Gaúcho de São Borja! – Capítulo XVIII

 

Remexendo o passado.
 
O dia seguinte, além das preocupações próprias, tinha ainda a preocupação em rebuscar os recantos da memória em busca de um nome eu pudesse trazer uma luz para o problema novo que surgira. Os primeiros a serem chamados a prestar auxilio nesse afã, foram Pedro Paulo e Maria Conceição. Tinham convivido com Joaquim nos anos em que ele ainda era adolescente. Se alguém podia ajudar a encontrar uma testemunha capaz de derrubar o falso testemunho que o pretenso parente distante constituíra. Começaram por fazer uma lista de todos os nomes de pessoas que tinham convivido naquele tempo.
Um a um os nomes iam sendo eliminados quando lembravam da época e localidade de sua morte. Muitos haviam saído dali para trabalhar em outras fazendas sem nunca voltar nem dar notícia. Outros se haviam afastado por força de casamento e outros acontecimentos. Sua comunicação ficara cada vez mais esparsa até sumir da lembrança mais constante. Depois de muito remexer e analisar a lista, acrescentar um ou outro nome antes esquecido, identificaram dois que poderiam ser encontrados na região. Fazia tempo que não ouviam deles, mas também não haviam sabido de seu falecimento ou ida para mais longe. Apenas a agitação do cotidiano, as ocupações diárias, acabaram deixando essa lembrança relegada a um plano bem distante.
Os últimos paradeiros foram lembrados. Um deles tinha o nome de Bráulio Barbosa e seu último endereço fora uma rua próxima ao rio Uruguai na cidade de São Borja. Faltava lembrar o nome certo da rua. O crescimento da cidade nos últimos anos, novas ruas sendo abertas, outras modificadas, edifícios sendo contruídos a cada dia, poderiam tê-lo levado a mudar de endereço. O outro nome era Ernestina Fontes. Ela casara com um tal Tarcísio Dantas e fora morar numa fazenda a cerca de 50 km dali, onde o marido era capataz. Certamente ainda estavam por lá. Do contrário alguém saberia dizer onde se encontrava.
Diante dessa constatação, faltava encontrar ao menos uma dessas duas pessoas e ver se ela teria condições de testemunhar. Um bom número de antigos servidores daquele tempo não mais vivia. Quando Joaquim assumira a fazenda o pessoal estava em uma faixa de idade um pouco elevada. Foi preciso renovar, do contrário chegaria o momento em que teria apenas uma porção de idosos para fazer o trabalho. Isso não era bom. Muitos receberam uma boa ajuda financeira e foram morar na cidade, outros ficaram em casinhas da fazenda até o fim de seus dias. Assim não restavam na propriedade pessoas que tivessem vivido os dias da infância e adolescência de Joaquim, além de Pedro Paulo e Maria Conceição. Os demais eram todos mais jovens e haviam entrado para o serviço mais tarde.
O dia estava perto do final e Gaudêncio propôs ao padrinho irem até a cidade ver se conseguiam logalizar o senhor Bráulio Barbosa. Quem sabia a rua com certeza era Maria Conceição, pois visitara a família algumas vezes nos primeiros anos que ali moravam. A presença dela na hora da ordenha não era imprescindível e decidiram leva-la junto. Chegaram à praça perto da Igreja, de onde ela sabia se orientar. Houve um pouco de estranhamento devido às modernizações do lugar, mas ela sabia o número de quadras a serem percorridas e cada direção. Dessa forma chegaram ao local que ela reconheceu como sendo o endereço de que lembrava. As casas estavam todas envelhecidas e necessitando de reformas. O crescimento da cidade chegava perto e logo as construtoras viriam e fariam ofertas elevadas para adquirir os imóveis.
Em no máximo dois ou três anos, se é que demoraria tanto, ali estaria tudo transformado em conjuntos de apartamentos, o térreo ocupado por lojas e outros estabelecimentos. Tinham que começar por algum lugar e por isso pararam para indagar. A casa em questão estava desocupada. Perguntaram a uma vizinha, na faixa de cinquenta para sessenta anos e ela lhes disse que conhecera a família. Eles haviam mudado para um bairro mais distante um pouco. Fazia poucas semanas, pois tudo ali havia sido comprado por uma construtora. Ela mesma iria se mudar em poucos dias. Aguardava apenas seu novo lar ficar pronto.
Informou-lhes o endereço dos antigos vizinhos e eles agradeceram. Procuraram pelo novo endereço, perguntando em um e outro lugar, chegando assim a um pequeno conjunto residencial. Casas de alvenaria, ruas asfaltadas, calçadas bem arrumadas, tudo muito bonito. Deveria ter sido ótimo mudar-se da casa de madeira, velha, caindo aos pedaços e ainda guardar um bom dinheiro que restara da venda do terreno, bastante valorizado pela expansão imobiliária na região.
Maria Conceição foi quem bateu no portão e logo uma mulher nova veio atender. Ao ser inquirida sobre a residência ali de Bráulio Barbosa ela confirmou. Era seu pai e estava em casa. Se aposentara algum tempo antes.
– Eu sou Maria Conceição. Conheci seu pai na fazenda Santa Maria. Este aqui é seu Joaquim, filho dos antigos donos. Esse outro é meu filho Gaudêncio. Será que podemos conversar um pouco com seu pai?
Ela correu até a porta e falou com alguém lá de dentro. Logo um homem de cabelos embranquecidos, um pouco curvado, trazendo os sinais da idade, do muito trabalho, bem marcados no corpo, saiu e veio até o portão. Ao olhar bem para os visitantes, reconheceu Joaquim e Maria Conceição.
– Mas se não é o Quinzinho! E Maria Conceição! Entrem, vamos conversar.
            O portão foi aberto e os três entraram, indo para a modesta sala de estar, onde havia um grupo estofado onde se acomodaram.
            – Mas a que devo a honra dessa visita inesperada? Inda outro dia tava contando para minha fia sobre o tempo que vivi na fazenda. Bom tempo aquele. Lembra de nossas estripulias nos pastos e capões de mato, Joaquim?
            – Se lembro, Bráulio. Éramos uma bela turma de moleques. Quanto aprontávamos.
            – Faz bem uns quarenta anos que a gente não se vê. A Ceição veio ver a gente algumas vez. Depois também sumiu e nunca mais.
            – Tantas coisas que acontecem e o tempo passa. Nem sei como é que isso se dá.
            – Mas eu estou velho, aposentado graças a Deus. Minha velha casa vendi por bom dinheiro e recebi essa na troca. Sobrou um bom troco que apliquei no Banco do Brasil. Assim fica uma garantia para as horas de precisão.
            – Pois é Bráulio. É ótimo encontrar você aqui. Mas e sua esposa, ainda é viva? – disse Maria.
            – A Josefina me deixou faz coisa de quatro ano, Ceição. Deu um tal de apoplexia nela e levou ela de mim. Nem magina a farta que me faz.
            – Lamento muito, amigo. Vamos ao assunto que nos traz aqui.
            – Pode falar, que estou pronto para ajudar o amigo. Nem pode imaginar o contentamento que me trazem.
            – Não sei se você soube, mas meus pais e meus irmãos morreram num acidente com nosso avião lá para o lado da Serra do Mar, num dia de tempestade. Fiquei sozinho para cuidar da fazenda. Já era casado e não tivemos filhos. A finada herdou a propriedade vizinha e juntamos tudo num só pedaço. Questão de uns cinco anos ela também faleceu de modo semelhante à sua Josefina. Fiz o inventário e decidi nomear nosso afilhado, o Gaudênio aqui, filho da Conceição e do Pedro Paulo. Lembra dele?
            – Pedro Paulo? Lembro sim. Era um dos mais espevitado da turma.
            – Ele casou com a Ceição e tiveram só esse filho, nosso afilhado. Nós íamos adotar um menino, mas com a vinda do afilhado, desistimos e resolvemos fazer dele nosso filho.
            – Muito justo.
            – Pois como ia falando, nomeei ele meu herdeiro. Agora me aparece um porqueira de um camarada, lá dos tempos de meu bisavô, dizendo que foi criado na fazenda, que era como filho para meus pais e arrumou até testemunha. Moral da história. Quer derrubar meu testamento e se fazer de herdeiro de tudo que tenho.
            – Mas e tem direito?
            – Teria se não houvesse meu direito antes de nomear meu herdeiro de livre e espontânea vontade. Até seria justo deixar algo para ele se o que diz fosse verdade, mas não é.
            – E qual é o nome desse infeliz?
            – Um tal de João Ribas Vargas. Lembra se tinha alguém desse nome na fazenda quando nós éramos moleques, depois rapazes? Principalmente sendo criado por meus pais, meio agregado.
            – Tinha ninguém com esse nome, não amigo Joaquim. Isso eu tenho certeza. Posso contar nos dedos e dizer os nomes de um por um. Graças a Deus tenho boa memória ainda.
            – Você está disposto a nos ajudar a derrubar a mentira dele na justiça?
            – Pode contar com o Bráulio aqui. Onde se viu uma coisa dessa?
            – Vamos fazer um churrasco dia desses e venho lhe buscar, ou mando o afilhado para vocês passarem um dia na fazenda.
            – Me avisa antes, pra mo de não ter outra coisa em vista.
            – Eu mesmo tenho casa aqui na cidade e podemos passar umas horas juntos no clube. Agora que sei seu endereço venho de vez em quando aqui.
            – Mas não querem esperar um chimarrão? Sempre tem um mate pra servir os amigos.
            – Nós vamos indo. O afilhado tem aula para assistir e nós vamos para a minha casa onde a empregada vai preparar nossa refeição. Outro dia nós viemos conversar e tomar mate.
            – Não esquece de me avisar antes da audiência lá no juiz. Vamos desmentir essa embrulhada toda.
            Sairam levando um imenso alívio no coração. Se encontrassem a outra testemunha ficaria mais forte o embasamento da sua resposta ao questionamento judicial do testamento. Poderiam continuar mais tranquilos. Ao chegarem à casa de Joaquim ainda havia tempo de preparar uma refeição rápida antes de Gaudêncio ir para a aula. Joaquim pegou o telefone e ligou para o advogado e lhe explicou seu achado. Havia testemunhas vivas da época em que o pretendente a herdeiro dizia ter vivido na fazenda e ser considerado como filho pelos pais de Joaquim. O jurista lhe afirmou que isso era importantíssimo, aliás fundamental na obteção de uma sentença contrária às pretensões do postulante.
            Joaquim lhe falou que havia ainda a possibilidade de outra testemunha estar apta a prestar depoimento. Precisaria apenas fazer uma pequena viagem até a fazenda onde supunham que ela residia.
            – Assim fica melhor ainda. Mais de uma testemunha ocular para confirmar os mesmos fatos, torna o processo praticamente ganho. Pode deixar com a gente que o resto nós cuidamos, – falou o advogado.
            – Eu lhe agradeço. Depois de derrubar essa mentirada, vamos comemorar com um belo churrasco e cerveja.
            – Isso mesmo, amigo.
            Maria Conceição estava na cozinha ajudando a ultimar a refeição e conversando com a cozinheira. A vivente passava grande parte do tempo sozinha na casa. Costumava trazer uma neta para passar algumas horas com ela, mas a menina começara a trabalhar. Com isso tinha menos tempo disponível. À noite também ia para a escola, mas em outra mais perto da casa dos pais dela. Ficou satisfeita em ter companhia pelo menos por algumas horas. Não se queixava de resto, pois o salário era bom e o serviço pouco. Pesada mesmo era a solidão. Seus dedos estavam calejados de tanto manejar as aguhas de tricô e crochê. Todos os netos ganhavam alguma blusa, um casaquinho feito pela avó. Formavam fila esperando a vez. Logo começariam a vir os bisnetos e ela teria mais com que se preocupar.
            A conversa estava animada quando Joaquim e Gaudêncio chegaram perto da porta. Puseram-se a ouvir e ficaram encantados com o que diziam. Maria Conceição acabava de externar seu sonho de logo ter netos. Por ela o filho casaria logo e acabava com essa andança dali para capital e voltar. Namoro assim dessa distância não dava muito certo. Melhor casar logo de uma vez. Noivos já estavam, pareciam se amar de verdade, para que esticar essa novela?
            Joaquim olhou para o afilhado e piscou. Depois cochichou:
            – O que foi que eu falei? Sua mãe também acha melhor vocês casarem logo.
            – Só me faltava essa agora. Minha mãe também me empurrando para o altar e diante do juiz.
            – Queremos o seu bem, meu caro afilhado.
            – Vamos casar sim, mas quando nós marcarmos a data, nada de pressão por enquanto.
            – Não tem problema, contant que seja logo, – falou Joaquim rindo e entrando na cozinha.
            As duas mulheres levaram um susto e ficaram quietas instantaneamente. Haviam ouvido as últimas palavras de Joaquim e se deram conta de que os dois provavelmente tinham escutado o que elas tagarelavam ali alegremente.
            – Eu estava dizendo pro Gaudêncio que é melhor eles dois casarem logo. Essa história de ficar enrolando corda não dá certo.
            – Sabe que eu também acho.
            – Eu vou comer alguma coisa e vou para aula. Do contrário chego atrasado. Vocês fiquem aí fazendo fofoca.
            – Ele fica abespinhado quando a gente fala em casar, mas é a pura verdade.
            – Vocês vão esperar a hora que nós quisermos casar, nem antes, nem depois. Combinado?
            – Pronto. Não se fala mais nisso.
            – Senta aí, Gaudêncio. Vou lhe servir a comida.
            Os outros também sentaram ao redor da mesa da cozinha e comeram ali mesmo. Nada de arrumar mesa especial, sujar toalha, tirar louças do armário. Pra ter mais serviço depois? Era mais confortável comer ali mesmo, ao redor do fogão de lenha. Ainda mais que os primeiros sinais do inverno estavam aparecendo. O minuano vindo da Argentina, soprando e cortando que nem navalha. Terminada a refeição, Gaudêncio saiu para escola e os outros três ficaram conversando, mantendo fogo no fogão. Um chimarrão novo foi preparado e ficaram mateando, lembrando os tempos de meninos, das diabruras que aprontavam. Tempo bom fora aquele. As crianças de hoje nem faziam ideia do que era a infância antigamente.
            Nesse ritmo nem viram o tempo passar e logo o estudante estava ali, pronto para retornarem à fazenda. A cozinheira se despediu um pouco triste. Por ela poderiam ficar ali até o dia seguinte, mas sabia das ocupações que cada um tinha. Joaquim e Gaudêncio planejavam no da seguinte correr atrás da outra testemunha. Talvez a encontrassem facilmente, mas poderia também ter mudado de destino e sabe lá Deus onde estaria a uma hora dessas. Embarcáramos três na caminhonete e rumaram para a Santa Maria. A estrada estava boa, pois pegavam apenas um pequeno trecho de chão, o resto era tudo asfalto. Tratram de irem dormir logo, para levantarem cedo pela manhã.
            Antes de botarem o pé na estrada conferiram se todas as ordens estavam sendo seguidas e relembraram os nomes do casal que iriam procurar, bem como o nome da fazenda onde haviam ido viver. Se tudo corresse de acordo antes do anoitecer estariam de volta. Se não fosse possível, encontrariam onde dormir e continuariam a busca no outro dia. O nome da fazenda era Calavera. Os proprietários eram de descendência espanhola. Não deveria ser difícil encontrar o lugar. Tudo determinado, saíram para a estrada, seguindo pelo asfalto até um vilarejo a cerca de 35km. Ali perguntaram pela fazenda e foram informados que deveriam sair do asfalto e pegar a esquerda. Depois de uns quinze quilômetros, talvez mais um pouco encontrariam uma encruzilhada. Em cada esquina havia uma árvore bem grande. Ali deveriam seguir para direita e mais ou menos dois mil metros depois encontrariam o portal com a placa. Não tinha erro.
            Gaudêncio estava saindo, quando Joaquim lembrou de perguntar ao informante.
            – Sabe se lá trabalha ou trabalhou como capataz um tal Tarcisio Dantas?
            – Seu Tarcísio, casado com dona Ernestina. Foi capataz sim, mas hoje está aposentado. Quem está no lugar dele é o fio mais veio. Mas eles mora lá na fazenda.
            No primeiro instante Joaquim temeu receber uma notícia ruim quando o homem falou que Tarcísio não era mais o capataz. Imaginou o pior. Logo porém seu coração desacelerou, quando ouviu que eles moravam na fazenda.
            – Obrigado amigo. Passar bem. Até outra hora.
            – No hai de que, amigo.
            – Se não acharmos a tal placa escrito Calavera, nos próximos dois três quilômetros, nós voltamos e seguimos para o outro lado.
            – Vamos prestar atenção para não passar sem ver a placa.
            – Cuide do seu lado padrinho, que eu cuido aqui do meu. Assim não vai escapar nem que a placa seja desse tamanhinho.
            – E alguém lá ia fazer uma placa de fazenda tão pequena assim! Tinha graça isso.
            Estavam andando e quase passaram. A placa ficava alguns metros para dentro, com a estradinha de acesso ladeada de árvores, formando uma alameda sombreada. O proprietário mostrava ser um homem caprichoso. O arvoredo estava perdendo as folhas por causa da estação. O caminho todo estava forrado de folhas mortas caídas. Nem que houvesse alguém encarregado de varrer tudo diariamente, não haveria como vencer. Melhor mesmo deixar cair tudo, depois passar o rastelo e usar a folhagem toda par adubação verde. Seguiram por entre as arvores, ovindo o chiado dos pneus nas folhas e pouco depois viram despontar, atrás de uma pequena coxilha, uma bela sede de fazenda.
            Estacionaram e logo um homem já idoso, vestido em trajes tradicionais da região, saiu na varanda da casa grande e saudou:
            – Vamo chegando, amigos. Na casa de Celestino Calavera não tem tramela, nem tranca.
            Desembarcaram e chegaram para perto dizendo:
            – Buenos dias, seu Celestino!
            – Buenos!
            As mãos foram estendidas e apertadas mutuamente e o dono da casa convidou:
            – Mas subam aqui na varanda. Já ia tomar um mate. Tomam uma cuia comigo?
            – Um mate a gente nunca refuga.
            Sentaram-se e uma senhora, aparentando um pouco menos idade, trouxe a chaleira com água e a cuia com o mate já cevado.
            – Essa é minha prenda velha, Marguerita.
            – Bom dia senhora.
            – Bom dia.
            O senhor Celestino serviu um mate e tomou. Constatando que estava bem preparado, serviu outro e alcançou a Joaquim, dizendo simultaneamente:
            – Mas a que devo a honra da visita dos senhores? Pai e filho se não estou enganado.
            – Apenas um pouco. Padrinho e afilhado. Mas agora é como se fossemos pai e filho.
            – Eu acho que lhe conheço, – falou Marguerita.
            – É possível. O seu antigo capataz casou com uma moça que morava na fazenda dos meus pais, hoje minha.
            – Eu lembro do casamento. É a Ernestina do Tarcisio, não lembra Celestino?
            – Não me diga que o senhor é o Joaquim, filho mais novo da família lá da Santa Maria?
            – Ele mesmo.
            – Lamentei muito o ocorrido com sua família. Nós éramos bem amigos, embora nos víssemos apenas vez ou outra.
            – Mas nós viemos justamente em busca do Tarcísio e principalmente da Ernestina.
            – Eles moram aqui pertinho. Ele foi capataz até coisa de dois anos passados. Está um bocado adoentado e aposentei ele. Já tinha tempo de serviço e a doença tirou a força e o pobre ficava desenxavido de não conseguir mais fazer as coisas.
            – O tal INPS é uma boa coisa. Pesa um pouco na hora de contribuir, mas depois traz uma tranquilidade grande.
            – Lá na minha propriedade também aposentamos vários nos últimos meses. Ficam morando na fazenda, os filhso trabalham lá na maioria das vezes. Ajudam um pouco na casa, cuidam do jardim e duma hortinha para não ficarem desocupados.
            – Mas que mal le pergunte, por que estão procurando a Ernestina?
            – Me apareceu um caboclo metido a ser meu parente e quer contestar meu testamento. Fiquei viúvo, fiz o inventário e depois deixei para o afilhado aqui meus bens. Não tenho filhoso.
            – Olha aí! Um parente distante se achando com direitos. E garanto que é daqueles que nunca moveu uma palha para ganhar um pila!
            – Acertou em cheio. Para complicar alega que tem testemunhas de que ele foi criado na fazenda por meus pais e foi considerado como filho. O cretino tem quase minha idade.
            – Deixe ver se entendi. A Ernestina é daquele tempo e pode testemunhar contra isso.
            – Exatamente. O sujeito nunca visitou meus pais. Tenho quase certeza de que nunca os viu na vida.
            – Com certeza os pais do afilhado, como parte interessada, seriam desqualificados como testemunhas.
            – Na mosca! Ontem encontramos um outro que também viveu lá e mora em São Borja. Ele vai testemunhar e para garantir a parada seria bom se a Ernestina pudesse fazer o mesmo.
            – Olha ela vindo aí! – disse Marguerita apontando para o lado das casas dos empregados.
            – É ela mesma. Envelheceu é claro, mas não deixa dúvida.
            Em poucos instantes Ernestina chegou e falou dirigindo-se à antiga patroa:
            – Senhora tem tempo para um dedo de prosa?
            – Espera aí, Ernestina, – falou Joaquim.
            A interpelada olhou por uns instantes e bradou:
            – Eu não acredito! É o Joaquim Monteiro!
            – Como vai você, Ernestina?
            – Como vai com todos os que ficam velhos. Começa a ficar encarangado, reumatismo de todo lado, um tal bico de papagaio na coluna. Dói daqui, dali e nem sei mais donde.
            – Coisas da vida, Ernestina. Esse aqui é nosso afilhado, filho da Maria Conceição e do Pedro Paulo. Lembra que eles casaram pouco antes de vocês?
            – Alembro sim. Como é que eles estão?
            – Estão fortes os dois. Ainda trabalhando. Teimosos igual umas mulas, mas gente de primeira.
            – Mas o que fez oceis se perderem por essas bandas da Calavera?
            – Viemos a sua procura, Ernestina.
            – Pra mo’de que?
            – Para testemunhar a meu, aliás nosso favor num processo?
            – Nada demais, mulher. Um sujeito, de sobrenome Vargas, diz que é parente lá por parte de meu bisavô Fulgêncio Vargas. Arrumou testemunha que foi criado na fazenda comigo e meus irmãos. Quer contestar o testamento que fiz em favor do meu afilhado aqui. Eu e a finada não tivemos filhos.
            – Pode contar comigo no que puder ser útil.
            – Não sabe o alívio que isso nos traz.
            – Que eu me lembre não tinha nenhum parente, além dos seus irmãos crescendo na fazenda. O resto da meninada era tudo filho de peão.
            Nisso Tarcisio também chegou e sentaram-se todos para tomar mate e relembrar os tempos antigos. Havia muitos anos que não se viam e tinham muita coisa para contar. O único que ficou deslocado, apenas ouvindo foi Gaudêncio. O recém chegado foi posto a par dos acontecimentos e também externou sua revolta com a pretensão do atrevido. Se ao menos tivesse sido um parente chegado, um trabalhador, mas pelo que ouvira havia malbaratado uma herança até considerável deixada pelo pai. Se metera com mulheres de vida fácil, jogo clandestino, carteado e coisas assim. Quando dera por si, não restara nada.
            Pelo visto o advogado que estava conduzindo o processo tinha em mente abocanhar uma bela fatia desse bolo. Se o vivente perdera tudo, quase ficara sem a roupa do corpo, morava agora de favor em casa de um antigo empregado seu. Deveriam ter se mancomunado direitinho e pretendiam ter um ganho fácil com o processo.
            Foram convidados para almoçar e combinaram que no dia da audiência viriam buscar Ernestina para depor. Tarcísio falou:
            – Deixa que nós aproveitamos para dar um passeio. Tenho um fusca e levo ela. Não carece correr essa distância duas vezes ida e volta. Fazemos esse favor com muito gosto.
            – Vamos ficar lhe devendo essa, amigo.
            Depois do almoço, descansaram um pouco e depois pegaram a estrada. Bem antes do anoitecer chegaram e deram a boa notícia aos demais. Além do alívio de terem como provar que o processo de contestação do tetamento era sem fundamento, havia a alegria de saber que Ernestina e Tarcísio estavam bem. Viriam de carro próprio para a audiência e isso seria muito bom. Gaudêncio constatou que estava tudo em ordem com o gado, na ordenha e depois foi tomar banho para remover a poeira da estrada. Tinha ainda que rumar para a aula. Não tinha intenção de faltar sem necessidades. Nas provas feitas até aquele momento, tinha se saído muito bem. Pretendia fechar o ano com um bom desempenho.
            Chegou o dia da audiência e ali estavam os envolvidos, bem como suas testemunhas. O advogado do querelante ficou preocupado. Tinha recebido a informação de que o senhor Joaquim não teria como apresentar testemunhas e ali havia duas pessoas com idade de servirem como tal. Começou a temer ter embarcado em uma canoa furada. Prometera uma porção de coisas, gastara por conta dos honorários polpudos que esperava receber depois de ganhar a causa. Por outro lado, Joaquim e suas testemunhas estavam tranquilos. O advogado instruira aos dois para não se deixarem amedrontar e apenas falar a verdade em palavras simples. Não tinham que dar explicações nem responder sobre coisas que aparentemente não teriam nada que ver com o assunto. Poderiam servir para engambelar e armar ciladas.
            O assistente do juiz leu o teor da ação de contestação do testamento de Joaquim Monteiro e favor de Gaudêncio das Neves, seguido do arrazoado das razões e justificativas cabíveis, segundo o advogado do querelante.
            Terminada a leitura o juiz deu a palavra ao advogado que movia a ação, pedindo para trazer suas testemunhas. Eram duas pessoas, marido e mulher. Completamente desconhecidos dos demais, coisa que logo ficou claro e passou a ser cochichado apenas entre eles. Não era bom dar motivos para qualquer questão extra. Os dois afirmaram categoricamente terem vivido na fazenda Santa Maria quando os pais de Joaquim eram vivos. Presenciaram a presença ali, na idade um pouco inferior à de Joaquim, sendo criado pelos pais desse do menino agora homem já idoso, como se filho fora. As palavras de ambos foram praticamente as mesmas.
            – Senhor advogado da parte contestada, quer fazer alguma pergunta?
            – Quero sim, meritíssimo.
            – As testemunhas são suas, doutor.
            – Qualquer um dos dois pode me dizer quais são os nomes desse senhor e dessa senhora sentados aqui à minha direita?
            – Ele se chama Alfredo e ela é sua esposa Juvelina, – disse a mulher.
            – São eles sim, – falou o homem.
            Não tenho mais perguntas, meritíssimo.
            – Agora é sua vez de apresentar as testemunhas, doutor.   – Eu chamo o senhor Bráulio.
            Bráulio fez o juramento de dizer a verdade nada mais e sentou-se ereto:
            – O senhor conheceu esse casal no tempo em que viveu na fazenda Santa Maria?
            – Não, senhor.
            – Ouviu o nome que eles disseram ser o seu?
            – Ouvi sim, senhor. Eu não sou Alfredo e minha esposa é falelcida há alguns anos.
            – Lembra senhor Bráulio se havia na fazenda um menino, parente distante, criado pelos pais de Joaquim como se fosse um filho?
            – Não tinha menino nenhum. Era só os filhos da família, sendo Joaquim o mais novo. Os outros meninos e meninas eram tudo filho de peão da fazenda.
            – Esse que se diz parente distante e quase irmão do senhor Joaquim o senhor nunca viu?
            – Vi não, senhor.
            – Obrigado.
            – O senhor quer fazer alguma pergunta, doutor?
            – Não tenho perguntas.
            – Tem outra testemunha?
            – Eu chamo a senhora Ernestina.
            Repetiu-se os procedimentos, as perguntas foram praticamente as mesmas e também as respostas. Ao final o advogado do querelante não tinha perguntas e já estava juntando seus papéis para deixar o recinto. Sabia que a questão estava perdida e os seus ganhos tinham ido por água a baixo.
            Diante das respostas das testemunhas de apresentadas por Joaquim, contrapondo-se totalmente aos oponentes, comprovando com seus documentos o lugar de nascimento, coisa que os outros não puderam fazer, o juiz deu a ação por encerrada e ditou sua sentença a favor de Joaquim. Cabia ainda ao querelante custear as despesas judiciais, o que seria outra questão. Não tinha de onde tirar um níquel e ficava à mercê da justiça, sujeito inclusive a cumprir algum tempo de cadeia.
            Ao ver que a situação estava perdida ele implorou ao advogado que lhe ajudadesse, mas não adiantou. Tanto o jurista quanto as testemunhas trataram de dar “às de Vila Diogo” e sumiram. Deixaram o infeliz ficou desesperado vendo o magistrado se agigantar diante dele, dizendo que teria a incumbência de arcar com as custas. Vendo que não havia de onde tirar o dinheiro, Joaquim se prontificou a cobrir as custas da justiça e o seu advogado. Quanto ao outro que se virasse. Foi então que se ficou sabendo a real origem da questão.
            O dito parente distante e o advogado haviam se envolvido em uma jogatina. Combinados eles trapaceavam e ganharam bastante dinheiro. Mas, a ganância é péssima conselheira, quiseram aumentar os ganhos além do aceitável e foram pilhados em sua contravenção. Estavam os dois em maus lençóis e queriam arranjar dinheiro fácil e rápido. Isso os levara a armar esse golpe. O advogado afirmara que eram favas contadas e todos eles contavam com polpudas contas bancárias. Dinheiro à vontade para gastar.
            Diante disso o juiz determinou ao assistente a abertura de um processo contra o advogado e também seu cliente. Eles, na pior das hipóteses, passariam alguns meses na cadeia para aprenderem a lição. Haviam ocupado desnecessariamente funcionários, juiz, escrivães e demais membros do judiciário. Além disso tinham perturbado a boa vivência de cidadãos honestos e trabalhadores. Isso merecia uma punição exemplar. Joaquim até sugeriu ao juiz conceder ao miserável um determinado montante para que fosse para algum lugar longe e fizesse algo por si mesmo, mas foi desaconselhado disso. Seria abrir uma porta por onde ele continuaria a tentar sempre conseguir mais e isso não seria justo de maneira alguma.

 

            Foram dispensados pelo magistrado e foram para suas casas. Antes de mais nada, Gaudêncio que aguardara do lado de fora, e Joaquim convidaram todos para comparecerem no próximo domingo na fazenda Santa Maria. Fariam um churrasco comemorativo da vitória. Ninguém mais perturbaria a boa ordem e paz na fazenda. O convite foi aceito e confirmado. Um cheque no valor dos honorários e das custas da máquina judicial, foi entregue ao advogado. Ele que destinasse a parte de cada um. Quanto ao casal que testemunhara a favor da contestação nem sinal se via, nem do advogado se via sequer o rasto. Sabiam que sua batata estaria assando e trataram de por a maior distância possível entre eles e o fórum onde ocorrera a audiência. 
Curitiba, 25 de agosto de 2018 (atualização).

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