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Aos professores!

Jornalista Mara Cornelsen, escreve artigo, por ocasião da greve dos professores públicos do Paraná. 

Na edição de ontem, dia 12/02/2015, página 40, Crônicas da Mara, no jornal Tribuna do Paraná, a referida jornalista faz uma homenagem aos professores, narrando sua vida escolar, desde a infância. De certo modo minha vida escolar se reflete no histórico que a colunista relata. Poderia apenas retrocedor um pouco, alguns anos talvez. Meu professor primário foi Aloísio Rockenbach, na distante localidade Linha Paranaguá, no município de Cândido Godói, estado do Rio Grande do Sul. Depois fui interno no Seminário São José em Cerro Largo – RS, até o início da quarta série ginasial. Uma interrupção de três anos para seguir em Foz do Iguaçú, onde fiquei até concluir o Cientifico (Segundo Grau). Fiz faculdade de matemática em Guarapuara, na então FAFI, hoje UNICENTRO. Vou tomar a liberdade de transcrever o texto da jornalista, pois é muito interessante. Oxalá tivéssemos hoje os professores em condições de fazer o que ela narra sobre os que a guiaram na trilha do aprendizado, desde o início até ao final da universidade.

Minha primeira professora se chamava Maria Inez. Eu tinha seis anos de idade e ela me ensinou a ler. Ainda no primário fui aluna da Dona Marlene. Mulata linda e alta, que lecionava portuguès, história e geografia. Transformava os “pontos” da época em inteligentes paródias de músicas conhecidas, fazendo com que a turma de quarto ano aprendesse desde o descobrimento do Brasil, até os afluentes das margens direita e esquerda do rio Amazonas cantando Peixe Vivo ou Cerejeira Rosa. Era uma delícia aprender com ela.

Mais tarde já no ginásio e depois no técnico em Secretariado, fui aluna da aprofessora Paraguaçu Índia do Brasil que, com dedicação e grande conhecimento, aprimorou meu português. Aprendi também com o professor Cleiton Caldeira, com o professor Olímpio, com a dona Anisia (também diretora do colégio) e com muitos outros que marcaram a minha vida, a ponto de conseguir sair do ensino médio e imediatamente ingressar na Universidade Federal do Paraná no, já então, disputado curso de Jornalismo. Aos 19 anos e oriunda do ensino público (sem qualquer privilégio  ou cota) estava formada, com diploma na mão. 

“E daí?”, pode perguntar o caro leitor. E humildemente repondo que este rompante de saudosismo serve para contar que em algum dia o professor já teve o respeito merecido e, se não tinha o salário merecido (porque professor tem que ganhar mais do que político e do que muitos outros), pelo menos naquela época não vivia em situação de penúria. Eles faziam carreira, tinham orgulho da profissão e amor ao ato de ensinar. 

Assim como eu, milhares de outras crianças e jovens passaram pelas mãos dos mesmos professores e hoje são bons e competentes profissionais. As escolas eram quase que sagradas. Limpas e conservadas. O muito que os maus alunos se atreviam a fazer era rabiscar as carteiras de madeira ou a parte interna das portas dos banheiros. E quando apanhados nesta subeversão, eram punidos com suspensão, vergonha maior. (Com afixação em edital do nome e da transgressão – observação minha)

Hoje professor precisa fazer greve antes mesmo de começar o ano letivo, para defender seus direitos e poder trabalhar com um pouco de dignidade. Quer saber, é o fundo do poço! Paguem bem aos professores e reforcem todas as escolas. Só assim, daqui a alguns anos, poderemos com certeza reduzir a construção de cadeias. Não há dinheiro? Há sim. Este país é podre de rico! É só jogar a parte podre fora e aplicar com competência e seriedade a parte do rico.  Mara Cornelsen. 

Na qualidade de professor aposentado desde dezembro de 2003, faço minhas as palavras de Mara. Apenas quero  deixar registrado que desde os anos 80 do século passado, acompanho as greves, inclusive como participante, tanto aqui no Paraná como no estado do Mato Grosso, nos seis anos e meio que por lá trabalhei.

 

Décio Adams

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O professor não é educador! – Parte III

 

 

Parte III.

 

Vamos assistir mais vídeos com Armindo Moreira, autor do livro O professor não é educador! Agora gravações feitas da entrevista no programa Tribuna Independente, pela Rede Vida de Televisão. Esteve presente, além do entrevistador um jornalista da UNIVESP, Fábio Eithelberg e tendo como assistente o também jornalista Paulo Galvão. Num primeiro momento, uma gravação de 20 minutos, onde Armindo Moreira expõe suas convicções e responde a diversas questões propostas por Fábio Eithelberg, por Paulo Galvão e pelo apresentador Dalcides Biscalquin. Assistam para ver.

https://www.youtube.com/watch?v=e9CRsf3ZFXk

No segundo vídeo temos mais 22 minutos de gravação, em que o tema é debatido e aprofundado. Vale a pena ver e refletir sobre tudo que é dito. Para se aprofundar mais nas teorias de Armindo Moreira, é recomendado adquirir o livro. Podem ser encontradas maiores informações na Fan Page no facebook, digitando PROFESSOR NÃO É EDUCADOR. Ali será direcionado para o canal que mais se adequar ao seu caso.

https://www.youtube.com/watch?v=cRvBWK0pQnA

Os comentários deixados no You Tube, dão uma ideia de quanto a teoria de Armindo é algo que, ao menos na opinião de muitos, é algo novo. Talvez nem seja tão novo assim, apenas ficou sepultado por muito tempo sob o manto de ideologias, teorias diversas, pedagogias ditas revolucionárias, que desvirtuaram a tarefa de ensinar, subvertendo-lhe o significado, apontando-a como sinônimo de educar. Isso é absolutamente errado e precisa ser mudado. É necessário dar a tarefa própria a cada personagem da vida. Os pais, a família, a igreja ou associação à qual a família pertença, a comunidade devem assumir a educação. Criar valores éticos, morais, sentimentos. Os professores trazem em seu arsenal de recursos, adquiridos ao longo dos anos de formação, as ferramentas para guiar o aluno criança/adolescente no caminho árduo do aprendizado de habilidades, competências. Quando cada “ator” do “teatro” da nossa vida estiver desempenhando seu papel, alcançaremos o objetivo maior proposto para a nossa pátria. Atingiremos o desenvolvimento e todos os membros, na proporção de suas competências e habilidades, usufruirão dos benefícios que isso gera.

Até outro dia, com mais vídeos, gravados das entrevistas de Armindo Moreira a Edésio Reichert.

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O professor não é educador! – Parte II

O professor não é educador! – parte II

 

Retomando a questão da transferência da tarefa de educar dos pais para os professores, vemos Armindo Moreira (ontem eu erroneamente o chamei Armínio, peço desculpas), indo mais longe. Segundo suas palavras, ao pesquisar os registros históricos do final do século XIX e princípio do século XX, encontrou em um bom número de países, entre eles o Brasil, que tinham o Ministério da Instrução. As alternâncias de diversas ditaduras em todos os cantos do mundo, levou à trocar essa denominação, para Ministério da Educação. O objetivo era educar os futuros cidadãos para darem apoio e legitimação aos ditadores. Eu não disponho de informações detalhadas para julgar essa questão, mas ao fazer tais afirmações Armindo deve estar apoiado em fatos concretos.

Vamos ao próximo vídeo, que tem menos de quatro minutos de duração.

https://www.youtube.com/watch?v=uefWeVCxPDU

Em virtude dessa postura contrária a adoção pelas escolas da tarefa de educar, em detrimento do “ensinar habilidades e competências”, no próximo vídeo veremos Armindo sugerindo a substituição do nome de Ministério e Secretaria da Educação, para “Instrução”, ou então “ensino”. A competência dos professores ficaria restrita ao ato se ensinar, orientar a aprendizagem. A tarefa de educar voltaria às mãos dos pais ou seus substitutos legais em caso de impedimento. Ele avoca a questão bastante interessante nesse particular. Se a família segue uma determinada denominação religiosa, ou linha de comportamento. Já os professores poderão ser de outra linha religiosa, ateus, liberais, socialistas e tantas outras características escolhidas em sua liberdade. Como ficará a “educação” desse aluno, colocado sob seus cuidados? Ele ficará preparado para seguir os passos da família? Ou ele seguirá qual dos seus professores?

