Mineiro sovina! – Capítulo XVIII

Galeria do museu do Vaticano.

 

Pirâmide do museu do Louvre.

 

Prédio de museu em Roma.

 

Um rival na parada.
 
 
         Naquela noite José Silvério teve um pouco mais de privacidade com a noiva. Ela mesma voltara do longo período de ausência aparentemente famainta de carinho, intimidade. Os pais foram dormir e eles permaneceram sentados nos confortáveis estofados da sala. Estavam bem juntos, trocaram beijos, primeiro levemente tímidos e aos poucos ganharam em ardor. Parecia que o contato com os diferentes povos da Europa especialmente, haviam deixado marcas nas atitudes e sentimentos da jovem. Antes que ultrapassassem determinados limites José fez uma pausa e falou:
         – Meu bem! Eu te amos mais que a qualquer coisa nesse mundo. Sou feito de carne e osso. Se nós continuarmos teremos que ir amanhã para diante do juiz e fazer nosso casamento.
         – E isso faria você ficar encabulado?
         – Digamos que não era exatamente isso que estava em meus planos. Mas, não havendo alternativa, eu encaro essa sem problema. É isso que você quer, meu amor?
         – Também não era meu roteiro de vida, mas esses meses todos longe me deixaram muito carente. Gostaria de poder partilhar todos os momentos com você.
         – Não teremos que esperar muito. Apenas os meses para providenciar onde vamos morar, preparar a festa do casamento, tramitar os papéis na Igreja e no civil. Leva algum tempo, mas não é demais.
         – De fato não será conveniente pisar diante do padre usando um vestido branco de noiva e já ter perdido a pureza própria da situação. Acho que mamãe ficaria muito triste. Não custa muito dar a ela essa alegria.
         – Sua mãe merece todo respeito de nossa parte. Se foi possível mantermos nossos instintos sob controle até hoje, podemos esperar mais uns meses.
         – Eu li algumas notícias na Europa e Estados Unidos que mostram isso como coisa ultrapassada. Até aqui no Brasil já há gente dando a minima para a virgindade e essas coisas todas.
         – Provavelmente daqui a alguns anos esses conceitos e tradições serão coisa do passado. O que dá um certo receio é que, estão querendo derrubar as tradições, proibições do passado, mas ninguém sabe ao certo o quê colocar no lugar.
         – Há muita gente dizendo que família é uma instituição falida, não tem mais sentido. Gostaria de saber como vão ser educados os filhos nascidos nesse caos resultante dessas mudanças todas. Qualquer hora vão aprovar a legalização do divórcio, há mesmo quem queira o mesmo para o aborto. Acho que é muita mudança para uma vez só.
         – Fico feliz em saber que você tem uma visão equilibrada sobre essas questões. Ficaria preocupado se estivesse imbuida de que essas modificações são algo necessário de imediato. Que irão acontecer em algum momento no futuro não resta dúvida. Importa que antes seja realizada uma análise profunda de todas as consequências e implicações que trarão consigo.
         – Eu imagino como ficarão vocês advogados quando essas leis forem aprovadas.
         – Teremos que nos adaptar, mesmo que custe um pouco da nossa maneira de ver os fatos. Seremos obrigados a nos manter dentro dos limites legais estabelecidos.
         – Eu sempre me pergunto se a palavra fria da lei consegue abranger toda a variada gama de situações possíveis.
         – Com certeza que não. Demora uma boa temporada até que seja estabelecida uma certa jurisprudência. Ela servirá de baliza aos novos processos e suas decisões ao final. Cada juiz que inferior uma forma inovadora de aplicar a palavra da lei constitui um marco nesse conjunto de normas informais. São a parte não escrita da lei, que passa a fazer parte dos processos e das decisões transformadas em sentenças.
         – Pensei que minha vida de pintora era complicada, mas vejo que a de advogado é muito mais. Não deve ser fácil encontrar o caminho no meio de todo esse emaranhado de leis, decretos e normas. Ainda mais essa tal jurisprudência para aumentar a confusão.
         – A prática ajuda bastante. Hoje temos uma facilidade ampliada com as compilações em compêndios. Pior era algumas décadas passadas. Os advogados sofriam para conseguir encontrar o caminho. Eram noites inteiras em claro para encontrar a forma de defender um cliente, acusar um malfeitor. Houve gente que fez verdadeiras maratonas nesse frenesí. Quando o julgamento está marcado, não há como deixare de comparrecer. Às vezes conseguimos adiar a realização, mas precisamos de um motive justificado para isso.
