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Na senda dos monges! – Capítulo XV – Construindo a moradia.

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Vista aérea de SC

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Canions de SC

  1. Construindo a moradia.

 

As semanas seguintes foram de intenso trabalho. Aos poucos a beira dor rio ficou pronta para atracar o barco e fazer a carga/descarga da madeira. Na continuação as toras começaram a se acumular nas proximidades. Derrubaram as araucárias e imbuias mais próximas, para facilitar o transporte até a margem. Duas juntas de bois emprestadas pelo vizinho Francisco, junto com uma carreta, se encarregavam de transportar os pesados troncos para perto da margem. Cada árvore fornecia sozinha uma porção de toras, especialmente as araucárias que alcançavam mais de trinta metros de tronco próprio para madeira serrada.

Depois de um mês e meio estavam terminando a preparação e transporte das toras. Nessa época chegou o recado do dono da serraria, avisando que o suprimento de madeiras serradas estava ficando pronta. Em uma semana poderiam ser transportadas para a propriedade. O senhor Carlos, passando rio acima, viu o local preparado e parou para verificar. Deu algumas orientações complementares e prometeu trazer as madeiras, telhas e mais alguns suprimentos já adquiridos no povoado. Dessa forma logo estariam começando a construir a casa.

No pasto as vacas haviam terminado de parir, trazendo um bom número de machos, junto com algumas fêmeas. A pastagem abundante se encarregava de manter os animais com boa saúde, bem alimentados. As novilhas estavam cobertas e os touros agora pastavam tranquilos, embora separados, pois ficando juntos poderiam se empenhar em brigas. Não era conveniente permitir que isso acontecesse, pois poderiam se matar em alguns casos, dependendo da teimosia que um deles demonstrasse.

Ao completarem-se dois meses da morte de Trovão distante, num dia de sol, perto da hora do meio dia, ouviu-se o apito do barco. Era Carlos trazendo as madeiras serradas, além dos demais suprimentos. Teriam muito trabalho para descarregar tudo e levar para a sede da propriedade, bem como carregar as toras, que ficariam empilhadas sobre o convés do barco. O propulsor viera na potência máxima do povoado até ali. Tivera que vencer a correnteza do rio, levando a carga próxima da máxima capacidade. Na volta poderia levar um pouco mais, uma vez que o esforço necessário para descer a correnteza, seria menor.

Foi necessário fazer três viagens para levar todas as madeiras, incluindo o pagamento da serragem, bem como o transporte. O vizinho Francisco e dois dos seus filhos ajudaram a transportar as madeiras, enquanto os irmãos Batista, ajudavam os auxiliares de Carlos no processo de carregamento das toras. Foi uma semana intensa de transporte de madeiras e outros suprimentos para a propriedade dos irmãos, trazendo toras no retorno. Lua Serena, com o filho nos braços, via maravilhada a pilha de tábuas, vigas e ripas aumentando gradualmente. Logo estariam iniciando a construção de uma casa na qual iriam morar. Tivera oportunidade de ver casas feitas de tábuas em algumas oportunidades, mas nunca morara em uma delas.

O inverno estava chegando perto do fim. Provavelmente no próximo inverno estariam morando na casa nova. A cabana ficaria como lembrança do tempo que vivera ali sozinha com o avô. Ela era a última representante da família primitiva que sobrevivera. Agora tinha seu filho, nascido de seu amor pelo homem branco ao qual ajudara o avô Trovão salvar da morte quando ali chegara, ferido com tiro de arma de fogo. Mais alguns dentes haviam nascido na boca do pequeno. Agora era comum testar sua nova capacidade para morder tudo que estivesse ao seu alcance.

Depois de receber todas as mercadorias para construir a casa e entregar as toras do pagamento, João e Pedro cuidaram do plantio de milho, feijão e mandioca, além de um pedaço de arroz num trecho de várzea. Depois de feito o plantio, iriam começar a construção da casa. Os peões estavam sempre ocupados nos cuidados com os animais. As novilhas estavam começando a apresentar os sinais de sua prenhes. Em alguns meses teriam um belo lote de bezerros para apartar. Seria necessário contratarem mais um peão para ajudar. Queriam terminar a construção até o começo do ano de 1997, quando João faria uma visita à família.

Era chegado o momento de apresentar a nova família que constituíra. De tempos em tempos vinha uma carta ou um recado trazido por tropeiros que vinham buscar erva mate para vender na região de Passo Fundo e Santa Maria. Iria verificar a possibilidade de obter um suprimento de dinheiro para investir na nova propriedade. Tinham muitas instalações para concluir e assim melhorar a propriedade. Os vizinhos Senhor Francisco e filhos, ajudaram bastante na construção. O pagamento foi feito com algumas bezerras para aumentar a criação de gado da pequena propriedade familiar. Estavam ali para se ajudarem mutuamente.

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Propriedade na região catarinense de imigração.

No final de janeiro, a casa estava praticamente pronta. Faltavam apenas os móveis e estes teriam que ser trazidos de fora. Não havia ali quem fabricasse. A outra opção seria contratar um marceneiro para fazer o serviço no local, mas isso no momento estava fora das possibilidades. João e família, juntaram-se a um grupo de tropeiros que seguia para o Rio Grande do Sul. Foram alguns dias longos de caminhada, mas afinal chegaram ao destino. Antônio, Isabelita e Isabel, lhes fizeram uma calorosa recepção. Isabel, logo estava com o irmão, ainda caminhando devagar, levando-o a todos os cantos da sede da Estância.

Lua foi recebida com afeto pelos sogros, pelos cunhados e pela enteada Isabel. Passaram duas semanas revendo todos os conhecidos das redondezas. João matou a saudade que sentira de todos os cantos da propriedade que ajudara a construir anos passados. Tinha vontade de ir até Santa Maria, visitar os tios que ainda estavam morando por lá, embora já não mais em atividade. Os filhos agora ocupavam os cargos de capataz e administradores das propriedades. Os donos haviam se mudado para a cidade e apareciam de vez em quando para ver como estavam andando as coisas. Mas o tempo disponível era curto e enviou uma carta para cada um, informando detalhadamente o que acontecera com sua vida. Enviava convite para lhe fazerem visitas no novo endereço.

Agora estava empenhado em levantar do nada uma nova propriedade. Ali, apesar das periódicas dificuldades devidas às oscilações econômicas do país, havia uma significativa prosperidade. Ao retornarem, trazia uma boa soma em dinheiro para investir, além de tratar da produção dos móveis, portas, janelas da casa. Trouxe também dois peões para o trabalho na fazenda. Conseguira duas parelhas de bois com um carroção e uma carreta para transporte. Seriam úteis na nova fazenda. Agora mesmo serviam para transportar algumas coisas que de outra forma seria inviável levar.

