Fantástico mundo novo! – Capítulo VII – Aldeia se movimenta em busca de estrutura jurídico administrativa.

  1. A aldeia se movimenta em busca da estrutura jurídico-administrativa.

 

O dia do descanso semanal começou com a aldeia coberta por densa névoa. Não se conseguia ver o outro lado das ruelas. Uma semana antes amanhecera chovendo e dessa vez parecia que um lençol branco fora estendido sobre toda região. A população ficou trancada em casa, esperando por um raio de sol. Quando ele finalmente conseguiu perfurar a camada de neblina, esta se dissipou rapidamente. Isso acontecido, apareceu um céu azul límpido, sem sinal de nuvens. Um calor gostoso se fez sentir sem demora. Em pouco tempo as ruelas se encheram de crianças correndo em brincadeiras ruidosas. Um e outro adulto começou a percorrer as ruas estreitas.

O chefe do porto, desde longa data, ocupava também a posição de administrador público da aldeia. Os serviços públicos eram escassos. A arrecadação de dinheiro público para investir em melhorias era restrita a uma contribuição anual cobrada de cada imóvel. Isso não era grande coisa. Os comerciantes obtinham gordos lucros com a compra e venda de mercadorias de todas as partes. Sobre esse movimento não era cobrada uma moeda sequer. No entanto eram, em geral, os primeiros a reclamar de alguma coisa que não estivesse de seu agrado. Agik decidira convocar a assembleia dos chefes de família para uma reunião naquele dia do descanso. Os chefes de família se reuniriam nas dependências do porto, onde havia espaço aberto com dimensões suficientes para tal evento.

Tinha em mente propor ao corpo de legisladores, eleitos na mesma época de sua última eleição para o cargo, a discussão de algumas medidas que trouxessem melhorias à aldeia. O movimento do porto crescia, as casas de comércio estavam ficando mais e mais prósperas. Deveriam seguir o exemplo de cidades vizinhas que possuíam leis para ordenar toda sorte de atividades. Começariam por medidas simples. Tinha proposta de enviar observadores às cidades mais próximas. Bastaria anotar todas as medidas que postas em prática e depois adaptar o que mais fosse conveniente. Tinha certeza que, vendo os problemas existentes nos outros centros, saberiam criar normas capazes de sanar as deficiências.

Dessa forma, logo depois do desjejum, os homens que tinham a propriedade de um imóvel e também as mulheres se dirigiram para o local da reunião. Quando chegou o momento marcado, Agik tomou a palavra e lançou suas propostas. Houve algumas indagações, que foram respondidas como era possível. Dois ou três homens que haviam viajado por uma porção de lugares, tinham o que dizer sobre algumas medidas tornadas legais nesses lugares. Alguns serviços públicos, mantidos com os tributos arrecadados, melhoravam sensivelmente a qualidade de vida nesses lugares. Algumas sugestões surgiram e foram anotadas devidamente, sendo que para isso, o mestre Zósteles tinha sido convidado a participar da reunião. Foi-lhe dada a palavra para apresentar algumas ideias que vivenciara nos vários lugares por onde andara.

O recém-chegado Iagushi teve a honra de estar presente, pois não era vedada a presença de ninguém. Apenas na hora de votar havia limitação desse direito. Era apenas um voto por casa. Zósteles elogiou essa forma, pois viera de um país onde, somente quem sabia ler e escrever podia votar. A pessoa poderia não saber por sua proposta por escrito, mas ser apta a dizer com suas palavras o que queria. Caberia à assembleia analisar a proposta, aperfeiçoar, complementar e, por fim, votar pela sua aprovação ou rejeição. Foram elencados os cinco principais problemas da aldeia, que depois foram acrescidos de mais outros três, que surgiram durante as discussões. Um grupo de pessoas, com disponibilidade de tempo, ficou encarregado de visitar as cidades vizinhas e ali colher as informações de que necessitavam. Quando estivessem de posse delas, realizariam nova reunião, para tornar público a todos o que haviam obtido. Mediante análise dos resultados, uma lista dos assuntos em ordem de prioridade para serem discutidos, elaboradas as leis e posteriormente apresentadas para aprovação em assembléia. Era sabido que isso demandaria algum tempo.

Enquanto estivessem aguardando o resultado da coleta de dados, os vizinhos deveriam começar a discutir entre si, sugerir ações, buscar formas de solucionar os problemas de afligiam a comunidade. A necessidade de tais decisões era unanimidade entre os presentes. Certamente havia divergências na ordem de importância, o que era mais que natural. Antes do encerramento da reunião, Agik ainda lançou a proposição de ser discutida uma forma organizacional diferente. O acúmulo de funções que ele fazia criava problemas e ficaria melhor se outra pessoa ocupasse a administração pública geral em seu lugar. Deveriam pensar também nessa possibilidade e trazer as sugestões na próxima reunião.

Na saida vários grupos se formaram, enveredando nas diversas direções, onde residiam. Iam surgundo várias ideias, sugestões, proposições, até mesmo algumas altercações leves. No entanto sempre aparecia alguém para apaziguar os ânimos e assim chegarem todos aos seus lares. Na medida que avançavam os grupos iam se sub-dividindo, conforme os caminhos de casa se afastavam do seguido pelos demais. Nesse dia as donas de casa e suas filhas, normalmente suas ajudantes na cozinha, ficaram esperando um pouco para servir a refeição do meio do dia. Chegou a haver alguma apreensão no ambiente doméstico de certos lares, receando que tivesse ocorrido algum tumulto. Isso não era de todo improvável. A reunião de um grande número de homens num mesmo lugar, para discutir questões políticas, falar de administração, normas, facilmente podia descambar para discussões e desaguar em agressões.

