Na senda dos monges! – Capítulo V, (Um jovem rebelde)

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Pinturas de cenas da Guerra do Prata, contra Juan Manuel Rosas e Manuel Oribe.

  1. Um jovem rebelde.

 

Roque aceitou fazer a experiência como ajudante do capataz na fazenda do padrinho de Alice, Sr. Jerônimo Albuquerque. Começou no princípio do mês seguinte, dando tempo ao pai para resolver a questão do cargo de capataz na Fazenda Ribas. Os filhos de Gumercindo voltaram e sentaram-se para conversar seriamente.

Depois de algumas ponderações, o filho João foi nomeado capataz, ficando Roque liberado para seguir seu caminho. A única exigência era Afonso continuar a dar apoio e orientação ao jovem. Houve algumas objeções de peões mais velhos que se julgavam merecedores de ocupar o cargo. No entanto tinham total carência de espírito de liderança. O rapaz, aos 19 anos de idade, foi suficientemente humilde e ponderado para não entrar em atrito com os subordinados. Com serenidade e bom senso conquistou a confiança da maioria, o que tornou as objeções insignificantes. Sua presença constante junto ao grupo, sempre na frente para enfrentar as tarefas mais complicadas, logo se tornou motivo de orgulho de bom número dos demais. Passaram a considerar uma honra trabalhar sob as ordens de alguém tão bem habilitado para o posto que ocupava.

Roque mudou-se para o novo local de trabalho e começou gradualmente a granjear a confiança dos demais trabalhadores. Era um grupo heterogêneo, formado por jovens, bem como de idades variadas. Identificou entre os mais experientes aqueles que eram mais equilibrados nos relacionamentos com os demais. Iriam servir de seus “segundos” no comando, nos momentos de diversas atividades a serem executadas simultaneamente. Iria delegar autoridade, para melhor abranger todas as tarefas, sem deixar nada ao acaso. Logo se tornou, sem ser necessária nenhuma comunicação especial, o líder do grupo. Dessa forma, quando o capataz, agora promovido a administrador anunciou a investidura de Roque na nova função, houve uma alegre confraternização. Trocas de apertos de mãos, abraços e desejos de boa sorte vieram de todos os lados.

O velho capataz, cansado de longos anos na frente da equipe de trabalho, antes de a propriedade passar por herança para o Sr. Jerônimo, sentiu alivio ao deixar essa tarefa para alguém mais jovem. A forma de distribuição das tarefas logo adotada por Roque foi de grande eficiência. Nenhum peão ficava à toa, esperando sua vez de trabalhar. As tarefas iam sendo executadas em harmonia, sem deixar para o dia seguinte nada que pudesse ser feito hoje. Dessa forma, em pouco tempo, o resultado se fez ver, mostrando o resultado. O patrão Jerônimo congratulou-se com o administrador pela sua boa escolha. Tivera a intuição de que o jovem tinha calibre para ser capataz e assim mantivera o antigo como administrador, pois era um homem experiente e de confiança.

Em fins de 1951, a movimentação de tropas do outro lado da fronteira sul, com a República do Uruguai e do lado de lá do Rio Uruguai, na província de Buenos Aires, Missiones era cada vez mais intensa. Não demorou para ocorrer recrutamento de homens para reforçar o exército imperial brasileiro, visando enfrentar o conflito eminente. Nem Roque, tampouco João haviam herdade inclinações bélicas do pai. Provavelmente escaldados pelas dificuldades enfrentadas na infância quando foram deixados sozinhos com a mãe, os avós já idosos durante os anos da Revolução Farroupilha. Já Antônio, parecia ter recebido a dose que deveria pertencer aos irmãos, além da própria no quesito disposição, belicosidade e rebeldia. Contava nesse tempo com pouco menos de 15 anos.