João aproveitara para batizar o filho, na ocasião em que o padre estava na vizinhança. Até agora fora sempre chamado de Curumim, menino em guarani, mas era preciso lhe dar um nome. Lembrou o avô Afonso. Luz Serena aprovou e assim ele foi tornado cristão com o nome Afonso Batista. Levaria algum tempo para Lua acostumar-se a chamar o filho por esse nome, mas não poderia ficar sendo para sempre “curumim”. A viagem de retorno foi demorada. Os bois puxando as carretas não conseguiam desenvolver uma velocidade boa, pois a estrada era difícil e a carga que levavam considerável. Dessa forma gastaram quase um mês para chegar.

No entardecer de um dia no final de fevereiro, finalmente estavam chegando diante da casa, agora pronta. Pedro, mesmo sem as ferramentas apropriadas, soubera improvisar e fizera janelas, portas, mesmo alguns móveis rústicos para servirem no início. Era possível habitar na casa. Não mais teriam que viver na cabana. Pedro ficou contente com as novidades trazidas por João e também com o nome que o sobrinho agora recebera. Pedro lembrou que ainda não tinha família. Sempre dedicara seu tempo ao trabalho e esquecera de encontrar uma mulher para ser sua companheira. Ainda havia tempo para isso. João, depois de anos viúvo, com uma filha quase moça, encontrara nova esposa. Ele também haveria de encontrar alguém pela redondeza.

Os carros foram descarregados, os bois soltos no pasto existente nas proximidades da casa e logo se puseram a comer avidamente o capim abundante ali existente. Os novos utensílios foram colocados em seus lugares, os leitos arrumados e jantar preparado. O fogão fora erguido num canto da ampla cozinha, feito de pedras de arenito e chaminé de tijolos. Era amplo e funcionava bem, não espalhando fumaça no ambiente. O pequeno Afonso, havia se acostumado com as casas na fazenda dos tios e avós, portanto não estranhou a nova casa. Apenas estava curioso por explorar todos os recantos, pelo menos onde a luz do candeeiro alcançava. No escuro não se aventurava. Temia talvez a existência de algo invisível ou então objetos com que pudesse se chocar.

Os novos peões foram integrados à equipe, aliviando a carga dos três que vinham se ressentindo do excesso de trabalho. Agora daria tempo de terem uma folga de vez em quando. Afinal também eram filhos de Deus e gostavam de dar uma volta vez ou outra. Nos meses do outono que iniciava logo, além de colher o milho, cortar e guardar as ramas de mandioca, preparar o melado de cana para consumo no resto do ano, era preciso extrair o máximo de erva mate do meio dos pinheirais. Era usada no consumo próprio e vendida para os tropeiros que levavam o produto para o litoral, bem como para o Rio Grande do Sul. Pedro estava empenhado em melhorar o sistema de moagem da erva, aperfeiçoando o acionamento dos monjolos. Usaria uma roda movida pela água que tornava o mecanismo mais leve e eficiente. Permitiria a preparação de um volume bem maior do produto, em menos tempo.

João ajudou no que podia. Haviam sobrado tábuas e vigas da construção da casa e estas foram usadas nas instalações da moagem de erva. Na hora de fazer o serviço estava tudo pronto. Prepararam um grande estoque de erva, trabalhando em parceria com os vizinhos seu Francisco e filhos, além de contratarem dois trabalhadores temporários. Valia a pena pagar a diária e depois obter o lucro com o produto vendido a bom preço. Muitos moradores da região extraiam a erva e apenas preparavam, mas não tinham como moer. Isso os fazia perder uma parte do valor final, pois o comprador precisaria arcar com os custos de moagem, sem contar com as possíveis perdas ocorridas nesse processo.

Durante o outono nasceu o lote de bezerros, filhos das novilhas trazidas por Pedro no ano anterior. Houve apenas uma perda. Uma cobra cascavel estava nas proximidades e mordera o animalzinho ao chegar perto de seu local de repouso. A roça de milho rendera boa colheita, permitindo alimentar os animais e também debulhar para fazer farinha. Um pilão adaptado do moinho de erva, era usado para esmagar os grãos de milho. Depois com uma peneira, separava-se o fubá. Com ele era preparada a polenta, bolos e pão, tendo um pouco de farinha de trigo misturado. Trigo era produto difícil nesses tempos. Precisava ser usado com parcimônia, pois vinha de longe. Na região ainda não existiam moinhos que fizessem farinha de trigo.

Com tudo isso a dieta da família ficou enriquecida. Além das frutas, mandioca, leite e pinhão, havia agora também o fubá, o peixe do rio era sempre uma fonte de proteína, pois existia em abundância.  Em meio a essa azáfama toda, Pedro teve uma ideia. Pegou um cepo de madeira, a chapa de uma lata que estragara o fundo, recortou-a e ajustou sobre o cepo. Antes de fixar, usou um prego e fez uma grande quantidade de furos na chapa. Depois envolveu o cepo com a chapa, pondo os furos com as farpas viradas para fora. Dessa forma fabricou um ralador de mandioca. Construiu um cavalete e instalou a engenhoca de modo a ser possível fazer girar com a força da roda d’água.

Com ajuda de João e um dos peões, arrancaram uma boa quantidade de mandioca. Lua também ajudou e passaram horas raspando as mandiocas para remover a terra e a casca externa. Ralaram a mandioca e da massa extraíram o polvilho. Puseram a massa para secar, obtendo um bom suprimento de farinha que torraram para melhor conservação. Os vizinhos quando viram o resultado, pediram para usar o ralador e também prepararam uma remessa de polvilho, mas principalmente a farinha era o que lhes interessava. O polvilho ficou de ótima qualidade, permitindo a preparação de uma porção de pratos saborosos.

A esposa de Francisco ensinou Lua fazer biscoitos e outros alimentos que o polvilho permitia fazer. Aos poucos a jovem indígena, até questão de dois anos passados, vivendo de caça, pesca e frutos colhidos na floresta, se transformou em uma exímia dona de casa. O filho, agora com mais idade e atendendo pelo seu novo nome, apreciava cada prato que a mãe preparava. Geralmente era o primeiro a experimentar qualquer novidade. A farinha de mandioca era ótimo suplemento alimentar em várias situações. Junto com a carne, leite, farofas, pirão de peixe e angu, virado de feijão era ingrediente básico.

O inverno terminou e nova primavera estava aí. A rotina da propriedade se estabeleceu. Plantar, pastorear o gado, controlar as ervas daninhas na roça, cultivar a horta onde cresciam belos repolhos, tomates, alfaces e demais hortaliças. Lua tomara especial gosto pelo cultivo da horta. Deixava os vegetais para preparação das refeições, a poucos passos da cozinha, facilitando sua vida significativamente.  Em outubro, quando o plantio estava sendo terminado, Lua sentiu novamente que algo diferente ocorria em seu corpo. Não tardou e tudo se confirmou. Estava novamente grávida. O pequeno Afonso teria um irmão ou talvez irmã. À noite, quando se deitaram, abraçou João delicadamente e lhe cochichou no ouvido:

– Meu valente guerreiro!

– O que você tem, meu amor? Quando você me chama assim, alguma coisa está acontecendo.

– Você vai ser pai outra vez. Nosso curumim vai ter um irmão.

Os primeiros instantes foram de estupefação e depois se transformaram em uma grande alegria. O coração de João, já estava conformado com o fato de ficar velho e ter apenas um filho, além da filha que morava com os avós. Saber que seria pai novamente, foi suficiente para lhe tirar o sono por algumas horas. A excitação era muito grande para poder dormir. Contemplou longamente o filho adormecido em seu leito ao lado, acariciou o rosto e cabelo da mulher, depois as curvas de seu corpo, terminando por se amarem apaixonadamente. Pensara seriamente que iria morrer na ocasião em que fora ferido. Agora tinha mulher, um filho que dormia ali ao lado e uma companheira como Lua Serena, pronta a lhe dar mais uma vez a graça da paternidade. Finalmente dormiram abraçados e exaustos.

No dia seguinte não se conteve e contou a novidade ao irmão. Nesse momento Pedro falou:

– Eu vou procurar pela redondeza uma moça que me aceite por marido e vou formar família também.

– Excelente ideia, Pedro. Viver sozinho, mesmo em família, é muito triste. Precisamos de uma mulher e filhos para nos sentirmos realmente vivos.

– Trabalhei tanto desde pequeno que acabei esquecendo desse lado da vida. Vi nossos sobrinhos nascer, mas sempre imaginava que para mim isso era coisa distante. Quase passo pela vida sem lembrar que eu existo.

– Pois tire um dia de folga, um domingo, feriado e dê umas volteadas pelas vilas e povoados. Há de ter uma guria por essas bandas que se agrade de um gaúcho guapo como tu. A casa é grande e para começar podemos morar todos aqui mesmo. Depois com o tempo, fazemos outra para vocês.

– Estou precisando de umas ferramentas para marcenaria e acho que vou encontrar isso só lá por Curitibanos. No caminho vou bombeando para ver se encontro alguma prenda que me agrade.

– Então vai logo. Não perca mais tempo, mano velho!

– Vou preparar tudo e parto amanhã. Vou até o povoado e lá me informo a melhor forma de chegar até a cidade. Então sigo caminho e em quatro ou cindo dias estou de volta.

– Nem precisa se apressar demais. No momento até que o serviço está folgado. Mais para frente aperta e fica complicado.

No dia seguinte Pedro seguiu para o povoado próximo e de lá foi para Curitibanos, onde pretendia comprar algumas peças de ferramentas que não dispunha. Eram necessárias para alguns detalhes de marcenaria mais fina que queria utilizar para concluir a parte do mobiliário da casa.

Durante a viagem para o Rio Grande, João vira a atividade de construção da ferrovia EFSP-RG. Uma parte da obra estava em andamento, vindo de Santa Maria. O trecho fora demarcado e dividido em lotes. Em cada lote um contingente de trabalhadores passava os dias mourejando na movimentação de terra, escavação do leito, pequenos túneis, aterros. Sobre os riachos era preciso construir pontes reforçadas, com pedras, barras de ferro. O trem passando por cima era diferente de uma carroça ou uma tropa de bois. Exigia-se uma estrutura firme e resistente. Havia ouvido dizer que a estrada iria passar não longe de onde moravam, apenas na margem oposta do rio. Torcia para que não decidissem passar a estrada pela sua nova propriedade. O transporte de trem, lhe haviam dito, era coisa boa. Rápido, barato e seguro, mas a ele não trazia boas lembranças, uma vez que acabara com o negócio das tropas. As mulas tinham sido substituídas pelas locomotivas e vagões no interior de São Paulo e algumas regiões de Minas Gerais.

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Paisagem rural nos tempos modernos, Cerro Negro-SC

Talvez Pedro trouxesse novidades ao voltar de Curitibanos, com relação à estrada de ferro. Quando ainda lidava com tropas, vira um grupo de pessoas, percorrendo aquele sertão, deixando marcos em diversos pontos. Estavam estudando a viabilidade de construir uma estrada de ferro por ali. Quase ninguém acreditava nisso naquele tempo. Depois com a queda do império e advento da república, parecera ter morrido na casca a ideia. Estiveram enganados. O projeto estava em andamento e, dia mais, dia menos, veriam os trilhos passar em algum ponto daquelas plagas.

Pedro retornou depois de uma semana. Chegou acompanhado de uma bela mulher. Jovem, de cabelos louros e feições delicadas. Montava um cavalo zaino e apeou com destreza. Nem esperou por ajuda. Sinal de que pelo menos montar a cavalo sabia e era ágil. Era filha de um pequeno sitiante do outro lado do rio e aceitara sem delongas casar-se com ele. Estava há tempo esperando por um moço que a pedisse em casamento. Filha caçula de uma família de cinco irmãos e mais seis irmãs, boa parte ainda solteiros, não titubeara em aceitar. Haviam ido até um juiz de paz, bem como aproveitado a presença do padre na região e celebraram o casamento.

Nos primeiros dias dormiriam em duas camas de solteiro, até que Pedro fizesse uma de casal. O resto viria com o passar do tempo. Felizmente ele encontrara as ferramentas de que necessitava e se abastecera com alguns recursos mais modernos que facilitariam o seu trabalho. Naquela noite fizeram um jantar mais elaborado para comemorar o enlace matrimonial. A jovem era despachada, hábil cozinheira e também costureira. Trazia em sua bagagem uma máquina de costura acionada a mão e poderia costurar as roupas da família. Uma preciosa aquisição. Os peões com frequência usavam de suas facas e tiras de couro para remendar os fundilhos de suas calças, desgastadas de tanto andar montado. Com certeza apreciariam uma roupa mais refinada costurada em máquina.

Lua ficou encantada com a máquina, coisa que nunca vira. Ficou curiosa por ver funcionando, mas se absteve de mexer com medo de causar algum dano ou mesmo se ferir. Pedro falara a esposa Rosa Maria que a cunhada era descendente de índios e estava no começo de sua segunda gestação. Dessa forma haviam comprado alguns pedaços de pano para costurar roupinhas para criança, cueiros, faixas e casaquinhos. Eram coisas que se usava em quantidade, especialmente nos primeiros meses de via do pimpolho.

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Locais de turismo na era moderna.

Em Curitibanos Pedro ouvira vários rumores sobre a estrada de ferro. Porém ainda não havia sinais de início dos trabalhos na região. Sabia-se que o outro ponto de início da construção era a vila de Ponta Grossa no Paraná, seguindo uma frente de trabalho no sentido de São Paulo e a outra no sentido sul. A última parte pelo visto seria através do vale do Rio do Peixe, parte do território contestado pelos governos dos estados de Santa Catarina e Paraná. O processo fora julgado favorável ao governo catarinense, mas o Paraná não aceitava a demarcação definitiva, gerando um clima de insegurança entre os moradores. Não sabiam se pertenciam a um ou outro estado. Deveriam se dirigir às autoridades de um ou outro lado? Ninguém sabia.

O que resultava dessa desavença era o fato de que tanto um quanto outro governo usava de sua autoridade sobre as terras devolutas para conceder títulos de propriedade a quem os requeresse. O que não raro causava conflitos. Mas o que mais preocupara a todos em geral, tanto de um quanto de outro lado, era a concessão de uma larga faixa de terra à companhia construtora da ferrovia, para exploração da madeira, loteamento e colonização. Isso estava preocupando especialmente aos posseiros, como o caso de João e Pedro, uma vez que apenas ocupavam a terra e não dispunham de recursos para legalizar a propriedade junto ao governo. Aliás nem sequer sabiam a qual dos governos estaduais deveriam ir para requerer, caso tivessem condições para tanto.

Como a ferrovia ainda parecia coisa distante, deixariam para se preocupar com ela quando chegasse a hora. Por enquanto tratariam de fazer progredir sua propriedade, implantar benfeitorias, fazer roças, pastagens e criar seu gado. Quanto melhor estivessem financeiramente, melhores chances teriam para sair de dificuldades no momento oportuno.

Pedro tratou de fazer nos próximos dias uma bela cama para nela dormir com a esposa. Essa por sua vez logo tomou pé da situação e começou a se empenhar em ajudar. Participava dos cuidados com a horta, limpeza da roça e até ia junto com o marido nas lides com o gado. Por precaução ele não a deixava participar das ações mais arriscadas, com medo de que se ferisse com gravidade. Tendo visto os olhos de Lua admirando a bela cama que fizera, decidiu fazer uma também para o irmão. Aproveitou a que usavam, apenas adaptou uma cabeceira e pé trabalhados. Dessa forma também a cunhada tinha uma cama bonita, não apenas um estrado com um saco cheio de palhas encima. O colchão era feito de tecido macio, mas forte, recheado de palha de milho.

Toda manhã a palha era remexida para ficar mais fofa e depois coberto com um lençol. A jovem esposa, embora conhecendo os detalhes da vida, era inexperiente em questão de homem. Com humildade perguntou à cunhada algumas coisas a respeito, sendo que ela também aprendera sozinha. Nunca convivera com sua mãe, nem tivera irmã. Na verdade, se tornaram confidentes uma da outra e se ajudavam. Maria Rosa, imaginou que logo também estaria grávida, e precisaria das orientações de Lua. A família morava há três léguas de distância, tornando inviável um pedido de ajuda à mãe ou irmã. Via em Lua uma amiga, companheira e apoio.

Os meses passaram, o filho de Lua nasceu, com ajuda de Maria Rosa, embora também fosse inexperiente. Mas Lua já sabia como era e a orientou. Logo seria sua vez, pois engravidara no terceiro mês depois do casamento. Assim, dentro de pouco tempo seria ela a estar deitada, aos cuidados de Lua para ter seu filho. Dessa vez João escolheu para o filho o nome Roque, em homenagem ao mártir Roque Gonzalez. O avô Afonso com certeza ficaria contente. Ele próprio recebera o nome em homenagem ao outro mártir, Afonso Rodrigues.

Pedro por sua vez estava num contentamento sem tamanho. Em questão de dois a três meses Rosa Maria lhe daria o primeiro filho. Pedira a João para escrever uma carta aos pais informando de seu casamento e do próximo nascimento de um filho. Na mesma ocasião também já foram informados da nova gravidez de Lua. O que ninguém esperava era a chegada de Antônio, Isabelita, Isabel e um dos netos. Haviam se juntado a um grupo de tropeiros e conseguiram chegar ao povoado. Dali vieram de carona com Carlos, que casualmente estava subindo o rio levar mercadorias a um morador alguns quilômetros acima. Soou o apito algumas vezes e atracou.

Com cuidado desembarcou os passageiros. Ao ouvir o apito insistente, Pedro saltou sobre o cavalo que estava selado e foi na direção do rio. Ao chegar teve a maior surpresa. Decidiu deixar os viajantes descansando na beira do rio enquanto ia em busca da carroça para transportar as bagagens e também a eles mesmos. Ao retornar tão depressa, deu a impressão de que Seu Carlos apitara por apitar, mas logo souberam o motivo. Em poucos minutos a carroça estava a caminho do rio para trazer os viajantes e suas bagagens. Amarrados à parte traseira, iam o cavalo de Pedro e outro para servir ao sobrinho que viera junto.

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Carro de bois no interior catarinense.

Embarcaram tudo e Antônio foi tangendo os bois, enquanto tio e sobrinho iam na frente. Mesmo com os cavalos andando a passo, acabaram chegando à casa cerca de 500 m na frente. Lua, mesmo estando de resguardo, levantou e veio receber os sogros com o recém-nascido nos braços. Ao seu lado Maria Rosa ostentava seus quase sete meses de gravidez, o que levou Isabelita a gritar de longe:

– Mis hijas con mis nietos!

O pequeno Afonso, agora com dois anos de idade, correu ao encontro da carroça. Antônio parou e o ergueu para cima. Logo estava abraçado à avó e a irmã. O primo não mereceu muita atenção, apenas um leve aceno. Ao parar a carroça no pátio, logo estavam se abraçando, Pedro apresentando a esposa à família, Lua mostrando o filho ainda com sinais do parto recente. Antônio parou, olhou longamente ao redor e meneou a cabeça em sinal de aprovação, antes de falar?

– Bela terra, meus filhos. E que pinheiros mais altos. Olha ali, que árvore é aquela?

– Aquela é uma imbuia, pai. Uma madeira para móveis e esquadrias que só vendo para crer.

– Ali são pés de erva mate, se não estou enganado.

– Sim pai. Aqui tem bosques inteiros de erva mate.

– Que maravilha. E as pastagens ficam onde? Estou vendo só um pastinho de nada ali na frente.

– O pasto fica mais para baixo, pai. Tem áreas de pastagem natural, tem os chamados faxinais, onde crescem capoeira e mato mais baixo. É onde fazemos a roça para plantar. Depois a gente mostra para o senhor. Agora vamos descansar e contar as novidades.

– Eu por mim ia agora conhecer tudo. Estou tão curioso.

– Quedate tranquilo, mi viejito! – falou Isabelita. – Tenés tiempo mas tarde para ver los animales.

– Mas é muito bonito aqui, meus filhos. Uma maravilha.

Sentaram-se na varanda e logo havia uma cuia de chimarrão rodando. João estava solícito com os pais e também com a esposa que dera à luz no dia anterior. Por sorte haviam construído a casa com cômodos sobressalentes para as eventualidades de visitas. Pedro naquela tarde preparou sem demora duas camas improvisadas para acomodar os pais. Para o sobrinho e a filha Isabel havia as camas de solteiro que ele e Maria Rosa haviam usado nos primeiros dias de casados. Ninguém dormiria no chão. Talvez fosse conveniente fazer um suprimento extra de palha de milho para reforçar os colchões e assim ninguém amanhecer com as ripas do estrado desenhadas nas costelas.

As visitas ficaram até o nascimento da filha de Pedro. Era uma menina, loura igual a mãe, mas com os olhos e face do pai. Ela foi chamada Isabelita em homenagem à avó. Quando a pequena completou um mês de vida eles se despediram e voltaram para sua casa. Diante da situação de ver o pai e a madrasta, com dois irmãos seus para cuidar, Isabel decidiu ficar ali, pelo menos até os pequenos terem um pouco mais idade. A viagem de volta foi feita novamente em companhia de uma tropa. João levou os pais e o sobrinho até o povoado, onde providenciou a companhia para a viagem.

Despediram-se, prometendo voltar. João, no entanto, sabia que dificilmente isso se realizaria. Tanto Antônio, quanto Isabelita estavam idosos e provavelmente não resistiriam a nova viagem naquelas estradas, depois de alguns anos. A idade cobra um tributo alto do organismo das pessoas

Décio Adams

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Na senda dos monges ! – Capítulo IX – Dominando as letras e números!

 

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Carreta usada na época dos tropeiros, peça do museu

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Gravura da Feira de Sorocaba, de Getúlio Delphim.

 

  1. Dominando as letras e números.

 

Na próxima viagem para Sorocaba, João Maria estava com dois cargueiros abarrotados de objetos para comerciar. Eram de fabricação local e não faziam concorrência com as mercadorias do dono da tropa. Integrou-se ao grupo e trabalhou com mais afinco no desempenho das suas funções de empregado. Numa das primeiras noites da viagem, reparou em um senhor já mais idoso, pouco ativo na lida com os animais, mas sempre próximo do líder da tropa. Indagou do amigo quem era aquele homem e ficou sabendo tratar-se de um homem letrado. Era versado em matemáticas, fazia todas as contas do patrão. Tinha fluência no escrever, sabia até espanhol e italiano.

– Eu bem que queria aprender a ler e escrever, fazer contas.

– Isso é coisa para poucos. Muito difícil aprender, – falou o velho tropeiro.

– Mas se começassem a ensinar a gente quando pequeno, não ia se tão difícil. Depois de burro velho é claro que fica difícil.

Sem eles perceberem o senhor Feliciano Chaves se aproximara e ouvira as últimas palavras. Ficou curioso e indagou:

– O que é que burro velho tem dificuldade em aprender?

– O João aqui disse que gostaria de aprender ler e escrever, fazer contas. Eu disse que é muito difícil. É coisa para poucos.

– Não é nada difícil. O mais importante é ter vontade de aprender. O que move o aprendizado é a vontade, a curiosidade.

– Tá vendo, seu Aparício! O homem está dizendo que não é impossível aprender ler e escrever.

– Você gastaria algumas horas do seu descanso para aprender?

– Eu até gastaria, mas quem ia querer ensinar?

– Se eu estou perguntando é por que posso mostrar como se faz. Mas precisa perseverança. Tenho comigo um bocado de papel que foi usado de um lado e ia jogar fora. Podemos usar do outro lado para você aprender.

– Podemos começar hoje mesmo?

– Hoje ainda não. Tenho umas contas para terminar para o patrão, antes de dormir. Amanhã podemos começar. Vou tratar de fazer as contas e depois vou dormir. Amanhã o dia é puxado.

O jovem ficou entusiasmado com a perspectiva de saber ler e escrever, fazer contas. Estava olhando longe, no dia em que seria comandante de uma tropa de propriedade da própria família. Se soubesse ler e escrever, fazer contas poderia negociar melhor. Não teria que depender de alguém para fazer isso por ele. Se o seu Feliciano se dispunha a ensinar essa arte, ficaria para sempre agradecido. Mal sabia ele que o bom homem estava procurando alguém para lhe ajudar. Era muito trabalho que tinha a fazer sempre no começo e final das viagens. No meio do caminho não havia muito serviço, mas na hora das vendas, novas compras, calcular os lucros, descontar os prejuízos e gastos, o pagamento das despesas. Um ajudante seria bem-vindo com certeza.

João Maria passou o tempo antes de dormir falando da expectativa de saber ler e escrever, importunando os ouvidos do companheiro de jornada. Por fim Aparício dormiu enquanto ele ainda falava. Em dado momento se deu conta de estar falando sozinho e o acampamento inteiro dormia. Puxou o poncho sobre a cabeça e também procurou conciliar o sono. Pela manhã, logo cedo estava acordado e ativo. Foi o primeiro a cuidar dos animais de montaria, dos cargueiros. Na hora do desjejum já estava levemente sado, apesar do frio da manhã. Passou o dia em atividade fabril, levando outros a perguntar o que lhe dera e ele por fim confidenciou a alguns mais chegados, que iria aprender ler e escrever.

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Gravura de tropeiros em marcha.

 

Foi motivo de risadas gerais, especialmente dos mais velhos, mas não se importou. Mostraria a todos de que ele era capaz. Se outros podiam aprender, ele também o fariam. Ansiava pelo final do dia, quando o seu Feliciano o chamaria para a primeira lição. Depois de acomodar a tropa e arrumar o acampamento, viu o velho escriturário arrumando um cavalete e sobre ele colocar umas tábuas, formando uma pequena mesa. Já estava livre das tarefas e se aproximou perguntando se poderia ajudar, ao que ouviu:

– Venha aqui que vamos começar, enquanto o jantar não fica pronto. Vamos aprender primeiro os números, que é mais fácil.

Tremendo de emoção o jovem sentou-se e ficou esperando. Logo tinha diante de si um pequeno quadro, uma espécie de moldura, com uma placa cinza escura na parte interior. Além disso uma haste de metal com uma extremidade afilada. Era a lousa e o estilete para escrever. Iria usar a lousa antes de passar para o papel. Ali poderia escrever e apagar quantas vezes fosse necessário e só quando dominasse a arte de escrever e fazer contas, começaria a escrever no papel. Mal pode esperar pela primeira lição. O preceptor, embora não tivesse recebido nenhuma formação para o ensino, tinha o dom natural de desempenhar essa função.

Para ensinar os números usara a associação de objetos concretos com os numerais, facilitando dessa forma o aprendizado. Após uma hora e pouco, quando foram chamados para jantar, João Maria já sabia rabiscar os primeiros algarismos. Depois de comer fariam mais um pequeno avanço antes de descansar. O simples fato de iniciar seu aprendizado, deixou o rapaz eufórico. O companheiro Aparício o viu todo excitado com o que conseguira aprender naquele tempo tão curto e se convenceu de que ele realmente iria conseguir. Não imaginara que isso fosse possível para alguém depois de atingir a idade madura. Se seus ossos não estivessem já um tanto duros, talvez até se aventurasse também a aprender.

A partir dessa noite, praticamente todos os dias estava João Maria, sentado ao lado de Feliciano, muitas fezes empenhado na realização de tarefas passadas pelo instrutor, que por sua vez se ocupava em se desincumbir de suas funções. Estava entusiasmado com a velocidade que o aprendiz demonstrava ter no domínio de cada novo ensinamento. Parecia antever o que viria e logo estava desenhando os números e letras que aprendera. Mais alguns dias e já saberia ler algumas palavras, talvez escrever pequenas frases. Era encorajador assistir ao seu progresso.

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Feira de Sorocaba, gravura de Getúlio Delphim.

 

Ao chegarem em Sorocaba, depois de algumas semanas, o jovem aprendiz de primeiras letras já conhecia o alfabeto, conhecia as principais sílabas e escrevia algumas frases curtas. No meio do caminho haviam encontrado alguns exemplares de jornais velhos, folhetos de propaganda de remédios e outras coisas escritas. Tudo era guardado por João Maria. Nas horas de descanso, estava sempre decifrando alguma coisa escrita. Quando enroscava em alguma palavra mais complexa, perguntava ao mestre que se encarregava de esclarecer. Em algumas ocasiões era obrigado a ler o texto para poder explicar o significado, pois suas letras não eram lá essas coisas tão aprofundadas.

O Líder da tropa fia com bons olhos o empenho do jovem em aprender. Pensava no dia em que o velho ajudante não pudesse mais acompanha-lo nas viagens. Teria de um substituto mais jovem e preparado pelo antigo ajudante. Muitos tropeiros velhos e calejados, olhavam admirados o empenho do jovem em ler e escrever. Houve que lhe profetizasse um futuro brilhante, pois era sabido que pessoas letradas sempre tinham maiores chances de progredir do que os trabalhadores braçais. Os dias de estadia na feira foram de trabalho intenso. As continhas aprendidas na viagem foram úteis para orientar suas ações na negociação das mercadorias que trouxera.

Soube fazer o cálculo do lucro obtido e isso lhe trouxe um prazer indescritível. Havia ganho mais que o dobro do preço pago na origem. Ao começar a viagem nem imaginara que, ao chegar ao final, saberia fazer a conta do lucro obtido. Mostrou suas contas ao mestre que lhe mostrou alguns pequenos erros cometidos, de modo que o lucro era um pouco maior que que calculara. Mas era pequena a diferença. Precisava aperfeiçoar suas técnicas de cálculos. Enquanto permaneceram em Sorocaba as lições ficaram interrompidas, para serem reiniciadas logo que começassem a volta.

Ao chegar em Santa Maria, foi um João Maria eufórico que se apresentou à família. Estava sabendo escrever algumas palavras e principalmente fazer as contas mais elementares. Vendeu os produtos que comprara para trazer, entregou as encomendas recebidas e reuniu tudo, fazendo o balanço da viagem. Sentaram-se em família para fazerem um levantamento do que dispunham em capital para iniciar a abertura da área de terras requerida. Depois de somar tudo que haviam guardado, João fez uma estimativa, que em um ano poderiam começar a dar os primeiros passos. Talvez até antes, se conseguissem alguns dias de folga para irem pessoalmente fazer parte do serviço.

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Tropeiros atravessando rio.

 

A dificuldade era o fato de Antônio ter o ombro esquerdo imóvel e João não poder se afastar da fazenda. No final combinaram que, Antônio poderia desempenhar o serviço de capataz na ausência de João. Este e o sobrinho João Maria, iriam com dois ou três peões trabalhar na abertura do local da construção, preparação de toras para serraria e seu transporte para a serraria. Mal terminaram de fazer o serviço e já era hora de iniciar nova viagem para Sorocaba. João Maria estava ansioso por fazer nova viagem e dar prosseguimento às lições de escrita e leitura. Agora já podia aprender as contas mais complexas, como porcentagens, juros e coisas assim. Era bem mais complexo, mas com algum esforço conseguiu também aprender esses passos.

Com certeza jamais seria um erudito, mas não dependeria de ninguém para lhe fazer as coisas mais elementares, quando quisesse organizar suas próprias tropas, levando os animais produzidos na propriedade da família. Projetava transportar quantidades consideráveis de erva mate para revender e assim alavancar os negócios. Sonhava alto o rapaz. O tio ficou espantado com a rapidez que ele demonstrava em aprender os segredos da escrita, leitura e aritmética. Em alguns meses estava apto a ler com bastante fluência e redigir pequenos textos, sem dificuldade. Não perdia ocasião para ler tudo que lhe aparecesse. Bastava conter letras ou números e ele estava disposto a ver do que se tratava. Tanto empenho, só poderia resultar em um desenvolvimento fora do normal.

No tempo que tinha disponível até a próxima viagem para Sorocaba, aproveitaram e fizeram a roçada e derrubada para localizar a sede da propriedade, além de um bom pedaço de pasto, especialmente numa área onde a vegetação era menos densa, na área mais próxima da água. Ali o capim cresceria mais viçoso, devido a umidade e assim permitiria um bom desenvolvimento da criação. Alguns dias antes de iniciar a viagem, deixou o tio e os peões terminando o serviço começado e tratou de adquirir as mercadorias que levaria junto na tropa, em seus dois cargueiros. Cuidou para não misturar os objetos de comércio do patrão com aquilo que levava para seu comércio particular. Não desejava criar atritos.

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Gado vadeando um curso d’água na tropeada.

 

A primavera estava próxima. Era hora de iniciar a viagem. Assim seria possível fazer até duas, antes da entrada do próximo inverno. João Maria encontrou com Feliciano que lhe estava ensinando os rudimentos da escrita e matemática. Passaram uma semana preparando a parte burocrática inerente ao total da tropa e mercadorias que seguiriam nessa remessa. Era ocasião de praticar o que aprendera e adquirir prática na elaboração do controle necessário para manter as contas em ordem. Era preciso saber o quanto havia custado cada unidade e o preço pelo qual poderia ser vendido, sem que isso significasse prejuízo. Havia que levar em conta cada tostão despendido no caminho, seja com alimentos, despesas inesperadas, pousos mais prolongados, pastagens. Tudo representava custos determinantes do resultado final de uma viagem bem sucedida.

Alguns dias antes da primavera ter início em termos cronológicos, partiram de Passo Fundo, onde haviam se reunido boa parte dos integrantes da comitiva. Um lote adicional de mulas estava esperando nas proximidades da divisa com Santa Catarina/Paraná. Pouco antes do Natal estavam chegando de retorno, trazendo as bruacas recheadas de mercadorias compradas em Sorocaba, bem como um variado sortimento de erva mate para distribuição por toda região. O clima ajudara e haviam demorado pouco em cada pouso. Apenas o suficiente para refazer os animais do cansaço da viagem, uma boa forragem de pasto para aguentar mais uma etapa e a caminhada prosseguira. A volta havia sido mais rápida do que o esperado.

Todos os momentos de folga foram aproveitados por João Maria, agora já dominando a escrita e cálculos básicos para exercitar o que havia aprendido. Quando surgiam dúvidas perguntava ao mestre Feliciano, como o chamava. Quando este também sentia dificuldades em explicar pedia ajuda ao “Pai dos Burros”, um velho dicionário que estava todo ensebado de tanto uso. Assim ia dominando aos poucos as palavras mais complexas. Era assíduo leitor de jornais obtidos em Sorocaba e deles trazia um bom sortimento, especialmente de artigos importantes que recortara. As propagandas eram menos interessantes e só serviam para fazer volume, por isso eram descartadas na medida do possível. Os outros peões ficavam ora curiosos pelas leituras que o colega fazia, ora faziam mofa de seu empenho em saber ler. Na opinião da maioria isso servia para pouca coisa.

Eles que ficassem com suas opiniões. Mal sabiam que ele estava conquistando seu passaporte para uma vida diferente do que vinham vivendo seu pai, tios, avô e bisavô. Tinha ambição e queria sair do lugar comum da vida de peão do nascer ao morrer. Por enquanto era peão, mas não morreria nessa condição, disso tinha certeza. O que não valia a pena era apregoar tais ideias, para não ser motivo de chacota. Já tinham suficiente para lhe amofinar a paciência com o seu desempenho na primeira noite com uma mulher. A cada pouco tempo alguém lembrava e imitava os gemidos e resmungos que haviam ouvido mantendo-se colados à parede do lado de fora do quarto.

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Mulas de carga e parte da tropa a caminho de Sorocaba.

 

A melhor coisa a fazer era deixar que falassem sem se sentir avexado pois, quanto mais ficasse chateado, mais sentiriam satisfação em lhe apoquentar. Ficara uma dúvida em sua cabeça na forma de calcular os preços do custo final e o lucro sobre os produtos transportados. Isso envolvia questão de porcentagem e ainda não havia compreendido bem essa parte. Sempre que Feliciano dispunha de alguns minutos de tempo, lá estava João Maria a lhe interrogar como fazia essa ou aquela conta. De tanto repetir, por fim ele entendeu e nunca mais esqueceu. Muitos anos mais tarde, sabia fazer esses cálculos todos sem problemas. Em cada ocasião lembrava da paciência de Feliciano em lhe explicar. O bom homem havia viajado em companhia de tropeiros até idade avançada. Só parara quando não mais conseguia se manter sobre a sela e os olhos não mais ajudavam a enxergar os números e letras.

Tinha amealhado um pequeno pecúlio com o qual viveu até seus últimos dias, na periferia de Passo Fundo, com a esposa e uma filha viúva. Quando ele pendurou a sela e guaiaca, João Maria já havia há anos assumido por conta a condução de tropas. A propriedade de Passo Fundo estava em plena atividade, com um bom plantel de éguas e vários jumentos para fazer a cobertura. A cada ano uma tropa de mais de quinhentas mulas saia da propriedade, além de um bom lote de gado de corte para charqueada. Compravam nas redondezas e mesmo de propriedades da fronteira mais outro tanto de mulas, de modo a transportar a cada viagem em torno de 800 a 1000 animais. Nas cargueiras eram transportados artigos típicos da região com boa aceitação em Sorocaba.

No império do Brasil a escravidão negra estava caminhando para a extinção, seguindo o exemplo de outros países. Há tempo o tráfico estava proibido. Depois viera a Lei do Ventre Livre, isto é, filhos de escravos nasciam livres. A Lei dos Sexagenários, tornando livres os escravos com mais de 60 anos de idade, de modo que o número de escravos decrescia gradativamente. Em 1885, durante uma de suas primeiras viagens por conta própria, João Maria voltou e encontrou a família de luto. O avô Afonso, que tantas histórias lhes contara, ensinara a manejar o velho mosquetão até ser capaz de acertar um palito a mais de 50 metros, mesmo com o cano gasto de tanto usar, havia falecido. Adormecera igual um passarinho e esquecera de acordar na manhã seguinte. A avó Zulmira não demorou muito para seguir os passos do marido. Deixaram saudades, mas haviam vivido uma vida repleta de realizações, além de superar grande número de dificuldades próprias da época.

Em 1886, estando os primos e irmãos todos casados, restando apenas João Maria solteiro, finalmente encantou-se com uma morena, filha de mãe bugra. Em pouco tempo a levou até o padre mais próximo e pediu para que os casasse. Ao chegar em casa com a mulher na garupa, todos indagaram o significado daquilo e ele apenas informou:

– Ela agora é minha mulher. Vamos fazer uma festa para comemorar. Não precisa preocupação pois o padre já nos casou e o juiz confirmou.

Acostumados com as excentricidades do filho, Antônio e Isabelita balançaram as cabeças pensativos, concordando. Uma semana depois, os peões da propriedade, os primos e irmãos estavam reunidos para festejar o enlace matrimonial, um pouco fora dos padrões normais, mas o noivo era assim mesmo. Não se ligava muito em formalidades. Isabelita falou ao marido:

– Nós nem podemos dizer nada. Nós fugimos e casamos quando nossos filhos já tinham nascido.

– Era isso mesmo que me ocorreu antes. Quando pensei em dizer alguma coisa, lembrei de nós fugindo pelos campos da Argentina, resolvi ficar bem quieto.

O casamento acontece pouco tempo depois da viagem a Sorocaba. João Maria voltara um pouco preocupado. Os negócios não andavam muito bem por lá. Algumas linhas de ferrovia haviam sido construídas e com isso boa parte do transporte de café e outros produtos era feito por trem, reduzindo assim a demanda de animais de carga. Quem ainda procurava por eles eram os cafeicultores da região serrana de Minas Gerais, onde era preciso recolher o grão dos cafeeiros plantados nas encostas e para isso nada melhor do que uma mula.

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Museu do tropeiro, cangalha e bruacas de taquara.

 

Em companhia com o pai e tio, sócios na propriedade, sentaram para confabular sobre o que fazer. As suspeitas de João Maria eram ainda pouco aprofundadas, mas ele parecia ver mais à frente. Lera nos jornais notícias cada vez mais veementes sobre pronunciamentos de abolicionistas e previa que logo a escravidão seria abolida. Com certeza isso iria provocar alguma mudança política no país. Não saberia dizer o que, mas sentia cheiro de mudança na forma de governo. Mesmo não sendo especialista em política, podia perceber nas entrelinhas dos artigos que lera, a tendência à implantação de uma República, à semelhança dos países vizinhos Uruguai, Argentina, Paraguai.

Diante do quadro exposto por João Maria, João e Antônio sugeriram mudar gradualmente de ramo, passando a criar gado de corte em lugar das mulas. Estavam mesmo precisando reformar o plantel de éguas para criar. Era ocasião de trocar as éguas por vacas e um ou dois touros. Começariam a vender carne, em lugar de besta de carga. Os lucros auferidos nos últimos anos, estavam em parte guardados para as emergências e poderiam ser perfeitamente aplicados na mudança de rumo. Decidiram manter as éguas para mais uma recria, mas começariam a procurar vacas para ampliar a criação de gado. Um lote de novilhas, em princípio destinadas ao abate, seria deixado para matrizes e assim dependeriam menos de investir capital no processo.

Em menos de dois meses a esposa de João Maria estava grávida. Sua beleza mestiça ficou ainda mais realçada, deixando o marido, um pouco madurão ainda mais apaixonado. Naquela temporada não faria a segunda viagem. Deixaria para a próxima primavera, quando teriam um lote maior e levariam tudo de uma vez, economizando dessa maneira os gastos da viagem. Logo nos primeiros sinais de arrefecimento do inverno, João Maria partiu com a tropa. Nem se empenhara demasiadamente em trazer muitos animais da fronteira, pois tinha o pressentimento que a procura iria ser pouca. Foi o que aconteceu. Conseguiu vender o que levara, mas não faltou nenhum animal. Nenhum comprador ficou sem ter suas necessidades supridas. Alguns tropeiros haviam deixado de tocar tropa, trocando por outras atividades, ou por levar apenas cargas em outros caminhos.

O retorno aconteceu na antevéspera do Natal. A esposa Ceci de João Maria, estava a poucos dias de parir. Seu ventre estava redondo, os seios entumecidos se preparando para aleitar o filho. Logo depois do Ano Novo, no dia 15 de janeiro, começou o trabalho de parto. A parteira mais próxima foi chamada e fez tudo que podia para ajudar a jovem a ter seu filho. Por mais que fizesse, ministrasse infusões de ervas para provocar a dilatação, nada parecia adiantar. Depois de quase vinte horas de sofrimento, em determinado momento ela soltou um grito surdo e emudeceu. Seu corpo jovem sofrera algum rompimento interior e ela perdera a vida. Sem hesitar a parteira fez uso de uma faca afiadíssima que carregava na bolsa, cortou a pele e o útero, retirando dali a criança que ainda estava com vida.

A mãe morta foi deixada de lado e a criança recebeu toda atenção. Depois de vários minutos ela finalmente teve um pequeno espasmo e logo soltou um gemido, querendo ser choro. Estava enfraquecida depois de ficar longo período em sofrimento sem conseguir nascer. O útero estava cheio de sangue, fazendo supor ter havido o rompimento da artéria que causara a morte da mãe. Ficou João Maria viúvo, menos de um ano depois de casar e com uma filha pequena nos braços. A avó Isabelita se prontificou a tomar conta da criança. O filho, acostumado a lidar com coisas menos delicadas, não saberia cuidar de um ser tão delicado como ela. Mesmo assim a criança era bem desenvolvida Tão logo conseguiram fazer algum alimento chegar ao seu estômago, ela começou a se refazer e o rostinho ficou corado.

João Maria pranteou a esposa por vários dias, antes de conseguir se aproximar da filha. Parecia de início estar revoltado com a criança por ter sido a causa da morte de sua mãe. Quando enxugou as lágrimas, pegou a criança no colo, aninhou-a junto ao peito e ficou longos minutos ali, vertendo lágrimas, agora de amor e ternura pela pequena. Era o fruto do amor que o unira à Ceci que tinha nos braços. Infelizmente Deus não havia permitido que ele tivesse as duas juntas. Uma partira para que a outra ficasse em seu lugar. A esposa de um dos empregados tivera filho poucos dias antes e seus peitos tinham leite em abundância. Logo lembraram dela e, em troca de uma gratificação, passou a amamentar a pequena. Vinha várias vezes ao dia dar de mamar à criança.

Em alguns meses já era possível fazer com que ela se alimentasse com sopinhas e alimentos mais sólidos, deixando de ter a necessidade premente do leite materno. Mesmo assim mamara, mas agora mais espaçadamente. Depois de alguns meses, João Maria preparou nova tropa para levar à Sorocaba. Partiu com o coração apertado, deixando para trás a filha, agora com oito meses de vida. Já sorria, se alimentava regularmente e ameaçava ficar em pé, apoiada nas perninhas. Era a alegria dos avós e do pai. Durante a viagem não passou um dia sem pensar na filha, uma porção de vezes. Fez o propósito de procurar um presente bem bonito para comprar e trazer para ela. Por mais que procurasse, nada encontrou que julgasse digno de sua pequena Isabel. Dera-lhe o nome da mãe, apenas tirando do diminutivo.

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Roupas e apetrechos de tropeiros.

 

Ao voltar ela estava com quase um ano de vida e, a não ser por ela, a vida de João Maria parecia completamente vazia. Não sentia a antiga alegria de viver, a disposição para trabalhar por horas sem parar. A vida de Ceci, ligada a ele por um período tão curto, parecia ter levado uma parte de seu ser para o túmulo. Precisava reencontrar sua antiga disposição, afinal tinha a responsabilidade de criar a filha que ficara. Ela, tão pequena e frágil, certamente não tinha culpa alguma do ocorrido e merecia ter o melhor ao seu alcance para crescer feliz. Ao reencontrar com ela, pareceu reviver em parte, embora uma leve sombra pairasse sobre seu semblante continuamente.

O aniversário de nascimento de Isabel, era também o de morte de Ceci. Portanto a comemoração ficou para um dia posterior. Não sentia vontade de comemorar nada, logo no dia em que completaria um ano sem a sua amada Ceci. Demorara longos anos para se enamorar, mas quando isso ocorrera, fora algo avassalador como uma tempestade. O coração ficara pulando no peito igual um potro xucro, fazendo o sangue pulsar nas veias como um balão inchando e desinchando alternadamente. Havia apressado o casamento. Sempre tinha a impressão de que pressentira a perda prematura da mulher amada. Deixara em seu lugar a pequena Isabel. A única coisa que se permitiu fazer no dia do aniversário foi levar a filha no colo até a sepultura da mãe e lhe dizer calmamente:

– Querida Ceci! Aqui está nossa filha. Você a deixou comigo e vou cuidar dela para sempre. Descanse em paz meu amor.

Voltou abraçado à filha, com os olhos vermelhos de chorar, enquanto a pequena, percebendo em sua inocência a tristeza do pai, tentava fazer carinho em seu rosto. Diante desse gesto ele enxugou o pranto e falou:

– Minha filha! Somos nós dois que vamos cuidar um do outro. Sua mãe está lá no céu, junto com Deus e Nossa Senhora. Vai ficar olhando por nós enquanto vivermos nessa terra.

Logo a menina começou a caminhar, exatamente no dia de seu aniversário. Esse gesto fez João Maria recobrar a alegria. Em seus passinhos vacilantes, mesmo assim parecia ter a graça e leveza do andar de Ceci. Os avós Antônio e Isabelita estavam eufóricos com o progresso da neta. Ela lhes dizia que, a mãe não pudera ficar com eles, mas ela estava ali e merecia a comemoração de sua data natalícia. Mas era tarde para organizar qualquer coisa. Preparariam um almoço especial para o dia seguinte e convidariam os padrinhos, primos e demais crianças para estarem presentes. Assim foi feito.

Depois do almoço um bolo foi cortado, refrescos foram distribuídos entre os presentes e, na ausência de presentes, ela ganhou muitos abraços e beijos. Estava comemorada a data e ela, parecendo adivinhar o motivo de tanta agitação, não parava de perambular de um lado a outro em seus passinhos ainda trôpegos, recusando-se a ficar no colo de quem quer que fosse. Dessa forma, a data de falecimento de Ceci, virou por outro lado dia de festa nos próximos anos, em comemoração do aniversário da filha Isabel.

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Gaúcho típico do século XVIII

 

Décio Adams

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