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Mineiro sovina! – Capítulo XVIII

Galeria do museu do Vaticano.

 

Pirâmide do museu do Louvre.

 

Prédio de museu em Roma.

 

Um rival na parada.
 
 
         Naquela noite José Silvério teve um pouco mais de privacidade com a noiva. Ela mesma voltara do longo período de ausência aparentemente famainta de carinho, intimidade. Os pais foram dormir e eles permaneceram sentados nos confortáveis estofados da sala. Estavam bem juntos, trocaram beijos, primeiro levemente tímidos e aos poucos ganharam em ardor. Parecia que o contato com os diferentes povos da Europa especialmente, haviam deixado marcas nas atitudes e sentimentos da jovem. Antes que ultrapassassem determinados limites José fez uma pausa e falou:
         – Meu bem! Eu te amos mais que a qualquer coisa nesse mundo. Sou feito de carne e osso. Se nós continuarmos teremos que ir amanhã para diante do juiz e fazer nosso casamento.
         – E isso faria você ficar encabulado?
         – Digamos que não era exatamente isso que estava em meus planos. Mas, não havendo alternativa, eu encaro essa sem problema. É isso que você quer, meu amor?
         – Também não era meu roteiro de vida, mas esses meses todos longe me deixaram muito carente. Gostaria de poder partilhar todos os momentos com você.
         – Não teremos que esperar muito. Apenas os meses para providenciar onde vamos morar, preparar a festa do casamento, tramitar os papéis na Igreja e no civil. Leva algum tempo, mas não é demais.
         – De fato não será conveniente pisar diante do padre usando um vestido branco de noiva e já ter perdido a pureza própria da situação. Acho que mamãe ficaria muito triste. Não custa muito dar a ela essa alegria.
         – Sua mãe merece todo respeito de nossa parte. Se foi possível mantermos nossos instintos sob controle até hoje, podemos esperar mais uns meses.
         – Eu li algumas notícias na Europa e Estados Unidos que mostram isso como coisa ultrapassada. Até aqui no Brasil já há gente dando a minima para a virgindade e essas coisas todas.
         – Provavelmente daqui a alguns anos esses conceitos e tradições serão coisa do passado. O que dá um certo receio é que, estão querendo derrubar as tradições, proibições do passado, mas ninguém sabe ao certo o quê colocar no lugar.
         – Há muita gente dizendo que família é uma instituição falida, não tem mais sentido. Gostaria de saber como vão ser educados os filhos nascidos nesse caos resultante dessas mudanças todas. Qualquer hora vão aprovar a legalização do divórcio, há mesmo quem queira o mesmo para o aborto. Acho que é muita mudança para uma vez só.
         – Fico feliz em saber que você tem uma visão equilibrada sobre essas questões. Ficaria preocupado se estivesse imbuida de que essas modificações são algo necessário de imediato. Que irão acontecer em algum momento no futuro não resta dúvida. Importa que antes seja realizada uma análise profunda de todas as consequências e implicações que trarão consigo.
         – Eu imagino como ficarão vocês advogados quando essas leis forem aprovadas.
         – Teremos que nos adaptar, mesmo que custe um pouco da nossa maneira de ver os fatos. Seremos obrigados a nos manter dentro dos limites legais estabelecidos.
         – Eu sempre me pergunto se a palavra fria da lei consegue abranger toda a variada gama de situações possíveis.
         – Com certeza que não. Demora uma boa temporada até que seja estabelecida uma certa jurisprudência. Ela servirá de baliza aos novos processos e suas decisões ao final. Cada juiz que inferior uma forma inovadora de aplicar a palavra da lei constitui um marco nesse conjunto de normas informais. São a parte não escrita da lei, que passa a fazer parte dos processos e das decisões transformadas em sentenças.
         – Pensei que minha vida de pintora era complicada, mas vejo que a de advogado é muito mais. Não deve ser fácil encontrar o caminho no meio de todo esse emaranhado de leis, decretos e normas. Ainda mais essa tal jurisprudência para aumentar a confusão.
         – A prática ajuda bastante. Hoje temos uma facilidade ampliada com as compilações em compêndios. Pior era algumas décadas passadas. Os advogados sofriam para conseguir encontrar o caminho. Eram noites inteiras em claro para encontrar a forma de defender um cliente, acusar um malfeitor. Houve gente que fez verdadeiras maratonas nesse frenesí. Quando o julgamento está marcado, não há como deixare de comparrecer. Às vezes conseguimos adiar a realização, mas precisamos de um motive justificado para isso.
         – Acho que vou fazer o meu atelier ao lado de seu estúdio de trabalho em nossa casa. Enquanto você estuda seus processos em desenvolvo meu trabalho de pintura.
         – Será que é uma boa ideia? No começo creio que corremos o perígo de esquecer de nossos afazeres e partir para outras coisas.
         – O jeito vai ser colocar uma divisória gradeada para nos manter afastados.
         – Melhor começar cada um em seu canto. Depois poderemos ficar mais próximos.
         – Acho melhor irmos dormir. Amanhã você terá que sair cedo para cuidar de seus compromissos. Eu por minha vez vou aprontar meu atelier para começar a pintar. Etou cheia de ideias para colocar em prática. Técnicas novas que aprendi, só de olhar alguns artistas da Europa trabalhar.
         – Mas sobrou tempo para aprender coisas novas, com toda correria que foi sua excursão?
         – Sempre sobra e a gente aprende apenas num rápido olhar. O resto fica por conta da criatividade.
         Um último e prolongado beijo encerrou a noite. Depois um abraço carinhoso, os corpos colados sentindo o pulsar mútuo dos coraçoes, antes de se dizerem Boa noite. José já sabia onde deveria deitar e foi para o quarto. Fez isso a contragosto, pois tinha vontade mesmo de tomar a noiva nos braços e deposit-la na cama, iniciando um prolongado processo de despí-la lentamente. Depois viria a última etapa antes da união física dos corpos. Ansiava por esse momento, mas estava encaminhado para a realização de seus desejos em tempo não muito longo. Tinha que ser forte nesse interval. Não queria manchar sua reputação de advogado destacado, transgredindo as normas do respeito à casa do futuro sogro.
         Era tido praticamente como um filho tanto por Onofre, quanto por Maria Luisa. Eles não mereciam que manchasse a honra da casa, deixando de corresponder à confiança que nele depositavam. Passou um longo tempo deitado com a mente em turbilhão. Sentados no estofado haviam trocado carícias signficativamente mais íntimas do que jamais haviam ousado antes. Sentra sob suas mãos, através do fino tecido a pele fremindo de desejo. Os seios bem proporcionados haviam se enrijecido sob o efeito da proximidade do corpo masculine. Conseguira perceber que ela ardia em desejo por ele com intensidade semelhante ou até mesmo maior que ele por ela. Fora a educação recebida desde a infância que os fizera se conrolar.
         No outro aposento por seu lado Isabel rolava de um lado para outro em sua cama. Tinha dificuldade em acalmar o fogo que lhe consumia as entranhas. O que ficara por tanto tempo submisso e controlado, explodira igual um vulcão ao toque suave das mãos de José. Nesse momento, a simples lembrança do noivo, suscitava em se user sucessivas ondas de calor. Precisou de grande esforço para não levantar e se esgueirar para o quarto do noivo. Ocorreu-lhe que, não faria nenhuma diferença se o encontro tão desejado dos dois corpos se realizasse agora ou dali a alguns meses. Nesse momento lembrou de seu pai de olhar severo, a mãe sonhadora e se controlou. O tempo agiria a seu favor. Mergulharia no trabalho, extravasando toda sua paixão em formas e cores, bem mais ousadas do que qualquer coisa que já pintara até o dia de hoje. Mil imagens dançavam diante seus olhos e um arco-írias de mil cores se espraiava no espaço.
         Ambos dormiram algumas horas de sono agitado. Mal o sol apareceu no horizonte, estavam em pé. José para empreender a viagem até a cidade depois de um rápido desjejum providenciado pela cozinheira sob o comando de dona Maria Luisa. Ele estava à meio com seu café, quando entrou e o cumprimentou Isabel. Eram visíveis nos olhos de ambos as horas insones transcorridas antes de acalmarem seus hormônios. Sentou-se para também tomar se desjejum. Alguns minutos depois José se despediu, depois de olhar em seu relógio de pulso. Se não se apressasse chegaria atrasado, sem esquecer que, cada minute ao lado da noiva aumentava o risco de atrasar mais um pouco.
         Nas primeiras semanas ambos mergulharam no trabalho. José vira a pilha de processos em sua mesa crescere, apesar de seu empenho em dar andamento diário a tudo que fosse possível. Acontecia que, sua crescente notoriedade no mundo jurídico, fizera crescere o número de clientes que procuravam seus serviços. Não havia mais necessidade de o diretor do escritório destinar trabalho a ele. Os clientes por si mesmos solicitavam atendimento de parte dele. Junto com um acrséscimo aos rendimentos, vinha também um enorme aumento de horas dedicadas ao estudo das leis, seus artigos, parágrafos e ítens a serem aplicados a cada caso. Não tardou e começou a sair do escritório apenas depois de oito ou nove horas da noite.

Museu do Vaticano.
Ruinas romanas.
Turistas visitando museu do Vaticano.


