Gaúcho de São Borja! – Capítulo XII

Vista aérea da Expointer (Esteio, RS)
Bandeiras nacional e estadual na Expointer.

 

Outra tomada da mesma vista.

 

Parque de exposições e arredores.

 

   Preparando as mudanças.
O dia seguinte foi repleto de atividades na fazenda. O gado requeria seu manejo constante. Havia vacas parindo precisando de atendimento, lotes de novilhos a serem separados, levados para pastos menos batidos, um sem fim de cuidados. O plantio de arroz precisava ser concluido com o adubo e a semente descarregados naquela manhã. O dia terminou deixando muito por fazer nos próximos. Depois da ordenha, tendo Gaudêncio novamente presente, prestando atenção em tudo. Isso levou Maria Conceição a pensar sobre o assunto.
O que estaria levando o filho a tomar aquela atitude? Dava a impressão de ter algum plano em mente. Estava amadurecendo alguma coisa. Aprendera a respeitar Pedro Paulo quando se encontrava em situação semelhante. No momento certo falaria e lhe daria ciência de seus pensamentos. No momento do chimarrão antes do jantar, conversavam sobre os trabalhoss do dia, quando em dado momento Gaudêncio falou:
– O padrinho gostou da ideia de modernizar o nosso sistema de ordenha das vacas. Peguei informações hoje com o veterinário e fiquei sabendo coisas bem interessantes.
– Que história é essa filho? – quis saber Pedro Paulo.
– Eu tinha falado com a mãe sobre o assunto. Li outro dia numa revista lá na cooperative sobre ordenhadeira mecânica e fiquei curioso. Hoje dei um toque no padrinho e ficou interessado.
– E isso funciona? Ouvi dizer que dá muito problema essas tal de máquina de sugar leite dos tetos das vacas.
– Tem as técnicas a seguir, os cuidados de higiene que precisam ser seguidos e tudo sai direito. O padrinho vem no fim da semana e vamos conversar melhor sobre isso.
– Você me prometeu que não vai ter gente demitida. Cada um dos meus ajudantes é quase como um filho para mim. Não vai me mandar um mundareu de gente embora que aí eu vou junto.
– Eu prometi e está prometido, mãe. Pode ficar tranquila.
– Mas vai ter que construer instalação nova para isso, ou não? – perguntou Pedro.
– Tem sim, pai. Mas isso um engenheiro projeta. Até mesmo a firma que vende as máquinas fornece o básico.
– E compensa gastar um dinheirão nisso? Não é pouca vaca para tanto investimento?
– Eu estou matutando uma maneira de aumentar nosso plantel de vacas. Se o padrinho concordar, nós transformamos aquela área de invernada que fica meia abandonada lá do outro lado do rio, fazemos um lugar fácil de atravessar e podemos colocar mais umas 40/50 vacas para dar leite.
– Não é muito isso, filho? Nós vamo dar conta de tanta teta?
– Nós não mãe, mas as máquinas sim.
– Bem filho. Estou aqui para trabalhar e vocês é que planejem aí essas mudanças. Vamos jantar que está pronto.
Sentaram-se e jantaram, continuando a comentar o assunto das mudanças no setor leiteiro da fazenda. Ao terminarem a refeição, prosearam mais alguns minutos e foram para as suas camas. Gaudêncio estava ansioso por ler mais umas páginas do livro. Estava no ponto em que Ana Terra e junta a uma caravana e deixa para traz o lugar onde nascera. Queria saber o que aconteceria na continuação. Voltou rapidamente para a casa grande e serviu-se de um copo de vinho. Enquanto lia bebericava a bebida. Ficou de olho no relógio para não passar da hora. Era muito bom ler, mas não até tarde demais. Enfrentar o dia de trabalho com sono era péssimo.
Na manhã seguinte estava em pé logo cedo. Foi assistir à continuação do plantio de arroz que fora interrompido por falta de sementes e adubo. Graças a Deus o tempo estava ajudando. Com mais alguns dias toda área estaria plantada, permitindo então um pouco de descanso. Antes disso os tratores roncavam dia e noite, com os operadores se revezando. Haviam montado uma verdadeira operação de guerra para conseguir terminar o plantio. Um alojamento e cozinha haviam sido montados perto da área para que os trabalhadores não precisassem se deslocar longe.
A reposição de semente e adubo nas plantadeiras funcionava que nem linha de montagem. O operador nem desligava a máquina, descendo apenas para beber água, comer alguma coisa e fazer suas necessidades. Ao voltar tornava a embarcar e voltava ao eito para continuar semeando. Gaudêncio imaginou uma foma de evitar que fosse necessário deslocar a máquina até o depósito e depois voltar. Deu ordem aos operadores que estavam de folga para trazerem ali os tratores mais antigos que não eram usados no plantio. Serviriam para puxar as carretas com sementes e adubo para uma posição mais próxima de onde os outros estivessem plantando. Isso pouparia um tempo precioso.
Foi obedecido e logo ficou visível o aumento do rendimento do serviço. Se continuassem no rítmo em que estavam, era provável terminarem um ou até dois dias antes do previsto. Realmente foi isso que aconteceu. Ao meio dia, terminaram o serviço e havia previsto que isso aconteceria na noite seguinte apenas. Fora a estratégia de Gaudêncio que fizera a diferença.
No sábado anterior Joaquim viera para a fazenda e permanecera ali até o término do plantio. Falara com o afilhado que providenciou carne para a feitura de churrasco em abundância para todos os trabalhadores. Nesse meio tempo passaram algumas horas trocando ideias sobre o assunto que estava ocupando os pensamentos de Gaudêncio. As tais ordenhadeiras. Falou ao padrinho de suas ideias para dispor de mais pasto e poder colocar uma quantidade maior de animais na produção de leite. Valeria mais a pena comprar uma máquina maior, proporcionalmene mais barata, desde que houvesse leite para tirar.
