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Mineiro sovina! – Capítulo XVIII

Galeria do museu do Vaticano.

 

Pirâmide do museu do Louvre.

 

Prédio de museu em Roma.

 

Um rival na parada.
 
 
         Naquela noite José Silvério teve um pouco mais de privacidade com a noiva. Ela mesma voltara do longo período de ausência aparentemente famainta de carinho, intimidade. Os pais foram dormir e eles permaneceram sentados nos confortáveis estofados da sala. Estavam bem juntos, trocaram beijos, primeiro levemente tímidos e aos poucos ganharam em ardor. Parecia que o contato com os diferentes povos da Europa especialmente, haviam deixado marcas nas atitudes e sentimentos da jovem. Antes que ultrapassassem determinados limites José fez uma pausa e falou:
         – Meu bem! Eu te amos mais que a qualquer coisa nesse mundo. Sou feito de carne e osso. Se nós continuarmos teremos que ir amanhã para diante do juiz e fazer nosso casamento.
         – E isso faria você ficar encabulado?
         – Digamos que não era exatamente isso que estava em meus planos. Mas, não havendo alternativa, eu encaro essa sem problema. É isso que você quer, meu amor?
         – Também não era meu roteiro de vida, mas esses meses todos longe me deixaram muito carente. Gostaria de poder partilhar todos os momentos com você.
         – Não teremos que esperar muito. Apenas os meses para providenciar onde vamos morar, preparar a festa do casamento, tramitar os papéis na Igreja e no civil. Leva algum tempo, mas não é demais.
         – De fato não será conveniente pisar diante do padre usando um vestido branco de noiva e já ter perdido a pureza própria da situação. Acho que mamãe ficaria muito triste. Não custa muito dar a ela essa alegria.
         – Sua mãe merece todo respeito de nossa parte. Se foi possível mantermos nossos instintos sob controle até hoje, podemos esperar mais uns meses.
         – Eu li algumas notícias na Europa e Estados Unidos que mostram isso como coisa ultrapassada. Até aqui no Brasil já há gente dando a minima para a virgindade e essas coisas todas.
         – Provavelmente daqui a alguns anos esses conceitos e tradições serão coisa do passado. O que dá um certo receio é que, estão querendo derrubar as tradições, proibições do passado, mas ninguém sabe ao certo o quê colocar no lugar.
         – Há muita gente dizendo que família é uma instituição falida, não tem mais sentido. Gostaria de saber como vão ser educados os filhos nascidos nesse caos resultante dessas mudanças todas. Qualquer hora vão aprovar a legalização do divórcio, há mesmo quem queira o mesmo para o aborto. Acho que é muita mudança para uma vez só.
         – Fico feliz em saber que você tem uma visão equilibrada sobre essas questões. Ficaria preocupado se estivesse imbuida de que essas modificações são algo necessário de imediato. Que irão acontecer em algum momento no futuro não resta dúvida. Importa que antes seja realizada uma análise profunda de todas as consequências e implicações que trarão consigo.
         – Eu imagino como ficarão vocês advogados quando essas leis forem aprovadas.
         – Teremos que nos adaptar, mesmo que custe um pouco da nossa maneira de ver os fatos. Seremos obrigados a nos manter dentro dos limites legais estabelecidos.
         – Eu sempre me pergunto se a palavra fria da lei consegue abranger toda a variada gama de situações possíveis.
         – Com certeza que não. Demora uma boa temporada até que seja estabelecida uma certa jurisprudência. Ela servirá de baliza aos novos processos e suas decisões ao final. Cada juiz que inferior uma forma inovadora de aplicar a palavra da lei constitui um marco nesse conjunto de normas informais. São a parte não escrita da lei, que passa a fazer parte dos processos e das decisões transformadas em sentenças.
         – Pensei que minha vida de pintora era complicada, mas vejo que a de advogado é muito mais. Não deve ser fácil encontrar o caminho no meio de todo esse emaranhado de leis, decretos e normas. Ainda mais essa tal jurisprudência para aumentar a confusão.
         – A prática ajuda bastante. Hoje temos uma facilidade ampliada com as compilações em compêndios. Pior era algumas décadas passadas. Os advogados sofriam para conseguir encontrar o caminho. Eram noites inteiras em claro para encontrar a forma de defender um cliente, acusar um malfeitor. Houve gente que fez verdadeiras maratonas nesse frenesí. Quando o julgamento está marcado, não há como deixare de comparrecer. Às vezes conseguimos adiar a realização, mas precisamos de um motive justificado para isso.
         – Acho que vou fazer o meu atelier ao lado de seu estúdio de trabalho em nossa casa. Enquanto você estuda seus processos em desenvolvo meu trabalho de pintura.
         – Será que é uma boa ideia? No começo creio que corremos o perígo de esquecer de nossos afazeres e partir para outras coisas.
         – O jeito vai ser colocar uma divisória gradeada para nos manter afastados.
         – Melhor começar cada um em seu canto. Depois poderemos ficar mais próximos.
         – Acho melhor irmos dormir. Amanhã você terá que sair cedo para cuidar de seus compromissos. Eu por minha vez vou aprontar meu atelier para começar a pintar. Etou cheia de ideias para colocar em prática. Técnicas novas que aprendi, só de olhar alguns artistas da Europa trabalhar.
         – Mas sobrou tempo para aprender coisas novas, com toda correria que foi sua excursão?
         – Sempre sobra e a gente aprende apenas num rápido olhar. O resto fica por conta da criatividade.
         Um último e prolongado beijo encerrou a noite. Depois um abraço carinhoso, os corpos colados sentindo o pulsar mútuo dos coraçoes, antes de se dizerem Boa noite. José já sabia onde deveria deitar e foi para o quarto. Fez isso a contragosto, pois tinha vontade mesmo de tomar a noiva nos braços e deposit-la na cama, iniciando um prolongado processo de despí-la lentamente. Depois viria a última etapa antes da união física dos corpos. Ansiava por esse momento, mas estava encaminhado para a realização de seus desejos em tempo não muito longo. Tinha que ser forte nesse interval. Não queria manchar sua reputação de advogado destacado, transgredindo as normas do respeito à casa do futuro sogro.
         Era tido praticamente como um filho tanto por Onofre, quanto por Maria Luisa. Eles não mereciam que manchasse a honra da casa, deixando de corresponder à confiança que nele depositavam. Passou um longo tempo deitado com a mente em turbilhão. Sentados no estofado haviam trocado carícias signficativamente mais íntimas do que jamais haviam ousado antes. Sentra sob suas mãos, através do fino tecido a pele fremindo de desejo. Os seios bem proporcionados haviam se enrijecido sob o efeito da proximidade do corpo masculine. Conseguira perceber que ela ardia em desejo por ele com intensidade semelhante ou até mesmo maior que ele por ela. Fora a educação recebida desde a infância que os fizera se conrolar.
         No outro aposento por seu lado Isabel rolava de um lado para outro em sua cama. Tinha dificuldade em acalmar o fogo que lhe consumia as entranhas. O que ficara por tanto tempo submisso e controlado, explodira igual um vulcão ao toque suave das mãos de José. Nesse momento, a simples lembrança do noivo, suscitava em se user sucessivas ondas de calor. Precisou de grande esforço para não levantar e se esgueirar para o quarto do noivo. Ocorreu-lhe que, não faria nenhuma diferença se o encontro tão desejado dos dois corpos se realizasse agora ou dali a alguns meses. Nesse momento lembrou de seu pai de olhar severo, a mãe sonhadora e se controlou. O tempo agiria a seu favor. Mergulharia no trabalho, extravasando toda sua paixão em formas e cores, bem mais ousadas do que qualquer coisa que já pintara até o dia de hoje. Mil imagens dançavam diante seus olhos e um arco-írias de mil cores se espraiava no espaço.
         Ambos dormiram algumas horas de sono agitado. Mal o sol apareceu no horizonte, estavam em pé. José para empreender a viagem até a cidade depois de um rápido desjejum providenciado pela cozinheira sob o comando de dona Maria Luisa. Ele estava à meio com seu café, quando entrou e o cumprimentou Isabel. Eram visíveis nos olhos de ambos as horas insones transcorridas antes de acalmarem seus hormônios. Sentou-se para também tomar se desjejum. Alguns minutos depois José se despediu, depois de olhar em seu relógio de pulso. Se não se apressasse chegaria atrasado, sem esquecer que, cada minute ao lado da noiva aumentava o risco de atrasar mais um pouco.
         Nas primeiras semanas ambos mergulharam no trabalho. José vira a pilha de processos em sua mesa crescere, apesar de seu empenho em dar andamento diário a tudo que fosse possível. Acontecia que, sua crescente notoriedade no mundo jurídico, fizera crescere o número de clientes que procuravam seus serviços. Não havia mais necessidade de o diretor do escritório destinar trabalho a ele. Os clientes por si mesmos solicitavam atendimento de parte dele. Junto com um acrséscimo aos rendimentos, vinha também um enorme aumento de horas dedicadas ao estudo das leis, seus artigos, parágrafos e ítens a serem aplicados a cada caso. Não tardou e começou a sair do escritório apenas depois de oito ou nove horas da noite.

Museu do Vaticano.
Ruinas romanas.
Turistas visitando museu do Vaticano.


         Já Isabel começou por vir até a cidade arrematar praticamente o estoque de telas, tintas, pincéis, espátulas e outros apetrechos usados em seus trabalhos. Havia alguns que nunca usara, mas estava disposta a experimentar. Em pouco tempo descobriu um imenso campo novo descortinar-se ante os olhos da mente. Os trabalhos se sucederam e rápida sequência, chegando a estarem lado a lado mais de um deles. Enquanto refletia sobre os próximos traços, cores e tons de um aplicava palhetas, espátulas e outros recursos no trabalho no cavalete ao lado. Em menos de um mês uma variedade ampla e em bom número de trabalhos estava colocado nos ganchos dispostos ao longo da parede. Dali sairiam depois de completarem a secagem.
         Em determinado dia da segunda semana, Maria Luisa ousara abrir a porta do atelier e encontrou a filha inteira suja de tintas. O avental dava a impressão de ter sido usado por um pintor de paredes durante alguns meses sem lavar. Até seus lindos cabelos haviam recebido alguns respingos. A tentativa de remover a tinta com a mão, espalhara-a, tornando o estrago mais intense. Os olhos arregalados da mãe a fizeram perguntar:
         – O que foi mãe? Viu fantasma?
         – Eu vi você, minha filha, toda suja de tinta. – falou controlando a vontade de rir.
         – Sei que estou toda suja, mas não vou parar antes de concluir esses dois quadros. Minha alma inteira está se derramando sobre as telas e variadas cores.
         – Quer um refresco ou um café, querida?
         – Vou aceitar sim, mãe. Um café com bolo se tiver. Mas traga aqui no atelier. Não vou sair daqui.
         Alguns minutos depois a mãe chegou com o café recém coado, uma travessa com fatias de bolo, alguns biscoitos e procurou um lugar para apoiar o que lhe ocupava as mãos. Isabel afastou potes de tinta e outros apetrechos. Depois ajudou a mãe a se livrar do que trazia. Pucharam duas banquetas em que sentaram e tomaram café, comeram bolo e biscoitos. Maria Luisa olhou para as telas quase acabadas e tomou um leve susto. O que a filha estaria sentindo, para traduzir naquelas formas e cores tão diferentes do que até ali pintara? Era forçada a reconhecer que era possível antever um efeito de beleza rara. Um vigor pictórico incrível.
         Quando terminaram de comer, juntou os utensílios e os levou para cozinha. Antes de sair falou:
         – Até mais tarde, filha. Vou chamar para a hora do jantar.
         – Obrigada mãe. Até lá vou ter terminado isso aqui. Vou tomar banho antes de jantar.
         Continuou trabalhando com dedicação. Por volta de 18 h e 30 min. deu-se por satisfeita com seu trabalho. Conseguira colocar na tela seus sentimentos mais intensos. Traduzira um turbilhão que rugia em seu íntimo nas cores fortes e contrastantes dos quadros que acabava de pintar. Retirou o avental, removeu com um líquido especial o excesso de tinta de suas mãos e olhou uma última vez para as duas telas ainda nos cavaletes. Ficariam ali até o dia seguinte para a eventualidade de querer fazer algum retoque de última hora.
         Foi para o banheiro e tomou um longo banho morno. Junto com a água que escorria por sua pele sentiu descer para o ralo alguns de seus temores mais recentes. Chegara a recear de ser incapaz de porn a tela o que sentia. O que ficara sobre os dois cavaletes mostrava que era capaz. Dera um passo importante em  sua nova fase de artista. Faria uma série de trabalhos nessa linha antes de se aventurar em algo mais sofisticado. Tivera contato com artistas de outros níveis e sentia-se tentada a galgar esses mesmos patamares. Apenas não iria colocar os pés pelas mãos. Haveria tempo suficiente para tudo isso. Conseguia antever um futuro diversificado em sua produção artística. Inclusive faria tentativas de misturar técnicas diversas no mesmo trabalho. Tentaria harmonizer o traço dos pincéis com as espátulas, esponjas produzindo esfumação, tudo num mesmo conjunto.
         Enquanto isso José Silvério não conseguia se livrar do acúmulo de trabalho. Pediu ao diretor do escritório para lhe providenciar um assistente, pois era forçoso delegar tarefas mais simples para alguém em início de carreira. Tratou-se de conseguir um formando ou recentemente formado. Bastou abrir as inscrições e surgiram um bom número de candidatos. Especialmente os alunos da primeira turma de bacharelandos do curso de direito local. Em poucas semanas estariam colando grau e se pudessem se encaixar em uma posição de assistente de um advogado bem posicionado dentro da carreira, teriam a tarefa de ingressar na profissão bem facilitada.
         As inscrições logo foram encerradas e iniciou-se a seleção. Tinham necessidade de mais dois assistentes para os demais gabinetes. Depois da triagem prévia, chegou o momento da seleção final entre os melhor qualificados. Nessa fase José Silvério quis participar do processo. Queria saber com quem estaria trabalhando. Precisava obter as informações mais detalhadas possíveis do que seria possível esperar do auxiliar. Haveria momentos em que teria necessidade de delegar algumas atividades e poder confiar integralmente no desempenho de quem estivesse sob seu comando.
         Depois de entrevistas, exercícios práticos e uma participação em uma audiência, finalmente foi feita sua escolha. A opção de José recaiu sobre uma jovem, um pouco tímida, mas extremamente competente. Entre todos os candidatos era quem melhor desempenho tivera em todas as atividades a que for a submetida. Foi providenciada uma escrivaninha para colocar num dos cantos do amplo gabinete. Assim a assistente estaria ali para assumir qualquer atividade menos complexa, na impossibilidade do titular. Assim em alguns dias conseguiram colocar a pauta de processos praticamente zerada. À noite ao encerrarem o expediente, ficava apenas uma ou duas pastas ali para o dia seguinte, com entrevistas ou audiências marcadas.
         Dessa forma, no primeiro final de semana José foi para a fazenda. Nas semanas anteriores estivera tão ocupado que nem pensare em ir ver a noiva. Seus pensamentos estariam constantemente voltados para o trabalho e isso não seria justo nem para ele, quanto menos para ela. Haviam se falado por telefone e soubera que ela também estava tendo um nível de produção inesperado. Nunca pintara tanto em tão pouco tempo. Eram até o momento mais de 10 telas prontas. Pelo que ela lhe contou iria se surpreender com o resultado. Eram totalmente diferentes de tudo que pintara até aquele momento.
         Sábado após o almoço colocou algumas roupas numa apequena valise, pegou seu material de barba, loção, escovas de dentes e demais utensílios. Deixaria para tomar banho e fazer a barba na casa de Isabel. Assim estaria limpo e mais apresentável do que se fizesse isso antes. Enfrentar a estrada poeirenta nesses dias de verão, era difícil. Chegava-se ao destino sempre suado e sujo, pouco importando o estado do início da viagem. Chegou e foi recepcionado por Onofre. Isabel ainda estava no atelier. Estava próxima do final de mais dois quadros. Dera agora para pintar dois ao mesmo tempo, com técnicas diferentes. Tinha produzido um monte de coisas novas e o depósito estava cheio de telas para serem usadas.
         – Então é bom deixar ela terminar. Se perturbar agora pode atrapalhar o desenvolvimento do raciocínio e esquecer o que tinha em mente.
         – Eu e Maria Luisa nem entramo no atelier. Está todo atravancado de coisas que nem dá para andar por lá.
         – Essa tournê pelo exterior mexeu com os brios dela, atiçou o gênior criativo e ela está em uma fase de grande produção.
         – Inté parece qui o mundo vai cabaá hoje ou minhã. Percisa faze tudo num dia só.
         – Mas isso passa. Aos poucos ela se acalma. Então volta a ser a doce e meiga Isabel de sempre.
         – Num é que ela tá deferente de dantes. Só não sai daquele atelier. A custo vem pra mesa pra mode come com a gente.
         – Ela ficou muito tempo acumulando ideias e teme que a inspiração vá embora. Quando se der conta que isso só faz aumentar mais ainda a criatividade, ela retorna ao normal.
         – Qui Deus le ouça, José. Nóis quasi num cunversa mais cum ela essas semana despois que vorto dos estrangero.
         – Vou tomar banho e fazer a barba, depois vou espiar no atelier. Vamos ver se consigo tirar ela de lá.
         Pegou sua valise e foi para o quarto que sabia estava sempre pronto à sua espera. Pegou suas roupas limpas, os utensílios para a barba, toalha e sabonete indo para o banheiro. Quando saiu dali, bem barbeado, perfumado, rescendendo loção de barba, uma roupa leve para enfrentar o forte calor, apesar do adiantado da hora, ouviu um leve rumor no cômodo ao final do pequeno corredor. Era o atelier de Isabel. Foi guardar suas coisas, deixando tudo bem arrumado e foi até a porta do atelier.
         Bateu de leve na porta e ouviu a vol dizer lá de dentro:
         – Pode entrar que a porta não está trancada.
         Abriu devagar e falou:
         – Dá licença!
         – Oi! Meu Deus! É você!
         – Quem você pensou que era?
         – Estava tão distraida olhando os meus trabalhos que acabei de terminar e nem percebi que já é tarde. Não vem nem perto de mim pois estou imunda, toda lambusada de tinta e cola.
         – E eu lá me import com isso! O que me interessi é você. O que tem por foram não faz mal.
         – Mas estou vendo que acabou de sair do banho, está perfumado. Eu estou cheirando sour e tinta. Preciso fazer uma ventilação nesse atelier.
         – Por que não põe um ar condicionado?
         – Nem tinha pensado nisso. Agora não preciso mais pedir licença ao papai. Tenho dinheiro para pagar. Aliás acho que vou por isso em toda casa. Chega de dormir mal em noitess de verão.
         – Essa é uma vantagem que ter dinheiro para gastar traz. Pode-se usufruir de algumas comodidades for a do normal das pessoas. Posso ver os seus quadros ou ainda não estão prontos?
         – Estão sim. Estava vendo se tem alguma imperfeição que precise de retoque.