         Já Isabel começou por vir até a cidade arrematar praticamente o estoque de telas, tintas, pincéis, espátulas e outros apetrechos usados em seus trabalhos. Havia alguns que nunca usara, mas estava disposta a experimentar. Em pouco tempo descobriu um imenso campo novo descortinar-se ante os olhos da mente. Os trabalhos se sucederam e rápida sequência, chegando a estarem lado a lado mais de um deles. Enquanto refletia sobre os próximos traços, cores e tons de um aplicava palhetas, espátulas e outros recursos no trabalho no cavalete ao lado. Em menos de um mês uma variedade ampla e em bom número de trabalhos estava colocado nos ganchos dispostos ao longo da parede. Dali sairiam depois de completarem a secagem.
         Em determinado dia da segunda semana, Maria Luisa ousara abrir a porta do atelier e encontrou a filha inteira suja de tintas. O avental dava a impressão de ter sido usado por um pintor de paredes durante alguns meses sem lavar. Até seus lindos cabelos haviam recebido alguns respingos. A tentativa de remover a tinta com a mão, espalhara-a, tornando o estrago mais intense. Os olhos arregalados da mãe a fizeram perguntar:
         – O que foi mãe? Viu fantasma?
         – Eu vi você, minha filha, toda suja de tinta. – falou controlando a vontade de rir.
         – Sei que estou toda suja, mas não vou parar antes de concluir esses dois quadros. Minha alma inteira está se derramando sobre as telas e variadas cores.
         – Quer um refresco ou um café, querida?
         – Vou aceitar sim, mãe. Um café com bolo se tiver. Mas traga aqui no atelier. Não vou sair daqui.
         Alguns minutos depois a mãe chegou com o café recém coado, uma travessa com fatias de bolo, alguns biscoitos e procurou um lugar para apoiar o que lhe ocupava as mãos. Isabel afastou potes de tinta e outros apetrechos. Depois ajudou a mãe a se livrar do que trazia. Pucharam duas banquetas em que sentaram e tomaram café, comeram bolo e biscoitos. Maria Luisa olhou para as telas quase acabadas e tomou um leve susto. O que a filha estaria sentindo, para traduzir naquelas formas e cores tão diferentes do que até ali pintara? Era forçada a reconhecer que era possível antever um efeito de beleza rara. Um vigor pictórico incrível.
         Quando terminaram de comer, juntou os utensílios e os levou para cozinha. Antes de sair falou:
         – Até mais tarde, filha. Vou chamar para a hora do jantar.
         – Obrigada mãe. Até lá vou ter terminado isso aqui. Vou tomar banho antes de jantar.
         Continuou trabalhando com dedicação. Por volta de 18 h e 30 min. deu-se por satisfeita com seu trabalho. Conseguira colocar na tela seus sentimentos mais intensos. Traduzira um turbilhão que rugia em seu íntimo nas cores fortes e contrastantes dos quadros que acabava de pintar. Retirou o avental, removeu com um líquido especial o excesso de tinta de suas mãos e olhou uma última vez para as duas telas ainda nos cavaletes. Ficariam ali até o dia seguinte para a eventualidade de querer fazer algum retoque de última hora.
         Foi para o banheiro e tomou um longo banho morno. Junto com a água que escorria por sua pele sentiu descer para o ralo alguns de seus temores mais recentes. Chegara a recear de ser incapaz de porn a tela o que sentia. O que ficara sobre os dois cavaletes mostrava que era capaz. Dera um passo importante em  sua nova fase de artista. Faria uma série de trabalhos nessa linha antes de se aventurar em algo mais sofisticado. Tivera contato com artistas de outros níveis e sentia-se tentada a galgar esses mesmos patamares. Apenas não iria colocar os pés pelas mãos. Haveria tempo suficiente para tudo isso. Conseguia antever um futuro diversificado em sua produção artística. Inclusive faria tentativas de misturar técnicas diversas no mesmo trabalho. Tentaria harmonizer o traço dos pincéis com as espátulas, esponjas produzindo esfumação, tudo num mesmo conjunto.
         Enquanto isso José Silvério não conseguia se livrar do acúmulo de trabalho. Pediu ao diretor do escritório para lhe providenciar um assistente, pois era forçoso delegar tarefas mais simples para alguém em início de carreira. Tratou-se de conseguir um formando ou recentemente formado. Bastou abrir as inscrições e surgiram um bom número de candidatos. Especialmente os alunos da primeira turma de bacharelandos do curso de direito local. Em poucas semanas estariam colando grau e se pudessem se encaixar em uma posição de assistente de um advogado bem posicionado dentro da carreira, teriam a tarefa de ingressar na profissão bem facilitada.
         As inscrições logo foram encerradas e iniciou-se a seleção. Tinham necessidade de mais dois assistentes para os demais gabinetes. Depois da triagem prévia, chegou o momento da seleção final entre os melhor qualificados. Nessa fase José Silvério quis participar do processo. Queria saber com quem estaria trabalhando. Precisava obter as informações mais detalhadas possíveis do que seria possível esperar do auxiliar. Haveria momentos em que teria necessidade de delegar algumas atividades e poder confiar integralmente no desempenho de quem estivesse sob seu comando.
         Depois de entrevistas, exercícios práticos e uma participação em uma audiência, finalmente foi feita sua escolha. A opção de José recaiu sobre uma jovem, um pouco tímida, mas extremamente competente. Entre todos os candidatos era quem melhor desempenho tivera em todas as atividades a que for a submetida. Foi providenciada uma escrivaninha para colocar num dos cantos do amplo gabinete. Assim a assistente estaria ali para assumir qualquer atividade menos complexa, na impossibilidade do titular. Assim em alguns dias conseguiram colocar a pauta de processos praticamente zerada. À noite ao encerrarem o expediente, ficava apenas uma ou duas pastas ali para o dia seguinte, com entrevistas ou audiências marcadas.
         Dessa forma, no primeiro final de semana José foi para a fazenda. Nas semanas anteriores estivera tão ocupado que nem pensare em ir ver a noiva. Seus pensamentos estariam constantemente voltados para o trabalho e isso não seria justo nem para ele, quanto menos para ela. Haviam se falado por telefone e soubera que ela também estava tendo um nível de produção inesperado. Nunca pintara tanto em tão pouco tempo. Eram até o momento mais de 10 telas prontas. Pelo que ela lhe contou iria se surpreender com o resultado. Eram totalmente diferentes de tudo que pintara até aquele momento.
         Sábado após o almoço colocou algumas roupas numa apequena valise, pegou seu material de barba, loção, escovas de dentes e demais utensílios. Deixaria para tomar banho e fazer a barba na casa de Isabel. Assim estaria limpo e mais apresentável do que se fizesse isso antes. Enfrentar a estrada poeirenta nesses dias de verão, era difícil. Chegava-se ao destino sempre suado e sujo, pouco importando o estado do início da viagem. Chegou e foi recepcionado por Onofre. Isabel ainda estava no atelier. Estava próxima do final de mais dois quadros. Dera agora para pintar dois ao mesmo tempo, com técnicas diferentes. Tinha produzido um monte de coisas novas e o depósito estava cheio de telas para serem usadas.
         – Então é bom deixar ela terminar. Se perturbar agora pode atrapalhar o desenvolvimento do raciocínio e esquecer o que tinha em mente.
         – Eu e Maria Luisa nem entramo no atelier. Está todo atravancado de coisas que nem dá para andar por lá.
         – Essa tournê pelo exterior mexeu com os brios dela, atiçou o gênior criativo e ela está em uma fase de grande produção.
         – Inté parece qui o mundo vai cabaá hoje ou minhã. Percisa faze tudo num dia só.
         – Mas isso passa. Aos poucos ela se acalma. Então volta a ser a doce e meiga Isabel de sempre.
         – Num é que ela tá deferente de dantes. Só não sai daquele atelier. A custo vem pra mesa pra mode come com a gente.
         – Ela ficou muito tempo acumulando ideias e teme que a inspiração vá embora. Quando se der conta que isso só faz aumentar mais ainda a criatividade, ela retorna ao normal.
         – Qui Deus le ouça, José. Nóis quasi num cunversa mais cum ela essas semana despois que vorto dos estrangero.
         – Vou tomar banho e fazer a barba, depois vou espiar no atelier. Vamos ver se consigo tirar ela de lá.
         Pegou sua valise e foi para o quarto que sabia estava sempre pronto à sua espera. Pegou suas roupas limpas, os utensílios para a barba, toalha e sabonete indo para o banheiro. Quando saiu dali, bem barbeado, perfumado, rescendendo loção de barba, uma roupa leve para enfrentar o forte calor, apesar do adiantado da hora, ouviu um leve rumor no cômodo ao final do pequeno corredor. Era o atelier de Isabel. Foi guardar suas coisas, deixando tudo bem arrumado e foi até a porta do atelier.
         Bateu de leve na porta e ouviu a vol dizer lá de dentro:
         – Pode entrar que a porta não está trancada.
         Abriu devagar e falou:
         – Dá licença!
         – Oi! Meu Deus! É você!
         – Quem você pensou que era?
         – Estava tão distraida olhando os meus trabalhos que acabei de terminar e nem percebi que já é tarde. Não vem nem perto de mim pois estou imunda, toda lambusada de tinta e cola.
         – E eu lá me import com isso! O que me interessi é você. O que tem por foram não faz mal.
         – Mas estou vendo que acabou de sair do banho, está perfumado. Eu estou cheirando sour e tinta. Preciso fazer uma ventilação nesse atelier.
         – Por que não põe um ar condicionado?
         – Nem tinha pensado nisso. Agora não preciso mais pedir licença ao papai. Tenho dinheiro para pagar. Aliás acho que vou por isso em toda casa. Chega de dormir mal em noitess de verão.
         – Essa é uma vantagem que ter dinheiro para gastar traz. Pode-se usufruir de algumas comodidades for a do normal das pessoas. Posso ver os seus quadros ou ainda não estão prontos?
         – Estão sim. Estava vendo se tem alguma imperfeição que precise de retoque.
         Ele foi até perto dela e quis abraçá-la, mas ela se esquivou. Ele não insistiu e virou-se para olhar os quadros. O que teve diante de seus olhos era algo incrível. Duas obras primas diria ele em sua pequena capacidade de percepção artística. Mesmo assim era possível ver que, esses estavam em um patamar bem acima dos primeiros que vira. Se daquela vez ficara visivelmente impressionado, imaginem agora. A criatividade de Isabel desabrochara num conjunto de traços vigorossos, cores suaves e tons fortes alternados em perfeita combinação. Permaneceu estático por um longo momento. Seus olhos miravam ora o da direita, ora o da esquerda.
         Ficava difícile dizer qual era mais encantador. Eram executados em técnicas visivelmente diferentes, no entanto tinham igual harmonia. A alma da artista parecia sorrir através das pinturas. Tão ensimesmado ficou que Isabel decidiu falar e tirá-lo daquele enlevo:
         – Não vai falar nada meu bem? Estão tão horrorosos?
         – O quê? Eu estou sem palavras para dizer o que sinto. Você superou qualquer espectativa que eu poderia ter a respeito de seu trabalho. Isso aqui vai fazer furor no mercado de artes. Espera só para ver.
         – Tem tudo isso aqui pronto, – disse ela apontando uma longa fileira de obras colocadas convenientemente suspensas de ganchos fixados no teto.
Ele nem se deu ao trabalho de contar, apenas viu que eram mais de 15. Isso representava a produção de mais de duas pinturas por semana, provavelmente tres ou quatro. Impressionante era a força criadora presente naquele corpo aparentemente frágil de mulher. Tinha no entanto uma energia inerior inigualável.
– Parabéns querida. Vou querer ver um por um, mas não agora. Seus pais estão preocupados com seu rítmo de trabalho. Eu também estive muito atarefado, mas agora com a contratação de uma assistente consegui colocar mais ou menos em ordem.
– Aham! Uma assistente!
– O que tem isso?
– Tinha que ser “uma”, não podia serm “um” assistente?
– Escolhemos o que havia de mais competente disponível. Não acredito que vai ficar com ciumes de mim agora!
– Imagine! Eu com ciumes? Nunca.
– Ainda bem. Eu iria ficar preocupado com isso.
– Afinal eu convivi com uma porção de gente por quase um ano viajando e você ficou aqui. Que eu saiba nunca ficou com ciumes.
– E deveria?
Ela tinha na mão um pincel sujo com resto de tinta e ameaçou passar no rosto dele.
– Vou mostrar como se faz com noivos ciumentos.  
         Ele ficou estático esperando que ela passasse o pincel em seu rosto. Porém parou alguns centímetros antes e sorriu.
         – Você ia deixar eu sujar seu rosto de tint
         – E por que não? Amo você tanto que aceitaria ser pintado inteiro pelos seus pincéis, ou melhor com as mãos. Deve ficar ótimo.
         – Há necessidade de cuidados. Eu preciso comprar luvas para proteger as maos contra alguns componentes tóxicos das tintas.
         Ela retirou o avental e o colocou pendurado em um gancho na parede.
– Vamos que eu também vou tomar banho. Tenho que remover uma tonelada de suor e tinta do corpo.
Sairam e ela entrou no seu quarto, dando antes um beijo bicudo no rosto dele. Sumiu no interior depois de fechar a porta. José foi até a sala, onde não encontrou ninguém e saiu para a varanda. Ali estavam, apreciando o entardecer, Onofre e dona Maria Luisa.
– Conseguiu desentocar a toupeira?
– Consegui. Ela vai tomar banho e depois vem ficar com a gente.
– Qui é que ela tá pintando tanto nesses últimos dias?
– Ela explodiu em cores e formas variadas. Tem mais de quinze quadros novos prontos e dois que terminou há pouco. No rítmo que vai, em seis meses vai ter um estoque de 150 ou 200 para excursionar outra vez.
– Uai! Qui é qui deu nessa? Tá queremo pintá o mundo em um mês?
– O ano passado ela não teve tempo de pintar quase nada. Aprendeu uma enormidade de coisas novas, técnicas diferentes. Está com a cabeça fervendo de ideias e formas.
– Mais ela precise descansar. Não pode trabalhar tanto.
– Vamos ver se convencemos ela a moderar o ritmo.
– Eu vi outro dia dois que ela tava terminando e achei uma coisa muito linda. Apenas não entendi direito o que queria dizer.
– É a pintura mais moderna. É assim mesmo e ela parece que captou muito bem a essência dessa nova vertente artística.
Dona Maria Luisa ofereceu um copo de refresco e todos saborearam um longo gole. Antes de retomarem a conversa, Isabel chegou, com o cabelo ainda molhado do banho. Estava com uma camisa folgada, uma Bermuda deixando ver um maravlhos par de pernas. Essa visão provocou uma perturbação em José Silvério, mas manteve o controle. Estava diante dos pais da noiva e era inconveniente demonstrar suas emoções assim abertamente.
– Té qui enfim, fia. Pensei qui ia ficar pra sempre naquele atelier. Senta aí e toma um refresco.
– Vou tomar sim. Estou mesmo com sede. O refresco vem a calhar.
– Seu noivo tava contano aqui das suas pintura. Pode ir mais devagar qui num vai fartá tempo. Tem a vida inteira pela frente.
         – Vou fazer isso mesmo. Aliás segunda feira vamos para cidade comprar ar condicionado. E não diga que é gastar dinheiro à toa pai. Eu vou pagar. Chega de dormirmos mal nos dias quentes.
         – Carece não minha fia. Nóis veve tantos ano aqui sem isso e nunca sentimo farta.
         – É que nunca tiveram. Não se sente falta do que nunca teve. Depois que tem e fica sem, começa a sentir falta.
         – I já penso na eletricidade que isso vai gastá?
         – Olha aí o sovina! Só podia vir do senhor pai! Pode deixare que eu pago a conta de energia. Importa que a gente tenha mais conforto.
         – Não é isso que estou querendo, mas não se deve nunca gastar mais que o necessário.
         – Quando não for necessário a gente desliga e pronto. Ali no atelier eu pago os meus pecados nesses dias quentes. Tenho vontade de ir lá par baixo das árvores e pintar.
         – I pur que qui num fais isso?
         – A poeira na tinta molhada faria um serviço muito sujo.
         – Talvez servisse como parte da pintura, filha, – falou Maria Luisa.
         – Quero minhas pinturas nas cores que eu pinto e não as que o vento resolver colocar por sua vontade.
         – Tumem num temo razão de brigá, fia. Fais tua vontade. Vamo junto segunda o terça-fera comprá esses tar de ar condicionado.
         – Vão ter que trazer alguém para fazer a instalação. Talvez seja necesário adequar a rede de energia para suportar a carga.
         – Você tem como orientar a gente, José. Contamos com você. Se for preciso trocamos a rede de entrada toda.
         – Pode ser necessário. Não sei a carga que o senhor tem instalada, coronel. Pode ser realmemente preciso trocar tudo. Mas isso é coisa de um ou dois dias de serviço. Os postes são os mesmos. É só puxar os novos cabos, talvez por um novo relógio e pronto. É bom instalar um Sistema trifásico. Assim fica pronto para o uso de motores para automatização de partes do processamento do café, secagem seleção dos grãos e tal.
         – Nós vamos ver isso. Está passado da hora de tornar isso mais prático. Mas podemos ir com calma. Agora até a colheita não dá mais tempo mesmo. É coisa para o outro ano.
         – Viu só veia! Tão queremo comandar a fazenda. Inda to vivo aqui.
         – Pai não estamos querendo passar por cima do senhor. Apenas modernizar as coisas. Para que serve o dinheiro que está guardado no banco?
         – Serve para os caso de percisão, uai!
         – Enquanto isso um mundo de gente sofre trabalhando igual escravo para dar conta do serviço na época da colheita. Vamos entrar para a vida moderna.
         – Sumana qui vem vamo ver isso, fia. Afinal você vai ser a dona da fazenda quando nóis partir dessa vida, tem que começar a pensar no futuro.
         – Essa decisão sua coronel, é muito sábia. Por toda parte pode-se ver as fazendas instalando modernos sistemas de secagem e outros procedimentos. Sua filha está certa e o senhor mais ainda ao aceitar as sugestões dela.
         – Vem comigo filha! Vamos ver como está o andamento do jantar. Me ajuda um pouco lá.
         Com um aceno de mão para o noivo Isabel seguiu a mãe em direção à cozinha. Lá encontraram a cozinheira com quase tudo pronto. Faltava apenas coar o café, coisa de habitualmente ficava a cargo de Isabel. Os pratos e talheres foram levados para a mesa arrumando tudo. Em instantes o cheiro de café recém coado se espalhou pela casa, chegando à varanda onde estavam José Silvério e Onofre. O cheiro inconfundível mexeu com os sentidos dos dois. Nunca deixariam de reagir à sensação desse odor. Ele penetrava em suas narinas e ia diretamente ao cérebro despertando a vontade de tomar uma xícara do líquido saboroso.
         Logo Maria Luisa veio chamar para o jantar. Depois da refeição, um café ainda quentinho, foi saboreado como complemento àos alimentos degustados. Logo estavam vendo as notícias transmitidas pelo jornal nacional na TV Glogo. Foi informado que um pintor bastante famoso na Europa, de nacionalidade italiana, estaria na semana seguinte expondo suas telas no MAM de Belo Horizonte.
         – Os artistas daqui vão expor na Europa e os de lá vem expor aqui também. É uma troca. Vamos ver se a Isabel conheceu esse artista na sua viagem.
         – Qual artista você está falando, meu bem?
         – Deu agora mesmo no Jornal. Um artista italiano está em BH expondo as pinturas dele. Talvez você tenha conhecido ou ouvido falar dele.
         Nisso a notícia voltou a ser apresentada ao retornar dos comerciais e ela apontou dizendo:
         – Conheço ele sim. Ele foi ver minhas exposições na Itália. Até me convidou para almoçarmos uma vez.
         – I ocê aceito, fia?
         – Tive um pouco de receio, mas meu agente foi junto e não aconteceu nada demais.
         – Não haveria por que acontecer alguma coisa. As pessoas são civilizadas pelo mundo.
         – Mas eu não conhecia o homem e não tinha por quê confiar assim sem mais nem menos. Por isso me garanti de minha parte.
         – Tá certa você filha.

         O jornal terminou e em seguida veio um capítulo da novella do horário. Os pais, Onofre e Maria Luisa levantarm para irem dormir. Os jovens ficaram à vontade e tomaram as precauções que julgaram convenientes para evitarem se colocar em situações que pudessem lhes causar aborrecimentos posteriores. No domingo a tardinha, quase início da noite, José retornou para casa. Ficou combinado que na terça feira se veriam na cidade quando Isbel e os pais fossem comprar os aparelhos de ar condicionado e também tratar da negociação das instalações mais modernas no cafezal. Fariam a solicitação de instalação da rede trifásica de energia para cobrir as necessidades futuras.
            Sem querer, José se viu pensando no tal artista italiano como alguém que poderia perturbar o relacionamento que tinha com Isabel. Não sabia dizer por quê, mas pressentia nuvens no horizonte e em vários momentos da semana se pegou com os pensamentos voltados para o tal artista. Era já um homem de uns 45 anos, muito bem apessoado e charmoso. Não seria difícil uma jovem artista se apaixonar por um artista já consagrado que estivesse disponível. Não tinha motivos para suspeitar de Isabel, mas algo lhe espicaçava o espírito. Seria um rival surgindo em sua vida?

Vista do museu do Louvre.

 

Vista do museu do Vaticano.

Fotografias baixadas da internet pelo site de buscas do google.




Mineiro sovina! – Capitulo XVII

Museu de Arte Moderna Belo Horizonte.

 

MAM de São Paulo.

 