Ao ouvir falar em guerra, seus ânimos se acenderam e só fazia falar em batalhas, combates de facão e cavalgadas. Não perdia oportunidade de exercitar sua habilidade com um velho fuzil que restara da revolução. Por mais desgastado que se encontrasse a velha arma, desenvolveu uma habilidade considerável em acertar o alvo. Tinha certeza de que seria aceito nas tropas imperiais. A mãe implorou que isso era loucura. Era ainda uma criança e tinha pela frente a vida toda. O pai argumentou mostrando suas cicatrizes, fazendo-lhe lembrar dos problemas que trouxera ao voltar da campanha. Os próprios irmãos usaram diversos argumentos, mas nada o demoveu de seu intento.

Tinha seu próprio cavalo, um belo alazão, veloz e forte, capaz de longas cavalgadas, galopes velozes, bem como saltos sobre obstáculos. Um belo dia, amanheceu sem sinal do menino. Em um bilhete deixou escrito que partia para se integrar ao exército que iria enfrentar as tropas de Juan Manuel Rosas e Uribe. Não queria despedidas, pois tinha absoluta certeza de voltar, coberto de glória. O que ele não esperava era encontrar, no posto de inscrição dos novos conscritos, um oficial que servira sob o comando de Afonso, no período final da revolução farroupilha. Aceitara a anistia oferecida pelo imperador e se integrara ao exército imperial. Começara como sargento e agora era capitão. Promovido por bons serviços prestados.

Ao ouvir-lhe o nome, lembrou do seu último comandante antes do fim da revolução. Diante disso, olhou detalhadamente para o jovem garboso que se apresentava, percebendo imediatamente sua tenra idade. Como quem não quer nada, indagou:

– Filho do Major Afonso Costa Batista?

– Sim senhor. O senhor conhece meu pai?

– Combati sob as ordens dele na revolução, antes da rendição final.

Nesse momento percebeu um leve tremor na feição do garoto. Acusara o impacto e bastaria insistir um pouco para confessar sua idade, ainda insuficiente para ser soldado. Revolveu continuar a indagar:

– Tem quantos irmãos?

– Dois irmãos e uma irmã. Sou o penúltimo.

Nesse momento o oficial lembrou de Afonso ter contado que o terceiro filho nascera depois de partir para a guerra. Conhecera-o no final de 1986, quando já tinha alguns meses de vida.

– Então deixe-me ver! Você agora tem 15 anos de idade, certo?

– Vou fazer 18 no mês que vem, – mentiu Antônio.

– Acho que você fugiu da escola. Não aprendeu a contar direito? Se nasceu em 1936, depois do meio do ano, não tem mais de 15 anos e uns meses. Sou obrigado a dispensar sua boa vontade. Volte para junto de sua família e leve um abraço ao Major Afonso. Diga-lhe que o Cap. Ataulfo Silva manda lembranças. Não sei se ele vai lembrar de mim.

– Me dê uma chance, capitão. Eu sou bom de tiro, sei usar um facão como poucos. Vou lutar por dois se me deixar mostrar.

– Infelizmente sua idade não permite. O Imperador iria me rebaixar a soldado se eu aceitasse seu alistamento e ele ficasse sabendo. Nada feito rapaz!

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Mapa das manobras de guerra no conflito do Rio da Prata, contra Rosas e Oribe.

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Mapa da região dos países do Prata.

Antônio saiu dali acabrunhado. Não voltaria para casa. Se não o aceitassem como soldado, poderia ser útil como mensageiro civil, fazendo tarefas até mesmo em território inimigo. Encaminhou-se para a fronteira, onde se empregou temporariamente em uma fazenda. Precisaria de dinheiro para se manter, enquanto não se tornasse útil à pátria como uma espécie de agente civil. Contava com sua juventude para passar despercebido. Aprendera a falar razoavelmente o castelhano com alguns romeiros vindos da banda oriental para as águas do campestre. Esperava assim poder passar por uruguaio ou argentino, bastando apenas usar roupas adequadas.

