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Mineiro sovina! – Capítulo XX (final)

 

Bonsai de Azaleia.
Cactos florido.

 

Orquídeas Paphiopedilum.

 

20. Os sonhos se realizam.
         Com o assédio do galante pintor italiano afastado, José Silvério respirou aliviado. Convidou Isabel a irem a Belo Horizonte durante o final de semana em que ele estaria expondo na capital. Queria mostrar a ele que eles estavam juntos e decididos a construírem uma vida a dois. Não iriam se esconder, pois não tinham motivo para isso. O intruso era ele e deveria se convencer da necessidade de deixar aos dois em paz.
         Isabel não achou boa idéia. Iria parecer provocação e não era possível prever a reação do outro.
         – Não o conhecemos suficientemente bem para prever como vai reagir.
         – Se ficarmos aqui, daremos a impressão de que temos medo dele. Não é isso que vai parecer?
         – Vou conversar com meus pais a respeito. Eles já me deram um aperto bem sério sobre isso. Se eu for com você lá cutucar o homem, acho que não vai ser legal.
         – Também tem essa questão. Não devemos desgostar seus pais. Até mesmo os meus não sei se aprovariam minha proposição.
         – Amanhã a gente vai estar com a cabeça mais serena e teremos condições de tomar uma decisão mais acertada.
         – Eu tive vontade de ir até a Rodoviária atrás dele, mas fiquei sabendo que saiu do hotel com passagem para dali a vinte minutos. Não daria mais tempo. Já estava na estrada.
         – Foi melhor assim, meu amor. Imaginou como ficaria sua reputação se tivesse encontrado com ele e acontecesse uma briga entre vocês dois?
         – Bem pensado. Na hora eu não vi nada na minha frente. Parecia que tudo era vermelho. Igual o boi sendo provocado pelo toureiro.
         – Calma, amor. Não tem motivo para se exaltar tanto. Eu amo você e mais ninguém.
         – Esse “bepi” que vá para bem longe e não volte mais.
         – O melhor é ignorar. Ele é homem livre e pode ir onde quiser. É famoso no mundo inteiro. Não vou conseguir me esconder para sempre dele. Em algum momento da vida vamos nos ver e então veremos como fica a questão.
         – Ele que não se meta a besta! Mostro a ele o que acontece com quem mexe com mulher minha.
         – Alto lá! Não sou sua propriedade. Quero ser sua esposa, mãe dos nossos filhos, mas não lhe pertenço como um carro ou um pedaço de terra.
         – Nem é isso que eu quis dizer, meu bem.
         – Infelizmente em muitos casos é o que os homens acham que acontece com o casamento. A mulher se torna “propriedade” deles. Podem usar e abusar. Isso eu não vou aceitar, pode esquecer.
         – Nunca vou agir assim. Desculpe se eu passei dos limites. Vou me manter mais calmo. É que quando vi aquele “almofadinha” todo empoado ali como que dizendo: Olhem como eu sou charmoso, gostoso e bonitão. Todas as mulheres me acham lindo.
         – Pelo menos eu não pensei isso. Aquele bigodinho dele não me atrai nem um pouco. Depois já está quase careca.
         – Isso vai acontecer comigo também com o passar dos anos.
         – Mas eu também vou envelhecer, vamos ficar enrugados os dois. Parou para pensar como vamos estar daqui uns vinte anos? Deveria ser possível ver como iremos ficando com o passar do tempo.
         – Acho melhor não. Seria sofrer por antecipação.
         – Vamos falar de outros assuntos, meu bem. Jogue uma pá de cal sobre esse assunto e vamos cuidar de aproveitar nosso tempo juntos.
         Levantaram e foram até o atelier onde Isabel passou a mostrar seus quadros produzidos nas últimas semanas. Dois estavam ainda sobre os cavaletes, esperando completar a secagem. José contou um por um e constatou que ela pintara mais do que havia imaginado. Ao todo eram 20 telas, onde uma nova artista surgia. Se os primeiros que vira há pouco mais de um ano, eram lindíssimos, estes de agora eram divinos. A força do traço, a harmonia das cores, o efeito estético final era estonteante. Cada um mostrava uma nova faceta da pintora. Ela colocava toda sua alma, sua personalidade na pintura.
 
Phragmipedium.

 

Phragmipedium
 
         – Você já tem material para nova exposição aqui. A maioria das exposições não tem muito mais que isso do mesmo artista.
         – Vou expor no ano que vem. Tenho muito que pintar, antes disso. Se for pensar em exposição agora, perco o ímpeto e a inspiração passa.
         – Parece produção em série, igual linha de montagem das fábricas de automóveis.
         – A diferença é que aqui só tem um operário que faz todas as etapas.
         – Estou vendo que daqui a uns anos, existirão mil, dois mil quadros pintados por você. Não vai desvalorizar seu trabalho?
         – Acho que não. Se não tiver tanto valor, mais gente poderá comprar e ter um quadro meu em casa.
         – Tem esse lado. Vamos ver quando você estiver na eternidade o quanto vão valer seus quadros. Ainda bem que não estaremos aqui para ver.
         – Há pintores que em vida passaram fome, até que não venderam um único quadro. Eu já vendi um monte. Ao todo são mais de 150 vendidos.
         Nisso ouviram Maria Luisa chamando para jantar. Recolocaram os quadros em seus lugares e foram para a sala de jantar. Não era boa política fazer os pais esperarem para eles virem participar da refeição. Ao chegarem ali ouviram Onofre resmungar:
         – Pensei que iam ficar naquele atelier até amanhã.
         – Tínhamos que guardar os quadros no lugar para não ficar tudo bagunçado.
         – Quem mandou tirar tudo do lugar?
         – Para mostrar ao José, pai.
         – Estou embasbacado, coronel. Ela está pintando como uma louca. Tem mais de vinte quadros prontos naquele cubículo. Quase tudo ocupado. Logo vai ter que ocupar um outro lugar.
         – Igual antes. Havia quadros por toda parte, – disse Maria Luisa.
         – Nem tanto mãe.
         – Não, é? Eu que sei pois sabia onde estavam. Só faltou por alguns embaixo de nossa cama. Tinha no quarto dela, na despensa, no outro quarto de hóspedes, por tudo.
         – Lembro. Quando começou a tirar quadro não parava mais de sair. Era de toda parte.
         – Nem posso dizer nada, afinal você ajudou a carregar tudo.
         – Ansim o’cê vai gastar o estoque de tinta da cidade tudo.
         – Isso eles providenciam depressa. Nem se preocupe, pai.
         O jantar transcorreu em silêncio depois disso, ocupados que estavam em comer. Terminada a refeição foram sentar-se diante do aparelho de TV assistir ao Jornal Nacional. Era preciso ficar ao par das notícias do país e do resto do mundo. Em um momento apareceu o italiano, chegando de retorno à capital. Acabara de desembarcar e ia pegar um taxi para dirigir-se ao hotel. Não quis dar explicações sobre suas andanças durante o dia. Ninguém o havia visto viajar e os repórteres estavam curiosos por saber onde estivera. Por mais que tentassem, não conseguiram que seus lábios emitissem algo além de um sorriso pouco expressivo.
         Deixou literalmente claro que aquele dia não faria parte dos noticiários mundiais. Ele o vivera somente para si e não tinha disposição de partilhar o que havia acontecido. Ninguém saberia onde estivera, salvo se algum jornalista de Sete Lagoas o associasse à sua passagem rápida pela cidade. Esperava que isso não acontecesse. Quanto menos se falasse nesse evento, melhor seria para ele. Chegou ao hotel e depois de pagar a corrida, entrou rapidamente, sumindo de vista.
         Em pouco tempo uma pequena multidão de repórteres jornalísticos e televisivos, fotógrafos e cinegrafistas se formou diante da portaria do estabelecimento. Houve um pequeno tumulto quando os seguranças pediram que o acesso aos clientes ficasse desimpedido. Alguns se exaltaram tentando reivindicar direitos de informação. O gerente chegou perto e lhes falou:
         – Aqui é propriedade privada e eu peço que não criem tumulto. Se isso ocorrer, não vou hesitar em chamar a polícia. Portanto, fiquem afastados da entrada do hotel. Estão impedindo nossos clientes de acessar e deixar o lugar livremente. Isso é invasão de propriedade privada.
         Um mais alterado tentou argumentar mas ele virou-lhe as costas e voltou para o interior. Pegou o telefone e começou a discar. Nesse momento a turba se deu conta de que as palavras haviam sido ditas a sério. Os mais moderados acalmaram os outros e foram se postar em posição que não atrapalhasse o livro acesso ao estabelecimento. Vendo isso o gerente deixou a ligação ao meio. Na verdade apenas fizera o gesto de discar para mostrar que não estava brincando, fazendo ameaças vazias. Não havia por que temer.
         Em pouco tempo houve quem ligasse de Sete Lagoas afirmando ter visto o artista lá entre o meio dia e as cinco horas da tarde. Almoçara num restaurante, conversara com pessoas e de um momento para outro entrara no hotel para logo depois sair apressadamente e retornar a Belo Horizonte. Ninguém havia feito imagens, apenas a informação falada. Quando a ser a mesma pessoa não restava dúvida, uma vez que ao chegar ainda vestia as mesmas roupas com que se apresentara lá. Não houvera tempo de trocar, na rápida saída do hotel.
         A exposição transcorreu normalmente, vários trabalhos do pintor foram adquiridos por colecionadores e ele seguiu seu roteiro por outras capitais do país. Demorou ao todo quase três meses em sua tourné. No dia de seu embarque para a Europa, antes de ir para a área de embarque aproveitou e mandou a mensagem para Isabel:
         – Tchau, bella Isabel Pires. Io volverei.
         Ninguém entendeu o que ele quisera dizer, pois ninguém associara o nome à jovem pintora mineira. O jornalista que ligara informando da sua estada na cidade, ouviu a mensagem e associou as coisas. Tentou investigar o assunto, mas deparou com um mutismo total.
 
Catleya.

 

Catleya.
 
         Isabel e José Silvério estavam de casamento marcado. Ao mesmo tempo a artista estava expondo sua produção mais recente na galeria de Sete Lagoas. O trabalho de poucos meses era um acervo de mais de cem pinturas. Era uma artista aparentemente nova, não guardando nada de sua primeira exposição. Os entendidos no entando, colocando os trabalhos lado a lado, conseguiam perceber a semelhança no traço firme, na harmonia das cores. Apenas o vigor, a energia que transpareciam nos novos quadros era a antiga multiplicada por dez. Pareciam ter vida própria seus novos trabalhos.
         Os visitantes eram unânimes em elogiar as pinturas ora expostas, sem no entanto deixar de gloriar os antigos. Uma verdadeira multidão de visitantes veio ver e fazer ofertas de compra. Por sugestão do agente, não haviam sido colocados preços mínimos nas pinturas. Quem quisesse fazer ofertas poderia fazê-lo, mas não havia promessa de aceitação. Esperariam para ver os valores que iriam aparecer e assim avaliar mais adequadamente os trabalhos. No mês seguinte seguiriam para Belo Horizonte e já estavam em negociação com São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre para novos eventos. Não tardaria para aparecerem os representantes de galerias europeias para negociar contratos.
         O mês de maio estava reservado para o casamento e a viagem em lua de mel. Nada seria planejado para esse mês. Mesmo nos demais meses do ano, teriam um limite para aceitar contratos. Estariam vivendo os primeiros meses de casados e pretendiam ter sempre alguns dias para estarem juntos. A fúria interior de Isabel estava temporariamente aplacada, mas não extinta. Poderia dizer que o vulcão estava adormecido, mas a qualquer momento poderia entrar em erupção com todo vigor. Cada dia que vivia, cada cena que visualizava, acrescentava um pouco de energia ao seu íntimo.
         As exposições nas capitais brasileiras foram escalonadas ao longo do resto do ano, permitindo no intervalo entre uma e outra a estadia em casa ou um recanto sossegado para viverem seu amor. O mês de maio chegou e no dia 6 foi realizada a cerimônia de casamento, presidida pelo vigário da igreja matriz e o juiz de direito. Foi uma celebração conjunta, seguida de uma recepção movimentada no clube local. A comida e ornamentação foi contratada com um fuffet fundado recentemente. Foi o maior evento que eles já haviam organizado. Se esmeraram ao máximo para que tudo saísse a contento e realmente foi isso que aconteceu. Por volta de 15 horas os noivos embarcaram em um pequeno avião que os deixou no aeroporto de Belo Horizonte.
         Ali chegando fizeram o check-in e foram para a área de embarque. Antes das 18 horas decolavam rumo ao Recife de onde pegaram outro voo para a França. Ficariam uma semana em Paris, depois iriam até outras cidades, mas não revelaram para ninguém, exceto os pais, onde estariam. Queriam paz e tranquilidade.
         Os dias idílicos vividos foram fartamente registrados em fotografias e filmes em Super 8. Queriam guardar lembranças para reverem muitos anos depois. Depois de visitar todos os lugares dignos de serem vistos em Paris, alugaram um carro e foram até a Alemanha. Visitaram Bohn, Stutgard, Colônia e depois foram para Austria onde visitaram Viena e outras cidades. Por último foi a vez da Suiça, onde pegaram o degelo, pois se avizinhava o verão. Antes de retornarem passaram por Milão, Roma e de lá tomaram um voo para o Brasil. Traziam na bagagem uma enormidade de lembranças de todos os lugares visitados. Porém o tesouro mais precioso que tinham eram as lembranças de cada momento partilhado nos lugares mais incríveis do mundo.
         Algumas semanas depois de voltarem e se instalarem em um apartamento adquirido na cidade, foi a vez de Isabel viajar para Porto Alegre para sua primeira aparição no cenário artístido da capital gaúcha. Ao voltar, já estava pensando na próxima que era Curitiba, vindo na sequência Salvador, Recife e por último Rio de Janeiro. Isso encerraria o ano de 1980. Era o primeiro ano do governo do último presidente do regime militar. Por toda parte espoucavam manifestações em prol de abertura política, grandemente favorecida pelo programa de abertura posto em marcha pelo General João Batista Figueiredo, ocupante atual do palácio da Alvorada.
         Nos dias que Isabel estava longe, José ia frequentemente à fazenda para ver como estavam os sogros, ambos já um pouco debilitados. O distanciamento em relação à filha devido ao seu trabalho, parecia ter abalado os dois idosos. Talvez o anúncio de um neto a caminho conseguisse levantar o ânimo dos dois. Quando terminou o périplo de viajens e perídos de afastamento, foram passar algumas semanas na fazenda. José vinha cedo para cidade e voltava ao anoitecer. Foi nesse período que ela notou o atraso em suas regras. Inicialmente pensou que seria um alarme falso, mas na medida que os dias avançavam e nada acontecia se convencia mais de que estava grávida. Quando amanheceu e logo depois ao escovar os dentes sentiu um acesso de enjoo violento seguido de vômito, teve certeza. José já havia partido ela não teve como ocultar o fato de Maria Luisa.
 

 

Phalenopsis.
Phalenopsis.
 
         A mulher idosa não poderia ter tomado um elixir mais poderoso do que esse. Pareceu recobrar o vigor instantaneamente. Milhões de ideias logo povoavam sua -aí a fora. Onofre que fora ver o café nas proximidades, já iniciando a maturação, chegou e viu as duas numa agitação só. Parou na porta e perguntou:
         – Uai! Que é qui aconteceu?
         – Senta aí, meu veio. Escuta sentado ou vai cair sentado.
         – Por mode que eu vou cair sentado?
         – Ocê vai ser avô!
         O homem teve um tremor, levando as duas a temer pela sua saúde. Parecia ter recebido um choque. Mas logo mais soltou-se lhe a língua e desandou a falar sem parar. Dizia a todo momento:
         – Uai sô! Um neto! Não me diga que vou ter um neto?
         O último a saber da novidade foi o pai da criança que iria nascer. Quando chegou em casa, um pouco atrasado devido a uma audiência que se estendeu além da hora, foi recebido pelo sogro na beira da varanda, numa excitação que não via há tempo. Estranhou o fato e foi logo perguntando:
         – Aconteceu alguma coisa, coronel?
         – Adivinha, meu genro. Nóis tamo na maior felicidade.
         – Mas qual é o motivo de tudo isso?
         – Home! Ocê vai ser pai. Eu vou ser avô.
         – Mas como, quando souberam?
         – Hoje cedo, Isabel, sua mulher levantou com enjoos e está com as regras atrasadas faz mais de mês. Ela está grávida e estão as duas lá dentro fazendo milhões de planos para a criança.
         José não esperou um instante e correu até onde estava a esposa. Ao vê-la estacou e ficou olhando para ela. As duas nem haviam percebido a presença dele, tão ocupadas estavam com os planos para a criança por nascer. Foi preciso perguntar:
         – Alguém pode me dizer o motivo de tanto alvoroço?
         – Muito simples, meu amor. Você vai ser pai. Não vai dar um abraço e um beijo na mãe do seu filho?
         Levantou-se e caiu nos braços do marido. Ficaram um tempo interminável naquele amplexo. Os corpos pareciam se fundirem e ora rolavam lágrimas ora sorrisos se estampavam em seus rostos. O que menos se ouvia eram palavras que entre eles eram desnecessárias. Tinham uma sintonia tão fina que se comunicavam apenas pelos gestos e sinais do corpo. Aquela foi uma noite de muita alegria. Os dias que se seguiram foram testemunhas de um verdadeiro milagre na vida dos avós. Quem logo foi informado da novidade foram os avós paternos também e se estabeleceu um intenso vaivém da cidade para a fazenda e vice versa. Era o primeiro neto ou neta de ambos os lados.
         Se os avós tiveram uma injeção de ânimo com a notícia, José adquiriu uma postura ainda mais firme e decidida no seu trabalho. O relacionamento com os colegas e demais pessoas ficou mais cordial do que já era antes. Queria tornar o mundo um pouco melhor para esperar o filho que estava por nascer. Havia toda uma série de providências a tomar. Havia exposições acordadas para o decorrer do próximo ano e seria necessário algum ajuste, tendo em vista a nova situação da pintora. Haveira necessidade mais tempo de descanso, mais cuidado com o uso das tintas por causa de seus componentes químicos.  
         O menino nasceu no final do mês de julho. As demais exposições do segundo semestre haviam sido renegociadas para o próximo ano. Os primeiros meses de vida seriam exclusivos do filho. Quando ele tivesse condições de acompanhar a mãe, ela retomaria as viagens, sem no entanto exagerar para não submeter o pequeno ser a excessos de stress, exposição pública e demais riscos. José estava eufórico com o nascimento do filho. Em comum acordo com Isabel decidiram batizar o rebento com o nome Pedro Onofre da Silva. Dessa forma os avós ficaram ambos cheios de razão. O neto levava o seu nome. Pouco importava se era o primeiro ou segundo nome, pois dizer os dois juntos soava melhor do que qualquer um deles separadamente.
         O tempo passou, chegou 1982. O pequeno Pedro Onofre já podia viajar e acompanhou a mãe em várias viagens. O pai acompanhava a família quando era possível, mas a carga de trabalho no escritóri estava elevada, mantendo-o na maior parte do tempo em casa. O que mais maltratava nesse tempo era a saudade imensa que sentia dos dois seres que mais amava no mundo. Deitar na cama e imaginar que sua mulher e o filho estavam a milhares de quilômetros de distância, era um verdadeiro tormento. Mas o tempo passou e cada reencontro era motivo de grande regozijo. Os avós viajaram ao encontro da filha e do neto na Itália. Lá ocorreu o encontro de Isabel com Giovanni.
         Ele elogiou o filho e não demonstrou nada do que parecera algo tão certo na ocasião de sua ida ao Brasil. Pelo menos ele soube disfarçar muito bem. Ao contrário do que parecia, ele não sentira sua paixão por ela diminuir e agora, feliz em sua maternidade recente, estava mais radiante que antes. A vida do casal foi uma sucessão de períodos de afastamento e reencontros emocionantes. Pedro Onofre com o tempo ganhou a companhia de um irmão e duas irmãs, espaçados por intervalos de aproximadamente dois anos. Quando Tancredo Neves e José Sarney estavam prestes a subirem a rampa do palácio de governo, Isabel estava grávida pela terceira vez. A longa agonia do presidente eleito, mas não empossado, antes de sua morte, foi um período que comoveu todo o país, especialmente sua terra natal o estadode Minas Gerais.
         Na época do processo de impeachment de Fernando Collor de Melo Pedro Onofre estava completando 10 anos de vida. Os pais viviam suas vidas profissionais conseguindo com bastante sacrifício harmonizar suas agendas tão diversas. Com o tempo passaram a residir a maior parte do tempo na cidade por causa das crianças que tinham que ir a escola. Nos finais de semana quase sempre iam para a fazenda, salvo um final de semana que era destinado ao encontro com os avós paternos.
         Quando cresceram eles seguiram diversas carreiras, menos as dos pais. A mãe Isabel, reduziu o número de exposições e concentrou seu trabalho em um leque menor de opções. Tinha agora a opção de escolher a dedo onde e quando queria expor seus trabalhos. Assim a convivência com o marido e os filhos pode se tornar mais efetiva. Assim aumentou a harmonia geral. Os avós assistiram aos primeiros passos dos netos na vida acadêmica, antes de partirem para a eternidade.

 

                        Fim.
 
Orquídea.

 

Orquídea.

 

Paphiopedilum.
 

Mineiro sovina! – Capítulo XIX

 

Vista de Sete Lagoas.
Encontrando o rival.
         Conforme combinado na terça feira a família Pires se dirigiu para a cidade. Começaram por visitar o escritório da empresa estadual de energia elétrica. Levaram os documentos de identificação da ligação existente e expuseram suas inteções de ampliar o uso da energia. Seria preciso instalar um transformador mais potente no ponto de distribuição para suportar a nova demanda. Além disso precisaria ser colocado mais um cabo, completando as três fases. A vantagem existente era que recentemente fora implantado um benefício que tornava o custo da energia para instalações rurais mais atraente. Havia redução de impostos e taxas, de modo que, provavelmente, apesar do maior consumo haveria talvez uma leve queda na fatura mensal. Na pior das hipóteses a elevação seria insignificante.
         Encaminharam a solicitação de realização dos serviços necessários e autorizaram a cobrança dos custos relativos a isso. Ao saírem dali Isabel olhou bem para o pai e disse:
         – E o senhor preocupado com a conta de energia, hein pai! No final das contas vai ainda economizar com a coisa toda.
         – Uai! Tem alguma coisa contra economizá?
         – Não, pai. Claro que não. Só chamei a atenção para o fato de que, pensando em ter um gasto maior, ele vai ser menor ainda. Mas não tem problema. Prometi e vou pagar a conta.
         – Parem de ranzinzar aí, vocês dois! – falou Maria Luisa.
         – Melhor mesmo, mãe. Vamos agora ver as máquinas.
         A concessionária das máquinas de beneficiamento de café estava instalada a poucas quadras e em poucos minutos estavam estacionando no gigantesco pátio. Era um grande número de máquinas ali expostas para propriedades de todos os tamanhos. A Fazenda Pires era uma das grandes e precisaria o que fosse a última palavra no assunto. Ao ver os preços coronel Onofre se arrepiou inteiro. Já estava pronto a dizer que não iria querer nada e continuar a colher, manusear o café na forma como sempre fizera.
         Isabel não lhe deu ouvidos e falou ao vendedor:
         – Me veja o tudo que for preciso para beneficiar o café na fazenda de meu pai. Ele está querendo ir embora, mas pode fazer o orçamento. Eu vou pagar e dar de presente a ele.
         – Venha aqui que vou mostrar o que vai resolver seus problemas.
         Caminhou resolutamente na direção das máquinas maiores e mais modernas. Rapidamente descreveu o que cada uma fazia e quanto seria o custo, o consumo de energia elétrica além de pessoal necessário na sua operação.
         – E tem como treinar os empregados para trabalhar com isso? São todos xucros e nunca mexeram em dada disso.
         – A empresa fornece treinamento no local. Depois fica supervisionando por uma semana ou mais dependendo da necessidade.
         Vendo a soma de tudo, Isabel viu que teria como arcar com esse custo sem nenhum problema. Depois do sucesso que fizera na Europa, provavelmente se pusesse à venda meia dúzia de seus novos trabalhos já arrecadaria muito além do necessário. Sem contar com o seu fundo resultante da venda e excursão durante a maior parte do ano. Chamou o pai e falou:
         – Está tudo comprado, pai!
         – Uai! Eu num falei nada. Tava esperando ocies para ir embora.
         – Deixe de ser sovina, meu pai! Eu já fiz o cheque da entrada e quando instalarem, pago o restante. Do total que ganhei com meu trabalho, sobrou muito mais da metade.
         – Nem começa a resmungar, veio! – disse Maria Luisa.
         – Uma me chama de sovina, a outra me chama de véio, eu mereço isso. Devo de ter jogado pedra na cruiz di Nosso Sinhor!
         – Agora vai se fazer de coitadinho. Isso não vale.
         Nisso José, desconfiado de onde estariam, chegou e ouviu as últimas palavras. Chegou e cumprimentou sem dizer mais nada. Apenas ficou olhando para coronel Onofre.
         – Uai! Num é isso mesmo que tão fazeno? A fia me chama de sovina, a muié me chama de véio! Tô bem arranjado dessa manera.
         – Coronel! Não reclame de barriga cheia.
         – Estou dando de presente para ele as máquinas, a nova rede de energia e os aparelhos de ar condicionado. Ainda por cima a conta de energia vai até baixar um pouco quem sabe. Mas vou manter minha promessa. Vou pagar a conta. E mesmo assim está reclamando.
         José olhou sorridente para o coronel que, diante das palavras da filha e do olhar do seu noivo ficou sem ação. Depois de instantes falou:
         – Estou virado um traste sem serventia memo. Acho que vou para um asilo de véio. Assim não dou trabaio.
         – E quem disse que o senhor dá trabalho, pai?
         – Já fecharam negócio?
         – Falta só emitirem a nossa via do pedido e providenciar tudo. Tem uns itens faltando no estoque. Em uma ou duas semanas vão começar a instalar tudo. Talvez ainda dê tempo de beneficiar o café dessa colheita que está começando a madurar.
         – Mas isso é ótimo. Anime-se coronel. Sua propriedade vai ganha muito com isso. Diminui as perdas, obtém melhor classificação no mercado. Só tem a ganhar.
         Nisso o vendedor chegou trazendo a via do pedido e o recibo de pagamento da entrada. Entregou nas mãos de Isabel que os dobrou e guardou na bolsa. Estendeu a mão ao vendedor dando adeus e convidou os demais a seguirem até uma loja que vendia os aparelhos de ar condicionado. Havia várias na cidade, mas uma era habitualmente a mais barateira, além de vender os melhores aparelhos. José fizera no dia precedente algumas indagações por telefone e confirmara essa informação.
         Era nessa loja que se encontrava a maior variedade de modelos, tamanhos e marcas, sem contar os melhores preços da praça. Foram até lá e Isabel retirou da bolsa uma folha de papel onde anotara as dimensões dos cômodos onde pretendia instalar os aparelhos. Em vista disso havia a indicação apropriada da potência necessária para uma melhor refrigeração dos ambientes. Um de menor potência, além de não obter o rendimento desejado, corria o risco de queimar devido ao funcionamento continuado na potência máxima. O objetivo era instalar e não ter incômodo por muitos anos, salvo as manutenções de limpeza que eram de praxe. Vendo a soma dos vários aparelhos, Onofre quis diminuir a quantidade, dizendo:
         – Num percisa tanto parelho. Apenas dois ou três basta pra casa toda.
         – Pai, se quiser que um ou dois aparelhos refrigerem a casa inteira, não dá certo. É preciso fechar a porta do quarto e regular para não ficar nem muito frio, nem quente. O objetivo é ter um ambiente agradável. Merecemos dormir bem à noite.
         – Coronel Onofre! Isabel tem razão. Esses aparelhos são feitos de diferentes tamanhos para atender às necessidades de ambientes maiores e menores. Tem lugares que se instalam dois para ficar bom num ambiente um pouco maior.
         – Mais viu o quanto isso vai custa?
         – Isso é uma pechincha.
         – Pechincha por que não é de seu bolso que vai sair a gaita.
         – Nem do seu, pai. Eu vou pagar como prometi. Por isso fique sossegado e deixe-me negociar com o homem aqui.
                   Após alguns minutos de propostas, somas, subtrações, contrapropostas e no fim um generoso desconto para pagamento à vista, o negócio foi fechado. A entrega ficou combinada para o final da semana. Isabel perguntou ao vendedor:
         – O senhor pode nos indicar alguém para fazer a instalação correta desses aparelhos?
         – A rede de energia comporta?
         – No escritório da Companhia de Eletricidade nos informaram que o que temos instalado dá para suportar a carga dos ar condicionados. Mas contratamos a troca da rede por uma trifásica por causa das maquinas de beneficiamento de café. Então vai ser tudo mudado.
         – Mas aí será apenas uma mudança de uma rede para a outra. Isso não atrapalha.
         – Procure esse endereço e diga que fui eu que mandei. Eles vão fazer um preço camarada e o serviço é garantido.
         Isabel fez mais um cheque e o coronel Onofre só olhava. Sentiu-se sem chão. Sempre fora sua a decisão de efetuar investimentos, fazer despesas na fazenda. Era de seu bolso que saia o talão de cheques para pagar. Hoje estava apenas assistindo uma pequena fortuna ser gasta e não tinha nem sido perguntado. De sua livre vontade, nada disso tudo teria sido gasto. Achava desnecessário. Não carecia tanta modernidade, tanto dinheiro limpo gasto, na sua visão, sem necessidade. Mas não tinha mais autoridade sobre a filha que era maior de idade, ganhara o dinheiro com seu trabalho e gastava como queria.
         Sentiu que aquela coisinha pequena crescera, virara mulher, e que mulher, ficara famosa, viajara mundo. Agora estava ali gastando o próprio dinheiro e fazendo a própria vontade. O noivo, como um boi sonso, nem ousava abrir a boca. Apenas sabia dar razão à noiva. A mulher, também dava razão à filha. Estavam todos fazendo complô conta ele, um pobre velho, sem serventia.
         Faltava pouco para o meio dia e deixaram a visita ao homem que seria contratado para instalar os aparelhos para depois do almoço. Foram alamoçar juntos no restaurante que ficava a poucas quadras do escritório. Assim José teria tempo de voltar lá a tempo de atender aos compromissos marcados para a tarde.
         Em meio à refeição os olhos de Isabel custaram a crer no que viam. Algumas mesas distante da que ocupavam viu, de perfil, o pintor que conhecera em Milão. Seu nome era Giovanni dal Piccollo. Voltou os olhos para o prato e logo depois voltou a olhar. Não se enganara. Era ele mesmo, não havia dúvida. O que estaria ele fazendo ali em Sete Lagoas? Sua estréia em Belo Horizonte estava marcada para a semana seguinte. Não lembrou se lhe havia informado seu endereço, mas isso não teria sido difícil para descobrir. Bastaria olhar os folhetos espalhados aos quatro cantos da Europa inteira. Sentiu um misto de apreensão e dúvida.
         Continuou comendo mas ficou pensativa. José Silvério não tardou a notar o olhar fixo da noiva naquela mesma direção seguidas vezes. Disfarçadamente virou para trás, como que olhando para o outro lado, mas se virara o suficiente para ver para quem ela olhava. Viu um rosto masculino que ficara gravado na mente desde a hora do jornal na noite se sábado. Suas suspeitas recrudesceram. Ele tinha vindo por causa de Isabel. Mas por que razão ela deixara de lhe falar sobre isso? Estaria tentando abafar um sentimento que julgava inconveniente e inoportuno? O noivado e seu mergulho no trabalho representavam uma fuga?
         Tanto um quanto o outro perderam o apetite a partir daquele momento. Logo depois o homem levantou ao terminar sua refeição e ter pago a conta. Dirigiu-se para o balcão da recepção e perguntou ao caixa alguma coisa. Este escutou atentamente e em seguida se inclinou, falando alguma coisa e apontando na direção da mesa em que eles estavam sentados. Este lance passou desapercebido pois por um momento haviam estado ocupados e saborear a sobremesa que acompanhava a refeição.
         O susto foi grande quando ouviram uma voz estranha ao lado da mesa, dizendo:
         – Bona cera, signiorina Isabel! Bona cera, signiora i signiores.
         Tomados de surpresa passaram-se alguns segundos até que Isabel conseguisse articular as palavras:
         – Boa tarde, Giovanni! Como vai?
         – Io voglio bene. Uma agradabile surpresa!
         – José, pai e mãe, esse é o Giovanni que conheci em Milão.
         Três mãos foram estendidas alternadamente e apertarama mão do estranho, dizendo por sua vez Boa tarde!
         – Quer sentar-se, Giovanni?
         – Gratie! Neste minuto teminé de almoçar.
         – O que está fazendo por aqui? Sabia que vai estar em Belo Horizonte semana que vem.
         – Io veni fazere una visita a mi amica Isabel.
         Aquela conversa não estava agradando a José. Sentiu o verme do ciúme corroer sua alma. O que aquele italiano velhusco tinha vindo fazer ali? Só podia estar em busca do amor de Isabel, da sua Isabel. Ele que sentasse para esperar, pois seria um páreo à altura. O outro poderia ser famoso na pintura, ter experiência com mulheres, coisa bem provável. Mas ele tinha de seu lado as leis e a juventude. Além disso os pais da noiva lhe dariam apoio certamente. Mesmo assim sentiu-se flutuar num mar de incertezas. O que fazer para perscrutar o fundo da alma da mulher que dizia amá-lo e agora recebia a visita de um estrangeiro, estranho de todos, apenas visto uma ou duas vezes na Itália meses passados.
          Giovanni não deixou de notar o ambiente pesado que se fez no lugar. Viu que nas mãos direitas dos jovens havia alianças e tentou lembrar se o hábito brasileiro era de usa-las na mão esquerda ou direita quando casados. Não pode ter certeza, mas percebeu que alguma coisa havia entre eles. Teria que disputar a preferência da bela Isabel com esse brasileiro e sentiu-se autoconfiante. Tinha contra si a idade, mas contava com seu charme, sua experiência adquirida em longos anos de viagens ao redor do mundo, expondo e visitando exposições. Participara de encontros de pintores, artistas plásticos em geral e tivera um grande número de aventuras, tanto com jovens aspirantes ao estrelado artístico, como outras já consagradas.
         No entanto em nenhum momento sua alma ficara tão enlevada como diante da desconhecida brasileira. Ela lhe arrebatara o coração ao ponto de quase cometer uma loucura na ocasião. Conseguira, a muito custo, controlar os impulsos e um evento fortuito contribuira para impedir a realização de seu intento. Agora a encontrava noiva ou casada com um patrício. Isso complicava tudo. Precisaria ter cuidado, pois não deixara de ouvir ela chamar o casal idoso de pai e mãe. Com certeza eles ficariam do lado do noivo, uma vez que estavam almoçando juntos ali no restaurante. Viera antes para a região, esperando ter tempo de estabelecer um contato mais duradouro.
         Passou um longo momento a meditar sobre qual decisão tomar. Ir embora e debitar seu entusiasmo na conta de mais uma frustração amorosa? Ou partir para a luta, disputar com o outro, bem mais jovem, o coração da linda mulher e excelente artista? Nesse momento lhe ocorreu perguntar:
         – Onde es sua casa?
         – Fica a uns trinta quilômetros daqui, Giovanni. Moramos numa fazenda de café.
         – Interessante. Com certeza és mui bonito!
         – Nós gostamos demais.
         – Io gostaria de conhecer. Posso?
         Isabel olhou para os pais interrogativamente e Maria Luisa falou:
         – O que ele quer?
         – Quer conhecer a fazenda.
         – Eu levo ele no sábado, – falou José Silvério abrindo a boca pela primeira vez.
         Isabel percebeu em suas palavras um frêmito de indignação e se deu conta do que acontecia. O seu noivo estava enciumado até a raiz do cabelo. E não deixava de ter razão, uma vez que ela também sabia quais eram as intenções do italiano. Viera tentar completar a conquista que não conseguira concluir em Milão. Ela não queria criar uma cena ali e nem magoar o noivo. Buscou freneticamente em seu intelecto por uma saída que a deixasse em boas condições tanto de um quanto de outro lado. Indispor-se com um artista já famoso poderia significar perder admiradores de sua arte. Já provocar ainda mais o ciúme já à flor da pele do noivo, lhe traria sérios problemas para o futuro.
         Sabia desde muito jovem que, confiança uma vez perdida, nunca mais se reconquista totalmente. Sentiu-se presa em uma cilada. Para o lado que se virasse via diante de seus olhos um resultado desastroso. Finalmente resolveu dizer:
         – Giovanni, meu noivo José, se propôs a leva-lo no sábado até a fazenda. Assim haverá tempo de preparar um outro aposento para acomodar vocês dois, um em cada lugar.
         – Non posso ire hoje?
         – Estamos fazendo uma pequena reforma na casa e está tudo desarrumado.
         Maria luisa sentiu um arrepio na espinha. Percebeu que ali havia coisa. De onde a filha tirara a ideia de reforma na casa? Nem sequer haviam sido citada tal hipótese. Se fosse preciso, teriam todos que confirmar as palavras dela. O próprio José percebeu a manobra de Isabel e se tranquilizou. Ela estava achando uma forma polida de se livrar do inconveniente italiano. Dissera diante da TV ao vê-lo que ele tentara uma aproximação na Itália e ela o mantivera a distância. Certamente concordava com ela não querer causar nenhum escândalo em prol de sua carreira artística.
         Diante da situação o visitante, um pouco frustrado, falou:
         – Podemos al menos dare um passeo por la citá? Me pode mostrar o que tem de bonito. Dopo io volto para Belo Horizonte.
 