Ressalva:  Como eu já expus na republicação do primeiro post sobre o assunto, venho reiterar minha forma de pensar atualizada. Não retiro das tarefas do professor a mais importante que é a de “ensinar competências, habilidades”, pois essa é a finalidade mais importante. Porém, não posso deixar de adicionar a tarefa  de co-educador, de complementador da educação. Se durante muitos séculos ou mesmo milênios os filhos costumavam seguir os passos dos pais, no mundo moderno,  onde se apregoa a liberdade religiosa, liberdade de convicção ideológica, a figura dos vários professores, com sua diversidade, servirão de parâmetros para a escolha a ser feita pelo aluno.  Em um livro que li, encontrei algo que diz mais ou menos o que segue: Se é desejável que o ser humano seja honesto, deverá ter oportunidade de entrar em contato tanto com pessoas honestas quanto desonestas. Só assim poderá julgar o que mais lhe fala ao íntimo, orientando sua escolha. Se é desejável que o ser humano seja ético, deverá poder confrontar situações em que possa comparar atitudes éticas e também anti-éticas. Se é desejável que ele seja generoso, deverá ser capaz de distinguir entre uma ação generosa e uma ação egoísta, fazendo sua escolha.  Poderíamos ficar enumerando um grande número de comportamentos, onde sempre deve prevalecer a livre  escolha do indivíduo e para isso será necessária a oportunidade de comparar. 

Diante do exposto acima, não posso excluir a figura do professor da tarefa de educar. Os pais e demais familiares servirão para dar os primeiros passos, mas sem outros parâmetros, a formação do futuro cidadão ficará capenga. Tenderá a ser parcial e mesmo preconceituosa. 

O outro vídeo foi gravado durante uma palestra em encontro de professores na região oeste paranaense. Vejam:

https://www.youtube.com/watch?v=LAguEpOEBK0

Muito se ouve falar da aversão que grande parte da população nacional tem pela leitura. Armindo em seu livro O professor não é educador, chama atenção para uma questão fundamental. É habitual a pessoa rejeitar aquilo que não sabe fazer, tem dificuldade em aprender, ou que não aprendeu. É o caso da leitura. Armindo defende que é indispensável a dedicação de tempo especial para desenvolver no aluno a técnica da leitura correta. Significa, ler com rapidez e compreender o conteúdo lido. Para isso é essencial que um tempo significativo durante as aulas nas séries iniciais seja dedicado a isso. Como todo o aprendizado posterior depende de leitura e sua compreensão, de nada adianta congestionar o período escolar inicial com inúmeras atividades, em detrimento do aprendizado da leitura. O mesmo acontece com as noções básicas de matemática. Fica impossível aprender os conteúdos dos níveis posteriores, se os conhecimentos básicos não estiverem sedimentados. Começa pela memorização da tabuada. Novamente aparece a objeção muitas vezes levantada contra o uso da memória. Concordo com Armindo, a memória não gasta, não estraga, não diminui com o uso. Muito pelo contrário. Quanto mais é exercitada, melhor ela fica.