Aproveitaram para irem até o local que ele tinha em mente transformar em pastagem. Olharam detalhadamente, percorreram de lado a lado, observando os detalhes do terreno, as dificuldades que iriam encontrar. Tudo pesado, colocando os pros e contras, valia a pena tentar fazer o que estava sendo sugerido. Joaquim vira na televisão que nas proximidades de Porto Alegre seria realizada uma grande exposição de gado. Tanto de corte como de leite. Nessas ocasiões também são apresentados equipamentos úteis nessas atividades. Seria interessante fazerem uma visita a esse evento.
A data marcada era logo depois do feriado de início de novembro. Uma ideia fulgrou na mente de Gaudêncio. Poderia visitar a namorada e aproveitar para ir até a feira. Levaria a família junto e passariam lá um ou dois dias, vendo tudo, conhecendo equipamentos e animais. Propôs o plano a Joaquim que gostou e falou:
– É conveniente irmos juntos a essa feira. Podemos até negociar vacas, máquinas e tal ali mesmo. Sempre tem preços especiais, facilidades de financiamento. Vamos sim.
– Eu vou antes do feriado para visitar a Ângela. Vamos juntos de avião mesmo. Eu tenho uns amigos por lá e me ajeito enquanto você namora.
– Combinado padrinho. Eu peguei um livro na estante que era da madrinha e comecei a ler. Sabe que estou gostando um bocado. Nunca imaginei ser tão bão ler.
– E como andam os estudos para voltar a escola?
– Estou pra lá da metade das apostilas. Está cada vez mais fácil. Foi o tempo de tirar a poeira e ferrugem para tudo voltar, mais fácil que antigamente.
– Isso é bom. Estou vendo que vai se sair bem na escola.
– Acho que quando a gente sente vontade de aprender, fica mais fácil. Antigamente eus ó queria saber de montar a cavalo, correr pelos campos, ver o arroz crescer. Como eu gostava de catar ovo de Quero-quero. Eles ficavam uma fera comigo e com os moleques que iam junto.
– Os tempos mudam, Gaudêncio.
– E como. Só de pensar em coisa de uns meses para trás e hoje, quanta diferença.
– Agora você está virando homem de verdade. Esta amadurecendo para a vida.
– Isso deve de ser verdade, padrinho. Um ror de coisas que eu gostava, hoje não me atrai mais. Tem coisas mais importantes para me ocupar.
– Principalmente um belo rabo de saia, com um lindo par de olhos e uma vasta cabeleira.
– Também, mas não é só. Por exemplo essa questão da ordenha. Me deu assim meio que de repente. Via a mãe e os ajudantes naquela lida diária de expremer as tetas das vacas e me deu uma dó.
– Mas foi assim desde o começo do mundo. Hoje temos essas coisas modernas. Imaginou plantar todo aquele mundo de arroz com matraca?
– Virgem Maria! Nem pensar.
– O trator e a semeadeira tornaram tudo muito mais fácil.
– E as ceifadeiras então? Uma delas faz em horas o serviço de centenas de homens trabalhando dias sem parar.
– O mundo de hoje exige que seja feito assim. Na moda antiga não dá mais. Tem gente demais no mundo querendo comer, mas não quer plantar.
– Dá licença que eu vou ler um pouco e depois dormir. Boa noite. A benção padrinho!
– Deus lhe abençoe e boa noite.
Foi até seu quarto, pegou o livro e leu algumas páginas, porém logo os olhos pesaram e decidiu deixar o resto para outro dia. Deitou e dormiu. O feriado seria dali a duas semanas e pouco. Caia numa quarta feira. Joaquim se encarregou de providenciar as passagens no voo da tarde de terça feira. Ângela foi avisada da chegada, perto do anoitecer e ficou ansiosa esperando a primeira visita do namorado depois da estadia na fazenda. Providenciou para que tudo estivesse em ordem. O quarto em que ele iria ser hospedado foi limpo e arrumado. Foi com a mãe ao supermercado fazer as compras dos mantimentos que julgou necessários. Sabia que o padrinho do namorado viria junto, mas ficaria em casa de amigos. Estava animada com a promessa de passar um ou dois dias na feira agropecuária na semana seguinte.
O feriado foi aproveitado para passearem por diversos lugares da capital. Almoçaram num restaurante à beira do Guaiba, degustando diversos pratos de peixe. Depois, aproveitando o fato de a maioria da população procurar os cemitérios para prestar homenagem aos entes queridos que ali repousavam, passearam pelo centro sem grandes problemas. As ruas estavam pouco movimentadas, retornando à uma aparente normalidade após as 18 horas. O dia seguinte era sábado, de modo que muitos aproveitavam para, depois da visita ao campo santo, viajarem para o litoral. Iriam aproveitar o tempo ensolarado para descansar nas belas praias.
Ângela e Gaudêncio foram ao cinema onde assistiram a um filme estrelado por Gianni Morandi, ator e ator do cinema italiano. Voltaram emocionados e antes de entrarem no edifício, trocaram o primeiro beijo. Começavam a ficar profundamente apaixonados. Iriam sentir falta da mútua presença nos dias em que ficariam afastados depois da volta dele para a fazenda. A noite passou e no sábado era inagurada a feira na cidade vizinha. A distância era pequena. Combinara com Joaquim encontrarem-se antes de se dirigir para lá. O padrinho alugara um carro e seguiriam juntos. Os pais de Ângela iriam somente no domingo. Um amigo vinha lhes fazer visita no sábado.
Máquinas na Expointer.