Parque e lago de Sete Lagoas.

 

Cinema de Sete Lagoas.
 
  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
       Essa proposição agradou a José mais do que a possibilidade de estarem os dois, ele e o estranho na fazenda, literalmente disputando a preferência de Isabel. Era visível o olhar cobiçoso que o mesmo lançava sobre o corpo jovem dela. Um passeio, acompanhada dos pais pela cidade seria algo menos arriscado. Pediram a conta e depois José se despediu dizendo:
         – Vou ter uma audiência muito importante daqui a pouco. Do contrário iria com vocês.
         Deu um beijo carinhoso em Isabel e foi para o seu carro. Os quatro restantes embarcaram no carro dela e foram falar com o homem encarregado da instalação dos aparelhos de ar condicionado. Essa questão veio exatamente a calhar. Combinava com a realização de uma pequena reforma e posterior instalação dos aparelhos. Giovanni estava estranhando o calor e imaginou o que seria dormir uma noite sem o conforto do ar condicionado. Realmente essa vida não era para ele. Perdera mais uma partida. Porém mal sabia o quanto estava longe da verdadeira história.
         Depois de combinada o serviço para ser realizado na semana seguinte, Isabel levou o amigo para conhecer os principais lugares turísticos da cidade. Os lagos que davam o nome à cidade, a vista da Serra do Cipó ao longe, o fórum onde o noivo atuava frequentemente, a Igreja matriz, um pequeno museu, a galeria de artes onde começara sua vida artística para o público cerca de um ano atrás. Quando o sol se aproximava do horizonte, ela o deixou na portaria do hotel e se despediu.
         Numa última tentativa ele tentou leva-la para um lado e conversar mas ela não aceitou. Em desespero ele suplicou ao menos um beijo:
         – Um bacho! Solo um bacho!
         – Eu nunca lhe dei esperança, Giovanni. Você veio aqui a minha procura por sua vontade. Não lhe convidei nem disse onde morava.
         – Arrivederche Bella! Te levare nel mio cuore por tuta la vita.
         – Seremos sempre bons amigos, – disse Isabel.
         Virou-se e entrou no carro. Quando viraram a primeira esquina, ela viu o italiano acenando no meio da rua. Se expunha a ser atropelado, pois o lugar era relativamente bem movimentado. Mas ele parecia não se importar com mais nada. Por sorte nada aconteceu. Alguns carros freiaram forte e buzinaram. Ele saíu da rua de um salto e em seus olhos era visível o pranto correndo. Era a própria imagem do desespero. Os funcionários da portaria do hotel viram a cena e ficaram perplexos. Haviam visto que ele estivera falando com a filha do coronel Onofre Pires. Ela era uma pintora famosa agora e motivo de orgulho de todos os moradores do lugar.
         Em pouco tempo o homem descia com suas malas e pediu para fechar a conta. Ninguém lhe fez perguntas e nem ele falou nada. O estranho era que havia chegado pouco antes do meio dia e antes do anoitecer ia embora. Nem a cama fora desfeita. Não entenderam nada direito, apenas sabiam que ali existia amor não correspondido. Pouco depois que ele saiu em direção à rodoviária, chegou ao hotel o doutor José Silvério, figura igualmente conhecida nessas alturas. Indagou do italiano e lhe foi informado que o mesmo partira há questão de meia hora com destino determinado.
         Por medida de precaução José voltou para o seu opala e foi direto para a fazenda. Não teria paz para dormir não sabendo ao certo que a ameaça havia mesmo partido ou se acaso ainda rondava por ali. Isabel estranhou, quando, pouco tempo depois de chegarem em casa, escutou o carro de José chegar e parar no lugar habitual. Preparou-se para viver um momento de crise. Foi cautelosamente para a varanda esperar pelo noivo.
         – Que aconteceu, meu bem?
         – Você pergunta? Vim ter certeza que aquele “bepi” de uma figa foi embora. De outra forma não teria paz para dormir essa noite.
         – Fico lisonjeada com esse ciúme todo, meu bem.
         – Eu vim para lutar pelo seu amor, minha querida. Ou não tenho razão de estar preocupado?
         – Razão de preocupação você não tem, porque eu nunca dei nenhuma esperança ao Giovanni. Ele veio por iniciativa própria e deu com os burros na água. Portanto, chega de esquentar a cabeça, meu amor.
         – Ufa! Essa foi por pouco. Vi que aquele almofadinha metido a galã ia se aboletar por aqui e ficar caçando encrenca.
         – Não viu como eu desviei do assunto?

         – E a questão dos condicionadores de ar serviu perfeitamente de pretexto.


Vista aérea de Sete Lagoas – MG.

Mineiro sovina! – Capitulo XVII

Museu de Arte Moderna Belo Horizonte.

 

MAM de São Paulo.

 

