Fantástico mundo novo! – Volume II – Capítulo III – Começando a trabalhar

  • Começando a trabalhar

 

Os ocupantes das funções administrativas, inicialmente não faziam o trabalho em período integral. A indisponibilidade de recursos para lhes prover uma remuneração, obrigava-os a continuar em suas atividades normais para garantir o sustento seu e de suas famílias. O trabalho na função pública, por ora, seria feito de forma graciosa, em algumas horas do dia. Logo no dia seguinte ao aparecimento de Alek, Komboo chamou todos os membros do grupo para uma reunião conjunta de trabalho. Queria que todos se conhecessem, trocassem ideias e soubessem da situação real da cidade.

Apresentou Alek aos demais, servindo Zósteles de intérprete, para traduzir as palavras que o novato desconhecia no idioma local. Também estava presente o representante dos agricultores no legislativo. Este ficou deveras satisfeito em saber da existência agora de um especialista para servir de orientador dos trabalhadores da área rural. Para iniciar o trabalho Alek combinou com o Mullan fazerem uma visita aos proprietários para inteirar-se da situação. Conhecer as dificuldades enfrentadas e avaliar o que era possível fazer para melhorar a produtividade. Ao final da reunião, haviam sido feitas diversas sugestões de parte de todos, no tangente às demais áreas de atuação, uma vez que tudo afetava a todos.

Na mesma tarde Mullan providenciou um par de mulas para percorrerem as propriedades mais próximas. Em cada casa que chegavam, os proprietários logo se entusiasmavam com a perspectiva de terem à disposição um entendido, vindo de outras terras, para orientar seu trabalho. Conseguiram visitar naquele dia apenas três sítios, onde se cultivavam frutas e verduras. Havia disponibilidade de água, mas faltavam conhecimentos para levar o líquido precioso para os lugares em que ele faria o milagre da fecundação da terra. Imaginavam ser um problema difícil de resolver, quando era elementar. Em alguns lugares bastava fazer uma pequena represa e canalizar a água para os lugares certos. Em outros, poderiam fazer uma engenhoca para bombear o líquido, coisa que também não era nada complexo. Alek fizera uso desses recursos em inúmeras ocasiões nas margens do Nilo e seus afluentes.

Em sua peregrinação por diferentes lugares, tomara conhecimento de outros recursos e tratara de aprender o que lhe faltava. Nas margens do Nilo a fertilidade era providenciada pelas enchentes periódicas. Já ali seria necessário fazer uso de recursos diferentes. Mas a existência dos animais, das folhas das árvores, dos galhos, periodicamente podados, forneceriam material em abundância para melhorar a fecundidade da terra. Havia pedras em profusão, permitindo a construção de pequenas muretas, onde se formariam terraços, impedindo a erosão. Esse recurso era especialmente importante na melhoria da produção de frutas. As árvores, ao terem suas raízes expostas pela água das chuvas, perdiam grande parte de sua produtividade. A mureta de pedras, tendo um fundo de falhos e folhas, logo proveria um ponto de retenção da terra e melhoraria a produção.

Ao retornarem para a cidade, Alek questionou Mullan sobre a situação das demais propriedades e obteve deste a informação de que a situação era praticamente a mesma em toda parte. Havia mudanças nas propriedades mais distantes, onde se cultivavam cereais e talvez a situação da erosão fosse mais difícil de resolver. Alek quis saber se ali também haveria disponibilidade de pedras e a resposta foi que provavelmente não as haveria em quantidade suficiente. Mesmo assim explicou a Mullan o que era possível fazer. Bastaria usar os arados, tracionados por animais e realizar a feitura de terraços, acompanhando a curvatura dos declives, tornando assim a terra mais nivelada. Dessa forma seria evitada a perda da camada mais fértil de solo, transportada para os leitos dos córregos pela água das enxurradas.

Mullan, diante das explanações feitas pelo agrônomo, ficou satisfeito. Alek era um presente enviado pelos deuses. Talvez houvesse alguma dificuldade em despertar os agricultores de uma longa letargia. Décadas de vida nas mesmas terras, passadas de pai para filho, depois netos e bisnetos, tornavam todos um pouco apáticos. Viam a fertilidade das suas terras se degradar e a produção a cada ano diminuir. Dessa forma, encaravam a vida com ceticismo e pouca esperança. Tinha, porém, esperança de que bastaria mostrar aos primeiros como fazer e logo os demais iriam criar novo ânimo. Diante do fato, Alek sugeriu que poderiam, se houvesse resistência dos agricultores, convencer a um ou dois deles, usando as suas propriedades como experimentos demonstrativos. Depois de verem os resultados, certamente mudariam de ideia.

No dia seguinte continuaram a visitar mais algumas propriedades, deixando convocados todos para uma reunião no próximo dia de descanso. Um dos proprietários, ao saber da novidade, se prontificou e colocou sua terra a disposição para servir de local do encontro. Poderiam fazer ali as demonstrações que quisessem. Tanto ele quanto seus familiares e empregados estariam dispostos a ajudar no que fosse preciso. Em poucas palavras Alek esclareceu o que pretendia fazer inicialmente e logo foi compreendido. A propriedade de Johlko era uma das mais degradadas, quando ele a herdara alguns meses antes. Até ali fizera algumas tentativas de melhorar, mas pouco conseguira, por falta de orientação. Tinha certeza de que seria bem-sucedido com a ajuda de Alek.

Ao final do dia, haviam visitado mais de meia dezena de propriedades e enviaram emissários para os mais distantes, avisando da reunião que teria lugar no próximo dia do descanso semanal. Ao retornarem à aldeia já bem de tardinha, encontraram com Komboo e lhe narraram o que sucedera. Ao saber da reunião, este se prontificou a se fazer presente, apoiando o esforço da dupla. Queria mostrar aos agricultores que havia interesse no seu progresso e prosperidade. A melhoria da produção local, tornaria a cidade melhor servida no aspecto alimentar. Os agricultores, vendo sua vida melhorada, sentir-se iam estimulados a permanecer na terra, contribuindo para o bem-estar geral de toda população. Komboo sentia-se feliz e realizado. Embora ainda no começo de sua administração, estava vendo que cada iniciativa começava a render algum resultado. As notícias logo se espalhavam pela população, passando a ser visível nas faces de todos uma nova disposição para enfrentar a vida com mais ânimo.

As contribuições de tributos estavam se revelando promissoras. Diante de ações específicas, tanto na área urbana, no porto, na zona rural, um surto de esperança nascia em todos os corações. Até mesmo os mais céticos e pessimistas, eram levados a olhar a vida com olhos diferentes. Os trabalhadores, antes frequentemente vistos caminhando cabisbaixos, até mesmo um pouco encurvados, agora mantinham a cabeça erguida, o corpo ereto. Isto significava que estavam possuídos de novo vigor. Até o momento ninguém ainda auferira lucro algum com as novidades implantadas, porém, o espírito de trabalho e progresso estavam contagiando a todos.

Domitron e Mentrix, elaboraram um plano gradual de urbanização da área povoada. Não dispondo de recursos oficiais para executar as obras, propuseram aos moradores participar do trabalho. Mesmo estando já um pouco sobrecarregados com as atividades normais, as exceções foram poucas na adesão ao projeto. Até mesmo aqueles que inicialmente se recusaram, ao verem os trabalhos tomando forma, as obras sendo executadas, mudaram de ideia e se juntaram ao todo. Quem não podia participar pessoalmente, remunerava alguém que estava desocupado para trabalhar em seu lugar. Dessa forma, em pouco tempo, a aparência da cidade ficou bastante modificada. O projeto era bem ambicioso, porém elaborado de modo a poder ser executado em etapas, sem prejuízo do que já estava feito. Assim, a cada nova fase, a antiga aldeia, com aspecto decrépito e decadente, começou a apresentar um ar renovado. As casas e prédios iam sendo pintados. Pequenas reformas eram realizadas para deixar tudo mais bonito e em conformidade com o restante.

Com tudo isso, as contribuições de impostos passaram a fluir sem maiores problemas para os cofres, permitindo ao tesoureiro planejar a aplicação dos recursos. Os legisladores elaboraram uma tabela de tributos sobre o comércio e atividades lucrativas, mantendo a sobriedade. Isso fez com que todos fizessem questão de manter seus tributos em dia, gerando um fluxo de caixa bem equilibrado. Logo foi possível estabelecer remuneração digna para os servidores essenciais encarregados dos serviços públicos, como mestres escola, funcionários públicos em geral. Para uma cidade, até bem pouco tempo considerada simples aldeia, sem perspectiva de crescimento, a transformação estava sendo de vulto.

