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Mineiro sovina! – Capítulo XV

Mapa de Minas Gerais.

 

Rodoviária de Sete Lagoas.

 

Laga no perímetro urbano em Sete Lagoas.

 

O encontro de 
 
conciliação.
        Tendo recebido de coronel Onofre o sinal verde para marcar o encontro com Jerônimo, José Silvério telefonou para o colega Estevão, naquela tarde mesmo. Pela manhã tivera um compromisso com uma audiência no forum e não sobrara tempo. Pediu a Roberta para fazer a ligação. Em alguns minutos o aparelho tocou. Ao terceiro toque ele levantou o fone:
            – Fala Roberta.
            – O doutor Estevão está na linha.
            – Deixa comigo agora.
            A conexão foi completada e ouviu-se do outro lado da linha a voz típica do doutor Estevão, um pouco anasalada:
            – Doutor José Silvério?
            – Sim, colega. Sou eu mesmo.
            – Tem boas novas para me dar?
            – Meu cliente concordou em conversar com o seu, mas tem que ser aqui na minha sala. Pode ser?
            – Eu até preferiria um lugar neutro, mas dadas as circunstâncias, não se pode fazer exigências. Aceito. Pode marcar data.
            – Para nós pode ser qualquer dia, menos hoje e amanhã. Que tal semana que vem, na segunda de manhã?
            – Deixe-me ver minha agenda.
            Tapou o bocal do fone e falou para sua secretária verificar a disponibilidade do horário da próxima segunda feira pela manhã. Ela verificou e informou não haver compromisso nesse horário.
            – Pode ser colega. Não tenho compromisso nesse horário. Dessa maneira dá tempo de avisar tranquilamente o meu cliente para evitar contratempos.
            – Combinado, colega. Lhes esperamos aqui na próxima segunda às 10 horas.
            – Eu havia esquecido. O seu Jerônimo pediu para sondar se é possível aliviar a queixa relative ao atentado. Se ele for condenado e ficar preso vai ficar difícil de cumprir os demais compromissos.
            – Quanto a isso não posso falar nada por ora. Vou ter que sondar o coronel. Ele não tem falado mais nada a respeito, já está praticamente recuperado do tiro. Só não posso responder por ele agora.
            – Se fosse possível retirar a queixa ou algo assim, seria mais fácil. O delegado e o juiz estão dispostos a levar ele julgamento. Se tiver uma atenuante, pode ser que consiga o regime de prisão domiciliar. Mesmo que tenha que se apresentar todas as semanas ao juiz ou delegado. Assim ele poderá administrar a propriedade e sair do atoleiro em que se meteu.
            – Um atoleiro sério. Se ele não tivesse inventado a história do atentado, acabava tudo facil, se houver um acordo.
            – Nem adianta ficar conjuturando agora. O que está feito, está feito e pronto. O remédio é minimizer os efeitos.
            – Se o coronel concordar, não tenho nada a opor. A questão é essa. Pelo que conheço do velho ele é um bocado sistemático e quando embirra com uma coisa, custa a mudar de ideia.
            – Vamos ver se conseguimos amaciar ele com um bom acordo. Talvez consigamos selar a paz entre eles e acabar com essa pinimba. Aliás toda ela culpa do meu cliente. O coronel não tem culpa nenhuma. O próprio Jerônimo reconheceu na minha frente.
            – Haveremos de encontrar uma saída para a questão. Depois eles precisam aprender a conviver como bons vizinhos.
            – Assim espero, colega. Dá licença agora. Está chegando um cliente nesse momento. Outra hora nos falamos.
            – Até logo, doutor Estevão.
            Desligaram os aparelhos aoa mesmo tempo. Coincidentemente José Silvério também estava diante de um cliente novo, que entrava no exato momento em que a ligação era desfeita. Mal colocou o fone no gancho e ele tocou, avisando da chegada do cliente. Mandou entrar.   