Vamos ver um vídeo gravado por Edésio Reichert, tendo por base o livro de Armindo Moreira, abordando a questão da leitura. As estatísticas apontam que temos 70% de analfabetos funcionais. Isto é, pessoas que leem mas não compreendem o que estão lendo. De que nos vale termos a maioria dos cidadãos com um diploma na mão, mas que na verdade não dominam as habilidades necessárias para exercer a função para a qual foram em princípio “formados”? Nos últimos dias foi publicado o resultado do ENEM e uma enorme quantidade de candidatos obteve nota “zero” em redação. O que isso representa? É um alerta para a questão das aprovações sem levar em conta o mérito do aluno. É proibido reprovar. O que é preferível: carregar a frustração de uma reprovação ou levar para o resto da vida a vergonha de não ter habilitação alguma, apesar de um diploma dizer o contrário? Outro exemplo é o periódico exame da OAB, onde milhares de “bacharéis” em direito, tentam em vão conseguir obter seu direito de exercer a advocacia de forma plena. Sem a carteirinha da OAB, assegurando ser o portador apto a defender causas em juízo, fazer petições e toda sorte de demandas jurídicas, nada feito. O diploma não passa de um papel, útil talvez, para emoldurar e pendurar em uma parede e nada mais. Isso é muito pouco.

https://www.youtube.com/watch?v=dcVXx3maSyM

O autor do livro O professor não é educador, vem provocar uma discussão salutar em torno do assunto “educação” e “instrução”. Segundo ele, além de um grande número de profissionais envolvidos na questão, essas palavras não são sinônimos, como é muitas vezes colocado na prática. O fato de termos o MEC – Ministério da Educação e Cultura, é muito mais significativo do que apenas uma sigla altissonante. Em seu bojo reside o fato de tentarmos colocar nos ombros dos professores, preparados para ensinar matemática, português, geografia, história, ciências e todas as demais disciplinas, a carga de “educar” os filhos dos outros. Talvez eles mesmos tenham suas dificuldades em educar os próprios filhos.

Ressalva:

O fato de ser professor, não torna o individuo alheio à tarefa de educar os próprios filhos.  Poderá mesmo levar exemplos de sua experiência doméstica para o meio estudantil, num modo integrado de desempenhar ambas as funções. Se ele (ela)é um bom pai (mãe), tem grande possibilidade de ser também um bom professor. Não se trata de misturar as duas coisas, apenas agir de modo coerente nas ocasiões em que esteja em uma ou outra função. Dessa forma poderá contribuir na complementação da formação dos alunos, não apenas na aquisição de conhecimentos, habilidades e competências, mas em seu modo de viver, de ver a realidade que o cerca, tornando-se um cidadão de verdade. 

Falo por experiência própria. Nossos filhos, adquiriram muito cedo o gosto pela leitura, tanto que mal haviam dominado os rudimentos da escrita e já se lançaram na aventura de ler muitos livros, algumas vezes às escondidas.  Isso por nós os considerarmos ainda não apropriados para a sua idade e não os deixávamos à disposição. Muitos anos depois descobrimos que mesmo assim eles haviam encontrado um meio de te-los em mãos e ler. Não lhes causaram problemas. Tornaram-se sempre ótimos alunos, destacando-se habitualmente entre seus colegas. 

Entre os vários professores com quem tive oportunidade de conviver no período de minha formação, houve alguns, sendo um deles de modo muito especial, marcante na minha vida. Seu nome é Carlos Afonso Schmitt. Foi meu professor de português na segunda série do ginásio, no ano de 1963. Influenciou  minha vida profundamente. Naquele único ano realizou a façanha de me ensinar, assim como aos meus colegas de turma, tudo o que sei da nossa Língua Mãe. Tomei sua figura como exemplo para minha vida posterior quando exerci o magistério por mais de trinta anos. Ser competente, exigente e ao mesmo tempo compreensivo. Essas qualidades eu trouxe daquele ano, hoje longínquo, para minha atuação como professor. Se isso não é educar, eu não sei o que é. Mas é muito mais do que ensinar habilidades e competências. Em muitas ocasiões tenho recebido elogios de antigos alunos, citando muito mais meu comportamento nas salas de aulas, do que minha competência enquanto ensinava matemática e física. E posso dizer de coração. Esses elogios valem muito mais do que qualquer remuneração jamais pode valer ao longo da vida. 