Quando a apreensão estava se tornando mais forte, eis que os homens, bem como alguns filhos, adentravam suas casas. Não podiam fugir das naturais perguntas que logo vinham. Tinham discutido muito? Houvera alguma confusão? Terminara tudo em paz e harmonia?

Ao terminar a chuva de perguntas em sucessão, geralamente o pai de família se encarregava de responder a todas de uma vez, fazendo um resumo dos fatos. As medidas adotadas agradaram a grande maioria das matronas. Haveria finalmente um pouco mais de organização na aldeia. Muita coisa estava deixando a desejar por longo tempo. As mais variadas sugestões surgiram, sendo muitas delas coincidentes, outras completamente absurdas, ou então, utópicas. Em se tratando de serviços públicos, era de esperar que houvesse alguma lentidão. Primeiro seria preciso alcançar um consenso quanto às normas, depois colocar tudo em ação, com as prováveis resistências de parte de alguns cidadãos. Essa resistência seria, sem sombra de dúvida, oriunda daqueles que tivessem sido voto vencido nas discussões. Tentariam sabotar as medidas tomadas, a seu ver, contra sua vontade.

Agik havia deixado bem claro que se pretendia fazer uma administração para o povo e pelo povo. Haveria candidatos submetidos ao voto dos moradores. Quem obtivesse o maior número de votos, ocuparia o cargo, por um período ainda a ser determinado. Ninguém mais deveria ocupar cargo algum por um longo período ininterrupto, mesmo por recondução pelo voto. A alternância do comando traria grandes benefícios, uma vez que periodicamente haveria sangue novo ocupando a posição de mando.

Zósteles havia convidado Minck para almoçar com ele e Iagushi. Uma viúva havia sido contratada para preparar as refeições da dupla. Minck acompanhou o mestre e os dois aproveitaram para conversar, sem elevar a voz, sobre a viagem fantástica que haviam realizado na véspera. Minck foi o primeiro a falar:

– O mestre reparou no que pode acontecer com um planeta, se os homens se tornarem muito poderosos, produzirem armas capazes de matar muita gente?

– É de estarrecer, meu amigo Minck. Mas o Grande Deus, Criador de tudo, é capaz de fazer a natureza refazer, pelo menos em parte, a destruição que os humanos causaram.

– Outra coisa que me deixou pasmado, foram aqueles pássaros que voam sem bater as asas! Os navios que não usam velas para navegar, como é que conseguem sair do lugar? Na minha admiração esqueci de perguntar ao Arki.

– Estávamos os dois igual dois basbaques, de boca aberta, creio eu. Tantas coisa por perguntar e nós quietos, como dois abobados.

– Acho que o Arki deve estar rindo de nossa cara até agora. Mas ele não costuma rir da nossa ignorância. Ele veio para ensinar o que não sabemos. Essa viagem foi para nos mostrar um pouco do grande e imenso universo que existe.

– Você conseguiu ver aqueles espaços vazios que existem bem longe, entre um aglomerado de estrelas e outro?

– Vi sim, mestre. Me parece que são chamadas de galaxias. Cada uma delas é um Universo, que pertence a um Superuniverso. Bem no centro, diz o Arki, existe uma espécie de ilha, onde fica o Paraíso. Ali é a morada do Último Centro. Dele emanam todas as coisas no final das contas. Mas ele criou seus ajudantes e delegou poder a eles.

– Isso parece bem mais lógico do que aquele Panteão de deuses no monte Olimpo. Eles brigam entre eles, pelo menos assim dizem os sacerdotes, lutam e fazem confusão.

– Isso é na sua terra natal, Mestre?

– Sim. Na Grécia. Mas nos demais países não é muito diferente. No Egito, por exemplo, há uma porção de deuses, sendo o rei a encarnação de um deles na terra. Quando ele morre, é sepultado e um filho que ele indicou, se torna rei, chamado faraó. De uma hora para outra se transforma um ser humano, num deus. Não parece meio ilógico?

– Um humano, virar um deus, assim de um instante para outro! Realmente, é bem difícil de acreditar. Mas, enfim, se o povo acredita, quem pode dizer que não é assim.

– Fica bem claro que existe em cada ser humano uma coisa, parece uma força, que o induz a procurar por Deus. Não sei bem como isso funciona, mas só pode ser isso. Em toda parte onde andei, encontrei o povo prestando culto a alguma entidade, tida como um Ser superior. Em lugar algum encontrei o povo desprovido de alguma forma de devoção.

– Acho que posso lhe dar a resposta para essa sua indagação, Mestre.

– Você sabe o que leva as pessoas a procurar Deus? E ainda não me contou antes! Isso só pode ser coisa do anjo, Arki. Estou certo?

– Eu tinha dúvida se seria bem recebida a informação. De fato, foi Arki que me falou, em um dos primeiros encontros no alto do penhasco. O Criador de tudo, o Deus Supremo, ou Pai Universal, se fragmenta e concede a cada ser humano que toma consciência da sua vida, uma espécie de “fagulha” ou “centelha”. Ela vem morar no interior da mente da gente e ajusta nossos pensamentos. Dessa forma nos induz a buscar Deus. Se erramos o caminho, é por termos uma coisa chamada “livre arbítrio”. A “fagulha” apenas induz a busca, mas deixa a ação à nossa escolha. É por isso que cada povo tem seu deus, ou deuses. É a forma que eles usam para representar o Criador de tudo. Um dia eles vão descobrir o caminho para a eternidade.

