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Um pouco da história de minha vida. – em Brasnorte – MT( 1 ).

Cachoeira no Rio Sacre Coeur em Brasnorte.
Vista aérea de Brasnorte nos dias de hoje.
Praça de Brasnorte hoje.(Fotografias baixadas da internet, no site da Prefeitura Municipal)

Minha vida em Brasnorte – MT.

No final da década de 70, início dos anos 80, iniciou-se o enchimento da represa da Usina Hidrelétrica de Itaipu, na divisa entre Brasil e Paraguai, represando as águas do Rio Paraná. Com isso, parte da terra pertencente a meu pai, irmãos e uma porção de outras pessoas na região, foram submersas ou ficaram dentro de uma faixa considerada de conservação. Isso gerou uma indenização em dinheiro. De posse desse capital, meu pai investiu uma parte no restante da propriedade, mas um grande percentual foi usado para adquirir uma área de terras mais de 250 alqueires, na Gleba do Rio do Sangue, no estado do Mato Grosso. Posteriormente denominada Brasnorte. Destinava-se essa área para ser dividida entre os cinco filhos ainda não proprietários de terra que eram: Clicério Tomé, Tito Jorge, Terezinha Marisa, Elvenete e Décio(eu). Feita a divisão e aprovada pelo INCRA, foi lavrada a escritura no nome de cada um de nós.
Este era o folheto de propaganda distribuído pela colonizadora da área, decantando as virtudes e maravilhas da floresta, suas riquezas inigualáveis em todos os sentidos. As imagens mostradas eram de um lugar em plena fase de implantação, viveiros de mudas para plantio de café, seringueiras e uma área urbana projetada, em fase avançada de urbanização, dadas as circunstâncias de ser em meio à floresta amazônica.
No jornal Folha de Londrina era veiculada propaganda constantemente, convidando os colonos paranaenses e de outros estados sulinos a participarem desse grande empreendimento. Os interessados em conhecer a colonização eram levados em aviões para lá, era-lhes mostrada uma demarcação e algumas coisas realmente existentes. Muitos foram convencidos a entrarem na aventura. Um deles foi meu irmão Agileu Aloísio, com sua esposa Catarina e filho Evandro Luis, mudando-se para lá em 1982/83. Logo a seguir chegou meu pai e também comprou a terra que repartiu entre nós. Eu era nessa época professor do CEFET-PR, UCP(hoje PUC-PR), e CEP – Colégio Estadual do Paraná.
 O que os colonos encontraram, foi um projeto de área urbana, com algumas ruas abertas com trator de esteira, um hotel construído, uma ou outra casa e o resto era mato. Cada comprador tinha direito a um lote urbano, porém antes de poder pensar em construir sua casa era preciso retirar o mato. Depois providenciar a madeira serrada. A matéria prima existia, o problema era transformá-la em tábuas, vigas, ripas, portas, janelas. Formou-se um imenso espaço cheio de lonas, servindo de abrigo inicialmente. A carne era conseguida caçando e pescando
nos rios existentes na região. Nem sempre era fácil pegar o peixe. As águas eram transparentes, dificultando a fisgada.
Aos poucos foi posta em funcionamento uma escola, depois convertida em Escola Estadual Ewaldo Meyer Roderjan. Muitos colonos tinham suas terras situadas muitos quilômetros mato adentro e as estradas eram precárias, quando não meras picadas ou mesmo inexistentes. O tempo passou e um grande número dos que inicialmente moraram na área urbana, fizeram suas moradias na área de terras. Assim estavam junto do seu lugar de trabalho, tendo apenas que se deslocar vez ou outra para a “vila” em busca de suprimentos.
Em julho de 1985 viajei para lá a fim de conhecer o lugar e visitar meu irmão. Era o período da estiagem(seca), quando as estradas eram transitáveis, apenas bastante poeirentas e cheias das chamadas “costelas de vaca”. Uma especie de ondulação, tipo marola, que é formada pelo acúmulo de areia em alguns pontos, provocando uma trepidação quase insuportável. Era uma realidade totalmente diferente do que eu conhecera na infância na roça, e depois na região de Foz do Iguaçú e São Miguel do Iguaçú. No entanto pensava que seria um período inicial para adaptação e aos poucos o progresso chegaria naquele lugar. Já vira isso ocorrer em outros lugares. Todo começo é difícil, ainda mais levando em consideração as distâncias a percorrer até encontrar ajuda e socorro, que eram grandes, somando-se à isso a precaridade das vias de comunicação (estradas). Havia o recurso de pequenos aviões aterrissarem em uma pista de pouso e decolagem existente, mas era limitado a transporte de pessoas e cargas mínimas.
Eis um trecho da estrada entre Brasnorte e Juina no período da seca. Dá para ter uma ideia do estado que estava a roupa, o corpo, enfim tudo que estivesse nos veículos ao final da viagem. Cheguei em Tangará da Serra e ali pedi informação sobre o modo de seguir. Casualmente encontrei com o Senhor Ivani Ferrari, que estava ali de carro, um corcel II, e me ofereceu carona. Aceitei, pois o ônibus demoraria muitas horas para sair e provavelmente eu chegaria apenas na manhã seguinte. Assim cheguei a casa de meu irmão antes da meia noite.

