Fantástico mundo novo! – Vol. III – Recomeço em Orient. Cap. X – Epílogo.

 

  1. Epílogo.

 

O sonho de muitos em Orient, esperançosos de viajar pelo universo, a bordo de naves tão, ou mesmo mais velozes do que a luz, ficou relegado a um segundo plano. As pesquisas feitas com as amostras trazidas de Primus em várias missões tripuladas até sua superfície, motivaram uma mudança de postura das autoridades e, principalmente dos pesquisadores. Tratava-se de um planeta com um sistema de vida ainda em fase de evolução acentuada. A presença humana, em grandes incursões, poria em risco algumas formas de vida e foi considerada indevida essa interferência. A frustração que os aventureiros, ávidos por incursionar em novas fronteiras, logo foi apaziguada. Os pesquisadores, em conjunto com as autoridades civis bem, como as religiosas, empenharam-se em mostrar a inconveniência de interferir coma evolução da natureza no planeta mais pertencente a um sistema ainda jovem.

Os potentes equipamentos de observação por imagens, bem como de captação de sinais de rádio provenientes do espaço longínquo vasculhavam cada canto do céu a procura de novos destinos, capazes de servir para novas conquistas astronáuticas. Não demorou para surgirem rumores da descoberta de outro planeta, orbitando a mesma estrela onde se encontrava Primus. Mas, observações mais detalhadas frustraram essa possibilidade. Era um pequeno gigante, em comparação com o coirmão visitado antes. Isso lhe conferia a característica de apresentar uma atração gravitacional com valor muito alto ou ter densidade muito reduzida, tornando sua crosta impraticável para suportar o desenvolvimento de um sistema de vida. Provavelmente também não permitiria o pouso de naves, o que o descartava do rol dos possíveis objetivos futuros da astronáutica orientiana. Eram vários fatores contrários à indicação desse astro como objetivo imediato.

As atenções gerais foram dirigidas para o desenvolvimento religioso mais acelerado. Com o passar dos anos, o número de fusionamento com desmaterialização do corpo tornou-se mais elevado. Os intervalos que chegavam a ser de décadas, passaram a oscilar em torno de dez anos. Tal fato provocou um aumento do empenho das pessoas em elevar sua sintonia com a Fagulha. Os mais idosos, por obra do tempo, melhor sintonizados, dedicavam boa parte de seu esforço a orientar os mais jovens na arte de estabelecer essa sintonia. O fundamental era voltar sempre o pensamento para o Pai Universal, ou o Filho Criador Michael. Quanto mais intensa fosse a meditação e busca da proximidade com esses seres, mais facilmente obteriam indicações preciosas de sua Centelha.

Apesar desse movimento intenso de aproximação com a divindade, a dedicação à realização da vontade do Pai, ainda existiam indivíduos e mesmo grupos de pessoas descrentes, que renegavam a existência dessas entidades. No entanto, tinham dificuldades em angariar adeptos de seus modos de pensar, agir e viver. Ficavam limitados a grupos, cujo número de componentes tendia cada dia a diminuir. Não conseguindo mais captar novos adeptos e os mais velhos fatalmente alcançavam seu dia de deixar a vida na carne, não havia como repor os efetivos. Esse fato levou um pequeno grupo de líderes dissidentes a se empenhar na formação de uma espécie de congregação. Cada grupo manteria sua crença e convicções, mas uniriam forças na obtenção de algumas vantagens na vida social, que de outra forma lhes ficava vedada por razões obvias. Não tinham representatividade.

No entanto, essa congregação também não logrou êxito, uma vez que, ao fim e ao cabo, cada grupo queria mesmo era impor aos demais as suas próprias convicções. Ocorreu assim que, a vida da associação foi curta. Poucos anos bastaram para esfacelar definitivamente essa tentativa de recuperação das crenças dissidentes. Sem dúvida, os mais empedernidos mantinham-se firmes, sem ceder à religiosidade geral. Não faziam concessões. Já os mais tíbios, oscilando muitas vezes entre a adesão à religião do Filho Criador, tendo a figura do Pai Universal como centro, para logo depois pender para uma ou outra seita. Eram os chamados por Jesus Cristo de “mornos”. Não tinham firmeza, seu “sim” não era de fato um “SIM”, tampouco seu “não” era um “NÃO” de verdade. Estavam fadados a serem cuspidos fora.

O esfriamento das viagens espaciais mais longas, tornando-se mais espaçadas, visando meramente uma espécie de monitoramento do progresso da vida em Primus, sem interferências, levou a central de pesquisas a mudar um pouco seus objetivos. Passaram a procurar em locais mais próximos, pontos de interesse. A alta tecnologia que haviam desenvolvido, não seria desperdiçada. Começaram a esquadrinhar o espaço mais próximo, em busca de asteroides, cometas e mesmo possíveis novos planetas orbitando Espectron. Desenvolveu-se uma frota de transportadores de grande porte, possibilitando a viagem de pessoas populares ao espaço, visitando locais jamais imaginados por eles. Essas viagens eram realizadas, de modo semelhante a cruzeiros marítimos, visitando vários objetivos, em um intervalo de algumas semanas. O custeio dessas viagens ficava por conta dos viajantes, sendo que lhes era facultada a possibilidade pagar em parcelamento prolongado, apesar do custo ser relativamente pequeno.