Quando o conflito iniciou, deixou o emprego e foi rondar o acampamento de tropas brasileiras mais próximo. Na primeira oportunidade apresentou-se ao comandante, propondo-se como espião infiltrado no território inimigo. De início foi recusado, mas seus argumentos, demonstrando conhecer o idioma, sendo capaz de se disfarçar perfeitamente, além da pouca idade, poderiam perfeitamente servir de disfarce e álibi. Confabulou com os oficiais do estado maior e concluíram que ele seria o agente perfeito para se introduzir diretamente na casa dos oponentes.

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Juan Manuel de Rosas, mandatário das províncias Argentinas, no tempo do conflito do Rio Prata.

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Governante da República Oriental do Uruguai no tempo da Guerra do Prata.

Recebeu o apoio necessário, uma certidão falsificada de nascimento, constando como nascido na região de Corrientes, roupas e estava pronto um jovem argentino. Dessa forma ele foi para o território inimigo e conseguiu acesso ao alto comando. Conseguiu entrar para o serviço de um oficial ligado ao alto comando das tropas platinas. Isso lhe facilitava o acesso a informações sigilosas relativamente a planos de ataque, disposições de combate, datas, horas, número de homens e armas disponíveis. Uma vez obtidas essas informações, periodicamente mantinha contato com um mensageiro que as levava para o comando das tropas imperiais.

Dessa forma era possível prevenir ataques de surpresa, saber o efetivo do inimigo, antecipar a defesa das posições visadas. Enquanto isso, Antônio, que se apresentara como Juan Antônio Barrios, apaixonou-se perdidamente pela filha do oficial. O nome dela era Isabellita Nuñez Ibarra e acabara de completar catorze anos de idade. Sempre que havia um momento de folga se encontravam. Nesses encontros se fundiam aos beijos, abraços e carícias, pouco faltando para chegarem às vias de fato. Temiam ser surpreendidos em atitudes mais íntimas e só por isso se continham. Quando o conflito estava próximo ao fim, um fato fortuito levou o oficial a suspeitar de seu serviçal.

Quando estava comunicando o fato ao superior, Juan Antônio estava na sala contígua e ouviu tudo pela porta entreaberta. Sem perda de tempo saiu às pressas, passou pela casa, tendo seu cavalo aprestado e pronto. Em poucos momentos convenceu Isabellita a fugir com ele e saíram, estando ela sentada na parte dianteira da sela. Tomaram caminhos de menor movimento para escapar às possíveis patrulhas e quando avistavam sinal de poeira ao longe, procuravam se ocultar no mato. Passado o perigo, voltavam a cavalgar. Levavam apenas algumas peças de roupa essenciais. Alimentação não era um problema sério pois em toda parte encontravam árvores frutíferas carregadas para matar a fome.

Quando o cavalo estava em vias de ficar esgotado, esperaram escondidos em um capão de mato até depois de se apagarem as luzes em uma Estancia próxima. Silenciosamente Juan se esgueirou para o estábulo, identificou um cavalo de bom porte e manso, trocou a sela para este e deixou o seu no lugar. Seguiram viagem dessa maneira por várias semanas, tendo apenas em uma ocasião parado na beira de um rancho mais pobre e ali lhes ofereceram comida salgada para comer. Embora simples, lhes pareceu um verdadeiro banquete. Depois de andar mais um pouco, verificaram que era necessário trocar as roupas e dessa vez foi preciso assaltar o varal de uma casa, em plena luz do dia. Era algo mais arriscado.

Depois de escolher o que lhe pareceu adequado para o momento, Juan se esgueirou para fora do alcance dos olhos e nesse momento um cão começou a latir furiosamente. Por sorte estava longe suficiente para poder ser visto. Em um córrego que corria por dentro de um bosque, aproveitaram para se lavar. Removeram as roupas bastante surradas e mesmo rasgadas de tanto enroscar em galhos e espinhos. Nesse momento, tomaram conhecimento de seus corpos. Enquanto se lavavam sequer haviam reparado. Os olhos pareceram se abrir de repente enquanto esperavam que a pele secasse, antes de vestir as roupas afanadas.