 O sucesso bate à porta.
            Coronel Onofre arregalou os olhos quando soube do sucesso de vendas dos quadros de sua filha. Somente os que faziam parte do acervo usado na casa não haviam sido vendidos. Ele estava com saudades deles. O lugar ficara vazio, parecia despido da beleza que as pinturas emprestavam ao ambiente. Queria saber quando eles voltariam ao seu lugar.
            Isabel prometeu pintar outros e colocar no lugar. Depois da primeira tournê de exposições eles voltariam ao seu lugar e ali ficariam. Haveria novos sendo pintados e fariam parte de futuras exposições. O valor total das vendas alcançava uma pequena fortuna. O lucro de uma boa colheita de café não seria suficiente para cobrir tudo.
            – I eu que num pensei que isso tivesse algum valor! Oia só minha veia! Nossa fia encheu os bolso de dinheiro de uma única pancada.
            – E tem mais por ganhar. Ela foi convidada para exposições em São Paulo, Rio de Janeiro e até nos estrangeiro. Maginou!
            – Mas ocê vai cum ela, num vai?
            – Quem vai cuidá de ocê meu veio?
            – Uma empregada dá conta disso.
            – Vamo vê isso adespois. Agora é hora de dar um abraço na nossa fia e valorizar o trabaio dela.
            – Ela podia ficar aqui, pintar seus quadro. Quanto tivesse bastante, fazia outra exposição e ganhava o seu. Num é suficiente?
            – Mas é um pecado enterrar ela aqui na fazenda! Ela tem esse tal de Talento. Nem sei dereito qui é isso.
            – Talento? Sei dereito qui é não. Mas que importa?
            Nisso Isabel veio, guiando seu automóvel novo, comprador com uma pequena parcela do dinheiro ganho com a venda de seus quadros. O promotor de justiça for a suficientemente inteligente. Oferecera um bom dinheiro por dois dos mais bonitos e ficara com eles. Lhe dera pessoalmente os parabens. Desejara muito sucesso.
            – Ele falou que espera me ver brilhar nos museus da Franca, Itália, Inglaterra, Estados Unidos, e nem sei mais onde. Não vai sobrar tempo pra pintar mais os meus quadros.
            – Proveita pra mode descansa um tempo. Quando voltar torna pintar tudo novamente.
            – Meus dedos estão com cócegas por pegar num pincel e nos potes de tintas. Vestida assim cheia de luxo, parece que não sou eu. Quando estou com o avental todo sujo de tinta me sinto viva.
            – O tal José Silvério falou com ocê direito?
            – Sobre o quê pai?
            – Uai! Ele tinha pedido minha permissão pra mode namorar cocê e eu não dei licença. Agora ele me provou que é um advogado de sucesso, ganha um bom dinheiro e eu permiti.
            – E ocê num tinha falado nada disso, veio! Isso num si fais. As coisa não é mais como era de antigamente.
            – Pra mim é tudo igual. Mas eu já dei permissão e oceis pode namorá. Não quero saber de agarração nem coisa do tipo. Namoro longo também num serve.
            – Pai! O senhor está esquecendo que estamos no final do século XX! As coisas não são mais assim. Isso é coisa lá do seu tempo de juventude.
            – Agora tá feito e pronto. Ele nem reclamou. Aguentou firme e provou que é home de valor. Isso que é sujeito de fibra sô.
            – Que ele é um homem de valor nós sabemos. Veja o que ele fez com os meus quadros. Não tinha motive nenhum para fazer o que fez. Foi graças a ele que minha vida mudou. Hoje estou me tomando uma pintora famosa.
            – Eta ferro sô! Mais aqui em casa tudo continua nas mesmas. Não tem nada de fama.
            – Pode ficar sossegado. Não vamos lhe causar desgosto. O meu namorado é também um cavalheiro. Isso mesmo, um cavalheiro.
            – Quem diria! Chegou aqui, um devogadozinho meio sem sal nem açúcar e agora é Cavalheiro. Como as coisa mudaram!
            – Vou dar um passeio pela fazenda. Vai comigo pai?
            – Vai de jipe ou de cavalo?
            – Estou morrendo de vontade de motnar no meu baio. Ele também deve estar com saudades de mim.
            – Vou mandar selá os bicho. Enquanto isso ocê si apronta. Põe uma roupa de montaria.
            – Vamos junto mãe?
            – Vou cuidar das coisa pro jantar. Vai você com seu pai.
            Isabel foi para seu aposento vestir uma roupa adequada para montar, um par de botas e o pai saiu para ordenar a preparação das montarias. Quando saiu o rapaz das baias estava terminando de selar o baio de Isabel. Em minutos estavam pái e filha montados deixando os animais a passo, percorrendo os cafezais, nesse tempo verde escuros, os grãos em crescimento. Os galhos começavam a vergas sob o peso da carga. Se não houvesse contratempos teriam uma safra muito boa.
            Passaram pelo local da fonte onde ainda havia a cerca por ser refeita no lugar certo e os pés de café que haviam sido cortados. Logo seria tudo colocado nos devidos lugares. No final daquela semana se reuniriam diante do juiz para assinarem os documentos para acertar toda aquela pendenga com Jerônimo. Estava disposto a retirar a queixa contra o vizinho. Afinal nem sentia mais nada do tiro que levara e não carecia guardar ressentimentos por uma coisa que ficara no passado. Não sabia se o juiz iria concordar em aliviar o peso da justiça sobre o vizinho. Aí era uma questão que não estava em suas mãos.
            Enquanto percorriam as últimas etapas do passeio, o sol atingiu o horizonte. Sentia-se plenamente feliz. Tivera seus dias de glória durante a exposição e havia um bom tanto deles pela frente nos próximos meses. Estava com seu pai, passeando pelo cafezal, paisagem que fazia parte de sua vida e também da arte desde a infância. Haveria uma semana de descanso antes de iniciar a preparação da exposição no MAM – Museu de Arte Moderna. Depois já no mês de dezembro seria a vez do Rio de Janeiro. Estava em negociação uma excursão ao exterior. Projeto para o próximo ano quase inteiro. Haveria uma ou outra folga para vir ver a família entre as exposições nos diversos centros mundiais.
            Na quinta feira a tarde Coronel Onofre, José Silvério, Jerônimo e seu advogado encontraram-se diante do juiz para o acerto final das desavenças. Onofre havia retirado a queixa na delegacia, mas o juiz não aceitou arquivar o processo. Decidiu ali mesmo que os transgressores teriam uma pena atenuada, mas não ficariam impunes. Jerônimo vendo que o vizinho fizera o possível se conformou e aguardou a decisão final do magistrado. Talvez tivesse uma prisão domiciliar, sendo obrigado a se apresentar semanalmente ao delegado. Não poderia se ausentar da comarca. Isso seria ótimo, pois não o impediria de cuidar de sua propriedade. Queria, o quanto antes, pôr tudo em ordem.
            Foi assinado um documento final sobre a questão da divisa, os pagamentos da indenização, as demais condições fixadas judicialmente. Qualquer quebra de cláusula pactuada invalidaria o restante do acordo. Ao sairem da sala do juiz, encontraram-se com o promotor ele agradeceu a José pela informação. Adquirira dois quadros maravilhosos. Pelo visto em pouco tempo valeriam uma pequena fortuna. Sabia do convite recebido por Isabel para expor em São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades.
            – O melhor de tudo é que ela foi convidada para expor na França, Itália, Alemnha, Londres, Nova York, Tóquio e outros lugares.
            – Minha nossa! Ficou famosa da noite para o dia. Parabens coronel pela filha talentosa.
            – Obrigado, doutor.
            – O senhorr deve estar cheio de orgulho. Não é qualquer um que pode dizer que sua filha é uma artista famosa. Ainda mais na pintura. Os verdadeiros talentos são um tanto raros.
            – O doutor aqui que vai ficar de cabeça quente!
            – Mas por quê, doutor José?
            – Ele é agora o namorado da minha fia.
            – Entendi. Vai chover de gala à volta dela. Se cuida amigo. Falando nisso, podemos jantar amanhã à noite?
            – Podemos, doutor.
            – Combinado. Nos encontramos na esquina da praça e vamos naquele restaurante em frente.
            – Às oito?
            – Está ótimo.
            Despediram-se e retornaram ao escritório. Ali Isabel estava a espera. Fora falar com o agente e na volta sentara para esperar pelo pai. Ela viera dirigindo em seu automóvel e voltariam para casa. Quando os dois chegaram, ela perguntou:
            – Tudo em ordem pai?
            – Tudo sim, fia. Está tudo resolvido. Vamo vive em paz com as vizinhança toda. O único que tava dando trabaio tomou jeito agora.
            – Que bom. Como está José?
            – Muito bem. Vocês poderiam ficar para jantar comigo. Fui convidado pelo promotor e vai ser hoje à noite.
            – Nós vamos para casa. A mãe vai ficar preocupada. Depois vocês devem ter seus assuntos a conversarem, principalmente depois daquele caso famoso.
            – Não vou insistitir. Teremos ocasião de nos encontrar em outros dias. Domingo vou almoçar em sua casa.
            – Tamo combinado, José. Nóis vamo ino.
            Deram adeus e em minutos estavam percorrendo sob um sol ainda forte a distância que os separava da fazenda. Ainda com o sol alto chegaram em casa e encotraram tudo na mais perfeita paz. Dona Maria Luisa apareceu na varanda e ficou esperando os dois desembarcarem e virem sentar-se à sombra. O ar ainda estava morno do sol da tarde. Trouxe-lhes um refresco que eles beberam com gosto e agradeceram. Depois de um tempo sob o sol forte, era coisa excelente sentar à sombra e beber um refresco bem geladinho. Bendita invenção de alguém a tal geladeira. Primeiro haviam tido uma à querosene, depois a gás e por fim, uma elétrica depois de a energia chegar à propriedade.
            O jantar foi cheio de conversar interessantes. José ficou sabendo de várias fofocas que corriam nos bastidores do forum. Nada grave, apenas pequenos mexericos, uma ou outra infidelidade conjugal de alguém e assim por diante. Habitualmente discrete, José ouviu tudo, sem intenção de fazer uso inadequado das informações que estava recebendo assim de maneira tão fácil. Estava sendo alvo de uma consideração elevada e era mister mostrare-se digno de tal distinção.
            Na hora de pagar a conta José fez menção de pagar a sua parte e o promotor não permitiu.
            – Você colega, é meu convidado hoje. Em outra ocasião a situação é diferente. Hoje é por minha conta.
            – Não haveria problema algum. O simples prazer de sua comapania vale o preço do jantar.
            – Guarde seu dinheiro, amigo.
            – Seja feita sua vontade.
            A conta foi paga e os dois caminharam algumas quadras até o local em que haviam deixado os automóveis. Era uma área bem movimentada e no momento não tinham encontrado vaga para estacionar. Caminharam e continuaram a conversa de antes. Quem primeiro alcançou seu carro foi José. Despediram-se e ele embarcou, ligou o motor e depois partiu. O promotor andou mais um pouco e fez o mesmo.
            Domingo perto da hora do almoço José chegou à fazenda e foi recebido por Isabel. Ele lhe deu um beijo carinhoso na face e entraram em casa abraçados. Assim chegaram diante da mãe e do pai sentados na sala naquele momento.
            – Mas formam um belo par! Não acha meu veio?
            – É sim. Uai! É minha fia. Tinha que dar nisso!
            – Mas quanta vaidade, pai.
            – Bom dia coronel. Bom dia dona Maria Luisa.
            – Dia, doutor.
            – Bom dia, – disse dona Maria Luisa.
            – Sente-se, meu bem. Quer um café ou um refresco?
            – Acho que um refresco vai bem. Está bem quente.
            – Nóis tava vendo a corrida de formula 1. As veis eu gosto de assistir.
            – Então o senhor é chegado em corrida de carros! Eu gosto, mas não sou muito viciado em assistir.
            – Tamem não. Mais as veis eu assisto quando dá no jeito.
            – Terminou?
            – Indagorinha memo. Acabaram de derramar o champagne.
            – Uma pena! Poderiam distribuir para o povo tomar um gole.
            – Mais isso faz parte do negócio. Dá o charme.
            – Isso lá é verdade. Há tanto tempo que isso acontece que ninguém ousaria questionar.
            – Tanta coisa que se perde por esse mundão veio que um litro ou dois de champagne não vai fazer diferença.
            – Me passou pela cabeça agora. Imaginou se fosse café quente?
            – Vixi Nossa Sinhora! Iam se queimar tudo!
            – Aí ninguém iria querer deramar uma gota.
            – Nem iria fazer toda aquela pressão na garrafa.
            – Isso mesmo.
            Maria Luisa foi pra cozinha supervisionar a cozinheira na preparação do almoço. Onofre convidou José e a filha a irem para a varanda. Ali o ar era mais fresco. No verão ele passava maior parte do dia ali fora. Sentaram-se em confortáveis cadeiras de vime e realmente se sentiram bem melhor ali fora. Tomaram mais um copo de refresco enquanto esperavam o almoço. Logo mais a dona da casa chegou até a porta e falou:
            – Vamos para a mesa que a comida tá servida.
            – Já vamo, veia.
            – Dia desses vou te ensiná quem é veia!
            – Modo carinhoso di tratá ocê, muié.
            – Tá bom, veio.
            – Ela chama eu de veio, eu chamo ela de veia. Tamo quite, não tamo?
            – Esses dois não tomam jeito. É essa eterna implicância um com o outro.
            – Mas eles se amam, pelo que sei.
            – Andem pra mesa de uma veis.
            Levantaram-se e foram para a sala de refeições. O almoço estava sobre a mesa esperando pelos comensais. Almoçaram e depois ficaram conversando na varanda. À tardinha, antes da volta para a cidade, os namorados foram até a pequena vila próxima para tomarem um sorvete. Voltaram já perto do escurecer. José despediu-se e voltou para cidade. Tinha compromissos cedo e se ficasse por ali para voltar na manhã, era provável que se atrasaria. Voltou e no meio da semana era hora de Isabel viajar para Belo Horizonte. Naquele final de semana seria inaugurada a exposição na capital. Os quadros haviam sido embalados cuidadosamente e despachados por trem, com um bom seguro contra qualquer eventualidade. Eram agora um produto precioso, além de perecível.
            O agente estava na capital desde a semana anterior tratando dos detalhes da instalação. Isabel chegou quinta feira à tarde e se hospedou no hotel reservado para ela. No sábado havia uma aglomeração de fotógrafos, jornalistas, cinegrafistas, todos sedentos de imagens e uma palavra da mais nova celebridade do mundo da pintura. Isabel, acompanhada de José, enfrentou com galhardia a maratona. Os flashes espoucavam de todos os lados, microfones eram colocados diante de seus lábios em busca do registro de alguma palavra dita.
            Um esquema de segurança foi acionado para proteger a artista. Uma multidão de populares ensandecida queria entrar no recindo. Na primeira noite seria apenas para os convidados de honra. Os agentes de segurança precisaram usar toda sua força para conter a massa. Após a abertura os convidados entraram e as portas foram fechadas, ficando um cinturão de segurança do lado de fora. Ouviam-se de todo lado exclamações de admiração diante da perfeição dos quadros. Os lamentos foram constantes diante da informação de que estavam todos vendidos. Seria preciso esperar a artista produzir mais obras para ser possível adquirir alguma coisa. Ou então oferecer um valor mais alto que o pago pelos primeiros compradores. Talvez houvesse quem aceitasse vender.
            Foram diversas as ofertas de somas elevadas por algumas obras. O comprador inicial seria informado da oferta e se aceitasse deveria se entender com o pretendente. Dessa vez os ingressos tinham um valor condizente com a fama já conquistada. O número posto à venda se esgotava rapidamente tão logo eram abertas as bilheterias. A semana chegou ao final e ficou uma porção de gente sem ter chance de ver as obras. Tiveram que se contentar com um filme feito pelos donos da galeria e o entregaram ao canal de TV para exibir num programa cultural.
            Ao final da semana o valor arrecadado em ingressos era bastante alto. As despesas estavam cobertas e sobrara um bom lucro. No começo de dezembro, dali a duas semanas, seria aberta a exposição no MAM em São Paulo. Foram dias de atividade quase ininterrupta. Isabel chegou em casa e foi para o atelier. Queria pintar alguma coisa para levar junto e poder oferecer a alguém que quisesse muito comprar. Antes de viajarem para a nova exposição, ficaram sabendo que um dos primeiros compradores vender aos seus por um preço igual ao triplo do que havia pago a um industrial de Belo Horizonte. Ele teria que concordar com o transporte dos mesmos para São Paulo e depois Rio de Janeiro.
            Isabel conseguiu pintar em tempo recorde dois belíssimos quadros. Parecia que a energia represada em suas mãos e seu íntimo explodira em criatividade. Além dos dois, levou um terceiro iniciado para terminar durante a exposição. Ficaria em um canto pintando, permitindo aos visitantes verem ela em ação. Ao término o quadro seria vendido a quem oferecesse o lance mais alto. Repetiu-se o tumulto na portaria do Museu na noite da inauguração da exposição. Os dois novos trabalhos não ficaram sem dono por mais de algumas horas. Houve diversas ofertas pore eles e uma pequena multidão ficava assistindo a artista pintar.
            Fotografias eram tiradas o tempo todo, chegando a perturbar a serenidade da artista. Aos poucos se habituou e continuous seu trabalho. Em alguns momentos ela fazia um pequeno interval e vinha conversar. Quem tinha a sorte de trocar algumas palavras com ela, ficava realizado. Ganhava um autógrafdo no bilhete do ingresso, em caderninhos de autógrafos e um pedaço de papel qualquer. Ao final, uma pilha de envelopes se fez ao lado do quadro que ainda não estava pronto. Os pretendentes faziam suas ofertas, querendo garantir o direito de serem os donos da obra que todos estavam assistindo ser pintada.
            Ver um pintor em ação durante a exposição era algo, se não inédito, porém bastante incomum. Dessa forma a fama da pintora se espalhou por todo país e também pelos diferentes cantos do mundo. Jornalistas vieram do exterior para ver e mandavam por telex suas fotografias e textos para publicar nos jornais e revistas. Todos queriam saber quando os trabalhos seriam levados para Europa, Estados Unidos. Já estava definida a viagem. Começariam em fevereiro pelos Estados Unidos, depois iriam para a França, Londres, Milão, Roma, Bohn e finalmente Tóquio. Com isso transcorreria quase o ano inteiro. Cada evento teria a duração de duas semanas e mesmo três.
            Isabel viajou sózinha, prometendo vir passar alguns dias no Brasil depois das exposições de Paris e Londres. Antes de ir para o Japão também haveria tempo de fazer uma pequena visita. Retornaria definitivamente quando já fosse novembro. Levou consigo seus apetrechos de trabalho para aproveitar a grande variedade de imagens que teria diante dos olhos e assim encontrar inspiração para pintar mais alguma coisa. Dessa forma se manteria ocupada. O que passou a ser integrante dos eventos era sua demostração de seu trabalho durante a pintura. Em todos os lugares havia quem quisesse ver o quadro surgindo aos poucos das sussecivas pinceladas.
            O ano passou, somando um evento ao outro. Convites para entrevistas, programas de televisão, palestras em escolas de artes e museus foram uma constante. Em todas as ocasiões sua conta bancária saia um pouco mais gorda. Ela nem mais se importava com os valores. Era tanto dinheiro que ela nem saberia dizer ao certo quanto foi. Dessa forma chegou novembro e finalmente os quadros, inclusive os pintados no decurso dos eventos, estavam com ela. Seriam agora enviados aos respectivos adquirentes em segurança.
            Os pertencentes à casa, após mais de um ano for a de seu lugar, voltaram a ocupar suas posições. A casa voltou a ser o que era. Quem não era mais a mesma era Isabel. Vivera tantas emoções naquele ano que não saberia dizer o que for a mais intense. Abraçou os pais ao chegar e não queria desgrudar deles. José recebera sua cota ao desembarcar do avião em Belo Horizonte. Ele for a recebê-la no aeroporto e a levara de carro para Sete Lagoas e depois para a casa dos pais. A primeira coisa que José providenciou foi um par de alianças. Queria oficializar a relação deles, antes que ela iniciasse nova série de viagens.
            – Por enquanto quero ficar bem quieta aqui no meu canto. Quero pintar e pintar até não querer mais.
            – Se arrependimento matasse eu estaria morto.
            – Por quê, meu bem?
            – Eu que fiz a besteira de colocar você nessa vida de gente famosa. Levei a pior. Ficou famosa e eu fico aqui esperando você voltar.
            – Não vai me dizer que está com ciumes!
            – Um pouco, mas a saudade é maior.
            – Dá logo aqui essas alianças. Vamos ficar noivos para você não começar a ter um chilique.
            – Também não é para tanto. Mas não é fácil ficar aqui lidando com bandido, assassin e ladrão, enquanto você viaja pelo mundo.
            Isabel chegou perto e recebeu sua aliança. Depois colocou a outra na mão dele. Um beijo caloroso na boca selou aquele momento. Onofre pigarreou, avisando que ali não era momento para demonstrações desse tipo.
            – Ih pai! Precisa ver o que eu vi na Europa, no Japão e por esse mundão de Deus.
            – Nós tamo no Brasil, em Minas Gerais.

 

            Isso vai dar briga. Vamos sentar um pouco na varanda. Hoje eu não volto para o escritório. Os processos que aguardem para amanhã e depois. 

Museu de Belo Horizonte.
Imagem do museu do Louvre.