O fato de ter havido uma autocontenção do ímpeto explorador do espaço por parte dos habitantes de Orient, representou um fator importante na cultura do povo. Houve uma conscientização geral sobre a necessidade de manter limites em suas ambições e anseios de conquista, pois se havia outros mundos habitados, certamente eles tinham sua administração, em conformidade com o seu estágio. O surgimento de uma espécie alienígena, de outro mundo distante, poderia geral distúrbios severos, levando a danos irreparáveis. Certamente o Filho Criador ou o Pai Universal não tinham interesse em ocorrências dessa natureza. A criação seguia um planejamento geral, sem sobressaltos ou interferências. Já bastavam os percalços ocorridos em situações, como a rebelião havida no Universo Local de Nébadon, sob o comando de Lúcifer e seus aliados. Nenhuma interferência causada por humanos intrometidos, visitando outros mundos, em estágios diferentes de desenvolvimento era benvinda.

Ao passar um “pente fino” em todos os locais no espaço mais próximo, localizaram vários astros antes não detectados, bem como alguns corpos escuros, com suas características energéticas próprias. Era difícil determinar suas características completamente, pelo fato de não emitirem luz. No entanto as descobertas realizadas na área de outras formas de energia, diferente da radiante, lançaram uma “luz” sobre o assunto. Toda energia canalizada por meio desses corpos escuros, ficava no setor de gravidade. Um outro tipo de onda, formada por pulsos gravitacionais e magnéticos, era o que havia aberto o caminho para comunicações em velocidades muitíssimas vezes maiores do que as ondas eletromagnéticas. O aprofundamento das pesquisas sobre essas ondas, estabeleceu uma forma obtenção de energia em abundância para todos os sistemas existentes em Orient.

Em algum tempo, grande parte das máquinas, veículos, tanto de transporte terrestre quanto aéreo, passaram a ser movidos por essa nova fonte de energia. Era limpa, de baixíssimo custo e existente em quantidade aparentemente inesgotável. Assim os custos de todo sistema de produção, movimentação de pessoas, cargas e equipamentos ficaram muito mais baixos. Assim, foi possível finalmente trazer a jornada de trabalho para o patamar das três horas diárias. Os habitantes do planeta passaram a ter uma vida principalmente dedicada ao entretenimento, programas culturais e especialmente reuniões de adoração, louvor e agradecimento. Nesses momentos reuniam-se quase todos os membros da sociedade. Havia logicamente turnos de atuação, o que não permitia que estivessem todos reunidos ao mesmo tempo. Mas os que estavam livres, se empenhavam nessas atividades.

O planeta Orient, de certa forma, era “irmão” de Urantia. Afinal, era habitado por descendentes de um grupo de pouco mais de dezoito mil habitantes, vindos no passado, em naves celestes, com o fim de repovoar o planeta. Sua população se auto aniquilara em um conflito de armas de destruição em massa. Havia nas brumas do passado dos habitantes de Orient, uma vaga lembrança daquela força de repovoamento que veio de Urantia. De vez em quando alguém reavivava essas lembranças, buscando informações nos registros existentes sobre aqueles dias. Já se haviam passado mais de dois milênios desde que isso acontecera. Quem olhasse hoje para o planeta, não diria que um dia ele tivera sua população extinta e suas instalações destruídas. Por toda parte havia indústrias, sistemas de produção, transporte, grandes centros de competições esportivas e reuniões de adoração, eventos culturais. Sabiam que caminhavam para um estágio, denominado de Luz e Vida do planeta, mas ninguém tinha conhecimento da data em que isso iria acontecer.

Os mais idosos, diziam que estava próximo, mas pareciam viver num mundo distante. Para eles as horas, dias, meses e anos não tinham o mesmo significado que para os mais jovens. Sabiam o que esperavam e não demonstravam a menor pressa para que esse estágio fosse alcançado. Nenhum deles se preocupava se isso aconteceria em sua vida na carne ou se ficaria para mais tarde. Tinham certeza do objetivo que os esperava, portanto, para que ter pressa? Se o fim era certo, tinham todo o tempo do mundo para esperar pelo dia de sua realização.

Havia quem falasse, referindo-se ao tempo em que um ser celestial, auto outorgado, chamado Melquisedeque, vivera por um século aproximadamente em Orient.  Isso ocorrera algum tempo depois da auto outorga de Michael de Nébadon, no planeta Urantia, onde deixara a promessa de voltar, mas sem fixar data. Perguntavam-se se lhes seria permitido saber o momento em que essa volta se estivesse realizando. Existia uma leva suspeita de que essa volta aconteceria no momento da realização do julgamento final de Lúcifer e seus coligados. Quando esse evento ocorresse, as comunicações, os circuitos de conexão dos planetas de quarentena, seriam totalmente restabelecidos. Alguns mais sábios e estudiosos, aventavam a hipótese de que o alcance do estágio de luz e vida estaria reservado para momento posterior a esse restabelecimento.