         Ele foi até perto dela e quis abraçá-la, mas ela se esquivou. Ele não insistiu e virou-se para olhar os quadros. O que teve diante de seus olhos era algo incrível. Duas obras primas diria ele em sua pequena capacidade de percepção artística. Mesmo assim era possível ver que, esses estavam em um patamar bem acima dos primeiros que vira. Se daquela vez ficara visivelmente impressionado, imaginem agora. A criatividade de Isabel desabrochara num conjunto de traços vigorossos, cores suaves e tons fortes alternados em perfeita combinação. Permaneceu estático por um longo momento. Seus olhos miravam ora o da direita, ora o da esquerda.
         Ficava difícile dizer qual era mais encantador. Eram executados em técnicas visivelmente diferentes, no entanto tinham igual harmonia. A alma da artista parecia sorrir através das pinturas. Tão ensimesmado ficou que Isabel decidiu falar e tirá-lo daquele enlevo:
         – Não vai falar nada meu bem? Estão tão horrorosos?
         – O quê? Eu estou sem palavras para dizer o que sinto. Você superou qualquer espectativa que eu poderia ter a respeito de seu trabalho. Isso aqui vai fazer furor no mercado de artes. Espera só para ver.
         – Tem tudo isso aqui pronto, – disse ela apontando uma longa fileira de obras colocadas convenientemente suspensas de ganchos fixados no teto.
Ele nem se deu ao trabalho de contar, apenas viu que eram mais de 15. Isso representava a produção de mais de duas pinturas por semana, provavelmente tres ou quatro. Impressionante era a força criadora presente naquele corpo aparentemente frágil de mulher. Tinha no entanto uma energia inerior inigualável.
– Parabéns querida. Vou querer ver um por um, mas não agora. Seus pais estão preocupados com seu rítmo de trabalho. Eu também estive muito atarefado, mas agora com a contratação de uma assistente consegui colocar mais ou menos em ordem.
– Aham! Uma assistente!
– O que tem isso?
– Tinha que ser “uma”, não podia serm “um” assistente?
– Escolhemos o que havia de mais competente disponível. Não acredito que vai ficar com ciumes de mim agora!
– Imagine! Eu com ciumes? Nunca.
– Ainda bem. Eu iria ficar preocupado com isso.
– Afinal eu convivi com uma porção de gente por quase um ano viajando e você ficou aqui. Que eu saiba nunca ficou com ciumes.
– E deveria?
Ela tinha na mão um pincel sujo com resto de tinta e ameaçou passar no rosto dele.
– Vou mostrar como se faz com noivos ciumentos.  
         Ele ficou estático esperando que ela passasse o pincel em seu rosto. Porém parou alguns centímetros antes e sorriu.
         – Você ia deixar eu sujar seu rosto de tint
         – E por que não? Amo você tanto que aceitaria ser pintado inteiro pelos seus pincéis, ou melhor com as mãos. Deve ficar ótimo.
         – Há necessidade de cuidados. Eu preciso comprar luvas para proteger as maos contra alguns componentes tóxicos das tintas.
         Ela retirou o avental e o colocou pendurado em um gancho na parede.
– Vamos que eu também vou tomar banho. Tenho que remover uma tonelada de suor e tinta do corpo.
Sairam e ela entrou no seu quarto, dando antes um beijo bicudo no rosto dele. Sumiu no interior depois de fechar a porta. José foi até a sala, onde não encontrou ninguém e saiu para a varanda. Ali estavam, apreciando o entardecer, Onofre e dona Maria Luisa.
– Conseguiu desentocar a toupeira?
– Consegui. Ela vai tomar banho e depois vem ficar com a gente.
– Qui é que ela tá pintando tanto nesses últimos dias?
– Ela explodiu em cores e formas variadas. Tem mais de quinze quadros novos prontos e dois que terminou há pouco. No rítmo que vai, em seis meses vai ter um estoque de 150 ou 200 para excursionar outra vez.
– Uai! Qui é qui deu nessa? Tá queremo pintá o mundo em um mês?
– O ano passado ela não teve tempo de pintar quase nada. Aprendeu uma enormidade de coisas novas, técnicas diferentes. Está com a cabeça fervendo de ideias e formas.
– Mais ela precise descansar. Não pode trabalhar tanto.
– Vamos ver se convencemos ela a moderar o ritmo.
– Eu vi outro dia dois que ela tava terminando e achei uma coisa muito linda. Apenas não entendi direito o que queria dizer.
– É a pintura mais moderna. É assim mesmo e ela parece que captou muito bem a essência dessa nova vertente artística.
Dona Maria Luisa ofereceu um copo de refresco e todos saborearam um longo gole. Antes de retomarem a conversa, Isabel chegou, com o cabelo ainda molhado do banho. Estava com uma camisa folgada, uma Bermuda deixando ver um maravlhos par de pernas. Essa visão provocou uma perturbação em José Silvério, mas manteve o controle. Estava diante dos pais da noiva e era inconveniente demonstrar suas emoções assim abertamente.
– Té qui enfim, fia. Pensei qui ia ficar pra sempre naquele atelier. Senta aí e toma um refresco.
– Vou tomar sim. Estou mesmo com sede. O refresco vem a calhar.
– Seu noivo tava contano aqui das suas pintura. Pode ir mais devagar qui num vai fartá tempo. Tem a vida inteira pela frente.
         – Vou fazer isso mesmo. Aliás segunda feira vamos para cidade comprar ar condicionado. E não diga que é gastar dinheiro à toa pai. Eu vou pagar. Chega de dormirmos mal nos dias quentes.
         – Carece não minha fia. Nóis veve tantos ano aqui sem isso e nunca sentimo farta.
         – É que nunca tiveram. Não se sente falta do que nunca teve. Depois que tem e fica sem, começa a sentir falta.
         – I já penso na eletricidade que isso vai gastá?
         – Olha aí o sovina! Só podia vir do senhor pai! Pode deixare que eu pago a conta de energia. Importa que a gente tenha mais conforto.
         – Não é isso que estou querendo, mas não se deve nunca gastar mais que o necessário.
         – Quando não for necessário a gente desliga e pronto. Ali no atelier eu pago os meus pecados nesses dias quentes. Tenho vontade de ir lá par baixo das árvores e pintar.
         – I pur que qui num fais isso?
         – A poeira na tinta molhada faria um serviço muito sujo.
         – Talvez servisse como parte da pintura, filha, – falou Maria Luisa.
         – Quero minhas pinturas nas cores que eu pinto e não as que o vento resolver colocar por sua vontade.
         – Tumem num temo razão de brigá, fia. Fais tua vontade. Vamo junto segunda o terça-fera comprá esses tar de ar condicionado.
         – Vão ter que trazer alguém para fazer a instalação. Talvez seja necesário adequar a rede de energia para suportar a carga.
         – Você tem como orientar a gente, José. Contamos com você. Se for preciso trocamos a rede de entrada toda.
         – Pode ser necessário. Não sei a carga que o senhor tem instalada, coronel. Pode ser realmemente preciso trocar tudo. Mas isso é coisa de um ou dois dias de serviço. Os postes são os mesmos. É só puxar os novos cabos, talvez por um novo relógio e pronto. É bom instalar um Sistema trifásico. Assim fica pronto para o uso de motores para automatização de partes do processamento do café, secagem seleção dos grãos e tal.
         – Nós vamos ver isso. Está passado da hora de tornar isso mais prático. Mas podemos ir com calma. Agora até a colheita não dá mais tempo mesmo. É coisa para o outro ano.
         – Viu só veia! Tão queremo comandar a fazenda. Inda to vivo aqui.
         – Pai não estamos querendo passar por cima do senhor. Apenas modernizar as coisas. Para que serve o dinheiro que está guardado no banco?
         – Serve para os caso de percisão, uai!
         – Enquanto isso um mundo de gente sofre trabalhando igual escravo para dar conta do serviço na época da colheita. Vamos entrar para a vida moderna.
         – Sumana qui vem vamo ver isso, fia. Afinal você vai ser a dona da fazenda quando nóis partir dessa vida, tem que começar a pensar no futuro.
         – Essa decisão sua coronel, é muito sábia. Por toda parte pode-se ver as fazendas instalando modernos sistemas de secagem e outros procedimentos. Sua filha está certa e o senhor mais ainda ao aceitar as sugestões dela.
         – Vem comigo filha! Vamos ver como está o andamento do jantar. Me ajuda um pouco lá.
         Com um aceno de mão para o noivo Isabel seguiu a mãe em direção à cozinha. Lá encontraram a cozinheira com quase tudo pronto. Faltava apenas coar o café, coisa de habitualmente ficava a cargo de Isabel. Os pratos e talheres foram levados para a mesa arrumando tudo. Em instantes o cheiro de café recém coado se espalhou pela casa, chegando à varanda onde estavam José Silvério e Onofre. O cheiro inconfundível mexeu com os sentidos dos dois. Nunca deixariam de reagir à sensação desse odor. Ele penetrava em suas narinas e ia diretamente ao cérebro despertando a vontade de tomar uma xícara do líquido saboroso.
         Logo Maria Luisa veio chamar para o jantar. Depois da refeição, um café ainda quentinho, foi saboreado como complemento àos alimentos degustados. Logo estavam vendo as notícias transmitidas pelo jornal nacional na TV Glogo. Foi informado que um pintor bastante famoso na Europa, de nacionalidade italiana, estaria na semana seguinte expondo suas telas no MAM de Belo Horizonte.
         – Os artistas daqui vão expor na Europa e os de lá vem expor aqui também. É uma troca. Vamos ver se a Isabel conheceu esse artista na sua viagem.
         – Qual artista você está falando, meu bem?
         – Deu agora mesmo no Jornal. Um artista italiano está em BH expondo as pinturas dele. Talvez você tenha conhecido ou ouvido falar dele.
         Nisso a notícia voltou a ser apresentada ao retornar dos comerciais e ela apontou dizendo:
         – Conheço ele sim. Ele foi ver minhas exposições na Itália. Até me convidou para almoçarmos uma vez.
         – I ocê aceito, fia?
         – Tive um pouco de receio, mas meu agente foi junto e não aconteceu nada demais.
         – Não haveria por que acontecer alguma coisa. As pessoas são civilizadas pelo mundo.
         – Mas eu não conhecia o homem e não tinha por quê confiar assim sem mais nem menos. Por isso me garanti de minha parte.
         – Tá certa você filha.