Mineiro sovina! – Capítulo XVI

 

16. A exposição acontece.
           
            O tempo passara célere e o dia da inauguração da exposição de Isabel na galeria de arte da cidade estava próxima. Os últimos dias foram de uma azáfama intensa. Havia uma porção de coisas lembradas na última hora e requeriam a atenção do responsável pelo evento. Os álbuns fotográficos dos trabalhos haviam sido enviados para a capital Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro e outros centros culturais de relevância. Diversos especialistas haviam confirmado presença na dia da inauguração ou durante os dias em que exposição ficaria aberta.
            José Silvério, dois dias antes da inauguração obteve uma confissão completa e incontestável, resultando na condenação inapelável do réu. Isso foi motivo de celebração no escritório. A equipe em peso veio abraçar o mais jovem advogado pela sua indiscutível habilidade na condução do interrogatório do acusado. Suas anotações foram imprescindíveis para alcançar o objetivo que tinha em mente. O julgamento em questão virou peça de estudos e passou a integrar o rol dos processos famosos. Uma artimanha, um ardil com as palavras certas levara o acusado a se delatar, tornando, a partir daí, infrutíferas as tentativas dos advogados de defesa em sequer amenizar a pena.
            A sentença foi finalmente proferida já altas horas da noite. Toda equipe de acusação, bem como defesa e jurados estava exausta. Foi com um suspiro que todos ouviram o juiz pronunciar os termos condenatórios e por fim encerrar a sessão. O réu, agora condenado, foi conduzido à carceragem, de onde seria recambiado para a penitenciária em Belo Horizonte. O promotor junto ao qual José Silvério atuara na acusação, apertou calorosamente a mão do assistente. Em seguida falou:
            – Doutor! Lhe devo um enorme favor.
            – Por quê o senhor me deve algo?
            – Se não fosse a sua habilidade com as palavras, estaríamos agora vendo o passarinho sair voando livre e desimpedido. Nunca mais o pegaríamos. Assim ele vai ficar uma boa temporada engaoiolado.
            – Nada não, doutor. Apenas usei as palavras de maneira correta. O resto ficou por conta dele.
            – Essa é a questão exatamente. A forma como usou as palavras, como colocou a pergunta, induziram ele em contradição. Quando viu o que tinha falado, não havia mais como retornar. Caira na armadilha e foi só apertar o laço.
            – Foi para isso que estudei tanto tempo, me preparei para o exame da OAB. Na última semana passei horas me debruçando sobre os autos do processo até encontrar o ponto que procurava. Preparei as minhas questões, prevendo possíveis respostas evasivas e joguei a isca. O peixe caiu direitinho.
            – Será meu convidade para jantar no melhor restaurante num dia desses. Eu ligo para combinarmos.
            – Eu aproveito para lhe convidar a visitar a exposição de pintura de uma amiga muito querida. A inauguração é sábado na galeria e vai até o outro domingo.
            – Mas ela já tem alguma fama, ou é iniciante?
            – Primeira exposição. Mas tem mais de cem quadros pintados desde cedo. Enquanto fazia o curso de pintura pintou os primeiros trabalhos e evoluiu gradativamente.
            – Gente da terra?
            – Filha de um cafeeicultor do município.
            – E o pai no mínimo foi seu cliente! Estou certo?
            – Foi sim e eu trouxe uns quadros para o especialista ver. O resultado foi que o homem ficou encantado. Na galeria vai ser possível ver todo o crescimento artística da moça. Vale à pena conferir.
            – Sou apreciador e até entendo um pouco do assunto. Vou ver sim e, se possível, adquirir um ou dois para minha coleção particular. Podem vir a valer um bom dinheiro se ela se tornar mínimamente famosa.
            – Fique à vontade. Ela vai adorar saber que há quem aprecie as suas pinturas.
            – Nos veremos na exposição e semana que vem lhe ligo para marcarmos o jantar.
            – Será um prazer doutor.
            – Somos colegas, doutor.
            – Boa noite. Vou descansar. Amanhã ainda tenho umas audiências pela manhã e à tarde para variar.
            – Vá com Deus, amigo.
            José Silvério foi para a porta de saída, levando em sua valise os papéis que levara para usar no julgamento. Guardaria aquele material como relíquia. Tivera uma atuação brilhante mesmo. Sentia que esse momento ficaria marcado em sua vida profissional. Ao chegar em casa a mãe estava preocupada com sua demora. Habitualmente ele chegava mais cedo ou então lhe ligava avisando que iria se atrasar. Estando no recinto do juri não havia possibilidade de sair nos momentos mais críticos da sessão. Somente ao terminar pudera sair. Nem se dera mais ao trabalho de procurar um telefone público. Em minutos estaria em casa.
            Precisou esclarecer o motive de tudo. Ao saber de tudo a mãe ficou exultante. O seu filho estava atingindo o sucesso que procurara com tanta dedicação e empenho. Em pouco tempo seria olhado como advogado de gabarito. Todos os sacrifícios que ela e o pai haviam feito durante os longos anos de estudos na capital, estariam sendo recompensados. Serviu-lhe o jantar e ele sentou-se para comer. A mãe era toda solicitude e desvelo. Chegava ao exagero. Sua irmã se estivesse ali ficaria enciumada. Voltaria em pouco tempo do cinema onde for a com o namorado.
            Logo o pai veio da sala de televisão e conversaram, ficando também ele satisfeitíssimo com o desempenho do filho.
            – Pelo jeito você está chegando no topo, meu filho.
            – Ninguém no escritório quis pegar essa causa de hoje. Julgavam tempo perdido conseguir a condenação do acusado. Agora que está superado, o problema parece fácil. Na hora não foi brincadeira. Bastaria uma palavra errada, uma entonação titubeante, e ele me escaparia.
            – Mas então estamos diante de um advogado de alto gabarito. Isso merece uma comemoração. Traz aí um vinho.
            – Que é isso pai? Não precisa. Se eu beber agora, amanhã não levanto cedo.
            – E uma taça de vinho vai fazer o que? Vai te fazer dormir melhor.
            Em instantes uma garrafa de bom vinho teve a rolha retirada e as taças foram servidas. Levantaram um brinde:
            – Ao mais novo e famoso advogado de Sete Lagoas!
            – E aos melhores pais do mundo!   
            Os cristais tilintaram e todos beberam um gole do vinho. José continou comendo enquanto os pais ficaram ali, dando sinais de sentirem um orgulho enorme pelo desempenho dele. Quando estava terminando de jantar, chegou a irmã. Ao ver o vinho aberto quis saber o motivo da comemoração.
            – Seu irmão hoje subiu mais um degrau na fama entre os advogados da cidade. Conseguiu a condenação daquele assassin que todos diziam que seria absolvido. Foi a habilidade dele que fez a diferença.
            – Deixe-me abraçar esse homem famoso. Parabéns mano. Eu sabia que iria ficar famoso logo.
            – Você também vai chegar lá.
            – José, esse é Luiz Carlos, meu namorado.
            – Olá cunhado! Tudo bem com você?
            – Tudo ótimo. Parabéns pelo sucesso.
            – Obrigado, Luiz Carlos. Precisamos nos conhecer melhor.
            – Vocês vão ter tempo para isso. Ele vai estar por aqui frequentemente.
            – Gente! Estou exausto. O dia foi longo e cansativo. Vou tomar um banho e dormir. Tenho que levantar cedo amanhã.
            – Durma bem, José. Depois de um gole de vinho e bom janta, vai dormir igual um bebê.
            – Estou precisando. Boa noite a vocês. Sua bênção pai e mãe.
            – Deus lhe abençoe, filho, – disseram os pais em uníssono.
            – Boa noite mano. Durma com os anjos.
            Foi para seu quarto e alguns minutos depois terminava de tomar uma ducha refrescante. Vestiu o pijama, conferiu sua agenda do dia seguinte e deitou par adormir. Elevou o pensamento a Deus pedindo que a exposição de Isabel fosse um sucesso, assim como sua vida pessoal estava virando um sucesso brilhante. Bastaria um empurrão inicial para fazer decolar a carreira da mulher que ele amava em silêncio. Mesmo assim fazia tudo que fosse possível para que ela alcançasse um lugar no mundo artístico.
            As audiências da sexta-feira eram preparatórias de julgamentos posteriors. Em ambos os casos ele atuaria como advogado de defesa. O promotor que no dia anterior estava ao seu lado, estaria na acusação e tentariam medir suas forças intelectuais. Esforçou-se por conseguir o julgamento mais justo possível do seu cliente. Não concordaria em provar inocência de réu confesso, pois isso iria contra as suas convições. Faria o possível para que no dia do juri o acusado recebesse a melhor defesa possível, dentro dos termos da lei. As duas sessões não foram demasiadamente cansativas e ainda cedo estava em casa. De seu quarto ligou para a fazenda, pedindo para falar com Isabel.
             Foi informado de que ela estava na cidade, para cuidar dos últimos detalhes da exposição. Coronel Onofre e a mãe viriam no dia seguinte para a inauguração. Pediu o hotel onde estava hospedada e depois ligou para lá. Em instantes ouviu a voz querida dizendo:
            – Alo!
            – Isabel!
            – Sim, sou eu.
            – José Silvério. Está livre daqui a pouco?
            – Tenho um compromisso, mas é rápido.
            – Aceita jantar comigo?
            – Onde?
            – No lugar que você quiser. Preciso contar umas coisas e desejar sucesso amanhã.
            – Daqui a uma hora estarei esperando. Pode ser?
            – Passo aí lhe pegar. Vamos comer uma comidinha muito fina.
            – Vou ir agora, para não me atrasar.
            – Até depois então.
            Os telefones foram desligados e José cuidou de seu banho, caprichou na barba, dando um último retoque. Usou um perfume suave que ele descobrira ser do agrado de Isabel. Vestiu-se com esmero, sem ostentação. Avisou a mãe de que iria jantar fora. Ela quis saber com quem e ele desconversou. Ficou imaginando quem seria a companhia de seu filho. Será que ele estava sendo tão inteligente na escolha da mulher como se mostrava nos tribunais? Decidiu deixar isso nas mãos de Deus. Esperaria o tempo passar e veria no que isso resultaria. O filho era adulto, profissional e saberia tomar conta de sua vida. Não era mais o seu bebê, como muitas vezes se via no dia a dia.
            Assistiu um pouco de televisão, vendo um jornal local e depois embarcou em seu automóvel, indo buscar Isabel. Ela acabava de chegar do compromisso de última hora que tivera que dar atendimento. Era na verdade uma entrevista a uma equipe de jornalismo da televisão e radio, sobre os seus quadros que seriam expostos na galeria. Mal teve tempo de ir até o seu apartamento pegar uma blusa leve para se proteger do ar mais frio da noite. Desceu e falou:
            – Podemos ir, doutor.
            – Não me chame de doutor, Isabel. Para você sou José.
            – Então José, podemos ir.
            – Assim está melhor. Apenas José.
            Embarcaram no automóvel e foram a um dos restaurantes mais refinados da praça. Ele usare o telefone do quarto para fazer uma reserva de última hora. Graças a Deus conseguira. Chegaram, ele entregou as chaves a um manobrista e conduziu Isabel para a entrada do estabelecimento. Ela ficou maravilhada com o luxo da instalação. Nunca estivera em um restaurante desse nível. Mesmo sendo filha de quem era. O pai não ligava para isso.
            – Aqui você vai conhecer um pouco da alta sociedade de Sete Lagoas, Isabel.
            – Que chique! Quanto luxo! Dá até medo de entrar e sujar.
            – Nem se preocupe. Tem gente para limpar tudo depois. Para isso a gente paga. Tudo isso está incluido no preço dos pratos.
            – Mas que dá pena, isso dá.
            – Vamos ver nossa mesa. Está reservada. Deve ser aquela ali.
            Nisso um garçom se aproximou e perguntou se poderia ajudar.
            – Reservei uma mesa para duas pessoas.
            – Seu nome?
            – José Silvério.
            – Ah! O doutor José Silvério! Sua fama já chegou por aqui. Seja bem vindo a nosso estabelecimento. Por aqui.
            Levou o casal até a mesa cuidadosamente posta à sua espera. Quando ligara o gerente imediatamente ligara o nome ao julgamento do dia anterior e eixigira dos subalternos o máximo de esmero no serviço.
            – Sentem-se por favor! – disse o garçom puxando as cadeiras.
            – Obrigada! – falou Isabel sentando.
            Na mesma hora surgiu nas mãos do garçom o cardápio e colocou um exemplar nas mãos de cada um deles. Ao mesmo tempo perguntou:
            – Aceitam a entrada da casa para hoje?
            – Podemos testar para ver se faz jus à fama, não acha Isabel?
            – Por mim pode ser.
            – Pode trazer. Enquanto isso examinamos o cardápio.
            – Com sua licença, – e o servente se retirou em busca das entradas.
            – Está ficando famos, doutor, alias José.
            – Consequências do trabalho. Não tem como não ficar conhecido. Prefiro ser conhecido e famoso por fazer coisas boas do que por outros motivos.
            – Não resta dúvida. Eu estou nervosa até o último. Não vejo a hora de terminar a inauguração. Nos outros dias tudo vira rotina, mas no primeiro é um sufoco.
            – Por isso eu lhe trouxe aqui hoje. Precisa pensar em coisas diferentes e bonitas. Boa comida e bebida ajuda a deixare a cabeça em melhores condições.
            – Tomara que isso me ajude. Aquela entrevista foi de fazer suar. Me senti flutuando diante das cameras, microfones e tudo isso.
            – Depois você acostuma e vira rotina também.
            Nisso o garçom chegou trazendo as entradas. Eles haviam escolhido para prato principal salmão, acompanhado de aipim, saladas e tempero leve. Não queriam complicações digestivas para o dia de sábado. Enquanto eles comiam os petiscos da entrada e degustavam uma tacinha de aperitivo à base de maracuja, o garçom providenciava os pratos. José Silvério, aproveitou para perguntar:
            – Isabel! Se seu pai concordar, você aceita ser minha namorada?
            – Assim de repente? Não posso pensar um pouco?
            – Eu pedi a seu pain a primeira visita, mas cometi o erro de levar cigarros e fósforos. Ele aceitou um cigarro. Eu gastei dois palitos de fósforos para acender o dele e outro para mim.
            – Já sei o que aconteceu. Ele lhe chamou de perdulário. Onde já se viu gastar dois palitos de fósforos se havia fogo na lareira.
            – Mas ele contou isso?
            – Não. Eu conheço a figura. Ele é sovina como todo mineiro que se preze.
            – Bem, se ele tivesse lhe contado eu iria ficar envergonhado. Mas acho que já posso provar a ele que não vou lhe fazer passar fome depois de casados.
            – Isso só poderia vir de papai. Ele logo pensa em penúria, passar fome e essas coisas. Mas esse é assim e não muda nunca.
            – Eu agora tenho uma posição ótima no escritório, estou ganhando notoriedade profissional. Ganho bem e então vou poder dar a você a vida que merece.
            – Então esses meses todos você está esperando a hora para falar comigo?
            – E eu iria querer afrontar o coronel?
            – Não lhe ocorreu que eu poderia pensar diferente?
            – Espero não tê-la ofendido.
            – Ofender não, mas poderia ter falado comigo antes disso. Eu também fiquei balançada quando lhe vi a primeira vez ali no escritório. Mas pensei que um advogado da cidade não iria querer saber de uma moça da fazenda.
            – Ah! Sim senhorita. Uma moça da fazenda que pinta quadros lindíssimos e logo vai alcançar fama no mundo das artes.
            – Se conseguir vender meus quadros, ganhar alguma coisa com eles já me sinto contente. Nem almejo fama.
            – Escreva o que estou falando. Vou querer garantir minha vez nessa fila antes de os gaviões das capitais colocarem os olhos na sua beleza.
            Os pratos pedidos chegaram e a conversa foi interrompida. O mais importante agora era saborear o sabor do excelente peixe, com o aipim, um crème de legumes, saladas de tomates e alfaces. Para completar pediram um vinho branco de boa procedência. A refeição demorou quase duas horas, desde a hora da chegada até o final. Às 22 h e 15 minutos eles estavam saindo. O vinho que tinham bebido não era dos mais fortes em teor alcoólico e seu efeito já estava terminando. José levou Isabel até a portaria do hotel e antes de se despedir repetiu a pergunta:
            – Você aceita?
            – Aceito, José. Desculpe. Nossa conversa lá no restaurante me fez esquecer de dar a resposta.
            – Sempre é tempo, querida. Posso lhe dar um beijo de boa noite?
            – Aqui em público?
            – Apenas no rosto, é claro.
            Ela aproximou o rosto e ele depositou um beijo suave nas us face. Depois levou a mão aos lábios, beijando-os também.
            – Boa noite e durma bem. Quero você deslumbrante amanhã.
            – Vou fazer o possível.
            Chegou a hora da inauguração. As horas do sábado correram depressa e ao se darem conta era hora de estar a postos para a cerimônia. Uma pequena multidão de fotógrafos, cinegrafistas e reporteres estavam presentes. A fita inaugural foi cortada por Isabel, auxiliada pelos pais. Em seguida os convidados de honra, autoridades, pintores, escultores e outros expoentes do mundo artístico puderam apreciar em primeira mão os quadros. Estavam dispostos traçando a trajetória da artista e a cada passo os visitantes ficavam maravilhados com a clara evolução da técnica. A cada obra o traço ficava mais definido, as cores se fundiam e destacavam ao mesmo tempo, formando um conjunto de uma harmonia incrível. Um coquetel foi oferecido aos convidados e depois a galeria foi fechada. Seria aberta no dia seguinte às 14 horas e ficaria aberta até às 22horas.
            Seria a vez dos visitantes com ingressor, vendidos a preços pouco mais que simbólicos. Dariam, se houvesse um afluxo razoável, para cobrir os custos gerais do evento. Os dias seguintes foram uma verdadeira roda-viva. Os quadros começaram a ter propostas de compra que foram recebidas. No final seriam abertos os envelopes e levaria a obra quem oferecesse o valor mais alto. Desde já ficava reservado à artista o direito de levar os trabalhos, mesmo os vendidos, para a exposição que seria organizada no mes de dezembro em Belo Horizonte. Ao chegar a hora de encerrar, havia uma bela pilha de envelopes com propostas pelos diversos trabalhos.
            Incluindo o último, pintado especialmente para a exposição, todos eles tinham propostas de compra. Fariam a abertura na segunda feira. Depois seria feita a comunicação aos vencedores. Uma porção de escolas levaram os alunos para ver a exposição, sendo que foi feito um acordo para permitir o acesso aos alunos dos estabelecimentos mais carentes. A entrada era franca. O afluxo de visitantes era constante durante todas as horas de abertura da galeria. Assim, o valor arrecadado na venda dos ingressos cobriu folgadamente as despesas e os quadros foram arrematados em sua totalidade por valores até cinco vezes superiors ao mínimo que haviam estabelecido.
            O organizador ficou radiante. Assim ganharia uma bela comissão e teria em mãos uma jóia rara. Levaria seus trabalhos para Belo Horizonte e depois para São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e outras capitas. Talvez até para o exterior, se fosse possível reunir todas ou bom número dos trabalhos. Entre os compradores havia inclusive representantes do exterior. Um colecionador francês havia adquiriro dez dos mais bonitos e queria que o acervo todo fosse levado para França no momento oportuno.

