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Na senda dos monges, Capítulo XIII – O retorno de Gumercindo Saraiva.

  1. Retorno de Gumercindo Saraiva.

Vale do rio do peixe 1

Vale do Rio do Peixe

Diante da impossibilidade de manter a posição conquistada no Paraná, tendo pela frente um contingente numeroso e bem armado do exército nacional, Gumercindo Saraiva, poucas horas após dominas Curitiba, ordenou a retirada. Por melhor que seja organizada tal operação, sempre acontecem fatos desastrosos. Há os que mantem a calma e conseguem fazer as coisas sem atropelos, mas também há quem se apavore e cometa tolices. Após passar os limites da Lapa, conquistada anteriormente, Gumercindo ordenou uma rápida parada para conferir a tropa. Nesse momento notou a ausência de seu ajudante João Maria.

Encontro de Gumercindo Saraiva e Custodio de Melo no Paraná.

Encontro de Gumercindo Saraiva e Custodio de Melo no Paraná

Um soldado relatou que vira o tenente, acompanhado de um pequeno grupo, tomar um caminho que parecia um bom atalho. Depois não os havia visto mais. Não querendo deixar homens valiosos para trás, o comandante ordenou a um capitão, tendo sob suas ordens um pequeno destacamento para retornarem e procurar pelos extraviados. Poderiam estar em dificuldades, precisando de apoio. Tomada essa providência e feito o balanço das baixas, seguiram marcha com destino às margens do Rio Iguaçu.

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Na senda dos monges! – Capítulo XI – O amor renasce.

pinheiros na floresta

Floresta de pinheiros

Floresta de pinheiros.

Floresta de pinheiros 2

 

  1. O amor renasce.

 

João Maria, depois de falar da esposa perdida e da filha distante, caiu um momento em nostalgia profunda. O olhar estava distante, os pensamentos vagavam no tempo em que levara Ceci para a frente do padre e do juiz de paz e casara com ela. Já haviam se passado aproximadamente 10 anos. Haviam vivido um idílio, mas durara pouco. Sua Ceci, doce, suave e ao mesmo tempo selvagem e bela, perdera a vida ao dar à luz a pequena Isabel. Nesse momento lembrou da filha e imaginou o que estaria fazendo a essa hora. Ajudando a avó, brincando, lembrando do pai que não voltara da guerra para onde fora sem ter necessidade. Teria derramado alguma lágrima ao saber do retorno da tropa? Estaria esperando pelo milagre de vê-lo entrando pela porteira da propriedade?

Despertou do devaneio e viu Luz Serena olhando inquisitiva para ele. Apressou-se em dizer:

– Estava lembrando da minha Ceci que morreu e da filha Isabel que está com 8 anos e alguma coisa.

– Assim? – apontou Lua mostrando uma mão e três dedos da outra.

– Sim, isso mesmo.

– Sentir saudades de filha?

– Eu tinha passado alguns dias sem lembrar nem de mim, quanto mais de outras pessoas. Agora voltou tudo com mais força. Bateu uma dor aqui no peito de lembrar da minha família.

A vida lentamente começou a voltar ao corpo descarnado de João Maria. O longo período de luta contra a infecção, consumira suas carnes, deixando-o pele e ossos. Por sorte não dispunha de um espelho para se observar. Não veria o estrago feito em seu corpo forte e musculoso. Bastava olhar as mãos esqueléticas, as pernas com a pele pendurada. Transformara-se em um verdadeiro saco de ossos. Vendo-o observar o próprio corpo com ar preocupado, Luz Serena falou:

– Lua vai pescar e caçar para trazer comida boa para amigo ficar forte logo.  Poder usar cavalo para ir mais depressa?

– Se vocês se entenderam tão bem, eu já disse, o cavalo é seu. Use sem receio.

– Agora precisar comer um pouco de carne com pinhão. Ser comida forte. Logo ficar pele cheia de novo. Veneno comeu carne de braços e pernas.

– O infeliz deve ter colocado alguma coisa bem ruim naquela bala que me acertou. Quanto tempo eu fiquei aqui deitado sem ver e ouvir direito?

– Assim de luas, – disse mostrando a mão direita com um dedo levantado.

Havia passado um mês inteiro estendido ali, entre a vida e a morte, enquanto os dois benfeitores se desvelavam em lhe prestar os todos os cuidados que sabiam prover. Felizmente, alguma coisa que o velho índio fizera, talvez combinado com seu físico forte e sempre resistente, haviam operado o milagre de sua recuperação. Os demais integrantes da tropa provavelmente estariam combatendo em alguma incursão nos campos do Rio Grande. Para ele a guerra estava terminada. Precisava, antes de pensar em qualquer coisa, recuperar as forças. Comeu com nova disposição a comida que a jovem Lua Serena lhe ofereceu. Era uma mistura de carne seca com pinhão socado no pilão, encostado a um canto. Nunca experimentara essa mistura, mas percebeu que era um alimento substancioso. Depois de comer um pouco, sentiu que fazia peso em seu estômago e não deveria exagerar. Estava a tempo demais se alimentando de modo frugal, quase nada.

– Ficar com vovô Trovão Distante. Lua ir pescar e caçar. Na volta trazer frutas e pinhão.

– Vou tratar de me recuperar e ajudar você a caçar, pescar. Deve ser bom. Posso ensinar atirar com espingarda. Mais fácil caçar.

– Fazer muito barulho e assustar outros animais. Eles ir embora e depois não ter mais caça.

Ela saiu e de um salto montou no lombo do tordilho que pastava ali perto. Sem nada, em pelo e sem rédeas, conduziu o animal pela trilha, sumindo na distância. A comida ingerida, além de pesar no estômago despertou uma soneira que logo o derrubou na esteira, voltando a dormir. O velho índio, fumando seu cachimbo serenamente, olhou confiante para o homem. Sua “medicina” fizera o milagre em nome de Tupã. Depois de umas boas baforadas, levantou e foi até a fonte com a cabaça, voltando de lá com água fresca. Tomou de uma outra cuia pequena para beber uma porção de água. Sorveu vagarosamente o líquido cristalino. Era remédio puro. Água brotada da fenda de uma rocha, protegida da erosão e outras formas de contaminação. Era sempre gelada. Entrava no corpo como um elixir renovador.

Imagens do vale do rio do peixe.

Imagens aéreas do vale do rio do peixe.

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Rio do peixe em época de cheia.

 

João acordou vendo o velho bebendo água e sentiu sede. A comida despertou nele sensação de falta de água. O corpo requeria a reposição do líquido, consumido em longos dias de agonia. Pediu água e o velho lhe alcançou uma cuia cheia. Bebeu sentindo como que uma regeneração do organismo. Aquele líquido puro, desceu e foi absorvido sem demora. Logo depois teve vontade de beber mais um pouco, ao que o velho consentiu. Depois de beber a segunda porção, o idoso falou:

– Agora chega. Não poder beber muito água de uma vez. Ficou muitos dias tomando só pouquinho de chá. Se tomar muito, pode fazer mal, doença pode voltar.

– Eu sei, Trovão Distante. Quando a gente fica muito tempo sem beber água, precisa beber de pouco cada vez, até repor o que está faltando.

– Vejo que você ser experiente. Viver bastante em contato com terra e natureza.

– Passei a vida em contato com a natureza. Passei muitas vezes aqui por perto tocando tropa de mulas para São Paulo.

– Você ser tropeiro?

– Agora não mais. A construção de estradas de ferro acabou com o comércio de mulas em São Paulo.

– Você falar “cavalo de aço que corre sobre trilho”?

– Esse mesmo. Aqui também vão construir uma assim. O projeto está pronto e até o contrato já foi feito. A revolução atrasou tudo, mas depois vai ser construída a estrada de ferro por aqui. Vão acabar com a maior parte dessa floresta que existe aqui.