 O sucesso bate à porta.
            Coronel Onofre arregalou os olhos quando soube do sucesso de vendas dos quadros de sua filha. Somente os que faziam parte do acervo usado na casa não haviam sido vendidos. Ele estava com saudades deles. O lugar ficara vazio, parecia despido da beleza que as pinturas emprestavam ao ambiente. Queria saber quando eles voltariam ao seu lugar.
            Isabel prometeu pintar outros e colocar no lugar. Depois da primeira tournê de exposições eles voltariam ao seu lugar e ali ficariam. Haveria novos sendo pintados e fariam parte de futuras exposições. O valor total das vendas alcançava uma pequena fortuna. O lucro de uma boa colheita de café não seria suficiente para cobrir tudo.
            – I eu que num pensei que isso tivesse algum valor! Oia só minha veia! Nossa fia encheu os bolso de dinheiro de uma única pancada.
            – E tem mais por ganhar. Ela foi convidada para exposições em São Paulo, Rio de Janeiro e até nos estrangeiro. Maginou!
            – Mas ocê vai cum ela, num vai?
            – Quem vai cuidá de ocê meu veio?
            – Uma empregada dá conta disso.
            – Vamo vê isso adespois. Agora é hora de dar um abraço na nossa fia e valorizar o trabaio dela.
            – Ela podia ficar aqui, pintar seus quadro. Quanto tivesse bastante, fazia outra exposição e ganhava o seu. Num é suficiente?
            – Mas é um pecado enterrar ela aqui na fazenda! Ela tem esse tal de Talento. Nem sei dereito qui é isso.
            – Talento? Sei dereito qui é não. Mas que importa?
            Nisso Isabel veio, guiando seu automóvel novo, comprador com uma pequena parcela do dinheiro ganho com a venda de seus quadros. O promotor de justiça for a suficientemente inteligente. Oferecera um bom dinheiro por dois dos mais bonitos e ficara com eles. Lhe dera pessoalmente os parabens. Desejara muito sucesso.
            – Ele falou que espera me ver brilhar nos museus da Franca, Itália, Inglaterra, Estados Unidos, e nem sei mais onde. Não vai sobrar tempo pra pintar mais os meus quadros.
            – Proveita pra mode descansa um tempo. Quando voltar torna pintar tudo novamente.
            – Meus dedos estão com cócegas por pegar num pincel e nos potes de tintas. Vestida assim cheia de luxo, parece que não sou eu. Quando estou com o avental todo sujo de tinta me sinto viva.
            – O tal José Silvério falou com ocê direito?
            – Sobre o quê pai?
            – Uai! Ele tinha pedido minha permissão pra mode namorar cocê e eu não dei licença. Agora ele me provou que é um advogado de sucesso, ganha um bom dinheiro e eu permiti.
            – E ocê num tinha falado nada disso, veio! Isso num si fais. As coisa não é mais como era de antigamente.
            – Pra mim é tudo igual. Mas eu já dei permissão e oceis pode namorá. Não quero saber de agarração nem coisa do tipo. Namoro longo também num serve.
            – Pai! O senhor está esquecendo que estamos no final do século XX! As coisas não são mais assim. Isso é coisa lá do seu tempo de juventude.
            – Agora tá feito e pronto. Ele nem reclamou. Aguentou firme e provou que é home de valor. Isso que é sujeito de fibra sô.
            – Que ele é um homem de valor nós sabemos. Veja o que ele fez com os meus quadros. Não tinha motive nenhum para fazer o que fez. Foi graças a ele que minha vida mudou. Hoje estou me tomando uma pintora famosa.
            – Eta ferro sô! Mais aqui em casa tudo continua nas mesmas. Não tem nada de fama.
            – Pode ficar sossegado. Não vamos lhe causar desgosto. O meu namorado é também um cavalheiro. Isso mesmo, um cavalheiro.
            – Quem diria! Chegou aqui, um devogadozinho meio sem sal nem açúcar e agora é Cavalheiro. Como as coisa mudaram!
            – Vou dar um passeio pela fazenda. Vai comigo pai?
            – Vai de jipe ou de cavalo?
            – Estou morrendo de vontade de motnar no meu baio. Ele também deve estar com saudades de mim.
            – Vou mandar selá os bicho. Enquanto isso ocê si apronta. Põe uma roupa de montaria.
            – Vamos junto mãe?
            – Vou cuidar das coisa pro jantar. Vai você com seu pai.
            Isabel foi para seu aposento vestir uma roupa adequada para montar, um par de botas e o pai saiu para ordenar a preparação das montarias. Quando saiu o rapaz das baias estava terminando de selar o baio de Isabel. Em minutos estavam pái e filha montados deixando os animais a passo, percorrendo os cafezais, nesse tempo verde escuros, os grãos em crescimento. Os galhos começavam a vergas sob o peso da carga. Se não houvesse contratempos teriam uma safra muito boa.
            Passaram pelo local da fonte onde ainda havia a cerca por ser refeita no lugar certo e os pés de café que haviam sido cortados. Logo seria tudo colocado nos devidos lugares. No final daquela semana se reuniriam diante do juiz para assinarem os documentos para acertar toda aquela pendenga com Jerônimo. Estava disposto a retirar a queixa contra o vizinho. Afinal nem sentia mais nada do tiro que levara e não carecia guardar ressentimentos por uma coisa que ficara no passado. Não sabia se o juiz iria concordar em aliviar o peso da justiça sobre o vizinho. Aí era uma questão que não estava em suas mãos.
            Enquanto percorriam as últimas etapas do passeio, o sol atingiu o horizonte. Sentia-se plenamente feliz. Tivera seus dias de glória durante a exposição e havia um bom tanto deles pela frente nos próximos meses. Estava com seu pai, passeando pelo cafezal, paisagem que fazia parte de sua vida e também da arte desde a infância. Haveria uma semana de descanso antes de iniciar a preparação da exposição no MAM – Museu de Arte Moderna. Depois já no mês de dezembro seria a vez do Rio de Janeiro. Estava em negociação uma excursão ao exterior. Projeto para o próximo ano quase inteiro. Haveria uma ou outra folga para vir ver a família entre as exposições nos diversos centros mundiais.
            Na quinta feira a tarde Coronel Onofre, José Silvério, Jerônimo e seu advogado encontraram-se diante do juiz para o acerto final das desavenças. Onofre havia retirado a queixa na delegacia, mas o juiz não aceitou arquivar o processo. Decidiu ali mesmo que os transgressores teriam uma pena atenuada, mas não ficariam impunes. Jerônimo vendo que o vizinho fizera o possível se conformou e aguardou a decisão final do magistrado. Talvez tivesse uma prisão domiciliar, sendo obrigado a se apresentar semanalmente ao delegado. Não poderia se ausentar da comarca. Isso seria ótimo, pois não o impediria de cuidar de sua propriedade. Queria, o quanto antes, pôr tudo em ordem.
            Foi assinado um documento final sobre a questão da divisa, os pagamentos da indenização, as demais condições fixadas judicialmente. Qualquer quebra de cláusula pactuada invalidaria o restante do acordo. Ao sairem da sala do juiz, encontraram-se com o promotor ele agradeceu a José pela informação. Adquirira dois quadros maravilhosos. Pelo visto em pouco tempo valeriam uma pequena fortuna. Sabia do convite recebido por Isabel para expor em São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades.
            – O melhor de tudo é que ela foi convidada para expor na França, Itália, Alemnha, Londres, Nova York, Tóquio e outros lugares.
            – Minha nossa! Ficou famosa da noite para o dia. Parabens coronel pela filha talentosa.
            – Obrigado, doutor.
            – O senhorr deve estar cheio de orgulho. Não é qualquer um que pode dizer que sua filha é uma artista famosa. Ainda mais na pintura. Os verdadeiros talentos são um tanto raros.
            – O doutor aqui que vai ficar de cabeça quente!
            – Mas por quê, doutor José?
            – Ele é agora o namorado da minha fia.
            – Entendi. Vai chover de gala à volta dela. Se cuida amigo. Falando nisso, podemos jantar amanhã à noite?
            – Podemos, doutor.
            – Combinado. Nos encontramos na esquina da praça e vamos naquele restaurante em frente.
            – Às oito?
            – Está ótimo.
            Despediram-se e retornaram ao escritório. Ali Isabel estava a espera. Fora falar com o agente e na volta sentara para esperar pelo pai. Ela viera dirigindo em seu automóvel e voltariam para casa. Quando os dois chegaram, ela perguntou:
            – Tudo em ordem pai?
            – Tudo sim, fia. Está tudo resolvido. Vamo vive em paz com as vizinhança toda. O único que tava dando trabaio tomou jeito agora.
            – Que bom. Como está José?
            – Muito bem. Vocês poderiam ficar para jantar comigo. Fui convidado pelo promotor e vai ser hoje à noite.
            – Nós vamos para casa. A mãe vai ficar preocupada. Depois vocês devem ter seus assuntos a conversarem, principalmente depois daquele caso famoso.
            – Não vou insistitir. Teremos ocasião de nos encontrar em outros dias. Domingo vou almoçar em sua casa.
            – Tamo combinado, José. Nóis vamo ino.
            Deram adeus e em minutos estavam percorrendo sob um sol ainda forte a distância que os separava da fazenda. Ainda com o sol alto chegaram em casa e encotraram tudo na mais perfeita paz. Dona Maria Luisa apareceu na varanda e ficou esperando os dois desembarcarem e virem sentar-se à sombra. O ar ainda estava morno do sol da tarde. Trouxe-lhes um refresco que eles beberam com gosto e agradeceram. Depois de um tempo sob o sol forte, era coisa excelente sentar à sombra e beber um refresco bem geladinho. Bendita invenção de alguém a tal geladeira. Primeiro haviam tido uma à querosene, depois a gás e por fim, uma elétrica depois de a energia chegar à propriedade.
            O jantar foi cheio de conversar interessantes. José ficou sabendo de várias fofocas que corriam nos bastidores do forum. Nada grave, apenas pequenos mexericos, uma ou outra infidelidade conjugal de alguém e assim por diante. Habitualmente discrete, José ouviu tudo, sem intenção de fazer uso inadequado das informações que estava recebendo assim de maneira tão fácil. Estava sendo alvo de uma consideração elevada e era mister mostrare-se digno de tal distinção.
            Na hora de pagar a conta José fez menção de pagar a sua parte e o promotor não permitiu.
            – Você colega, é meu convidado hoje. Em outra ocasião a situação é diferente. Hoje é por minha conta.
            – Não haveria problema algum. O simples prazer de sua comapania vale o preço do jantar.
            – Guarde seu dinheiro, amigo.
            – Seja feita sua vontade.
            A conta foi paga e os dois caminharam algumas quadras até o local em que haviam deixado os automóveis. Era uma área bem movimentada e no momento não tinham encontrado vaga para estacionar. Caminharam e continuaram a conversa de antes. Quem primeiro alcançou seu carro foi José. Despediram-se e ele embarcou, ligou o motor e depois partiu. O promotor andou mais um pouco e fez o mesmo.
            Domingo perto da hora do almoço José chegou à fazenda e foi recebido por Isabel. Ele lhe deu um beijo carinhoso na face e entraram em casa abraçados. Assim chegaram diante da mãe e do pai sentados na sala naquele momento.
            – Mas formam um belo par! Não acha meu veio?
            – É sim. Uai! É minha fia. Tinha que dar nisso!
            – Mas quanta vaidade, pai.
            – Bom dia coronel. Bom dia dona Maria Luisa.
            – Dia, doutor.
            – Bom dia, – disse dona Maria Luisa.
            – Sente-se, meu bem. Quer um café ou um refresco?
            – Acho que um refresco vai bem. Está bem quente.
            – Nóis tava vendo a corrida de formula 1. As veis eu gosto de assistir.
            – Então o senhor é chegado em corrida de carros! Eu gosto, mas não sou muito viciado em assistir.
            – Tamem não. Mais as veis eu assisto quando dá no jeito.
            – Terminou?
            – Indagorinha memo. Acabaram de derramar o champagne.
            – Uma pena! Poderiam distribuir para o povo tomar um gole.
            – Mais isso faz parte do negócio. Dá o charme.
            – Isso lá é verdade. Há tanto tempo que isso acontece que ninguém ousaria questionar.
            – Tanta coisa que se perde por esse mundão veio que um litro ou dois de champagne não vai fazer diferença.
            – Me passou pela cabeça agora. Imaginou se fosse café quente?
            – Vixi Nossa Sinhora! Iam se queimar tudo!
            – Aí ninguém iria querer deramar uma gota.
            – Nem iria fazer toda aquela pressão na garrafa.
            – Isso mesmo.
            Maria Luisa foi pra cozinha supervisionar a cozinheira na preparação do almoço. Onofre convidou José e a filha a irem para a varanda. Ali o ar era mais fresco. No verão ele passava maior parte do dia ali fora. Sentaram-se em confortáveis cadeiras de vime e realmente se sentiram bem melhor ali fora. Tomaram mais um copo de refresco enquanto esperavam o almoço. Logo mais a dona da casa chegou até a porta e falou:
            – Vamos para a mesa que a comida tá servida.
            – Já vamo, veia.
            – Dia desses vou te ensiná quem é veia!
            – Modo carinhoso di tratá ocê, muié.
            – Tá bom, veio.
            – Ela chama eu de veio, eu chamo ela de veia. Tamo quite, não tamo?
            – Esses dois não tomam jeito. É essa eterna implicância um com o outro.
            – Mas eles se amam, pelo que sei.
            – Andem pra mesa de uma veis.
            Levantaram-se e foram para a sala de refeições. O almoço estava sobre a mesa esperando pelos comensais. Almoçaram e depois ficaram conversando na varanda. À tardinha, antes da volta para a cidade, os namorados foram até a pequena vila próxima para tomarem um sorvete. Voltaram já perto do escurecer. José despediu-se e voltou para cidade. Tinha compromissos cedo e se ficasse por ali para voltar na manhã, era provável que se atrasaria. Voltou e no meio da semana era hora de Isabel viajar para Belo Horizonte. Naquele final de semana seria inaugurada a exposição na capital. Os quadros haviam sido embalados cuidadosamente e despachados por trem, com um bom seguro contra qualquer eventualidade. Eram agora um produto precioso, além de perecível.
            O agente estava na capital desde a semana anterior tratando dos detalhes da instalação. Isabel chegou quinta feira à tarde e se hospedou no hotel reservado para ela. No sábado havia uma aglomeração de fotógrafos, jornalistas, cinegrafistas, todos sedentos de imagens e uma palavra da mais nova celebridade do mundo da pintura. Isabel, acompanhada de José, enfrentou com galhardia a maratona. Os flashes espoucavam de todos os lados, microfones eram colocados diante de seus lábios em busca do registro de alguma palavra dita.
            Um esquema de segurança foi acionado para proteger a artista. Uma multidão de populares ensandecida queria entrar no recindo. Na primeira noite seria apenas para os convidados de honra. Os agentes de segurança precisaram usar toda sua força para conter a massa. Após a abertura os convidados entraram e as portas foram fechadas, ficando um cinturão de segurança do lado de fora. Ouviam-se de todo lado exclamações de admiração diante da perfeição dos quadros. Os lamentos foram constantes diante da informação de que estavam todos vendidos. Seria preciso esperar a artista produzir mais obras para ser possível adquirir alguma coisa. Ou então oferecer um valor mais alto que o pago pelos primeiros compradores. Talvez houvesse quem aceitasse vender.
            Foram diversas as ofertas de somas elevadas por algumas obras. O comprador inicial seria informado da oferta e se aceitasse deveria se entender com o pretendente. Dessa vez os ingressos tinham um valor condizente com a fama já conquistada. O número posto à venda se esgotava rapidamente tão logo eram abertas as bilheterias. A semana chegou ao final e ficou uma porção de gente sem ter chance de ver as obras. Tiveram que se contentar com um filme feito pelos donos da galeria e o entregaram ao canal de TV para exibir num programa cultural.
            Ao final da semana o valor arrecadado em ingressos era bastante alto. As despesas estavam cobertas e sobrara um bom lucro. No começo de dezembro, dali a duas semanas, seria aberta a exposição no MAM em São Paulo. Foram dias de atividade quase ininterrupta. Isabel chegou em casa e foi para o atelier. Queria pintar alguma coisa para levar junto e poder oferecer a alguém que quisesse muito comprar. Antes de viajarem para a nova exposição, ficaram sabendo que um dos primeiros compradores vender aos seus por um preço igual ao triplo do que havia pago a um industrial de Belo Horizonte. Ele teria que concordar com o transporte dos mesmos para São Paulo e depois Rio de Janeiro.
            Isabel conseguiu pintar em tempo recorde dois belíssimos quadros. Parecia que a energia represada em suas mãos e seu íntimo explodira em criatividade. Além dos dois, levou um terceiro iniciado para terminar durante a exposição. Ficaria em um canto pintando, permitindo aos visitantes verem ela em ação. Ao término o quadro seria vendido a quem oferecesse o lance mais alto. Repetiu-se o tumulto na portaria do Museu na noite da inauguração da exposição. Os dois novos trabalhos não ficaram sem dono por mais de algumas horas. Houve diversas ofertas pore eles e uma pequena multidão ficava assistindo a artista pintar.
            Fotografias eram tiradas o tempo todo, chegando a perturbar a serenidade da artista. Aos poucos se habituou e continuous seu trabalho. Em alguns momentos ela fazia um pequeno interval e vinha conversar. Quem tinha a sorte de trocar algumas palavras com ela, ficava realizado. Ganhava um autógrafdo no bilhete do ingresso, em caderninhos de autógrafos e um pedaço de papel qualquer. Ao final, uma pilha de envelopes se fez ao lado do quadro que ainda não estava pronto. Os pretendentes faziam suas ofertas, querendo garantir o direito de serem os donos da obra que todos estavam assistindo ser pintada.
            Ver um pintor em ação durante a exposição era algo, se não inédito, porém bastante incomum. Dessa forma a fama da pintora se espalhou por todo país e também pelos diferentes cantos do mundo. Jornalistas vieram do exterior para ver e mandavam por telex suas fotografias e textos para publicar nos jornais e revistas. Todos queriam saber quando os trabalhos seriam levados para Europa, Estados Unidos. Já estava definida a viagem. Começariam em fevereiro pelos Estados Unidos, depois iriam para a França, Londres, Milão, Roma, Bohn e finalmente Tóquio. Com isso transcorreria quase o ano inteiro. Cada evento teria a duração de duas semanas e mesmo três.
            Isabel viajou sózinha, prometendo vir passar alguns dias no Brasil depois das exposições de Paris e Londres. Antes de ir para o Japão também haveria tempo de fazer uma pequena visita. Retornaria definitivamente quando já fosse novembro. Levou consigo seus apetrechos de trabalho para aproveitar a grande variedade de imagens que teria diante dos olhos e assim encontrar inspiração para pintar mais alguma coisa. Dessa forma se manteria ocupada. O que passou a ser integrante dos eventos era sua demostração de seu trabalho durante a pintura. Em todos os lugares havia quem quisesse ver o quadro surgindo aos poucos das sussecivas pinceladas.
            O ano passou, somando um evento ao outro. Convites para entrevistas, programas de televisão, palestras em escolas de artes e museus foram uma constante. Em todas as ocasiões sua conta bancária saia um pouco mais gorda. Ela nem mais se importava com os valores. Era tanto dinheiro que ela nem saberia dizer ao certo quanto foi. Dessa forma chegou novembro e finalmente os quadros, inclusive os pintados no decurso dos eventos, estavam com ela. Seriam agora enviados aos respectivos adquirentes em segurança.
            Os pertencentes à casa, após mais de um ano for a de seu lugar, voltaram a ocupar suas posições. A casa voltou a ser o que era. Quem não era mais a mesma era Isabel. Vivera tantas emoções naquele ano que não saberia dizer o que for a mais intense. Abraçou os pais ao chegar e não queria desgrudar deles. José recebera sua cota ao desembarcar do avião em Belo Horizonte. Ele for a recebê-la no aeroporto e a levara de carro para Sete Lagoas e depois para a casa dos pais. A primeira coisa que José providenciou foi um par de alianças. Queria oficializar a relação deles, antes que ela iniciasse nova série de viagens.
            – Por enquanto quero ficar bem quieta aqui no meu canto. Quero pintar e pintar até não querer mais.
            – Se arrependimento matasse eu estaria morto.
            – Por quê, meu bem?
            – Eu que fiz a besteira de colocar você nessa vida de gente famosa. Levei a pior. Ficou famosa e eu fico aqui esperando você voltar.
            – Não vai me dizer que está com ciumes!
            – Um pouco, mas a saudade é maior.
            – Dá logo aqui essas alianças. Vamos ficar noivos para você não começar a ter um chilique.
            – Também não é para tanto. Mas não é fácil ficar aqui lidando com bandido, assassin e ladrão, enquanto você viaja pelo mundo.
            Isabel chegou perto e recebeu sua aliança. Depois colocou a outra na mão dele. Um beijo caloroso na boca selou aquele momento. Onofre pigarreou, avisando que ali não era momento para demonstrações desse tipo.
            – Ih pai! Precisa ver o que eu vi na Europa, no Japão e por esse mundão de Deus.
            – Nós tamo no Brasil, em Minas Gerais.