Juan ficou pasmado com a beleza quase infantil em forma de mulher que viu diante de si. Isabellita desviou o olhar ruborizada. Em criança vira meninos e meninas sem roupa, mas depois que começara a se transformar em mulher, nunca mais vira ninguém despido totalmente, além dela própria. Juan caiu de joelhos em atitude de adoração à exuberância das formas da amada. Seu peito fremia de amor e seu corpo logo reagiu alcançando um estado de excitação nunca sentido. Quando sentiu a ereção ficando incontrolável, virou-se de costas e falou:

– Mi amor, usted me quiere?

– Si mi querido. Io te quiero, pero tiengo un poquito de miedo.

– Nada hai a temer, princesca. No te voi a hacer mal alguno. Quiero solo te amar con toda mi alma y mi cuerpo.

– No va a ser doloroso en la primera vez?

– No sé al cierto, pero me parece que no. Nuestros padres y madres hicieran lo mismo para pudiéramos nascer. Por lo que se es posible salir un poquito de sangre y solo eso.

Nesse momento ele sentiu o corpo jovem e fremente de desejo envolve-lo pelas costas. Os mamilos rijos foram pressionados contra as costas e o quadril se comprimiu contra as nádegas. Foi preciso um esforço considerável para controlar o impulso de virar-se e possuí-la imediatamente. Ficou esperando o próximo movimento das mãos que começaram a apalpar o rosto, depois desceram para o peito forte, chegaram ao ventre. Ali se detiveram a acariciar uma leve camada de pelos, denotando que estava em vias de alcançar a idade adulta. Estremeceu quando as mãos se moveram para baixo e logo elas afagavam seus genitais. Ele soltou um gemido de prazer, misturado de dor. O membro havia atingido tal grau de enrijecimento que parecia querer explodir.

A continuação dos afagos, segurando com a mão direita o membro e com a esquerda empalmando a bolsa escrotal, em estado de contração total, formando como que uma fruta seca e enrugada. Enquanto isso a boca murmurava:

– Sempre queria segurar em tu membro quando ló sentia em mis pernas quando me abraçavas y bessabas. Ahora lo tiengo en mi mano. Vira-te que te quiero ver de frente asi desnudo e excitado.

Ele se virou e viu nos olhos da menina um mudo convite ao prazer longamente desejado, mas sempre adiado. Agora era o momento. Os pelegos e forrações da sela serviram de cama. O cavalo pastava a curta distância em um recanto protegido de olhos indiscretos. Aqueles pelegos eram muito mais do que uma cama de dossel, forrada de cetim, com rendas e bordados. Nada disso importava. Os corpos jovens se uniram lentamente até alcançarem o ponto máximo de interpenetração possível. No momento de romper a virgindade dela, ouviu-se um leve gemido e ele sentiu um pequeno fluxo de sangue que vertia. Nada disso os preocupou naquele momento. Estavam no máximo de excitação e tinham olhos somente um para o outro. Nem mesmo que aparecessem dezenas de pares de olhos indiscretos para assistir o ato de amor, eles teriam se importado. Eram um só corpo e uma só alma, fundidos em uma só pessoa.

Depois de atingirem o clímax, permaneceram por algum tempo unidos, trocando beijos suaves e sem fim até atingirem novamente o estado de excitação que os levou a novo gozo. Dessa vez foi mais longo e intenso que o primeiro, que parecia pressionado pela ansiedade do momento. Os dedos percorreram os corpos mutuamente, desvendando cada curva, cada fibra sensível até que os corpos se afastaram totalmente satisfeitos. Permaneceram deitados de costas, olhando para o céu entrevisto pelas copas das árvores.