– Até lá Trovão Distante vai estar com antepassados. Vida de Trovão está quase no fim.

– Não fale uma coisa dessas. Luz Serena ainda precisa do senhor por muito tempo.

– Luz Serena ser mulher forte e valente. Vai saber viver sozinha quando eu for para junto de antepassados. Acho que ela gostar de amigo. Como ser seu nome?

– Meu nome é João Maria. Foi meu avô que escolheu esse nome para mim. Havia um monge que andou por lá onde ele morava. Descobriu uma fonte de água que é remédio. Meu avô voltou da guerra doente e a água da fonte curou ele. Viveu mais quarenta anos depois daquilo.

– João Maria? Homem que tinha dedos de mão esquerda com defeito?

– Sim, meu avô sempre falou disso. O senhor conheceu o Monge?

– Ele passar por aqui. Dormiu aqui perto de fonte. Ensinou uso de ervas a Trovão. Era homem muito bom e sabia muita coisa.

– Quem diria que eu iria encontrar aqui alguém que conheceu o Santo Monge João Maria! Eu sou João Maria em homenagem a ele. Ninguém sabe onde ele foi parar. Não se sabe se morreu, se foi embora, se voltou para Itália, onde nasceu.

– Aqui passou dois dias e foi para onde sol vai dormir. Falou que queria encontrar montanhas altas que tem longe e viver em paz por lá. Estava cansado de muita gente perto.

– Então ele passou por aqui antes de chegar em Santa Maria. De lá acho que foi para Argentina e Paraguai. Depois nunca mais se ouviu falar dele. Várias vezes apareceu alguém dizendo que era João Maria voltando como prometeu. Mas logo ficava provado ser tudo mentira.

– Monge João Maria ser único. Conhecer muito homem branco, nenhum era igual ele. Eu acho que era enviado de Tupã.

– É o que todos dizem. Vocês chamam Tupã, nós chamamos Deus, mas é tudo a mesma coisa.

– Tupã ser criador de tudo. Fazer sol, luz, terra, plantas, animais e homens. Colocar homens brancos em outro mundo, mas eles veio aqui tomar terra de índio. Agora tem pouco índio, branco matou quase tudo.

– Isso é muito triste. Poderíamos viver todos juntos e nos respeitar. Mas os brancos realmente fizeram muita maldade contra seu povo.

– Agora não ter mais nada para fazer. Logo índios desaparecer. Sobrar bem pouco e não demora acaba tudo.

– Acho que vou dormir mais um pouco. Estou tão fraco.

– Descansar bastante. É só o que precisa fazer agora, além de comer bem.

Deitou e dormiu por um longo tempo. Enquanto isso o velho índio intercalava momentos de cochilo em seu banco diante da cabana, onde o sol derramava seus raios tépidos de outono. De vez em quando deitava um olhar para o convalescente para verificar se estava tudo bem com ele. Constatando que o mesmo dormia placidamente, sem inspirar mais cuidados depois da longa batalha, voltou ao seu cachimbo a intervalos regulares. Quando o sol ainda ia alto, o ruído do galope leve do tordilho anunciou a volta de Lua Serena. Chegava trazendo uma penca de peixes que conseguira fisgar, uma paca e uma cutia penduradas de cada lado do animal, além de um sortimento de frutas e um bornal cheio de pinhões. Teriam alimentos para mais de dois dias.

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Pinheiros em dia de sol.

 

João acordou e viu o cavalo trazendo a sua bela benfeitora. Ao ver o dono, o animal se aproximou e o cheirou inteiro, como para confirmar tratar-se do seu dono. Ele acariciou o animal carinhosamente, conversando com ele. Logo Lua chegou perto e perguntou:

– Ele contar que salvou minha vida hoje?

– Tordilho é um animal muito inteligente e manso. O que aconteceu?