Eis aí uma ponte na região. Abaixo uma visão mais recente de um local à beira de um dos rios que cortam o território.

Passei por essa ponte de ônibus e de carro em diversas ocasiões. Dava a impressão de que a qualquer momento afundaríamos nas águas do rio.

Fiquei por lá algo em torno de uma semana. Encontrei com o Senhor Ezequias Vicente da Silva, dono do cartório e um dos líderes políticos locais. Casualmente ocupava também a posição de Vice-prefeito de Diamantino, município ao qual Brasnorte era subordinada. Podem imaginar, a sede e um distrito separados territorialmente por outros municípios e uma distância de mais ou menos 500 quilômetros de estrada, na maior parte péssima. Deixei meu curriculum, cópias do meu diploma e demais certificados de cursos como Especialização em Metodologia do Ensino Superior pela UFRGS, além de vários outros cursos de 40 horas de duração. Eu seria um avanço qualitativo para a escola local, dada a quase total inexistência de professores habilitados na região. Procurei uma fotografia do prédio que então abrigava a Escola Estadual. Era todo em madeira, poucas salas de aulas, ocupava uma quadra inteira, sendo a maior parte de terra limpa, onde apenas crescia mato, uma quadra de esportes descoberta e mal conservada. No período noturno, um motor diesel acionava um gerador produzindo a energia para iluminar as salas, tudo funcionando de modo precário. Era diretora da escola nessa época a Professora Célia Barranco Passamani, esposa do vereador Adão Passamani.
Mangueira de gado do meu irmão Agileu
mangueira de gado

Algumas fotografias da fazenda de meu irmão na época de minha visita em 1985. Ainda são bem visíveis os restos da floresta recentemente removida. A pastagem começando a ficar seca devido à estiagem, obrigando a um manejo e suplementação de alimentação para manter os animais em bom estado. O reinício da estação chuvosa é sempre incerta. Por vezes já em setembro caem as primeiras pancadas de água, outras só em outubro e mesmo início de novembro. Com o passar dos anos o povo se acostumou e aprendeu a fazer uso de recursos varios para superar essas dificuldades. A fotografia acima mostra uma pequena represa onde o gado bebia e havia alguns peixes. Serviam para inserir uma variação no cardápio da família de vez em quando.

Poderíamos perguntar:  – Onde ficou o café? A seringueira?

Primeiro, o clima e o solo não é o melhor para cultivar café, nem mesmo as variedades mais resistentes. A seringueira, sofria com a falta de fornecimento de mudas e assistência fito sanitária adequada. Houve algumas tentativas de plantio, mas a maioria desistiu. Havia uma linha de crédito junto ao BB, mas era necessário ir até Juína, ou então Tangará da Serra, coisa que poderia ser algo demorado, dependendo das condições do tempo e estradas. Tudo contribuía para desestimular os menos persistentes. Mesmo os mais calejados fraquejavam em muitos momentos.

Houve tentativas de plantio de Cacau e também de Guaraná, porém nenhuma delas deu os frutos esperados. Creio mais devido à falta de assistência e orientação adequada, do que aos problemas de solo propriamente. Isso eu posso testemunhar. Bastavam alguns cuidados especiais e se conseguia produzir de tudo, praticamente. Na chácara onde morei depois, havia produção de abacaxi, bananas, frutas variadas, mandioca e hortaliças. Bastavam os cuidados que em toda parte são exigidos, acrescidos de alguma coisa específica.

Outra cultura que foi apontada como uma perspectiva de futuro era a pimenta do reino. Novamente esbarrava-se na falta de assistência, apoio e especialmente obtenção de mudas para plantar. Além disso, tratavam-se de culturas exóticas para a imensa e esmagadora maioria dos moradores que vieram se fixar na região, na esperança de dias melhores. No correr dos anos muitos deixaram o lugar indo para mais longe, como Aripuanã, Cotriguaçu. Houve também alguns que empreenderam o caminho de volta, não sem levar na bagagem uma imensa decepção, além de considerável prejuízo financeiro resultante do baixo valor das terras.

Na foto abaixo vemos um mamoeiro carregado, a produção de mangas de diversas variedades, caju cresce igual mato, fruta do conde, jacas e outras espécies de frutas. É uma área perfeitamente capaz de produzir, desde que feito o manejo adequado do solo. Em tudo faltava o apoio de agências de fomento ou se existiam estavam fora do alcance da grande parcela do povo menos aquinhoado de recursos. Tudo isso gerou certamente bastante atraso no desenvolvimento da região. A quase inexistência de infraestrutura na área de saúde e órgãos de administração pública foi outra carência fortemente sentida pelo povo. Mas os anos passaram e hoje se nota alguma coisa mais esperançosa com certeza.

Voltei, pensando seriamente se seria conveniente trocar minha então confortável posição de professor efetivo no Estado do Paraná (CEP) e CEFET-PR(então já não trabalhava mais na UCP). Havia tido um problema sério de saúde por sobrecarga de trabalho e reduzira o número de aulas diárias. Preferível ganhar menos, mas viver mais. Tinha filhos pequenos, casa recém comprada por pagar. De nada adiantaria estar, de uma hora para outra transformado em inválido. Em vez de ganhar, dar despesas e trabalho a quem não estava em condições de ajudar(filhos pequenos) ou sobrecarregada(minha esposa). No entanto trazia comigo a vontade de oferecer aos filhos e esposa uma vida mais simples. Sentia-me cansado da vida na cidade, com sua correria, muito trabalho e pouco lazer. Também tinha o desejo de mostrar ao meu pai que era grato pelo que ele me dera, a terra. Iria cultivar e progredir, demonstrando assim a gratidão. Daria valor ao presente.
Com esses pensamentos chegou maio de 1986 e recebi um telefonema de Tangará da Serra. Era Frei Natalino Vian, capuchinho, sediado na Paróquia. Estava ao seu encargo atender aquela região inteira, percorrendo todos aqueles rincões em seu “raio”, um toyota cabine dupla, com caçamba. A cor era um marrão claro, quase da cor da terra do lugar. Esse telefonema me informou de que estariam abertas até determinado dia as inscrições para o concurso de professores em todo estado de Mato Grosso e, se quisesse ir trabalhar em Brasnorte, deveria me inscrever. Em tempo recorde arrumei o dinheiro, penhorando na CEF as nossas poucas jóias(até meu anel de formatura). Embarquei numa quarta feira à noite e cheguei em Cuiabá na madrugada de sexta-feira, em viagem ininterrupta, parando apenas para comer e respirar um pouco. Em uma ou duas horas estava novamente num ônibus que me deixou em Diamantino, às 10 horas. Para minha surpresa, ao chegar na DREC – Delegacia Regional de Ensino, fui informado de que o período das inscrições fora adiado, iniciando na semana seguinte e indo até determinado dia.

Voltei de imediato para Cuiabá. Dali consegui falar por telefone com Frei Natalino, que se encarregou de fazer a inscrição, bastando para isso enviar por correio urgentemente os documentos necessários. Embarquei para Curitiba, para não perder mais aulas. Bastavam dois dias a serem repostos, em concordância com os alunos. Poderia deixar de repor, porém sofreria duplo prejuízo. Primeiro e imediato o desconto das aulas não dadas do salário. Segundo, na hora de solicitar um outro direito, a licença prêmio, essas faltas impediriam o gozo desse benefício. Havia portanto motivo suficiente para evitar faltas desnecessárias e repor as aulas eventualmente deixadas de dar.

A inscrição foi efetuada e começou a espera pela marcação da data das provas. Final de setembro chegou a notícia e seria nos mês de outubro, apenas não lembro o dia. Novamente viajei no mesmo esquema, apenas embarcando na quinta feira à noite, chegando em Diamantino na manhã de sábado. As provas seriam realizadas na manhã de domingo. Aproveitei para conhecer o local onde faria a prova, depois deitei e dormi a tarde inteira. Viera estudando no ônibus, recordando os conteúdos pouco usados, pois lecionava mais física e estava inscrito em matemática do segundo grau. O livro usado era o de Manoel Jairo Bezerra. Pretendia passar a tarde estudando mais um pouco. O cansaço predominou e decidi tirar um cochilo depois do almoço. Dormi até perto das 8 horas da noite. Fui jantar e decidi deixar os estudos de lado. Assisti um pouco de TV e voltei a dormir. No outro dia estava cedo perto da porta de entrada. O tempo disponível para a prova era de 4 h e 30 minutos.

Foram 100 questões, sendo 20 de português, 20 de didática, 20 de psicologia e 40 de matemática. Entreguei o cartão de respostas no exato momento em que tocou o sinal encerrando a prova. Em meia hora foi divulgado o gabarito. Os cadernos de prova ficavam com a gente e conferi. Acertara 19 de português, 18 de didática e 17 de psicologia. Já das 40 de matemática, acertara 24. Aparentemente pouco, mas vinha atuando em física há alguns anos e isso fez esquecer algumas coisas. Mesmo assim, a pontuação seria suficiente para ser aprovado(50%) em todas as matérias. Almocei e fui para a rodoviária. Encontrei uma multidão de candidatos esperando ônibus para diversos destinos. Não consegui ver um único rosto sereno. O número total de acertos era, invariavelmente abaixo de 50 questões, significando que ali ninguém estaria aprovado. Não sei dizer, mas parece que o índice de aprovação geral, em todas as disciplinas foi baixíssimo. Em novembro ou dezembro saiu o resultado e, como o esperado eu fora aprovado.

No dia 02 de fevereiro saiu no DO do Estado do Mato Grosso minha nomeação para professor na Escola Estadual Evaldo Meyer Roderjan, na cidade de Brasnorte. Havia um período de trinta dias se não me falha a memória para assumir o cargo.

(Essa parte vou contar no próximo artigo).

Fotorgrafias do prédio que atualmente abriga a EEEMR. Parte dele já existia na época em que eu voltei para Curitiba em maio de 1993.

OBS.: As imagens do folheto, da página do jornal Folha de Londrina e duas fotos que vem a seguir, fazem parte da dissertação de mestrado em História, de Jonas Lemuel Kempa, disponível na internet. Basta digitar no buscador do Google o nome dele e aparece na primeira posição dos resultados.

Publicação original feita em dezembro de 2014. 

Remodelado em 15 de dezembro de 2019. 

Décio Adams

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