Na senda dos Monges, – João Maria de Jesus, José Maria de Agostinho e os caboclos do contestado.

 

 

  1. Novos monges no sul.

 

No tempo da revolução federalista, as localidades do norte do Rio Grande do Sul, foram percorridas por João Maria de Jesus. Era em tudo semelhante ao antigo Monge João Maria d’Agostini, menos a mão defeituosa. A estatura era a mesma, o modo de agir semelhante, deixando a muitos convictos tratar-se de uma espécie de reencarnação do primeiro. Carregava consigo uma panelinha, alguns utensílios e costumava acampar, mesmo a céu aberto, ao abrigo de árvores, próximo de uma fonte de água. Em sua peregrinação percorreu parte do Rio Grande do Sul, e do atual território de Santa Catarina. Na época fazia parte da região contestada pelo litígio de limites entre os estados de Santa Catarina e Paraná. Especialmente o vale do Rio do Peixe, Curitibanos, Lages, até a região de União da Vitória, Mafra e Rio Negro, ficaram cheios de fontes consideradas santas, pousos do Monge. Tinha a fala mansa, dava muitos conselhos, indicava ervas para chás, especialmente de vassourinha. O povo o considerava santo, capaz de operar milagres. Tanto que, depois de seu desaparecimento, passou a ser denominado São João Maria.

Nas histórias contadas, misturavam-se partes do primeiro João Maria e do segundo. Desse modo ficou unificada a figura dos dois como se fossem a mesma pessoa, apesar de terem vivido na região em épocas distintas.

Nos locais de pouso, dizia o povo, mesmo que chovesse torrencialmente em todos os lugares ao redor, no ponto de pouso, não caia uma gota d’água. Tinha a capacidade (não comprovada) de transpor os rios, mesmo em dias de enchente e sem dispor de meios para fazê-lo. As cinzas do fogo que fazia para cozinhar seus alimentos, eram coletadas pelos populares, para delas fazerem chás e outros usos medicinais. Costumava deixar plantada uma cruz, feita de cedro, nos locais em que pousava. Por uma propriedade típica da planta, é comum galhos fincados no solo, brotarem e se transformarem em novas árvores. Desse modo, se a cruz plantada pelo monge brotasse, passava a ser um lugar sagrado, com poderes milagrosos. Existem até os dias atuais árvores resultantes de cruzes que ele plantou. Nas proximidades existe sempre uma fonte, cujas águas são consideradas santas, com poderes curativos. Essa fé persiste até os dias atuais.

Em suas previsões, falou de uma cobra preta, que viria e se estenderia pelo chão, por toda parte. Trata-se das estradas asfaltadas que hoje existem por todo o território. Falou dos muitos acidentes que iriam ocorrer. Previu a chegada da estrada de ferro, trazendo muito sofrimento, destruição da natureza e outras consequências. Falava do fim do milênio, com a previsão de três dias de escuridão total, sendo necessário ter em casa os mantimentos necessários, velas feitas de cera para iluminar, bem como um maço de fósforos da marca Pinheiro. Não deveriam abrir a porta para ninguém que batesse pedindo para entrar. Ao final desse período reinaria no mundo a paz, tendo todo mal sido removido. Essa predição coincide com a última profecia de Fátima, revelada sob o pontificado de João Paulo II.

Deixou escritos em linguagem bastante rudimentar vários documentos como cartas, orações e conselhos. Estes foram reproduzidos ao longo do tempo e preservados até os dias atuais, sendo que, em alguns casos, os copistas fizeram correções ortográficas e gramaticais, mas sem distorcer o teor dos documentos. Vamos transcrever aqui, na forma original como se encontram na Tese de Doutorado de Tânia Welter, pela Universidade Federal de Santa Catarina, a partir da página 285. Não serão feitas correções para manter a forma como foi deixada pelo autor. Distinguia-se de João Maria d’Agostini, pelo nível cultural limitado. É o que denotam seus escritos, bastante incompreensíveis até em alguns trechos. Talvez em sua terra de origem tivesse tido algum nível melhor de instrução, mas em outra língua e aqui sentia dificuldade de se exprimir por escrito.