– Cobra venenosa estava esperando no caminho. Ele sentiu cheiro e não chegou perto. Cobra veio para mais perto mas ele fez volta, encontrando desvio para passar longe dela.

– Bom garoto! Lua Serena agora é sua dona. Ela e o avô salvaram minha vida.

A jovem fez um carinho na crina do animal e ele apoiou o focinho em seu ombro, demonstrando quanto apreciava seus afagos.

– Estou vendo que você conquistou ele definitivamente. Nem precisa de rédeas ou sela para montar. Ele sabe onde ir e o que fazer.

– Ele ser muito inteligente. Animal de grande valor.

– Cavalo amigo de homem.

– O cavalo e o cão são amigos do homem. Não sei qual deles é mais amigo.

– Cão ser amigo, mas não ter utilidade de cavalo. – falou Trovão.

João Maria quis levantar e ajudar a limpar a caça e os peixes, mas Luz Serena não permitiu. Ele ainda não tinha forças para trabalhar. Poderia, se conseguisse, levantar e dar alguns passos ao redor da cabana. Conversar com o cavalo e leva-lo para pastar. Em poucos minutos ela se desincumbiu da tarefa de preparar a carne dos peixes e das caças para a refeição da noite, além de guardar o excedente para os dias seguintes. Sempre era importante ter uma reserva para suprir as necessidades básicas num dia de pouca sorte ou na ocorrência de algum imprevisto.

O tordilho pastou, depois foi até pouco abaixo da fonte onde a água formava um pequeno poço e bebeu avidamente. Estava com sede, depois de horas trabalhando, levando a jovem amazona de um lado para outro. Ele a aceitara como se soubesse que estava empenhada em providenciar alimentos, ervas e raízes para cuidar do seu dono. Agora estavam tão ligados como se tivessem crescido juntos. Depois de caminhar por um bom tempo nos arredores, João sentiu-se cansado e voltou para seu lugar de dormir. Deitou-se e cochilou um pouco. Quando acordou sentiu o cheiro de peixe sendo assado e Lua Serena estava socando pinhão para fazer farinha. Seria servida junto com o peixe assado na refeição da noite.

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Copadas de pinheiro.

pinheiros na floresta

Pinheiros na floresta.

 

 

 

 

 

 

 

Ao tentar levantar-se e ir beber um pouco de água ela lhe alcançou rapidamente a cuia, dizendo:

– Precisa descansar. Lua alcança água para você. Vovô contou que você tem nome de homem bom que passou aqui faz muitos anos, bem antes de Lua nascer.

– Sim. Meu nome é João Maria, em homenagem ao Santo Monge João Maria.

– Vovô Trovão fala sempre que esse homem dormiu aqui dois dias, bebeu da fonte e falou que ser fonte abençoada.

– Então foi João Maria que me guiou para aqui. A água ajudou a me curar. Em toda parte onde ele passou deixou uma fonte abençoada, que serve para curar várias doenças.

– Família viver aqui perto de fonte muitos anos antes e depois. Sempre beber água dessa fonte.

– Quem iria ficar satisfeito era meu avô, mas ele faleceu há 10 anos. – Mostrou as duas mãos com os dedos estendidos.

Ela fez sinal de ter entendido. Raramente ela fixava os olhos nele, salvo quando ele estava olhando para outro lado. No princípio João pensou dever-se isso ao seu aspecto pouco agradável, magro e ressequido como estava. Nem sequer desconfiava dos sentimentos que agitavam o coração e a mente da jovem mestiça. Ele sentia seu instinto masculino levemente excitado diante da juventude exuberante dela. Todavia aprendera que era preciso respeitar a hospitalidade, especialmente de quem salvara sua vida e assim permaneceu impassível. Enquanto isso ela se movia graciosamente de um lado para outro, sempre empenhada em colocar tudo ao alcance dele e do avô. Era possível sentir, quase ao ponto de tocar, o imenso amor e dedicação que ela devotava ao ancião.