            A tarde transcorreu entre diversos clientes de causas menores vindo trazer documentos, assinar procurações e outros detalhes necessários. Pouco depois das 5 horas, Roberta lhe trouxe uma pilha de processos em cuja montage final estivera trabalhando. Precisavam de uma conferência final do advogado e aposição de sua assinatura em petições, mandados e outros documentos. Não havia nenhuma outra entrevista marcada para aquela hora. Houve tempo suficiente para conferir meticulosaamaente cada processo, verificando estarem na mais perfeita ordem. À medida que os conferia, assinava onde fosse preciso. Dava graças a Deus por ter convidado Roberta para sua secretária. Era de uma competência inigualável. Sabia a ordem correta dos documentos para facilitar o acesso a eles pelo juiz ao analisar cada um.
            Lembrou de sugerir ao diretor da empresa uma gratificação ou um aumento de salário para a secretária. Fazia por merecer. O esquecimento com relação a essa questão poderia significar a perda de uma funcionáriaa competentíssima. Depois arranjar outra do mesmo nível, seria demorado. Sem contar com o período de adaptação ao serviço, pois, por mais esforçada que fosse, demoraria algum tempo para ficar a par de todas as minúcias do mundo jurídico. Isso é coisa que não se aprende de uma hora para outra.
            Na quinta-feira a tarde, foi surpreendido pelo coronel Onofre ao telefone. Estaria ele na cidade e ligara para saber do andamento das coisas?
            – Boa tarde, coronel. Como tem passado?
            – Tive uma boa surpresa essa semana. Os home da companhia de telefone vieram instalar o dito cujo. Tô le ligando aqui de casa memo.
            – Que beleza. Agora fica tudo mais fácil. Parabéns.
            – Tô inaugurando a linha. Hahahahah!
            – Vamos aproveitar para combinar o encontro com seu vizinho. Marcamos para segunda feira às 10 horas.
            – O home tá com pressa de resolver as pendenga. To gostando de ver.
            – Ele quer colocar a vida em ordem, pelo jeito. Não sei se o senhor vai concordar, mas ele pediu se daria para retirar a queixa do atentado, ou algo assim para aliviar a pena.
            – E essa agora! Ele manda dois capanga atirar em mim, quase me mata e quer que retire a queixa? Acho que ele tem que arcar com as consequência do mal feito.
            – Eu não dei resposta. Sugiro conversar primeiro sobre o acordo da divisa e acertar tudo aí. Depois temos tempo para tratar do resto. Concorda comigo, coronel?
            – Uma boa ideia. Num dianta esquentar a cabeça antes da hora.
            – E Isabel terminou de pintar o quadro para apresentar na exposição?
            – Sei não. Hoje de manhã tava lá no atelier mexendo com suas pintação. Tá que é uma pilha de nervo. Deixou até a Lourdes meia dos casco vir-ado.
            – É a ansiedade pela estreia. Faltam poucos dias. É assim mesmo. Igual estudante em tempo de provas finais ou véspera de concurso.
            – Inté parece muié buchuda em véspera de pari.
            – Acho que a situação é semelhante. O senhor deve saber melhor que eu. Nem sou casado, quanto mais tive mulher gravida, perto de ganhar filho.
            – Nem queira saber. Elas fica um nervo só e a gente que guenta as consequência.
            – É a parte que nos cabe, já que não podemos ser mães.
            – Te esconjuro, home! Eu lá ia quere ter filho? Isso é coisa das muié.
            – Dê lembranças a dona Lourdes e Isabel, coronel. Está na hora de voltar para casa. Estou um caco hoje de tanto ouvir histórias e depoimentos no forum.
            – Vai descansar, doutor. Lhe desejo uma boa noite de sono.
            – Até segunda feira, coronel. Não esqueça. Às 10 horas.
            – Isqueço não.
            A sexta-feira era em geral pouco movimentada na área jurídica. Os juízes via de regra não marcavam julgamentos, especialmente juris para esse dia. Se demorasse, avançariam para o sábado e domingo. Isso ninguém queria. José Silvério aproveitou para por em dia todos os pequenos servicinhos que tinham sido deixados para depois por conta do era prioritário. Assim o dia passou, deixando a impressão de não ter feito nada, mas na verdade haviam sido um número enorme de pequenos detalhes que estavam agora devidamente encaminhados.
Cine Fox em Sete Lagoas.