         O jornal terminou e em seguida veio um capítulo da novella do horário. Os pais, Onofre e Maria Luisa levantarm para irem dormir. Os jovens ficaram à vontade e tomaram as precauções que julgaram convenientes para evitarem se colocar em situações que pudessem lhes causar aborrecimentos posteriores. No domingo a tardinha, quase início da noite, José retornou para casa. Ficou combinado que na terça feira se veriam na cidade quando Isbel e os pais fossem comprar os aparelhos de ar condicionado e também tratar da negociação das instalações mais modernas no cafezal. Fariam a solicitação de instalação da rede trifásica de energia para cobrir as necessidades futuras.
            Sem querer, José se viu pensando no tal artista italiano como alguém que poderia perturbar o relacionamento que tinha com Isabel. Não sabia dizer por quê, mas pressentia nuvens no horizonte e em vários momentos da semana se pegou com os pensamentos voltados para o tal artista. Era já um homem de uns 45 anos, muito bem apessoado e charmoso. Não seria difícil uma jovem artista se apaixonar por um artista já consagrado que estivesse disponível. Não tinha motivos para suspeitar de Isabel, mas algo lhe espicaçava o espírito. Seria um rival surgindo em sua vida?

Vista do museu do Louvre.

 

Vista do museu do Vaticano.

Fotografias baixadas da internet pelo site de buscas do google.




Mineiro sovina! – Capítulo XVI

 

16. A exposição acontece.
           
            O tempo passara célere e o dia da inauguração da exposição de Isabel na galeria de arte da cidade estava próxima. Os últimos dias foram de uma azáfama intensa. Havia uma porção de coisas lembradas na última hora e requeriam a atenção do responsável pelo evento. Os álbuns fotográficos dos trabalhos haviam sido enviados para a capital Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro e outros centros culturais de relevância. Diversos especialistas haviam confirmado presença na dia da inauguração ou durante os dias em que exposição ficaria aberta.
            José Silvério, dois dias antes da inauguração obteve uma confissão completa e incontestável, resultando na condenação inapelável do réu. Isso foi motivo de celebração no escritório. A equipe em peso veio abraçar o mais jovem advogado pela sua indiscutível habilidade na condução do interrogatório do acusado. Suas anotações foram imprescindíveis para alcançar o objetivo que tinha em mente. O julgamento em questão virou peça de estudos e passou a integrar o rol dos processos famosos. Uma artimanha, um ardil com as palavras certas levara o acusado a se delatar, tornando, a partir daí, infrutíferas as tentativas dos advogados de defesa em sequer amenizar a pena.
            A sentença foi finalmente proferida já altas horas da noite. Toda equipe de acusação, bem como defesa e jurados estava exausta. Foi com um suspiro que todos ouviram o juiz pronunciar os termos condenatórios e por fim encerrar a sessão. O réu, agora condenado, foi conduzido à carceragem, de onde seria recambiado para a penitenciária em Belo Horizonte. O promotor junto ao qual José Silvério atuara na acusação, apertou calorosamente a mão do assistente. Em seguida falou:
            – Doutor! Lhe devo um enorme favor.
            – Por quê o senhor me deve algo?
            – Se não fosse a sua habilidade com as palavras, estaríamos agora vendo o passarinho sair voando livre e desimpedido. Nunca mais o pegaríamos. Assim ele vai ficar uma boa temporada engaoiolado.
            – Nada não, doutor. Apenas usei as palavras de maneira correta. O resto ficou por conta dele.
            – Essa é a questão exatamente. A forma como usou as palavras, como colocou a pergunta, induziram ele em contradição. Quando viu o que tinha falado, não havia mais como retornar. Caira na armadilha e foi só apertar o laço.
            – Foi para isso que estudei tanto tempo, me preparei para o exame da OAB. Na última semana passei horas me debruçando sobre os autos do processo até encontrar o ponto que procurava. Preparei as minhas questões, prevendo possíveis respostas evasivas e joguei a isca. O peixe caiu direitinho.
            – Será meu convidade para jantar no melhor restaurante num dia desses. Eu ligo para combinarmos.
            – Eu aproveito para lhe convidar a visitar a exposição de pintura de uma amiga muito querida. A inauguração é sábado na galeria e vai até o outro domingo.
            – Mas ela já tem alguma fama, ou é iniciante?
            – Primeira exposição. Mas tem mais de cem quadros pintados desde cedo. Enquanto fazia o curso de pintura pintou os primeiros trabalhos e evoluiu gradativamente.
            – Gente da terra?
            – Filha de um cafeeicultor do município.
            – E o pai no mínimo foi seu cliente! Estou certo?
            – Foi sim e eu trouxe uns quadros para o especialista ver. O resultado foi que o homem ficou encantado. Na galeria vai ser possível ver todo o crescimento artística da moça. Vale à pena conferir.
            – Sou apreciador e até entendo um pouco do assunto. Vou ver sim e, se possível, adquirir um ou dois para minha coleção particular. Podem vir a valer um bom dinheiro se ela se tornar mínimamente famosa.
            – Fique à vontade. Ela vai adorar saber que há quem aprecie as suas pinturas.
            – Nos veremos na exposição e semana que vem lhe ligo para marcarmos o jantar.
            – Será um prazer doutor.
            – Somos colegas, doutor.
            – Boa noite. Vou descansar. Amanhã ainda tenho umas audiências pela manhã e à tarde para variar.
            – Vá com Deus, amigo.
            José Silvério foi para a porta de saída, levando em sua valise os papéis que levara para usar no julgamento. Guardaria aquele material como relíquia. Tivera uma atuação brilhante mesmo. Sentia que esse momento ficaria marcado em sua vida profissional. Ao chegar em casa a mãe estava preocupada com sua demora. Habitualmente ele chegava mais cedo ou então lhe ligava avisando que iria se atrasar. Estando no recinto do juri não havia possibilidade de sair nos momentos mais críticos da sessão. Somente ao terminar pudera sair. Nem se dera mais ao trabalho de procurar um telefone público. Em minutos estaria em casa.
            Precisou esclarecer o motive de tudo. Ao saber de tudo a mãe ficou exultante. O seu filho estava atingindo o sucesso que procurara com tanta dedicação e empenho. Em pouco tempo seria olhado como advogado de gabarito. Todos os sacrifícios que ela e o pai haviam feito durante os longos anos de estudos na capital, estariam sendo recompensados. Serviu-lhe o jantar e ele sentou-se para comer. A mãe era toda solicitude e desvelo. Chegava ao exagero. Sua irmã se estivesse ali ficaria enciumada. Voltaria em pouco tempo do cinema onde for a com o namorado.
            Logo o pai veio da sala de televisão e conversaram, ficando também ele satisfeitíssimo com o desempenho do filho.
            – Pelo jeito você está chegando no topo, meu filho.
            – Ninguém no escritório quis pegar essa causa de hoje. Julgavam tempo perdido conseguir a condenação do acusado. Agora que está superado, o problema parece fácil. Na hora não foi brincadeira. Bastaria uma palavra errada, uma entonação titubeante, e ele me escaparia.
            – Mas então estamos diante de um advogado de alto gabarito. Isso merece uma comemoração. Traz aí um vinho.
            – Que é isso pai? Não precisa. Se eu beber agora, amanhã não levanto cedo.
            – E uma taça de vinho vai fazer o que? Vai te fazer dormir melhor.
            Em instantes uma garrafa de bom vinho teve a rolha retirada e as taças foram servidas. Levantaram um brinde:
            – Ao mais novo e famoso advogado de Sete Lagoas!
            – E aos melhores pais do mundo!   
            Os cristais tilintaram e todos beberam um gole do vinho. José continou comendo enquanto os pais ficaram ali, dando sinais de sentirem um orgulho enorme pelo desempenho dele. Quando estava terminando de jantar, chegou a irmã. Ao ver o vinho aberto quis saber o motivo da comemoração.
            – Seu irmão hoje subiu mais um degrau na fama entre os advogados da cidade. Conseguiu a condenação daquele assassin que todos diziam que seria absolvido. Foi a habilidade dele que fez a diferença.
            – Deixe-me abraçar esse homem famoso. Parabéns mano. Eu sabia que iria ficar famoso logo.
            – Você também vai chegar lá.
            – José, esse é Luiz Carlos, meu namorado.
            – Olá cunhado! Tudo bem com você?
            – Tudo ótimo. Parabéns pelo sucesso.
            – Obrigado, Luiz Carlos. Precisamos nos conhecer melhor.
            – Vocês vão ter tempo para isso. Ele vai estar por aqui frequentemente.
            – Gente! Estou exausto. O dia foi longo e cansativo. Vou tomar um banho e dormir. Tenho que levantar cedo amanhã.
            – Durma bem, José. Depois de um gole de vinho e bom janta, vai dormir igual um bebê.
            – Estou precisando. Boa noite a vocês. Sua bênção pai e mãe.
            – Deus lhe abençoe, filho, – disseram os pais em uníssono.
            – Boa noite mano. Durma com os anjos.
            Foi para seu quarto e alguns minutos depois terminava de tomar uma ducha refrescante. Vestiu o pijama, conferiu sua agenda do dia seguinte e deitou par adormir. Elevou o pensamento a Deus pedindo que a exposição de Isabel fosse um sucesso, assim como sua vida pessoal estava virando um sucesso brilhante. Bastaria um empurrão inicial para fazer decolar a carreira da mulher que ele amava em silêncio. Mesmo assim fazia tudo que fosse possível para que ela alcançasse um lugar no mundo artístico.
            As audiências da sexta-feira eram preparatórias de julgamentos posteriors. Em ambos os casos ele atuaria como advogado de defesa. O promotor que no dia anterior estava ao seu lado, estaria na acusação e tentariam medir suas forças intelectuais. Esforçou-se por conseguir o julgamento mais justo possível do seu cliente. Não concordaria em provar inocência de réu confesso, pois isso iria contra as suas convições. Faria o possível para que no dia do juri o acusado recebesse a melhor defesa possível, dentro dos termos da lei. As duas sessões não foram demasiadamente cansativas e ainda cedo estava em casa. De seu quarto ligou para a fazenda, pedindo para falar com Isabel.
             Foi informado de que ela estava na cidade, para cuidar dos últimos detalhes da exposição. Coronel Onofre e a mãe viriam no dia seguinte para a inauguração. Pediu o hotel onde estava hospedada e depois ligou para lá. Em instantes ouviu a voz querida dizendo:
            – Alo!
            – Isabel!
            – Sim, sou eu.
            – José Silvério. Está livre daqui a pouco?
            – Tenho um compromisso, mas é rápido.
            – Aceita jantar comigo?
            – Onde?
            – No lugar que você quiser. Preciso contar umas coisas e desejar sucesso amanhã.
            – Daqui a uma hora estarei esperando. Pode ser?
            – Passo aí lhe pegar. Vamos comer uma comidinha muito fina.
            – Vou ir agora, para não me atrasar.
            – Até depois então.
            Os telefones foram desligados e José cuidou de seu banho, caprichou na barba, dando um último retoque. Usou um perfume suave que ele descobrira ser do agrado de Isabel. Vestiu-se com esmero, sem ostentação. Avisou a mãe de que iria jantar fora. Ela quis saber com quem e ele desconversou. Ficou imaginando quem seria a companhia de seu filho. Será que ele estava sendo tão inteligente na escolha da mulher como se mostrava nos tribunais? Decidiu deixar isso nas mãos de Deus. Esperaria o tempo passar e veria no que isso resultaria. O filho era adulto, profissional e saberia tomar conta de sua vida. Não era mais o seu bebê, como muitas vezes se via no dia a dia.
            Assistiu um pouco de televisão, vendo um jornal local e depois embarcou em seu automóvel, indo buscar Isabel. Ela acabava de chegar do compromisso de última hora que tivera que dar atendimento. Era na verdade uma entrevista a uma equipe de jornalismo da televisão e radio, sobre os seus quadros que seriam expostos na galeria. Mal teve tempo de ir até o seu apartamento pegar uma blusa leve para se proteger do ar mais frio da noite. Desceu e falou:
            – Podemos ir, doutor.
            – Não me chame de doutor, Isabel. Para você sou José.
            – Então José, podemos ir.
            – Assim está melhor. Apenas José.
            Embarcaram no automóvel e foram a um dos restaurantes mais refinados da praça. Ele usare o telefone do quarto para fazer uma reserva de última hora. Graças a Deus conseguira. Chegaram, ele entregou as chaves a um manobrista e conduziu Isabel para a entrada do estabelecimento. Ela ficou maravilhada com o luxo da instalação. Nunca estivera em um restaurante desse nível. Mesmo sendo filha de quem era. O pai não ligava para isso.
            – Aqui você vai conhecer um pouco da alta sociedade de Sete Lagoas, Isabel.
            – Que chique! Quanto luxo! Dá até medo de entrar e sujar.
            – Nem se preocupe. Tem gente para limpar tudo depois. Para isso a gente paga. Tudo isso está incluido no preço dos pratos.
            – Mas que dá pena, isso dá.
            – Vamos ver nossa mesa. Está reservada. Deve ser aquela ali.
            Nisso um garçom se aproximou e perguntou se poderia ajudar.
            – Reservei uma mesa para duas pessoas.
            – Seu nome?
            – José Silvério.
            – Ah! O doutor José Silvério! Sua fama já chegou por aqui. Seja bem vindo a nosso estabelecimento. Por aqui.
            Levou o casal até a mesa cuidadosamente posta à sua espera. Quando ligara o gerente imediatamente ligara o nome ao julgamento do dia anterior e eixigira dos subalternos o máximo de esmero no serviço.
            – Sentem-se por favor! – disse o garçom puxando as cadeiras.
            – Obrigada! – falou Isabel sentando.
            Na mesma hora surgiu nas mãos do garçom o cardápio e colocou um exemplar nas mãos de cada um deles. Ao mesmo tempo perguntou:
            – Aceitam a entrada da casa para hoje?
            – Podemos testar para ver se faz jus à fama, não acha Isabel?
            – Por mim pode ser.
            – Pode trazer. Enquanto isso examinamos o cardápio.
            – Com sua licença, – e o servente se retirou em busca das entradas.
            – Está ficando famos, doutor, alias José.
            – Consequências do trabalho. Não tem como não ficar conhecido. Prefiro ser conhecido e famoso por fazer coisas boas do que por outros motivos.
            – Não resta dúvida. Eu estou nervosa até o último. Não vejo a hora de terminar a inauguração. Nos outros dias tudo vira rotina, mas no primeiro é um sufoco.
            – Por isso eu lhe trouxe aqui hoje. Precisa pensar em coisas diferentes e bonitas. Boa comida e bebida ajuda a deixare a cabeça em melhores condições.
            – Tomara que isso me ajude. Aquela entrevista foi de fazer suar. Me senti flutuando diante das cameras, microfones e tudo isso.
            – Depois você acostuma e vira rotina também.
            Nisso o garçom chegou trazendo as entradas. Eles haviam escolhido para prato principal salmão, acompanhado de aipim, saladas e tempero leve. Não queriam complicações digestivas para o dia de sábado. Enquanto eles comiam os petiscos da entrada e degustavam uma tacinha de aperitivo à base de maracuja, o garçom providenciava os pratos. José Silvério, aproveitou para perguntar:
            – Isabel! Se seu pai concordar, você aceita ser minha namorada?
            – Assim de repente? Não posso pensar um pouco?
            – Eu pedi a seu pain a primeira visita, mas cometi o erro de levar cigarros e fósforos. Ele aceitou um cigarro. Eu gastei dois palitos de fósforos para acender o dele e outro para mim.
            – Já sei o que aconteceu. Ele lhe chamou de perdulário. Onde já se viu gastar dois palitos de fósforos se havia fogo na lareira.
            – Mas ele contou isso?
            – Não. Eu conheço a figura. Ele é sovina como todo mineiro que se preze.
            – Bem, se ele tivesse lhe contado eu iria ficar envergonhado. Mas acho que já posso provar a ele que não vou lhe fazer passar fome depois de casados.
            – Isso só poderia vir de papai. Ele logo pensa em penúria, passar fome e essas coisas. Mas esse é assim e não muda nunca.
            – Eu agora tenho uma posição ótima no escritório, estou ganhando notoriedade profissional. Ganho bem e então vou poder dar a você a vida que merece.
            – Então esses meses todos você está esperando a hora para falar comigo?
            – E eu iria querer afrontar o coronel?
            – Não lhe ocorreu que eu poderia pensar diferente?
            – Espero não tê-la ofendido.
            – Ofender não, mas poderia ter falado comigo antes disso. Eu também fiquei balançada quando lhe vi a primeira vez ali no escritório. Mas pensei que um advogado da cidade não iria querer saber de uma moça da fazenda.
            – Ah! Sim senhorita. Uma moça da fazenda que pinta quadros lindíssimos e logo vai alcançar fama no mundo das artes.
            – Se conseguir vender meus quadros, ganhar alguma coisa com eles já me sinto contente. Nem almejo fama.
            – Escreva o que estou falando. Vou querer garantir minha vez nessa fila antes de os gaviões das capitais colocarem os olhos na sua beleza.
            Os pratos pedidos chegaram e a conversa foi interrompida. O mais importante agora era saborear o sabor do excelente peixe, com o aipim, um crème de legumes, saladas de tomates e alfaces. Para completar pediram um vinho branco de boa procedência. A refeição demorou quase duas horas, desde a hora da chegada até o final. Às 22 h e 15 minutos eles estavam saindo. O vinho que tinham bebido não era dos mais fortes em teor alcoólico e seu efeito já estava terminando. José levou Isabel até a portaria do hotel e antes de se despedir repetiu a pergunta:
            – Você aceita?
            – Aceito, José. Desculpe. Nossa conversa lá no restaurante me fez esquecer de dar a resposta.
            – Sempre é tempo, querida. Posso lhe dar um beijo de boa noite?
            – Aqui em público?
            – Apenas no rosto, é claro.
            Ela aproximou o rosto e ele depositou um beijo suave nas us face. Depois levou a mão aos lábios, beijando-os também.
            – Boa noite e durma bem. Quero você deslumbrante amanhã.
            – Vou fazer o possível.
            Chegou a hora da inauguração. As horas do sábado correram depressa e ao se darem conta era hora de estar a postos para a cerimônia. Uma pequena multidão de fotógrafos, cinegrafistas e reporteres estavam presentes. A fita inaugural foi cortada por Isabel, auxiliada pelos pais. Em seguida os convidados de honra, autoridades, pintores, escultores e outros expoentes do mundo artístico puderam apreciar em primeira mão os quadros. Estavam dispostos traçando a trajetória da artista e a cada passo os visitantes ficavam maravilhados com a clara evolução da técnica. A cada obra o traço ficava mais definido, as cores se fundiam e destacavam ao mesmo tempo, formando um conjunto de uma harmonia incrível. Um coquetel foi oferecido aos convidados e depois a galeria foi fechada. Seria aberta no dia seguinte às 14 horas e ficaria aberta até às 22horas.
            Seria a vez dos visitantes com ingressor, vendidos a preços pouco mais que simbólicos. Dariam, se houvesse um afluxo razoável, para cobrir os custos gerais do evento. Os dias seguintes foram uma verdadeira roda-viva. Os quadros começaram a ter propostas de compra que foram recebidas. No final seriam abertos os envelopes e levaria a obra quem oferecesse o valor mais alto. Desde já ficava reservado à artista o direito de levar os trabalhos, mesmo os vendidos, para a exposição que seria organizada no mes de dezembro em Belo Horizonte. Ao chegar a hora de encerrar, havia uma bela pilha de envelopes com propostas pelos diversos trabalhos.
            Incluindo o último, pintado especialmente para a exposição, todos eles tinham propostas de compra. Fariam a abertura na segunda feira. Depois seria feita a comunicação aos vencedores. Uma porção de escolas levaram os alunos para ver a exposição, sendo que foi feito um acordo para permitir o acesso aos alunos dos estabelecimentos mais carentes. A entrada era franca. O afluxo de visitantes era constante durante todas as horas de abertura da galeria. Assim, o valor arrecadado na venda dos ingressos cobriu folgadamente as despesas e os quadros foram arrematados em sua totalidade por valores até cinco vezes superiors ao mínimo que haviam estabelecido.
            O organizador ficou radiante. Assim ganharia uma bela comissão e teria em mãos uma jóia rara. Levaria seus trabalhos para Belo Horizonte e depois para São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e outras capitas. Talvez até para o exterior, se fosse possível reunir todas ou bom número dos trabalhos. Entre os compradores havia inclusive representantes do exterior. Um colecionador francês havia adquiriro dez dos mais bonitos e queria que o acervo todo fosse levado para França no momento oportuno.