         – Acho que vou fazer o meu atelier ao lado de seu estúdio de trabalho em nossa casa. Enquanto você estuda seus processos em desenvolvo meu trabalho de pintura.
         – Será que é uma boa ideia? No começo creio que corremos o perígo de esquecer de nossos afazeres e partir para outras coisas.
         – O jeito vai ser colocar uma divisória gradeada para nos manter afastados.
         – Melhor começar cada um em seu canto. Depois poderemos ficar mais próximos.
         – Acho melhor irmos dormir. Amanhã você terá que sair cedo para cuidar de seus compromissos. Eu por minha vez vou aprontar meu atelier para começar a pintar. Etou cheia de ideias para colocar em prática. Técnicas novas que aprendi, só de olhar alguns artistas da Europa trabalhar.
         – Mas sobrou tempo para aprender coisas novas, com toda correria que foi sua excursão?
         – Sempre sobra e a gente aprende apenas num rápido olhar. O resto fica por conta da criatividade.
         Um último e prolongado beijo encerrou a noite. Depois um abraço carinhoso, os corpos colados sentindo o pulsar mútuo dos coraçoes, antes de se dizerem Boa noite. José já sabia onde deveria deitar e foi para o quarto. Fez isso a contragosto, pois tinha vontade mesmo de tomar a noiva nos braços e deposit-la na cama, iniciando um prolongado processo de despí-la lentamente. Depois viria a última etapa antes da união física dos corpos. Ansiava por esse momento, mas estava encaminhado para a realização de seus desejos em tempo não muito longo. Tinha que ser forte nesse interval. Não queria manchar sua reputação de advogado destacado, transgredindo as normas do respeito à casa do futuro sogro.
         Era tido praticamente como um filho tanto por Onofre, quanto por Maria Luisa. Eles não mereciam que manchasse a honra da casa, deixando de corresponder à confiança que nele depositavam. Passou um longo tempo deitado com a mente em turbilhão. Sentados no estofado haviam trocado carícias signficativamente mais íntimas do que jamais haviam ousado antes. Sentra sob suas mãos, através do fino tecido a pele fremindo de desejo. Os seios bem proporcionados haviam se enrijecido sob o efeito da proximidade do corpo masculine. Conseguira perceber que ela ardia em desejo por ele com intensidade semelhante ou até mesmo maior que ele por ela. Fora a educação recebida desde a infância que os fizera se conrolar.
         No outro aposento por seu lado Isabel rolava de um lado para outro em sua cama. Tinha dificuldade em acalmar o fogo que lhe consumia as entranhas. O que ficara por tanto tempo submisso e controlado, explodira igual um vulcão ao toque suave das mãos de José. Nesse momento, a simples lembrança do noivo, suscitava em se user sucessivas ondas de calor. Precisou de grande esforço para não levantar e se esgueirar para o quarto do noivo. Ocorreu-lhe que, não faria nenhuma diferença se o encontro tão desejado dos dois corpos se realizasse agora ou dali a alguns meses. Nesse momento lembrou de seu pai de olhar severo, a mãe sonhadora e se controlou. O tempo agiria a seu favor. Mergulharia no trabalho, extravasando toda sua paixão em formas e cores, bem mais ousadas do que qualquer coisa que já pintara até o dia de hoje. Mil imagens dançavam diante seus olhos e um arco-írias de mil cores se espraiava no espaço.
         Ambos dormiram algumas horas de sono agitado. Mal o sol apareceu no horizonte, estavam em pé. José para empreender a viagem até a cidade depois de um rápido desjejum providenciado pela cozinheira sob o comando de dona Maria Luisa. Ele estava à meio com seu café, quando entrou e o cumprimentou Isabel. Eram visíveis nos olhos de ambos as horas insones transcorridas antes de acalmarem seus hormônios. Sentou-se para também tomar se desjejum. Alguns minutos depois José se despediu, depois de olhar em seu relógio de pulso. Se não se apressasse chegaria atrasado, sem esquecer que, cada minute ao lado da noiva aumentava o risco de atrasar mais um pouco.
         Nas primeiras semanas ambos mergulharam no trabalho. José vira a pilha de processos em sua mesa crescere, apesar de seu empenho em dar andamento diário a tudo que fosse possível. Acontecia que, sua crescente notoriedade no mundo jurídico, fizera crescere o número de clientes que procuravam seus serviços. Não havia mais necessidade de o diretor do escritório destinar trabalho a ele. Os clientes por si mesmos solicitavam atendimento de parte dele. Junto com um acrséscimo aos rendimentos, vinha também um enorme aumento de horas dedicadas ao estudo das leis, seus artigos, parágrafos e ítens a serem aplicados a cada caso. Não tardou e começou a sair do escritório apenas depois de oito ou nove horas da noite.

