Gaúcho de São Borja! – Capítulo XIV

 

 

Peixes em piracema.

 

Peixes saltam durane a piracema.

 

Chegando à corredeira na piracema.

 

 

Sol poente no outro lado do Rio Uruguai em São Borja.

 

Novidades funcionando.
O restante de novembro, depois dezembro transcorreram com muita atividade sendo desenvolvida na fazenda Santa Maria. Na segunda feira logo após o dia 15, chegaram os dois reprodutores adquiridos na feira no começo do mês. O veterinário foi chamado para proceder a um exame geral prévio, antes que fossem colocados no pasto junto aos demais animais. Ficariam em observação por pelo menos uma semana para depois de certificar-se de seu estado sanitário total colocá-los em contato com outros animais ali existentes.
O vizinho senhor Francisco repassou o valor dos alevinos que lhe caberiam no lote adquirido em conjunto. Na quarta feira Joaquim se encarregou de efetuar a ordem de pagamento para o vendedor de Santa Maria. Gaudêncio solicitara o despacho do pedido no final de semana, de modo a poderem retirar na segunda feira os tanques da estação de carga da ferrovia. Iriam transport-los para a beira dos arrozais e os soltariam. Passariam o período de crescimento e floração, granagem e maturação quando seria retirada a água para permitir a colheita. No momento da retirada da água os peixes seriam capturados e entregues às peixarias. Teriam esse tempo todo para encontrar mercado para esse pescado no momento oportuno.
Quando os outros plantadores de arroz aderissem à produção de peixes, seria necessário um local para processar e armazenar em sistemas refrigerados a carne. Haveria um volume muito grande de oferta em um determinado momento. A ausência de algum estabelecimento apropriado faria com que houvesse superoferta, jogando os preços por terra e mesmo causando a aperda de boa parte da produção. Tudo isso era assunto de debate entre Gaudêncio e Joaquim. Atrairiam outros rizicultores para a atividade e formariam uma associação ou cooperative para tomar a seu cargo o processamento desse pescado todo. Estimavam a produção em muitas toneladas de pescado annual.
Havia a preocupação com a atividade dos trabalhadores na época entre um pico de produção e outro. O período deveria ser ocupado com atividades afins, dentro do ramo de alimentos que pudessem abosorver toda essa mão de obra. Do contrário ficariam a braços com um enorme problema. Deveriam pois pensar na solução desses problemas desde já. Depois de ter o fato diante dos olhos, na forma de imensa quantidade de pescado para dar destino, seria tarde para pensar em soluções. Combinaram conversar com os industriais do arrooz, veterinários, agrônomos e gerentes bancários.
Em determinado momento durante essas conversações Pedro Paulo estava presente e falou:
– Vocês não podem se unir à cooperative de pescadores do rio? Tem muito dia que eles não pegam nem resfriado. Uma reserve de peixe congelado para abastecer o mercado seria muito bom para eles.
– Compadre, você teve uma ideia brilhante. Nem pensamos nessa possibilidade. Vamos conversar com eles na primeira oportunidade.
– Vamos esperar os alevinos chegarem e convidamos eles para virem ver a soltura no arrozal. Assim eles saberão que em algum tempo teremos peixes para vender a eles. Terão carne de peixe em abundância e quando os demais plantadores de arroz aderirem a esse procedimento, poderão exportar para outras regiões.
– Viu só! Veio também tem ideia boa de vez em quando.
– E quem falou o contrário, pai? O senhor tem mais que dar sua opinião para ajudar.
– As veiz eu não falo pra não passar por intrometido.
– O que é isso, compadre? Intrometido você! Nem pensar numa coisa dessas.
– Hoje é sábado e devem estar embarcando os bichinhos lá em Santa Maria. Segunda feira vão estar na estação de carga e vamos ter que buscar eles.
– Será que a gente consegue encontrar o encarregado ou gerente da cooperativa dos pescadores hoje ou amanhã?