 

Oração de São João Maria de

Agostinho

 

Esta milagrosa oração achado na santa

sepultura de nosso senhor Jesus Cristo feita

par mãos divina. todos que traxerem esta

oração dentro de sua casa não sofrerá castigo

de Deus nem raio nem curisco nem

traumenta. Meus filhos não abusem com a

religião católica já com caridade com palavra

já com minha vontade que só cuidarei de

evitar. Resem os terços. Ao fim meus filhos

se não mudarem de vida mandarei

tempestades e raios curiscos em geral ao

povo a que a terra há de vir e mandarei ao

fim desta guerra ao povo vem até entre

Cristo que há de reduzir no céu quem usar e

terem em sua casa em sua parte quando eles

vierem até ser conhecido o de 1974 quem

abusar aver não trabalhar nos sábados jejuar

nas sexta feira e guardar os dias santos de

festa de preceito já com jejum de são

sebastião que ele nos livraras dos castigos do

céu há 3 dias de escuridão se peguem

comigo que serão felizes quem tiver esta

oração e tiver com estimação de são joão

maria de agostinho quem tiver esta milagrosa

copia dentro de sua casa servirá de remédio

não sofrerá forte necessidade nem molesti

grave pobre em casa a parte da cenção seres

livres de raio tempestades curiscos em geral

e se tiver necessidade deste não amagoai e

quem não crerem neste concelho ei de

mandar o sal de partir a terra nesta abertura a

de se subir sentro e sentro de língua de fogo

que a de abrir a terra que a de sumir uma

intensão de terra depois disto passado o céu

mancha de verde passado três dias e de

escurecer o mundo de fumaça quem não crer

em Deus nem razão teram e não fiserem a

doutrina cristã ou não ensinar os seus filhos a

rezar as vinha sacra na recomendar as alma

do purgatório não se confessar mais com

padre já com penitencia de viação amêm reze

três pai nosso a são joão maria de

agostinho.

 

 

Carta de São João Maria de Agostinho

para aconselhar os ingnorantes

 

Nosso Senhor Jesus Cristo apareceu no

Mundo para tirar os pecados e as penas dos

Ingnorantes do inferno vivem sempre

Cometendo pecados ninguém quer adorar

Ss Santos e nem tem mais piedades dos

Pobres e pela insuição a te esquecendo

Seus próprios pais pela mesma aprova

Desta e não ensinaram seus filhos

Arezarem vivem contente contando

Grandes erros por ingnorantes não sabem

Nem fazer o pelo Sinal da Santa Cruz.

Esta copia é da carta velha é para aconselhar

Os ingnorantes e quem a esta carta copiar

E não acreditar grandes castigos sofrerão no

Dia 3 de agosto aparecerá um cometa que

Terá 7 metros de cumprimentos. Em setembro

E outubro aparecerá grandes peste na criação

Assim como no povo em novembro a de

Aparecer mais castigos fortes ventos e cafa

nhotos em grandes povoação e quem não a

Creditare mais tarde se corresponderão deve

Dar 1000 a quem copiar esta carta e junto

A oração de São João Maria de Agostinho.

Para fazer trabalharmos para sermo

Felizes e fazermo esmola a as pobres

Nesessitados quem tiver esta carta e a

Oração em sua caza serâ felizes de todos

Os mal e perigos asim como sua família

E seus pais devem rezar um Padre nosso

E uma Ave Maria em atenção de São João

Maria de Agostinho para asempre Amém….

 

 

O ABC do Profeta João Maria

 

Amigos vamos pensar

Também preste atenção

Nosso mundo está torturado

Em diversas condições

Senhores pais de familha

Tratamos da católica religião.

Bastante são os castigos

Que tem aparecido

A grande gafanhotada

Que a terra tem produzido

Para quem pensa no futuro

Da para ficar aborrecido.

Com sertos planos ao futuro

Eu considerado

Eu me admiro do povo

Ninguém sidar por achado

Bem pouca gente conhece

Que terra está castigado.

Dizem quem geralmente

Que é causildade

O povo trata de abuzo

Usando de singelidade,

Por isso Deus nos manda

Penoza dificuldad.

Em quanto nois existir

A vida pecaminosa

E quem não seguir

A doutrina religiosa,

Sempre a de andar

Parecendo calamidade orroroza.