Sua dedicação a ele devia ser decorrente da alegria sentida ao descobrir que ele recuperara a saúde, depois das longas semanas de delírios e momentos de pouca esperança. Enquanto ela se desdobrava no serviço, João procurou saber mais sobre a vida da família de Trovão e Lua. Haviam vindo de um aldeamento nas proximidades do Rio Uruguai, há muitos anos, mas um desentendimento com o padre os levara a mudar com todo o grupo familiar para aquela região, onde encontraram caça, pesca e demais fontes de alimentação em abundância. O idoso fez com a mão sinal de que viviam ali há mais de 50 anos.

Há cerca de quinze anos, um grupo de homens armados, viera e atacara a aldeia, matando a maioria, levando os homens fortes amarrados, estuprando as mulheres e depois matando-as. Ele, já idoso, protegera a neta criança, ficando escondido em uma caverna existente ali perto. Quando saíram de lá, encontraram somente morte. Com muito esforço haviam providenciado o sepultamento dos entes queridos. Das cabanas destruídas, reuniram o que era possível aproveitar e passaram a viver ali. Luz Serena crescera e aprendera a caçar, pescar, colher ervas, raízes, frutas e pinhão. Era assim que viviam desde aquele dia. Nunca mais haviam tido contato com outros homens brancos, até o dia de sua chegada ali. Nem indígenas haviam encontrado.

Era um milagre terem sobrevivido pro tanto tempo ali, distantes de tudo e todos. Tendo somente um ao outro para tomarem conta. Logo o ancião iria para junto dos antepassados e Lua Serena ficaria sozinha no mundo. Um olhar significativo do ancião, despertou em João um sentimento de compaixão. Percebera no olhar uma espécie de pedido de ajuda. Como que dizendo, cuide de minha neta quando eu partir dessa vida, ou ela vai ficar sozinha para o resto da vida.

Foi nesse momento que João se deu conta da realidade. Os olhares furtivos de Lua Serena, poderiam estar significando algo mais do que apenas curiosidade ou pena. Ele poderia ser considerado sua tábua de salvação contra a solidão total e absoluta ali naquela distância.  Avaliou demoradamente a hipótese de desposar a jovem. Não seria assim tão fora do padrão, uma vez que fora casado com uma mestiça e fora imensamente feliz, embora por pouquíssimo tempo. Esperaria algum sinal mais concreto da parte dela ou do ancião, embora ele não fosse lhe pedir diretamente para desposar a neta. Podia perceber que sua presença estava trazendo nova esperança ao coração cansado do velho Trovão Distante.

Os dias passaram e João, a cada dia, sentia-se mais forte. Já conseguia caminhar distâncias maiores sem ficar extenuado. A alimentação natural e rica em proteínas proporcionada pela caça e pesca de Lua, operou verdadeiro prodígio. Menos de um mês depois estava sentindo as forças voltarem. A barba crescera e julgou ser chegada a hora de raspar os pelos e assim ver como estava o rosto. Se a pele estava ficando novamente esticada ou se ainda estava toda enrugada. Procurou entre os pertences no canto onde estava a cela e demais acessórios, e encontrou o seu pente, além da navalha para se barbear. A lâmina não era usada há longo tempo e precisava ser amolada adequadamente.

Lua, vendo-o fazer aquilo ficou curiosa. Ao olhar pra o espelho viu o próprio rosto e se assustou. Vira o rosto refletido na superfície da água e agora via-o em um objeto. O avô logo percebeu o que estava causando alvoroço na neta. Conhecia espelhos desde jovem, mas nunca lhe haviam feito falta. O rosto foi ensaboado com abundância, usando um pedacinho de sabão que encontrara junto dom os demais utensílios. Depois se barbeou cuidadosamente, para não cortar a pele em alguma dobra ainda existente. Em alguns minutos estava com o rosto limpo e constatou que sua aparência estava quase normal. Pequenas rugas haviam aparecido, mas provavelmente isso era consequência da idade.

Ao ver o rosto barbeado, Lua sentiu o coração disparar. Ele estava muito mais atraente e sentiu-se encabular. Os olhos atentos de Trovão perceberam o estado de espírito da neta. Decidiu dar uma ajuda para que os dois pudessem se entender. Sugeriu que ele a acompanhasse na coleta de frutas que faria naquela tarde. Tinham carne para dois dias e não havia como conservar por mais tempo. A caça abatida antes da hora, serviria para estragar e não eram predadores, caçavam apenas o necessário para se alimentar. Lua decidiu fazer a coleta nos locais mais próximos onde há dias não colhia frutos nem catava pinhões.

Caminharam lentamente até os enormes pinheiros onde as pinhas estavam suspensas nos altos galhos, estourando a qualquer momento, despejando uma verdadeira chuva de pinhões sobre o solo. Nos mesmos lugares era possível caçar pacas e cutias que vinham comer pinhões. Nesse dia espantaram várias delas. Enquanto catavam pinhões espalhados no chão, nos pinheiros ao lado, três ou quatro daquelas bolas estouraram e ouviu-se um pequeno temporal de caindo no chão. Havia ali pinhões em quantidade suficiente para sua alimentação por vários dias. Era época de colher sempre um pouco a mais e assim fazer uma reserva para os meses em que não haveria pinhas maduras.

As vestimentas exíguas de Lua, deixavam boa parte da pele de seu corpo jovem à vista. Ao se abaixar para coletar os pinhões não pode deixar de notar suas cochas e nádegas lisas, bem torneadas. Os seios ainda em crescimento eram firmes e bem formados, tendo os mamilos bem típicos da raça indígena. O bico não ficava muito destacado e ele precisou virar de lado para não ficar vendo o tempo todo aquele corpo atraente. Ela não tardou a perceber que ele evitava olhar para ela e decidiu tirar a prova. Parou diante dele e indagou:

– Você achar Luz Serena bonita?

Tomado de surpresa ele não soube o que dizer de imediato. Ficou atrapalhado e tentou desviar o olhar novamente. Foi então que ela disse:

– Você não quer olhar para mim. Ou achar eu feia ou ficar com vontade de deitar comigo.

– Você é muito bonita, Luz Serena. Eu tenho por você e seu avô o maior respeito e não quero causar desgosto nem a você, nem a ele.

– E gostar de Lua Serena ser desrespeitar vovô Trovão?

– Não é isso. Eu não quero fazer nada que possa dar desgosto a vocês.

– Você ter vontade de abraçar Lua Serena?

– No nosso povo, todo homem tem vontade de abraçar uma mulher bonita. Mas isso nem sempre é conveniente. Pode dar problemas.

– Eu não ter mãe, pai, nem irmão. Não existe por aqui homem para mim, só você. Eu quero você. Você quer Lua?

Sem saber o que dizer João se aproximou da jovem mulher, cujo corpo fremia de desejo, olhou fundo em seus olhos negros e perdeu o controle de seus sentimentos. Logo estava abraçando ternamente aquele corpo jovem, beijando-a avidamente e ela lhe correspondia. Mesmo nunca tendo visto um beijo, a natureza lhe ensinara o que deveria sentir e fazer. As roupas começaram a cair ao chão e logo estavam deitados sobre uma cama de folhas, de onde haviam sido retiradas as grimpas de pinheiro. A inexperiência da jovem mandava ter calma e prudência. Não queria lhe causar traumas na primeira experiência íntima. Acariciou com mãos ávidas todos os pontos de sua pele e por último chegou aos genitais. Não precisou de muito para sentir que ela estava toda úmida de excitação.

