Um casal inocente.

Casal inocente.

Um casal inocente!

 

No mês de fevereiro de 1987 eu cheguei em Brasnorte, no estado do Mato Grosso. No ano anterior havia viajado até Diamantino, realizar a prova de concurso para professor. Aprovado, fui nomeado no dia 02/02/1987 e cheguei para tomar posse no cargo. Deixei para trás um padrão efetivo no Estado do Paraná, além de um padrão (20 h/a) no CEFET-PR. A escola local é o Colégio Estadual Evaldo Meyer Roderjan.

Ali encontrei uma comunidade de três irmãs da Divina Providência, constituída da Ir. Theonila, que atuou como enfermeira em hospitais de Santa Catarina. Ali trabalhava no posto de saúde, muitas vezes fazendo o que deveria ser feito por um médico, se ali houvesse um deles, dentro dos limites de seus conhecimentos; Ir. Ana, atuando como professora de ensino religioso na Escola Estadual e Ir. Leonila, encarregada da cozinha da pequena comunidade. Prestavam serviços na capela da comunidade, auxiliando nos cultos, nas visitas mensais de Frei Natalino Vian, capuchinho sediado em Tangará da Serra.

Entre as façanhas da Ir. Theonila que conheci logo ao chegar, conta-se a realização, em conjunto com a Senhora Terezinha Bonazza, dona da única farmácia da localidade na época, de uma cesariana, sobre uma cama, à luz de lampião a gás. Do ponto de vista legal, totalmente errada a atuação das duas, uma vez que não tinham habilitação para fazer cirurgias, muito menos local apropriado ou equipamento para tal.

A esposa de um morador, estava grávida e chegou o dia de dar à luz seu filho. Uma tempestade se encarregou de derrubar uma árvore, obstruindo a estrada de acesso, sendo o resto puro mato. O único médico que havia, estava doente e internado em hospital longe, vindo a falecer pouco depois. O marido deu um jeito de vir pedir socorro à Irmã e ela chamou a senhora Terezinha, seguindo as duas para ajudar a mulher. Levavam consigo material cirúrgico, prevendo a necessidade de fazer algo apesar da falta de habilitação. Conseguiram chegar a pé e constataram que o nascimento não iria ocorrer pelas vias normais.

Fizeram a cirurgia à luz de um lampião a gás, usando da experiência da Irmã como enfermeira onde funcionara de auxiliar dos médicos em centenas ou até milhares de cirurgias do tipo. A cama serviu de mesa cirúrgica, lençóis e água quente foram usados para a higiene. Para encurtar a história, a gravidez era de gêmeos, nascendo dois meninos fortes e saudáveis. A mãe se recuperou sem nenhuma complicação, tendo eu pessoalmente ocasião de falar com ela.

As duas mulheres, em condições de extrema precariedade, salvaram, não só a vida das crianças, como também a da mulher. Se não fosse a coragem delas, as três vidas teriam sido perdidas naquele momento. Irmã Theonila vivia para cuidar da saúde do povo. Não havia hora para ser chamada e ela atendia nos lugares mais distantes. Bastava haver quem a levasse até lá.

Gostávamos de conversar e ela contou muitas histórias do seu tempo de enfermeira. Uma delas merece ser contada e dela vem o título desse texto. Ocorreu em um hospital no interior de Santa Catarina e foi vivida por uma coirmã de Theonila, que lá atuava como enfermeira encarregada da sala de partos.

Um casal, criado no estilo tradicional e cheio de tabus, chegou ao casamento sem nenhum conhecimento acerca da vida sexual. A única informação de que dispunham era que os filhos demoravam nove meses para nascer e nada mais. O casamento correu normal, padre, juiz, festa com muita comida, cerveja e vinho. Terminado tudo foram viver em sua casinha, numa pequena propriedade rural, começando a trabalhar e levar a vida. A completa ignorância a respeito dos fatos da vida, fez com que dormissem juntos na maior inocência. O que eles não esqueciam era de contar o tempo para o nascimento do bebê, mas falavam sobre isso apenas entre eles. Como morassem um pouco longe, não tinham muito contato com vizinhos e trabalhavam muito.

Ao completar os nove meses, atrelaram o cavalo à charrete e seguiram para o hospital, chegando lá depois da hora do almoço. Na portaria foram atendidos pela recepcionista e informaram que vinham para o nascimento do filho. A jovem sendo de compleição um pouco avantajada, não deixava perceber facilmente a ausência de gravidez. Foram encaminhados para a sala de partos.

Lá a enfermeira encarregada os recebeu, levou a mulher para examinar e verificar o estágio em que se encontrava. Logo às primeiras perguntas que fez à jovem, desconfiou de que algo estava errado.

– Há quanto tempo começaram as dores?

– Eu não sinto dor, irmã.

– E como você sabe que está na hora de nascer seu filho?

– Eu sei. Está na hora.

Por via das dúvidas resolveu examinar o quadro e verificar com os próprios olhos. Quando a fez deitar sobre a maca e realizar o exame, constatou que a pretensa parturiente, sequer grávida estava. Uma dúvida assaltou a irmã. O que levara o jovem casal a deslocar-se por quilômetros para o nascimento de um filho que nem havia sido concebido? Havia algo de estranho. Decidiu investigar. Mandou a jovem tornar a se vestir e, abrindo a porta, chamou o marido.

Ao lhes informar de que não havia bebê por nascer, viu os dois olharem-na espantados. Resolveu perguntar:

– Vocês fizeram o que é necessário para ter um bebê?

– Nós casamos e nos disseram que os bebês nascem depois de nove meses. Hoje faz nove meses que nos casamos.

Estava explicado tudo. Eles ignoravam tudo a respeito. Coube à irmã explicar, na maneira que podia o que era necessário fazer para daí esperar os nove meses até o nascimento do bebê. Foi nesse dia que começou realmente a vida de casados, pois haviam vivido até aquele momento, tão puros como haviam se casado há exatos nove meses passados.

Fatos semelhantes devem ter ocorrido em pencas por esses rincões, onde a informação demorou a chegar e os pais esqueceram de passar aos filhos/filhas as informações básicas para prepara-los diante do casamento. Isso não faz tanto tempo assim. Pouco mais de meio século.

 

 

Curitiba, 19 de julho de 2015.

 

Decio Adams, IWA

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