Feliz quem tem medo

E tem fé no Creador,

Pode que Deus lhe ajuda

Com seu Divino valor

Pode vencer o castigo

Sendo Deus o protetor.

Gosta bem de conseguir

Uma poesia formoza,

E ninguem não consegue

A doutrina religiosa

Sempre a de aparecendo

Calamidade orroroza.

Há 24 de junho

Em completa novidade

Do ar do céu o gelo

Deu prejuízo em quantidade

Destruiu as plantações e toda vitalidade.

Imcontra-se dificuldades

Em todos nossos em tereçes

As coisas estão de mau jeito

Bem torto para quem conhece

Em todos os plano ao futuro

Contrariedade aparece.

Já fomos muito ditozo

Em outros tempo passado

Era todo bem acertados

As terras dava boa produção

Sem nunca ser castigada.

Lembransa deve ficar

Deste patente formoso

Esperarmos primeiro

Sinão é tão orrorozo

Si não traz tantos castigos

Tantos fatos perigosos.

Morre porco morre gado

Morre carneiro e leitão

Tudo morre mau jeito

Morre bruto e cristão

Devemos considerar

Que é a falta de religião.

No final do 18 progrediu

Si vê gado pestiado

Só se vê gente dontiu,

Agora estamos vendo coiza

Que o mundo se viu atrapaiado.

O povo andava sucegado

Passiando alegre contente

Agora toda aborrecido

A feição diferente

A fevre veio tirar

Toda alegria da gente.

2

Produtos alimentícios

Que a terra nois alimenta

Mais os castigos nos ares

Contrario nois apresenta,

Vem o gêlo vem a peste

Todos nois afomenta.

Quando um homem trabalhador

Prepara sua plantação

A grande gafanhotada

Eixar a produção

É mesmo entre o inverno

Ante do fim do verão.

Rezar ninguém quer

A religião abandonada

Quando um homem é religioso

Outro já fais casuada

Si os velhos já são

Quanto mais a rapaziada.

Sabemos perfeitamente

Que temos uma vida eterna,

Que sua lei seleste

Tem um Deus que mais governa

Na terra o qual primeiro

Quer o mundo com as pernas.

Triste vida nois está passando

Cada veis mais atrazada

O modo de negociar

Está tão sivilizado

E que nois tará enganado.

Um pensar devemos sertos

Maginação a grande ipiderme

Matando nossos irmãos

As quatro estação do ano

Nois trouxe contradição.

Vivia o povo co medo

Do sorteio militar,

Queria ir no sertão

Para não si apresentar,

De febre ninguém si escapa

Chega por todos os lugar.

Xegou sertão ocasião

Que até triste o movimento

Senhor pai e família

Chegou no conhecimento

Uze a doutrina velha

Guardai o primeiro mandamento.

Zelamos da nossa doutrina

Ve ha não devemos esquecer

Por isso Deus nos deixou

A regra do bem viver.

O til é por dispidida

Desta cruel tirania

As mesmo adivertimento

Fica parado hoje em dia

Quem teve bastante doente

Não pode ter alegria.

Não faço ponto final porque não sei

Entanto sou autor deste papel

Sem saber ler nem escrever nem contar

nem dividir

Somente posso falar o que se dá por aqui

Na costa deste sertão

Das águas claras do Tibagi.

 

Existe uma enorme variedade de textos escritos, segundo alguns, pelo próprio João Maria de Jesus, ou por outras pessoas, em seu nome. Tudo compõe um conjunto de objetos de fé, guardados por descendentes dos moradores da região. Muitas vezes entronizados em oratórios como no caso das imagens, de diferentes tamanhos e materiais; fotografias reproduzidas a partir de uma única existente originalmente. Por todo território catarinense, especialmente na área que integrou o “contestado”, existem marcos que lembram da passagem ou presença do monge. Fontes, cruzes, grutas e lugares marcados com pequenos oratórios. O fato de tanto um quanto outro terrem estado no território, confunde os lugares os lugares, na memória popular. Podem ser tanto deixados por um como por outro e até mesmo ambos.

Costumava aconselhar sobre a melhor forma de plantar e cultivar determinadas plantas, guardar suas sementes, chegando a falar, de certo modo, a respeito do que hoje conhecemos como plantas transgênicas. Era de hábitos solitários. Não aceitava aglomeração de povo ao seu redor. Dificilmente permanecia no mesmo lugar por mais do que um dia, evitando que ocorresse afluxo de pessoas em busca de conselhos, curas e de sua companhia. Nunca aceitava que lhe dessem mais do que o necessário. Comia basicamente legumes, muita couve e frutas.

O que nunca faltava em suas recomendações era a prática da Santa religião, a reza do terço, inclusive cantado, recomendação das almas, e outras práticas piedosas. Ninguém sabe qual foi sua verdadeira origem. Há quem diga que nasceu na Síria e teria por nome Anastás Marcaff, tendo passado por peripécias diversas que o levaram a prometer peregrinar por determinado tempo, levando conselhos e vivendo de modo frugal. Mas o que realmente se sabe é sobre seus passos e atos na região em que viveu naqueles anos, até o dia do seu desaparecimento. Existe um leve registro de que teria se despedido e afirmado que estaria partindo, sem dizer nem para onde e por onde iria.

Muita gente afirma que vive até hoje, encantado num lugar denominado Morro do Taió, de onde retornará um dia para retomar a vida, mas sem fixar data. Isso ocorreu em torno de 1905/7, sem haver indicação mais precisa de data. Algum tempo depois, também sem ter como precisar com exatidão, surgiu na região, por volta de 1910 outro personagem com semelhança aos dois anteriores. Denominava-se José Maria de Agostinho e dizia ser primo do segundo João Maria. Adotou o mesmo estilo de vida dos antecessores e se manteve especialmente nas terras catarinenses. Voltaremos a falar mais detalhadamente dessa figura em momento oportuno.

5 ideias sobre “Na senda dos Monges, – João Maria de Jesus, José Maria de Agostinho e os caboclos do contestado.

    1. Décio Adams Autor do post

      Obrigado por ler minha publicação. Antes dessa tem um livro inteiro, com envolvimento do primeiro Monge João Maria d’Agostini. Pode procurar se gostar de ler. Pesquisei bastante para elaborar esse romance (ficção), entrelaçado com a parte verdadeira da história, ocorrida no século XIX. Agora estou chegando, no volume II no começo do século XX, que vai terminar com a Guerra do Contestado.
      Estou à disposição para troca de impressões.

      Responder
  1. PAULO MARCELO ADAMEK

    ola, meu nome é Paulo desde 2014 vou anualmente ao morro do taio, na primeira vez que fui la ao deixar o morro parei em uma encruzilhada onde tem um poto de ônibus para tirar uma foto do morro, vi uma pessoa no meio da mata no alto do morro toda vestida de um manto vermelho acenando e varias “almas” pessoas pálidas vestidas de branco ao seu redor, mostrei a minha esposa e ela demorou para ver mas consegui ve-lo, ao preparar a maquina para foto a pessoa de manto vermelho estava como por magica em frente e cruz que aparecia de baixo do morro, na segunda ida resolvi explorar as pedras da subida do morro vi uma “benga-la” debaixo de uma destas pedras, e na terceira ida ao morro do taio na parte de baixo do morro tinha uma calçaver melha em cima de uma arvore perto do salão embaixo no morro (parece em um dos meus videos a 0:39 segundos https://www.youtube.com/watch?v=Z4qKcXCWDwk ) e também aquela bengala estava fincada em metade da altura de uma arvore que as pessoas vão olhar embaixo do morro…
    Abraço a todos

    Responder
    1. decioadams Autor do post

      São interessantes seus relatos, pelo menos como parte do folclore que envolve a passagem dos monges pela região sul do Brasil. Não tenho como verificar in loco a existência desses sinais, pois sou deficiente e já um pouco idoso. Talvez alguém que se dedique à pesquisa sobre o assunto, possa interessar-se em pesquisar o local.
      Agradeço pela visita e possível leitura do meu texto. Ficaria grato em receber uma impressão de sua visão sobre o que escrevi, misturando ficção com realidade.
      Décio Adams

      Responder
  2. Jesse leite

    Na casa da minha vó aqui em Carlópolis tem uma foto dele e o meu bisavô conheceu ele e tbm aqui em Carlópolis tem uma fonte dele ,uma capela e uma estatua dele .

    Responder

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