Fantástico mundo novo! Volume II – Capítulo X – Nuvens negras no horizonte.

10. Nuvens negras no horizonte.

A semana seguinte começou com nuvens negras surgindo no horizonte. A reunião em um mesmo aglomerado urbano, de grandes contingentes migratórios, oriundos de diferentes regiões, trouxe também o culto a deuses diversos. Os grupos de mesma crença, começaram a criar seus locais de culto, tinham seus prepostos ou dirigentes. O aparecimento de um novo grupo, dizendo-se portador de uma nova corrente de pensamento despertou em alguns, mais propensos a atitudes fanáticas, posições de repúdio e mesmo oposição aberta. Mink, líder do grupo, sentiu ser seu dever defendê-lo contra os ataques.

Antes de qualquer atitude, reuniu-se com os seus liderados para discutir com eles a situação. Não tinham intenção de fazer proselitismo, porém não poderiam aceitar simplesmente os ataques de alguns fanáticos. Houve quem se exaltasse, sugerindo que chamassem os outros cem membros, formando um bloco para se defender em conjunto. Depois de ouvir as opiniões de todos, Mink lembrou-lhes que deveriam primar pelas atitudes pacíficas. Não significando, no entanto, passividade. Deveriam começar por não aceitar provocações. Antes de dizer qualquer coisa em resposta, era importante invocar a ajuda celestial. Confiar e ter fé. Esse era o lema a ser seguido. Para complicar, havia a questão de Mink ser irmão do administrador Sumock, cujo mandato estava ainda em curso. Todo cuidado era pouco, para não criar problemas em sua família.

Saíram da reunião com o firme propósito de evitar qualquer forma de atrito mais sério com os demais grupos religiosos. As leis da cidade estabeleciam que, devido à diversidade de crenças existentes entre os moradores, não haveria um deus oficial. O governo se preocuparia em administrar as questões materiais, deixando aos vários grupos a decisão sobre a vida religiosa. Mesmo assim houve algumas escaramuças, tentativas de agressão a membros do grupo. Por sorte, havia com eles especialistas formados por Iagushi. Em movimentos sutis e certeiros imobilizaram os agressores. Sem usar violência lhes sugeriram que partissem em paz. Ninguém ali queria encrenca.

Por algum tempo tudo voltou ao normal. Quanto tudo parecia ter caído no esquecimento, houve um recrudescimento dos ataques. Em uma noite depredaram a fachada do clube dos três círculos. Em outra ocasião invadiram o ambiente durante uma reunião. Estavam reunidos três grupos dos novos, discutindo sobre a vida após a morte, no Mundo das Mansões. Os invasores gritaram palavras ofensivas, avançaram sobre os presentes com porretes. Em poucos golpes foram desarmados e convidados a se retirarem. Diante desse estado de coisas, Mink levou os fatos ao conhecimento do comando das forças de segurança. Os agressores foram entregues aos cuidados dos guardas. Passaram alguns dias detidos e voltaram para casa.

Se por um lado essas agressões causavam preocupação, também houve o lado positivo. Não havia como manter tudo em sigilo e apareceram pessoas da comunidade, interessadas em conhecer a nova corrente de pensamento seguida pelos integrantes do clube. O líder ficou diante de um dilema. Havia recebido determinações no sentido de selecionar o grupo e o preparasse para a missão. Agora vinham buscar o grupo espontaneamente e não sabia se deveria aceitar ou rejeitar sua adesão. Os amigos do grupo lhe devolveram o problema, deixando a seu cargo a decisão, afinal era o líder. Nisso ele lembrou que na noite seguinte se encontraria com Arki. Seria assunto para levar ao seu conhecimento e ouvir dele a orientação.