Desse modo foi gerado uma discreta mas intensa ansiedade no povo devoto e fervoroso de Orient, esperando pela notícia do retorno de Michael de Nébadon, com o nome Jesus de Nazaré ao planeta de onde seus antepassados haviam vindo. Surgiram algumas datas como possíveis momentos para esses acontecimentos, mas os anos passavam, a data passava a fazer parte do passado e nada havia ocorrido de concreto. Apenas uma lenta e constante evolução, que ninguém deixava de notar.

Muitas gerações se passaram até que, tendo Urantia alcançado também um nível de evolução, de certo modo comparável à de Orient, quanto finalmente foi anunciado o julgamento final da rebelião luciferiana. Todas as oportunidades de arrependimento, todas as possibilidades de redenção dos rebeldes estavam esgotadas. Finalmente, enquanto Michael se preparava, fazendo uma viagem ao Paraíso ao encontro do Pai Universal, os juízes se assentaram em seus lugares e uma multidão de rebeldes foi trazida à sua presença. Uma última ocasião de arrependimento foi oferecida a todos eles. Estavam convictos de sua indestrutibilidade e se encarniçaram em sua teimosia. Por fim, depois de ouvirem a leitura de todas as acusações que lhes eram imputadas, o presidente do tribunal, usando de suas atribuições, leu a sentença condenatória.

Esta sentença, citando primeiramente todos os nomes e posições ocupadas antes da rebelião, bem como a participação nela, trazia no final a conclusão: Em nome do Pai Universal, da Trindade do Paraíso, por delegação de Michael de Nébadon, Filho Criador desse universo, eu os condeno à extinção, sem mais oportunidades de arrependimento. Foram muitos milhares de anos a espera, que finalmente termina. Que sejam todos conduzidos à sala de extinção e ali deixarão de existir.

Lúcifer, apoiado por seus asseclas, foi conduzido, enquanto gritava e vociferava dizendo-se indestrutível. Nenhum Pai do Paraíso seria capaz de pôr fim à sua existência. Finalmente chegaram à sala, onde estavam à espera os emissários celestes, encarregados de ministrar o procedimento de extinção. Embora estivessem distantes, as conexões pelos circuitos celestes, permitiam ao Pai, ao Filho e Espírito Divino, bem como todas as demais autoridades celestes assistiam esse momento supremo. Até o último momento ouviram-se gritos de revolta e insubordinação, mas, no momento definitivo, uma espécie de relâmpago se tornou visível e, onde antes havia uma multidão de seres rebeldes, nada mais existia. Lúcifer e seus seguidores haviam sido definitivamente extintos. Não mais existiam restrições ao restabelecimento de todos os circuitos celestes, em todos os planetas em quarentena.

Em Urantia, ouviu-se um som de música celestial e seus habitantes estupefatos viram descer do céu, a Nova Jerusalém, conforme fora prometido nas escrituras do Novo Testamento. A luz dos astros parecia brilhar com modo diverso, as flores estavam mais coloridas, o ar perfumado e uma sensação de paz se fez sentir. Os inúmeros seguidores da doutrina deixada por Jesus Cristo, imediatamente se deram conta de que o dia de júbilo, da volta do divino mestre conforme sua promessa, havia chegado. No centro da cidade brilhante que descia do céu, estava sentado Jesus de Nazaré, tendo ao seu lado os apóstolos, e uma multidão de santos.

O mestre viera restaurar o planeta e estabelece-lo em seu estágio final de Luz e Vida. Era ele, além de Filho Criador do Universo de Nébadon, por uma deferência especial, o príncipe planetário de Urantia. Uma concessão especial feita por ele, permitiu que os residentes de Orient vissem essas cenas, por meio dos circuitos celestes. Também o planeta irmão, estaria entrando no estágio de Luz e Vida. Uma sucessão de eventos desastrosos culminara com um longo período de privação de Urantia de muitos benefícios que os planetas comumente não sofrem. Onde os planetas habitualmente atingem esse estágio mais avançado de evolução e desenvolvimento em um tempo de 850 a 900 mil anos, Urantia já ultrapassara em muito o tempo de um milhão de anos. Tanto Urantia, quanto Orient haviam passado por tormentos semelhantes e por isso era justo que alcançassem juntos o Estágio de Luz e Vida.

Isso ocorreu no ano de …

Afinal, o que importa o ano cronológico, se tudo faz parte da eternidade? O que são 1000 anos a mais ou a menos, diante de um tempo eterno?

Na verdade, são gotas de água em um oceano. São segundos comparados com milênios.

 

F I M

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *