o sucesso que procurara com tanta dedicação e empenho. Em pouco tempo seria olhado como advogado de gabarito. Todos os sacrifícios que ela e o pai haviam feito durante os longos anos de estudos na capital, estariam sendo recompensados. Serviu-lhe o jantar e ele sentou-se para comer. A mãe era toda solicitude e desvelo. Chegava ao exagero. Sua irmã se estivesse ali ficaria enciumada. Voltaria em pouco tempo do cinema onde for a com o namorado.
            Logo o pai veio da sala de televisão e conversaram, ficando também ele satisfeitíssimo com o desempenho do filho.
            – Pelo jeito você está chegando no topo, meu filho.
            – Ninguém no escritório quis pegar essa causa de hoje. Julgavam tempo perdido conseguir a condenação do acusado. Agora que está superado, o problema parece fácil. Na hora não foi brincadeira. Bastaria uma palavra errada, uma entonação titubeante, e ele me escaparia.
            – Mas então estamos diante de um advogado de alto gabarito. Isso merece uma comemoração. Traz aí um vinho.
            – Que é isso pai? Não precisa. Se eu beber agora, amanhã não levanto cedo.
            – E uma taça de vinho vai fazer o que? Vai te fazer dormir melhor.
            Em instantes uma garrafa de bom vinho teve a rolha retirada e as taças foram servidas. Levantaram um brinde:
            – Ao mais novo e famoso advogado de Sete Lagoas!
            – E aos melhores pais do mundo!   
            Os cristais tilintaram e todos beberam um gole do vinho. José continou comendo enquanto os pais ficaram ali, dando sinais de sentirem um orgulho enorme pelo desempenho dele. Quando estava terminando de jantar, chegou a irmã. Ao ver o vinho aberto quis saber o motivo da comemoração.
            – Seu irmão hoje subiu mais um degrau na fama entre os advogados da cidade. Conseguiu a condenação daquele assassin que todos diziam que seria absolvido. Foi a habilidade dele que fez a diferença.
            – Deixe-me abraçar esse homem famoso. Parabéns mano. Eu sabia que iria ficar famoso logo.
            – Você também vai chegar lá.
            – José, esse é Luiz Carlos, meu namorado.
            – Olá cunhado! Tudo bem com você?
            – Tudo ótimo. Parabéns pelo sucesso.
            – Obrigado, Luiz Carlos. Precisamos nos conhecer melhor.
            – Vocês vão ter tempo para isso. Ele vai estar por aqui frequentemente.
            – Gente! Estou exausto. O dia foi longo e cansativo. Vou tomar um banho e dormir. Tenho que levantar cedo amanhã.
            – Durma bem, José. Depois de um gole de vinho e bom janta, vai dormir igual um bebê.
            – Estou precisando. Boa noite a vocês. Sua bênção pai e mãe.
            – Deus lhe abençoe, filho, – disseram os pais em uníssono.
            – Boa noite mano. Durma com os anjos.
            Foi para seu quarto e alguns minutos depois terminava de tomar uma ducha refrescante. Vestiu o pijama, conferiu sua agenda do dia seguinte e deitou par adormir. Elevou o pensamento a Deus pedindo que a exposição de Isabel fosse um sucesso, assim como sua vida pessoal estava virando um sucesso brilhante. Bastaria um empurrão inicial para fazer decolar a carreira da mulher que ele amava em silêncio. Mesmo assim fazia tudo que fosse possível para que ela alcançasse um lugar no mundo artístico.
            As audiências da sexta-feira eram preparatórias de julgamentos posteriors. Em ambos os casos ele atuaria como advogado de defesa. O promotor que no dia anterior estava ao seu lado, estaria na acusação e tentariam medir suas forças intelectuais. Esforçou-se por conseguir o julgamento mais justo possível do seu cliente. Não concordaria em provar inocência de réu confesso, pois isso iria contra as suas convições. Faria o possível para que no dia do juri o acusado recebesse a melhor defesa possível, dentro dos termos da lei. As duas sessões não foram demasiadamente cansativas e ainda cedo estava em casa. De seu quarto ligou para a fazenda, pedindo para falar com Isabel.
             Foi informado de que ela estava na cidade, para cuidar dos últimos detalhes da exposição. Coronel Onofre e a mãe viriam no dia seguinte para a inauguração. Pediu o hotel onde estava hospedada e depois ligou para lá. Em instantes ouviu a voz querida dizendo:
            – Alo!
            – Isabel!
            – Sim, sou eu.
            – José Silvério. Está livre daqui a pouco?
            – Tenho um compromisso, mas é rápido.
            – Aceita jantar comigo?
            – Onde?
            – No lugar que você quiser. Preciso contar umas coisas e desejar sucesso amanhã.
            – Daqui a uma hora estarei esperando. Pode ser?
            – Passo aí lhe pegar. Vamos comer uma comidinha muito fina.
            – Vou ir agora, para não me atrasar.
            – Até depois então.
            Os telefones foram desligados e José cuidou de seu banho, caprichou na barba, dando um último retoque. Usou um perfume suave que ele descobrira ser do agrado de Isabel. Vestiu-se com esmero, sem ostentação. Avisou a mãe de que iria jantar fora. Ela quis saber com quem e ele desconversou. Ficou imaginando quem seria a companhia de seu filho. Será que ele estava sendo tão inteligente na escolha da mulher como se mostrava nos tribunais? Decidiu deixar isso nas mãos de Deus. Esperaria o tempo passar e veria no que isso resultaria. O filho era adulto, profissional e saberia tomar conta de sua vida. Não era mais o seu bebê, como muitas vezes se via no dia a dia.
            Assistiu um pouco de televisão, vendo um jornal local e depois embarcou em seu automóvel, indo buscar Isabel. Ela acabava de chegar do compromisso de última hora que tivera que dar atendimento. Era na verdade uma entrevista a uma equipe de jornalismo da televisão e radio, sobre os seus quadros que seriam expostos na galeria. Mal teve tempo de ir até o seu apartamento pegar uma blusa leve para se proteger do ar mais frio da noite. Desceu e falou:
            – Podemos ir, doutor.
            – Não me chame de doutor, Isabel. Para você sou José.
            – Então José, podemos ir.
            – Assim está melhor. Apenas José.
            Embarcaram no automóvel e foram a um dos restaurantes mais refinados da praça. Ele usare o telefone do quarto para fazer uma reserva de última hora. Graças a Deus conseguira. Chegaram, ele entregou as chaves a um manobrista e conduziu Isabel para a entrada do estabelecimento. Ela ficou maravilhada com o luxo da instalação. Nunca estivera em um restaurante desse nível. Mesmo sendo filha de quem era. O pai não ligava para isso.
            – Aqui você vai conhecer um pouco da alta sociedade de Sete Lagoas, Isabel.
            – Que chique! Quanto luxo! Dá até medo de entrar e sujar.
            – Nem se preocupe. Tem gente para limpar tudo depois. Para isso a gente paga. Tudo isso está incluido no preço dos pratos.
            – Mas que dá pena, isso dá.
            – Vamos ver nossa mesa. Está reservada. Deve ser aquela ali.
            Nisso um garçom se aproximou e perguntou se poderia ajudar.
            – Reservei uma mesa para duas pessoas.
            – Seu nome?
            – José Silvério.
            – Ah! O doutor José Silvério! Sua fama já chegou por aqui. Seja bem vindo a nosso estabelecimento. Por aqui.
            Levou o casal até a mesa cuidadosamente posta à sua espera. Quando ligara o gerente imediatamente ligara o nome ao julgamento do dia anterior e eixigira dos subalternos o máximo de esmero no serviço.
            – Sentem-se por favor! – disse o garçom puxando as cadeiras.
            – Obrigada! – falou Isabel sentando.
            Na mesma hora surgiu nas mãos do garçom o cardápio e colocou um exemplar nas mãos de cada um deles. Ao mesmo tempo perguntou:
            – Aceitam a entrada da casa para hoje?
            – Podemos testar para ver se faz jus à fama, não acha Isabel?
            – Por mim pode ser.
            – Pode trazer. Enquanto isso examinamos o cardápio.
            – Com sua licença, – e o servente se retirou em busca das entradas.
            – Está ficando famos, doutor, alias José.
            – Consequências do trabalho. Não tem como não ficar conhecido. Prefiro ser conhecido e famoso por fazer coisas boas do que por outros motivos.
            – Não resta dúvida. Eu estou nervosa até o último. Não vejo a hora de terminar a inauguração. Nos outros dias tudo vira rotina, mas no primeiro é um sufoco.
            – Por isso eu lhe trouxe aqui hoje. Precisa pensar em coisas diferentes e bonitas. Boa comida e bebida ajuda a deixare a cabeça em melhores condições.
            – Tomara que isso me ajude. Aquela entrevista foi de fazer suar. Me senti flutuando diante das cameras, microfones e tudo isso.
            – Depois você acostuma e vira rotina também.
            Nisso o garçom chegou trazendo as entradas. Eles haviam escolhido para prato principal salmão, acompanhado de aipim, saladas e tempero leve. Não queriam complicações digestivas para o dia de sábado. Enquanto eles comiam os petiscos da entrada e degustavam uma tacinha de aperitivo à base de maracuja, o garçom providenciava os pratos. José Silvério, aproveitou para perguntar:
            – Isabel! Se seu pai concordar, você aceita ser minha namorada?
            – Assim de repente? Não posso pensar um pouco?
            – Eu pedi a seu pain a primeira visita, mas cometi o erro de levar cigarros e fósforos. Ele aceitou um cigarro. Eu gastei dois palitos de fósforos para acender o dele e outro para mim.
            – Já sei o que aconteceu. Ele lhe chamou de perdulário. Onde já se viu gastar dois palitos de fósforos se havia fogo na lareira.
            – Mas ele contou isso?
            – Não. Eu conheço a figura. Ele é sovina como todo mineiro que se preze.
            – Bem, se ele tivesse lhe contado eu iria ficar envergonhado. Mas acho que já posso provar a ele que não vou lhe fazer passar fome depois de casados.