Calmamente livrou-se também das últimas peças de roupa e possuiu-a com paixão. Sentiu um pouco de dificuldade para penetrar o corpo virgem, mas um golpe mais firme rompeu a membrana e ela gemeu de leve. Logo depois os corpos se moviam em harmoniosos movimentos. Ela era um pequeno vulcão. Parecia ter herdado o instinto selvagem da raça indígena, mas também a voluptuosidade das mulheres latinas. O tempo passou e eles se amaram várias vezes até ficarem exaustos. O riacho ficava perto e foram até lá se lavar cuidadosamente. Voltaram abraçados para o lugar onde estavam suas roupas e se vestiram.

Trataram de coletar rapidamente os pinhões que estavam espalhados por todo lado. Depois passaram por uma moita de bananas e colheram um cacho bem maduro. O facão de João foi útil ao cortar de um golpe o tronco da bananeira, segurando o cacho pela extremidade. Assim evitou que ele se espatifasse no chão. Chegaram de volta à cabana, carregados de frutos e pinhões. Descarregaram tudo e comeram algumas bananas que estavam mais maduras. O velho Trovão parecia adivinhar o que acontecera. Olhava fixamente para eles sem dizer palavra. Aguardava que lhe contassem a verdade e João decidiu não perder tempo. Fora precipitado, mas, vivia sem mulher a muito tempo e não soubera resistir aos encantos da jovem neta do seu benfeitor.

Ela ao contrário, parecia mais faceira do que sempre. Parecia um passarinho saltitante e alegre ao se ver livre da gaiola. Sentou-se diante de vovô Trovão Distante e falou:

– Eu faltei com meu dever para com sua hospitalidade, meu amigo.

– O que aconteceu?

– Eu fiz de Luz Serena minha mulher. Peço que abençoe nossa união. Prometo cuidar dela até o último dia de minha vida.

– Que Tupã abençoe vocês dois e me providenciem um bisneto, antes que eu vá para junto dos meus antepassados. Luz Serena! Vem aqui do lado do teu marido.

Ela não se fez de rogada e logo estava ao seu lado. O ancião levantou-se e eles ficaram ajoelhados diante dele. Colocou as mãos sobre suas cabeças e falou algumas palavras em Guarani, do que João não entendeu nada, mas imaginou ser uma espécie de oração dirigida à divindade venerada pelo seu povo.

– Agora vamos comer uma fruta para comemorar união de vocês. Que tenham muitos filhos e netos, para fazer ressurgir uma parte do meu povo. Agora vocês vão dormir junto. Precisamos fazer cama maior para vocês.

– Os pelegos da minha sela e vão servir para forrar o lugar.

– Vamos fazer uma outra cabana para vocês. Essa é muito pequena.

– Mas isso tem tempo nos próximos dias. Eu já posso ajudar. Meu facão e um machado que tenho vão ser úteis.

– Aqui ter bastante palmitos e coqueiros. Vamos ter a cabana pronta em dois dias. Se vocês já deitaram juntos hoje, não vão precisar de cama juntos hoje. Podem esperar até amanhã.

João pensara que iria se ver em apuros diante do ancião e correra de forma tão fácil, como se isso fosse esperado por ele. Em questão de horas passara de um estranho em convalescença, para a condição de marido da jovem, consequentemente neto do ancião. A noite passou tendo os dois aconchegados sobre a esteira onde os pelegos haviam sido estendidos. Sentir o calor do corpo jovem deixava seus sentidos em permanente revolução. Se amaram mais de uma vez durante a madrugada e ela, embora tivesse tido seu primeiro contato íntimo há menos de 24 horas, se portava como uma mulher experiente. Amanheceram abraçados e enrolados em panos, mas totalmente nus.

Antes de Trovão acordar levantaram e foram para a fonte se lavar e vestir. Não queriam perturbar o sossego do idoso. Enganavam-se pois ele estivera ouvindo os ruídos e gemidos a noite toda. Sabia o que sucedia ali ao lado e dava graças por saber que a neta amada estava agora sob a guarda de um homem forte, valente e de coração nobre.

Décio Adams

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