O assunto deve ser longamente debatido, aprofundado e talvez depois, implantada uma mudança real e verdadeira em nosso sistema de ensino. Se queremos desenvolver nossa pátria, não podemos deixar de formar os cidadãos para exercer as diversas atividades que isso traz como consequência.

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Um pouco da história de minha vida. – em Brasnorte – MT( 1 ).

Cachoeira no Rio Sacre Coeur em Brasnorte.
Vista aérea de Brasnorte nos dias de hoje.
Praça de Brasnorte hoje.(Fotografias baixadas da internet, no site da Prefeitura Municipal)

Minha vida em Brasnorte – MT.

No final da década de 70, início dos anos 80, iniciou-se o enchimento da represa da Usina Hidrelétrica de Itaipu, na divisa entre Brasil e Paraguai, represando as águas do Rio Paraná. Com isso, parte da terra pertencente a meu pai, irmãos e uma porção de outras pessoas na região, foram submersas ou ficaram dentro de uma faixa considerada de conservação. Isso gerou uma indenização em dinheiro. De posse desse capital, meu pai investiu uma parte no restante da propriedade, mas um grande percentual foi usado para adquirir uma área de terras mais de 250 alqueires, na Gleba do Rio do Sangue, no estado do Mato Grosso. Posteriormente denominada Brasnorte. Destinava-se essa área para ser dividida entre os cinco filhos ainda não proprietários de terra que eram: Clicério Tomé, Tito Jorge, Terezinha Marisa, Elvenete e Décio(eu). Feita a divisão e aprovada pelo INCRA, foi lavrada a escritura no nome de cada um de nós.
Este era o folheto de propaganda distribuído pela colonizadora da área, decantando as virtudes e maravilhas da floresta, suas riquezas inigualáveis em todos os sentidos. As imagens mostradas eram de um lugar em plena fase de implantação, viveiros de mudas para plantio de café, seringueiras e uma área urbana projetada, em fase avançada de urbanização, dadas as circunstâncias de ser em meio à floresta amazônica.
No jornal Folha de Londrina era veiculada propaganda constantemente, convidando os colonos paranaenses e de outros estados sulinos a participarem desse grande empreendimento. Os interessados em conhecer a colonização eram levados em aviões para lá, era-lhes mostrada uma demarcação e algumas coisas realmente existentes. Muitos foram convencidos a entrarem na aventura. Um deles foi meu irmão Agileu Aloísio, com sua esposa Catarina e filho Evandro Luis, mudando-se para lá em 1982/83. Logo a seguir chegou meu pai e também comprou a terra que repartiu entre nós. Eu era nessa época professor do CEFET-PR, UCP(hoje PUC-PR), e CEP – Colégio Estadual do Paraná.
 O que os colonos encontraram, foi um projeto de área urbana, com algumas ruas abertas com trator de esteira, um hotel construído, uma ou outra casa e o resto era mato. Cada comprador tinha direito a um lote urbano, porém antes de poder pensar em construir sua casa era preciso retirar o mato. Depois providenciar a madeira serrada. A matéria prima existia, o problema era transformá-la em tábuas, vigas, ripas, portas, janelas. Formou-se um imenso espaço cheio de lonas, servindo de abrigo inicialmente. A carne era conseguida caçando e pescando
nos rios existentes na região. Nem sempre era fácil pegar o peixe. As águas eram transparentes, dificultando a fisgada.
Aos poucos foi posta em funcionamento uma escola, depois convertida em Escola Estadual Ewaldo Meyer Roderjan. Muitos colonos tinham suas terras situadas muitos quilômetros mato adentro e as estradas eram precárias, quando não meras picadas ou mesmo inexistentes. O tempo passou e um grande número dos que inicialmente moraram na área urbana, fizeram suas moradias na área de terras. Assim estavam junto do seu lugar de trabalho, tendo apenas que se deslocar vez ou outra para a “vila” em busca de suprimentos.
Em julho de 1985 viajei para lá a fim de conhecer o lugar e visitar meu irmão. Era o período da estiagem(seca), quando as estradas eram transitáveis, apenas bastante poeirentas e cheias das chamadas “costelas de vaca”. Uma especie de ondulação, tipo marola, que é formada pelo acúmulo de areia em alguns pontos, provocando uma trepidação quase insuportável. Era uma realidade totalmente diferente do que eu conhecera na infância na roça, e depois na região de Foz do Iguaçú e São Miguel do Iguaçú. No entanto pensava que seria um período inicial para adaptação e aos poucos o progresso chegaria naquele lugar. Já vira isso ocorrer em outros lugares. Todo começo é difícil, ainda mais levando em consideração as distâncias a percorrer até encontrar ajuda e socorro, que eram grandes, somando-se à isso a precaridade das vias de comunicação (estradas). Havia o recurso de pequenos aviões aterrissarem em uma pista de pouso e decolagem existente, mas era limitado a transporte de pessoas e cargas mínimas.
Eis um trecho da estrada entre Brasnorte e Juina no período da seca. Dá para ter uma ideia do estado que estava a roupa, o corpo, enfim tudo que estivesse nos veículos ao final da viagem. Cheguei em Tangará da Serra e ali pedi informação sobre o modo de seguir. Casualmente encontrei com o Senhor Ivani Ferrari, que estava ali de carro, um corcel II, e me ofereceu carona. Aceitei, pois o ônibus demoraria muitas horas para sair e provavelmente eu chegaria apenas na manhã seguinte. Assim cheguei a casa de meu irmão antes da meia noite.

Eis aí uma ponte na região. Abaixo uma visão mais recente de um local à beira de um dos rios que cortam o território.

Passei por essa ponte de ônibus e de carro em diversas ocasiões. Dava a impressão de que a qualquer momento afundaríamos nas águas do rio.

Fiquei por lá algo em torno de uma semana. Encontrei com o Senhor Ezequias Vicente da Silva, dono do cartório e um dos líderes políticos locais. Casualmente ocupava também a posição de Vice-prefeito de Diamantino, município ao qual Brasnorte era subordinada. Podem imaginar, a sede e um distrito separados territorialmente por outros municípios e uma distância de mais ou menos 500 quilômetros de estrada, na maior parte péssima. Deixei meu curriculum, cópias do meu diploma e demais certificados de cursos como Especialização em Metodologia do Ensino Superior pela UFRGS, além de vários outros cursos de 40 horas de duração. Eu seria um avanço qualitativo para a escola local, dada a quase total inexistência de professores habilitados na região. Procurei uma fotografia do prédio que então abrigava a Escola Estadual. Era todo em madeira, poucas salas de aulas, ocupava uma quadra inteira, sendo a maior parte de terra limpa, onde apenas crescia mato, uma quadra de esportes descoberta e mal conservada. No período noturno, um motor diesel acionava um gerador produzindo a energia para iluminar as salas, tudo funcionando de modo precário. Era diretora da escola nessa época a Professora Célia Barranco Passamani, esposa do vereador Adão Passamani.
Mangueira de gado do meu irmão Agileu
mangueira de gado

Algumas fotografias da fazenda de meu irmão na época de minha visita em 1985. Ainda são bem visíveis os restos da floresta recentemente removida. A pastagem começando a ficar seca devido à estiagem, obrigando a um manejo e suplementação de alimentação para manter os animais em bom estado. O reinício da estação chuvosa é sempre incerta. Por vezes já em setembro caem as primeiras pancadas de água, outras só em outubro e mesmo início de novembro. Com o passar dos anos o povo se acostumou e aprendeu a fazer uso de recursos varios para superar essas dificuldades. A fotografia acima mostra uma pequena represa onde o gado bebia e havia alguns peixes. Serviam para inserir uma variação no cardápio da família de vez em quando.

Poderíamos perguntar:  – Onde ficou o café? A seringueira?