 

Maquinas e veículos.

 

 

Vista do entorno do parque de Esteio.
Exposição de cuias para chimarrão.
 
 
Chegaram cedo para estarem presentes ao ato inaugural da feira. Houve show de músicas típicas, danças, desafio de repentistas, uma banda fez uma apresentação de meia hora. Era um evento grandioso e tudo que de mais moderno existia no mercado relacionado com o setor estava repesentado. Os maiores criadores e produtores do estado estavam presentes, mostrando seus produtos, competindo pelos prêmios nas diversas categorias de animais. O espaço onde estava instalada a feira era enorme, sendo necessário um bocado de tempo para percorrer todos os setores.
A grande variedade de produtos expostos atraia tanto curiosos, quanto interessados em sua aquisição. Paralelamente estavam presentes postos de atendimento bancário para encaminhar financiamentos pelos agentes financeiros públicos e também os privados. Disputavam os potenciais clientes, distribuiam farto material de propaganda, brindes, cafezinho, a indefectível cuia de chimarrão não poderia faltar. Uma incontável quantidade de grupos se formava ao longo dos corredores, cada um querendo chegar na vez primeiro para tomar uma cuia. Até as indústrias de erva-mate estavam presentes, divulgando seus produtos, fazendo degustação e distribuindo pequenas embalagens com os produtos, suficientes para fazer um mate.
O sábado foi consumido em apenas percorrer as principais áreas da exposição. Queriam localizer os seus pontos de interesse pra nos dias subsequentes sentar com os possíveis vendedores e negociar, fazer propostas, discutir condições. Mas antes de nada queriam conhecer todos os detalhes de tudo que lhes interessava adquirir. Teriam a semana inteira pela frente para isso. Pedro Paulo e Maria Conceição se encarregariam de cuidar de tudo na fazenda. Podiam pois gastar o tempo necessário para a realização eventual de negócios, ou pelo menos deixá-los entabulados.
A noite de sábado pegou aos três bastante cansados e cuidaram de ir para cama cedo. Queriam estar bem dispostos no domingo para ver o resto da feira e depois começar a procurar o estabelecimento de negociações. Haviam se enganado, pensando que faltava pouco para ver. Quando se deram conta era meio dia e ainda não haviam tido oportunidade de procurar os vendedores de equipamentos que lhes interessavam. Em um restaurante ao ar livre almoçaram um bom assado de costela em fogo de chão. Logo depois de se sentirem satisfeitos, partiram para o lado dos vendedores de equipamentos.
Havia duas marcas de ordenhadeiras e seus acessórios. Vários tamanhos e modelos, com os preços igualmente variando em diversos níveis. Os vendedores se esmeraram em atendê-los, explicando, demonstrando e fazendo cálculos para aquisições à dinheiro, financiado por banco ou diretamente com a empresa. Sairam do primeiro e foram ao segundo. As ações se repetiram com poucas variações. Ainda tiveram tempo de ver máquinas de cortar e picar forragem para preparação de silagem. A produção de leite habitualmente caia nos meses de inverno, devido ao empobrecimento das pastagens devido ao frio. Isso implicava na necessidade de prover forragem de volumosos e assim manter a produtividade num bom nível.
Ao se retirarem no início da noite estavam carregados de prospectos, folhetos, cartões de visitas, orçamentos, com todas as informações que necessitavam para efetuar as possíveis compras. A segunda feira seria dedicada a procurar um reprodutor ou dois para o gado de corte. Queriam ver também a disponibilidade de novilhas em ponto de cobertura ou mesmo cobertas para ampliar o plantel de matrizes leiteiras. Um reprodutor de alta linhagem também era interessante para alcançarem um padrão de maior produção por cabeça. Isso significava lucro futuro. A era das chamadas vacas “pé duro” estava ultrapassada. O mesmo trato consumido por uma delas alimentava uma outra de alta produtividade. Evidentemente os animais de raça exigiam um cuidado maior do ponto de vista fito-sanitário, mas sua produção maior compensava essas necessidades.
Na segunda-feira Ângela não os acompanhou. Tinha aulas da escola de magistério que frequentava. O final do segundo ano estava se aproximando e exigia caprichar para não perder o nível de seu rendimento alcançado até aquele momento. Haveria tempo de se verem à noite. Poderiam assistir uma sessão de teatro, ver um filme na televisão e mesmo conversar. Tinham tanto a se dizer, ouvir de suas vidas, seus sentimentos. Era importante terem esses momentos de tranquilidade para se conhecerem suficientemente. Se houvesse disposição para seu relacionamento evoluir de simples namoro, transformando-se em noivado ou talvez casamento, o máximo de conhecimento que tivessem um do outro era fundamental.
Ângela, apesar de sua juventude, havia sido muito bem orientada pelos pais. Sabia o que buscava para sua vida. Não dava valor a futilidades. Depois de um dia intenso de conversas, observação, propostas e contrapropostas, voltavam novamente com as mãos cheias de papéis, fotografias e folhetos. Joaquim deixou Gaudêncio na portaria do edifício e foi descansar. Ângela estava na sacada quando o carro parou e ela viu saltar o seu amado. Imediatamente desceu pelo elevador e encontrou Gaudêncio no momento que ele entrava pelo saguão.
– Boa tarde meu bem!
– Boa tarde, querida! Só não estou em condições de lhe abraçar. Passei o dia no meio de vacas, touros e novilhas. Devo estar cheirando a qualquer coisa, menos perfume.
– Até que nem é tão forte assim.
– Mas estou louco por um banho e roupa limpa.
– Vai querer ir a algum lugar ou prefere ficarmos em casa?
– Deixe-me pensar um pouco. Logo depois do banho eu decido. Nesse momento meu cérebro nem está funcionando direito. Está quente e o dia inteiro no meio daquela multidão, deixa a gente grudento.
– Deixe-me ver se fico grudada.
– Não faça isso, amor. Estou sujo e você está cheirando a flôres. Sua roupa limpa.
– Posso trocar de roupa depois, se essa ficar suja.
– Coitada da sua lavadeira!
– Quem faz esse serviço é a máquina de lavar.
– Está aí uma coisa que vou providenciar para minha mãe. Ela já tem tanto trabalho e uma máquina de lavar roupas, virá a calhar para aliviar a carga.
– Ótima ideia, amor. Fiquei com pena dela e das empregadas encarregadas de lavar a roupa quando estivemos lá. Não falei nada, pois não era de minha conta.
– Mas você tem razão. Preciso remediar essa falha logo.
Chegaram ao apartamento e nosso enamorado foi tomar seu banho e trocar a roupa. Ao sair do quarto, vinha com aparência mais suave e aliviada.
– Está se sentindo melhor agora, amor?
– Nem te conto! Parece que tirei uma tonelada das costas.
– Venha aqui na sala. Papai fez chimarrão. Quer que você experimente e diga se fez certo. Estamos aderindo ao hábito. Papai tomava chimarrão quando era menino, mas depois ficou muitos anos no norte e perdeu o hábito.
– Vamos lá. Deve estar bom para a primeira vez que faz.
Foram até lá e encontraram o casal as voltas com a cuia de chimarrão. Queriam voltar ao velho hábito, abandonado por força das circunstâncias da vida. Os jovens sentaram e o general estendeu a ele a cuia recém servida. Havia um leve travamento, mas uma pequena movimentação da bomba, foi suficiente para fazer o líquido fluir facilemente. Saborearam alegremente a bebida enquanto dona Lourdes ia e voltava da cozinha onde preparava o jantar. Gaudêncio decidiu não sair, para estar mais descansado no dia seguinte. Conversariam até sentirem vontade de dormir e iriam para a cama.
Depois de algumas rodadas da cuia, a refeição ficou pronta e deixaram a cuia de lado para irem matar a fome. Gaudêncio se dispôs a ajudar Ângela no lavar e enxugar da louça. Com alguma relutância a mãe da jovem aceitou e piscou discretamente para a filha, como quem diz, aproveita para descobrir como ele se comporta numa situação dessas.