Essas adesões espontâneas ao fariam crescer o número dos adeptos, mas também aumentariam as possibilidades de desvios ao longo do caminho. Sinceramente, estava sem saber o que pensar. Na hora de dormir, Edith percebeu que o marido estava tenso e preocupado. Carinhosamente recostou-o em seu regaço e lhe afagou a face, sem dizer palavra. Custava a relaxar e ela, por fim, perguntou:

– O que preocupa o meu amado marido? Novas agressões dos membros de outros grupos religiosos?

Ele pensou e depois de um longo suspiro disse:

– Ao contrário. Agora temos pessoas alheias ao grupo pedindo para assistir nossas reuniões e tomar conhecimento de nossa doutrina, nossa linha de pensamento. Não sei o que fazer.

– Penso que você sabe o que fazer. Mesmo assim vou falar e reforçar o que certamente está corroendo seu íntimo, cheio de dúvidas.

– Fala meu amor. Não tenho segredos para com você. Somos uma coisa só.

– Isso é verdade. Agora mais do que nunca, pois estou grávida. Vamos ter nosso primeiro filho dentro de alguns meses. Você deve falar com Arki. Não é amanhã que vai se encontrar com ele novamente?

– Sim. Eu estava justamente ponderando sobre o acerto ou não dessa alternativa. Você acha que é isso que devo fazer mesmo?

– Eu não pensaria duas vezes. Você ouviu o que eu falei também?

Pensou um pouco e foi então que as palavras da esposa penetraram em seu cérebro. Ia ser pai. Deu um salto e a tomou nos braços carinhosamente. Nós vamos ter um filho, talvez uma filha. Isso não tem importância. Receberá nosso amor de qualquer forma. Beijou ternamente a mulher e depois acariciou delicadamente seu ventre, onde sabia que um ser humano em miniatura estava se formando. Era seu filho, levaria seu sangue, sua força e depois receberia a fé no Deus da Ilha do Paraíso. Encheu-se de cuidados com a mulher e ela falou:

– Meu querido. Eu não estou doente. Estou grávida e isso não me impede de nada por enquanto. Só perto do nascimento terei necessidade de tomar mais cuidados. Apenas isso.

– Nem quero pensar na possibilidade de acontecer alguma coisa com você.

– Nada vai acontecer, além da vontade do Pai Universal. Se essa criança estiver destinada a partilhar com os outros a aventura no planeta Orient, ela vai nascer forte e saudável.

– Uma grande benção o Pai está derramando sobre nós. Antes de mais nada, devemos agradecer e colocar essa vida nas mãos dele.

– Eu já fiz isso desde que percebi a mudança em meu corpo. Não falei antes por não ter certeza. Agora, começaram os enjoos, náuseas, os seios doloridos e o ventre levemente inchado. Mãe Leihla me disse que isso é sinal certo de gravidez. Já estou com meu sangue mensal atrasado mais de um mês.

– Então deverá nascer em aproximadamente oito ciclos da lua, se não estou enganado.

– Sim. Já se passou mais de um ciclo e o total é de nove para dez ciclos lunares.

– Mamãe Muhn vai ficar contente em saber que mais um neto está a caminho. Vou contar para ela amanhã.

A novidade da paternidade fez Mink esquecer por algum tempo suas preocupações. Era hora de dormir, pois o dia seguinte teria uma carga de trabalho intensa. Seria importante levantar cedo. Agora mais ainda, já que a esposa poderia estar indisposta e ser melhor ficar de cama. Mas sua previsão não se confirmou. Ela levantou antes dele e lhe preparou o desjejum. Quando o chamou estava quase tudo pronto. Teve o impulso de lhe repreender por não havê-lo chamado antes, mas desistiu. Ela estava fresca e jovial como sempre. Parecia até mais viva. Sempre ouvira a mãe falar que a gravidez mexe com o humor da mulher, fazendo com que pareça desabrochar como uma flor. Tivera dificuldades em perceber e agora a prova estava ali diante de seus olhos. Edith que sempre fora bela como uma flor, parecia uma rosa desabrochando, coberta do orvalho da manhã.

Lavou-se e vestiu a roupa que usaria em seu trabalho nas lições daquele dia. Ao meio dia estaria de regresso para almoçar. Na hora de se despedir caprichou mais no beijo e olhou a esposa da abeça aos pés, como a querer guardar cada detalhe do momento em seu cérebro. Saiu cantarolando e assobiando, intercaladamente. Encontrou discípulos pelo caminho e estes indagaram qual era a razão de tamanha boa disposição, logo pela manhã. Não que fosse de hábito taciturno, mas não era exatamente comum caminhar assobiando e cantarolando. Não se conteve e falou:

– Tenho um motivo todo especial para estar alegre, além do fato de estar vivo, com a graça de Deus. Vou ser pai. Minha esposa Edith está grávida. Vamos ter um bebê em alguns meses.

Recebeu as congratulações dos que o acompanhavam. Logo quiseram saber se já havia pensado em um nome para o caso de nascer menino ou menina. Ao que ele respondeu:

– Nem tive tempo ainda. Fiquei sabendo ontem à noite. Mas haverá tempo suficiente para isso.

Várias sugestões foram dadas e ele as analisou mentalmente. Decidiu-se por fazer uma pequena lista dos principais e depois submetê-los ao crivo de Edith. Caberia a ela lhe dar apoio nessa decisão. Depois das lições da manhã, no caminho de casa, passou pela casa dos pais. Entrou em casa, surpreendendo Muhn com seu cantar alegre. Ao vê-lo ela ficou espantada e disse:

– O que o traz aqui, meu filho, alegre e cantando?

– Vim lhe trazer uma notícia maravilhosa, vovó Muhn!

– Vovó! É certo que sou avó, mas por que só agora você me chamou de vovó?

– Minha querida mãe! Você vai ser vovó novamente, mas dessa vez é meu filho. Ouviu? Edith me comunicou ontem a noite que está grávida. Deve nascer em mais ou menos oito ciclos da lua.

– Que notícia maravilhosa. Espere um pouco e dê a notícia ao seu pai.

– Não vou poder esperar muito. Preciso almoçar e depois tenho mais três lições de leitura.

Nisso o pai Sock entrou, saudando o filho. Este aproveitou para lhe informar:

– Parabéns vovô Sock. Vai ser avô outra vez.

O interpelado olhou surpreso e depois disse:

– Uma novidade ótima, meu filho. Que nasça com saúde e sem problemas.

– Ele vai nascer assim, meu pai, se for a vontade de Deus.

– Precisa alguns cuidados com a Edith nesse período. Se ela precisar de uma auxiliar nos serviços da casa, podemos lhes dar uma ajuda.

– Nem se preocupe com isso, papai. Estou ganhando um bom rendimento e posso pagar por uma criada, se for preciso.

– Mas não hesite em pedir ajuda, se precisar, – falou Muhn.

Ele se despediu e correu até em casa. Edith estava esperando com o almoço pronto. Quando ia caminhar até a porta da frente para ver se ele chegava, viu-o entrando em casa. Abraçaram-se e depois caminharam até a mesa para almoçar. Ela se esmerara no preparo da refeição. Sempre servia alimentos saborosos. Hoje, porém, parecia que o tempero estava melhor ainda. Talvez fosse seu estado de espírito. Ocorreu-lhe que a comida havia sido feita com amor. O amor transforma as coisas e deixa todos em estado de graça.

Terminado o almoço não houve tempo para demora. Precisava sair logo para não se atrasar. Os discípulos estariam a sua espera e não gostava de lhes frustrar a expectativa. Agradeceu à esposa os alimentos de especial sabor e saiu. Ela ficou esperando pela sua volta, ao entardecer. Mais cedo do que o habitual, preparou a ceia. Sabia que Mink subiria ao alto do penhasco, ao encontro de Arki. Ela mesma o acompanhara em várias ocasiões. Nessa noite não abusaria da sorte. Poderia subir com cuidado, mas isso deixaria o marido mais preocupado do que já estava. Estaria melhor permanecendo em casa.

Mink chegou alegre e descontraído. Meditara sobre o caso das pessoas que pediram sua adesão ao grupo e concluíra que o melhor mesmo era falar com Mink. Ele certamente já sabia de tudo, mas, como sempre, esperaria suas palavras, antes de falar. Foi recebido no jardim pela esposa e entraram abraçados em casa. Mink combinara reunir as famílias de ambos no dia de descanso para comemorar a notícia do herdeiro que estava sendo esperado. Avisara os pais e também os irmãos. O fato de haver pouco espaço na casa em que moravam, ficou decidido que se reuniriam na casa de Abud, pai de Edith. A refeição transcorreu sem novidades. Na hora de sair para o encontro com Arki, recebeu a comunicação de que Edith não o acompanharia. O dia seguinte seria cansativo e queria repousar, para estar com boa disposição.

Diante do fato ele lhe desejou bom descanso, prometendo voltar o quanto antes. Caminhou depressa para o local do encontro. Tomou cuidados para não ser observado. Se algum dos oponentes, adoradores de deuses objetos, o visse escalar o rochedo, poderia seguir seus passos e descobrir seu segredo. Logo ao chegar no alto, olhou para o lugar costumeiro. No mesmo instante a estrela piscou e o raio percorreu o céu. Em segundos Arki chegava ao seu lado, trazendo um sorriso no rosto.

– Salve, amigo Mink!

– Salve, Arki! Seja bem-vindo.

– Sempre é uma alegria vir aqui, trazer alguma novidade e ouvir de você o que anda acontecendo com nosso projeto para o futuro.

– E hoje tenho um assunto bem importante, aliás dois.

– O que está acontecendo?

– Primeiro tenho a informar que vou ser pai. Minha esposa está grávida. Vou ser pai em alguns meses. Será mais um integrante do contingente repovoador de Orient.

– Muito bom! Muito bom mesmo. Vocês estão começando a sua experiência de pai e mãe. É um passo importante para evoluir no Mundo das Mansões, depois da vida terrena. Leve à sua esposa as congratulações de minha parte e demais integrantes do governo do sistema de Satânia.

– O outro assunto é a busca feita por pessoas da população por ensinamentos, que estamos passando aos componentes do grupo. Fiquei em dúvida se devemos ou não aceitar. Me parece vantajoso por um lado e por outro pode representar o risco de desvios, surgimento de vícios de comportamento, o que seria prejudicial.

– O que você acha que acontecerá se recusar acesso a quem procura por instrução?

– Pode dar a impressão de que somos egoístas, mantendo só para nós os ensinamentos. Isso poderia criar a rejeição de todos os integrantes do grupo. Vim pedir ajuda.

– Como você disse. A recusa causaria no povo a rejeição pela doutrina e com isso o grupo inteiro seria alvo de perseguições. Ficaria mais difícil angariar membros novos para os grupos depois que esses ficarem prontos.

– Mas não podemos colocar os novatos junto com os que já estão caminhando. Vão ficar perdidos, sem saber a parte fundamental.

– Aí que está a solução. Aceitem um grupo, não muito grande e comecem a lhes ensinar os primeiros passos. Isso servirá de fermento para ajudar no crescimento do grupo. Talvez consigamos abreviar o processo ou levar um contingente maior. Em lugar de dez mil, podem ser doze ou quinze mil. Não vai ser problema nenhum transportar todos para Orient.

– Nem havia imaginado essa possibilidade. Pensei que o número não poderia ser maior. Cada componente do grupo dos dez, tem condições de se reunir uma vez por semana com um grupo de vinte ou trinta pessoas. Isso daria um bom número.