Primeiro, o clima e o solo não é o melhor para cultivar café, nem mesmo as variedades mais resistentes. A seringueira, sofria com a falta de fornecimento de mudas e assistência fito sanitária adequada. Houve algumas tentativas de plantio, mas a maioria desistiu. Havia uma linha de crédito junto ao BB, mas era necessário ir até Juína, ou então Tangará da Serra, coisa que poderia ser algo demorado, dependendo das condições do tempo e estradas. Tudo contribuía para desestimular os menos persistentes. Mesmo os mais calejados fraquejavam em muitos momentos.

Houve tentativas de plantio de Cacau e também de Guaraná, porém nenhuma delas deu os frutos esperados. Creio mais devido à falta de assistência e orientação adequada, do que aos problemas de solo propriamente. Isso eu posso testemunhar. Bastavam alguns cuidados especiais e se conseguia produzir de tudo, praticamente. Na chácara onde morei depois, havia produção de abacaxi, bananas, frutas variadas, mandioca e hortaliças. Bastavam os cuidados que em toda parte são exigidos, acrescidos de alguma coisa específica.

Outra cultura que foi apontada como uma perspectiva de futuro era a pimenta do reino. Novamente esbarrava-se na falta de assistência, apoio e especialmente obtenção de mudas para plantar. Além disso, tratavam-se de culturas exóticas para a imensa e esmagadora maioria dos moradores que vieram se fixar na região, na esperança de dias melhores. No correr dos anos muitos deixaram o lugar indo para mais longe, como Aripuanã, Cotriguaçu. Houve também alguns que empreenderam o caminho de volta, não sem levar na bagagem uma imensa decepção, além de considerável prejuízo financeiro resultante do baixo valor das terras.

Na foto abaixo vemos um mamoeiro carregado, a produção de mangas de diversas variedades, caju cresce igual mato, fruta do conde, jacas e outras espécies de frutas. É uma área perfeitamente capaz de produzir, desde que feito o manejo adequado do solo. Em tudo faltava o apoio de agências de fomento ou se existiam estavam fora do alcance da grande parcela do povo menos aquinhoado de recursos. Tudo isso gerou certamente bastante atraso no desenvolvimento da região. A quase inexistência de infraestrutura na área de saúde e órgãos de administração pública foi outra carência fortemente sentida pelo povo. Mas os anos passaram e hoje se nota alguma coisa mais esperançosa com certeza.

Voltei, pensando seriamente se seria conveniente trocar minha então confortável posição de professor efetivo no Estado do Paraná (CEP) e CEFET-PR(então já não trabalhava mais na UCP). Havia tido um problema sério de saúde por sobrecarga de trabalho e reduzira o número de aulas diárias. Preferível ganhar menos, mas viver mais. Tinha filhos pequenos, casa recém comprada por pagar. De nada adiantaria estar, de uma hora para outra transformado em inválido. Em vez de ganhar, dar despesas e trabalho a quem não estava em condições de ajudar(filhos pequenos) ou sobrecarregada(minha esposa). No entanto trazia comigo a vontade de oferecer aos filhos e esposa uma vida mais simples. Sentia-me cansado da vida na cidade, com sua correria, muito trabalho e pouco lazer. Também tinha o desejo de mostrar ao meu pai que era grato pelo que ele me dera, a terra. Iria cultivar e progredir, demonstrando assim a gratidão. Daria valor ao presente.
Com esses pensamentos chegou maio de 1986 e recebi um telefonema de Tangará da Serra. Era Frei Natalino Vian, capuchinho, sediado na Paróquia. Estava ao seu encargo atender aquela região inteira, percorrendo todos aqueles rincões em seu “raio”, um toyota cabine dupla, com caçamba. A cor era um marrão claro, quase da cor da terra do lugar. Esse telefonema me informou de que estariam abertas até determinado dia as inscrições para o concurso de professores em todo estado de Mato Grosso e, se quisesse ir trabalhar em Brasnorte, deveria me inscrever. Em tempo recorde arrumei o dinheiro, penhorando na CEF as nossas poucas jóias(até meu anel de formatura). Embarquei numa quarta feira à noite e cheguei em Cuiabá na madrugada de sexta-feira, em viagem ininterrupta, parando apenas para comer e respirar um pouco. Em uma ou duas horas estava novamente num ônibus que me deixou em Diamantino, às 10 horas. Para minha surpresa, ao chegar na DREC – Delegacia Regional de Ensino, fui informado de que o período das inscrições fora adiado, iniciando na semana seguinte e indo até determinado dia.