 

Monumento em homenagem à FEB em Sete Lagoas
            O final de semana foi passado com a família, uma ida ao cinema sábado à noite em companhia da irmã e do namorado. Não lhe agradava muito servir de vigia ou como se dizia “segurar vela”. Pensava que os dois deveriam saber o que queriam da vida. Consequentemente precisavam arcar com as consequências dos seus atos. Orientação ambos tinham recebido dos pais, se isso não bastasse, nem mesmo um guardião seria capaz de impedir alguma coisa se eles assim o desejassem. Mas valeu à pena, pois a fita era muito boa. Pessoalmente gostava de filmes sobre espionage e esse era um dos bons nessa variedade.
            No domingo assistiu ao jogo dos dois maiores clubes da capital se enfrentando pelo campeonato nacional. Ele era cruzeirense até a raiz do cabelo. Já o pai era atleticano convicto. O jogo foi disputado, não que estivesse valendo algum título, mas perder para o maior rival era sempre uma humilhação. Pouco importava se o jogo era oficial ou mesmo amistoso. O resultado final, depois de alguns lances mais rudes, alguns cartões amarelos, foi um honroso 1×1. Ao término as indefectíveis reclamações contra o juiz de parte a parte. A genitora do árbitro foi premiada com vários nomes pouco honrosos. As ruas ao redor do estádio estavam cheias de policiais para garantir a volta para casa em segurança.
            Dessa forma chegou segunda-feira, quando se encontraram frente à frente o coronel Onofre Pires e Jerônimo para uma conversa séria e franca. O começo da reunião foi tenso e José se encarregou de quebrar o gelo:
            – Senhores, estamos aqui para uma conversa franca, visando encontrar um termo de conciliação entre os vizinhos coronel Onofre e Jerônimo. Sugiro que mantenhamos a calma e cada um terá a sua hora de falar. Doutor Estevão, eu lhe dou a palavra para apresentar ao meu cliente a proposta que me apresentou aqui na semana passada.
            – Eu fui encarregado pelo meu cliente senhor Jerônimo de apresentar ao senhor coronel, uma proposta para quitar a indenização relativa à questão da divisa e também a reposição da cerca no lugar de sempre.
            – Pode falar, doutor. É pra isso qui eu estou aqui.
            – O senhor Jerônimo, por conta de uns contratempos, ficou com as finanças abaladas e pede ao senhor coronel, aceitar um parcelamento da dívida.
            – E qual é essa proposta? Quero ouvir do senhor mesmo.
            – Se pudermos parcelar o total em parcelas de valores menores, vencendo uma a cada seis meses. Calculamos os juros devidos, num prazo final de três anos.
            – Eu tinha intendido qui seria em um ano.
            – É o que eu havia proposta, mas o senhor Jerônimo verificou que iria ficar em dificuldades. Melhor estabelecer um prazo maior e pagar direito, que ser curto e depois não conseguir vencer fazer os pagamentos.
            – Coronel, creio que um p:razo maior não irá atrapalhar sua vida financeira. E as palavras do colega são sábias. Não nos vale de nada se o prazo for curto e não cumprido ao final.
            Nesse momento Jerônimo pediu ao seu advogado para deixá-lo falar e ele permitiu:
            – Coronel Onofre, eu preciso lhe pedir perdão por todas as besteiras que eu fiz em relação ao senhor nesses anos todos. Meu pai sempre se deu bem com o senhorr e me falou muitas vezes sobre isso. Eu era um cabeça de vento e deixei os amigos me levar para o mau caminho. Fiz muita coisa errada nessa vida. A última foi essa da divisa e depois o atentado. Depois que fiquei duas noites na cadeia, vi que não sou feito para ficar em gaiola. Vi meu pai, como se estivesse vivo ali na minha frente, falando das cosas erradas que fiz. Resolvi mudar de vida. Sei que vou ter que acertar com a justiça a questão do atentado, mas isso é outro problema. Quero levar outra vida a partir de agora, começando por acertar toda essa questão da divisa de uma vez.
            – Si é assim, Jerônimo, eu até faço um batimento. Vamo deixa por 60 mil invei dos 100 qui o doutor juiz determinou. Dividimo tudo em seis partes iguais e você me paga cada seis meis. Você coloca a cerca no lugar certo e depois eu planto os pé de café de vorta naquela parte. Num sei si vo podê faze alguma coisa na questão do tiro que levei.
            – Isso facilita as coisas, coronel, – falou doutor Estevão. – Fica mais fácil para o senhor Jerônimo pagar sem problemas e só falta resolvermos depois a questão com o juiz.
            – Se o meu cliente concordar, podemos dar um depoimento atenuando a gravidade da queixa e assim diminuir a apena imposta pelo juiz.
            – Concordo. Uai! Seu pai e eu fomos bons amigos e depois nós viramos inimigos. Tá na hora de acaba com essa pinimba de uma vez.
            – Proponho que os dois vizinhos se deem as meem as mãos em sinal de entendimento e vivam de hoje em diante em paz. Aos poucos as mágoas que vão restar virarão apenas lembranças do passado e o tempo se encarrega delas.
            A sugestão foi aceita e Jerônimo esteve prestes a verter lágrimas de satisfação. Estava realamente arrependido do rumo que dera a sua vida. Queria poder esquecer o passado, se isso fosse possível. Combinaram que os advogados preparariam os documentos necessários ao acordo, encaminhariam tudo ao juiz e pediriam o arquivamento do processo, uma vez que estava havendo o entendimento. Aguardariam a fixação da data do julgamento dos acusados pelo atentado. Os capangas estavam da cadeia e seria conveniente que lá ficassem pelo menos até o julgamento. Se fossem soltos, poderiam fugir e causar problemas com o magistrado. Ele fazia questão absoluta de manter a maior lisura nos processos sob sua responsabilidade.
            Depois de realizados os entendimentos, sairam e foram almoçare num restaurante ali perto, a convite de coronel Onofre. Sentia um peso sendo removido de seu espírito. Nunca aceitara que aquele menino que vira crescere, tivesse se transformado em seu mais ferrenho inimogo, coisa que sempre evitara ao longo da vida toda. Fazia questão de pagar a comida naquele dia. Todos aceitaram de bom grado. A reunião estava terminando e a hora do almoço chegava. Lá fora o peão que acompanhara Jerônimo e o outro do coronel olharam para os quatro homens saindo do escritório. Aparentemente conversavam sem ressentimentos. Até ali não haviam trocado palavra, mas vendo os patrões juntos e conversando, se cumprimentaram também. Depois chegaram até o grupo aguardando um pouco afastados.
            – Podem vir os dois. Vamos almoçar todos juntos ali no fim da rua. Servem uma comida muito boa ali.
            Seguiram logo atrás e o grupo inteiro foi almoçar. O coronel tinha razão. Apesar da aparente simplicidade do estabelecimento, os pratos eram preparados primorosamente. José Silvério teve que congratular-se com o seu cliente por saber desse detalhe, uma vez que ele, residente ali não sabia disso. Comeram de se fartar, beberam umas cervejas e depois voltaram para seus afazeres. Os advogados macaram a tarde da próxima sexta feira para se reunirem e elaborar tudo relativo ao acordo, bem como o encaminhamento que dariam no aspecto judicial.
            – Sempre ouvi os professors falarem. Um mau acordo é melhor que uma boa demanda. Pena que o nosso amigo se deu conta disso meio tarde. Teria evitado uma porção de transtornos.
            – Mas podemos nos dar por satisfeitos. Eles parece que vão se entender daqui para frente.
            – O coronel é ótima pessoa. Só não pise nos calos dele, que daí a coisa fica feia.
            – No fundo todos somos assim. Varia um pouco de um para o outro, mas ninguém gosta de ser desrespeitado, ter as propriedade invadida. Isso sempre dá encrenca grossa.
            – Vamos fazer nossa parte para que isso fique resolvido por aqui e não tenha desdobramentos depois.
            – Creio que isso nos torna um pouco amigos também, colega.
            – No que me diz respeito, nada a opor.
            – Vou andando, pois ainda tenho várias coisas para resolver durante a tarde. Até mais ver, colega.
            – Boa tarde. Também vou cuidar da vida.
            José estava próximo de seu trabalho e não tinha nenhum compromisso especial para aquela tarde. Lembrou de falar com o diretor a respeito do aumento para a secretária e comentar sobre a reviravolta no caso entre o coronel e seu vizinho. Alguns dias antes não teria nem imaginado ser capaz tamanha mudança. Por vezes ainda sentia uma pontinha de preocupação. O outro poderia estar tratando de ganhar tempo e depois voltar a carga com mais energia. Procurou lembrar da fisionomia de Jerônimo na hora em que falara e pedira perdão ao coronel. Não conseguiu ver traço de falsidade no rosto. O homem estava sendo sincere, ou então era um perfeitissimo ator, capaz de convencer a todos de sua sinceridade.
            Ao ter semelhantes pensamentos sentiu um leve arrepio. Seria uma frustração imensa se isso viesse a acontecer. Decidiu confiar em Deus, colocar nas suas mãos a questão. Estavam tomando todas as medidas de precaução possíveis, tudo passaria pelas mãos do juiz e levaria sua chancel ao final. No caso da ocorrência de alguma falseta de um ou outro lado, teria que se haver com o representante máximo da lei ali naquela época.
            O aumento para Roberta foi concedido. Ela foi chamada e na presença de José o diretor lhe informou do valor de seu novo salário. Ela teve dificuldade em acreditar no primeiro momento, mas foi tranquilizada quanto a ser uma brincadeira. For a José pessoalmente que sugerira. O diretor, levando em conta a eficiência e dedicação da servidora, concordara em elevar seus vencimentos. Ela agradeceu e saiu sorrindo. Intimamente exultava. Assim seria possível dar à sua mãe uma ajuda mais consistente para manter a casa. O pai estava doente e inválido, recebendo um auxílio doença que não cobria nem os medicamentos, quanto mais outras despesas.
            Os dois conversaram longamente, tendo José relatado seus últimos feitos no forum ao chefe. Não tinham tempo diariamente de sentarem e narrar os detalhes de alguns processos em que José atuara. Conseguira virar o jogo em várias situações aparentemente de derrota. Um argumento encontrado em suas longas leituras de sentenças e processos famosos publicados em livros ou revistas jurídicas. Isso lhe valera bons desempenhos em diversas ocasiões. A sutileza da argumentação e sequência de apresentação das provas no caso do coronel e seu vizinho tinha sido considerada genial. Haviam temido em alguns momentos que poderia haver uma derrota, mas a sentença favorável não deixara pesar dúvidas sobre o lado em que estava a justiça.
            Depois de colocar as novidades em dia, José voltou para sua sala e se dispôs a ler minuciosamente os autos de um processo em que iria atuar no tribunal do júri em duas semanas. Era um caso de assassinato, mas havia falta de provas concludentes. O reu confessara e depois se retratara afirmando ter confessado sob tortura e caberia a ele, José Silvério atuar no apoio ao promotor, cocntratado pela família da vítima. Procurava um argumento forte o suficiente para desmascarar o reu em sua afirmação de tortura. O laudo do exame de corpo de delito era inconclusivo. O reu afirmava que haviam usado métodos não contundentes, por isso não havia marcas no seu corpo. Já os policiais, o delegado e detetives negava veementemente a ação delituosa. A confissão for a espontânea, sem muita pressão na verdade.
            Leu todo o processo, dedicando especial atenção à primeira confissão, à retratação posterior, acusação de tortura, laudo médico em busca de um mísero fio. Um vestígio apenas poderia ser suficiente para levantar o pano que parecia envolver o caso. Ao reler a confissão e depois a retratação do reu, encontrou o que procurava. Havia incongruência entre as duas situações e ele usaria esse fato para provocar o réu. Era fortemente provável que, ao ser confrontado com a contradição, ele ficaria agitado e se delataria sem muita dificuldade. Haviam passado ao seu encargo esse caso, pois todos os outros haviam concluido ser trabalho insano e infrutífero tentar conseguir a condenação. A acusação de tortura pendente sobre a cabeça do delegado, um detective e dois agentes, significaria um golpe severo para esses profissionais. Depois que se certificou de tudo, escreveu cuidadosamente a forma como faria as perguntas, possíveis variações dependendo das respostas que recebesse. Tudo pronto, tornou para a sala do diretor e lhe mostrou o que estivera fazendo.
            O chefe leu, releu e indagou de onde tirara essa ideia?
            – Do próprio processo. – e abriu onde estavam as duas passagens conflitantes das declarações do reu, feitas em momentos diferentes. Ele tinha previsto eventuais esquivas e saidas pela tangent. Encurralaria o malfeitor de tal forma que não lhe restaria alternative a não ser confessar. Depois de olhar tudo, o chefe lhe deu razão. Aconselhou-o a não deixar escapar uma única sílaba de tudo isso. Poderia por tudo a perder, se alguém, especialmente os advogados de defesa, ficassem sabendo de sua artimanha. Era perfeitamente correta a sua intenção. Colocaria a pergunta de tal forma que o acusado seria obrigado a dizer uma coisa ou outra. Cada uma delas o conduzia a um beco sem saída. Quando se desse conta da cilada, seria tarde.
            Ao olharem viram que passava de 18h 30min. Haviam estado a conversar por tanto tempo que esqueceram a hora. Levantaram-se e verificaram que não havia mais ninguém no prédio. Fecharam as salas e depois a porta principal. Despediram-se e foram para suas casas. O diretor ia pensando em seu íntimo:

 

            – Foi uma ótima decisão contratar esse jovem, recém saido da faculdade. Transformou-se, em menos de dois anos, no melhor causídico da Advogados Associados. Estava se tornando hábito transferir para sua agenda todos os casos mais complexos, se não de todo, pelo menos o comando da equipe que atuaria na defesa ou acusação, conforme o caso. Se não o tivesse contratad na época, oferecendo um pouco mais do que teria sido normal, hoje estaria arrependido, vendo-o atuando em julgamentos no lado oposto ao seu. Seria algo profundamente lamentável. 
 
Vista aérea de Sete Lagoas.

 

Schoping Center Sete Lagoas.

 

Mais um lago no perímetro urbano.
 

Mineiro sovina! – Capítulo XII

 

Vista da cidade de Sete Lagoas.
Rio que corta a cidade de Sete Lagoas.

 

Ação de litígio é julgada.
Na hora estipulada todos os envolvidos na questão, o proponete da ação, o acionado, as testemunhas, os respectivos advogados e algumas pessoas assistentes estavam diante da mesa do Juiz. De um lado estavam Dr. José Silvério, coronel Onofre e quatro testemunhas, sendo dois empregados e dois vizinhos próximos. Eles haviam estado presentes anos antes na ocasião da demarcação que Onofre tinha registrado no cartório junto à documentação de propriedade das terras. Do outro lado Dr. Estevão, Jerônimo e três de seus empregados, além de um outro indivíduo que ninguém ali conhecia. Era o tal agrimensor que fizera a nova demarcação, sem que o coronel tivesse tomado ciência.
O Juiz se dirigiu aos presentes em geral, pronunciando as palavras de abertura da sessão, identificando o assunto em discussão, bem como os envolvidos. Em continuidade passou a palavra ao advogado da acusação, dizendo:
– Doutor José Silvério, há alguma proposta de conciliação de parte de seu constituinte?
– Meu cliente procurou entendimentos anteriores com o citado, mas foi recebido com grosserias e ameaças. Por isso procurou as vias judiciais. No entanto estamos abertos a ouvir qualquer proposta que seja apresentada pelo colega advogado do senhor Jerônimo.
– Doutor Estevão, seu cliente quer fazer alguma proposta de conciliação?
– Vou trocar algumas palavras com meu cliente e já respondo sua pergunta, meritíssimo.
Ficaram alguns instantes falando em voz baixa, mostrando-se Jerônimo bastante agitado. Por fim o advogado dirigiu-se ao Juiz dizendo:
– Meritíssimo, meu cliente não se considera culpado de nenhuma violação do direito de propriedade do seu vizinho e não quer propor nada em termos de conciliação.
– Diante disso, vamos seguir com a audiência. Doutor José, pode apresentar suas testemunhas.
– Vou começar com o senhor Gregório da Silva, vizinho e testemunha de uma demarcação feita em comum acordo entre meu cliente e o pai do senhor Jerônimo.
O citado sentou-se na cadeira das testemunhas e José Silvério continuous:
– Senhor Gregório, o senhor esteve presente quando o coronel Onofre e seu vizinho Juvêncio fizeram a demarcação de suas terras, ficando a divisa claramente estabelecida?
– Sim senhor. Eles se davam bem e fizeram a demarcação para não haver problemas. Os dois trabalham com ramos diferentes. Plantação de café e criação de gado. Não dá para misturar.
– Consegue lembrar quando foi isso?
– Sei ao certo não. Mas foi dantes da revolução de março de 1964. Pouco despois da nauguração de Brasília.
– Sabe se os dois receberam um mapa com a indicação das divisas claramente?
– Isso foi alguns dias despois. O grimensor vorto trazendo um mapa igual pra cada um deles. Cunferiram tudo e eram guarzinho os dois.
– Saberia dizer se esse documento é aquele que viu? – mostrou o papel amarelado pelo tempo, depois de descobrá-lo com cuidado. O senhorr Gregório olhou detidamente e falou:
– É esse sim. Penasmente está um pouco marelado agora. Mas não tenho duvida. É esse mesmo.
– Meritíssimo eu não tenho mais perguntas.
– Doutor Estevão, a testemunha é sua.
– Eu não tenho perguntas.
– Pode chamar outra testemunha.
– Vou chamar o senhor Augusto Ferreira, também testemunha da demarcação.
O nominado sentou-se na cadeira indicada e José Silvério falou:
– Senhor Augusto, o senhor ouviu as perguntas que eu fiz ao seu amigo Gregório e as respostas que ele deu.
– Sim senhor.
– Confirma que esteve presente no mesmo dia e viu o que ele viu?
– Confirmo. Lembro inté como estava o tempo. Era uma seca meia braba e fazia muito calor. Mas estava presente e tudo qui cumpadre Gregório falo é verdade.
– Reconhece o mapa que os dois vizinhos receberam do agrimensor?
– Si reconheço? Mas craro. É esse memo que sinhor tem aí na mesa.
– Obrigado senhor Augusto. Eu não tenho mais perguntas.
– A testemunha é sua doutor Estevão.
– Sem perguntas.
– Pode chamar outra testemunha.
– O senhor Paulo Francisco Alves, empregado do senhor Onofre.
Paulo sentou-se na cadeira e olhou para os lados levemente assustado. Aquele ambiente não condizia com o que era habitual em sua vida. Ouviu o advogado falando e presto atenção:
– Fique calmo Paulo. Só lhe vou perguntar umas poucas coisas. Deve responder só o que eu perguntar.
– Sim sinho! To ouvindo.
– Pode nos contar como foi que descobriram a cerca deslocada e os pés de café cortados naquele ponto da divisa, perto da nascente de água?
– Fais coisa di quatro cinco mes noi stava vistoriano o cafezal pra quelas bandas. Quando chegamo na divisa, eu mais Osvardo Faria, quando vimo aquele monte de pé de café cortado e montoado. Mais adiante vimo a cerca mudada de lugar, um buraco cavado em torno da nascente pra mode o gado beber ali. Estava tudo pisoteado.
– A cerca foi mudada só no lugar da nascente ou a mudança foi maior?
– Mudaro de uns 200 m antes, até outro tanto despois da nascente. Parece inté que fico quase reto. Apenas oiando de longe si pode ver a curva.
– Saberia apontar no mapa o lugar onde isso aconteceu.
– Posso tentar.
José levou até ele o mapa e permitiu que o olhasse atentamente.
– Eu num intendedo dereito esses mapa, mas deve de ser nesse ponto. Começando mais dantes até ali acima. – falou e apontou com o dedo.
– E o que vocês fizeram?
– Nois oiamo dereito e fomo logo contar pra coronel Onofre. Dispois acompanhamo ele até la pra mode ver o acontecido.
– Pela aparência, era coisa recente, ou fazia mais tempo?
– Era coisa de pocos dias dantes. As foia dos cafeeiros ainda num tinha caido.
– Vocês deixaram como estava ou fizeram alguma mudança?
– Coronel mando deixar ansim cumo tava. Num mexemo im nada não.
– Obrigado Paulo. Era só isso.
– Dr. Estevão, quer inquirir a testemunha?
– Uma pergunta, Paulo. Não foram vocês que cortaram a cerca e os cafeeiros a mando do coronel, só para processor o senhor Jerônimo?
– Coronel Onofre é home dereito, doutor. Nunca que ia de mandá faze uma coisa dessa. Te esconjuro, home.
– Não tenho mais perguntas.
– Doutor José, pode chamar outra testemunha.
– Só mais o senhor Osavaldo Farias.
Osvaldo sentou-se na cadeira e sabia que não tinha nada a temer. Olhou firme para frente, esperando as perguntas do advogado.
– Pode nos contar o que viu junto com seu companheiro de trabalho naquele dia na divisa das duas propriedades.
– Tudinho que Paulo Francisco falo é a pura verdade. Eu só quero acrescentá que vi, assim meio de revesgueio, alguém iscondido detrais de umas pedra que tem no pasto do seu Jerônimo. Parecia espreitar o qui noi stava fazendo.
– E essa pessoa fez alguma coisa, se movimentou, falou que o senhor se lembre?
– Só fico bem iscundido. Deve di tê ido contá pro patrão despois qui nois viemo embora. Inquanto nóis tava ali, num si mexeu não.
– E a distância que a cerca foi mudada é em sua opinião o tanto que Gregório disse, é maior ou menor?
– Nóis num medimo, mais deve de ser mai o meno isso qui Gregório disse. No totar uns quatrocentos metro.
Levou até ele o mapa e logo o dedo indicou o ponto em que a violação fora cometida.
– Obrigado Osvaldo. Não tenho mais perguntas.
– Eu também não tenho perguntas, – falou Estevão.
– Doutor Estevão, queira chamar as testemunhas de defesa.
O advogado de defesa levantou, endireitou os óculos sobre o nariz, percorreu com o olhar todos os presentes e falou:
– Vou chamar para depor o senhor Ambrósio Pereira.
O chamado era o mais jovem entre as testemunhas e estava visivelmente perturbado. Sentou-se na cadeira e esperou que lhe perguntasse, dando sinais claros de que, se descuidassem sairia correndo dali, sem olhar para trás.
– Fica tranquilo Ambrósio. Ningém aqui vai lhe fazer mal. Aqui é uma sala onde se administra justiça. Não tenha nenhum medo.
Esperou alguns instantes que as suas palavras fizessem efeito e ao ver que o jovem se sentia mais seguro falou:
– Quanto tempo você está trabalhando para o senhor Jerônimo?
– Eu nasci na fazenda e desde pequeno trabalho lá. Nunca saí de la inté hoje.
– Então conhece aquele terreno como a palma da mão?
– Conheço sim.
– Lembra dessa demarcação que o coronel Onofre está usando para acusar seu patrão de violar a demarcação da divisa?
– Eu devia de ser bem criança. Lembro que meu pai falou disso mas num estive junto durante o serviço.
– Durante esses anos todos, ouviu alguma vez ser falado a respeito de a divisa estar errada?
– Patrão fais anos fala que divisa ali tá errada.
– Esteve junto quando o seu Firmino, aqui presente, fez a nova demarcação, colocando a cerca onde está agora?
– Estive sim sinhor. Ajudei no serviço.
– Ajudou a mudar a cerca?
– Patrão mandou nois mudar a cerca dispois qui empregados di coronel Onofre cortaro os arame, deixando o gado entrar no cafezal.
– Não tenho mais perguntas.
– Doutor José Silvério, a testemunha está à sua disposição.
– Ambrósio, pode me dizer por quê o gado não andou mais longe, causando estrado em outros lugares, só ali naquele ponto perto da nascente?
– Isso eu num sei dizê doutô.
– Vocês estavam vendo eles cortar os arames e foram logo tocar o gado de volta.
– Num sinhô. Nóis vimo isso só dia seguinte. Tinha mais que vinte cabeça do outro lado da cerca.
– E vinte e poucas cabeças de gado, estragaram só o café que estava na parte que seria atingida pela mudança da cerca? Não acha isso um pouco dificil de acreditar?
– Sei dizer não senhor.
– Não tenho mais perguntas.
O juiz determinava ao escrivão algumas anotações específicas, em decorrência das palavras da testemunha.
– Pode chamar outra testemunha.
O doutor Estevão chamou um a um os outros dois e suas respostas ficaram no mesmo nível do prmeiro. Em verdade não tinham muito a acrescentar. O trunfo seria o agrimensor com sua nova demarcação e o novo mapa elaborado.
Pelos depoimentos dos dois outros dois empregados de Jerônimo, José Silvério achou desnecessário fazer perguntas a eles. A última testemunha foi chamada. Era Nicodemos de Almeida Prado. Um home alto e atlético, sinal de que sua atividade transcorria em lugares frequentemente de acesso difícile, sendo necessária uma compleição física avantajada. Sentou-se na cadeira das testemunhas e aguardou. Doutor Estevão passeou o olhar sobre os presentes e falou:
– Senhor Nicodemos, pode nos apresentar suas credenciais de agrimensor?
– Estão aqui, doutor. – retirou do bolso interno do paletó uma carteira de onde retirou um documento com fotografia que o identificava como agrimensor credenciado. Junto entregou também a sua identidade.
Estevão pegou os documentos e os apresentou ao Juiz que os leu, entregou ao escrivão para copier os dados com clareza.
– Já devolve seus documentos, senhor Nicodemos.
Enquanto isso Estevão trocou algumas palavras com a testemunha. Quando o juiz falou:
– Aqui estão seus documentos. Pode guardar. Os dados foram anotados devidamente.
Estevão entregou os documentos e depois se colocou na posição de inquiridor, dizendo:
– Como foi que o senhor veio trabalhar para meu cliente, uma vez que mora bem distante?
– Fui procurado pelo senhor Jerônimo para fazer o serviço, indicado por um cliente que é amigo dele. Me falou não confiar nos demais profissionais. Não posso recusar serviço e vim fazer o trabalho.
– O senhor teve algum contato com o outro interessado, o coronel Onofre aqui presente?
– Sei que ele foi convidado a estar presente, mas não quis saber. Disse confiar na demarcação feita há mais de 15 anos atrás.
– Como foi o trabalho? Encontrou alguma coisa errada?
– Começamos localizando os marcos nas cabeceiras. Depois coloquei o Teodolito e iniciamos a determinação dos pontos de 100 em 100 metros. Na altura da nascente encontrei um desvio da cerca para o lado da propriedade do senhor Jerônimo, de modo que ela ficava do lado do coronel Onofre. O mapa que deixei e que deve estar com o senhor mostra claramente o desvio.
– O o senhor se refere a esse mapa? – disse Estevão levantando bem alto o referido documento.
– Esse mesmo, doutor.
– Vou entregar às mãos do Meritíssimo uma cópia heliográfica para integrar os autos do processo.
Levou até a mesa do magistrado o document original e sua cópia. Foi comparada a cópia com o original e dado como verdadeira. A juntada ao processo foi ordenada.
– Teria mais algo a acrescentar senhor Nicodemos?
– Eu não, doutor.
– Doutor José Silvério, alguma pergunta?
– Sim Meritíssimo. – disse e se dirigiu à testemunha que não esperava por isso. Imaginava que seu depoimento se resumiria ao que dissera. – O senhor sabe identificar detalhes em uma fotografia, senhor Nicodemos?
– Não sou especialista, mas sei sim.
– Eu estive no local, depois que o queixoso senhor Onofre me procurou e com minha camera tirei algumas chapas do local. Mandei fazer ampliações que estão aqui. Poderia olhar para elas e dizer o que nota de errado.
As fotografias mostravam a cerca vista de longe e esta apresentava claramente a existência de uma curva ao redor da nascente. Foram olhadas atentamente pela testemunha e depois ele falou:
– Estas fotos foram tiradas antes. Agora a cerca deve estar reta. Pode ver que eu tenho razão.
– E como explica a existência desses cafeeiros cortados aqui ao lado, mostrados mais detalhadamente na outra foto tirade mais de perto?
– São imagens de épocas diferentes.
– Veja na margem inferior tem a data das imagens. Mostram quando foram feitas.
– Os negativos permitem fazer cópias muito tempo depois.
– Quando o senhor fez a demarcação, havia esse buraco ao redor da nascente que se pod ever aqui nessa outra foto?
– Não, mas isso é o que falei. São de outra data.
– Vou pedir ao Meritíssimo que junte essas cópias aos autos do processo como prova. – Entregou as imagens ao juiz que as observou, depois olhou significativamente para José Silvério e um leve sorriso aflorou ao seu rosto. Mandou ao assistente juntar todas as imagens ao processo.
– Não tenho mais perguntas.
– Doutor Estevão, tem mais testemunhas?
– Tenho sim. O próprio senhor Jerônimo. Faz favor!
Jerônimo levantou e foi sentar-se na cadeira indicada:
– Como foi que o senhor se tornou proprietário da fazenda?
– Sou o herdeiro de meu pai. Tinha uma irmã, mas ela faleceu há alguns anos e não deixou filhos, nem marido.
– O senhor viveu sempre com seu pai?
– Desde criança vivo na fazenda. Aprendi a lidar com gado desde menino.
– Está lembrado da demarcação que o coronel Onofre e seu pai fizeram no começo dos anos 60?
– Lembro. Eu era um menino de 13 anos. Meu pai foi coagido pelo coronel por conta de uma dívida que ele tinha com o coronel. Por isso aceitou aquela demarcação.
– E depois o senhor decidiu colocar a divisa em ordem.
– Demorei um pouco, ocupado com outras coisas. Meu pai deixou umas dívidas que tinham que ser pagas e me preocupei com isso. Agora que está tudo quitado, decidi por esse assunto em ordem.
– Ficou surpreso com a constatação do erro na demarcação?
– Eu não fiquei surpreso, pois sabia pela boca de meu pai que ali havia erro, mas ele aceitou para não ter que pagar na hora a dívida. Inclusive o resto eu paguei depois da morte dele.
– Tem os recibos desses pagamentos?
– Estão aqui. – Tirou de uma pequena bolsa um maço de papéis e separou os recibos relativos à quitação da dívida.
– Vou mostrare esses documentos ao Meritíssimo. Pena que não fizemos cópias deles.
– Se for preciso pode deixare eles no processo.
– Mas eles são documentos seus. Não podem ficar no processo.
– Doutor, me entregue os documentos. Vou pedir ao meirinho para leva-los para tirar cópias. Resolvemos isso já.
Os recibos foram levados para providenciar as cópias pedidas.
– O senhor procurou o coronel para fazerem a nova demarcação?
– Mandei recado mas ele não fez caso. Disse que não carecia de fazer nova demarcação.
– Quem foi levar o recado?
– Foi o Ambrósio, doutor.
– Não tenho mais perguntas.
– Eu também não tenho perguntas.
– Os dois advogados queremo chamar mais alguém?
– Eu vou pedir para que o Ambrósio volta para a cadeira das testemunhas, – falou José Silvério.
Com a autorização do juiz o indicado voltou a sentar na cadeira que lhe causava arrepios. Estava mais apavorado agora do que da primeira vez. Teria que mentir e isso o deixava nervoso demais. Sentou-se e esperou:
– Ambrósio, você levou o recado ao coronel Onofre?
– Levei sim sinhô.
– Lembra que hora foi isso?
– Num lembro dereito. Acho que foi perto de meio dia.
– O que aconteceu na fazenda do coronel?
– Ele mandou os capanga me botar para correr. Disse que não carecia de fazer outra demarcação. Que a diferença era tudo mentira de coronel Onofre.
– Você foi à pé ou à cavalo?
Ambrósio ficou pensativo, parecendo em dúvida sobre o que seria mais conveniente dizer. Sua hesitação deixou evidente que não estava dizendo toda a verdade, ou até mesmo era tudo mentira o que dissera.
– Acho que foi à cavalo, doutô.
d- Não é um pouco esquisito esquecer algo que aconteceu há bem pouco tempo?
– Meritíssimo, o advogado do queixoso está induzindo as respostas de minha testemunha. Ele não está em julgamento.
– Protesto aceito. Retire essas palavras dos autos.
– Não tenho mais perguntas.
– Eu também não, meritíssimo, – falou Estevão.
– Mais algum depoimento para completar a audiência?
Nesse momento coronel Onofre falou ao seu advogado que queria depor.
– Meritíssimo, meu cliente quer contar sua versão dos fatos.
– Pode chamar seu cliente, doutor José.
Sentado na cadeira das testemunhas, Onofre pigarreou preparando-se para falar:
– Coronel, conte-nos o que de fato aconteceu.
Em rápidas palavras o queixoso relatou sua longa relação amistosa com a família de Jerônimo, apenas depois de sua morte, quando o filho deixare a vida de andarilho em companhia de alguns elementos de maus bofes, começaram os problemas. Depois que havia quitado a última parcela da dívida que o pai tinha com ele, coronel Onofre, nunca mais haviam trocado palavra pacífica. Não tinha entendido de início, vindo a perceber tudo recentemente quando vira a mudança da cerca e o estragon no seu cafezal. Pedia a José Silvério para apresentar as cópias do cartório onde tudo estava registrado.
O advogado pegou as citadas cópias e levou até as mãos do juiz. Houve alguns minutos de demora enquanto os documentos eram examinados, lidos, registrados nos autos e anexados ao processo. Doutor Estevão pediu vistas dos documentos e foi nitida sua mudança de atitude. Parecia ter recebido uma ducha de água gelada. Ali estava claramente demonstrada a culpabilidade do seu cliente. Ele subornara o agrimensor que poderia ser inclusive responsabilizado criminalmente pela fraude. Isso era outro assunto, mas o seu cliente estaria inapelavelmente complicado. Ainda mais depois das confissões dos bandidos que cometeram o atentado à seu mando. Teria trabalho em livrar a cara dele de ser peso imediatamente e processado por ser o mandante de uma tentative de homicídio. Via dificuldades pela frente.
– Senhores advogados, querem por acaso seus clientes pensar um momento para saber se não convém fazerem um acordo e encerrar a ação?
– Meu cliente não quer ouvir falar de acordo, – falou doutor Estevão. Estava furioso com Jerônimo, mas nada havia a fazer.
– Meu cliente aceitaria um acordo mediante o retorno da cerca à posição correta e uma indenização menor pelos prejuizos. Poderiamos até pensar na retirada da queixa pelo atentado de que o coronel Onofre foi vítima recentemente. – falou José Silvério.
Ouvindo isso Estevão sentiu renascer as esperanças, mas o cliente estava irredutível, fazendo gestos negativos. Confiava em seus homens e iria dali para sua casa. O coronel lhe pagaria cara essa derrota. Não encontrando respaldo para suas argumentações em favor de um acordo, não restou alternativa ao doutor Estevão e aceitou a situação.
Depois de ter ouvido todos os testemunhos, visto as provas documentais apresentadas pelas partes, diante da negativa da parte acusada de fazer um acordo, o juiz demorou alguns momentos confabulando com o assistente. Determinou ao escrivão a redação da sentença, o que foi feito rapidamente. A máquina de datilografia matraqueava violentamente, enquanto as palavras ditadas em voz baixa pelo magistrado iam sendo registradas no papel. Terminada a redação, feita em três vias, sendo a primeira para ficar anexa ao processo e as outras duas seriam entregues aos querelantes. Assinadas as vias o juiz determinou ao seu assistente a leitura da sentença que dizia, depois de uma introdução identificando os envolvidos, resumindo a queixa:
– Diante de tudo isso, eu, Dr. Osmar Dias Ferreira, Juiz desta comarca condeno o Sr. Jerônimo da Luz a pagar, a título de indenização por danos causados à propriedade de Onofre Pires, a quantia de Cem mil Cruzeiros. Igualmente deverá, às suas custas exclusivas, contratar um agrimensor credenciado para fazer o levantamento dos limites das duas propriedades. Em se constatando o deslocamento dos limites de seu local original, deverá recolocar a cerca na posição devida, deixando um metro de espaço entre a mesma e a divisa. Outrossim, as custas judiciais deverão ser custeadas pelo Sr. Jerônimo. Ambas as partes tem o direito de recorrer desta sentença no prazo máximo estipulado em lei. A sessão está encerrada.
            Quando chegaram a um local afastado convenientemente do gabinete judicial, sentaram-se para conversar. O Cel. Onofre não cabia em si de contentamento. Disse entusiasmado:
            – Quero ver o Jerônimo recorrer. Ele que se meta a besta. A única coisa que vai conseguir é aumentar o tamanho da despesa. O advogado dele deveria aconselhar a ele de não entrar com o recurso.
            – Acho que ele está sujeito a sair do forum direto para a cadeia. Depois de tudo que fez, não duvido um muito. Teremos que esperar para ver o que eles irão fazer. Só podemos tomar qualquer iniciativa depois que eles derem o primeiro passo. Por ora nosso objetivo foi alcançado, – disse o Dr. José Silvério.