– Os cem dos novos grupos podem servir de auxiliares. É bom partilhar o que entendeu, depois corrigir os eventuais erros. Assim eles irão terminar seu aprendizado mais cedo e melhor. Nem pense duas vezes em aceitar. Apenas vá com calma, confie e tenha fé. Vai precisar tomar decisões rápidas quando estiverem em Orient. O governo do povo todo estará sobre seus ombros. Terá que dividir tarefas, delegar funções. Será impossível carregar o peso todo sem ajuda. Comece desde agora a dividir, sem esquecer de supervisionar, verificar se tudo está correndo bem. Poderá sempre contar com nossa ajuda nas dificuldades.

– Isso me deixa mais confiante. Imaginei que haveria limitações. Sendo assim, poderemos expandir aos poucos e conquistar boa parte da população. O que está causando mais impacto é o caráter pacífico dos ensinamentos. Grande parte da população que migrou para a cidade nos últimos anos, veio de regiões em constantes conflitos. Autoridades arbitrárias, verdadeiros tiranos impondo sua vontade com a força de armas.

– É o egoismo, orgulho e vaidade, ditando o rumo dos acontecimentos. Houve no correr da história diversos momentos de avanço da civilização, com progressos significativos na direção do conhecimento do Pai. Nesses momentos surgem, em geral, governantes ambiciosos e, impondo seus desejos, provocam retrocessos e desvios consideráveis. Submetem o culto religioso ao governo e a mistura do poder temporal com o espiritual impede o crescimento.

– Tenho observado isso no legislativo da cidade. Já aconteceram tentativas de aprovar leis no sentido de estabelecer um culto oficial, criar uma imagem de um deus da cidade, ao qual todos deveriam prestar culto. Felizmente a maioria venceu e conseguiu impedir a tempo a aprovação dessas medidas. Será preciso muito cuidado nas próximas eleições com os candidatos que se apresentarem. Os integrantes dos cultos mais difundidos, certamente tentarão eleger seus representantes. Depois terão apenas que apresentar seus projetos e aprovar. Não sei até quando vamos conseguir manter a neutralidade do governo com respeito à religião.

– É mais uma razão para abrir o ensino da revelação ao povo. O que é válido para o grupo que irá para Orient, também é válido para os que permanecerão em Kibong. Aliás, muitos fragmentos dos vários cultos existentes, provém das revelações trazidas, primeiro por Caligástia, depois Adão e Eva. Por último Maquiventa Melquisedec em Salém.

– É bem difícil enxergar algo desses ensinamentos nos cultos que eles prestam a uma coleção de imagens, feitas na maioria das vezes de barro, cozido no fogo. Mas não sou habilitado a dar opinião nesse assunto.

– Realmente não é fácil, mas existem. São apenas pequenos vestígios e, só quem conhece toda a história, identifica o que são. Não preocupe sua cabeça com isso. Dedique o melhor de si à difusão do que revelei e ainda vou revelar ao longo do tempo.

– Podemos deixar uma mensagem de amor e misericórdia para o futuro de Kibong. Eu estava sendo egoísta, pensando somente no grupo que irá para Orient. A Terra também precisa dessas revelações.

– Começar sem grandes ambições. Os primeiros recebem a mensagem e se encarregam de levar aos outros. Haverá divergências, como sempre acontece. Isso faz parte do processo evolutivo.

– Já sei o que devo fazer. Aceitar novos adeptos, delegar tarefas de instrução aos membros do grupo, colocar os novos dos dez grupos como auxiliares de instrução. Manter a paz e ordem entre os participantes. Vamos ver como isso se desenvolve. Qualquer coisa eu peço socorro aos ajudantes.

– Eles virão de dois em dois para ajudar por um tempo nessa tarefa. Pode esperar por eles. Irão se apresentar como vindos de lugares bem distantes, para não levantar suspeitas. Eles não são seres humanos de verdade, são do grupo dos intermediários. Podem facilmente tomar a forma humana e depois voltar ao seu estado normal.

– Eu ia perguntar onde eles moram, mas se são invisíveis normalmente, não poderíamos vê-los, mesmo se soubéssemos onde moram.

– São coisas do mundo espiritual. Impossível de ser entendido perfeitamente pelos humanos. É melhor que ninguém saiba dessa realidade. Não vamos criar confusão na mente de quem está começando a aprender.

– A revelação é, por si só, complexa o suficiente para deixar muitos perturbados.

– Você lembra do que aconteceu quando estava tentando compreender a Trindade de Deus? Os mistérios deixarão de sê-los na medida em que o ser humano evoluir na vida futura. Algumas coisas ficarão sempre irreveladas. É a dinâmica da vida no grande Universo. O meu superior me chama. Vou voltar no tempo certo. Acolha e ouça as orientações dos Ajudantes Intermediários.

O transportador emitiu um zumbido e logo deixou seu rasto de luz característico no céu. A estrela piscou e sorriu. Mink, desceu com cuidado do penhasco e se encaminhou para sua casa. Edith o esperava, curiosa por saber que orientações ele teria recebido do anjo. Intuíra em sua mente feminina que seria melhor acolher quantos quisessem seguir a nova doutrina, ensinando-lhes até onde tinham condições de ir. Mais tarde haveria tempo para separar aqueles que poderiam fazer parte da missão.

Ao ouvir o ruido na porta, ela ficou expectante, à porta da alcova. Ouviu seus passos, procurando pisar de leve para não acordá-la. Havia velas acesas, iluminando o caminho e ela falou:

– Não precisa tomar cuidados especiais. Eu ainda estou acordada, esperando você.

Encontraram-se na porta e um beijo saudou o reencontro. Caminharam até a beira da cama, onde sentaram. Em rápidas palavras, ele relatou o que Arki lhe dissera e ouviu-a dizer que eram exatamente as palavras que ela intuíra. Perplexo ele perguntou:

– Você anda tendo inspirações do alto, minha querida?

– Não. Apenas analisei as várias opções e conclui que recusar a adesão das pessoas voluntariamente, iria causar mais mal do que bem. Manter tudo em segredo é simplesmente impossível.

– Vou consultar você sempre, quando tiver dúvidas sobre alguma decisão importante. Você tem um dom especial para analisar a situação, por mais complicada que ela seja.

– Estarei sempre à disposição para lhe dar minha opinião. Penso que marido e mulher devem compartilhar mais do que apenas a cama, a mesa e casa. Podemos ser um de verdade.

– Nunca vou agradecer suficientemente ao Pai Universal por colocar em meu caminho uma mulher com seus atributos. Pelo jeito ainda vou ter outras surpresas.

– Agora venha dormir, pois amanhã estaremos ocupados o dia inteiro com a festa que vamos fazer para comemorar minha gravidez. Não pode esquecer. Já imaginou o pai do meu filho, passar o dia sonolento e parecendo cansado?

– Vamos sim. Já é tarde e prometi ao meu sogro estar lá cedo para ajudar com os preparativos. Não posso decepcioná-lo, afinal está cedendo a casa para a reunião das famílias.

– Isso ele faz com a maior alegria. Sempre gostou de ter a casa cheia de gente. Para comemorar a espera pelo primeiro neto ele fica mais animado ainda.

Deitaram e dormiram abraçados, trocando carinhos. O sono os surpreendeu em meio a um beijo delicado. No meio da noite, cansados da posição, acomodaram-se mais confortavelmente para melhor descansar. De manhã cedo Mink estava em pé e preparou chá para o desjejum. Levou uma caneca para a cama, acompanhada de mel, frutas frescas e nozes, sem esquecer o pão indispensável. Quando lhe deu um beijo delicado na face, ela acordou sobressaltada. Perguntou:

– Já é tarde? Estamos atrasados?

– Não meu amor. Eu acordei cedo e decidi fazer um carinho para minha querida mulher. O sol está surgindo no horizonte.

Sentou-se ao lado da cama, sobre uma banqueta, depois de colocar a bandeja sobre um aparador. Serviu também para si uma caneca de chá. Comeram, enquanto trocavam olhares amorosos e cúmplices. Depois Mink recolheu as sobras e vasilhas vazias, levando tudo para a cozinha. Levou e guardou tudo antes que Edith tivesse tempo de se vestir e vir ao seu encontro. Ao ver a cozinha toda arrumada, falou:

– Não sabia que meu marido também era bom na cozinha. Não é você o único a ter surpresas comigo. Eu também estou sendo surpreendida por você. Fazemos um par perfeito.

– Nosso filho vai ter uma família exemplar, se continuarmos assim. Vamos educá-lo na fé e confiança em Deus. Será um candidato ao mundo da evolução, que leva um dia ao Paraíso.

Edith o abraçou e ficaram um longo momento sentindo os corações pulsarem forte, praticamente no mesmo ritmo. Pensavam no filho de ambos que crescia no ventre de Edith. Queriam que ele crescesse forte e com saúde. Depois dele, viriam outros, se essa fosse a vontade do Pai do Paraíso. Retornaram aos aposentos e começaram a se preparar para ir até a casa dos pais de Edith. Os convidados chegariam em pouco tempo. Era necessário dar o apoio devido aos pais da jovem mãe em perspectiva.

Depois de vestirem roupas de festa, adornar o colo de Edith com colares, bem como os pulsos de braceletes e anéis nos dedos das mãos. Ela seria o centro da festa familiar que celebrariam. Chegaram sem muita demora. A distância não era grande. Caminhavam mais devagar, pois Mink não queria colocar a sua saúde em risco. Representava o que havia de mais precioso em sua vida, depois do Pai do Paraíso. Sentia-se duplamente abençoado, ao ser agraciado com a revelação feita pelo anjo Arki e agora, casado com Edith, seria pai de uma criança.

Os irmãos de Mink, com suas famílias, não se fizeram esperar. Os pais também vieram, percorrendo a curta distância que separava as duas casas. Se o casal pensava em trabalhar nos preparativos, já que se consideravam os donos da festa, enganaram-se redondamente. Abud chamara um grupo de serviçais para cuidar de tudo. Não queria ver a filha, nem o genro envolvidos em trabalho, nesse dia importante. Alguns meses antes ali se realizara o casamento dos dois, agora comemorariam o fato de estar em curso a gestação de um herdeiro. Para a família do pai da criança este seria um novo nascimento, depois de um bom número deles, ocorridos nos anos precedentes. Apenas em duas ocasiões haviam ocorrido problemas no parto, levando o nascituro à morte ao nascer. Esperavam que tudo corresse sem problemas dessa vez.

Na hora da refeição, todos brindaram à saúde da mãe e da criança. Desejaram ao pai muita disposição para prover o sustento da família em vias de ser acrescida de mais um membro. Os brindes se sucederam, terminando com a maioria em estado avançado de embriaguez. Os filhos, vendo seus pais naquele estado, ficaram preocupados com isso e as mães lhes disseram que não passava de uma bebedeira, coisa comum entre os homens. Quando crescessem certamente fariam parte de situações semelhantes. Diante dessa afirmação, a turma barulhenta dos netos de Sock e Muhn continuaram a correr e brincar. Havia espaço suficiente para darem vazão à sua energia acumulada.

Quando o dia chegou ao final, uma verdadeira procissão de pais, ainda um pouco embriagados, seguidos de seus filhos e esposas saiu da mansão de Abud e Leihla. A notícia do motivo da festa não tardou a se espalhar. Vários conhecidos indagaram da veracidade da notícia e enviaram congratulações ao casal, bem como às famílias de ambos. Mink e Edith demoraram ainda um pouco, antes de retornarem ao lar. Ao saírem levavam alguns presentes menores que haviam ganho. Alguns, mais volumosos e pesados como banquetas para sentar, móveis em miniatura e outras coisas, ficaram para sere levadas em um veículo de tração animal.

Nos próximos dias aqueles que procuravam os integrantes da nova doutrina, eram encaminhados para uma sessão especial, onde haveria a apresentação de algumas ideias básicas da revelação. Se depois disso ainda quisessem continuar, participariam de uma turma piloto de novos adeptos. Gradativamente aprenderiam os fundamentos da Trindade, Ilha do Paraíso, Universo Central, sistemas planetários e os governos de todas essas instâncias. Logo a seguir lhes seria apresentada a questão da sobrevivência após a morte. O Mundo das Mansões ou vida moroncial. Todo esse processo demandaria bastante tempo, mas daria oportunidade de identificar os elementos que teriam maior potencial de aprofundamento. Na próxima seleção de grupos, seriam eles os preferidos, uma vez que já dominariam grande parte da fé na Trindade e todos seus desdobramentos.

A notícia se espalhou rapidamente e houve procura abundante. Foi necessário formar duas turmas e dividir as tarefas entre os membros do grupo. Mais à frente outras turmas surgiram e logo ficou evidente que era muito útil esse procedimento. Havia entre a população, proveniente de diferentes povos, pessoas com notável nível de desenvolvimento sincronização com seus ajustadores do pensamento. Os novos ensinamentos vinham ao encontro de suas opiniões particulares, apresentando apenas ligeiras divergências. Isso facilitava o desenvolvimento e estes elementos se transformavam, em pouco tempo, em uma espécie de monitores. Recebiam as instruções e se encarregavam de repassar aos companheiros de turma. Dessa forma a difusão da nova fé se multiplicou rapidamente.

O mandato dos administradores e legisladores estava chegando ao fim. Houve quem sugerisse a Sumock que propusesse seu nome para ser reeleito, o que ele recusou. Havia ficado cinco anos na liderança da cidade e considerava que era hora de deixar o cargo, para que alguém, com novas ideias, ocupasse seu lugar. Não acreditava na continuidade de um mandatário. A renovação era importante. Da mesma forma, na primeira legislatura, havia liderado a aprovação de normas para reeleição de legisladores. Poderiam ser reconduzidos apenas uma vez, quando lhes seria vedada a participação de novo pleito. Isso forçaria a renovação. Alguns mais experientes eram importantes, para evitar a ruptura total com o curso seguido nos anos anteriores. O sangue novo traria benefícios indiscutíveis. Mesmo havendo quem quisesse modificar essas leis, não lograram êxito.

A campanha começou algum tempo antes da data prevista para a eleição. O número de eleitores aptos havia crescido e se multiplicado. Igualmente a necessidade de haver mais legisladores para conseguir atender à demanda de projetos e propostas, havia sido aprovada. A partir da próxima legislatura, haveria treze membros, em lugar dos nove das duas anteriores. Diversos grupos se uniram em torno de candidatos à administração geral, havendo a concorrência de cinco candidatos ao todo. Um entre eles, representava os moradores originais e os primeiros grupos de imigrantes. Os demais se empenharam arduamente na conquista de votos, mas o candidato, tido como ligado a administração que chegava ao fim, acabou sagrando-se vencedor, por ampla margem de votos.

Os demais aceitaram a derrota e foram convidados pelo novo gestor a contribuir com sugestões para seu governo. A postura amistosa do novo administrador, foi tomada como sinal de fraqueza por alguns da oposição, mas logo se conscientizaram de seu engano. O seu governo foi firme e eficiente. Conseguiu dar novo impulso ao comércio, movimento do porto e produção rural. O contingente da força de segurança foi ampliado, para dar cobro aos abusos de alguns grupos de desordeiros que, infelizmente haviam vindo misturados em meio ao afluxo de gente.

Décio Adams

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