Em um momento ouviram um tropel de cavalos ao longe e ficaram atentos. Estavam a dias cavalgando, já tinham trocado de cavalo três vezes. Julgavam ter colocado uma distância razoável entre eles e os possíveis perseguidores. O tropel se afastou e perdeu na distância. Eram, na certa, peões de alguma Estancia se deslocando de um lugar a outro ou transportando algumas reses. Tornaram a lavar-se, dessa vez entrando na água e sentindo o prazer dela tocando seus corpos nus. Abraçaram-se e se beijaram, sentindo o líquido cristalino a acaricia-los. O efeito da passagem da luz do ar para a água, se refletindo na pele e percorrer o caminho inverso, produzia estranhas modificações nas formas. Curvas inexistentes apareciam e desapareciam na medida em que a superfície modificava a configuração em seus diferentes pontos.

Ao sentirem-se limpos, vestiram os trajes que Juan havia afanado, sentindo-se um pouco estranhos. Ficavam folgadas ou um pouco justas, mas eram limpas e estavam inteiras. Assim poderiam passar despercebidos com mais facilidade. Realmente dali em diante não passaram mais por nenhum susto e numa parada em um rancho na beira da estrada, descobriram estar próximos ao Monte Palma. Nesse lugar um monge italiano que pelo que dissera, andara pelo Brasil anteriormente. O passado ressurgiu na mente de Juan. Poderia ser o homem que conhecera no Campestre, quando seu pai ali fora se tratar de uma bronquite severa, adquirida durante a revolução farroupilha.

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Ermida em San Javier, do lado oposto de Porto Xavier no Brasil.

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Cruzeiro que marca o local de início das cerimônias da Via Sacra, no Cerro del Monje.

Indagou de maneira discreta e descobriu tratar-se realmente de Juan Maria de Agostini, conhecido no Brasil como João Maria de Agostinho. Perguntou a distância até o morro e foi informado que do ponto em que se encontravam restavam em torno de uma légua para chegar ao sopé do morro, conhecido como Cerro del Monje. Depois que empreenderam a viagem até o morro, ele falou a Isabellita sua verdadeira origem. Em princípio ela ficou um pouco chocada, mas, à medida que ele contou a sua história, as curas ocorridas nas águas do Campestre, seu nome verdadeiro e o que fora fazer na Argentina, ela riu da situação.

– Io, Isabellita Nuñes Ibarra, hija de un oficial de ejercito de Juan Manuel Rosas, enredada con un espía brasileño. Quien podría creer en una estoria asi?

– Es la verdad, mi amor. La única certeza que tiengo es que yo te amo más que cualquier cosa en la vida.

– Para provar que me amas, dá-me un beijo como solo tu sabes dar, amor.

Trocaram um longo beijo que quase os derrubou do cavalo. Este se assustara com um pássaro que voara de um arbusto próximo ao caminho.

– Um beso tan bueno que casi nos hace cair del cabalo. – disse Antônio, agora não mais preocupado em ocultar seu verdadeiro nome.

– Amor, te quiero decir una cosa. Creo que estoi embaraçada.

– Grávida. O quê? Você está grávida? Não acredito. Isso seria a coisa melhor que poderia acontecer nesse momento. Chegando ao morro onde vou encontrar o monge santo e ficar sabendo que vou ter um filho.

– No tengo certeza, pero me siento diferente. Acuerdo de mis tías e vecinas cuando se quedaban embarazadas, hablaban que sentían ganas de vomitar, tonterías y cosas asi.

Ele a abraçou carinhosamente e continuou levando o cavalo devagar. Agora ela se transformara, além da princesa dos sonhos, no bem mais precioso que poderia existir no mundo. Chegaram a um aglomerado de cabanas ao pé de um morro e deduziram ser ali que o povo se reunia para encontrar o monge. Perguntaram por ele e lhes disseram:

– En poquito más de media hora él va estar acá. Vive nel alto del cerro. Vea alla, cerca daquela piedra oscura. Hai una gruta. El la usa como abrigo contra la lluvia, él frio.

– Yo lo conozco de cuando estaba en Brasil, no lejo de la Estancia donde mi padre era jefe de los vaqueros.