 

            Os adquirentes ficaram muito satisfeitos e concordaram em ceder temporáriamente as obras para integrar exposições em diversos outros centros artísticos. Isso significaria uma grande valorização para o seu investimento. 

Mineiro sovina! – Capítulo XII

 

Vista da cidade de Sete Lagoas.
Rio que corta a cidade de Sete Lagoas.

 

Ação de litígio é julgada.
Na hora estipulada todos os envolvidos na questão, o proponete da ação, o acionado, as testemunhas, os respectivos advogados e algumas pessoas assistentes estavam diante da mesa do Juiz. De um lado estavam Dr. José Silvério, coronel Onofre e quatro testemunhas, sendo dois empregados e dois vizinhos próximos. Eles haviam estado presentes anos antes na ocasião da demarcação que Onofre tinha registrado no cartório junto à documentação de propriedade das terras. Do outro lado Dr. Estevão, Jerônimo e três de seus empregados, além de um outro indivíduo que ninguém ali conhecia. Era o tal agrimensor que fizera a nova demarcação, sem que o coronel tivesse tomado ciência.
O Juiz se dirigiu aos presentes em geral, pronunciando as palavras de abertura da sessão, identificando o assunto em discussão, bem como os envolvidos. Em continuidade passou a palavra ao advogado da acusação, dizendo:
– Doutor José Silvério, há alguma proposta de conciliação de parte de seu constituinte?
– Meu cliente procurou entendimentos anteriores com o citado, mas foi recebido com grosserias e ameaças. Por isso procurou as vias judiciais. No entanto estamos abertos a ouvir qualquer proposta que seja apresentada pelo colega advogado do senhor Jerônimo.
– Doutor Estevão, seu cliente quer fazer alguma proposta de conciliação?
– Vou trocar algumas palavras com meu cliente e já respondo sua pergunta, meritíssimo.
Ficaram alguns instantes falando em voz baixa, mostrando-se Jerônimo bastante agitado. Por fim o advogado dirigiu-se ao Juiz dizendo:
– Meritíssimo, meu cliente não se considera culpado de nenhuma violação do direito de propriedade do seu vizinho e não quer propor nada em termos de conciliação.
– Diante disso, vamos seguir com a audiência. Doutor José, pode apresentar suas testemunhas.
– Vou começar com o senhor Gregório da Silva, vizinho e testemunha de uma demarcação feita em comum acordo entre meu cliente e o pai do senhor Jerônimo.
O citado sentou-se na cadeira das testemunhas e José Silvério continuous:
– Senhor Gregório, o senhor esteve presente quando o coronel Onofre e seu vizinho Juvêncio fizeram a demarcação de suas terras, ficando a divisa claramente estabelecida?
– Sim senhor. Eles se davam bem e fizeram a demarcação para não haver problemas. Os dois trabalham com ramos diferentes. Plantação de café e criação de gado. Não dá para misturar.
– Consegue lembrar quando foi isso?
– Sei ao certo não. Mas foi dantes da revolução de março de 1964. Pouco despois da nauguração de Brasília.
– Sabe se os dois receberam um mapa com a indicação das divisas claramente?
– Isso foi alguns dias despois. O grimensor vorto trazendo um mapa igual pra cada um deles. Cunferiram tudo e eram guarzinho os dois.
– Saberia dizer se esse documento é aquele que viu? – mostrou o papel amarelado pelo tempo, depois de descobrá-lo com cuidado. O senhorr Gregório olhou detidamente e falou:
– É esse sim. Penasmente está um pouco marelado agora. Mas não tenho duvida. É esse mesmo.
– Meritíssimo eu não tenho mais perguntas.
– Doutor Estevão, a testemunha é sua.
– Eu não tenho perguntas.
– Pode chamar outra testemunha.
– Vou chamar o senhor Augusto Ferreira, também testemunha da demarcação.
O nominado sentou-se na cadeira indicada e José Silvério falou:
– Senhor Augusto, o senhor ouviu as perguntas que eu fiz ao seu amigo Gregório e as respostas que ele deu.
– Sim senhor.
– Confirma que esteve presente no mesmo dia e viu o que ele viu?
– Confirmo. Lembro inté como estava o tempo. Era uma seca meia braba e fazia muito calor. Mas estava presente e tudo qui cumpadre Gregório falo é verdade.
– Reconhece o mapa que os dois vizinhos receberam do agrimensor?
– Si reconheço? Mas craro. É esse memo que sinhor tem aí na mesa.
– Obrigado senhor Augusto. Eu não tenho mais perguntas.
– A testemunha é sua doutor Estevão.
– Sem perguntas.
– Pode chamar outra testemunha.
– O senhor Paulo Francisco Alves, empregado do senhor Onofre.
Paulo sentou-se na cadeira e olhou para os lados levemente assustado. Aquele ambiente não condizia com o que era habitual em sua vida. Ouviu o advogado falando e presto atenção:
– Fique calmo Paulo. Só lhe vou perguntar umas poucas coisas. Deve responder só o que eu perguntar.
– Sim sinho! To ouvindo.
– Pode nos contar como foi que descobriram a cerca deslocada e os pés de café cortados naquele ponto da divisa, perto da nascente de água?
– Fais coisa di quatro cinco mes noi stava vistoriano o cafezal pra quelas bandas. Quando chegamo na divisa, eu mais Osvardo Faria, quando vimo aquele monte de pé de café cortado e montoado. Mais adiante vimo a cerca mudada de lugar, um buraco cavado em torno da nascente pra mode o gado beber ali. Estava tudo pisoteado.
– A cerca foi mudada só no lugar da nascente ou a mudança foi maior?
– Mudaro de uns 200 m antes, até outro tanto despois da nascente. Parece inté que fico quase reto. Apenas oiando de longe si pode ver a curva.
– Saberia apontar no mapa o lugar onde isso aconteceu.
– Posso tentar.
José levou até ele o mapa e permitiu que o olhasse atentamente.
– Eu num intendedo dereito esses mapa, mas deve de ser nesse ponto. Começando mais dantes até ali acima. – falou e apontou com o dedo.
– E o que vocês fizeram?
– Nois oiamo dereito e fomo logo contar pra coronel Onofre. Dispois acompanhamo ele até la pra mode ver o acontecido.
– Pela aparência, era coisa recente, ou fazia mais tempo?
– Era coisa de pocos dias dantes. As foia dos cafeeiros ainda num tinha caido.
– Vocês deixaram como estava ou fizeram alguma mudança?
– Coronel mando deixar ansim cumo tava. Num mexemo im nada não.
– Obrigado Paulo. Era só isso.
– Dr. Estevão, quer inquirir a testemunha?
– Uma pergunta, Paulo. Não foram vocês que cortaram a cerca e os cafeeiros a mando do coronel, só para processor o senhor Jerônimo?
– Coronel Onofre é home dereito, doutor. Nunca que ia de mandá faze uma coisa dessa. Te esconjuro, home.
– Não tenho mais perguntas.
– Doutor José, pode chamar outra testemunha.
– Só mais o senhor Osavaldo Farias.
Osvaldo sentou-se na cadeira e sabia que não tinha nada a temer. Olhou firme para frente, esperando as perguntas do advogado.
– Pode nos contar o que viu junto com seu companheiro de trabalho naquele dia na divisa das duas propriedades.
– Tudinho que Paulo Francisco falo é a pura verdade. Eu só quero acrescentá que vi, assim meio de revesgueio, alguém iscondido detrais de umas pedra que tem no pasto do seu Jerônimo. Parecia espreitar o qui noi stava fazendo.
– E essa pessoa fez alguma coisa, se movimentou, falou que o senhor se lembre?
– Só fico bem iscundido. Deve di tê ido contá pro patrão despois qui nois viemo embora. Inquanto nóis tava ali, num si mexeu não.
– E a distância que a cerca foi mudada é em sua opinião o tanto que Gregório disse, é maior ou menor?
– Nóis num medimo, mais deve de ser mai o meno isso qui Gregório disse. No totar uns quatrocentos metro.
Levou até ele o mapa e logo o dedo indicou o ponto em que a violação fora cometida.
– Obrigado Osvaldo. Não tenho mais perguntas.
– Eu também não tenho perguntas, – falou Estevão.
– Doutor Estevão, queira chamar as testemunhas de defesa.
O advogado de defesa levantou, endireitou os óculos sobre o nariz, percorreu com o olhar todos os presentes e falou:
– Vou chamar para depor o senhor Ambrósio Pereira.
O chamado era o mais jovem entre as testemunhas e estava visivelmente perturbado. Sentou-se na cadeira e esperou que lhe perguntasse, dando sinais claros de que, se descuidassem sairia correndo dali, sem olhar para trás.
– Fica tranquilo Ambrósio. Ningém aqui vai lhe fazer mal. Aqui é uma sala onde se administra justiça. Não tenha nenhum medo.
Esperou alguns instantes que as suas palavras fizessem efeito e ao ver que o jovem se sentia mais seguro falou:
– Quanto tempo você está trabalhando para o senhor Jerônimo?
– Eu nasci na fazenda e desde pequeno trabalho lá. Nunca saí de la inté hoje.
– Então conhece aquele terreno como a palma da mão?
– Conheço sim.
– Lembra dessa demarcação que o coronel Onofre está usando para acusar seu patrão de violar a demarcação da divisa?
– Eu devia de ser bem criança. Lembro que meu pai falou disso mas num estive junto durante o serviço.
– Durante esses anos todos, ouviu alguma vez ser falado a respeito de a divisa estar errada?
– Patrão fais anos fala que divisa ali tá errada.
– Esteve junto quando o seu Firmino, aqui presente, fez a nova demarcação, colocando a cerca onde está agora?
– Estive sim sinhor. Ajudei no serviço.
– Ajudou a mudar a cerca?
– Patrão mandou nois mudar a cerca dispois qui empregados di coronel Onofre cortaro os arame, deixando o gado entrar no cafezal.
– Não tenho mais perguntas.
– Doutor José Silvério, a testemunha está à sua disposição.
– Ambrósio, pode me dizer por quê o gado não andou mais longe, causando estrado em outros lugares, só ali naquele ponto perto da nascente?
– Isso eu num sei dizê doutô.
– Vocês estavam vendo eles cortar os arames e foram logo tocar o gado de volta.
– Num sinhô. Nóis vimo isso só dia seguinte. Tinha mais que vinte cabeça do outro lado da cerca.
– E vinte e poucas cabeças de gado, estragaram só o café que estava na parte que seria atingida pela mudança da cerca? Não acha isso um pouco dificil de acreditar?
– Sei dizer não senhor.
– Não tenho mais perguntas.
O juiz determinava ao escrivão algumas anotações específicas, em decorrência das palavras da testemunha.
– Pode chamar outra testemunha.
O doutor Estevão chamou um a um os outros dois e suas respostas ficaram no mesmo nível do prmeiro. Em verdade não tinham muito a acrescentar. O trunfo seria o agrimensor com sua nova demarcação e o novo mapa elaborado.
Pelos depoimentos dos dois outros dois empregados de Jerônimo, José Silvério achou desnecessário fazer perguntas a eles. A última testemunha foi chamada. Era Nicodemos de Almeida Prado. Um home alto e atlético, sinal de que sua atividade transcorria em lugares frequentemente de acesso difícile, sendo necessária uma compleição física avantajada. Sentou-se na cadeira das testemunhas e aguardou. Doutor Estevão passeou o olhar sobre os presentes e falou:
– Senhor Nicodemos, pode nos apresentar suas credenciais de agrimensor?
– Estão aqui, doutor. – retirou do bolso interno do paletó uma carteira de onde retirou um documento com fotografia que o identificava como agrimensor credenciado. Junto entregou também a sua identidade.
Estevão pegou os documentos e os apresentou ao Juiz que os leu, entregou ao escrivão para copier os dados com clareza.
– Já devolve seus documentos, senhor Nicodemos.
Enquanto isso Estevão trocou algumas palavras com a testemunha. Quando o juiz falou:
– Aqui estão seus documentos. Pode guardar. Os dados foram anotados devidamente.
Estevão entregou os documentos e depois se colocou na posição de inquiridor, dizendo:
– Como foi que o senhor veio trabalhar para meu cliente, uma vez que mora bem distante?
– Fui procurado pelo senhor Jerônimo para fazer o serviço, indicado por um cliente que é amigo dele. Me falou não confiar nos demais profissionais. Não posso recusar serviço e vim fazer o trabalho.
– O senhor teve algum contato com o outro interessado, o coronel Onofre aqui presente?
– Sei que ele foi convidado a estar presente, mas não quis saber. Disse confiar na demarcação feita há mais de 15 anos atrás.
– Como foi o trabalho? Encontrou alguma coisa errada?
– Começamos localizando os marcos nas cabeceiras. Depois coloquei o Teodolito e iniciamos a determinação dos pontos de 100 em 100 metros. Na altura da nascente encontrei um desvio da cerca para o lado da propriedade do senhor Jerônimo, de modo que ela ficava do lado do coronel Onofre. O mapa que deixei e que deve estar com o senhor mostra claramente o desvio.
– O o senhor se refere a esse mapa? – disse Estevão levantando bem alto o referido documento.
– Esse mesmo, doutor.
– Vou entregar às mãos do Meritíssimo uma cópia heliográfica para integrar os autos do processo.
Levou até a mesa do magistrado o document original e sua cópia. Foi comparada a cópia com o original e dado como verdadeira. A juntada ao processo foi ordenada.
– Teria mais algo a acrescentar senhor Nicodemos?
– Eu não, doutor.
– Doutor José Silvério, alguma pergunta?
– Sim Meritíssimo. – disse e se dirigiu à testemunha que não esperava por isso. Imaginava que seu depoimento se resumiria ao que dissera. – O senhor sabe identificar detalhes em uma fotografia, senhor Nicodemos?
– Não sou especialista, mas sei sim.
– Eu estive no local, depois que o queixoso senhor Onofre me procurou e com minha camera tirei algumas chapas do local. Mandei fazer ampliações que estão aqui. Poderia olhar para elas e dizer o que nota de errado.
As fotografias mostravam a cerca vista de longe e esta apresentava claramente a existência de uma curva ao redor da nascente. Foram olhadas atentamente pela testemunha e depois ele falou:
– Estas fotos foram tiradas antes. Agora a cerca deve estar reta. Pode ver que eu tenho razão.
– E como explica a existência desses cafeeiros cortados aqui ao lado, mostrados mais detalhadamente na outra foto tirade mais de perto?
– São imagens de épocas diferentes.
– Veja na margem inferior tem a data das imagens. Mostram quando foram feitas.
– Os negativos permitem fazer cópias muito tempo depois.
– Quando o senhor fez a demarcação, havia esse buraco ao redor da nascente que se pod ever aqui nessa outra foto?
– Não, mas isso é o que falei. São de outra data.
– Vou pedir ao Meritíssimo que junte essas cópias aos autos do processo como prova. – Entregou as imagens ao juiz que as observou, depois olhou significativamente para José Silvério e um leve sorriso aflorou ao seu rosto. Mandou ao assistente juntar todas as imagens ao processo.
– Não tenho mais perguntas.
– Doutor Estevão, tem mais testemunhas?
– Tenho sim. O próprio senhor Jerônimo. Faz favor!
Jerônimo levantou e foi sentar-se na cadeira indicada:
– Como foi que o senhor se tornou proprietário da fazenda?
– Sou o herdeiro de meu pai. Tinha uma irmã, mas ela faleceu há alguns anos e não deixou filhos, nem marido.
– O senhor viveu sempre com seu pai?
– Desde criança vivo na fazenda. Aprendi a lidar com gado desde menino.
– Está lembrado da demarcação que o coronel Onofre e seu pai fizeram no começo dos anos 60?
– Lembro. Eu era um menino de 13 anos. Meu pai foi coagido pelo coronel por conta de uma dívida que ele tinha com o coronel. Por isso aceitou aquela demarcação.
– E depois o senhor decidiu colocar a divisa em ordem.
– Demorei um pouco, ocupado com outras coisas. Meu pai deixou umas dívidas que tinham que ser pagas e me preocupei com isso. Agora que está tudo quitado, decidi por esse assunto em ordem.
– Ficou surpreso com a constatação do erro na demarcação?
– Eu não fiquei surpreso, pois sabia pela boca de meu pai que ali havia erro, mas ele aceitou para não ter que pagar na hora a dívida. Inclusive o resto eu paguei depois da morte dele.
– Tem os recibos desses pagamentos?
– Estão aqui. – Tirou de uma pequena bolsa um maço de papéis e separou os recibos relativos à quitação da dívida.
– Vou mostrare esses documentos ao Meritíssimo. Pena que não fizemos cópias deles.
– Se for preciso pode deixare eles no processo.
– Mas eles são documentos seus. Não podem ficar no processo.
– Doutor, me entregue os documentos. Vou pedir ao meirinho para leva-los para tirar cópias. Resolvemos isso já.
Os recibos foram levados para providenciar as cópias pedidas.
– O senhor procurou o coronel para fazerem a nova demarcação?
– Mandei recado mas ele não fez caso. Disse que não carecia de fazer nova demarcação.
– Quem foi levar o recado?
– Foi o Ambrósio, doutor.
– Não tenho mais perguntas.
– Eu também não tenho perguntas.
– Os dois advogados queremo chamar mais alguém?
– Eu vou pedir para que o Ambrósio volta para a cadeira das testemunhas, – falou José Silvério.
Com a autorização do juiz o indicado voltou a sentar na cadeira que lhe causava arrepios. Estava mais apavorado agora do que da primeira vez. Teria que mentir e isso o deixava nervoso demais. Sentou-se e esperou:
– Ambrósio, você levou o recado ao coronel Onofre?
– Levei sim sinhô.
– Lembra que hora foi isso?
– Num lembro dereito. Acho que foi perto de meio dia.
– O que aconteceu na fazenda do coronel?
– Ele mandou os capanga me botar para correr. Disse que não carecia de fazer outra demarcação. Que a diferença era tudo mentira de coronel Onofre.
– Você foi à pé ou à cavalo?
Ambrósio ficou pensativo, parecendo em dúvida sobre o que seria mais conveniente dizer. Sua hesitação deixou evidente que não estava dizendo toda a verdade, ou até mesmo era tudo mentira o que dissera.
– Acho que foi à cavalo, doutô.
d- Não é um pouco esquisito esquecer algo que aconteceu há bem pouco tempo?
– Meritíssimo, o advogado do queixoso está induzindo as respostas de minha testemunha. Ele não está em julgamento.
– Protesto aceito. Retire essas palavras dos autos.
– Não tenho mais perguntas.
– Eu também não, meritíssimo, – falou Estevão.
– Mais algum depoimento para completar a audiência?
Nesse momento coronel Onofre falou ao seu advogado que queria depor.
– Meritíssimo, meu cliente quer contar sua versão dos fatos.
– Pode chamar seu cliente, doutor José.
Sentado na cadeira das testemunhas, Onofre pigarreou preparando-se para falar:
– Coronel, conte-nos o que de fato aconteceu.
Em rápidas palavras o queixoso relatou sua longa relação amistosa com a família de Jerônimo, apenas depois de sua morte, quando o filho deixare a vida de andarilho em companhia de alguns elementos de maus bofes, começaram os problemas. Depois que havia quitado a última parcela da dívida que o pai tinha com ele, coronel Onofre, nunca mais haviam trocado palavra pacífica. Não tinha entendido de início, vindo a perceber tudo recentemente quando vira a mudança da cerca e o estragon no seu cafezal. Pedia a José Silvério para apresentar as cópias do cartório onde tudo estava registrado.
O advogado pegou as citadas cópias e levou até as mãos do juiz. Houve alguns minutos de demora enquanto os documentos eram examinados, lidos, registrados nos autos e anexados ao processo. Doutor Estevão pediu vistas dos documentos e foi nitida sua mudança de atitude. Parecia ter recebido uma ducha de água gelada. Ali estava claramente demonstrada a culpabilidade do seu cliente. Ele subornara o agrimensor que poderia ser inclusive responsabilizado criminalmente pela fraude. Isso era outro assunto, mas o seu cliente estaria inapelavelmente complicado. Ainda mais depois das confissões dos bandidos que cometeram o atentado à seu mando. Teria trabalho em livrar a cara dele de ser peso imediatamente e processado por ser o mandante de uma tentative de homicídio. Via dificuldades pela frente.
– Senhores advogados, querem por acaso seus clientes pensar um momento para saber se não convém fazerem um acordo e encerrar a ação?
– Meu cliente não quer ouvir falar de acordo, – falou doutor Estevão. Estava furioso com Jerônimo, mas nada havia a fazer.
– Meu cliente aceitaria um acordo mediante o retorno da cerca à posição correta e uma indenização menor pelos prejuizos. Poderiamos até pensar na retirada da queixa pelo atentado de que o coronel Onofre foi vítima recentemente. – falou José Silvério.
Ouvindo isso Estevão sentiu renascer as esperanças, mas o cliente estava irredutível, fazendo gestos negativos. Confiava em seus homens e iria dali para sua casa. O coronel lhe pagaria cara essa derrota. Não encontrando respaldo para suas argumentações em favor de um acordo, não restou alternativa ao doutor Estevão e aceitou a situação.
Depois de ter ouvido todos os testemunhos, visto as provas documentais apresentadas pelas partes, diante da negativa da parte acusada de fazer um acordo, o juiz demorou alguns momentos confabulando com o assistente. Determinou ao escrivão a redação da sentença, o que foi feito rapidamente. A máquina de datilografia matraqueava violentamente, enquanto as palavras ditadas em voz baixa pelo magistrado iam sendo registradas no papel. Terminada a redação, feita em três vias, sendo a primeira para ficar anexa ao processo e as outras duas seriam entregues aos querelantes. Assinadas as vias o juiz determinou ao seu assistente a leitura da sentença que dizia, depois de uma introdução identificando os envolvidos, resumindo a queixa:
– Diante de tudo isso, eu, Dr. Osmar Dias Ferreira, Juiz desta comarca condeno o Sr. Jerônimo da Luz a pagar, a título de indenização por danos causados à propriedade de Onofre Pires, a quantia de Cem mil Cruzeiros. Igualmente deverá, às suas custas exclusivas, contratar um agrimensor credenciado para fazer o levantamento dos limites das duas propriedades. Em se constatando o deslocamento dos limites de seu local original, deverá recolocar a cerca na posição devida, deixando um metro de espaço entre a mesma e a divisa. Outrossim, as custas judiciais deverão ser custeadas pelo Sr. Jerônimo. Ambas as partes tem o direito de recorrer desta sentença no prazo máximo estipulado em lei. A sessão está encerrada.
            Quando chegaram a um local afastado convenientemente do gabinete judicial, sentaram-se para conversar. O Cel. Onofre não cabia em si de contentamento. Disse entusiasmado:
            – Quero ver o Jerônimo recorrer. Ele que se meta a besta. A única coisa que vai conseguir é aumentar o tamanho da despesa. O advogado dele deveria aconselhar a ele de não entrar com o recurso.
            – Acho que ele está sujeito a sair do forum direto para a cadeia. Depois de tudo que fez, não duvido um muito. Teremos que esperar para ver o que eles irão fazer. Só podemos tomar qualquer iniciativa depois que eles derem o primeiro passo. Por ora nosso objetivo foi alcançado, – disse o Dr. José Silvério.