 

            Isso vai dar briga. Vamos sentar um pouco na varanda. Hoje eu não volto para o escritório. Os processos que aguardem para amanhã e depois. 

Museu de Belo Horizonte.
Imagem do museu do Louvre.

Mineiro sovina! – Capítulo XV

Mapa de Minas Gerais.

 

Rodoviária de Sete Lagoas.

 

Laga no perímetro urbano em Sete Lagoas.

 

O encontro de 
 
conciliação.
        Tendo recebido de coronel Onofre o sinal verde para marcar o encontro com Jerônimo, José Silvério telefonou para o colega Estevão, naquela tarde mesmo. Pela manhã tivera um compromisso com uma audiência no forum e não sobrara tempo. Pediu a Roberta para fazer a ligação. Em alguns minutos o aparelho tocou. Ao terceiro toque ele levantou o fone:
            – Fala Roberta.
            – O doutor Estevão está na linha.
            – Deixa comigo agora.
            A conexão foi completada e ouviu-se do outro lado da linha a voz típica do doutor Estevão, um pouco anasalada:
            – Doutor José Silvério?
            – Sim, colega. Sou eu mesmo.
            – Tem boas novas para me dar?
            – Meu cliente concordou em conversar com o seu, mas tem que ser aqui na minha sala. Pode ser?
            – Eu até preferiria um lugar neutro, mas dadas as circunstâncias, não se pode fazer exigências. Aceito. Pode marcar data.
            – Para nós pode ser qualquer dia, menos hoje e amanhã. Que tal semana que vem, na segunda de manhã?
            – Deixe-me ver minha agenda.
            Tapou o bocal do fone e falou para sua secretária verificar a disponibilidade do horário da próxima segunda feira pela manhã. Ela verificou e informou não haver compromisso nesse horário.
            – Pode ser colega. Não tenho compromisso nesse horário. Dessa maneira dá tempo de avisar tranquilamente o meu cliente para evitar contratempos.
            – Combinado, colega. Lhes esperamos aqui na próxima segunda às 10 horas.
            – Eu havia esquecido. O seu Jerônimo pediu para sondar se é possível aliviar a queixa relative ao atentado. Se ele for condenado e ficar preso vai ficar difícil de cumprir os demais compromissos.
            – Quanto a isso não posso falar nada por ora. Vou ter que sondar o coronel. Ele não tem falado mais nada a respeito, já está praticamente recuperado do tiro. Só não posso responder por ele agora.
            – Se fosse possível retirar a queixa ou algo assim, seria mais fácil. O delegado e o juiz estão dispostos a levar ele julgamento. Se tiver uma atenuante, pode ser que consiga o regime de prisão domiciliar. Mesmo que tenha que se apresentar todas as semanas ao juiz ou delegado. Assim ele poderá administrar a propriedade e sair do atoleiro em que se meteu.
            – Um atoleiro sério. Se ele não tivesse inventado a história do atentado, acabava tudo facil, se houver um acordo.
            – Nem adianta ficar conjuturando agora. O que está feito, está feito e pronto. O remédio é minimizer os efeitos.
            – Se o coronel concordar, não tenho nada a opor. A questão é essa. Pelo que conheço do velho ele é um bocado sistemático e quando embirra com uma coisa, custa a mudar de ideia.
            – Vamos ver se conseguimos amaciar ele com um bom acordo. Talvez consigamos selar a paz entre eles e acabar com essa pinimba. Aliás toda ela culpa do meu cliente. O coronel não tem culpa nenhuma. O próprio Jerônimo reconheceu na minha frente.
            – Haveremos de encontrar uma saída para a questão. Depois eles precisam aprender a conviver como bons vizinhos.
            – Assim espero, colega. Dá licença agora. Está chegando um cliente nesse momento. Outra hora nos falamos.
            – Até logo, doutor Estevão.
            Desligaram os aparelhos aoa mesmo tempo. Coincidentemente José Silvério também estava diante de um cliente novo, que entrava no exato momento em que a ligação era desfeita. Mal colocou o fone no gancho e ele tocou, avisando da chegada do cliente. Mandou entrar.   
            A tarde transcorreu entre diversos clientes de causas menores vindo trazer documentos, assinar procurações e outros detalhes necessários. Pouco depois das 5 horas, Roberta lhe trouxe uma pilha de processos em cuja montage final estivera trabalhando. Precisavam de uma conferência final do advogado e aposição de sua assinatura em petições, mandados e outros documentos. Não havia nenhuma outra entrevista marcada para aquela hora. Houve tempo suficiente para conferir meticulosaamaente cada processo, verificando estarem na mais perfeita ordem. À medida que os conferia, assinava onde fosse preciso. Dava graças a Deus por ter convidado Roberta para sua secretária. Era de uma competência inigualável. Sabia a ordem correta dos documentos para facilitar o acesso a eles pelo juiz ao analisar cada um.
            Lembrou de sugerir ao diretor da empresa uma gratificação ou um aumento de salário para a secretária. Fazia por merecer. O esquecimento com relação a essa questão poderia significar a perda de uma funcionáriaa competentíssima. Depois arranjar outra do mesmo nível, seria demorado. Sem contar com o período de adaptação ao serviço, pois, por mais esforçada que fosse, demoraria algum tempo para ficar a par de todas as minúcias do mundo jurídico. Isso é coisa que não se aprende de uma hora para outra.
            Na quinta-feira a tarde, foi surpreendido pelo coronel Onofre ao telefone. Estaria ele na cidade e ligara para saber do andamento das coisas?
            – Boa tarde, coronel. Como tem passado?
            – Tive uma boa surpresa essa semana. Os home da companhia de telefone vieram instalar o dito cujo. Tô le ligando aqui de casa memo.
            – Que beleza. Agora fica tudo mais fácil. Parabéns.
            – Tô inaugurando a linha. Hahahahah!
            – Vamos aproveitar para combinar o encontro com seu vizinho. Marcamos para segunda feira às 10 horas.
            – O home tá com pressa de resolver as pendenga. To gostando de ver.
            – Ele quer colocar a vida em ordem, pelo jeito. Não sei se o senhor vai concordar, mas ele pediu se daria para retirar a queixa do atentado, ou algo assim para aliviar a pena.
            – E essa agora! Ele manda dois capanga atirar em mim, quase me mata e quer que retire a queixa? Acho que ele tem que arcar com as consequência do mal feito.
            – Eu não dei resposta. Sugiro conversar primeiro sobre o acordo da divisa e acertar tudo aí. Depois temos tempo para tratar do resto. Concorda comigo, coronel?
            – Uma boa ideia. Num dianta esquentar a cabeça antes da hora.
            – E Isabel terminou de pintar o quadro para apresentar na exposição?
            – Sei não. Hoje de manhã tava lá no atelier mexendo com suas pintação. Tá que é uma pilha de nervo. Deixou até a Lourdes meia dos casco vir-ado.
            – É a ansiedade pela estreia. Faltam poucos dias. É assim mesmo. Igual estudante em tempo de provas finais ou véspera de concurso.
            – Inté parece muié buchuda em véspera de pari.
            – Acho que a situação é semelhante. O senhor deve saber melhor que eu. Nem sou casado, quanto mais tive mulher gravida, perto de ganhar filho.
            – Nem queira saber. Elas fica um nervo só e a gente que guenta as consequência.
            – É a parte que nos cabe, já que não podemos ser mães.
            – Te esconjuro, home! Eu lá ia quere ter filho? Isso é coisa das muié.
            – Dê lembranças a dona Lourdes e Isabel, coronel. Está na hora de voltar para casa. Estou um caco hoje de tanto ouvir histórias e depoimentos no forum.
            – Vai descansar, doutor. Lhe desejo uma boa noite de sono.
            – Até segunda feira, coronel. Não esqueça. Às 10 horas.
            – Isqueço não.
            A sexta-feira era em geral pouco movimentada na área jurídica. Os juízes via de regra não marcavam julgamentos, especialmente juris para esse dia. Se demorasse, avançariam para o sábado e domingo. Isso ninguém queria. José Silvério aproveitou para por em dia todos os pequenos servicinhos que tinham sido deixados para depois por conta do era prioritário. Assim o dia passou, deixando a impressão de não ter feito nada, mas na verdade haviam sido um número enorme de pequenos detalhes que estavam agora devidamente encaminhados.
Cine Fox em Sete Lagoas.

