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Como eu deixei de fumar!

Primo Luiz Dewes visitando e ajudando construção 001

Foto tirada em Brasnorte, MT, durante construção da moradia. Detalhe, eu com um cigarro na boca

Como eu deixei de fumar!

Para começar, vou contar rapidamente como me tornei fumante. Atingi a adolescência no começo dos anos 60. No momento do 31 de março de 1964, eu estava com 15 anos. Começando a querer ser “grande”, achando bonito, coisa de homem, ter um cigarro entre os dedos, dar algumas pitadas. Ao sair do Seminário em 1965, então com 16 anos, comecei a frequentar os bailes da região rural, em companhia de meu irmão Genésio (falecido) e era comum fumarmos nos finais de semana. Sempre separávamos uns trocados dos dinheirinho da diversão para um maço de cigarros.

Aos poucos, trabalhando na roça, aprendemos a fumar o tal “palheiro” e íamos para a roça com um pedaço de fumo no bolso, algumas palhas pré-cortadas também, um canivete e o indispensável isqueiro. Nos momentos de descanso do trabalho, fosse de capina, plantio, colheita, lavração, sentávamos num tronco, à sombra se existisse e depois do lanche que levávamos, era preparado um palheiro e, após umas boas tragadas, retomavamos o trabalho com o dito cujo no canto da boca, soltando baforadas. O cigarro de “papel” era só para os domingos ou feriados.

Em 1967 ingressei no exército como recruta e ali era habitual fumar. Poucos não tinham o vício. Em 1968, ao passar para a reserva, mudei para o Paraná, Foz do Iguaçu, seguindo minha família que havia se mudado. Troquei a roça pela cidade e fui trabalhar em banco. Concluí meus estudos de ginásio e secundário, além de mudar de emprego. Em 1972 ingressei na faculdade de matemática. Nesse ano, para agradar a namorada, colega de curso, consegui deixar de fumar e isso durou até outubro de 1975. Pouco mais de três anos. Num momento de euforia, comprei um maço de cigarros e fumei. Depois do primeiro, não consegui mais deixar.

Foram inúmeras tentativas, sempre frustradas. A cada nova recaida, a vontade ficava um pouco mais desmoralizada diante do vício. Mesmo assim as tentativas continuaram, pois sempre surgia um momento que a motivação parecia suficiente para enfrentar o dragão do vício, porém acabava sucumbindo novamente. Excusado é dizer que a vontade estava mais debilitada, ao ponto de nem mais pensar em parar, pois estava convicto de não adiantar. Seria apenas mais um recomeço e mais uma humilhação diante do vício.

Tentei fumar cachimbo por mais de uma vez, mas também tinha seus inconvenientes, além de incomodar os outros. Havia que apreciasse o cheiro perfumado do tabaco queimando, mas outros ficavam irritados. Colegas de trabalho começaram a reclamar do cheiro, da cinza, das bitucas muitas vezes jogadas em lugares inadequados. Aos poucos começou a proibição de fumar em determinados lugares, primeiramente nas salas de aulas. Assim, durante os momentos em que me encontrava trabalhando com meus alunos, não fumava.

O que eu tinha colocado em minha mente, era uma espécie de meta. No dia em que eu conseguisse passar uma semana inteira sem fumar, estaria livre do cigarro. O difícil era alcançar essa meta. Em final de maio de 1998, numa consulta de rotina com o cardiologista, me queixei da minha insistente dor nas panturrilhas. Anteriormente ele me indicara o uso de meias elásticas Kendal. Havia comprado uma meia dúzia e as usasa constantemente, desde a hora de levantar, até tomar banho para dormir. Mesmo assim a dor persistia. Ao caminhar num rítmo um pouco mais intenso, a dor se tornava insuportável, obrigando-me a parar e esperar a dor passar. Depois continuava caminhando devagar.

Um exame superficial mostrou que a circulaçã na parte inferior das pernas estava deficiente. Isso resultou na indicação de consultar um angiologista. Foi consultado do Dr. Fernando Franco Pedro, nosso conhecido, por sinal angiologista e cirurgião vascular. Como primeira providência pediu um exame de ecografia das duas pernas. Durante a realização do exame, o médico e assistente, perguntaram se era fumante. À resposta positiva me aconselharam a parar. Fácil de parar. Saí dali com o exame na mão. Enquanto caminhava pela rua, pensei:

– Como vou parar de fumar? Sei que eu preciso fazer isso, mas não tenho nem ânimo para tentar, pois sei que não consigo novamente. Minha vontade está esfacelada, completamente desmoralizada diante desse vício miserável.

Então uma ideia reluziu na mente:

– Se eu não consigo parar, posso ao menos controlar. É mais fácil dizer ao cérebro viciado em nicotina que ele vai ter que esperar um pouco mais para ter satisfeita sua “necessidade”, do que dizer que ele nunca mais vai ter a “droga”.

Olhei para o relógio de pulso no braço esquerdo e, ali mesmo, no meio da calçada, fiz o propósito de estabelecer um intervalo mínimo de 1(uma) hora entre um cigarro e outro. Afinal, havia as tais aulas geminadas e acabava ficando quase três horas sem fumar sem problema. Então seria fácil controlar a compulsão e aos poucos fortalecer a vontade diante do vício maldito. Fiz o propósito e pus em execução. Havia uma condição adicional. Não haveria compensação de tempo, isto é, quando passasse mais tempo sem fumar, ter o direito de fumar mais de um com intervalo menor. Isso desmontaria o plano.

Para minha surpresa, naquele primeiro dia, já notei uma sensível queda na quantidade que havia fumado ao ir para a cama. Vinha fumando algo em torno de duas dúzias de cigarros por dia, algumas vezes um pouco mais. Nos dias subsequentes, constatei que esse simples estratagema, dera resultado e chegava ao final do dia com uma cota de 12/13 cigarros fumados. Isso me alegrou, com um evidente estímulo ao meu brio de manter a rotina. Em poucas semanas, senti que poderia aumentar o intervalo e aumentei o mesmo em 50%, ou seja, uma hora e meia. Com isso a cota diária de cigarros caiu novamente e se estabilizou em torno de 6/8 unidades por dia. Assim, um maço de cigarros durava dois dias e meio e até três dias.

Nesse intervalo levei o exame de ecografia ao médico que o examinou e falou:

– Temos problemas de circulação nas pernas. Mas precisamos investigar se não há mais problemas em outros pontos mais acima, na região abdominal e toráxica. Vou pedir uma arteriografia abdominal. É um exame de risco, mas não tem outra maneira de saber o que está acontecendo.

Lá fui eu fazer o exame. Quem realizou o mesmo, foi uma antiga aluna do tempo de 1980, no Colégio Estadual do Paraná, curso de Análises Clínicas. Fizera medicina e era agora a Dra. Viviane. Enquanto fiquei na sala de recuperação, estava passando na TV da sala, a partida França x Croácia, na Copa do Mundo da França. Dentro de quatro ou cinco dias fui buscar o resultado. Levei-o ao médico e ele o examinou, olhou para mim e falou:

– Seu Décio! Se o problema fossem apenas as oclusões de artérias em suas pernas, onde já existe circulação colateral, nós resolveríamos o problema com exercícios e medicamentos. Mas aqui, – apontou na imagem da chapa – existe um aneurisma. Ele está pequeno, mas pode romper a qualquer momento. Se isso acontecer, não haverá tempo para lhe socorrer, pois o sangue todo do organismo se derrama na cavidade abdominal. O remédio é uma cirurgia para colocar uma prótese.

– Doutor, o senhor é o médico e sabe o que é preciso fazer. Determine que eu faço o que for preciso.

Saí de lá com um maço de requisições de outros exames, laudo de cardiologista e testes variados. Em pouco mais de uma semana consegui cumprir e levei a ele. Nesse dia, 28 de julho de 1998, foi marcada para o dia 10 de agosto a internação no Hospital São Lucas. Requisição de prótese, sala de cirurgia porte 6, além de outras solicitações. Foram dias angustiantes. Sabia eu que a intervenção era de alto risco. A chance de sobrevida era pequena, mas sem ela eu estaria condenado a murchar de um momento a outro, no lugar em que estivesse e ninguém poderia fazer mais nada. Como 1% é muito mais do que 0(zero), eu enfrentei.

A intervenção durou 9h 30 min e foram necessárias mais 2h 30 para recuperação pós cirúrgica e remoção para UTI. Fiquei dois dias na UTI, depois mais 4 dias num quarto e vim para casa. Com isso, completara-se uma semana sem fumar, a meta que eu tanto almejara. Aliada ao fato de me encontrar há semanas fumando apenas seis a oito cigarros por dia, foi facílimo parar. Isso foi em agosto de 1998, hoje estamos em final de fevereiro de 2015. Portanto, no próximo dia 10 de agosto, completarei 17 anos sem fumar. Nunca mais experimentei, pois sei que posso ser traído pelo vício e recair. Como amo a vida bem mais que tudo, não pretendo voltar a isso.

Mailo meu guarda 2

Eu em casa, recuperando da cirurgia do aneurisam. Meu Cooker Spaniel, Mailo, cuidando de mim. kkk.

Mailo meu guarda. 001

Mailo desperto, cuidando do dono.

 

Durante alguns anos depois, frequentemente acordava à noite, depois de um sonho no qual eu experimentara fumar um cigarro e depois me recriminava amargamente de ter feito isso. Ao acordar, constatava tratar-se apenas de um sonho, e um imenso alívio invadia meu coração. Depois disso fiz cirurgia de coração (ponte safena e mamária), endarterectomia carotídea esquerda e direita, uma hernia inguinal, uma colocação de dois parafusos no ombro para fixar o manguito rotador que se rompeu em um tombo que levei. Em 2011 fiquei 67 dias no hospital para tratamento das consequências de um acidente de trânsito. Mas continuo firme sem vontade alguma de fumar.

Não sei se minha experiência poderá ajudar outras pessoas a encontrar uma maneira de sair desse vício. Talvez cada um deva fazer sua adaptação, pedir auxílio profissional, mesmo usar algum medicamento como apoio. Julgo no entanto relevante o fato de, controlando o vício, a pessoa se torna “dona” de sua vontade, não mais escrava do vício. Isso no mínimo pode ajudar fortemente na superação do problema. Tenho uma certeza. Comigo funcionou e nem precisei de outros recursos. Provavelmente o fato da internação hospitalar, uma intervenção cirúrgica séria e o risco de agravar meus problemas circulatórios, ajudaram. Caberá, a quem quiser tentar seguir esses passos, descobrir seu modo de por isso em prática, os recursos adicionais a serem usados. Sei que não é fácil, mas também sei que é possível.

Minha vida como fumante abstêmio (não me julto ex-fumante), melhorou muito. Temos que fazer algo como os AA fazem. Propósito de ficar um dia de cada vez sem cigarro. Aos poucos retomamos o controle da nossa vontade, da nossa vida. Quem quiser trocar informações comigo, deixo abaixo meus contatos. Estou disposto a fazer o que for necessário para auxiliar outras pessoas a obterem o mesmo resultado que eu obtive.

Curitiba, 25 de fevereiro de 2015.

Décio Adams.

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