 

            Os adquirentes ficaram muito satisfeitos e concordaram em ceder temporáriamente as obras para integrar exposições em diversos outros centros artísticos. Isso significaria uma grande valorização para o seu investimento. 

Mineiro sovina! – Capítulo XV

Mapa de Minas Gerais.

 

Rodoviária de Sete Lagoas.

 

Laga no perímetro urbano em Sete Lagoas.

 

O encontro de 
 
conciliação.
        Tendo recebido de coronel Onofre o sinal verde para marcar o encontro com Jerônimo, José Silvério telefonou para o colega Estevão, naquela tarde mesmo. Pela manhã tivera um compromisso com uma audiência no forum e não sobrara tempo. Pediu a Roberta para fazer a ligação. Em alguns minutos o aparelho tocou. Ao terceiro toque ele levantou o fone:
            – Fala Roberta.
            – O doutor Estevão está na linha.
            – Deixa comigo agora.
            A conexão foi completada e ouviu-se do outro lado da linha a voz típica do doutor Estevão, um pouco anasalada:
            – Doutor José Silvério?
            – Sim, colega. Sou eu mesmo.
            – Tem boas novas para me dar?
            – Meu cliente concordou em conversar com o seu, mas tem que ser aqui na minha sala. Pode ser?
            – Eu até preferiria um lugar neutro, mas dadas as circunstâncias, não se pode fazer exigências. Aceito. Pode marcar data.
            – Para nós pode ser qualquer dia, menos hoje e amanhã. Que tal semana que vem, na segunda de manhã?
            – Deixe-me ver minha agenda.
            Tapou o bocal do fone e falou para sua secretária verificar a disponibilidade do horário da próxima segunda feira pela manhã. Ela verificou e informou não haver compromisso nesse horário.
            – Pode ser colega. Não tenho compromisso nesse horário. Dessa maneira dá tempo de avisar tranquilamente o meu cliente para evitar contratempos.
            – Combinado, colega. Lhes esperamos aqui na próxima segunda às 10 horas.
            – Eu havia esquecido. O seu Jerônimo pediu para sondar se é possível aliviar a queixa relative ao atentado. Se ele for condenado e ficar preso vai ficar difícil de cumprir os demais compromissos.
            – Quanto a isso não posso falar nada por ora. Vou ter que sondar o coronel. Ele não tem falado mais nada a respeito, já está praticamente recuperado do tiro. Só não posso responder por ele agora.
            – Se fosse possível retirar a queixa ou algo assim, seria mais fácil. O delegado e o juiz estão dispostos a levar ele julgamento. Se tiver uma atenuante, pode ser que consiga o regime de prisão domiciliar. Mesmo que tenha que se apresentar todas as semanas ao juiz ou delegado. Assim ele poderá administrar a propriedade e sair do atoleiro em que se meteu.
            – Um atoleiro sério. Se ele não tivesse inventado a história do atentado, acabava tudo facil, se houver um acordo.
            – Nem adianta ficar conjuturando agora. O que está feito, está feito e pronto. O remédio é minimizer os efeitos.
            – Se o coronel concordar, não tenho nada a opor. A questão é essa. Pelo que conheço do velho ele é um bocado sistemático e quando embirra com uma coisa, custa a mudar de ideia.
            – Vamos ver se conseguimos amaciar ele com um bom acordo. Talvez consigamos selar a paz entre eles e acabar com essa pinimba. Aliás toda ela culpa do meu cliente. O coronel não tem culpa nenhuma. O próprio Jerônimo reconheceu na minha frente.
            – Haveremos de encontrar uma saída para a questão. Depois eles precisam aprender a conviver como bons vizinhos.
            – Assim espero, colega. Dá licença agora. Está chegando um cliente nesse momento. Outra hora nos falamos.
            – Até logo, doutor Estevão.
            Desligaram os aparelhos aoa mesmo tempo. Coincidentemente José Silvério também estava diante de um cliente novo, que entrava no exato momento em que a ligação era desfeita. Mal colocou o fone no gancho e ele tocou, avisando da chegada do cliente. Mandou entrar.   
            A tarde transcorreu entre diversos clientes de causas menores vindo trazer documentos, assinar procurações e outros detalhes necessários. Pouco depois das 5 horas, Roberta lhe trouxe uma pilha de processos em cuja montage final estivera trabalhando. Precisavam de uma conferência final do advogado e aposição de sua assinatura em petições, mandados e outros documentos. Não havia nenhuma outra entrevista marcada para aquela hora. Houve tempo suficiente para conferir meticulosaamaente cada processo, verificando estarem na mais perfeita ordem. À medida que os conferia, assinava onde fosse preciso. Dava graças a Deus por ter convidado Roberta para sua secretária. Era de uma competência inigualável. Sabia a ordem correta dos documentos para facilitar o acesso a eles pelo juiz ao analisar cada um.
            Lembrou de sugerir ao diretor da empresa uma gratificação ou um aumento de salário para a secretária. Fazia por merecer. O esquecimento com relação a essa questão poderia significar a perda de uma funcionáriaa competentíssima. Depois arranjar outra do mesmo nível, seria demorado. Sem contar com o período de adaptação ao serviço, pois, por mais esforçada que fosse, demoraria algum tempo para ficar a par de todas as minúcias do mundo jurídico. Isso é coisa que não se aprende de uma hora para outra.
            Na quinta-feira a tarde, foi surpreendido pelo coronel Onofre ao telefone. Estaria ele na cidade e ligara para saber do andamento das coisas?
            – Boa tarde, coronel. Como tem passado?
            – Tive uma boa surpresa essa semana. Os home da companhia de telefone vieram instalar o dito cujo. Tô le ligando aqui de casa memo.
            – Que beleza. Agora fica tudo mais fácil. Parabéns.
            – Tô inaugurando a linha. Hahahahah!
            – Vamos aproveitar para combinar o encontro com seu vizinho. Marcamos para segunda feira às 10 horas.
            – O home tá com pressa de resolver as pendenga. To gostando de ver.
            – Ele quer colocar a vida em ordem, pelo jeito. Não sei se o senhor vai concordar, mas ele pediu se daria para retirar a queixa do atentado, ou algo assim para aliviar a pena.
            – E essa agora! Ele manda dois capanga atirar em mim, quase me mata e quer que retire a queixa? Acho que ele tem que arcar com as consequência do mal feito.
            – Eu não dei resposta. Sugiro conversar primeiro sobre o acordo da divisa e acertar tudo aí. Depois temos tempo para tratar do resto. Concorda comigo, coronel?
            – Uma boa ideia. Num dianta esquentar a cabeça antes da hora.
            – E Isabel terminou de pintar o quadro para apresentar na exposição?
            – Sei não. Hoje de manhã tava lá no atelier mexendo com suas pintação. Tá que é uma pilha de nervo. Deixou até a Lourdes meia dos casco vir-ado.
            – É a ansiedade pela estreia. Faltam poucos dias. É assim mesmo. Igual estudante em tempo de provas finais ou véspera de concurso.
            – Inté parece muié buchuda em véspera de pari.
            – Acho que a situação é semelhante. O senhor deve saber melhor que eu. Nem sou casado, quanto mais tive mulher gravida, perto de ganhar filho.
            – Nem queira saber. Elas fica um nervo só e a gente que guenta as consequência.
            – É a parte que nos cabe, já que não podemos ser mães.
            – Te esconjuro, home! Eu lá ia quere ter filho? Isso é coisa das muié.
            – Dê lembranças a dona Lourdes e Isabel, coronel. Está na hora de voltar para casa. Estou um caco hoje de tanto ouvir histórias e depoimentos no forum.
            – Vai descansar, doutor. Lhe desejo uma boa noite de sono.
            – Até segunda feira, coronel. Não esqueça. Às 10 horas.
            – Isqueço não.
            A sexta-feira era em geral pouco movimentada na área jurídica. Os juízes via de regra não marcavam julgamentos, especialmente juris para esse dia. Se demorasse, avançariam para o sábado e domingo. Isso ninguém queria. José Silvério aproveitou para por em dia todos os pequenos servicinhos que tinham sido deixados para depois por conta do era prioritário. Assim o dia passou, deixando a impressão de não ter feito nada, mas na verdade haviam sido um número enorme de pequenos detalhes que estavam agora devidamente encaminhados.
Cine Fox em Sete Lagoas.

 