 

Monumento em homenagem à FEB em Sete Lagoas
            O final de semana foi passado com a família, uma ida ao cinema sábado à noite em companhia da irmã e do namorado. Não lhe agradava muito servir de vigia ou como se dizia “segurar vela”. Pensava que os dois deveriam saber o que queriam da vida. Consequentemente precisavam arcar com as consequências dos seus atos. Orientação ambos tinham recebido dos pais, se isso não bastasse, nem mesmo um guardião seria capaz de impedir alguma coisa se eles assim o desejassem. Mas valeu à pena, pois a fita era muito boa. Pessoalmente gostava de filmes sobre espionage e esse era um dos bons nessa variedade.
            No domingo assistiu ao jogo dos dois maiores clubes da capital se enfrentando pelo campeonato nacional. Ele era cruzeirense até a raiz do cabelo. Já o pai era atleticano convicto. O jogo foi disputado, não que estivesse valendo algum título, mas perder para o maior rival era sempre uma humilhação. Pouco importava se o jogo era oficial ou mesmo amistoso. O resultado final, depois de alguns lances mais rudes, alguns cartões amarelos, foi um honroso 1×1. Ao término as indefectíveis reclamações contra o juiz de parte a parte. A genitora do árbitro foi premiada com vários nomes pouco honrosos. As ruas ao redor do estádio estavam cheias de policiais para garantir a volta para casa em segurança.
            Dessa forma chegou segunda-feira, quando se encontraram frente à frente o coronel Onofre Pires e Jerônimo para uma conversa séria e franca. O começo da reunião foi tenso e José se encarregou de quebrar o gelo:
            – Senhores, estamos aqui para uma conversa franca, visando encontrar um termo de conciliação entre os vizinhos coronel Onofre e Jerônimo. Sugiro que mantenhamos a calma e cada um terá a sua hora de falar. Doutor Estevão, eu lhe dou a palavra para apresentar ao meu cliente a proposta que me apresentou aqui na semana passada.
            – Eu fui encarregado pelo meu cliente senhor Jerônimo de apresentar ao senhor coronel, uma proposta para quitar a indenização relativa à questão da divisa e também a reposição da cerca no lugar de sempre.
            – Pode falar, doutor. É pra isso qui eu estou aqui.
            – O senhor Jerônimo, por conta de uns contratempos, ficou com as finanças abaladas e pede ao senhor coronel, aceitar um parcelamento da dívida.
            – E qual é essa proposta? Quero ouvir do senhor mesmo.
            – Se pudermos parcelar o total em parcelas de valores menores, vencendo uma a cada seis meses. Calculamos os juros devidos, num prazo final de três anos.
            – Eu tinha intendido qui seria em um ano.
            – É o que eu havia proposta, mas o senhor Jerônimo verificou que iria ficar em dificuldades. Melhor estabelecer um prazo maior e pagar direito, que ser curto e depois não conseguir vencer fazer os pagamentos.
            – Coronel, creio que um p:razo maior não irá atrapalhar sua vida financeira. E as palavras do colega são sábias. Não nos vale de nada se o prazo for curto e não cumprido ao final.
            Nesse momento Jerônimo pediu ao seu advogado para deixá-lo falar e ele permitiu:
            – Coronel Onofre, eu preciso lhe pedir perdão por todas as besteiras que eu fiz em relação ao senhor nesses anos todos. Meu pai sempre se deu bem com o senhorr e me falou muitas vezes sobre isso. Eu era um cabeça de vento e deixei os amigos me levar para o mau caminho. Fiz muita coisa errada nessa vida. A última foi essa da divisa e depois o atentado. Depois que fiquei duas noites na cadeia, vi que não sou feito para ficar em gaiola. Vi meu pai, como se estivesse vivo ali na minha frente, falando das cosas erradas que fiz. Resolvi mudar de vida. Sei que vou ter que acertar com a justiça a questão do atentado, mas isso é outro problema. Quero levar outra vida a partir de agora, começando por acertar toda essa questão da divisa de uma vez.
            – Si é assim, Jerônimo, eu até faço um batimento. Vamo deixa por 60 mil invei dos 100 qui o doutor juiz determinou. Dividimo tudo em seis partes iguais e você me paga cada seis meis. Você coloca a cerca no lugar certo e depois eu planto os pé de café de vorta naquela parte. Num sei si vo podê faze alguma coisa na questão do tiro que levei.
            – Isso facilita as coisas, coronel, – falou doutor Estevão. – Fica mais fácil para o senhor Jerônimo pagar sem problemas e só falta resolvermos depois a questão com o juiz.
            – Se o meu cliente concordar, podemos dar um depoimento atenuando a gravidade da queixa e assim diminuir a apena imposta pelo juiz.
            – Concordo. Uai! Seu pai e eu fomos bons amigos e depois nós viramos inimigos. Tá na hora de acaba com essa pinimba de uma vez.
            – Proponho que os dois vizinhos se deem as meem as mãos em sinal de entendimento e vivam de hoje em diante em paz. Aos poucos as mágoas que vão restar virarão apenas lembranças do passado e o tempo se encarrega delas.
            A sugestão foi aceita e Jerônimo esteve prestes a verter lágrimas de satisfação. Estava realamente arrependido do rumo que dera a sua vida. Queria poder esquecer o passado, se isso fosse possível. Combinaram que os advogados preparariam os documentos necessários ao acordo, encaminhariam tudo ao juiz e pediriam o arquivamento do processo, uma vez que estava havendo o entendimento. Aguardariam a fixação da data do julgamento dos acusados pelo atentado. Os capangas estavam da cadeia e seria conveniente que lá ficassem pelo menos até o julgamento. Se fossem soltos, poderiam fugir e causar problemas com o magistrado. Ele fazia questão absoluta de manter a maior lisura nos processos sob sua responsabilidade.
            Depois de realizados os entendimentos, sairam e foram almoçare num restaurante ali perto, a convite de coronel Onofre. Sentia um peso sendo removido de seu espírito. Nunca aceitara que aquele menino que vira crescere, tivesse se transformado em seu mais ferrenho inimogo, coisa que sempre evitara ao longo da vida toda. Fazia questão de pagar a comida naquele dia. Todos aceitaram de bom grado. A reunião estava terminando e a hora do almoço chegava. Lá fora o peão que acompanhara Jerônimo e o outro do coronel olharam para os quatro homens saindo do escritório. Aparentemente conversavam sem ressentimentos. Até ali não haviam trocado palavra, mas vendo os patrões juntos e conversando, se cumprimentaram também. Depois chegaram até o grupo aguardando um pouco afastados.
            – Podem vir os dois. Vamos almoçar todos juntos ali no fim da rua. Servem uma comida muito boa ali.
            Seguiram logo atrás e o grupo inteiro foi almoçar. O coronel tinha razão. Apesar da aparente simplicidade do estabelecimento, os pratos eram preparados primorosamente. José Silvério teve que congratular-se com o seu cliente por saber desse detalhe, uma vez que ele, residente ali não sabia disso. Comeram de se fartar, beberam umas cervejas e depois voltaram para seus afazeres. Os advogados macaram a tarde da próxima sexta feira para se reunirem e elaborar tudo relativo ao acordo, bem como o encaminhamento que dariam no aspecto judicial.
            – Sempre ouvi os professors falarem. Um mau acordo é melhor que uma boa demanda. Pena que o nosso amigo se deu conta disso meio tarde. Teria evitado uma porção de transtornos.
            – Mas podemos nos dar por satisfeitos. Eles parece que vão se entender daqui para frente.
            – O coronel é ótima pessoa. Só não pise nos calos dele, que daí a coisa fica feia.
            – No fundo todos somos assim. Varia um pouco de um para o outro, mas ninguém gosta de ser desrespeitado, ter as propriedade invadida. Isso sempre dá encrenca grossa.
            – Vamos fazer nossa parte para que isso fique resolvido por aqui e não tenha desdobramentos depois.
            – Creio que isso nos torna um pouco amigos também, colega.
            – No que me diz respeito, nada a opor.
            – Vou andando, pois ainda tenho várias coisas para resolver durante a tarde. Até mais ver, colega.
            – Boa tarde. Também vou cuidar da vida.
            José estava próximo de seu trabalho e não tinha nenhum compromisso especial para aquela tarde. Lembrou de falar com o diretor a respeito do aumento para a secretária e comentar sobre a reviravolta no caso entre o coronel e seu vizinho. Alguns dias antes não teria nem imaginado ser capaz tamanha mudança. Por vezes ainda sentia uma pontinha de preocupação. O outro poderia estar tratando de ganhar tempo e depois voltar a carga com mais energia. Procurou lembrar da fisionomia de Jerônimo na hora em que falara e pedira perdão ao coronel. Não conseguiu ver traço de falsidade no rosto. O homem estava sendo sincere, ou então era um perfeitissimo ator, capaz de convencer a todos de sua sinceridade.
            Ao ter semelhantes pensamentos sentiu um leve arrepio. Seria uma frustração imensa se isso viesse a acontecer. Decidiu confiar em Deus, colocar nas suas mãos a questão. Estavam tomando todas as medidas de precaução possíveis, tudo passaria pelas mãos do juiz e levaria sua chancel ao final. No caso da ocorrência de alguma falseta de um ou outro lado, teria que se haver com o representante máximo da lei ali naquela época.
            O aumento para Roberta foi concedido. Ela foi chamada e na presença de José o diretor lhe informou do valor de seu novo salário. Ela teve dificuldade em acreditar no primeiro momento, mas foi tranquilizada quanto a ser uma brincadeira. For a José pessoalmente que sugerira. O diretor, levando em conta a eficiência e dedicação da servidora, concordara em elevar seus vencimentos. Ela agradeceu e saiu sorrindo. Intimamente exultava. Assim seria possível dar à sua mãe uma ajuda mais consistente para manter a casa. O pai estava doente e inválido, recebendo um auxílio doença que não cobria nem os medicamentos, quanto mais outras despesas.
            Os dois conversaram longamente, tendo José relatado seus últimos feitos no forum ao chefe. Não tinham tempo diariamente de sentarem e narrar os detalhes de alguns processos em que José atuara. Conseguira virar o jogo em várias situações aparentemente de derrota. Um argumento encontrado em suas longas leituras de sentenças e processos famosos publicados em livros ou revistas jurídicas. Isso lhe valera bons desempenhos em diversas ocasiões. A sutileza da argumentação e sequência de apresentação das provas no caso do coronel e seu vizinho tinha sido considerada genial. Haviam temido em alguns momentos que poderia haver uma derrota, mas a sentença favorável não deixara pesar dúvidas sobre o lado em que estava a justiça.
            Depois de colocar as novidades em dia, José voltou para sua sala e se dispôs a ler minuciosamente os autos de um processo em que iria atuar no tribunal do júri em duas semanas. Era um caso de assassinato, mas havia falta de provas concludentes. O reu confessara e depois se retratara afirmando ter confessado sob tortura e caberia a ele, José Silvério atuar no apoio ao promotor, cocntratado pela família da vítima. Procurava um argumento forte o suficiente para desmascarar o reu em sua afirmação de tortura. O laudo do exame de corpo de delito era inconclusivo. O reu afirmava que haviam usado métodos não contundentes, por isso não havia marcas no seu corpo. Já os policiais, o delegado e detetives negava veementemente a ação delituosa. A confissão for a espontânea, sem muita pressão na verdade.
            Leu todo o processo, dedicando especial atenção à primeira confissão, à retratação posterior, acusação de tortura, laudo médico em busca de um mísero fio. Um vestígio apenas poderia ser suficiente para levantar o pano que parecia envolver o caso. Ao reler a confissão e depois a retratação do reu, encontrou o que procurava. Havia incongruência entre as duas situações e ele usaria esse fato para provocar o réu. Era fortemente provável que, ao ser confrontado com a contradição, ele ficaria agitado e se delataria sem muita dificuldade. Haviam passado ao seu encargo esse caso, pois todos os outros haviam concluido ser trabalho insano e infrutífero tentar conseguir a condenação. A acusação de tortura pendente sobre a cabeça do delegado, um detective e dois agentes, significaria um golpe severo para esses profissionais. Depois que se certificou de tudo, escreveu cuidadosamente a forma como faria as perguntas, possíveis variações dependendo das respostas que recebesse. Tudo pronto, tornou para a sala do diretor e lhe mostrou o que estivera fazendo.
            O chefe leu, releu e indagou de onde tirara essa ideia?
            – Do próprio processo. – e abriu onde estavam as duas passagens conflitantes das declarações do reu, feitas em momentos diferentes. Ele tinha previsto eventuais esquivas e saidas pela tangent. Encurralaria o malfeitor de tal forma que não lhe restaria alternative a não ser confessar. Depois de olhar tudo, o chefe lhe deu razão. Aconselhou-o a não deixar escapar uma única sílaba de tudo isso. Poderia por tudo a perder, se alguém, especialmente os advogados de defesa, ficassem sabendo de sua artimanha. Era perfeitamente correta a sua intenção. Colocaria a pergunta de tal forma que o acusado seria obrigado a dizer uma coisa ou outra. Cada uma delas o conduzia a um beco sem saída. Quando se desse conta da cilada, seria tarde.
            Ao olharem viram que passava de 18h 30min. Haviam estado a conversar por tanto tempo que esqueceram a hora. Levantaram-se e verificaram que não havia mais ninguém no prédio. Fecharam as salas e depois a porta principal. Despediram-se e foram para suas casas. O diretor ia pensando em seu íntimo:

 

            – Foi uma ótima decisão contratar esse jovem, recém saido da faculdade. Transformou-se, em menos de dois anos, no melhor causídico da Advogados Associados. Estava se tornando hábito transferir para sua agenda todos os casos mais complexos, se não de todo, pelo menos o comando da equipe que atuaria na defesa ou acusação, conforme o caso. Se não o tivesse contratad na época, oferecendo um pouco mais do que teria sido normal, hoje estaria arrependido, vendo-o atuando em julgamentos no lado oposto ao seu. Seria algo profundamente lamentável. 
 