– Se eu entendi direito, depois de morrer, na verdade continuaremos vivendo em outra esfera, outro nível. É isso?

– Sim, meu Mestre. Ao morrer, o corpo fica aqui na terra e volta a fazer parte da matéria inicial, como era antes de se transformar no nosso corpo. O espírito, dorme, até ser despertado para outra etapa. Dali por diante não há mais vida física, apenas espiritual. Diz o Arki que demoramos, uns mais, outros menos, muito tempo para alcançar o Paraíso, onde iremos ver Deus, o Criador.

– Acho que nesse momento o mestre está sendo você. Sabe mais do que eu sobre esse assunto. Mas não fique chateado por isso. Todos temos algo a ensinar e aprender com os outros. Eu aprendi muito nas minhas peregrinações pelo mundo. Quando saí da Grécia, pensei que estaria perdido. O mundo era estranho e perigoso. Aos poucos me acostumei a ver as diferenças e também as semelhanças. De cada lugar que visitei, levei algum ensinamento e deixei por lá alguma coisa que trazia ao chegar.

– O que quer dizer que ninguém sabe tudo. Temos sempre algo mais para aprender. Fico bem contente com isso.

Estavam na casa há algum tempo, quando Iagushi retornou também. Estivera conhecendo algumas pessoas que estavam curiosas por saber algo a respeito do Império do Sol Nascente, o Japão. Ele lhes satisfizera a curiosidade. Lá o nível de organização social era bastante diferente. Tinha suas vantagens, mas muitas desvantagens também. Principalmente o povo, que não fazia parte da classe dos Samurais, dos governantes, dos Senhores Feudais. Isso colocava o povo apenas alguns milésimos de nada acima dos simples animais. A principal diferença era serem capazes de falar. Isso deixou as pessoas chocadas. Para piorar, quem nascesse Samurai, depois da morte, tornava a viver em uma criança que nascia, mas sempre em uma família de Samurais. Nunca havia ascenção de algume do povo à categoria superior. Não adiantava nada se matar de trabalhar, tentar ganhar as boas graças do Suserano. Quem nascia povo, era eternamente povo. Tal fato pareceu injusto ao povo local.

– No reino da ìndia e também na China, há a crença na reencarnação. Inclusive a pessoa pode reencarnar na forma de um animal, para expiar seus pecados da vida anterior. A divisão em várias castas, sem possibilidade de ascenção de uma casta para outra superior, nem tampouco o descenso para uma casta inferior. Isso é usual na Índia. Quando aqui cheguei, pensei que seria a mesma coisa, pois o território fica na continuação do país conhecido como Índia.

– Muito interessante, isso, mestre Zósteles. O senhor pelo visto não acredita na reencarnação, ou estou enganado?

– Eu, até bem pouco, pensava que a morte era o fim. Agora já não tenho mais essa certeza. Começo a crer que existe algo mais depois dessa vida, mas numa outra forma, numa outra esfera.

– Parece que temos todos um impulso que leva a buscar alguma coisa para cultuar. Eu sempre me perguntei porque o homem precisa de um culto. Todos buscam algo acima do natural e não consigo entender a razão.

– Escute o que o pequeno Minck tem a dizer sobre isso.

– Esse menino? Mas ele será capaz de possuir conhecimentos acima dos nossos, homens feitos, com longos anos de vida! Mesmo assim, estou pronto a ouvir o que tem a dizer, meu jovem “pequeno” mestre.

Minck repetiu as palavras que usara há pouco para esclarecer a dúvida de Zósteles. O que o deixou em dúvida, era revelar ou não de onde lhe vinha tal ensinamento. No  final, optou por dizer apenas parte da verdade. Falou na fagulha, no Deus, Pai Universal, mas omitiu os seus encontros com um ser angelical. Igualmente manteve silêncio sobre a viagem da qual participara na noite anterior, em companhia de Zósteles. Este por sua vez, disfarçou e fingiu estar ocupado com um pergaminho usado nas lições na última semana. Um discípulo havia lhe entregue um conjunto de pequenas frases, bem elaboradas, gravadas com estilete, criando um belo trabalho.

A cozinheira veio avisar que a refeição estava pronta. Ela, sabendo do habitual atraso dos homens ao final de reuniões semelhantes à que havia sido convocada para esta manhã, deixara para começar o preparo da refeição um pouco mais tarde. Dessa forma os alimentos ficaram prontos depois do retorno dos patrões e do pequeno convidado. Ouvira algumas palavras ditas no salão de refeições, mas não captara o significado que elas tinham. Principalmente pelo fato de ouvir apenas pequenos fragmentos, que tornavam aquilo ininteligível. Também, era coisa de homens e sabia que seus patrões eram, em sua opinião, senão sábios, faltava-lhes pouco para isso. Ela, uma pobre viúva, ignorante de tudo, não teria como aspirar a compreender o que eles falavam.

Mesmo assim, ficou ensimesmada. O que estaria fazendo aquele menino, junto aos dois sábios? Participara ativamente da conversação e parecia mostrar ares de entendido no assunto. Isso era, no mínimo, estranho. Bem, quem pode saber o que vai na cabeça de um menino curioso? Deve estar azucrinando o juízo do mestre Zósteles, de quem parecia discípulo nas lições de escrita e leitura. Continuou a fazer seu trabalho e serviu a refeição. Um belo peixe assado, acompanhado de tubérculos cozidos em água e temperos, junto com saladas verdes era o prato principal. Tanto Zósteles, quanto Iagushi eram frugais na alimentação. O menino certamente não iria exigir um volume significativo, de modo que a comida preparada seria suficiente.

Os três fizeram as honras ao belo banquete que lhes foi servido. Para acompanhar, Iagushi foi buscar em seus pertences uma vasilha, contendo um líquido que disse estar com ele desde sua partida da terra natal. Estava aguardando uma ocasião especial e este lhe parecia ser o momento aprazado. Abriu e um aroma delicado se espalhou pelo ambiente. Um pouco do líquido foi vertido em pequenos recipientes de cerâmica. Era um gole médio. Parecia mais que estariam tomando algum remédio, do que uma bebida especial. Iagushi propos um brinde e os três ergueram seus “cálices”, depois os levaram à boca e beberam de um trago.

Minck  foi atacado por um acesso de tosse, pois tratava-se de saquê. Uma espécie de água ardente, feita de arroz. Passada a tosse, um leve  sabor agradável se espalhou por toda boca. Zósteles, um pouco mais afeito a bebidas diversas, fora mais cauteloso, mas também bebera seu gole. Olhou para Minck sorridente e falou:

– Isso é forte, menino. Você engasgou. Com o passar do tempo aprenderá a beber esse tipo de líquido. Viu como depois da ardência, vem uma sensação agradável.

– Percebi, mas como ardeu na garganta na hora que engoli. Argh!

Iagushi sorriu condescendente.

– Eu não deveria ter servido par você. Mas vi que sabe de muitas coisas e me senti tentado a ver sua reação a uma bebida forte.

– Outro dia vou querer provar outra vez. Por hoje chega.

– Vamos comer,ou a comida esfria.

Puseram-se a comer alegremente, intercalando os bocados mastigados vagarosamente, com algum comentário elogioso à refeição ou sobre os acontecimentos do dia. A cozinheira, chamada Kalula, ouvia agora a conversação, mais ruidosa e guardava secretamente no coração os elogios que faziam à  sua habilidade como cozinheira. Aproveitava para também fazer a refeição, porém sem atrever-se a sentar junto aos patrões. Fez isso na cozimha, acomodada sobre um banquiho que ali havia, na verdade um pedaço de tronco, fincado no chão, abaixo do piso. Quando os três terminaram de comer, permaneceram por algum tempo sentados, como a fazer uma digestão prévia do alimento. Por fim, Iagushi pediu licença e disse que iria deitar-se um pouco. A semana fora de atividade intensa e ainda estava um pouco fatigado da longa jornada que fizera poucos dias antes.

– Pode dormir, amigo. Nós acho que faremos o mesmo, ou talvez aproveitemos para fazer um passeio. O que acha, Minck?

– Estou pensando sobre isso.

– Até mais tarde. Vou descansar, – disse Iagushi.

Mal o Samurai se recolhera ao seu aposento, Minck falou a meia voz:

– Eu ia sugerir que a gente subisse ao alto do penhasco. Ali poderemos conversar sem reservas sobre nossa viagem. Tenho várias coisas a analisar. Me acompanha?

– Espere apenas um instante. Vou trocar essa roupa, por uma mais adequada para escalar aquela pedra.

Foi até seu aposento, voltando algum tempo depois, tendo trocado seu longo manto por um mais curto e leve. Assim teria maior liberdade de movimentos. Também estava curioso por olhar o mar do alto daquele rochedo. Na noite não tivera tempo de ver nada. Além do mais, estava escuro como breu.

A cozinheira acabara de arrumar a cozinha, onde deixara uma refeição preparada para o jantar. Iria passar o resto do dia com a família do filho que vivia um pouco adiante com a mulher e os netos dela. Saiu dizendo adeus aos dois amigos que, fecharam a porta e sairam. Caminhando vagarosamente chegaram ao pé do penhasco, procurando não chamar atenção para o que pretendiam fazer. Depois de observar os arredores, iniciaram a escalada, chegando ao topo ofegantes, especialmente o filósofo. Havia ali em cima, não se sabe como, uma sombra frondosa, projetada por uma árvore, cujas raízes desciam pelo flanco da rocha, agarrando-se firmemente a ele. Como isso acontecera, merecia uma análise mais profunda, pensou Zósteles.

Sentaram-se à sombra, sobre uma placa de pedra ligeiramente mais elevada, restabelecendo aos poucos o ritmo normal da respiração. Enquanto isso,  os olhos perscrutavam a superfície da água do mar, onde gaivotas e outras aves marinhas voavam em todas as direções. As ondas, no momento da maré cheia, vinham quebrar no sopé do penhasco. Quando o nível baixava, ficava livre uma bela faixa de areia, macia para se caminhar. Era ali que Minck frequentemente passeava nas horas vagas. Nos últimos dias não lhe havia sobrado um momento de folga. Quando não estava tendo lições com o mestre, estava lhe prestando assistência com os demais discípulos que havia sido acrescidos às turmas e acomodados na sala ao lado. Os olhos do mestre acompanharam o voo de alguns pássaros por algum tempo e falou:

– Existe uma coisa semelhante entre alguns pássaros e aqueles imensos que voam sem bater as asas. Notou que algumas espécies, batemas asas e depois voam algum tempo  sem as movimentar?

– É mesmo. Mas aqueles não batem asas nunca. Saem do chão e voam sem um único movimento. Devempossuir uma forma de propulsão que lhes permita fazer aquilo. Vou ter que perguntar ao Arki no próximo encontro.

– Será que ele sabe isso tudo? Parece que nem tudo está ao seu alcance.

– De fato. Existem coisas que os seres subalternos desconhecem. Também eles passam por etapas evolutivas, mas não dispõe do chamado livre arbítrio. Eles foram criados para serem anjos e fazer as tarefas sem questionar, nem nada. Apenas obedecem.

– De certo modo eles são inferiores a nós. Podemos aprender e evoluir, enquanto eles só podem obedecer. E se algum deles se rebelar?

– Uma boa pergunta, Mestre. Ouvi o Arki dizer algo a respeito, mas não entrou em detalhes. Parece que aqui mesmo, no nosso mundo, houve uma rebelião de seres angelicais. Eles são colocados em uma espécie de isolamento. Esperam o dia em que serão julgados.

– Isso significa que existem julgamentos no Universo. Certamente é o próprio Deus Criador, que é juiz e executor da sentença.

– Também não sei nada sobre isso. É importante essa nossa conversa. Posso lembrar de tudo isso e perguntar ao Arki. Se ele souber a resposta, certamente irá me dizer. Se não souber, ficaremos na dúvida.

– Ele irá lhe dizer o que souber e talvez explicar de uma forma que consiga entender.

– Isso mesmo. Em várias ocasiões ele disse “mais ou menos isso”, quando eu perguntei algo, usando uma comparação para dizer o que havia entendido. Há coisas que não temos palavras para exprimir. Ele recorre a exemplos, ou semelhanças.

– Quando for aprender outras línguas, irá descobrir que algumas palavras não tem tradução literal. São precisas várias palavras para transmitir a mesma ideia de uma única da outra língua.

– Nunca havia pensado nisso. Pensei que bastaria saber as palavras certas e seria fácil falar a outra língua.

– Nem tudo é simples assim. Para saber falar bem a outra língua, precisa aprender primeiro a pensar na nova língua. Depois conseguirá falar direito.

– Isso é uma grande novidade. Quer dizer que, pensar em outra língua, não é igual pensar na nossa?

– Em algumas situações pode ser bem diferente, até mesmo, quase impossível no primeiro momento. As línguas surgiram antes dos símbolos que usamos para escrever as palavras. Alguém criou os símbolos. Na língua chinesa, por exemplo, o número de símbolos é imensamente maior do que no grego. Mesmo na língua local, daqui, os símbolos são bem diversos.

– Isso torna as coisas mais complicadas, penso eu.

– Mas não tenha dúvida. Você aprenderá a falar tantas línguas quantas desejar. Basta ter confiança e perseverança.

– Eu confio no senhor, Mestre.

– E eu confia em você, meu pequeno “Mestre”.

– Longe de mim tal ideia. Não sou mestre em nada ainda. Talvez um dia eu chegue a essa posição.

– É melhor darmos tempo ao tempo nesse caso.

Permaneceram por alguns minutos em silêncio, observando novamente os pássaros voando sobre as águas, alguns descendo na faixa de praia que existia mais além, outros faziam voos rasantes, no intuito de pegar algum peixe e quase sempre podiam ser vistos levando um exemplar no bico. Voavam até um lugar seguro, onde comiam o que haviam capturado. Em alguns casos, se o espécime conseguido era pequeno suficiente, era engolido inteiro. Via-se nitidamente o pescoço ficar mais grosso, enquanto por ali passava o pequeno peixe. Era a natureza em seu ciclo. Cada espécie serve de alimento a outras espécies. Em alguns casos, uma espécie era predada por outra quando filhote. Ao alcançar a idade adulta, tornava-se, por sua vez, predador daquele que antes lhe ameaçara. Uma sucessão incessante de fatos. Era vida sustentando vida e assim certamente planejara o Deus Criador de tudo isso. Só podia ser isso.

– Que engraçado, Mestre. Acabei de ver um pássaro capturar um peixinho e engolir em pleno voo. Já outros vão até um rochedo onde pousam para comer.

– Viu que, enquanto um está voando com um peixe no bico, outros tentam roubar-lhe a presa?

– Notável isso. Sempre venho passear na praia, quando tenho tempo, mas geralmente não presto tanta atenção nos pássaros. Algumas coisas se tornaram mais perceptíveis hoje para mim.

– Acho que nós dois estamos acordando de nossa ignorância, depois da viagemm de ontem. Artes do seu amigo Arki.

– Mas é injusto falar de ignorânciaa referindo-se ao senhor, Mestre. Eu sim, ainda sou ignorante e inculto.

– E como eu não sou ignorante?  Você não acabou há pouco de me explicar a orígem da busca humana por um ser Superior, um Deus, capaz de criar o Universo? Também, na medida certa, sou ignorante de muitas coisas.

– Bem, olhando assim, está certo. Estava agora mesmo lembrando daqueles seres humanos, devastando as florestas que ainda existem naquele planeta. Será que continuarão até que a última árvore tenha sido destruida?

– Uma pergunta interessante. Pelo ímpeto que demonstravam, parecia que era esse o objetivo. Sómente algo mais poderoso poderia fazê-los parar.

– Se o Criador lhes deu o livre arbítrio, ele não poderá interferir, sem quebrar o que ele mesmo criou.

– Um dilema bem sério esse. Tornou-se refém de sua própria criação. Será que ele chega a esse ponto em sua liberalidade?

– Pelo menos assim eu entendi, quando Arki me falou.

– Por que não aproveita na próxima oportunidade e pergunta a ele?

– Já tenho uma penca de perguntas a fazer. Vou ter que escrever todas elas, para não esquecer. Acho que vai faltar tempo para tudo isso.

– Mas coloque-as em ordem de importância. Assim consegue saber pelo menos algumas respostas.

– Boa ideia, Mestre. Vou fazer isso.

Nesse momento, notaram que o sol estava descendo na direção do poente, projetando uma sombra cada vez mais alongada da árvore que os abrigava. Na verdade estavam agora expostos ao sol, mas sua intensidade era menor nesse momento. Nisso o rosto de Minck se ilminou e Zósteles percebeu que estivera a meditar sobre alguma coisa relativa à viagem ou com ela ligado. Esperou para ver do que se tratava, pois o pequeno amigo logo exporia seus pensamentos. E não esperou muito.

– Sabe, Mestre! Agora eu entendi o motivo de os navios aparecerem aos poucos lá no horizonte. Começa-se a ver os mastros e só depois de algum tempo consegue-se ver-lhes o casco.

– E qual é a razão disso?]

– Lembra qual é a forma dos astros que vimos?

– Sim, são como gigantescas esferas.

– Exatamente. Eu só não entendi ainda como é que a água se mantém no oceano, lá onde a Terra fica curvada para baixo.

– Há de existir alguma força, ou poder que a mantém direito no seu lugar.

– Sim, mas quando pegamos uma vasilha com água e a viramos de lado, ela derrama tudo. Pelo que vimos, os oceanos são como imensas vasilhas, curvas ao redor dos planetas. Como essa água não derrama?

– Eu bem que gostaria de saber a resposta. Mas tenho uma ideia que acaba de me ocorrer.

– Fale Mestre! Estou morrendo de curiosidade.

– Imagine uma linha horizontal passando por aqui, onde nós dois estamos sentados. Ela acompanhará a curvatura da terra? Mas nesse caso não seria uma reta. Sei que os matemáticos dizem que uma reta não tem começo nem fim e segue infinitamente nos dois sentidos. Mas se a horizontal é curva, logo ela não pode ser uma reta.

– Hmmm! … Isso é deveras complicado. Ou seriam infinitas retas horizontais, todas traçadas em um ponto.

– Uma coisa é certa. A horizontal, é perpendicular à vertical. Se o planeta é redondo, a vertical que passa por aqui, não é a mesma que passa lá longe, na linha do horizonte. Por conseguinte, a horizontal também terá outra direção naquele ponto.

– O Mestre matou a charada. É isso mesmo. Não existe apenas uma horizontal, mas sim infinitas. As verticais devem passar todas pelo centro do planeta, creio eu.

– Estamos nós dois aqui a desenvolver teorias matemáticas. Já havia pensado nisso, mas apenas superficialmente. Sempre me ocupei mais com a parte da mente, com os pensamentos. Mas esses conceitos matemáticos também fazem parte dos nossos pensamentos.

– Acho que não estamos transgredindo nenhuma lei do Criador, ao desvendar-mos esses conceitos. Deve ser essa a razão de Arki nos levar nessa viagem pelo espaço. Assim conseguimos entender algumas coisas bem notáveis.

– Quando eu chegar em casa, vou pegar um pergaminho e fazer alguns desenhos. Quero desenvolver essas ideias de maneira mais analítica.

– Mas vai me mostrar depois, ou vai guardar só para si?

– Vamos discutir minhas descobertas em outra ocasião. Creio que é melhor descermos daqui, enquanto há luz. No escuro teremos mais dificuldades para isso. Hoje a Lua surge mais tarde e teríamos que ficar aqui por mais tempo. Acho que o Arki não vai nos visitar hoje.

– Boa ideia, Mestre. Foi um imenso prazer palestrar com o Senhor hoje. Espero não ter dito muitas bobagens, dentro de minhas limitações.

– Você não falou nenhuma bobagem. Ao contrário. Falou coisas muito sábias, o que é bem raro na boca de um menino de sua idade.

– Deve ser influência do Arki. Ele me disse que eu seria mais ágil no aprender as coisas, para depois ser o líder do grupo de repovoamento do novo planeta onde iremos viver.

– Só pode, meu amigo.

Iniciaram a difícil tarefa de descer do penhasco. Se tivessem alguma pressa, corriam o risco de despencar ali do alto. Não deviam se expor a isso de maneira alguma. Com cuidados redobrados, conseguiram pôr os pés em chão firme. A maré estava recuando e já havia uma faixa de areia, onde era possível caminhar. Foram até lá, onde Minck aproveitou para mostrar ao Mestre a variedade enorme de conchas coloridas que a água deixava na areia. Era de tamanhos muito variados e tinham a face interna multicolorida. Algumas pareciam um verdadeiro arco-íris. Nisso olharam para a superfície da água, onde o sol poente lançava reflexos multicores em todas as direções. As ondas ao se quebrarem na proximidade da praia, se desfaziam em uma profusão de espuma branca. Lá longe, a água parecia esverdeada, em outros lugares puxava para o tom azul e no fim a superfície do mar se fundia com o céu. Ali havia uma camada de nuvens, onde o sol criava um espetáculo de muitas cores e formas. Da mesma forma, no poente, havia algumas núvens nas proximidades do disco solar. Isso produzia uma imagem indizívelmente bela aos olhos de quem a sabia apreciar.

– Eu desejaria ter habilidade com tintas e pincéis para pintar essas imagens que se formam, tanto no nascente, como no ,poente.

– Por que não tenta? Por acaso já experimentou pintal alguma coisa?

– É bem verdade que não. Acho que como o Mestre, sempre me preocupei demais em pensar. Assim esqueci de fazer algumas coisas que gostaria de ter feito. Um dia, quem sabe, crio ânimo e tento pintar alguma coisa.

– Sugiro não perder muito tempo. Quanto mais tempo passar, mais ocupações terá em sua vida e, por certo, terá menos horas disponíveis para fazer algo diferente. Veja meu caso. Há pouco mais de duas semanas apareci aqui, sem ter nada por fazer. Hoje, tirando o dia de descanso, não me sobra quase nenhum tempo para pensar em alguma coisa, além das lições que assumi ministrar aos discípulos.

– Bem verdade, Mestre. Já se passaram duas semanas desde que iniciamos nossas lições. Até o Senhor Iagushi veio semana passada e já arrumou o que fazer. Estamos todos ficando cada dia mais ocupados. Vamos precisar tomar algum tempo para nós mesmos, ou seremos prisioneiros de nossas ocupações.

– Creio que é bem melhor assim, do que ficar desocupado. Para mim, passei tanto tempo desocupado, o que tornava minha vida deveras difícil em muitos momentos. Se não fosse a caridade de algumas pessoas, em muitas ocasiões teria passado fome. Cheguei a sentir a falta de alimento nas horas adequadas, mordendo forte minhas entranhas. Agora está bem melhor, eu lhe afianço.

– Com certeza. Deve ser algo terrível passar fome. Eu nunca senti fomo por muito tempo. Sempre havia minha mãe com alguma coisa pronta para comer e matar minha fome.

– Ainda não sabe quanto dói o aguilhão da fome. Tem sorte, meu  amigo.

Caminhavam ao longo da praia e quando viram haviam percorrido uma grande distância. Fizeram meia volta e retornaram sobre seus passos. Quando os últimos raios de sol riscavam o céu, deixando um tom amarelo avermelhado em sua passagem, chegavam à casa de Minck, onde se despediram. Zósteles cumprimentou o amigo Sock e sua esposa Muhn, que voltavam da casa da irmã desta. Tinham levado alguma coisa para a pobre mulher, sempre às voltas com a carência de alimentos e outras coisas. O marido, infelizmente, não era muito dado ao trabalho, apesar de Sock lhe haver oferecido uma vaga no porto. Preferia pescar, mas não era sempre que conseguia trazer para casa alguma coisa que valesse a pena. Para piorar, o barco pertencia a outro, um verdadeiro explorador. Na hora da divisão do pescado, reservava para si, na qualidade de proprietário da embarcação, a maior parte do peixe, deixando para os dois ajudantes, apenas umas poucas peças, que pouco ou nada significavam numa família numerosa.

Com o cair do crepúsculo, Zósteles despediu-se dos amigos e foi para sua moradia. Ali encontrou Iagushi a espera. Acabara dormindo a tarde toda e não vira o dia passar. Fizera fogo no fogão onde iriam aquecer o jantar, deixado pronto pela cozinheira. Não indagou das andanças do companheiro de habitação, mas olhava-o com frequência, deixando perceber que morria de curiosidade. Zósteles lhe relatou pequenas passagens do que vivera naquela tarde. O novo amigo, iria conhecer aos poucos ao pequeno Minck. Na medida certa iria descobrir de quem se tratava na verdade. Era um menino, mas trazia no peito e na mente um gigante espiritual. Seria digno de respeito no tempo futuro. Restaria esperar o correr dos dias.

Jantaram e palestraram por algum tempo, narrando mutuamente as peripecias vividas até darem com os costados naquela aldeia, perdida na imensidão do mundo. Alguma coisa parecia unir seus destinos e  caberia ao tempo jogar as pedras que decidiriam como isso terminaria.

Minck, por sua vez, estava com o rosto radiante, mas quieto. Todos os familiares, ao vê-lo naquele estado, indagavam o que acontecera, mas ele pouco dizia. Estava contente, mas não loquaz como costumava ser em outras ocasiões. Era estranho seu comportamento. Habitualmente, quando estava feliz, tornava-se falador, querendo contar a todo mundo o que lhe causava tal estado de alma. Tinha, ao que parecia, um motivo de alegria imenso, porém não podia revelar qual era o motivo, o que deixava aos demais ainda mais aguçados em sua curiosidade. Não conseguindo arrancar do menino nenhuma indicação sobre o motivo de sua alegria, acabaram deixando de lado o assunto. Jantaram e, terminada a refeição, começaram a conversar. Todos tinham algo para contar sobre o que haviam feito no decorrer da tarde daquele dia. Nem tudo era revelado.

Sumok e Banik haviam passado na companhia de duas belas jovens junto com alguns amigos. Fora uma tarde agradável. Estavam enamorados das moças e elas lhes correspondiam. Porém, ainda não era hora de tornar pública a  relação. Quando isso fosse feito, teriam que estabelecer prazos, datas para a celebração das bodas. Antes de darem tal passo, era necessário providenciar uma morada, para não serem obrigados a morar na casa dos pais das moças ou na casa dos próprios pais. Nem uma, nem outra opção era viável. As casas não dispunham de acomodações para tal e, desde longo tempo, era habitual dizer-se que “quem casaa, quer casa”. O casal jovem, em seus primeiros anos de convivência, precisava de tempo para se ajustar um ao outro, sem interferências externas. Estas, por melor intencionadas que fossem, costumavam trazer desavenças que transformavam a vida a dois algo desagradável. Não tinham por objetivo viver um relacionamento conflituoso. Queriam, ao contrário, viver com a esposa e os filhos que viriam sem dúvida na sequência, em perfeita paz e harmonia.

A noite transcorreu em paz e harmonia. Na manhã do primeiro dia, o sol raiou parecendo sorridente. A população inteira saiu para o trabalho. Os discipulos de Zósteles dirigiram-se ao local das lições. Logo depois de chegarem, o mestre, acompanhado de Minck chegou. Todos o cumprimentaram alegremente. Dentro de pouco as atividades de ensino/aprendizagem tiveram início. Minck estava aprendendo, paralelamente com o aperfeiçoamento da escrita e leitura de sua língua nativa, o idioma materno do Mestre. Gradativamente aprendou o alfabeto, composto por menos de trinta símbolos. Com eles podia-se escrever tudo que fosse necessário. Bem mais simples do que a língua local, com seus múltiplos símbolos. Isso tornava o aprendizado da língua bem mais simples do que poderia parecer.

No período da manhã, quem dava assistência aos alunos excedentes era uma menina, quase tão hábil quanto Minck. Depois do meio dia, era ela que assistia as lições normalmente e Minck dava assistência ao outro grupo de discípulos na sala ao lado. De vez emquando o Mestre vinha ver como andava o desenvolvimento das atividades. Dava algum esclarecimento, reforçava o que Minck havia falado, tornando o aprendizado tão eficiente quanto o dos outros na sala inicial. Havia a diferença de uma semana entre as atividades, que haviam começado depois. Minck atiçava seus tutelados a se esforçarem, de modo a conseguirem eliminar a diferença. Assim, com o andar do tempo, cada vez chegavam mais próximos. Houve o dia em que estavam empatados. Seria agora o momento de manter o mesmo ritmo da outra turma. Não deveria, de modo algum, passar à frente, sob pena de causar problemas.

Por isso eram frequentes as visitas de Minck à casa de Zósteles, para debaterem o desenvolvimento das lições. Tudo seguiu de modo harmônico. O mestre de luta com as mãos, Iagushi também estava com seu tempo tomado, na maior parte do dia. Encontrara uma sala disponível nas proximidades e ali era possível desenvolver as sessões de treinamento. Uma grande parte dos discípulos de leitura e escrita, também participava dos treinamentos. O ânimo com o andamento das lições de luta, estava deixando a maioria em estado de graça. Além de saber ler e escrever, poderiam também se defender de ataques inimigos, usando apenas as próprias mãos. Saberiam defender a aldeia, seus familiares e tudo, transformar-se iam em uma cidade florescente. Deixariam de ser uma aldeia de pescadores, que começara a receber navios em sua baia. Agora o porto crescia e com ele a aldeia iria ser transformada. Teriam o nome inscrito nos anais da história da região.

Tais fatos levaram todos a viver em permanente estado de euforia. Nenhum trabalho, sacrifício ou esforço se tornava grande demais. Por isso o grupo de emissários demorou menos de duas semanas a retornar, trazendo em seus alforjes cópias de documentos onde estavam inscritos os textos das leis aplicadas em outras localidades. Teriam como elaborar suas próprias leis. Bastaria compilar em sua língua os textos que traziam e depois convocar o povo para os debates. Uma grande quantidade de sugestões havia sido entregue nas mãos dos membros do corpo de legisladores, visando contribuir para o crescimento da aldeia. Restava encontrar quem pudesse ler e traduzir todos os documentos. Logo lembraram de Zósteles. Teria ele disponibilidade de tempo para cuidar da tradução? Sabiam que passava os dias a ensinar a leitura e escrita aos discípulos infanto-juvenis. À noite, em tres ocasiões semanais ainda se reunia a um bom grupo de adultos para falar de filosofia. Era já idoso e teria necessidade de descanso, certamente.

Isso poderia significar que ele não tivesse como tratar da tradução. Precisariam ir até ele e perguntar. Os emissários chegaram na tarde do dia de descanso, após mais uma semana de trabalho. A sua chegada, despertou de todos os lados uma curiosidade mal disfarçada. Queriam saber quais seriam as leis que iriam aprovar ou rejeitar em futuro próximo. Um dos emissários encarregou-se de indagar de Zósteles da possibilidade de fazer a tradução. Ele pediu para ver os documentos, pois para dar uma opinião, precisaria ver do que se tratava. Do contrário poderia ser induzido a cometer um erro grave. Não era esse seu desejo. Tornara-se, por assim dizer, um cidadão da aldeia. Raramente lembrava da pátria distante. Agora, se as promessas de Arki se concretizassem, nunca mais voltaria. Iria terminar seus dias em um planeta distante, numa missão de repovoamento do astro, onde os humanos haviam alcançado a façanha de se autodestruirem.

Por isso, faria o possível para ajudar na tradução e compilação das leis vindas de cidades e países vizinhos. Alguma coisa, com certeza, seria possível aproveitar. Bastaria fazer as adaptações, acrescentar um artigo aqui, suprimir um ítem ali e teriam um sistema de leis bastante aceitavel. Sabia por experiência, que nenhuma legislação era perfeita e deveria ser alvo de constantes aperfeiçoamentos. Só assim era possível que elas evoluíssem de forma harmônica. Novos diplomas legais seriam requeridos de tempos em tempos, com o desenvolvimento da sociedade.

Levaram ao filósofo os documentos e ele  se pôs a trabalhar, até horas avançadas na tradução. Bem antes que fosse esperado, ele entregou tudo traduzido e compilado, na língua local. Os legisladores eram em sua maioria analfabetos e precisaram levar consigo os filhos, discípulos de Zósteles, para ajudar na interpretação das leis. Assim começaram a elaborar uma legislação que servisse para dar à aldeia uma estrutura jurídica e administrativa, condizente com as condições que eram esperadas se tornassem realidade em algum tempo.

 

Décio Adams

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