– Usted es brasileño? Que hace con esta chica argentina?

– Es mi mujer y está embarazada. No le puede acontecer nada de mal. Lleva mi hijo en su vientre.

– Vamos a ver se encontramos un hogar donde puedan abrigar-se por esta noche. Mañana, si van a quedar-se por acá, tenemos que hacer una cabaña para ustedes.

– No vamos a quedar mucho por acá. Quiero solo ver el monje y traer un abraso de mi padre.

– Pero es bueno recibir las bendiciones del monje y bañar-se en él agua del fuente santa.

– Aca hai todavia una Fuente santa?

– No sabias? Ella está al otro lado de cerro. Hay que subir, haciendo oraciones delante de cada una de las cruces hasta el cimo, donde existe un oratorio. Después se desce hasta el fuente para bañar-se en él agua. Cura cualquier mal del cuerpo y del alma.

– Vamos a ver. Puede ser que quedemos para descansar por uno o dos dias. Viajamos de mui lejo.

– Vinieran de Brasil?

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Conjunto de montes Cerro Negro e Cerro del Monje, hoje território argentino.

Nesse momento o monge João Maria de Agostini surgiu numa curva do caminho e o povo começou a falar, quase todos ao mesmo tempo. Logo se aproximou, começando a exortar todos para fazer penitência, arrepender-se dos pecados, limpar o corpo e a alma. Iniciou-se a reza de um terço, intercalando cânticos entre as dezenas. Depois iniciaram a escalada, bastante íngreme. Havia ao todo 14 cruzes, simbolizando as estações da via sacra, sendo que diante de cada uma delas era rezada nova dezena do terço, até chegar ao topo, onde um oratório ostentava uma imagem de Santo Antão, semelhante à que Antônio vira na ermida no Cerro do Campestre. Parecia feita a mão, sem muito acabamento, dando por seu aspecto a impressão de representar um homem afeito a penitência e privação de conforto de toda sorte.

O cavalo, cansado de longa jornada, estava acomodado e pastando em um pequeno cercado junto ao aglomerado de cabanas. Depois de orar por mais alguns minutos, iniciou-se a descida pela outra encosta, mais íngreme e perigosa que a primeira. Perto do meio do caminho, havia uma fonte, jorrando um forte jato de água cristalina e gelada. Um a um os penitentes se lavavam na água, bebiam dela e alguns levavam um recipiente cheio para uso no dia seguinte. Isabellita e Antônio também se lavaram, beberam água, mas não tinham trazido vasilha para levar água. Desceram e depois rodearam o cerro até as cabanas. Um estrado feito de bambus servia de tarimba sobre o qual estenderam os forros da sela e os pelegos. Era ali eu iriam dormir, se aconchegando o máximo possível, em vista do fria da madrugada.

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Cerro del Monje, local em que viveu o Monge João Maria de Agostinho de 1952/54.

Na manhã seguinte Antônio insistiu tanto até que permitiram que subisse para conversar com o monge. Queria lhe contar que o conhecera criança quando passou pelo Campestre e Botucaraí. Seu pai curara ali sua bronquite que o deixava sem fôlego seguidamente. Queria agradecer e pedir sua benção para o casal e o possível herdeiro que estava a caminho. Subiram, não sem esforço e o encontraram em meditação. Ao pressentir sua presença, voltou-se e olhou interrogativamente. Antônio se aproximou e falou:

– Santo Monge João Maria! Eu sou do Brasil, na região do Campestre, onde o senhor esteve alguns anos atrás. Meu pai curou uma bronquite nas águas santas.

– Tu padre tenía mucha fe, por eso se curó. Si no tenia fé, no tenderia encontrado la cura.

– Ele até hoje vai, uma vez por mês, até a fonte, se lava na água e traz dela para beber.

– Eso muestra que él es un hombre de mucha fe. Siga-le él ejemplo, joven.