            – Isso só poderia vir de papai. Ele logo pensa em penúria, passar fome e essas coisas. Mas esse é assim e não muda nunca.
            – Eu agora tenho uma posição ótima no escritório, estou ganhando notoriedade profissional. Ganho bem e então vou poder dar a você a vida que merece.
            – Então esses meses todos você está esperando a hora para falar comigo?
            – E eu iria querer afrontar o coronel?
            – Não lhe ocorreu que eu poderia pensar diferente?
            – Espero não tê-la ofendido.
            – Ofender não, mas poderia ter falado comigo antes disso. Eu também fiquei balançada quando lhe vi a primeira vez ali no escritório. Mas pensei que um advogado da cidade não iria querer saber de uma moça da fazenda.
            – Ah! Sim senhorita. Uma moça da fazenda que pinta quadros lindíssimos e logo vai alcançar fama no mundo das artes.
            – Se conseguir vender meus quadros, ganhar alguma coisa com eles já me sinto contente. Nem almejo fama.
            – Escreva o que estou falando. Vou querer garantir minha vez nessa fila antes de os gaviões das capitais colocarem os olhos na sua beleza.
            Os pratos pedidos chegaram e a conversa foi interrompida. O mais importante agora era saborear o sabor do excelente peixe, com o aipim, um crème de legumes, saladas de tomates e alfaces. Para completar pediram um vinho branco de boa procedência. A refeição demorou quase duas horas, desde a hora da chegada até o final. Às 22 h e 15 minutos eles estavam saindo. O vinho que tinham bebido não era dos mais fortes em teor alcoólico e seu efeito já estava terminando. José levou Isabel até a portaria do hotel e antes de se despedir repetiu a pergunta:
            – Você aceita?
            – Aceito, José. Desculpe. Nossa conversa lá no restaurante me fez esquecer de dar a resposta.
            – Sempre é tempo, querida. Posso lhe dar um beijo de boa noite?
            – Aqui em público?
            – Apenas no rosto, é claro.
            Ela aproximou o rosto e ele depositou um beijo suave nas us face. Depois levou a mão aos lábios, beijando-os também.
            – Boa noite e durma bem. Quero você deslumbrante amanhã.
            – Vou fazer o possível.
            Chegou a hora da inauguração. As horas do sábado correram depressa e ao se darem conta era hora de estar a postos para a cerimônia. Uma pequena multidão de fotógrafos, cinegrafistas e reporteres estavam presentes. A fita inaugural foi cortada por Isabel, auxiliada pelos pais. Em seguida os convidados de honra, autoridades, pintores, escultores e outros expoentes do mundo artístico puderam apreciar em primeira mão os quadros. Estavam dispostos traçando a trajetória da artista e a cada passo os visitantes ficavam maravilhados com a clara evolução da técnica. A cada obra o traço ficava mais definido, as cores se fundiam e destacavam ao mesmo tempo, formando um conjunto de uma harmonia incrível. Um coquetel foi oferecido aos convidados e depois a galeria foi fechada. Seria aberta no dia seguinte às 14 horas e ficaria aberta até às 22horas.
            Seria a vez dos visitantes com ingressor, vendidos a preços pouco mais que simbólicos. Dariam, se houvesse um afluxo razoável, para cobrir os custos gerais do evento. Os dias seguintes foram uma verdadeira roda-viva. Os quadros começaram a ter propostas de compra que foram recebidas. No final seriam abertos os envelopes e levaria a obra quem oferecesse o valor mais alto. Desde já ficava reservado à artista o direito de levar os trabalhos, mesmo os vendidos, para a exposição que seria organizada no mes de dezembro em Belo Horizonte. Ao chegar a hora de encerrar, havia uma bela pilha de envelopes com propostas pelos diversos trabalhos.
            Incluindo o último, pintado especialmente para a exposição, todos eles tinham propostas de compra. Fariam a abertura na segunda feira. Depois seria feita a comunicação aos vencedores. Uma porção de escolas levaram os alunos para ver a exposição, sendo que foi feito um acordo para permitir o acesso aos alunos dos estabelecimentos mais carentes. A entrada era franca. O afluxo de visitantes era constante durante todas as horas de abertura da galeria. Assim, o valor arrecadado na venda dos ingressos cobriu folgadamente as despesas e os quadros foram arrematados em sua totalidade por valores até cinco vezes superiors ao mínimo que haviam estabelecido.
            O organizador ficou radiante. Assim ganharia uma bela comissão e teria em mãos uma jóia rara. Levaria seus trabalhos para Belo Horizonte e depois para São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e outras capitas. Talvez até para o exterior, se fosse possível reunir todas ou bom número dos trabalhos. Entre os compradores havia inclusive representantes do exterior. Um colecionador francês havia adquiriro dez dos mais bonitos e queria que o acervo todo fosse levado para França no momento oportuno.

 

            Os adquirentes ficaram muito satisfeitos e concordaram em ceder temporáriamente as obras para integrar exposições em diversos outros centros artísticos. Isso significaria uma grande valorização para o seu investimento.