Vista aérea de Sete Lagoas.

 

Schoping Center Sete Lagoas.

 

Mais um lago no perímetro urbano.
 

Mineiro sovina! – Capítulo XII

 

Vista da cidade de Sete Lagoas.
Rio que corta a cidade de Sete Lagoas.

 

Ação de litígio é julgada.
Na hora estipulada todos os envolvidos na questão, o proponete da ação, o acionado, as testemunhas, os respectivos advogados e algumas pessoas assistentes estavam diante da mesa do Juiz. De um lado estavam Dr. José Silvério, coronel Onofre e quatro testemunhas, sendo dois empregados e dois vizinhos próximos. Eles haviam estado presentes anos antes na ocasião da demarcação que Onofre tinha registrado no cartório junto à documentação de propriedade das terras. Do outro lado Dr. Estevão, Jerônimo e três de seus empregados, além de um outro indivíduo que ninguém ali conhecia. Era o tal agrimensor que fizera a nova demarcação, sem que o coronel tivesse tomado ciência.
O Juiz se dirigiu aos presentes em geral, pronunciando as palavras de abertura da sessão, identificando o assunto em discussão, bem como os envolvidos. Em continuidade passou a palavra ao advogado da acusação, dizendo:
– Doutor José Silvério, há alguma proposta de conciliação de parte de seu constituinte?
– Meu cliente procurou entendimentos anteriores com o citado, mas foi recebido com grosserias e ameaças. Por isso procurou as vias judiciais. No entanto estamos abertos a ouvir qualquer proposta que seja apresentada pelo colega advogado do senhor Jerônimo.
– Doutor Estevão, seu cliente quer fazer alguma proposta de conciliação?
– Vou trocar algumas palavras com meu cliente e já respondo sua pergunta, meritíssimo.
Ficaram alguns instantes falando em voz baixa, mostrando-se Jerônimo bastante agitado. Por fim o advogado dirigiu-se ao Juiz dizendo:
– Meritíssimo, meu cliente não se considera culpado de nenhuma violação do direito de propriedade do seu vizinho e não quer propor nada em termos de conciliação.
– Diante disso, vamos seguir com a audiência. Doutor José, pode apresentar suas testemunhas.
– Vou começar com o senhor Gregório da Silva, vizinho e testemunha de uma demarcação feita em comum acordo entre meu cliente e o pai do senhor Jerônimo.
O citado sentou-se na cadeira das testemunhas e José Silvério continuous:
– Senhor Gregório, o senhor esteve presente quando o coronel Onofre e seu vizinho Juvêncio fizeram a demarcação de suas terras, ficando a divisa claramente estabelecida?
– Sim senhor. Eles se davam bem e fizeram a demarcação para não haver problemas. Os dois trabalham com ramos diferentes. Plantação de café e criação de gado. Não dá para misturar.
– Consegue lembrar quando foi isso?
– Sei ao certo não. Mas foi dantes da revolução de março de 1964. Pouco despois da nauguração de Brasília.
– Sabe se os dois receberam um mapa com a indicação das divisas claramente?
– Isso foi alguns dias despois. O grimensor vorto trazendo um mapa igual pra cada um deles. Cunferiram tudo e eram guarzinho os dois.
– Saberia dizer se esse documento é aquele que viu? – mostrou o papel amarelado pelo tempo, depois de descobrá-lo com cuidado. O senhorr Gregório olhou detidamente e falou:
– É esse sim. Penasmente está um pouco marelado agora. Mas não tenho duvida. É esse mesmo.
– Meritíssimo eu não tenho mais perguntas.
– Doutor Estevão, a testemunha é sua.
– Eu não tenho perguntas.
– Pode chamar outra testemunha.
– Vou chamar o senhor Augusto Ferreira, também testemunha da demarcação.
O nominado sentou-se na cadeira indicada e José Silvério falou:
– Senhor Augusto, o senhor ouviu as perguntas que eu fiz ao seu amigo Gregório e as respostas que ele deu.
– Sim senhor.
– Confirma que esteve presente no mesmo dia e viu o que ele viu?
– Confirmo. Lembro inté como estava o tempo. Era uma seca meia braba e fazia muito calor. Mas estava presente e tudo qui cumpadre Gregório falo é verdade.
– Reconhece o mapa que os dois vizinhos receberam do agrimensor?
– Si reconheço? Mas craro. É esse memo que sinhor tem aí na mesa.
– Obrigado senhor Augusto. Eu não tenho mais perguntas.
– A testemunha é sua doutor Estevão.
– Sem perguntas.
– Pode chamar outra testemunha.
– O senhor Paulo Francisco Alves, empregado do senhor Onofre.
Paulo sentou-se na cadeira e olhou para os lados levemente assustado. Aquele ambiente não condizia com o que era habitual em sua vida. Ouviu o advogado falando e presto atenção:
– Fique calmo Paulo. Só lhe vou perguntar umas poucas coisas. Deve responder só o que eu perguntar.
– Sim sinho! To ouvindo.
– Pode nos contar como foi que descobriram a cerca deslocada e os pés de café cortados naquele ponto da divisa, perto da nascente de água?
– Fais coisa di quatro cinco mes noi stava vistoriano o cafezal pra quelas bandas. Quando chegamo na divisa, eu mais Osvardo Faria, quando vimo aquele monte de pé de café cortado e montoado. Mais adiante vimo a cerca mudada de lugar, um buraco cavado em torno da nascente pra mode o gado beber ali. Estava tudo pisoteado.
– A cerca foi mudada só no lugar da nascente ou a mudança foi maior?
– Mudaro de uns 200 m antes, até outro tanto despois da nascente. Parece inté que fico quase reto. Apenas oiando de longe si pode ver a curva.
– Saberia apontar no mapa o lugar onde isso aconteceu.
– Posso tentar.
José levou até ele o mapa e permitiu que o olhasse atentamente.
– Eu num intendedo dereito esses mapa, mas deve de ser nesse ponto. Começando mais dantes até ali acima. – falou e apontou com o dedo.
– E o que vocês fizeram?
– Nois oiamo dereito e fomo logo contar pra coronel Onofre. Dispois acompanhamo ele até la pra mode ver o acontecido.
– Pela aparência, era coisa recente, ou fazia mais tempo?
– Era coisa de pocos dias dantes. As foia dos cafeeiros ainda num tinha caido.
– Vocês deixaram como estava ou fizeram alguma mudança?
– Coronel mando deixar ansim cumo tava. Num mexemo im nada não.
– Obrigado Paulo. Era só isso.
– Dr. Estevão, quer inquirir a testemunha?
– Uma pergunta, Paulo. Não foram vocês que cortaram a cerca e os cafeeiros a mando do coronel, só para processor o senhor Jerônimo?
– Coronel Onofre é home dereito, doutor. Nunca que ia de mandá faze uma coisa dessa. Te esconjuro, home.
– Não tenho mais perguntas.
– Doutor José, pode chamar outra testemunha.
– Só mais o senhor Osavaldo Farias.
Osvaldo sentou-se na cadeira e sabia que não tinha nada a temer. Olhou firme para frente, esperando as perguntas do advogado.
– Pode nos contar o que viu junto com seu companheiro de trabalho naquele dia na divisa das duas propriedades.
– Tudinho que Paulo Francisco falo é a pura verdade. Eu só quero acrescentá que vi, assim meio de revesgueio, alguém iscondido detrais de umas pedra que tem no pasto do seu Jerônimo. Parecia espreitar o qui noi stava fazendo.
– E essa pessoa fez alguma coisa, se movimentou, falou que o senhor se lembre?
– Só fico bem iscundido. Deve di tê ido contá pro patrão despois qui nois viemo embora. Inquanto nóis tava ali, num si mexeu não.
– E a distância que a cerca foi mudada é em sua opinião o tanto que Gregório disse, é maior ou menor?
– Nóis num medimo, mais deve de ser mai o meno isso qui Gregório disse. No totar uns quatrocentos metro.
Levou até ele o mapa e logo o dedo indicou o ponto em que a violação fora cometida.
– Obrigado Osvaldo. Não tenho mais perguntas.
– Eu também não tenho perguntas, – falou Estevão.
– Doutor Estevão, queira chamar as testemunhas de defesa.
O advogado de defesa levantou, endireitou os óculos sobre o nariz, percorreu com o olhar todos os presentes e falou:
– Vou chamar para depor o senhor Ambrósio Pereira.
O chamado era o mais jovem entre as testemunhas e estava visivelmente perturbado. Sentou-se na cadeira e esperou que lhe perguntasse, dando sinais claros de que, se descuidassem sairia correndo dali, sem olhar para trás.
– Fica tranquilo Ambrósio. Ningém aqui vai lhe fazer mal. Aqui é uma sala onde se administra justiça. Não tenha nenhum medo.
Esperou alguns instantes que as suas palavras fizessem efeito e ao ver que o jovem se sentia mais seguro falou:
– Quanto tempo você está trabalhando para o senhor Jerônimo?
– Eu nasci na fazenda e desde pequeno trabalho lá. Nunca saí de la inté hoje.
– Então conhece aquele terreno como a palma da mão?
– Conheço sim.
– Lembra dessa demarcação que o coronel Onofre está usando para acusar seu patrão de violar a demarcação da divisa?
– Eu devia de ser bem criança. Lembro que meu pai falou disso mas num estive junto durante o serviço.
– Durante esses anos todos, ouviu alguma vez ser falado a respeito de a divisa estar errada?
– Patrão fais anos fala que divisa ali tá errada.
– Esteve junto quando o seu Firmino, aqui presente, fez a nova demarcação, colocando a cerca onde está agora?
– Estive sim sinhor. Ajudei no serviço.
– Ajudou a mudar a cerca?
– Patrão mandou nois mudar a cerca dispois qui empregados di coronel Onofre cortaro os arame, deixando o gado entrar no cafezal.
– Não tenho mais perguntas.
– Doutor José Silvério, a testemunha está à sua disposição.
– Ambrósio, pode me dizer por quê o gado não andou mais longe, causando estrado em outros lugares, só ali naquele ponto perto da nascente?
– Isso eu num sei dizê doutô.
– Vocês estavam vendo eles cortar os arames e foram logo tocar o gado de volta.
– Num sinhô. Nóis vimo isso só dia seguinte. Tinha mais que vinte cabeça do outro lado da cerca.
– E vinte e poucas cabeças de gado, estragaram só o café que estava na parte que seria atingida pela mudança da cerca? Não acha isso um pouco dificil de acreditar?
– Sei dizer não senhor.
– Não tenho mais perguntas.
O juiz determinava ao escrivão algumas anotações específicas, em decorrência das palavras da testemunha.
– Pode chamar outra testemunha.
O doutor Estevão chamou um a um os outros dois e suas respostas ficaram no mesmo nível do prmeiro. Em verdade não tinham muito a acrescentar. O trunfo seria o agrimensor com sua nova demarcação e o novo mapa elaborado.
Pelos depoimentos dos dois outros dois empregados de Jerônimo, José Silvério achou desnecessário fazer perguntas a eles. A última testemunha foi chamada. Era Nicodemos de Almeida Prado. Um home alto e atlético, sinal de que sua atividade transcorria em lugares frequentemente de acesso difícile, sendo necessária uma compleição física avantajada. Sentou-se na cadeira das testemunhas e aguardou. Doutor Estevão passeou o olhar sobre os presentes e falou:
– Senhor Nicodemos, pode nos apresentar suas credenciais de agrimensor?
– Estão aqui, doutor. – retirou do bolso interno do paletó uma carteira de onde retirou um documento com fotografia que o identificava como agrimensor credenciado. Junto entregou também a sua identidade.
Estevão pegou os documentos e os apresentou ao Juiz que os leu, entregou ao escrivão para copier os dados com clareza.
– Já devolve seus documentos, senhor Nicodemos.
Enquanto isso Estevão trocou algumas palavras com a testemunha. Quando o juiz falou:
– Aqui estão seus documentos. Pode guardar. Os dados foram anotados devidamente.
Estevão entregou os documentos e depois se colocou na posição de inquiridor, dizendo:
– Como foi que o senhor veio trabalhar para meu cliente, uma vez que mora bem distante?
– Fui procurado pelo senhor Jerônimo para fazer o serviço, indicado por um cliente que é amigo dele. Me falou não confiar nos demais profissionais. Não posso recusar serviço e vim fazer o trabalho.
– O senhor teve algum contato com o outro interessado, o coronel Onofre aqui presente?
– Sei que ele foi convidado a estar presente, mas não quis saber. Disse confiar na demarcação feita há mais de 15 anos atrás.
– Como foi o trabalho? Encontrou alguma coisa errada?
– Começamos localizando os marcos nas cabeceiras. Depois coloquei o Teodolito e iniciamos a determinação dos pontos de 100 em 100 metros. Na altura da nascente encontrei um desvio da cerca para o lado da propriedade do senhor Jerônimo, de modo que ela ficava do lado do coronel Onofre. O mapa que deixei e que deve estar com o senhor mostra claramente o desvio.
– O o senhor se refere a esse mapa? – disse Estevão levantando bem alto o referido documento.
– Esse mesmo, doutor.
– Vou entregar às mãos do Meritíssimo uma cópia heliográfica para integrar os autos do processo.
Levou até a mesa do magistrado o document original e sua cópia. Foi comparada a cópia com o original e dado como verdadeira. A juntada ao processo foi ordenada.
– Teria mais algo a acrescentar senhor Nicodemos?
– Eu não, doutor.
– Doutor José Silvério, alguma pergunta?
– Sim Meritíssimo. – disse e se dirigiu à testemunha que não esperava por isso. Imaginava que seu depoimento se resumiria ao que dissera. – O senhor sabe identificar detalhes em uma fotografia, senhor Nicodemos?
– Não sou especialista, mas sei sim.
– Eu estive no local, depois que o queixoso senhor Onofre me procurou e com minha camera tirei algumas chapas do local. Mandei fazer ampliações que estão aqui. Poderia olhar para elas e dizer o que nota de errado.
As fotografias mostravam a cerca vista de longe e esta apresentava claramente a existência de uma curva ao redor da nascente. Foram olhadas atentamente pela testemunha e depois ele falou:
– Estas fotos foram tiradas antes. Agora a cerca deve estar reta. Pode ver que eu tenho razão.
– E como explica a existência desses cafeeiros cortados aqui ao lado, mostrados mais detalhadamente na outra foto tirade mais de perto?
– São imagens de épocas diferentes.
– Veja na margem inferior tem a data das imagens. Mostram quando foram feitas.
– Os negativos permitem fazer cópias muito tempo depois.
– Quando o senhor fez a demarcação, havia esse buraco ao redor da nascente que se pod ever aqui nessa outra foto?
– Não, mas isso é o que falei. São de outra data.
– Vou pedir ao Meritíssimo que junte essas cópias aos autos do processo como prova. – Entregou as imagens ao juiz que as observou, depois olhou significativamente para José Silvério e um leve sorriso aflorou ao seu rosto. Mandou ao assistente juntar todas as imagens ao processo.
– Não tenho mais perguntas.
– Doutor Estevão, tem mais testemunhas?
– Tenho sim. O próprio senhor Jerônimo. Faz favor!
Jerônimo levantou e foi sentar-se na cadeira indicada:
– Como foi que o senhor se tornou proprietário da fazenda?
– Sou o herdeiro de meu pai. Tinha uma irmã, mas ela faleceu há alguns anos e não deixou filhos, nem marido.
– O senhor viveu sempre com seu pai?
– Desde criança vivo na fazenda. Aprendi a lidar com gado desde menino.
– Está lembrado da demarcação que o coronel Onofre e seu pai fizeram no começo dos anos 60?
– Lembro. Eu era um menino de 13 anos. Meu pai foi coagido pelo coronel por conta de uma dívida que ele tinha com o coronel. Por isso aceitou aquela demarcação.
– E depois o senhor decidiu colocar a divisa em ordem.
– Demorei um pouco, ocupado com outras coisas. Meu pai deixou umas dívidas que tinham que ser pagas e me preocupei com isso. Agora que está tudo quitado, decidi por esse assunto em ordem.
– Ficou surpreso com a constatação do erro na demarcação?
– Eu não fiquei surpreso, pois sabia pela boca de meu pai que ali havia erro, mas ele aceitou para não ter que pagar na hora a dívida. Inclusive o resto eu paguei depois da morte dele.
– Tem os recibos desses pagamentos?
– Estão aqui. – Tirou de uma pequena bolsa um maço de papéis e separou os recibos relativos à quitação da dívida.
– Vou mostrare esses documentos ao Meritíssimo. Pena que não fizemos cópias deles.
– Se for preciso pode deixare eles no processo.
– Mas eles são documentos seus. Não podem ficar no processo.
– Doutor, me entregue os documentos. Vou pedir ao meirinho para leva-los para tirar cópias. Resolvemos isso já.
Os recibos foram levados para providenciar as cópias pedidas.
– O senhor procurou o coronel para fazerem a nova demarcação?
– Mandei recado mas ele não fez caso. Disse que não carecia de fazer nova demarcação.
– Quem foi levar o recado?
– Foi o Ambrósio, doutor.
– Não tenho mais perguntas.
– Eu também não tenho perguntas.
– Os dois advogados queremo chamar mais alguém?
– Eu vou pedir para que o Ambrósio volta para a cadeira das testemunhas, – falou José Silvério.
Com a autorização do juiz o indicado voltou a sentar na cadeira que lhe causava arrepios. Estava mais apavorado agora do que da primeira vez. Teria que mentir e isso o deixava nervoso demais. Sentou-se e esperou:
– Ambrósio, você levou o recado ao coronel Onofre?
– Levei sim sinhô.
– Lembra que hora foi isso?
– Num lembro dereito. Acho que foi perto de meio dia.
– O que aconteceu na fazenda do coronel?
– Ele mandou os capanga me botar para correr. Disse que não carecia de fazer outra demarcação. Que a diferença era tudo mentira de coronel Onofre.
– Você foi à pé ou à cavalo?
Ambrósio ficou pensativo, parecendo em dúvida sobre o que seria mais conveniente dizer. Sua hesitação deixou evidente que não estava dizendo toda a verdade, ou até mesmo era tudo mentira o que dissera.
– Acho que foi à cavalo, doutô.
d- Não é um pouco esquisito esquecer algo que aconteceu há bem pouco tempo?
– Meritíssimo, o advogado do queixoso está induzindo as respostas de minha testemunha. Ele não está em julgamento.
– Protesto aceito. Retire essas palavras dos autos.
– Não tenho mais perguntas.
– Eu também não, meritíssimo, – falou Estevão.
– Mais algum depoimento para completar a audiência?
Nesse momento coronel Onofre falou ao seu advogado que queria depor.
– Meritíssimo, meu cliente quer contar sua versão dos fatos.
– Pode chamar seu cliente, doutor José.
Sentado na cadeira das testemunhas, Onofre pigarreou preparando-se para falar:
– Coronel, conte-nos o que de fato aconteceu.
Em rápidas palavras o queixoso relatou sua longa relação amistosa com a família de Jerônimo, apenas depois de sua morte, quando o filho deixare a vida de andarilho em companhia de alguns elementos de maus bofes, começaram os problemas. Depois que havia quitado a última parcela da dívida que o pai tinha com ele, coronel Onofre, nunca mais haviam trocado palavra pacífica. Não tinha entendido de início, vindo a perceber tudo recentemente quando vira a mudança da cerca e o estragon no seu cafezal. Pedia a José Silvério para apresentar as cópias do cartório onde tudo estava registrado.
O advogado pegou as citadas cópias e levou até as mãos do juiz. Houve alguns minutos de demora enquanto os documentos eram examinados, lidos, registrados nos autos e anexados ao processo. Doutor Estevão pediu vistas dos documentos e foi nitida sua mudança de atitude. Parecia ter recebido uma ducha de água gelada. Ali estava claramente demonstrada a culpabilidade do seu cliente. Ele subornara o agrimensor que poderia ser inclusive responsabilizado criminalmente pela fraude. Isso era outro assunto, mas o seu cliente estaria inapelavelmente complicado. Ainda mais depois das confissões dos bandidos que cometeram o atentado à seu mando. Teria trabalho em livrar a cara dele de ser peso imediatamente e processado por ser o mandante de uma tentative de homicídio. Via dificuldades pela frente.
– Senhores advogados, querem por acaso seus clientes pensar um momento para saber se não convém fazerem um acordo e encerrar a ação?
– Meu cliente não quer ouvir falar de acordo, – falou doutor Estevão. Estava furioso com Jerônimo, mas nada havia a fazer.
– Meu cliente aceitaria um acordo mediante o retorno da cerca à posição correta e uma indenização menor pelos prejuizos. Poderiamos até pensar na retirada da queixa pelo atentado de que o coronel Onofre foi vítima recentemente. – falou José Silvério.
Ouvindo isso Estevão sentiu renascer as esperanças, mas o cliente estava irredutível, fazendo gestos negativos. Confiava em seus homens e iria dali para sua casa. O coronel lhe pagaria cara essa derrota. Não encontrando respaldo para suas argumentações em favor de um acordo, não restou alternativa ao doutor Estevão e aceitou a situação.
Depois de ter ouvido todos os testemunhos, visto as provas documentais apresentadas pelas partes, diante da negativa da parte acusada de fazer um acordo, o juiz demorou alguns momentos confabulando com o assistente. Determinou ao escrivão a redação da sentença, o que foi feito rapidamente. A máquina de datilografia matraqueava violentamente, enquanto as palavras ditadas em voz baixa pelo magistrado iam sendo registradas no papel. Terminada a redação, feita em três vias, sendo a primeira para ficar anexa ao processo e as outras duas seriam entregues aos querelantes. Assinadas as vias o juiz determinou ao seu assistente a leitura da sentença que dizia, depois de uma introdução identificando os envolvidos, resumindo a queixa:
– Diante de tudo isso, eu, Dr. Osmar Dias Ferreira, Juiz desta comarca condeno o Sr. Jerônimo da Luz a pagar, a título de indenização por danos causados à propriedade de Onofre Pires, a quantia de Cem mil Cruzeiros. Igualmente deverá, às suas custas exclusivas, contratar um agrimensor credenciado para fazer o levantamento dos limites das duas propriedades. Em se constatando o deslocamento dos limites de seu local original, deverá recolocar a cerca na posição devida, deixando um metro de espaço entre a mesma e a divisa. Outrossim, as custas judiciais deverão ser custeadas pelo Sr. Jerônimo. Ambas as partes tem o direito de recorrer desta sentença no prazo máximo estipulado em lei. A sessão está encerrada.
            Quando chegaram a um local afastado convenientemente do gabinete judicial, sentaram-se para conversar. O Cel. Onofre não cabia em si de contentamento. Disse entusiasmado:
            – Quero ver o Jerônimo recorrer. Ele que se meta a besta. A única coisa que vai conseguir é aumentar o tamanho da despesa. O advogado dele deveria aconselhar a ele de não entrar com o recurso.
            – Acho que ele está sujeito a sair do forum direto para a cadeia. Depois de tudo que fez, não duvido um muito. Teremos que esperar para ver o que eles irão fazer. Só podemos tomar qualquer iniciativa depois que eles derem o primeiro passo. Por ora nosso objetivo foi alcançado, – disse o Dr. José Silvério.