Voltei de imediato para Cuiabá. Dali consegui falar por telefone com Frei Natalino, que se encarregou de fazer a inscrição, bastando para isso enviar por correio urgentemente os documentos necessários. Embarquei para Curitiba, para não perder mais aulas. Bastavam dois dias a serem repostos, em concordância com os alunos. Poderia deixar de repor, porém sofreria duplo prejuízo. Primeiro e imediato o desconto das aulas não dadas do salário. Segundo, na hora de solicitar um outro direito, a licença prêmio, essas faltas impediriam o gozo desse benefício. Havia portanto motivo suficiente para evitar faltas desnecessárias e repor as aulas eventualmente deixadas de dar.

A inscrição foi efetuada e começou a espera pela marcação da data das provas. Final de setembro chegou a notícia e seria nos mês de outubro, apenas não lembro o dia. Novamente viajei no mesmo esquema, apenas embarcando na quinta feira à noite, chegando em Diamantino na manhã de sábado. As provas seriam realizadas na manhã de domingo. Aproveitei para conhecer o local onde faria a prova, depois deitei e dormi a tarde inteira. Viera estudando no ônibus, recordando os conteúdos pouco usados, pois lecionava mais física e estava inscrito em matemática do segundo grau. O livro usado era o de Manoel Jairo Bezerra. Pretendia passar a tarde estudando mais um pouco. O cansaço predominou e decidi tirar um cochilo depois do almoço. Dormi até perto das 8 horas da noite. Fui jantar e decidi deixar os estudos de lado. Assisti um pouco de TV e voltei a dormir. No outro dia estava cedo perto da porta de entrada. O tempo disponível para a prova era de 4 h e 30 minutos.

Foram 100 questões, sendo 20 de português, 20 de didática, 20 de psicologia e 40 de matemática. Entreguei o cartão de respostas no exato momento em que tocou o sinal encerrando a prova. Em meia hora foi divulgado o gabarito. Os cadernos de prova ficavam com a gente e conferi. Acertara 19 de português, 18 de didática e 17 de psicologia. Já das 40 de matemática, acertara 24. Aparentemente pouco, mas vinha atuando em física há alguns anos e isso fez esquecer algumas coisas. Mesmo assim, a pontuação seria suficiente para ser aprovado(50%) em todas as matérias. Almocei e fui para a rodoviária. Encontrei uma multidão de candidatos esperando ônibus para diversos destinos. Não consegui ver um único rosto sereno. O número total de acertos era, invariavelmente abaixo de 50 questões, significando que ali ninguém estaria aprovado. Não sei dizer, mas parece que o índice de aprovação geral, em todas as disciplinas foi baixíssimo. Em novembro ou dezembro saiu o resultado e, como o esperado eu fora aprovado.

No dia 02 de fevereiro saiu no DO do Estado do Mato Grosso minha nomeação para professor na Escola Estadual Evaldo Meyer Roderjan, na cidade de Brasnorte. Havia um período de trinta dias se não me falha a memória para assumir o cargo.

(Essa parte vou contar no próximo artigo).

Fotorgrafias do prédio que atualmente abriga a EEEMR. Parte dele já existia na época em que eu voltei para Curitiba em maio de 1993.

OBS.: As imagens do folheto, da página do jornal Folha de Londrina e duas fotos que vem a seguir, fazem parte da dissertação de mestrado em História, de Jonas Lemuel Kempa, disponível na internet. Basta digitar no buscador do Google o nome dele e aparece na primeira posição dos resultados.

Publicação original feita em dezembro de 2014. 

Remodelado em 15 de dezembro de 2019. 

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