Os agricultores logo tomaram gosto pelas novidades trazidas por Alek. Adquiriram material necessário para as atividades de irrigação, execução dos terraços e adubação. Alek conseguiu encontrar um depósito de matéria calcária nas proximidades, passando ser feita a extração e distribuição pelas propriedades. Assim a adubação orgânica, feita com dejetos animais, folhas e palhas, logo mostraram seu valor. Já na primeira safra, apenas alguns meses depois de sua chegada, o resultado ficou evidente. Já não mais era necessário trazer muitas frutas, tampouco verduras e legumes de outras localidades. Outra vantagem era o frescor dos produtos. Não mais vinham murchos e muitas vezes meio apodrecidos como antes. Eram colhidos e poucas horas depois estavam na mesa dos consumidores.

Alek se pôs a par da produção de leite e queijos na região. Verificou que era possível melhorar esses produtos, além de introduzir o tipo de queijos que eram produzidos no Egito. Não era possível trazer animais de melhor aptidão leiteira, mas esse era o detalhe de menor importância. Bastava melhorar as pastagens, suplementar a alimentação com forragens na época em que a pastagem era afetada pelo clima, tornando-se menos rica em nutrientes. Havia como armazenar restos de cultura de trigo e arroz, para serem usados na alimentação animal na falta da pastagem. Com isso a alimentação da cidade gradativamente foi sendo melhorada, apenas com a elevação da produção agrícola da região.

Em consequência disso, o comércio foi beneficiado, pois os agricultores, antes sempre ganhando apenas para a sobrevivência, agora começavam a ter recursos financeiros excedentes. Os mesmos eram, em grande parte, gastos na melhoria do vestuário bem como outros itens de conforto para as famílias. Em algum tempo a produção apresentava excedentes que passaram a ser vendidos para localidades próximas, onde o terreno não era favorável para determinados cultivos. Estabeleceu-se um sistema de transporte de produtos para as cidades, mesmo a distâncias consideráveis, onde conseguiam obter preços de bom nível.

O porto passou a receber barcos de porte cada vez maior, tornando-se necessário fazer uma dragagem do estreito de entrada, além de alargar um pouco a passagem. Assim o comércio local tornou-se cada vez mais intenso. Mercadorias vinham de longe e outras descarregadas dos navios, vindas de lugares distantes, eram por sua vez levadas para longe. Grupos de comerciantes se instalaram em edifícios construídos com recursos próprios, utilizando as instalações do porto para carga e descarga. Dessa forma, passou a girar na cidade um volume crescente de produtos, deixando em sua passagem um ganho significativo. Tudo isso revertia aos cofres públicos, bem como às casas comerciais da cidade. Em ritmo acelerado foram construídos albergues e hospedagens para abrigar inúmeros comerciantes que vinham negociar na cidade.

As escolas ficaram repletas de alunos. Ali era ensinado, além da língua local, o hindu, mandarim, grego e persa. Matemática, tanto para aplicação na engenharia como no comércio também fazia parte do conteúdo ministrado aos alunos. Zósteles enviou emissários em busca de mestres de diferentes especialidades, transformando assim, em pouco tempo, a pequena Kibong em um centro florescente de cultura, ciência e arte.

A cada dia novas levas de migrantes vinham se estabelecer na cidade, obrigando ao planejamento urbano de novas áreas para edificação de habitações. Para preservar a área de terra agricultável, foi preciso aprovar lei específica na casa legislativa. Os terrenos para construção de habitações deveriam localizar-se em pontos onde não seria viável o desenvolvimento da agricultura. Mesmo assim, aos poucos surgiram, ao longo da estrada, estabelecimentos de hospedagem, abrigo de caravanas e para os animais. Era o tributo a ser pago pelo progresso. A maior parte das ruas estavam agora pavimentadas de paralelepípedos, primorosamente cortados e assentados, formando um calçamento exemplar. Quem tivesse conhecido a aldeia de pouco tempo atrás e a visse agora, não a reconheceria.

Um edifício projetado e executado em tempo recorde, abrigava a administração pública. Uma central de correios foi implantada, ligando a cidade às outras mais próximas. A pequena oficina metalúrgica foi transferida para um novo local, com instalações muito maiores, um numeroso corpo de trabalhadores, ali produzia as mais diferentes ferramentas e utensílios. Vários navios descarregavam periodicamente enormes carregamentos de minérios, que ali eram transformados em lingotes, barras e chapas. Estas depois eram transformadas em outros produtos e também vendidas para outros centros de consumo.

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Quando toda essa transformação ainda estava no começo, temos Minck, agora na tarefa de mestre escola, cada vez mais envolvido no crescimento de sua aldeia, agora transformada em cidade. Sumok, na presidência do legislativo, continuava trabalhando no porto, junto com o pai e seus irmãos. O empenho na atividade pública, era cada vez mais exigente, chegando ao ponto em que ficou em dificuldades para manter as duas atividades. Estava à beira de um colapso físico, quando decidiu expor ao pai a situação. Sock ficou preocupado. O filho era um fiel cumpridor de suas obrigações e não desejava deixar nada sem a devida atenção. Além disso, tinha assumido o compromisso de casar-se com a jovem que elegera para ser sua companheira.

Sock foi aconselhar-se com Zósteles. Eram amigos desde os primeiros dias do filósofo na comunidade e lhe pareceu ser quem melhor poderia servir para ajudar nesse apuro. Ao ouvir as queixas do pai, o velho professor pensou um pouco e falou:

– Amigo, Sock! Seu filho é também um servidor público da cidade. Ele não tem como arcar com duas jornadas de trabalho, sem que uma delas fique prejudicada. Além disso, ele está sendo um exemplar presidente do legislativo público e, de modo algum, deve deixar esse posto. Creio que ele faz jus a uma remuneração por parte do erário público. Precisamos propor isso, mas por meio de um dos legisladores.

– Mas será que ele irá aceitar?

– Cabe a nós convencê-lo. Se ele presta serviços à comunidade, deve ser remunerado por isso. Veja o meu caso. Sou o superintendente de ensino e sou remunerado por isso. Não tenho tempo de fazer outra coisa para ganhar a vida. O caso dele é o mesmo.

– Vai ser difícil fazer com que aceite. Não sei, amigo.

– Deixe que eu falo com ele. Sou estranho à família, apesar de amigo.

– Vou deixar isso nas suas mãos, mestre.

– Começarei por falar com Komboo e também com os demais superintendentes. O tesoureiro poderá dizer se há dinheiro para tanto ou não.

– Dinheiro deve haver, pois sempre ouço falar que a arrecadação está aumentando. As contas estão sempre em dia, sem dívidas por pagar.

– Então não temos o que temer. Vamos em frente, pois não é justo que alguém se sacrifique, sem receber uma compensação por isso.

Ficou combinado que Zósteles sondaria a possibilidade e depois daria o encaminhamento ao caso. Assim, na próxima reunião do legislativo, havia na pauta das discussões uma proposta do executivo, criando um estipêndio mensal para o presidente do legislativo, uma vez que o mesmo estava sobrecarregado de trabalho e não recebia remuneração condizente.

Sumok ficou surpreso, querendo retirar da pauta a proposição, porém, os demais legisladores estavam todos acordados para o caso. Não aceitaram a retirada da proposta e ela foi aprovada por unanimidade. O que mais causou estranheza foi o fato de os integrantes da oposição também votaram a favor da proposta. Com a aprovação, o projeto foi para a sanção do gestor Komboo e Sumok foi aliviado de sua carga excessiva de trabalho. Ainda fazia meio período no porto, mas em uma função menos difícil. Em pouco tempo ele tinha sua pequena casa pronta e a data do casamento foi marcada. Nesse meio tempo as irmãs também foram pedidas em casamento, sendo as bodas marcadas para o começo do ano vindouro. Sock e Muhn sentiram pela primeira vez o que os esperava no futuro. A casa, até agora sempre cheia e animada, ameaçava ficar vazia de um momento para outro.

– Minha querida Muhn, vamos ficar com o ninho vazio!

– Logo ele se enche novamente com os netos.

– Mas os netos vêm e vão embora. Vamos sobrar apenas nós dois.

– Estamos ficando velhos. Acho que o Mink vai ficar aqui em casa depois de se casar.

– Logo o Mink, que até ontem era ainda um pirralho! Está crescendo, começa a criar barba e bigode.

– Ele é um mestre escola de respeito. Os alunos gostam muito dele. Até mesmo os mais velhos.

– Quem diria! Os irmãos o tratavam como um pequeno imprestável. Acho que acabou se tornando maior que os demais.

– Não em tamanho, mas em esperteza e sabedoria, ele ganha longe de todos os outros.

Era a véspera do dia de descanso. Mink estava ansioso pela hora de subir ao penhasco. Arki era agora um velho amigo. Parecia que se conheciam há longos anos. Haviam passado tantas horas conversando, Arki passando paulatinamente uma imensa gama de ensinamentos ao seu jovem amigo. Descrevera grande parte da hierarquia celestial, desde a Ilha do Paraíso, os Mundos Eternos de Havona, onde habitava uma multidão de seres celestiais, todos a serviço do Pai Universal, também conhecido como Primeiro Centro e Força; do Filho Eterno, ou Segundo Centro e Força, assim como do Espírito do Paraíso ou Terceiro Centro e Força. Eles formam a Trindade Eterna. Deles emana toda energia que sustenta o Universo imenso. O Pai é o Primeiro e Único. Abaixo da Trindade existem inúmeros seres espirituais, cada categoria com uma função determinada, visando manter o universo em funcionamento.

Há os seres criados em perfeição e há os evolucionários. Estes últimos englobam todos os seres volitivos, entre eles os humanos. O universo é composto de sete Super Universos, cada um formado por um grande número de universos locais com seus sistemas de mundos habitados. Os mundos habitados foram sendo criados e estabelecidos ao longo de trilhões de anos, originando-se todos da materialização da energia emanada do Pai Universal, controlada por seres especialmente criados para tal fim. Quando um planeta, num sistema planetário alcança as condições de receber a implantação da vida, ele passa por uma inspeção de seres especializados e depois de tudo verificado, chegam os Portadores de Vida. Tudo é previamente planejado e depois começa a execução, que demora milhões de anos até surgir uma espécie animal, que finalmente passa por uma mutação, transformando-se em humanoides.

Os humanoides começam a evoluir, passando por avanços e retrocessos, surgem várias raças, de cores diferentes. Elas lutam entre si, se misturam e a certa altura, surge no planeta um Príncipe Planetário, com sua corte de anjos. Depois de longo período vem um casal de Filhos Materiais, destinados a trazer um melhoramento biológico e social às raças evolucionárias. É o casal Adão e Eva. Por milhares de anos eles convivem e se procriam no Jardim do Éden, antes de se misturarem aos seres humanos evolucionários. Se tudo acontecer conforme o planejado, Adão e Eva permanecem imortais, até o dia em que o planeta se alcança o estágio denominado de Luz e Vida. Os seres humanos mortais, são transportados após a morte, para os mundos moronciais, onde iniciam sua longa jornada de evolução espiritual até alcançarem no final o Paraíso. A cada etapa tornam-se menos mortais e mais espirituais. Foi nesse ponto que Arki interrompeu a última conversa, ficando para esse novo encontro a continuação.

Esse é o motivo da ansiedade de Mink. Ficou no ar um mistério. Parece que neste planeta e outros do sistema denominado Satânia, aconteceu algo diferente do planejado. Mink passou quatro longas semanas esperando por esse momento. Será que Arki vai revelar o que houve? Ou talvez nem ele mesmo saiba o que aconteceu, pois nem tudo é conhecido pelos anjos, ou por algumas categorias deles.

Após o jantar, Mink pegou o papiro com mais uma parte da história dos deuses do Olimpo grego, pondo-se a ler. Agora já estava bem fluente e não demorava mais para decifrar a escrita estrangeira. Muhn ficava sempre esperando pelo resumo da história que o filho lhe traduzia depois de ler durante um longo tempo. Nessa noite, porém, enquanto ela estava terminando de pôr em ordem a cozinha, o filho lhe escapou silenciosamente. O pergaminho continuava aberto sobre a mesa, mas do leitor nem sinal. Ficou esperando por ele durante algum tempo, mas vendo que não voltava, entreteve-se com um trabalho manual de confecção de uma esteira de palha. Aprendera recentemente essa arte e a estava aperfeiçoando.

Enquanto isso, Mink subira sorrateiramente ao alto do penhasco, onde localizou a estrela e logo o raio de luz azul riscou o espaço. Em segundos Arki estava ao seu lado, dizendo:

– Pelo jeito alguém está ansioso, esperando por mim!

– Um pouco. Você interrompeu a história no melhor pedaço e me deixou com uma vontade danada de saber o resto.

– Sabia que a curiosidade matou o gato?

– Sabia, mas eu não sou nenhum gato!

– Mas é tão curioso quanto um deles. Kkkkkkk.

– Está bom, amigo. Eu espero pela sua boa vontade.

– A paciência é uma grande virtude. Você precisa desenvolver muito sua paciência.

– Eu sei. Você conseguiu me pôr à prova nessas quatro semanas.

– Será que está preparado agora para saber o resto da história?

– Eu acho que sim. Faça um teste comigo para ver.

– Já fiz o teste. Vamos começar. Se você ficar muito impressionado, paramos e voltamos no outro dia.

– Legal. Estou esperando pela história.

– Você lembra que, em geral, se tudo acontece conforme o planejado, a evolução do mundo habitado é diferente do que está acontecendo aqui em Urantia.

– Ainda não me acostumei a usar esse nome quando falo da Terra. Acho que nem daria certo. As outras pessoas iriam achar estranho esse nome.

– Mas é esse o nome que o seu planeta tem no sistema do Universo Local de Satânia. Aqui é um planeta chamado decimal, ou seja, o escolhido entre dez para uma experiência de modificação de vida. Quando foi a hora de surgirem as várias raças evolucionárias de humanos, elas surgiram todas ao mesmo tempo, em lugar de surgirem com longos intervalos. Elas se misturaram, guerrearam entre elas e duas foram completamente extintas. Foi nesse tempo, há pouco mais de meio milhão de anos, que apareceu aqui o Príncipe Planetário de nome Caligástia. Ele tinha um assistente Daligastia e trouxe um grupo de Cem seres humanos, destinados a elevar biológica e socialmente os humanos do planeta. Eles se instalaram, não muito longe daqui, na Dalamátia. Tudo ia muito bem, até o dia em que Daligastia resolveu se aliar ao Filho do Universo, Lúcifer em sua rebelião contra a autoridade de Micael de Nébadon, o nosso Super Universo.

– Se eu entendi direito, um anjo se rebelou contra poder do filho de Deus?

– Isso mesmo. O anjo Melquisedec, de nome Lúcifer, com seu adjunto Satã, levaram um grande número de Príncipes Planetários e muitos anjos de várias categorias, além de seres intermediários à rebelião. Queriam ser completamente livres. O Pai Universal dá a todos nós o livre arbítrio, mas são raros os casos de rebelião. Depois dessa rebelião todos os circuitos que ligavam Satânia e os planetas rebeledes ao Super Universo foram cortados. Ficaram isolados. Houve quem permaneceu fiel e enfrentou os rebeldes. Isso aconteceu em todas as categorias de seres. Durante muito tempo Lúcifer ainda ficou livre até ser aprisionado, em um mundo próximo à capital do sistema, onde aguarda julgamento, junto com outros rebeldes.

– Mas todos os rebeldes estão aprisionados?

– Ainda não. Caligástia e Daligástia estão soltos no planeta, porém não tem mais poder algum. Mesmo assim eles tentam os humanos para fazer com que se encaminhem pela senda do erro.

– Como podemos saber se eles estão nos tentando?

– Sempre que sentir vontade de fazer o mal, pode ter certeza de que são eles e seus ajudantes que estão lhe tentando.

– Por que razão eles ainda estão soltos?

– O Filho Criador, Micael deixou ao cargo do anjo Gabriel enfrentar Lúcifer. Quanto à Caligástia e Daligástia, bem como seus ajudantes, serão aprisionados quando Micael vier se auto-outorgar aqui em Urantia e ressuscitar dos mortos. Depois disso irá ocorrer o início do julgamento.

– Há quanto tempo ocorreu essa rebelião?

– Mais ou menos duzentos mil anos. O Pai Universal, por causa do livre arbítrio, concede a cada um o tempo necessário para se arrepender de seus erros. Só depois de todas as tentativas serem frustradas, irá ocorrer o julgamento e, sendo condenado, irá ocorrer a extinção desses seres.

– Extinção, quer dizer “deixar de existir”?

– Exatamente. Na verdade, há muita gente que fala em “inferno” e coisas assim. O que costuma ser chamado de inferno, é o “deixar de existir”. Vai ser como se nunca tivesse havido esse ser. Por isso é que o Pai Universal demora tanto em determinar o julgamento e a execução da sentença depois.

– Ele tem uma paciência inimaginável. Duzentos mil anos? Nós tempos dificuldade de imaginar tanto tempo.

– O planeta de vocês, Urantia, existe há bilhões de anos e passou por uma quantidade imensa de transformações. No começo ele era uma bola de fogo. Aos poucos foi esfriando, ganhou massa capturando cometas, asteroides, passando a ter a massa que tem hoje. Cobriu-se de água, ocorreram muitos terremotos, vulcões. Surgiram e desapareceram continentes, mares se formaram e modificaram. Ocorreram idades do gelo várias vezes, até surgirem as condições para existir a vida.

– Eu me sinto como um grão de areia da praia, diante de tanta coisa. E pensar que o Pai Universal sabe meu nome, minha idade e tudo o que fiz até hoje. É quase impossível acreditar.

– Você disse bem: “quase” impossível. Note bem: “quase”. Mas não é impossível. Ele sabe tudo a respeito de cada um dos seres humanos que existiram, existem e ainda irão existir no Universo.

– Se não estou enganado, existem mundos em diferentes estágios de evolução. Aliás, o planeta que nós iremos repovoar, estava em um estágio diferente. O outro que nós vimos na viagem, estava bem mais avançado, outros mais atrasados. Vai haver ainda outros mundos novos sendo criados?

– Pelo que sei sim, mas não posso afirmar com certeza.

– Entendo. Nem os anjos sabem tudo.

– O único que sabe tudo é o Pai Universal. Quanto mais nos aproximamos, mais coisas sabemos, mas nunca saberemos tudo. Sempre vai haver alguma coisa que só ele sabe.

– Os futuros homens aqui na Terra, aliás Urantia, terão oportunidade de conviver com o Filho Criador do nosso Super Universo. Os nossos descendentes, lá o planeta que iremos repovoar, não terão essa chance. Haverá por lá algum outro ser que irá se auto-outorgar?

– Já houve uma auto-outorga e poderá haver outras no futuro. Mas não sei dizer quem, nem quando.

– De qualquer maneira nós não estaremos vivos quando isso ocorrer. Precisamos ir lá e fazer nossa parte, cumprir nossa missão.

–  E essa missão é muito importante, Mink. Vocês têm um futuro glorioso pela frente.

– Eu estou preocupado com o momento de escolher as pessoas que irão fazer parte da missão. Como ter certeza de fazer a melhor escolha?

– Não se preocupe com isso. Vai receber ajuda do alto para realizar essa tarefa. Nem poderia ser diferente. Pense no seguinte. O Filho do Universo, os Príncipes Planetários rebeldes, foram escolhidos entre muitos outros e mesmo assim se tornaram rebeldes. Não é possível saber antecipadamente o que alguém irá fazer com seu livre arbítrio.

– É o que eu ia perguntar. Como pode o Pai Universal, com toda sua sabedoria e poder, enganar-se na escolha de alguém para uma missão tão importante?

– Ele também está evoluindo. Ele adquire experiência com os erros que seus escolhidos cometem. Até nós chegamos a nos perguntar como isso pode acontecer.

– Até vocês anjos têm dúvidas?

– Claro que temos. Nós somos seres evolutivos, evoluímos, e volitivos, somos dotados de vontade.

– E nós fomos levados a acreditar que os anjos são perfeitos. Agora você vem me dizer que os anjos são sujeitos a cometer erros, que há anjos rebeldes.

– Não são muitos, mas há anjos que se rebelam. Eles querem ser iguais ao Pai Universal.

– Tremo só de pensar em uma coisa dessas. Quero estar livre dessa tentação.

– Basta sempre guiar os seus passos pelo caminho do bem. Nunca se deixar dominar pelo orgulho, vaidade, arrogância, rebeldia.

– Vou me cuidar para nunca cair nessas tentações.

– Ninguém cai de uma vez. A queda acontece gradualmente. O erro se instala aos poucos e quando o ser percebe é tarde. O mal está feito.

– Se eu entendi direito, quer dizer que não se deve aceitar pequenas tentações, ser condescendente com pequenos erros, é isso?

– Certíssimo, Mink. Uma somatória de pequenos erros, induz ao erro maior e mais grave. Lúcifer, nunca havia sido infiel, mas há tempo demonstrava espírito independente, que anseia por liberdade. Um belo dia começou a questionar a autoridade de Micael e do Pai Universal. Mesmo tendo tido a oportunidade de voltar atrás, ele recusou e se manteve no erro, sem aceitar a misericórdia.

– E para piorar levou mais uma porção de outros com ele. Algum se arrependeu e aceitou a misericórdia?

– Sim. Houve muitos que aceitaram a misericórdia e foram perdoados.

– Mesmo se depois Lúcifer tivesse pedido perdão, ele teria sido perdoado?

– Certamente. Deus é misericórdia infinita. Essa é a sua característica mais forte, mais profunda. Mesmo assim, há quem consiga ser condenado e extinto pela justiça divina.

– Eu desconfio que é mais difícil alcançar a condenação do que a salvação. Apesar disso há quem consiga. Em outras palavras, a vaidade, a arrogância e o orgulho são os erros mais graves, mais terríveis.

– Você está começando a aprender cedo. E ainda tem muito tempo pela frente. Depois vai ter o resto da vida para trilhar o caminho do bem, até o dia em que irá iniciar o caminho da evolução pelos mundos moronciais.

– Eu não entendi direito o que quer dizer essa palavra. Poderia me explicar?

–  É o nome que se dá aos vários estágios pelos quais o ser evolucionário passa para se transformar de mortal em espírito. Enquanto é mortal, você é habitado pela fagulha ou centelha do Pai Universal. Aos poucos, na medida em que sua mente se transforma em espírito nas sucessivas etapas moronciais, ela se funde com sua alma, até se tornarem uma coisa só. Um ser moroncial é um ser que não é mais mortal, mas também não é espírito puro. Podemos dizer que é uma espécie de meio termo.

– Estou começando a entender. A gente deixa o corpo mortal na terra e ganha um corpo moroncial, com a mesma forma do mortal, mas ele não pode mais morrer. Devagar a gente vira um espírito, algo parecido com um anjo, com a diferença de que os anjos são criados anjos e nós somos criados homens mortais.

– Você matou a xarada, Mink. Não poderia descrever de maneira mais exata e sucinta.

– Ufa! Hoje valeu a lição. Acho que tenho material para meditar por um bom tempo.

– E medite mesmo. Quanto mais você meditar, mais irá compreender tudo isso e se aprofundar no assunto. Quanto mais se aprofundar, maior será sua fé, mais forte será sua vontade de alcançar o Paraíso, para ficar próximo do Pai Universal.

– Vou fazer isso, amigo. Não vejo a hora de começar o caminho para o Paraíso.

– Para que ter pressa? Você tem toda eternidade pela frente para isso. Se ficar firme, sabe que chegará lá e isso é que importa.

– De vez em quando fico impaciente. Sou imediatista, quero agora, já.

– Esse foi o começo do erro de Lúcifer e seus seguidores. Não tiveram paciência para esperar o dia de chegar bem perto do Pai Universal.

– Que Deus Todo Poderoso me livre disso. Não quero nem pensar.

– Não acho que Lúcifer tivesse premeditado o que fez. Mas sua impaciência e vaidade o levaram ao erro fatal.

– Se ele ainda aguarda o julgamento, quer dizer que ainda há tempo para se arrepender. Isso pode vir a acontecer?

– Poder pode, mas é muito difícil. Ele é muito orgulhoso. Por isso creio ser difícil ele aceitar a misericórdia do Pai e pedir perdão.

– Se ele pedisse perdão, como ele ficaria?

– Acho que teria uma vida evolucionária como qualquer ser, menos a parte mortal.

– Então pode ser que eu venha a encontrar com ele na vida evolucionária?

– Possível é, porém, pouco provável.

– Acho que já chega de perguntas por hoje. Estou cansado e preciso dormir.

– Isso mesmo. Vá dormir, descanse e amanhã se divirta, converse com sua mãe, seu pai e irmãos. Seja alegre e espalhe alegria ao seu redor.

– Vou fazer isso. Acho que fica mais fácil do que ficar só pensando e ficando quieto num canto.

– Isso mesmo. Agora, adeus amigo. Até a outra vez, daqui a quatro semanas.

Um risco azul no céu e a estrela piscou. Mink desceu e foi para casa dormir. Todos estavam na cama há tempo e ele entrou silenciosamente. Deitou e meditou por algum tempo, dormindo até o amanhecer.

Décio Adams

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