– Vamos ter que procurar e ver. Se encontrar, convidar ele e mais alguém para virem ver a soltura dos filhotes.
– Agora é quase noite. Vamos ter que fazer isso amanhã cedo sem falta. Assim eles vão ter tempo de se preparar.
– Dependendo do caso podemos buscare les e trazer aqui. Depois a gente leva para casa outra vez.
– Isso é o de menos, Gaudêncio. Pode ser que eles tenham carro próprio.
– Caso não tenham, a gente resolve essa parte. É de nosso interesse.
– Seus faladores! Venham sentar para almoçare, – falou Maria Conceição, metendo o dedo na conversa.
– Chegou a hora melhor do dia. Vamos comer a comidinha da comadre Maria Conceição.
– Tem nada de especial hoje, compadre.
– Vindo de suas mãos comadre, até feijão e arroz vira banquete.
– Compadre está elogioso hoje. Que será que ele pretende?
– Pretendo nada não. Apenas sou justo com uma cozinheira de mão cheia como você comadre.
– A comadre vai ficar com ciumes lá do céu.
– Fica não. Ela lhe tinha tanta afeição quanto eu.
– Venham sentar e chega de trololó.
Os três levantaram e foram se lavar antes de irem para a mesa. Sentaram-se e a dona da casa colocou sobre a mesa as travessas fumegantes de alimentos recém cozidos. Era nada mais que um assado de contrafilé, um prato de aipim branco, bem cozido, arroz de pilão bem soltinho, sem faltar o indefectível feijão. Para acompanhar tudo um bom prato de salada, tendo repolho, pepinos azedos e tomates. Na geladeira havia algumas garrafas de cerveja para acompanhar o excelente repasto.
Terminado o almoço foram até a parte atrás da casa, onde sob uma árvore frondosa de Santa Bárbara havia postes para colocação de redes. Essas já estavam postas em seus lugares e ali se deitaram para fazer a digestão. Durante alguns minutos rolou conversa sobre a produção de peixes. Logo estavam os três dormindo ressonando levemente. Maria conceição, depois de lavar e guardar as louças, veio ocupar também sua rede e riu baixinho ao ver os três já dormindo a sono solto. Pedro Paulo entreabriu os olhos e viu quem era que estava ali. Logo prosseguiu em seu cochilo.
Algum tempo depois acordaram e em dado momento Gaudêncio propôs:
– Não seria bom procurar hoje os caras da cooperative? Vai que amanhã eles vao para algum lugar, visitar um amigo ou parente e a gente não acha eles.
– Estava tão bão esse soninho aqui na sombra, – falou Joaquim.
– Padrinho pode ficar aqui que eu vou.
– Vamos todos juntos no meu carro. Assim comadre sai um pouco.
– Só se eu der um recado para o Antônio. Se ele cuidar da ordenha eu vou junto sim.
– Acho que estamos de volta até lá. Mas pode avisar o Antônio. Fica perto daqui mesmo.
– Esperem aqui que eu vou lá falar com ele.
Maria saiu dali e foi direto à casa do auxiliar que estava também levantando da sesta naquele momento. Imediatamente se prontificou a cuidar do serviço. Maria poderia ir sossegada que ele tomaria conta de tudo. Voltou para casa e foi trocar de roupa. Estava com roupas de trabalhar dentro de casa. Em poucos minutos estava pronta para partir.
– Podemos ir seus palermas.
– Opa, pisaram no meu calo, – falou Joaquim.
– No meu também, – disse Pedro Paulo.
– Engraçado! Não senti nada. Acho que no meu ela não pisou.
– Vai pegar o carro. Pelo menos dirigir você pode. E para de contar vantagem.
Todos riram com gosto e esperaram Gaudêncio trazer o automóvel. Ele não se fez de rogado e dois minutos depois estacionava o veículo diante dos três. Saltou e veio abrir as portas para que embarcassem. Fechou uma a uma e sentou-se ao volante. Dali a pouco estavam viajando em boa velocidade para a sede do município. Sem pestanejar ele levou o veículo diretamente ao porto. Se existia um lugar onde deveriam saber do paradeiro dos homens ligados à cooperative de pescadores, era ali. Depois iriam até a casa onde moravam. Isso provavelmente seria perto dali.
 
Pintado pescado em São Borja.
Peises nadando na água cristalina.
Um belo exemplar da espécie Piapara.
 
Não foi difícil saber o endereço e foram até a casa indicada. Ficava na primeira rua à esquerda, duas quadras a frente, uma casa azul claro. Só havia uma casa com essa cor nas proximidades e não poderia ser outra. Parou o carro e bateu palmas. Em alguns segundos um homem moreno, levemente barbado, falou da soleira da porta:
– Se achegue. Aqui não tem taramela nas porta.
– O senhor é da cooperative de pescadores?
– Sou eu sim. Tem também o Tonhão e o Chico. Eles mora aqui perto.
– Nós somos da fazenda Santa Maria. O senhor Joaquim, proprietário, meu pai, Pedro Paulo, capataz geral e minha mãe, Maria Conceição. Eu, por bondade de padrinho, sou o herdeiro da fazenda.
– A m’o de quê devo sua visita?
– Nós viemos propor um provável negócio para a cooperative.
– Negócio para a cooperative! Qui é qui nóis pescador pode faze pra fazendeiro? Vão comprar peixe para os peão?
– Ao contrário. Nós vamos aproveitar o arrozal irrigado para criar peixe. A tal de Tilápia. Vem do estrangeiro, cresce rápido e tem uma carne apreciada.
– Tendi! Qui nóis vai faze com esses peixe?
– Quando for a hora de colher o arroz os peixes vão estar no tamanho ideal para abate. Vai ser uma grande quantidade e será preciso processar tudo, congelar para vender no comércio aos poucos.
– Mais nóis num temo onde armazená uma grande quantidade. De onde vamo arranjá dinheiro pra instalá esses congelador?
– Isso a gente resolve em conjunto depois. Nós vamos receber, junto com o vizinho os alevinos para soltar no arroz, na segunda feira. Eles vem de Santa Maria de Trem. Queríamos que o senhorr e mais alguém estivesse junto para ver e dizer aos companheiros que os peixes são realidade. Não é conversa fiada.
– I com’é qui nóis vamos chegá na sua fazenda?
– A gente providencia transporte. Isso pode deixar por nossa conta.
– Rosinha! Rosinha! – voltou-se para o interior chamando por alguém com esse nome.
– Qui foi pai?
– Vai até a casa de Tonhão e Chico. Pede pra eles vim cá um bocadinho.
Depois de dar umas boas pitadas em um palheiro que estava queimado a meio, o dono da casa convidou:
– Mas cheguem e tomem assento.
Subiram na varanda e sentaram-se em algumas cadeiras um tanto velhas, parecendo não suportarem os pesos dos visitants. Elas resistiram valentemente. O gerente também se sentou e logo Rosinha, a filha, voltou avisando:
– Tonhão já vem. Chico num tá em casa, pai.
– Está bem. Vai ajudar sua mãe no serviço.
A menina sumiu atrás da casa, ouvindo-se um murmúrio vindo da região posterior da construção. Alguns minutos se passaram e o denominado Tonhão chegou, cumprimentando:
– Boas tardes!
– Sente-se amigo. Temos visita importante hoje, home.
– Tô vendo. I isso quer dizer o que?
– Eles qué qui nóis vai na fazenda do seu…Joaquim na seguda pra m’o de ver eles sorta uns tal de, como é mesmo o nome que o moço falo?
– Alevinos, são os filhotes de peixes.
– Sim, eles compraro filhotes de peixe e vão sorta no arrozal irrigado. Quado for hora de colher os peixe vão tá grandinho e precise ter onde carnea, congelá pra m’o de conservá a carne.
– Arre! Essa agora! Fazendeiro vai criar peixe também! Essa é boa, compadre.
– Nóis tem algo a perdê, Tonhão?
– Acho qui não. Só do dimirado dessa novidade.
– Não demora e todos os arrozais vão estar cheios de peixes. Quando isso acontecer vai haver tanta Tilápia para congelar que vai precisar de um bom frigorífico.
– Olalá! Como é qui nóis entra nessa história?
– Aí está a questão. Nós queremos aproveitar o espaço ocioso no arrozal irrigado e também proteger as plantas de algumas pragas de insetos. Vocês vão ser beneficiados podendo processar e armazenar o pesccado. Depois comercializar, abastecendo a região e os municípios vizinhos.
– Mais como nóis vamo ter dinheiro para esses congelado que vai precisarr? Isso não vai se pouca coisa.
– Se interessar, nós nos encarregamos de ajudar a cooperative a conseguir o financiamento para fazer os investimentos. Também vamos assumir o compromisso de conseguir mais fazendeiros para produzir peixes também. Assim teremos uma produção muito grande. No intervalo vamos ver o que se pode fazer para manter a mão de obra em atividade. Vai precisar de muitas mãos para esse trabalho.
– Quando memo que temo que ir na fazenda?
– Segunda feira pela manhã eu passo aqui de carro e lelvo vocês, depois trago de volta, – falou Joaquim.
– Podemo ir, Tião. Mais sem compromisso por enquanto.
– Tá certo, Tonhão.
– Vocês vão ter o tempo para apresentar a proposta aos demais membros da cooperative e nos dar a resposta. Vamos providenciar no Banco do Brasil um financiamento para o que for preciso.
– Vois mecês tomam um chimarrão?
– Obrigado, seu Tião. Mas vamos andando. Minha mãe é a encarregada de coordenar a ordenha das vacas na fazenda e não quer chegar atrasada.
Despediram-se dos dois pescadores, embarcaram no automóvel e iniciaram o retorno. Como Maria Conceição há muito não vinha para a cidade, decidiram dar um passeio adicional pela cidade, mostrando as novidades surgidas nos últimos tempos. Afinal a cidade estava em franco crescimento, ocorrendo instalação de novas indústrias de arroz e outros estabelecimentos comerciais. Era o progresso chegando dia a dia.
Pararam em uma sorveteria para tomar um sorvete. Amenizaria o calor forte que fazia nos dias finais de novembro. Ao primeiro sorvete seguiu-se um segundo e depois voltaram calmamente para a fazenda, tendo dado antes uma passada pela casa de Joaquim na cidade. Avisou a empregada que viria dormir ali na noite de domingo, para não tomá-la de surpresa. A distância foi percorrida sem problemas em tempo de alcançar a fazenda Santa Maria nos momentos finais da ordenha da noite. Estava tudo em ordem e foram para casa, deixando as providências finais com o leite a cargo dos empregados.
Na segunda feira cedo, Joaquim estava na casa de Tião para levar os dois representantes da cooperative a fazenda. Para sua surpresa o Chico, ausente na tarde de sábado, também viera e iria junto. Era visivelmente o mais entusiasmado. Percebera ali a possibilidade de um crescimento acentuado na capacidade da cooperative. Os assossiados poderiam ter uma participação pessoal no trabalho de processamento do pescado na época adequada. Estava convencido que, os demais companheiros, lhes fosse apresentada a ideia de maneira correta ficariam igualmente animados. A quantidade de pescado disponível no rio não aumentava e cada dia havia mais pessoas pescando. Essa tendência não iria retroceder com certeza. Por isso uma luz no final do túnel deveria ser recebida com os braços abertos.
Como estavam prontos, embarcaram e iniciaram a viagem. Iriam até a estação de cargas da ferrovia para assistir ao transbordo dos tanques para os caminões que os transportariam para as fazendas. Um deixaria sua carga na Santa Maria e o outro na fazenda de seu Francisco, a Santana. Os visitantes não poderiam estar presentes nos dois lugares mas bastaria verem a soltura dos muitos projetos de peixer que eram visíveis dentro dos tanques. Era impossível fazer uma contagem nem ao menos estimativa da quantidade existente em cada tanque. Os tres pescadores quiseram saber a quantidade de filhotes existente em cada tanque. Não havia como contar e precisariam acreditar nas palavras do vendedor. Era provável que essa contagem se fazia de uma maneira aproximada.
O certo é que havia uma quantidade inimaginavel de pequenos pontos que nadavam no interior da água dos tanques. Estavam ali desde a tarde de sábado e poderiam permanecer sem maiores problemas até a manhã de terça feira. Portanto estavam com folga na margem de tempo disponível. Depois da colocação dos tanques nos caminhões esses iniciaram uma viagem vagarosa para seus destinos. Demoraram em torno de duas horas para chegar e eram 11 horas na chegada. Foi considerado conveniente manter os veículos à sombra até as primeiras horas da tarde. A totalidade dos trabalhadores dos arrozais estava aguardando a hora de participarem da soltura. Era uma novidade e não a perderiam de modo algum.
O almoço foi servido mais cedo nesse dia e depois foram para os locais em que fariam a soltura. Sendo a primeira vez tudo era aprendizado. Demoraram mais tempo devido à falta de prática de parte de todos. Até mesmo os pescadores participaram entsiasmados do trabalho. Os pequeninos bichinhos pareciam ficar admirados com a súbita disponibilidade de espaço e principalmente alimento em quantidades nunca vistas. Sem demora começavam a se alimentar de pequenas partículas, provavelmente algas e outros seres minúsculos que faziam parte de sua dieta. No momento em que o sol chegou perto do horizonte todos haviam sido soltos e os tanques vazios foram deixados depois nas plataformas da estação. Seriam embarcados de volta para Santa Maria e serviriam em outros momentos para novo envio de alevinos. Estava iniciada mais uma novidade na fazenda Santa Maria.

Em uma semana, mais tardar duas, a construção da estrutura para instalar as máquinas ordenhadeiras. Era tudo novidade que ia se espalhando na região, atraindo frequentemente pessoas curiosas, fazendeiros vizinhos que vinham saber das novidades implantadas por Joaquim e seu herdeiro.

Posta de peixe assada.

 

Dourados assados na brasa em São Borja.

 

Uma ideia sobre “Gaúcho de São Borja! – Capítulo XIV

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *