Um japonês especialista em cachaça – Capítulo X

 



Um bar movimentado em São Paulo.
Mesa futebol de botão com pés dobráveis.
Mesa de pebolim dobrável.

10. Estabelecimento 

inaugurado.

Pontualmente às 14 h, Manoel e Francisco destrancaram as amplas portas da frente do estabelecimento. Do lado de fora era audível um vozerio levemente alterado. Estavam ansiosos por ver as novidades que o novo proprietario lhes iria apresentar. Haviam estendido do lado interno da porta principal uma vistosa fita de cetim que seria cortada antes de dar acesso à pequena multidão que aguardava do lado de fora. Moveram primeiramente as folhas das portas de vidro em armação de madeira. Depois levantaram a pesada porta de aço que fechava o recinto.
 
Quando terminaram de abrir, os ansiosos fregueses ameaçaram invadir instantaneamente o ambiente, porém um fotógrafo estava postado do lado de fora e falou bem alto:
– Esperem aí gente! Temos que tirar uma foto do seu Manoel cortando a fita de inauguração. Chame a namorada que está na cozinha para fazer parte desse momento.
– Corra á Francisco, chame a Eduarda para vir aqui.
 
Francisco foi logo e Eduarda, vestindo avental, veio meio a contragosto. Antes de se aproximar retirou o avental e a touca que trazia sobre os cabelos para não parecer uma doméstica em serviço. Manoel fez ela segurar a tesoura e cortar a fita, enquanto o fotógrafo tirava sucessivas imagens do evento. Uma vez cortada a fita, Manoel falou:
– Convido a todos para tomarem uma taça de champanha comigo e com minhã cabrocha Eduarda.
– Viva o Manoel! Viva a Eduarda! – gritou Francisco.
O povo respondeu: Viva!


Em instantes o interior se encheu de gente, que se espalhou por todos os cantos. Alguns mais afoitos logo estavam inspecionando as mesas de sinuca, pebolim e máquinas de fliperama. Havia ali diversão para diversos gostos, Francisco e Manoel dedicaram os próximos minutos a remover as rolhas de uma porção de garrafas de champanha, bem gelado. As taças foram distribuídas e a bebida nelas despejada. Quando todos estavam com suas taças, o freguês mais antigo falou:
 
– Um brinde ao sucesso do novo Bar, sinuca do Portuga.
 
Todos ergueram as taças, os cristais tilintaram e logo todos bebiam um gole de suas taças. Ao se esvaziarem, havia mais bebida para ser tomada. O que for a aberto deveria ser consumido. Não havia como tornar a fechar. Nem foi preciso, pois não tardou a ficarem vazias todas as garrafas. Houve que quisesse mais e Manoel disse que havia terminado. Previra a presença de menos pessoas do que vieram de fato.
 
Nesses momento os salgadinhos foram colocados em diversos pontos sobre as mesas do restaurante e também no balcão. Havia pequenos pastéis, empadinhas, coxinhas, porções de queijo e salame, pãezinhos com pate, azeitonas e outros quitutes. Diante da pequena multidão, Eduarda fez sinal ao noivo para lhe dizer que, talvez fosse conveniente providenciar mais alguma coisa para servir, pois viera bem mais gente do que o esperado. Ele decidiu que o que havia providenciado era suficiente. Ao terminar, estaria terminado e quem quisesse permanecer, a partir dali passaria a pagar para consumir. Não prometera um “forra bucho” na inauguração, apenas um coquetel e isso for a servido.
 
De fato. Em poucos minutos as bandejas estavam vazias e garrafas de refrigerante também estavam espalhadas por toda parte. Começaram a recolher tudo e aqueles que haviam vindo apenas pela comida gratuita começaram a retirar-se. No entanto mais da metade do povo permaneceu ali. Alguns organizaram na hora uma competição de sinuca, outro grupo formou duplas de pebolim e também vieram comprar fichas para as máquinas de fliperama. Em poucos minutos o recinto se encheu de conversas animadas ao redor das mesas de sinuca. As de pebolim estavam rodeadas por um grupo menor, porém mais barulhento e as três máquinas de fliperama espalhavam os seus sons por todos os lados.
Jogando futebol de botão.


Em pouco tempo uma grande quantidade de cerveja havia sido consumida, junto com travessas e mais travessas de salgadinhos, agora em regime de comércio. As porções eram anotadas para as mesas, bem como as bebidas. Também apareceram outros querendo jogar baralho e, verificando o alvará, Manoel constatou que não haveria problema, desde que não se apostasse somas elevadas. Tinha um pacote de feijão, cujos grãos serviriam de fichas para o carteado e alguém trouxe os maços de baralho. Dessa forma, a tarde e noite foram movimentadíssimas.
 
Antes do anoitecer houve que viesse perguntar se haveria comida para o jantar, pois não queriam se retirar. Iriam aproveitar esse dia, com preço de inauguração, para matar a vontade de jogar sinuca, ali perto de casa, coisa que até aquele momento tinham que fazer bem longe de casa. Em determinado momento uma guarnição de polícia militar se fez presente para super visionar o andamento de tudo e Manoel os convidou a comerem um salgadinho e tomar um refrigerante. Havia oferecido uma cerveja, mas o comandante recusara. Não era permitido tomar bebidas alcoólicas em serviço. Depois de comerem e tomarem seu refrigerante, deram uma volta por todo recinto, verificando que nada estava fora do normal e se retiraram.
 
Foi preciso providenciar algumas coisas de que Manoel se encarregou, para preparar alguns pratos rápidos para atender aos fregueses. Por sorte encontrou um mercadinho aberto onde comprou carne moída, macarrão, massa de tomate, salada e mais pequenos itens que havia esquecido. Estava tendo um dia deveras cansativo, na inauguração do estabelecimento. O fotógrafo tirara um bom número de fotos para depois poder escolher as melhores. Faria um álbum para guardar e mandaria algumas mais significativas para a mãe e os irmãos. Assim saberiam que ele estava se encaminhando para um futuro promissor.
Mesa de pebolim.


Os fregueses haviam aguardado ansiosos pela reinauguração e agora, pareciam querer ficar ali. Até dava impressão de que temiam sair e ao voltar tudo ter retornado ao que era antes. Os mais entusiasmados vieram um a um congratular-se com Manoel pelo bom gosto na escolha das cores de pintura, os modelos das mesas. Até os mais jovens que se divertiam nas máquinas de fliperama, gastando fichas e mais fichas para superar a pontuação dos colegas. Em determinado momento foi preciso chamar atenção de alguns mais entusiasmados que se punham a bater nas laterais das máquinas. Isso poderia causar danos e o concerto significaria prejuízo. Havia custo e tinha que pensar no tempo em que ela ficaria parada sem uso.
 
            Deu graças a Deus por ter mantido no serviço Francisco da Silva. Era um homem de meia idade, incansável no servir aos fregueses, sempre sorridente e alegre. Nunca se ouvia de seus lábios uma palavra mais rude, uma grosseria. Era importante preservar um servidor deste naipe. Seria seu braço direito no atendimento, em especial nos dias de feriado, finais de semana, começo da noite. Eram estas as horas que os homens aproveitavam para espairecer, jogar conversa fora, tomar uma geladinha, um conhaque ou caninha.
 
Não tardou muito e Manoel sentiu um vazio em sua vida. Conversando com Alfredo durante um intervalo de menos movimento, comentou com ele sua solidão. Após pensar por um instante, o parceiro lhe disse:
– Está na hora de colocar uma mulher na casa. Isto que o senhor está sentindo é solidão, falta de companhia feminina. Eu é que não fico sem minha Esmeralda, de jeito nenhum. Sempre que posso levo uma flor, um mimo qualquer para agradar. Ajudo no serviço da casa, cuido das crianças quando posso.
– Estou noivo e com casamento combinado para o começo, mas tardar metade do ano que vem. Pena que eu acho que já estou passado da idade. Estou chegando nos cinquenta.
            – De maneira nenhuma. Tem mulher que gosta de homem um pouco mais velho. Não reparou no jeito de Eduarda olhar para o senhor? Ela está mesmo apaixonada. Disso pode ter certeza.  
– Sabes que tu tens razão. Vou mesmo dar um jeito nisso. Quem sabe ainda posso ter uns pequeninos. Sabes como chamamos os pequeninos lá na terrinha?
– E como é que chamam as crianças?
– Lá em Portugal as crianças são os “putos”. Isso mesmo que você está ouvindo. Putos e pronto. Aqui é que essa palavra tem outro significado.
– Ora essa. Se eu chegasse lá e ouvisse alguém falar isso dos filhos, ia ficar horrorizado.
– Sabes o pão que aqui chamam “francês”? Em Portugal chamamos isso de “cacetinho”. A baguete, aquele pão francês comprido, é um cacetão.
– Sinceramente, eu ia ficar meio perdido nos primeiros tempos por lá, até me acostumar com esse jeito de falar.
– Isso é coisa fácil. Eu quando vim para cá passei por isso. Várias vezes quase apanhei na rua quando ia comprar pão, ou então quando falava com alguém que tinha crianças pequenas. Precisei acostumar depressa ou teria passado maus bocados.
– Com toda certeza. O povo daqui deve achar estranhíssimo essas formas de usar as palavras. Não ficaria nada admirado se me contasse que tinha apanhado por isso.
– Depois da primeira promessa eu aprendi depressa. Depois da primeira visita na padaria eu aprendi o nome do pão também.
– Pudera. Se fosse mulher a atender então iria ser um pouco pior.
– Mas e quem tu achas que era? A filha do dono e eu quase entrei na lenha, igual cachorro magro.
– Hoje já está bem acostumado com a vida aqui. Até se tornou proprietário de um estabelecimento, o que eu, que nasci aqui, e trabalhando a vida toda não consegui.
– Passei muito apuro, mas nunca deixei de guardar um bocadinho do que ganhava todo mês. Nem que fosse preciso comer pão seco algumas vezes.
– Mas isso também já é exagero.
– Pode ser, mas foi assim que consegui juntar capital para investir na bolsa de valores e ganhei bastante com ações. Fiz vários cursos no SENAI e isso me deu um cargo mais alto, onde ganhava mais. Agora no final ocorreu um acidente e perdi esse dedo da mão direita, além de um pedaço do pé esquerdo.
– Então é isso que o senhor manca um pouco?
– Que dúvida! É pouca coisa mas não consigo dar os passos normalmente por falta da parte da frente do pé esquerdo.
– E lhe pagaram uma indenização?
– Uma indenização e me aposentaram. Por isso eu consegui comprar isso aqui. Se não acontecesse isso eu ainda estaria trabalhando na indústria por pelo menos  10 anos mais.
– Até que não faltava mais muito. A maior parte já tinha passado. Difícil deve ser para quem começa no primeiro dia e pensa na aposentadoria, depois de 35 anos de trabalho.
– Eu nem me importaria. Mas já que aconteceu, que seja feita a vontade de Deus.
 
O dia da inauguração terminara, quando era mais de meia noite. Manoel e Francisco limparam todas as mesas, conferiram as geladeiras e abasteceram com o que restava no depósito. O consume havia ultrapassado em muito a expectativa. Na cozinha as duas mulheres estavam mais que cansadas e Manoel se prontificou a levar os empregados e a noiva para casa, antes de ele mesmo se recolher para dormir. Iria ter problemas de acordar na manhã seguinte para abrir. Mas não queria que eles saíssem a procurar transporte naquela hora adiantada. Fecharam tudo e seguiram rapidamente, graças ao pouco movimento de veículos existente naquele momento. A maior demora foi chegar à casa de Eduarda, pois era mais longe.
Refrigeradores cheios de bebidas.
Cafeteira elétrica .


Isso levou Manoel a propor a antecipação do casamento para a época de dezembro ou janeiro. Ela prometeu analisar a questão e lhe daria resposta no dia seguinte. Teria que verificar também com os pais se estariam dispostos a concordar com a antecipação. Estavam se preparando para arcar com as despesas do vestido e uma participação nas despesas da festa. A antecipação significaria antecipar essas despesas e precisaria ver se isso não iria por em cheque as finanças da família.
 
Manoel voltou, estava com um pouco de fome. Pegou um pão com salame e queijo, um copo de vinho para acompanhar. Terminou de comer, tomou uma chuveirada rápida e foi dormir.

Na manhã seguinte, um pouco sonolento, às 7h e 20 minutos estava abrindo o estabelecimento. Nesse momento lhe ocorreu a hipótese de adotar segunda feira como dia de descanso. Foi então que lembro não ser segunda feira, pois ontem havia sido feriado. Estava na manhã de sábado e não tardou muito para aparecer um freguês que queria um pingado. Por sorte, antes de abrir, preparara café na cafeteria e pusera leite para esquentar. Estava preparado para servir ao freguês. Serviu um tanto de leite num copo e perguntou:
            – Assim está bom de leite?
            – Um bocadinho mais. Gosto de leite com café.
            – O amigo gosta de uma loira então.
            – Isso mesmo. Tem aí por acaso um pão com manteiga?
            – Vou providenciar já. O padeiro trouxe cedo e deixou na porta de entrada.
            – Isso é ótimo. Me veja um no capricho.
            Manoel serviu o café, colocou açúcar à disposição e foi até o armário onde estava guardado o pão, pegou a manteiga e preparou o que o freguês havia pedido. Colocou o pão em um prato pequeno, junto com uma faca e também um guardanapo. Deixou sobre o balcão diante dele e foi até o caixa conferir se tinha a disposição troco para dar na hora de acertar a conta. O freguês não estivera na inauguração no dia anterior. Chegara de viagem tarde da noite e estava indo até o escritório da fábrica para a qual trabalhava para fazer o relatório da viagem. Não tinha tempo de esperar a esposa ou filhas levantarem para preparar seu desjejum. Deu graças a Deus por encontrar o estabelecimento de Manoel reaberto.
            Pagou a conta e saiu, prometendo voltar, especialmente quando tivesse tempo para disputar umas partidas de sinuca ou futebol de botão. Era amante dos dois esportes. Quando ele se retirou, em poucos minutos chegaram Francisco, Arminda e logo depois Eduarda. Os três traziam no rosto os sinais do dia anterior que for a cansativo. Manoel logo falou para eles:
            – Eu vou estabelecer a segunda feira como dia de descanso. Do contrário a gente não vai aguentar o rojão.
            – No tempo de seu Joaquim a gente revezava e ficava aberto todos os dias.
            – Se ficar pesado assim como ontem, só com mais gente trabalhando e isso preciso ver se cabe no orçamento.
            – Senhor quem mandá, patrão.
            – Olhem só a Eduarda e dona Arminda! Estão que é um trapo de cansaço. Vão chegar domingo à noite em frangalhos. Segunda feira é dia de folga para a gente descansar. Os fregueses vão entender com certeza.

            O dia prosseguiu com movimento médio, alguns antigos frequentadores voltaram para almoçar e elogiaram a comida da cozinheira ou cozinheiro. Logo após o almoço, deu um intervalo em que ficou quase vazio. Por volta das quatro horas os primeiros fregueses de sinuca, pebolim e fliperama começaram a chegar. Logo as garrafas de cerveja estavam saindo sucessivamente do refrigerador. Por sorte o caminhão da distribuidora de bebidas passara pela manha e refizera o estoque de bebidas, deixando tudo pronto para enfrentar o sábado e o domingo. Manoel fora até o armazém e mercado municipal, onde providenciara os legumes, saladas e outros produtos indispensáveis para a cozinha. Arminda e Eduarda haviam feito a lista das compras.

            Ao voltar estava com o porta malas do opala, além do banco traseiro, lotados com compras diversas. Francisco o ajudou prontamente a descarregar. Logo começaria o movimento do almoço e diversos fregueses antigos haviam passado pela porta, avisando que viriam avisar. Sábado era dia habitual de feijoada e ele dera essa informação às cozinheiras. Por sorte os ingredientes estavam à disposição na despensa e as duas prontamente haviam iniciado o preparo do prato principal e os acessórios. A couve, as laranjas e detalhes que Arminda gostava de usar para incrementar suas feijoadas, vieram nas compras trazidas por Manoel.

            O almoço foi concorrido e houve quem levasse uma porção para aquecer em casa na hora do jantar. Um fogareiro resolvia o problema e evitava a necessidade de sair de casa. Dessa forma não sobrou caroço de feijão na panela nem farofa, couve ou outra coisa. Por pouco não faltou. Eles mesmos tiveram que se contentar com um pouco de arroz, carne moída com molho e salada.

            Só houvera calmaria por umas duas horas, antes de iniciar o vai vem de gente entre as mesas. Logo havia alguns fregueses sentando às mesas e pediam para jantar. Por sorte havia sido preparada uma refeição leve para servir. Teriam que elaborar um cardápio à medida que fossem descobrindo os gostos e hábitos alimentares dos fregueses. O salão de refeições encheu de gente e novamente a comida ficou por pouco para faltar. Enquanto isso os jogadores consumiam porções e mais porções de salgados, junto com uma enorme quantidade de garrafas de cerveja. Um e outro pedia um refrigerante, ou então um conhaque, mas a maioria pedia mesmo era cerveja. Manoel ficou preocupado com o estoque. Temia ficar sem bebida no final do domingo. Talvez isso colocasse em prática sua ideia de fechar na segunda feira para descanso, mesmo sem querer.

            Em torno de 22 horas da noite, os policiais fizeram a habitual visita para conferir se estava tudo em ordem. O movimento já começara a diminuir e próximo da meia noite os últimos retardatários se retiravam.

            – Ufa! Foi mais um dia de movimento como nunca vi, – falou Francisco.
            – Oigalê! Isso está começando bem, minhã gente. Se continuar nessa toada, vou ser obrigado a contratar mais gente para dar conta do serviço. Só nós não seremos capazes de atender tudo.

            As cozinheiras também estavam exaustas. Concordaram com as palavras de Manoel. Se precisassem fazer essa jornada todos os dias que viessem, não aguentariam com certeza. Até aquele momento os noivos não havia tido tempo de conversar o dia inteiro. Quando não era ele, era ela ou os dois ocupados em fazer tudo que era necessário. Novamente partiram na viajem para casa e depois de deixar Arminda e Francisco os dois seguiram sozinhos. Ela falou:
            – Meus pais concordam com a antecipação do casamento. Não haverá problema. Podemos tratar dos detalhes.
            – Que ótimo, minhã querida. Uma coisa que vai melhorar é não precisar percorrer todo dia essa distância toda para ir e voltar.
            – Não podemos deixar para muito tarde com os documentos. Tanto na igreja como no civil. Costumam demorar um pouco e se formos fazer isso em cima da hora vão criar caso.
            – Certamente, certamente. Vamos tratar disso logo na semana que vem ou depois. Acho que então dá tempo de tudo ficar pronto.

            Ao chegarem ao portão ela deu nele um beijo rápido, desceu e entrou. Estava cansada a mais não poder e queria dormir logo. Ele pós o carro em movimento e iniciou a volta. Demorava bem meia hora para chegar e também estava mais que cansado. Nem teve tempo de sentir fome. Tomou um rápido banho e caiu na cama. Só levantou na manhã seguinte com o toque da campainha da porta. Era Francisco chegando e ele se apressou em descer. O empregado o encarou sorridente, caçoando de seu aspecto de cansaço:

            – Nossa Senhora patrão! Desse jeito não vai aguentar o trance.
            – E tu ainda pensas que não devemos fechar na segunda para descansar?
            – Se isso continuar, de fato não vamos ter outro jeito. Outra alternativa é ter mais gente para o serviço. Precisamos esperar uns dias para poder tirar uma base. Pode ser que em uma semana diminua e fique normal, como era antes.
            – Também pode ser que fique sempre mais forte. A reforma, as mesas de jogos e tudo isso, pode fazer aumentar o movimento no geral.
            – Isso seria ótimo. Crescer é uma coisa boa. Progredir já estava fora das ambições de seu Joaquim. Ele só pensava ultimamente em manter o movimento para vender o estabelecimento e voltar para Portugal.
            – Eu não tenho nada contra crescer. Ao contrário, vou ficar satisfeito se o bar ficar sempre movimentado.

            Nesse momento Eduarda, seguida de Arminda entraram. Cumprimentaram os dois e foram para a cozinha iniciar suas atividades. Tinham uma tarefa razoável a desempenhar até ao meio dia.
            Os dois tomaram café e depois se puseram a conferir as bebidas, colocar em ordem as mesas de jogos, limpar o salão para o almoço. Tudo precisava estar em perfeita ordem. Ainda estavam atarefados quando começaram a aparecer alguns fregueses para se divertir no fliperama. A notícia da existência das máquinas ali se espalhara igual rastilho de pólvora pela redondeza. Os garotos adolescentes de toda redondeza começaram a afluir ao estabelecimento e queriam uma chance de jogar uma partida com os companheiros. As três máquinas não pararam um instante durante toda manhã, desde pouco antes das nove horas. Sempre havia alguém a espera, com uma ficha na mão e logo iniciar o jogo. Os pontos se somavam no visor e a torcida era geral. Uns a favor outros contra, parecendo uma competição de grande importância.

            Em torno de onze e meia começaram a chegar os primeiros fregueses adultos. Alguns queriam apenas tomar um aperitivo e depois almoçar, outros tomar uma cerveja e jogar sinuca. De modo que logo o salão se encheu de movimento em todos os lugares. A comida começou a ser servida e o cheiro pareceu atrair os demais fregueses. Muitos moradores das redondezas decidiram dar às esposas um dia de folga, levando a família a almoçar no restaurante reaberto. Novamente foi preciso reforçar a quantidade de alimentos para atender a todos os fregueses. Houve que esperasse por mais de meia hora pela liberação de uma mesa para sentar, mas não desistiram.

            O almoço encerrou e começou a romaria de gente vindo em busca de diversão. Em determinado momento Manoel temeu que faltaria bebida, mas ficou por pouco. Seria preciso providenciar maior quantidade de vasilhame para suprir as necessidades que estavam se mostrando além da atual quantidade existente. Sem dúvida segunda feira seria dia de fechar e manter fechado para descansar. Era necessário refazer as forças para suportar a continuação do trabalho. Estava satisfeito, pois isso demonstrava que fizera um excelente negócio ao adquirir o estabelecimento e o imóvel em um único ato de compra.

            Dessa vez o movimento diminuiu mais cedo e por volta de 22h e 30 os últimos fregueses se retiravam. Trataram de fechar as portas e deixar tudo em ordem para o dia seguinte. Nesse momento Manoel anunciou que estavam dispensados do dia seguinte. Não abriria pois não aguentaria ficar em pé o dia inteiro ali atendendo os fregueses. Queria um tempo para dormir, descansar, ir ao banco depositar o dinheiro que enchia seu cofre naquele momento. Era temerário deixar tamanha soma de numerário no estabelecimento. Um assalto deixaria zerado seu caixa e o estoque. Talvez depois mudasse essa decisão, mas no momento era isso que tinha decidido e não iria mudar.

            Levou os três para suas casas e dessa vez demorou alguns minutos em casa de Eduarda. Os pais estavam se preparando para deitar e aproveitaram para falar e combinar os primeiros detalhes relativos ao casamento. Combinou com Eduarda irem na segunda feira a tarde tratar de encaminhar os documentos na igreja e no civil. Os pais concordaram em que isso era importante providenciar imediatamente. Qualquer atraso nos trâmites deixaria tudo atrapalhado sem tempo de remediar. Isso era desaconselhável.

            Voltou para o bar e estacionou seu carro na garagem, fechando logo depois a porta e conferindo se estava bem trancada. Subiu e logo depois deitava para dormir. A noite passou sem se dar conta e pela manhã ao acordar o sol já estava alto. Levantou, ouviu algumas vozes na porta falando e comentando o aviso que afixara ali de que essa segunda seria de descanso. Houve quem concordasse e aprovasse. Um ou dois discordavam pois um estabelecimento público tinha que estar aberto sempre, a espera dos fregueses. Nem se importou. Eles se acostumariam a isso.


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