Monumento em homenagem à FEB em Sete Lagoas
            O final de semana foi passado com a família, uma ida ao cinema sábado à noite em companhia da irmã e do namorado. Não lhe agradava muito servir de vigia ou como se dizia “segurar vela”. Pensava que os dois deveriam saber o que queriam da vida. Consequentemente precisavam arcar com as consequências dos seus atos. Orientação ambos tinham recebido dos pais, se isso não bastasse, nem mesmo um guardião seria capaz de impedir alguma coisa se eles assim o desejassem. Mas valeu à pena, pois a fita era muito boa. Pessoalmente gostava de filmes sobre espionage e esse era um dos bons nessa variedade.
            No domingo assistiu ao jogo dos dois maiores clubes da capital se enfrentando pelo campeonato nacional. Ele era cruzeirense até a raiz do cabelo. Já o pai era atleticano convicto. O jogo foi disputado, não que estivesse valendo algum título, mas perder para o maior rival era sempre uma humilhação. Pouco importava se o jogo era oficial ou mesmo amistoso. O resultado final, depois de alguns lances mais rudes, alguns cartões amarelos, foi um honroso 1×1. Ao término as indefectíveis reclamações contra o juiz de parte a parte. A genitora do árbitro foi premiada com vários nomes pouco honrosos. As ruas ao redor do estádio estavam cheias de policiais para garantir a volta para casa em segurança.
            Dessa forma chegou segunda-feira, quando se encontraram frente à frente o coronel Onofre Pires e Jerônimo para uma conversa séria e franca. O começo da reunião foi tenso e José se encarregou de quebrar o gelo:
            – Senhores, estamos aqui para uma conversa franca, visando encontrar um termo de conciliação entre os vizinhos coronel Onofre e Jerônimo. Sugiro que mantenhamos a calma e cada um terá a sua hora de falar. Doutor Estevão, eu lhe dou a palavra para apresentar ao meu cliente a proposta que me apresentou aqui na semana passada.
            – Eu fui encarregado pelo meu cliente senhor Jerônimo de apresentar ao senhor coronel, uma proposta para quitar a indenização relativa à questão da divisa e também a reposição da cerca no lugar de sempre.
            – Pode falar, doutor. É pra isso qui eu estou aqui.
            – O senhor Jerônimo, por conta de uns contratempos, ficou com as finanças abaladas e pede ao senhor coronel, aceitar um parcelamento da dívida.
            – E qual é essa proposta? Quero ouvir do senhor mesmo.
            – Se pudermos parcelar o total em parcelas de valores menores, vencendo uma a cada seis meses. Calculamos os juros devidos, num prazo final de três anos.
            – Eu tinha intendido qui seria em um ano.
            – É o que eu havia proposta, mas o senhor Jerônimo verificou que iria ficar em dificuldades. Melhor estabelecer um prazo maior e pagar direito, que ser curto e depois não conseguir vencer fazer os pagamentos.
            – Coronel, creio que um p:razo maior não irá atrapalhar sua vida financeira. E as palavras do colega são sábias. Não nos vale de nada se o prazo for curto e não cumprido ao final.
            Nesse momento Jerônimo pediu ao seu advogado para deixá-lo falar e ele permitiu:
            – Coronel Onofre, eu preciso lhe pedir perdão por todas as besteiras que eu fiz em relação ao senhor nesses anos todos. Meu pai sempre se deu bem com o senhorr e me falou muitas vezes sobre isso. Eu era um cabeça de vento e deixei os amigos me levar para o mau caminho. Fiz muita coisa errada nessa vida. A última foi essa da divisa e depois o atentado. Depois que fiquei duas noites na cadeia, vi que não sou feito para ficar em gaiola. Vi meu pai, como se estivesse vivo ali na minha frente, falando das cosas erradas que fiz. Resolvi mudar de vida. Sei que vou ter que acertar com a justiça a questão do atentado, mas isso é outro problema. Quero levar outra vida a partir de agora, começando por acertar toda essa questão da divisa de uma vez.
            – Si é assim, Jerônimo, eu até faço um batimento. Vamo deixa por 60 mil invei dos 100 qui o doutor juiz determinou. Dividimo tudo em seis partes iguais e você me paga cada seis meis. Você coloca a cerca no lugar certo e depois eu planto os pé de café de vorta naquela parte. Num sei si vo podê faze alguma coisa na questão do tiro que levei.
            – Isso facilita as coisas, coronel, – falou doutor Estevão. – Fica mais fácil para o senhor Jerônimo pagar sem problemas e só falta resolvermos depois a questão com o juiz.
            – Se o meu cliente concordar, podemos dar um depoimento atenuando a gravidade da queixa e assim diminuir a apena imposta pelo juiz.
            – Concordo. Uai! Seu pai e eu fomos bons amigos e depois nós viramos inimigos. Tá na hora de acaba com essa pinimba de uma vez.
            – Proponho que os dois vizinhos se deem as meem as mãos em sinal de entendimento e vivam de hoje em diante em paz. Aos poucos as mágoas que vão restar virarão apenas lembranças do passado e o tempo se encarrega delas.
            A sugestão foi aceita e Jerônimo esteve prestes a verter lágrimas de satisfação. Estava realamente arrependido do rumo que dera a sua vida. Queria poder esquecer o passado, se isso fosse possível. Combinaram que os advogados preparariam os documentos necessários ao acordo, encaminhariam tudo ao juiz e pediriam o arquivamento do processo, uma vez que estava havendo o entendimento. Aguardariam a fixação da data do julgamento dos acusados pelo atentado. Os capangas estavam da cadeia e seria conveniente que lá ficassem pelo menos até o julgamento. Se fossem soltos, poderiam fugir e causar problemas com o magistrado. Ele fazia questão absoluta de manter a maior lisura nos processos sob sua responsabilidade.
            Depois de realizados os entendimentos, sairam e foram almoçare num restaurante ali perto, a convite de coronel Onofre. Sentia um peso sendo removido de seu espírito. Nunca aceitara que aquele menino que vira crescere, tivesse se transformado em seu mais ferrenho inimogo, coisa que sempre evitara ao longo da vida toda. Fazia questão de pagar a comida naquele dia. Todos aceitaram de bom grado. A reunião estava terminando e a hora do almoço chegava. Lá fora o peão que acompanhara Jerônimo e o outro do coronel olharam para os quatro homens saindo do escritório. Aparentemente conversavam sem ressentimentos. Até ali não haviam trocado palavra, mas vendo os patrões juntos e conversando, se cumprimentaram também. Depois chegaram até o grupo aguardando um pouco afastados.
            – Podem vir os dois. Vamos almoçar todos juntos ali no fim da rua. Servem uma comida muito boa ali.
            Seguiram logo atrás e o grupo inteiro foi almoçar. O coronel tinha razão. Apesar da aparente simplicidade do estabelecimento, os pratos eram preparados primorosamente. José Silvério teve que congratular-se com o seu cliente por saber desse detalhe, uma vez que ele, residente ali não sabia disso. Comeram de se fartar, beberam umas cervejas e depois voltaram para seus afazeres. Os advogados macaram a tarde da próxima sexta feira para se reunirem e elaborar tudo relativo ao acordo, bem como o encaminhamento que dariam no aspecto judicial.
            – Sempre ouvi os professors falarem. Um mau acordo é melhor que uma boa demanda. Pena que o nosso amigo se deu conta disso meio tarde. Teria evitado uma porção de transtornos.
            – Mas podemos nos dar por satisfeitos. Eles parece que vão se entender daqui para frente.
            – O coronel é ótima pessoa. Só não pise nos calos dele, que daí a coisa fica feia.
            – No fundo todos somos assim. Varia um pouco de um para o outro, mas ninguém gosta de ser desrespeitado, ter as propriedade invadida. Isso sempre dá encrenca grossa.
            – Vamos fazer nossa parte para que isso fique resolvido por aqui e não tenha desdobramentos depois.
            – Creio que isso nos torna um pouco amigos também, colega.
            – No que me diz respeito, nada a opor.
            – Vou andando, pois ainda tenho várias coisas para resolver durante a tarde. Até mais ver, colega.
            – Boa tarde. Também vou cuidar da vida.
            José estava próximo de seu trabalho e não tinha nenhum compromisso especial para aquela tarde. Lembrou de falar com o diretor a respeito do aumento para a secretária e comentar sobre a reviravolta no caso entre o coronel e seu vizinho. Alguns dias antes não teria nem imaginado ser capaz tamanha mudança. Por vezes ainda sentia uma pontinha de preocupação. O outro poderia estar tratando de ganhar tempo e depois voltar a carga com mais energia. Procurou lembrar da fisionomia de Jerônimo na hora em que falara e pedira perdão ao coronel. Não conseguiu ver traço de falsidade no rosto. O homem estava sendo sincere, ou então era um perfeitissimo ator, capaz de convencer a todos de sua sinceridade.
            Ao ter semelhantes pensamentos sentiu um leve arrepio. Seria uma frustração imensa se isso viesse a acontecer. Decidiu confiar em Deus, colocar nas suas mãos a questão. Estavam tomando todas as medidas de precaução possíveis, tudo passaria pelas mãos do juiz e levaria sua chancel ao final. No caso da ocorrência de alguma falseta de um ou outro lado, teria que se haver com o representante máximo da lei ali naquela época.
            O aumento para Roberta foi concedido. Ela foi chamada e na presença de José o diretor lhe informou do valor de seu novo salário. Ela teve dificuldade em acreditar no primeiro momento, mas foi tranquilizada quanto a ser uma brincadeira. For a José pessoalmente que sugerira. O diretor, levando em conta a eficiência e dedicação da servidora, concordara em elevar seus vencimentos. Ela agradeceu e saiu sorrindo. Intimamente exultava. Assim seria possível dar à sua mãe uma ajuda mais consistente para manter a casa. O pai estava doente e inválido, recebendo um auxílio doença que não cobria nem os medicamentos, quanto mais outras despesas.
            Os dois conversaram longamente, tendo José relatado seus últimos feitos no forum ao chefe. Não tinham tempo diariamente de sentarem e narrar os detalhes de alguns processos em que José atuara. Conseguira virar o jogo em várias situações aparentemente de derrota. Um argumento encontrado em suas longas leituras de sentenças e processos famosos publicados em livros ou revistas jurídicas. Isso lhe valera bons desempenhos em diversas ocasiões. A sutileza da argumentação e sequência de apresentação das provas no caso do coronel e seu vizinho tinha sido considerada genial. Haviam temido em alguns momentos que poderia haver uma derrota, mas a sentença favorável não deixara pesar dúvidas sobre o lado em que estava a justiça.
            Depois de colocar as novidades em dia, José voltou para sua sala e se dispôs a ler minuciosamente os autos de um processo em que iria atuar no tribunal do júri em duas semanas. Era um caso de assassinato, mas havia falta de provas concludentes. O reu confessara e depois se retratara afirmando ter confessado sob tortura e caberia a ele, José Silvério atuar no apoio ao promotor, cocntratado pela família da vítima. Procurava um argumento forte o suficiente para desmascarar o reu em sua afirmação de tortura. O laudo do exame de corpo de delito era inconclusivo. O reu afirmava que haviam usado métodos não contundentes, por isso não havia marcas no seu corpo. Já os policiais, o delegado e detetives negava veementemente a ação delituosa. A confissão for a espontânea, sem muita pressão na verdade.
            Leu todo o processo, dedicando especial atenção à primeira confissão, à retratação posterior, acusação de tortura, laudo médico em busca de um mísero fio. Um vestígio apenas poderia ser suficiente para levantar o pano que parecia envolver o caso. Ao reler a confissão e depois a retratação do reu, encontrou o que procurava. Havia incongruência entre as duas situações e ele usaria esse fato para provocar o réu. Era fortemente provável que, ao ser confrontado com a contradição, ele ficaria agitado e se delataria sem muita dificuldade. Haviam passado ao seu encargo esse caso, pois todos os outros haviam concluido ser trabalho insano e infrutífero tentar conseguir a condenação. A acusação de tortura pendente sobre a cabeça do delegado, um detective e dois agentes, significaria um golpe severo para esses profissionais. Depois que se certificou de tudo, escreveu cuidadosamente a forma como faria as perguntas, possíveis variações dependendo das respostas que recebesse. Tudo pronto, tornou para a sala do diretor e lhe mostrou o que estivera fazendo.
            O chefe leu, releu e indagou de onde tirara essa ideia?
            – Do próprio processo. – e abriu onde estavam as duas passagens conflitantes das declarações do reu, feitas em momentos diferentes. Ele tinha previsto eventuais esquivas e saidas pela tangent. Encurralaria o malfeitor de tal forma que não lhe restaria alternative a não ser confessar. Depois de olhar tudo, o chefe lhe deu razão. Aconselhou-o a não deixar escapar uma única sílaba de tudo isso. Poderia por tudo a perder, se alguém, especialmente os advogados de defesa, ficassem sabendo de sua artimanha. Era perfeitamente correta a sua intenção. Colocaria a pergunta de tal forma que o acusado seria obrigado a dizer uma coisa ou outra. Cada uma delas o conduzia a um beco sem saída. Quando se desse conta da cilada, seria tarde.
            Ao olharem viram que passava de 18h 30min. Haviam estado a conversar por tanto tempo que esqueceram a hora. Levantaram-se e verificaram que não havia mais ninguém no prédio. Fecharam as salas e depois a porta principal. Despediram-se e foram para suas casas. O diretor ia pensando em seu íntimo:

 

            – Foi uma ótima decisão contratar esse jovem, recém saido da faculdade. Transformou-se, em menos de dois anos, no melhor causídico da Advogados Associados. Estava se tornando hábito transferir para sua agenda todos os casos mais complexos, se não de todo, pelo menos o comando da equipe que atuaria na defesa ou acusação, conforme o caso. Se não o tivesse contratad na época, oferecendo um pouco mais do que teria sido normal, hoje estaria arrependido, vendo-o atuando em julgamentos no lado oposto ao seu. Seria algo profundamente lamentável. 
 
Vista aérea de Sete Lagoas.

 

Schoping Center Sete Lagoas.

 

Mais um lago no perímetro urbano.
 

Mineiro sovina! – Capítulo XII

 

Vista da cidade de Sete Lagoas.
Rio que corta a cidade de Sete Lagoas.

 

Ação de litígio é julgada.
Na hora estipulada todos os envolvidos na questão, o proponete da ação, o acionado, as testemunhas, os respectivos advogados e algumas pessoas assistentes estavam diante da mesa do Juiz. De um lado estavam Dr. José Silvério, coronel Onofre e quatro testemunhas, sendo dois empregados e dois vizinhos próximos. Eles haviam estado presentes anos antes na ocasião da demarcação que Onofre tinha registrado no cartório junto à documentação de propriedade das terras. Do outro lado Dr. Estevão, Jerônimo e três de seus empregados, além de um outro indivíduo que ninguém ali conhecia. Era o tal agrimensor que fizera a nova demarcação, sem que o coronel tivesse tomado ciência.
O Juiz se dirigiu aos presentes em geral, pronunciando as palavras de abertura da sessão, identificando o assunto em discussão, bem como os envolvidos. Em continuidade passou a palavra ao advogado da acusação, dizendo:
– Doutor José Silvério, há alguma proposta de conciliação de parte de seu constituinte?
– Meu cliente procurou entendimentos anteriores com o citado, mas foi recebido com grosserias e ameaças. Por isso procurou as vias judiciais. No entanto estamos abertos a ouvir qualquer proposta que seja apresentada pelo colega advogado do senhor Jerônimo.
– Doutor Estevão, seu cliente quer fazer alguma proposta de conciliação?
– Vou trocar algumas palavras com meu cliente e já respondo sua pergunta, meritíssimo.
Ficaram alguns instantes falando em voz baixa, mostrando-se Jerônimo bastante agitado. Por fim o advogado dirigiu-se ao Juiz dizendo:
– Meritíssimo, meu cliente não se considera culpado de nenhuma violação do direito de propriedade do seu vizinho e não quer propor nada em termos de conciliação.
– Diante disso, vamos seguir com a audiência. Doutor José, pode apresentar suas testemunhas.
– Vou começar com o senhor Gregório da Silva, vizinho e testemunha de uma demarcação feita em comum acordo entre meu cliente e o pai do senhor Jerônimo.
O citado sentou-se na cadeira das testemunhas e José Silvério continuous:
– Senhor Gregório, o senhor esteve presente quando o coronel Onofre e seu vizinho Juvêncio fizeram a demarcação de suas terras, ficando a divisa claramente estabelecida?
– Sim senhor. Eles se davam bem e fizeram a demarcação para não haver problemas. Os dois trabalham com ramos diferentes. Plantação de café e criação de gado. Não dá para misturar.
– Consegue lembrar quando foi isso?
– Sei ao certo não. Mas foi dantes da revolução de março de 1964. Pouco despois da nauguração de Brasília.
– Sabe se os dois receberam um mapa com a indicação das divisas claramente?
– Isso foi alguns dias despois. O grimensor vorto trazendo um mapa igual pra cada um deles. Cunferiram tudo e eram guarzinho os dois.
– Saberia dizer se esse documento é aquele que viu? – mostrou o papel amarelado pelo tempo, depois de descobrá-lo com cuidado. O senhorr Gregório olhou detidamente e falou:
– É esse sim. Penasmente está um pouco marelado agora. Mas não tenho duvida. É esse mesmo.
– Meritíssimo eu não tenho mais perguntas.
– Doutor Estevão, a testemunha é sua.
– Eu não tenho perguntas.
– Pode chamar outra testemunha.
– Vou chamar o senhor Augusto Ferreira, também testemunha da demarcação.
O nominado sentou-se na cadeira indicada e José Silvério falou:
– Senhor Augusto, o senhor ouviu as perguntas que eu fiz ao seu amigo Gregório e as respostas que ele deu.
– Sim senhor.
– Confirma que esteve presente no mesmo dia e viu o que ele viu?
– Confirmo. Lembro inté como estava o tempo. Era uma seca meia braba e fazia muito calor. Mas estava presente e tudo qui cumpadre Gregório falo é verdade.
– Reconhece o mapa que os dois vizinhos receberam do agrimensor?
– Si reconheço? Mas craro. É esse memo que sinhor tem aí na mesa.
– Obrigado senhor Augusto. Eu não tenho mais perguntas.
– A testemunha é sua doutor Estevão.
– Sem perguntas.
– Pode chamar outra testemunha.
– O senhor Paulo Francisco Alves, empregado do senhor Onofre.
Paulo sentou-se na cadeira e olhou para os lados levemente assustado. Aquele ambiente não condizia com o que era habitual em sua vida. Ouviu o advogado falando e presto atenção:
– Fique calmo Paulo. Só lhe vou perguntar umas poucas coisas. Deve responder só o que eu perguntar.
– Sim sinho! To ouvindo.
– Pode nos contar como foi que descobriram a cerca deslocada e os pés de café cortados naquele ponto da divisa, perto da nascente de água?
– Fais coisa di quatro cinco mes noi stava vistoriano o cafezal pra quelas bandas. Quando chegamo na divisa, eu mais Osvardo Faria, quando vimo aquele monte de pé de café cortado e montoado. Mais adiante vimo a cerca mudada de lugar, um buraco cavado em torno da nascente pra mode o gado beber ali. Estava tudo pisoteado.
– A cerca foi mudada só no lugar da nascente ou a mudança foi maior?
– Mudaro de uns 200 m antes, até outro tanto despois da nascente. Parece inté que fico quase reto. Apenas oiando de longe si pode ver a curva.
– Saberia apontar no mapa o lugar onde isso aconteceu.
– Posso tentar.
José levou até ele o mapa e permitiu que o olhasse atentamente.
– Eu num intendedo dereito esses mapa, mas deve de ser nesse ponto. Começando mais dantes até ali acima. – falou e apontou com o dedo.
– E o que vocês fizeram?
– Nois oiamo dereito e fomo logo contar pra coronel Onofre. Dispois acompanhamo ele até la pra mode ver o acontecido.
– Pela aparência, era coisa recente, ou fazia mais tempo?
– Era coisa de pocos dias dantes. As foia dos cafeeiros ainda num tinha caido.
– Vocês deixaram como estava ou fizeram alguma mudança?
– Coronel mando deixar ansim cumo tava. Num mexemo im nada não.
– Obrigado Paulo. Era só isso.
– Dr. Estevão, quer inquirir a testemunha?
– Uma pergunta, Paulo. Não foram vocês que cortaram a cerca e os cafeeiros a mando do coronel, só para processor o senhor Jerônimo?
– Coronel Onofre é home dereito, doutor. Nunca que ia de mandá faze uma coisa dessa. Te esconjuro, home.
– Não tenho mais perguntas.
– Doutor José, pode chamar outra testemunha.
– Só mais o senhor Osavaldo Farias.
Osvaldo sentou-se na cadeira e sabia que não tinha nada a temer. Olhou firme para frente, esperando as perguntas do advogado.
– Pode nos contar o que viu junto com seu companheiro de trabalho naquele dia na divisa das duas propriedades.
– Tudinho que Paulo Francisco falo é a pura verdade. Eu só quero acrescentá que vi, assim meio de revesgueio, alguém iscondido detrais de umas pedra que tem no pasto do seu Jerônimo. Parecia espreitar o qui noi stava fazendo.
– E essa pessoa fez alguma coisa, se movimentou, falou que o senhor se lembre?
– Só fico bem iscundido. Deve di tê ido contá pro patrão despois qui nois viemo embora. Inquanto nóis tava ali, num si mexeu não.
– E a distância que a cerca foi mudada é em sua opinião o tanto que Gregório disse, é maior ou menor?
– Nóis num medimo, mais deve de ser mai o meno isso qui Gregório disse. No totar uns quatrocentos metro.
Levou até ele o mapa e logo o dedo indicou o ponto em que a violação fora cometida.
– Obrigado Osvaldo. Não tenho mais perguntas.
– Eu também não tenho perguntas, – falou Estevão.
– Doutor Estevão, queira chamar as testemunhas de defesa.
O advogado de defesa levantou, endireitou os óculos sobre o nariz, percorreu com o olhar todos os presentes e falou:
– Vou chamar para depor o senhor Ambrósio Pereira.
O chamado era o mais jovem entre as testemunhas e estava visivelmente perturbado. Sentou-se na cadeira e esperou que lhe perguntasse, dando sinais claros de que, se descuidassem sairia correndo dali, sem olhar para trás.
– Fica tranquilo Ambrósio. Ningém aqui vai lhe fazer mal. Aqui é uma sala onde se administra justiça. Não tenha nenhum medo.
Esperou alguns instantes que as suas palavras fizessem efeito e ao ver que o jovem se sentia mais seguro falou:
– Quanto tempo você está trabalhando para o senhor Jerônimo?
– Eu nasci na fazenda e desde pequeno trabalho lá. Nunca saí de la inté hoje.
– Então conhece aquele terreno como a palma da mão?
– Conheço sim.
– Lembra dessa demarcação que o coronel Onofre está usando para acusar seu patrão de violar a demarcação da divisa?
– Eu devia de ser bem criança. Lembro que meu pai falou disso mas num estive junto durante o serviço.
– Durante esses anos todos, ouviu alguma vez ser falado a respeito de a divisa estar errada?
– Patrão fais anos fala que divisa ali tá errada.
– Esteve junto quando o seu Firmino, aqui presente, fez a nova demarcação, colocando a cerca onde está agora?
– Estive sim sinhor. Ajudei no serviço.
– Ajudou a mudar a cerca?
– Patrão mandou nois mudar a cerca dispois qui empregados di coronel Onofre cortaro os arame, deixando o gado entrar no cafezal.
– Não tenho mais perguntas.
– Doutor José Silvério, a testemunha está à sua disposição.
– Ambrósio, pode me dizer por quê o gado não andou mais longe, causando estrado em outros lugares, só ali naquele ponto perto da nascente?
– Isso eu num sei dizê doutô.
– Vocês estavam vendo eles cortar os arames e foram logo tocar o gado de volta.
– Num sinhô. Nóis vimo isso só dia seguinte. Tinha mais que vinte cabeça do outro lado da cerca.
– E vinte e poucas cabeças de gado, estragaram só o café que estava na parte que seria atingida pela mudança da cerca? Não acha isso um pouco dificil de acreditar?
– Sei dizer não senhor.
– Não tenho mais perguntas.
O juiz determinava ao escrivão algumas anotações específicas, em decorrência das palavras da testemunha.
– Pode chamar outra testemunha.
O doutor Estevão chamou um a um os outros dois e suas respostas ficaram no mesmo nível do prmeiro. Em verdade não tinham muito a acrescentar. O trunfo seria o agrimensor com sua nova demarcação e o novo mapa elaborado.
Pelos depoimentos dos dois outros dois empregados de Jerônimo, José Silvério achou desnecessário fazer perguntas a eles. A última testemunha foi chamada. Era Nicodemos de Almeida Prado. Um home alto e atlético, sinal de que sua atividade transcorria em lugares frequentemente de acesso difícile, sendo necessária uma compleição física avantajada. Sentou-se na cadeira das testemunhas e aguardou. Doutor Estevão passeou o olhar sobre os presentes e falou:
– Senhor Nicodemos, pode nos apresentar suas credenciais de agrimensor?
– Estão aqui, doutor. – retirou do bolso interno do paletó uma carteira de onde retirou um documento com fotografia que o identificava como agrimensor credenciado. Junto entregou também a sua identidade.
Estevão pegou os documentos e os apresentou ao Juiz que os leu, entregou ao escrivão para copier os dados com clareza.
– Já devolve seus documentos, senhor Nicodemos.
Enquanto isso Estevão trocou algumas palavras com a testemunha. Quando o juiz falou:
– Aqui estão seus documentos. Pode guardar. Os dados foram anotados devidamente.
Estevão entregou os documentos e depois se colocou na posição de inquiridor, dizendo:
– Como foi que o senhor veio trabalhar para meu cliente, uma vez que mora bem distante?
– Fui procurado pelo senhor Jerônimo para fazer o serviço, indicado por um cliente que é amigo dele. Me falou não confiar nos demais profissionais. Não posso recusar serviço e vim fazer o trabalho.
– O senhor teve algum contato com o outro interessado, o coronel Onofre aqui presente?
– Sei que ele foi convidado a estar presente, mas não quis saber. Disse confiar na demarcação feita há mais de 15 anos atrás.
– Como foi o trabalho? Encontrou alguma coisa errada?
– Começamos localizando os marcos nas cabeceiras. Depois coloquei o Teodolito e iniciamos a determinação dos pontos de 100 em 100 metros. Na altura da nascente encontrei um desvio da cerca para o lado da propriedade do senhor Jerônimo, de modo que ela ficava do lado do coronel Onofre. O mapa que deixei e que deve estar com o senhor mostra claramente o desvio.
– O o senhor se refere a esse mapa? – disse Estevão levantando bem alto o referido documento.
– Esse mesmo, doutor.
– Vou entregar às mãos do Meritíssimo uma cópia heliográfica para integrar os autos do processo.
Levou até a mesa do magistrado o document original e sua cópia. Foi comparada a cópia com o original e dado como verdadeira. A juntada ao processo foi ordenada.
– Teria mais algo a acrescentar senhor Nicodemos?
– Eu não, doutor.
– Doutor José Silvério, alguma pergunta?
– Sim Meritíssimo. – disse e se dirigiu à testemunha que não esperava por isso. Imaginava que seu depoimento se resumiria ao que dissera. – O senhor sabe identificar detalhes em uma fotografia, senhor Nicodemos?
– Não sou especialista, mas sei sim.
– Eu estive no local, depois que o queixoso senhor Onofre me procurou e com minha camera tirei algumas chapas do local. Mandei fazer ampliações que estão aqui. Poderia olhar para elas e dizer o que nota de errado.
As fotografias mostravam a cerca vista de longe e esta apresentava claramente a existência de uma curva ao redor da nascente. Foram olhadas atentamente pela testemunha e depois ele falou:
– Estas fotos foram tiradas antes. Agora a cerca deve estar reta. Pode ver que eu tenho razão.
– E como explica a existência desses cafeeiros cortados aqui ao lado, mostrados mais detalhadamente na outra foto tirade mais de perto?
– São imagens de épocas diferentes.
– Veja na margem inferior tem a data das imagens. Mostram quando foram feitas.
– Os negativos permitem fazer cópias muito tempo depois.
– Quando o senhor fez a demarcação, havia esse buraco ao redor da nascente que se pod ever aqui nessa outra foto?
– Não, mas isso é o que falei. São de outra data.
– Vou pedir ao Meritíssimo que junte essas cópias aos autos do processo como prova. – Entregou as imagens ao juiz que as observou, depois olhou significativamente para José Silvério e um leve sorriso aflorou ao seu rosto. Mandou ao assistente juntar todas as imagens ao processo.
– Não tenho mais perguntas.
– Doutor Estevão, tem mais testemunhas?
– Tenho sim. O próprio senhor Jerônimo. Faz favor!
Jerônimo levantou e foi sentar-se na cadeira indicada:
– Como foi que o senhor se tornou proprietário da fazenda?
– Sou o herdeiro de meu pai. Tinha uma irmã, mas ela faleceu há alguns anos e não deixou filhos, nem marido.
– O senhor viveu sempre com seu pai?
– Desde criança vivo na fazenda. Aprendi a lidar com gado desde menino.
– Está lembrado da demarcação que o coronel Onofre e seu pai fizeram no começo dos anos 60?
– Lembro. Eu era um menino de 13 anos. Meu pai foi coagido pelo coronel por conta de uma dívida que ele tinha com o coronel. Por isso aceitou aquela demarcação.
– E depois o senhor decidiu colocar a divisa em ordem.
– Demorei um pouco, ocupado com outras coisas. Meu pai deixou umas dívidas que tinham que ser pagas e me preocupei com isso. Agora que está tudo quitado, decidi por esse assunto em ordem.
– Ficou surpreso com a constatação do erro na demarcação?
– Eu não fiquei surpreso, pois sabia pela boca de meu pai que ali havia erro, mas ele aceitou para não ter que pagar na hora a dívida. Inclusive o resto eu paguei depois da morte dele.
– Tem os recibos desses pagamentos?
– Estão aqui. – Tirou de uma pequena bolsa um maço de papéis e separou os recibos relativos à quitação da dívida.
– Vou mostrare esses documentos ao Meritíssimo. Pena que não fizemos cópias deles.
– Se for preciso pode deixare eles no processo.
– Mas eles são documentos seus. Não podem ficar no processo.
– Doutor, me entregue os documentos. Vou pedir ao meirinho para leva-los para tirar cópias. Resolvemos isso já.
Os recibos foram levados para providenciar as cópias pedidas.
– O senhor procurou o coronel para fazerem a nova demarcação?
– Mandei recado mas ele não fez caso. Disse que não carecia de fazer nova demarcação.
– Quem foi levar o recado?
– Foi o Ambrósio, doutor.
– Não tenho mais perguntas.
– Eu também não tenho perguntas.
– Os dois advogados queremo chamar mais alguém?
– Eu vou pedir para que o Ambrósio volta para a cadeira das testemunhas, – falou José Silvério.
Com a autorização do juiz o indicado voltou a sentar na cadeira que lhe causava arrepios. Estava mais apavorado agora do que da primeira vez. Teria que mentir e isso o deixava nervoso demais. Sentou-se e esperou:
– Ambrósio, você levou o recado ao coronel Onofre?
– Levei sim sinhô.
– Lembra que hora foi isso?
– Num lembro dereito. Acho que foi perto de meio dia.
– O que aconteceu na fazenda do coronel?
– Ele mandou os capanga me botar para correr. Disse que não carecia de fazer outra demarcação. Que a diferença era tudo mentira de coronel Onofre.
– Você foi à pé ou à cavalo?
Ambrósio ficou pensativo, parecendo em dúvida sobre o que seria mais conveniente dizer. Sua hesitação deixou evidente que não estava dizendo toda a verdade, ou até mesmo era tudo mentira o que dissera.
– Acho que foi à cavalo, doutô.
d- Não é um pouco esquisito esquecer algo que aconteceu há bem pouco tempo?
– Meritíssimo, o advogado do queixoso está induzindo as respostas de minha testemunha. Ele não está em julgamento.
– Protesto aceito. Retire essas palavras dos autos.
– Não tenho mais perguntas.
– Eu também não, meritíssimo, – falou Estevão.
– Mais algum depoimento para completar a audiência?
Nesse momento coronel Onofre falou ao seu advogado que queria depor.
– Meritíssimo, meu cliente quer contar sua versão dos fatos.
– Pode chamar seu cliente, doutor José.
Sentado na cadeira das testemunhas, Onofre pigarreou preparando-se para falar:
– Coronel, conte-nos o que de fato aconteceu.
Em rápidas palavras o queixoso relatou sua longa relação amistosa com a família de Jerônimo, apenas depois de sua morte, quando o filho deixare a vida de andarilho em companhia de alguns elementos de maus bofes, começaram os problemas. Depois que havia quitado a última parcela da dívida que o pai tinha com ele, coronel Onofre, nunca mais haviam trocado palavra pacífica. Não tinha entendido de início, vindo a perceber tudo recentemente quando vira a mudança da cerca e o estragon no seu cafezal. Pedia a José Silvério para apresentar as cópias do cartório onde tudo estava registrado.
O advogado pegou as citadas cópias e levou até as mãos do juiz. Houve alguns minutos de demora enquanto os documentos eram examinados, lidos, registrados nos autos e anexados ao processo. Doutor Estevão pediu vistas dos documentos e foi nitida sua mudança de atitude. Parecia ter recebido uma ducha de água gelada. Ali estava claramente demonstrada a culpabilidade do seu cliente. Ele subornara o agrimensor que poderia ser inclusive responsabilizado criminalmente pela fraude. Isso era outro assunto, mas o seu cliente estaria inapelavelmente complicado. Ainda mais depois das confissões dos bandidos que cometeram o atentado à seu mando. Teria trabalho em livrar a cara dele de ser peso imediatamente e processado por ser o mandante de uma tentative de homicídio. Via dificuldades pela frente.
– Senhores advogados, querem por acaso seus clientes pensar um momento para saber se não convém fazerem um acordo e encerrar a ação?
– Meu cliente não quer ouvir falar de acordo, – falou doutor Estevão. Estava furioso com Jerônimo, mas nada havia a fazer.
– Meu cliente aceitaria um acordo mediante o retorno da cerca à posição correta e uma indenização menor pelos prejuizos. Poderiamos até pensar na retirada da queixa pelo atentado de que o coronel Onofre foi vítima recentemente. – falou José Silvério.
Ouvindo isso Estevão sentiu renascer as esperanças, mas o cliente estava irredutível, fazendo gestos negativos. Confiava em seus homens e iria dali para sua casa. O coronel lhe pagaria cara essa derrota. Não encontrando respaldo para suas argumentações em favor de um acordo, não restou alternativa ao doutor Estevão e aceitou a situação.
Depois de ter ouvido todos os testemunhos, visto as provas documentais apresentadas pelas partes, diante da negativa da parte acusada de fazer um acordo, o juiz demorou alguns momentos confabulando com o assistente. Determinou ao escrivão a redação da sentença, o que foi feito rapidamente. A máquina de datilografia matraqueava violentamente, enquanto as palavras ditadas em voz baixa pelo magistrado iam sendo registradas no papel. Terminada a redação, feita em três vias, sendo a primeira para ficar anexa ao processo e as outras duas seriam entregues aos querelantes. Assinadas as vias o juiz determinou ao seu assistente a leitura da sentença que dizia, depois de uma introdução identificando os envolvidos, resumindo a queixa:
– Diante de tudo isso, eu, Dr. Osmar Dias Ferreira, Juiz desta comarca condeno o Sr. Jerônimo da Luz a pagar, a título de indenização por danos causados à propriedade de Onofre Pires, a quantia de Cem mil Cruzeiros. Igualmente deverá, às suas custas exclusivas, contratar um agrimensor credenciado para fazer o levantamento dos limites das duas propriedades. Em se constatando o deslocamento dos limites de seu local original, deverá recolocar a cerca na posição devida, deixando um metro de espaço entre a mesma e a divisa. Outrossim, as custas judiciais deverão ser custeadas pelo Sr. Jerônimo. Ambas as partes tem o direito de recorrer desta sentença no prazo máximo estipulado em lei. A sessão está encerrada.
            Quando chegaram a um local afastado convenientemente do gabinete judicial, sentaram-se para conversar. O Cel. Onofre não cabia em si de contentamento. Disse entusiasmado:
            – Quero ver o Jerônimo recorrer. Ele que se meta a besta. A única coisa que vai conseguir é aumentar o tamanho da despesa. O advogado dele deveria aconselhar a ele de não entrar com o recurso.
            – Acho que ele está sujeito a sair do forum direto para a cadeia. Depois de tudo que fez, não duvido um muito. Teremos que esperar para ver o que eles irão fazer. Só podemos tomar qualquer iniciativa depois que eles derem o primeiro passo. Por ora nosso objetivo foi alcançado, – disse o Dr. José Silvério.