Não era novidade para ele lavar ou enxugar louça. Desde menino fizera isso inúmeras vezes para ajudar a mãe. Não era rara a ocasião em que se encarregara de fazer ambas as tarefas quando a mãe estava ocupada com alguma outra coisa, ou mesmo cansada por algum motivo qualquer. Enquanto Ângela lavava ele enxugava cuidadosamente cada peça, colocando-as sobre a mesa, para depois serem guardadas em seus respectivos lugares.
Depois disso, sentaram-se na sala onde os pais estavam vendo TV. Estava sendo transmitido o programa Fantástico. Assistiram até o final e foram dormir. Os namorados tiveram seu momento de liberdade e puderam se dedicar a algumas carícias mais ousadas, embora mantendo o decoro e respeito. Ambos sabiam que se ultrapassassem determinado limite poderiam perder o contrôle e esse não era o objetivo. Conversaram longamente, contando passagens de suas vidas, momentos alegres outros menos, que deixaram marcas em suas almas. Suas reações diante dessas situações mostravam um ou mais aspectos da personalidade que tinham. Esse conhecimento ajudaria a harmonizer sua convivência.
Quando eram 11 h 30min, depois de um prolongado beijo carinhoso, se desejaram bons sonhos e foram dormir em seus aposentos. Na manhã de terça, Gaudêncio tomou café da manhã com o general, despediu-se deles e desceu para encontrar o padrinho. Iria enfrentar mais um dia na feira em busca de animais e equipamentos para aprimorar a produção na fazenda. Quando a noie chegou, tinham adquirido um reprodutor da raça nelor de boa progênie e um outro da raça gir. Haviam visto o resultado do cruzamento de vacas holandesas com touros gir e o resultado eram animais de maior rusticidade, bom potencial de produção leiteira e ainda uma conformação de carcaça mais em acordo com o preferido pelos frigoríficos para o abate.
Os bezerros machos tinham que ter alguma destinação. Quanto maior fosse o valor de mercado depois de grandes e gordos, melhor seria. Decidiram deixar para comprar as fêmeas nas propriedades situadas em pontos mais próximos da fazenda. Evitavam com isso o custo excessivo com o transporte e ainda os riscos que isso implicava. Encontraram expositores até vindos do Uruguai. Traziam animais de raça principalmente holandesa e jersey. Ficava evidente que eles teriam maior dificuldade em se adaptar às condições existentes no campo gaucho. Faltava concluirem a negociação dos equipamentos e deixaram isso para o outro dia.
Naquela noite os namorados acompanharam os pais dela ao teatro para assistir a uma peça apresentada por uma companhia espanhola que estava excursionando pela capital. O enredo era de um dramaturgo espanhol. Era um misto de drama e comédia. Havia momentos de hilariedade alternados com outros de intensa comoção diante das cenas trágicas. Havia um raro equilíbrio entre os dois extremos, dando ao espetáculo um viés de bom gosto e criatividade. Voltaram para casa conversando alegremente sobre as cenas mais marcantes. A duração era um pouco alongada e ao chegarem foram logo dormir.
A terça-feira seria de provas na escola e Ângela estaria livre por volta das 10 horas. O pai falou que viria para casa e levaria a esposa e a filha até a feira. Naquele dia ocorreria a competição de montaria e adestramento de cavalos. Ângela era aficionada dessa modalidade e queria assistir. Assim poderiam se encontrar e passar algum tempo juntos se Gaudêncio já tivesse terminado as negociações que pretendiam fazer nesse dia.
Naquela manhã receberam uma proposta interessante. As vendas de máquinas ainda não atingia o nível esperado e os vendedores apresentaram preços mais acessíveis. Em pouco tempo fecharam o negócio de compra da máquina a ser instalada na fazenda. Faltava a máquina de preparar silagem. Ao lado da empresa das ordenhadeiras havia também uma outra que vendia esse equipamento. A compra foi fechada e a entrega seria feita em dois meses na fazenda. O preço foi financiado pelo Banco do Brasil, com prazo facilitado.
Desfile de amazonas no dia da mulher em Esteio.
Cavaleiros e suas montarias na pista de adestramento.

 

Entrada da pista de adestramento.
Com todos os negócios fechados, os dois foram encontrar a família de Ângela junto ao local das apresentações de hipismo. Gaudêncio passou um longo momento admirando a bela silhueta de sua amada. Ela por sua vez estava empolgada vendo as evoluções que os cavaleiros faziam na pista, de tal modo que demorou a perceber a presença do rapaz. Ruborizou violentamente e pediu desculpas.
– Você quando fica empolgada se torna mais bonita ainda. Eu estava apreciando seu entusiasmo. Estou vendo que vai ser mais fácil se acostumar a viver na fazenda do que imaginei.
– Eu amo animais, especialmente cavalos. Eles são meus preferidos.
– Vou lhe dar um de presente. Assim quando for passear na fazenda poderemos cavalgar. Se não souber eu ensino.
– Ela aprendeu a cavalgar quando era menina. Agora faz algum tempo que não tem oportunidade de exercitar-se na montaria.
– Pena não saber, pois poderíamos ter remediado isso quando estiveram lá.
– Fica para a próxima.

 

Assistiram ao final das apresentações e antes de voltarem para casa, assistiram a um show de músicas típicas. Enquanto viam o espetáculo, aproveitaram para comer num lugar que estava armado ali mesmo, perto do palco. Depois de encerrado o show voltaram para casa. Na quinta feira marcariam as passagens para retornar. Estavam for a há mais de uma semana. 

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