Museu do Vaticano.
Ruinas romanas.
Turistas visitando museu do Vaticano.


         Já Isabel começou por vir até a cidade arrematar praticamente o estoque de telas, tintas, pincéis, espátulas e outros apetrechos usados em seus trabalhos. Havia alguns que nunca usara, mas estava disposta a experimentar. Em pouco tempo descobriu um imenso campo novo descortinar-se ante os olhos da mente. Os trabalhos se sucederam e rápida sequência, chegando a estarem lado a lado mais de um deles. Enquanto refletia sobre os próximos traços, cores e tons de um aplicava palhetas, espátulas e outros recursos no trabalho no cavalete ao lado. Em menos de um mês uma variedade ampla e em bom número de trabalhos estava colocado nos ganchos dispostos ao longo da parede. Dali sairiam depois de completarem a secagem.
         Em determinado dia da segunda semana, Maria Luisa ousara abrir a porta do atelier e encontrou a filha inteira suja de tintas. O avental dava a impressão de ter sido usado por um pintor de paredes durante alguns meses sem lavar. Até seus lindos cabelos haviam recebido alguns respingos. A tentativa de remover a tinta com a mão, espalhara-a, tornando o estrago mais intense. Os olhos arregalados da mãe a fizeram perguntar:
         – O que foi mãe? Viu fantasma?
         – Eu vi você, minha filha, toda suja de tinta. – falou controlando a vontade de rir.
         – Sei que estou toda suja, mas não vou parar antes de concluir esses dois quadros. Minha alma inteira está se derramando sobre as telas e variadas cores.
         – Quer um refresco ou um café, querida?
         – Vou aceitar sim, mãe. Um café com bolo se tiver. Mas traga aqui no atelier. Não vou sair daqui.
         Alguns minutos depois a mãe chegou com o café recém coado, uma travessa com fatias de bolo, alguns biscoitos e procurou um lugar para apoiar o que lhe ocupava as mãos. Isabel afastou potes de tinta e outros apetrechos. Depois ajudou a mãe a se livrar do que trazia. Pucharam duas banquetas em que sentaram e tomaram café, comeram bolo e biscoitos. Maria Luisa olhou para as telas quase acabadas e tomou um leve susto. O que a filha estaria sentindo, para traduzir naquelas formas e cores tão diferentes do que até ali pintara? Era forçada a reconhecer que era possível antever um efeito de beleza rara. Um vigor pictórico incrível.
         Quando terminaram de comer, juntou os utensílios e os levou para cozinha. Antes de sair falou:
         – Até mais tarde, filha. Vou chamar para a hora do jantar.
         – Obrigada mãe. Até lá vou ter terminado isso aqui. Vou tomar banho antes de jantar.
         Continuou trabalhando com dedicação. Por volta de 18 h e 30 min. deu-se por satisfeita com seu trabalho. Conseguira colocar na tela seus sentimentos mais intensos. Traduzira um turbilhão que rugia em seu íntimo nas cores fortes e contrastantes dos quadros que acabava de pintar. Retirou o avental, removeu com um líquido especial o excesso de tinta de suas mãos e olhou uma última vez para as duas telas ainda nos cavaletes. Ficariam ali até o dia seguinte para a eventualidade de querer fazer algum retoque de última hora.
         Foi para o banheiro e tomou um longo banho morno. Junto com a água que escorria por sua pele sentiu descer para o ralo alguns de seus temores mais recentes. Chegara a recear de ser incapaz de porn a tela o que sentia. O que ficara sobre os dois cavaletes mostrava que era capaz. Dera um passo importante em  sua nova fase de artista. Faria uma série de trabalhos nessa linha antes de se aventurar em algo mais sofisticado. Tivera contato com artistas de outros níveis e sentia-se tentada a galgar esses mesmos patamares. Apenas não iria colocar os pés pelas mãos. Haveria tempo suficiente para tudo isso. Conseguia antever um futuro diversificado em sua produção artística. Inclusive faria tentativas de misturar técnicas diversas no mesmo trabalho. Tentaria harmonizer o traço dos pincéis com as espátulas, esponjas produzindo esfumação, tudo num mesmo conjunto.