– Eu estou aqui com minha mulher Isabellita. Quero pedir a sua benção para nós e o filho que ela traz no ventre.

– Un hijo es una bendición de Dios. Vengan acá cerca de mí.

Os dois se ajoelharam diante do monge e ele lhes impôs as mãos longamente, recitando orações seguidas, muito rapidamente tornando-as incompreensíveis. No final falou:

– La madre va a tener un hijo saludable. No tendrá problemas al parir. El chico va ser un guerrero valiente. Luchara en dos conflictos internos de su patria. En el último morirá, con más de 60 años de edad.

Um pequeno calafrio percorreu as espinhas dos dois jovens ao ouvir a predição do futuro de um filho que, até aquele momento, sequer sabiam ao certo se estava mesmo concebido. As palavras do monge, de certo modo, confirmavam o estado de gravidez de Isabellita. O monge os despediu e acrescentou:

– Hijo! Vuelva a su pátria y quede-se cerca de tu padre. Él tiene necesidad de tu presencia.

– Vou sair daqui e começar o caminho de volta para casa. Já estou longe tempo suficiente. Vais conhecer meu pai, minha mãe e irmãos, – falou para a mulher, abraçando-a carinhosamente.

Desceram pela trilha do morro e chegaram no aglomerado de cabanas. Imediatamente o líder do agrupamento se aproximou dizendo:

– Ja encontré un lugarcito para hacer una cabaña para ustedes.

– Nosotros vamos empezar hoy mismo el viaje para Brasil. El Monje ordeno que yo retorne para la casa de mis padres.

– Bueno, solo me resta desear buen viaje para ustedes.

– Gracias, amigo!

Comeram uma refeição simples que lhes foi oferecida e depois Antônio selou o cavalo, começando a viagem imediatamente. Agora seguiam a trote e a passo. O cavalo precisava ser poupado. Formavam uma família e não queria mais se envolver em roubo de cavalos. Não estavam mais fugindo. Dirigiram-se pelo caminho mais próximo até a costa do Rio Uruguai, divisa com o Brasil. No primeiro lugar que encontraram travessia, transpuseram a fronteira. O problema era que não havia meio de levar o cavalo. Só existiam ali pequenas embarcações para transportar pessoas. Depois de negociar bastante, conseguiram que o dono do barco, ficasse com o cavalo no lado Argentino e lhes fornecesse outro no Brasil.

Levaram a sela, pois isso seria mais difícil de encontrar. O que eles não esperavam era encontrar um cavalo velho, já em fim de carreira. O pobre animal conseguia dar os passos suportando no lombo o peso de Isabellita, sendo guiado por Antônio. Chegaram dessa maneira a São Nicolau, onde Antônio trabalhou por algum tempo para no final, além da alimentação de ambos e o lugar para dormirem, levaria um cavalo melhor. Dessa forma já era 1853, quase a meio, quando chegaram a Santa Maria. Percorreram praticamente todas as antigas missões jesuíticas, de onde levaram gratas recordações, bem como grande tristeza pela destruição que as tropas, a mando do Marquês de Pombal, ministro português que administrava as colônias.

O trabalho que os jesuítas haviam feito com os indígenas era maravilhoso e lamentavelmente tudo havia sido arrasado por um ministro mal intencionado. Hoje restavam apenas ruinas na maior parte dos sítios em que as missões se localizavam. Nada havia que fazer, além de lamentar tanta insensatez. Ao chegarem em Santa Maria, encontraram um povoado em franco crescimento. Muitas casas novas haviam sido construídas desde que Antônio dali saíra praticamente fugindo da família. Não sabia se os pais haviam recebido uma carta que conseguira mandar no tempo que estava atuando nas linhas inimigas. Iria saber tão logo chegasse à fazenda. Esperava que os dois irmãos estivessem casados, menos a irmã que era mais nova.

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Oratório nos dias de hoje, no Cerro del Monje

Ao se aproximarem da sede da fazenda Ribas, Antônio reconheceu de longe sua terra natal. Ali crescera até os 15 anos, quando saíra sem olhar para trás. Não sabia se o pai e a mãe estavam vivos, se ainda moravam na fazenda, mas teria que começar sua busca por ali. Em poucos minutos ouviu um grito agudo que dizia:

– Meu filho! Meu filho voltou para casa! Meu filho voltou!

Era a mãe Zulmira que o vira chegando e logo percebeu que vinha com um fardo, aparentemente de grande beleza. Parecia um guerreiro voltando para casa transportando em seu cavalo um despojo de guerra. E que despojo.

A mãe correu ao seu encontro e precisou parar o cavalo. Ajudou Isabellita a descer primeiro para depois apear. Mal a moça tocou o solo, foi abraçada pela sogra que adivinhara a situação. Era a sua nora, provavelmente grávida que o filho trazia, depois de mais de dois anos de ausência. Depois de abraçar longamente a jovem atônita, a mãe emocionada abraçou finalmente o filho e chorou copiosamente. Ele saíra menino e voltava um homem, queimado pelo sol e vento da viagem. Antes de ter chance de falar alguma coisa, passou-se um longo instante. Enquanto isso da casa onde moravam emergiu Afonso, com sua perna rija e apoiado em uma bengala, vindo lentamente para perto. A irmã saiu às carreiras e chegou primeiro, ficando um pouco receosa a espera.

– Venha aqui mana. Me dê um abraço e também abrace sua cunhada Isabellita.

Foi então que Zulmira ficou sabendo o nome da nova integrante da família. Voltou a abraçar a moça, dizendo:

– Seja bem-vinda à família Batista, Isabelita.

Estabeleceu-se uma pequena balbúrdia pois outras pessoas também vieram ver do que se tratava. Desse modo logo a notícia da volta do filho, considerado perdido, se espalhou como fogo em palha seca. A carta que Antônio enviara não chegara ao destino. Ficou desconfiado que esse fora o meio que levara ao pai de Isabellita a descobrir a verdade sobre ele. Foi preciso algum tempo para satisfazer a curiosidade de todos. De toda parte vinham perguntas sobre suas aventuras naqueles dois anos, por onde andara, o que fizera. Notícias haviam corrido de que morrera em uma briga poucos dias depois de sair de casa.

O que todos queriam saber era de onde ele trouxera a moça, nitidamente de nacionalidade argentina. Se o Brasil estivera em guerra com o país vizinho recentemente, o que ele andara fazendo por lá? Fizera parte do exército? Não poderia ser pois não tinha idade para tanto. Demorou tempo até que tudo foi colocado em pratos limpos e a curiosidade de todos foi satisfeita.

Ao saberem das aventuras do jovem seu nome se tornou sinônimo de coragem, astúcia e audácia ao roubar a filha de um oficial do país vizinho. Muitas histórias, mais lendas que verdades, circularam pela redondeza. Antônio, ao ser interpelado sobre a veracidade de tudo, não negava nem confirmava. Procurava sempre desviar do assunto, sem dar uma resposta definitiva. A vida seguiu em frente. Os irmãos de Antônio, Roque e João, estavam casados, sendo o primeiro pai de um menino de pouco mais de seis meses. João casara há poucos meses estando a esposa também grávida. Agora era Antônio que, aos 17 anos, estava vivendo com uma menina, também grávida. Zulmira e Afonso teriam netos em profusão em pouco tempo.

O que mais alegrou Afonso foi saber que eles haviam encontrado o Santo Monge João Maria num cerro do norte da Argentina, aliás em território paraguaio. Voltara mais depressa por recomendação do monge que lhe dissera estar o pai precisando de sua presença perto dele. Foi um momento de grande emoção. Se não estivesse tão difícil viajar, Afonso teria vontade de voltar a ver o Monge, mas as dificuldades da viagem eram previsíveis e dificilmente aguentaria tanto esforço.

Décio Adams

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