         Enquanto isso José Silvério não conseguia se livrar do acúmulo de trabalho. Pediu ao diretor do escritório para lhe providenciar um assistente, pois era forçoso delegar tarefas mais simples para alguém em início de carreira. Tratou-se de conseguir um formando ou recentemente formado. Bastou abrir as inscrições e surgiram um bom número de candidatos. Especialmente os alunos da primeira turma de bacharelandos do curso de direito local. Em poucas semanas estariam colando grau e se pudessem se encaixar em uma posição de assistente de um advogado bem posicionado dentro da carreira, teriam a tarefa de ingressar na profissão bem facilitada.
         As inscrições logo foram encerradas e iniciou-se a seleção. Tinham necessidade de mais dois assistentes para os demais gabinetes. Depois da triagem prévia, chegou o momento da seleção final entre os melhor qualificados. Nessa fase José Silvério quis participar do processo. Queria saber com quem estaria trabalhando. Precisava obter as informações mais detalhadas possíveis do que seria possível esperar do auxiliar. Haveria momentos em que teria necessidade de delegar algumas atividades e poder confiar integralmente no desempenho de quem estivesse sob seu comando.
         Depois de entrevistas, exercícios práticos e uma participação em uma audiência, finalmente foi feita sua escolha. A opção de José recaiu sobre uma jovem, um pouco tímida, mas extremamente competente. Entre todos os candidatos era quem melhor desempenho tivera em todas as atividades a que for a submetida. Foi providenciada uma escrivaninha para colocar num dos cantos do amplo gabinete. Assim a assistente estaria ali para assumir qualquer atividade menos complexa, na impossibilidade do titular. Assim em alguns dias conseguiram colocar a pauta de processos praticamente zerada. À noite ao encerrarem o expediente, ficava apenas uma ou duas pastas ali para o dia seguinte, com entrevistas ou audiências marcadas.
         Dessa forma, no primeiro final de semana José foi para a fazenda. Nas semanas anteriores estivera tão ocupado que nem pensare em ir ver a noiva. Seus pensamentos estariam constantemente voltados para o trabalho e isso não seria justo nem para ele, quanto menos para ela. Haviam se falado por telefone e soubera que ela também estava tendo um nível de produção inesperado. Nunca pintara tanto em tão pouco tempo. Eram até o momento mais de 10 telas prontas. Pelo que ela lhe contou iria se surpreender com o resultado. Eram totalmente diferentes de tudo que pintara até aquele momento.
         Sábado após o almoço colocou algumas roupas numa apequena valise, pegou seu material de barba, loção, escovas de dentes e demais utensílios. Deixaria para tomar banho e fazer a barba na casa de Isabel. Assim estaria limpo e mais apresentável do que se fizesse isso antes. Enfrentar a estrada poeirenta nesses dias de verão, era difícil. Chegava-se ao destino sempre suado e sujo, pouco importando o estado do início da viagem. Chegou e foi recepcionado por Onofre. Isabel ainda estava no atelier. Estava próxima do final de mais dois quadros. Dera agora para pintar dois ao mesmo tempo, com técnicas diferentes. Tinha produzido um monte de coisas novas e o depósito estava cheio de telas para serem usadas.
         – Então é bom deixar ela terminar. Se perturbar agora pode atrapalhar o desenvolvimento do raciocínio e esquecer o que tinha em mente.
         – Eu e Maria Luisa nem entramo no atelier. Está todo atravancado de coisas que nem dá para andar por lá.
         – Essa tournê pelo exterior mexeu com os brios dela, atiçou o gênior criativo e ela está em uma fase de grande produção.
         – Inté parece qui o mundo vai cabaá hoje ou minhã. Percisa faze tudo num dia só.
         – Mas isso passa. Aos poucos ela se acalma. Então volta a ser a doce e meiga Isabel de sempre.
         – Num é que ela tá deferente de dantes. Só não sai daquele atelier. A custo vem pra mesa pra mode come com a gente.
         – Ela ficou muito tempo acumulando ideias e teme que a inspiração vá embora. Quando se der conta que isso só faz aumentar mais ainda a criatividade, ela retorna ao normal.
         – Qui Deus le ouça, José. Nóis quasi num cunversa mais cum ela essas semana despois que vorto dos estrangero.
         – Vou tomar banho e fazer a barba, depois vou espiar no atelier. Vamos ver se consigo tirar ela de lá.
         Pegou sua valise e foi para o quarto que sabia estava sempre pronto à sua espera. Pegou suas roupas limpas, os utensílios para a barba, toalha e sabonete indo para o banheiro. Quando saiu dali, bem barbeado, perfumado, rescendendo loção de barba, uma roupa leve para enfrentar o forte calor, apesar do adiantado da hora, ouviu um leve rumor no cômodo ao final do pequeno corredor. Era o atelier de Isabel. Foi guardar suas coisas, deixando tudo bem arrumado e foi até a porta do atelier.
         Bateu de leve na porta e ouviu a vol dizer lá de dentro:
         – Pode entrar que a porta não está trancada.
         Abriu devagar e falou:
         – Dá licença!
         – Oi! Meu Deus! É você!
         – Quem você pensou que era?
         – Estava tão distraida olhando os meus trabalhos que acabei de terminar e nem percebi que já é tarde. Não vem nem perto de mim pois estou imunda, toda lambusada de tinta e cola.
         – E eu lá me import com isso! O que me interessi é você. O que tem por foram não faz mal.
         – Mas estou vendo que acabou de sair do banho, está perfumado. Eu estou cheirando sour e tinta. Preciso fazer uma ventilação nesse atelier.
         – Por que não põe um ar condicionado?
         – Nem tinha pensado nisso. Agora não preciso mais pedir licença ao papai. Tenho dinheiro para pagar. Aliás acho que vou por isso em toda casa. Chega de dormir mal em noitess de verão.
         – Essa é uma vantagem que ter dinheiro para gastar traz. Pode-se usufruir de algumas comodidades for a do normal das pessoas. Posso ver os seus quadros ou ainda não estão prontos?
         – Estão sim. Estava vendo se tem alguma imperfeição que precise de retoque.
         Ele foi até perto dela e quis abraçá-la, mas ela se esquivou. Ele não insistiu e virou-se para olhar os quadros. O que teve diante de seus olhos era algo incrível. Duas obras primas diria ele em sua pequena capacidade de percepção artística. Mesmo assim era possível ver que, esses estavam em um patamar bem acima dos primeiros que vira. Se daquela vez ficara visivelmente impressionado, imaginem agora. A criatividade de Isabel desabrochara num conjunto de traços vigorossos, cores suaves e tons fortes alternados em perfeita combinação. Permaneceu estático por um longo momento. Seus olhos miravam ora o da direita, ora o da esquerda.
         Ficava difícile dizer qual era mais encantador. Eram executados em técnicas visivelmente diferentes, no entanto tinham igual harmonia. A alma da artista parecia sorrir através das pinturas. Tão ensimesmado ficou que Isabel decidiu falar e tirá-lo daquele enlevo:
         – Não vai falar nada meu bem? Estão tão horrorosos?
         – O quê? Eu estou sem palavras para dizer o que sinto. Você superou qualquer espectativa que eu poderia ter a respeito de seu trabalho. Isso aqui vai fazer furor no mercado de artes. Espera só para ver.
         – Tem tudo isso aqui pronto, – disse ela apontando uma longa fileira de obras colocadas convenientemente suspensas de ganchos fixados no teto.
Ele nem se deu ao trabalho de contar, apenas viu que eram mais de 15. Isso representava a produção de mais de duas pinturas por semana, provavelmente tres ou quatro. Impressionante era a força criadora presente naquele corpo aparentemente frágil de mulher. Tinha no entanto uma energia inerior inigualável.
– Parabéns querida. Vou querer ver um por um, mas não agora. Seus pais estão preocupados com seu rítmo de trabalho. Eu também estive muito atarefado, mas agora com a contratação de uma assistente consegui colocar mais ou menos em ordem.
– Aham! Uma assistente!
– O que tem isso?
– Tinha que ser “uma”, não podia serm “um” assistente?
– Escolhemos o que havia de mais competente disponível. Não acredito que vai ficar com ciumes de mim agora!
– Imagine! Eu com ciumes? Nunca.
– Ainda bem. Eu iria ficar preocupado com isso.
– Afinal eu convivi com uma porção de gente por quase um ano viajando e você ficou aqui. Que eu saiba nunca ficou com ciumes.
– E deveria?
Ela tinha na mão um pincel sujo com resto de tinta e ameaçou passar no rosto dele.
– Vou mostrar como se faz com noivos ciumentos.  
         Ele ficou estático esperando que ela passasse o pincel em seu rosto. Porém parou alguns centímetros antes e sorriu.
         – Você ia deixar eu sujar seu rosto de tint
         – E por que não? Amo você tanto que aceitaria ser pintado inteiro pelos seus pincéis, ou melhor com as mãos. Deve ficar ótimo.
         – Há necessidade de cuidados. Eu preciso comprar luvas para proteger as maos contra alguns componentes tóxicos das tintas.
         Ela retirou o avental e o colocou pendurado em um gancho na parede.
– Vamos que eu também vou tomar banho. Tenho que remover uma tonelada de suor e tinta do corpo.
Sairam e ela entrou no seu quarto, dando antes um beijo bicudo no rosto dele. Sumiu no interior depois de fechar a porta. José foi até a sala, onde não encontrou ninguém e saiu para a varanda. Ali estavam, apreciando o entardecer, Onofre e dona Maria Luisa.
– Conseguiu desentocar a toupeira?
– Consegui. Ela vai tomar banho e depois vem ficar com a gente.
– Qui é que ela tá pintando tanto nesses últimos dias?
– Ela explodiu em cores e formas variadas. Tem mais de quinze quadros novos prontos e dois que terminou há pouco. No rítmo que vai, em seis meses vai ter um estoque de 150 ou 200 para excursionar outra vez.
– Uai! Qui é qui deu nessa? Tá queremo pintá o mundo em um mês?
– O ano passado ela não teve tempo de pintar quase nada. Aprendeu uma enormidade de coisas novas, técnicas diferentes. Está com a cabeça fervendo de ideias e formas.
– Mais ela precise descansar. Não pode trabalhar tanto.
– Vamos ver se convencemos ela a moderar o ritmo.
– Eu vi outro dia dois que ela tava terminando e achei uma coisa muito linda. Apenas não entendi direito o que queria dizer.
– É a pintura mais moderna. É assim mesmo e ela parece que captou muito bem a essência dessa nova vertente artística.
Dona Maria Luisa ofereceu um copo de refresco e todos saborearam um longo gole. Antes de retomarem a conversa, Isabel chegou, com o cabelo ainda molhado do banho. Estava com uma camisa folgada, uma Bermuda deixando ver um maravlhos par de pernas. Essa visão provocou uma perturbação em José Silvério, mas manteve o controle. Estava diante dos pais da noiva e era inconveniente demonstrar suas emoções assim abertamente.
– Té qui enfim, fia. Pensei qui ia ficar pra sempre naquele atelier. Senta aí e toma um refresco.
– Vou tomar sim. Estou mesmo com sede. O refresco vem a calhar.
– Seu noivo tava contano aqui das suas pintura. Pode ir mais devagar qui num vai fartá tempo. Tem a vida inteira pela frente.
         – Vou fazer isso mesmo. Aliás segunda feira vamos para cidade comprar ar condicionado. E não diga que é gastar dinheiro à toa pai. Eu vou pagar. Chega de dormirmos mal nos dias quentes.
         – Carece não minha fia. Nóis veve tantos ano aqui sem isso e nunca sentimo farta.
         – É que nunca tiveram. Não se sente falta do que nunca teve. Depois que tem e fica sem, começa a sentir falta.
         – I já penso na eletricidade que isso vai gastá?
         – Olha aí o sovina! Só podia vir do senhor pai! Pode deixare que eu pago a conta de energia. Importa que a gente tenha mais conforto.
         – Não é isso que estou querendo, mas não se deve nunca gastar mais que o necessário.
         – Quando não for necessário a gente desliga e pronto. Ali no atelier eu pago os meus pecados nesses dias quentes. Tenho vontade de ir lá par baixo das árvores e pintar.
         – I pur que qui num fais isso?
         – A poeira na tinta molhada faria um serviço muito sujo.
         – Talvez servisse como parte da pintura, filha, – falou Maria Luisa.
         – Quero minhas pinturas nas cores que eu pinto e não as que o vento resolver colocar por sua vontade.
         – Tumem num temo razão de brigá, fia. Fais tua vontade. Vamo junto segunda o terça-fera comprá esses tar de ar condicionado.
         – Vão ter que trazer alguém para fazer a instalação. Talvez seja necesário adequar a rede de energia para suportar a carga.
         – Você tem como orientar a gente, José. Contamos com você. Se for preciso trocamos a rede de entrada toda.
         – Pode ser necessário. Não sei a carga que o senhor tem instalada, coronel. Pode ser realmemente preciso trocar tudo. Mas isso é coisa de um ou dois dias de serviço. Os postes são os mesmos. É só puxar os novos cabos, talvez por um novo relógio e pronto. É bom instalar um Sistema trifásico. Assim fica pronto para o uso de motores para automatização de partes do processamento do café, secagem seleção dos grãos e tal.
         – Nós vamos ver isso. Está passado da hora de tornar isso mais prático. Mas podemos ir com calma. Agora até a colheita não dá mais tempo mesmo. É coisa para o outro ano.
         – Viu só veia! Tão queremo comandar a fazenda. Inda to vivo aqui.
         – Pai não estamos querendo passar por cima do senhor. Apenas modernizar as coisas. Para que serve o dinheiro que está guardado no banco?
         – Serve para os caso de percisão, uai!
         – Enquanto isso um mundo de gente sofre trabalhando igual escravo para dar conta do serviço na época da colheita. Vamos entrar para a vida moderna.
         – Sumana qui vem vamo ver isso, fia. Afinal você vai ser a dona da fazenda quando nóis partir dessa vida, tem que começar a pensar no futuro.
         – Essa decisão sua coronel, é muito sábia. Por toda parte pode-se ver as fazendas instalando modernos sistemas de secagem e outros procedimentos. Sua filha está certa e o senhor mais ainda ao aceitar as sugestões dela.
         – Vem comigo filha! Vamos ver como está o andamento do jantar. Me ajuda um pouco lá.
         Com um aceno de mão para o noivo Isabel seguiu a mãe em direção à cozinha. Lá encontraram a cozinheira com quase tudo pronto. Faltava apenas coar o café, coisa de habitualmente ficava a cargo de Isabel. Os pratos e talheres foram levados para a mesa arrumando tudo. Em instantes o cheiro de café recém coado se espalhou pela casa, chegando à varanda onde estavam José Silvério e Onofre. O cheiro inconfundível mexeu com os sentidos dos dois. Nunca deixariam de reagir à sensação desse odor. Ele penetrava em suas narinas e ia diretamente ao cérebro despertando a vontade de tomar uma xícara do líquido saboroso.
         Logo Maria Luisa veio chamar para o jantar. Depois da refeição, um café ainda quentinho, foi saboreado como complemento àos alimentos degustados. Logo estavam vendo as notícias transmitidas pelo jornal nacional na TV Glogo. Foi informado que um pintor bastante famoso na Europa, de nacionalidade italiana, estaria na semana seguinte expondo suas telas no MAM de Belo Horizonte.
         – Os artistas daqui vão expor na Europa e os de lá vem expor aqui também. É uma troca. Vamos ver se a Isabel conheceu esse artista na sua viagem.
         – Qual artista você está falando, meu bem?
         – Deu agora mesmo no Jornal. Um artista italiano está em BH expondo as pinturas dele. Talvez você tenha conhecido ou ouvido falar dele.
         Nisso a notícia voltou a ser apresentada ao retornar dos comerciais e ela apontou dizendo:
         – Conheço ele sim. Ele foi ver minhas exposições na Itália. Até me convidou para almoçarmos uma vez.
         – I ocê aceito, fia?
         – Tive um pouco de receio, mas meu agente foi junto e não aconteceu nada demais.
         – Não haveria por que acontecer alguma coisa. As pessoas são civilizadas pelo mundo.
         – Mas eu não conhecia o homem e não tinha por quê confiar assim sem mais nem menos. Por isso me garanti de minha parte.
         – Tá certa você filha.

         O jornal terminou e em seguida veio um capítulo da novella do horário. Os pais, Onofre e Maria Luisa levantarm para irem dormir. Os jovens ficaram à vontade e tomaram as precauções que julgaram convenientes para evitarem se colocar em situações que pudessem lhes causar aborrecimentos posteriores. No domingo a tardinha, quase início da noite, José retornou para casa. Ficou combinado que na terça feira se veriam na cidade quando Isbel e os pais fossem comprar os aparelhos de ar condicionado e também tratar da negociação das instalações mais modernas no cafezal. Fariam a solicitação de instalação da rede trifásica de energia para cobrir as necessidades futuras.
            Sem querer, José se viu pensando no tal artista italiano como alguém que poderia perturbar o relacionamento que tinha com Isabel. Não sabia dizer por quê, mas pressentia nuvens no horizonte e em vários momentos da semana se pegou com os pensamentos voltados para o tal artista. Era já um homem de uns 45 anos, muito bem apessoado e charmoso. Não seria difícil uma jovem artista se apaixonar por um artista já consagrado que estivesse disponível. Não tinha motivos para suspeitar de Isabel, mas algo lhe espicaçava o espírito. Seria um rival surgindo em sua vida?

Vista do museu do Louvre.

 

Vista do museu do Vaticano.

Fotografias baixadas da internet pelo site de buscas do google.




Uma ideia sobre “Mineiro sovina! – Capítulo XVIII

  1. Clara Sol

    Olá DÉCIO.
    Amigo sua historia prendeu a minha atenção do início ao fim.
    Eu nem imaginara que José Silvério, fosse noivo….
    Acho que estou um pouco na ignorância desta historia, e por isso desculpe se eu escrever bobagens.
    Como todo mineiro, tímidos, mas não deixam de beijarem.
    São detalhes, prosas que não da para de ler, mas eu sou curiosa e fui direto ao final deste texto.
    E me apaixonei por este conto.
    Que você tenha um excelente dia.
    Um grande abraço.
    ClaraSol

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