Seminário São José

Vista frontal do prédio do Seminário e capela ao lado.

Gruta em pedras localizada ao lado da capela

Vista frontal da capela






Neste lugar vivi quatro                           
                      anos de minha adolescência.


         O então Seminário São José, hoje serve de sede a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). O prédio continua essencialmente o mesmo, com poucas alterações. A capela, onde rezei muito. A gruta ao lado, onde passamos muitos momentos de oração ao entardecer. A fachada apenas recebeu o acréscimo de uma estátua de São José, colocada no alto, em frente. A estradinha de acesso, aberta a picareta, pá, enxadão, carrinhos de mão e carretas de duas rodas que puxávamos e empurrávamos para transportar a terra. Foi um verdadeiro trabalho de formiguinhas, que levou meses para ficar terminado. Antes havia apenas uma entrada única, sem muito espaço para manobras. Construímos à mão o contorno da pracinha em forma de aproximadamente um coração. Mas sentíamos um tremendo orgulho do resultado. No comando estava o Pe. Canisio Dapper, que não ficava apenas mandando. Pegava no pesado junto com a gente e sabia nos incentivar, motivar nos momentos de desânimo e cansaço. Vi com meus olhos suas mãos com grandes calos causados pelo uso das ferramentas, às quais suas mãos sacerdotais não estavam afeitas no dia a dia. Isso se deu nos anos de 1961/62/63. Não sei precisar exatamente o período, mas foi nesse tempo.
Foram quatro anos longos, custavam a passar, cheios de atividades. Eram horas aparentemente infindáveis de estudos, aulas, tarefas ditas domésticas como lavar louças, limpar o chão, as privadas, cultivar a horta, capinar o pomar, varrer o pátio. Tudo isso era por nossa conta. Havia um grupo de freiras e também moças que atendiam o serviço de lavar e passar a roupa; outras encarregavam-se da cozinha, preparando nossas refeições. Nós as víamos de relance por uma janela por onde eram passadas as travessas de comidas, passando rapidamente por algum corredor, ou pela manhã na hora da missa, quando iam comungar. Instantes antes de terminar a benção final elas se retiravam rapidamente para seu setor e no resto do tempo praticamente não eram visíveis.
Como disse acima, foram longos anos na época, mas hoje me parecem tão efêmeros e fugazes. Lembro de muitos momentos com saudades. Nos dias em que íamos todos ao campo de futebol do clube local, cujo nome não me lembro, depois nadar numa pequena represa que havia em uma chácara pertencente ao Seminário. Uma vez ao mês havia um passeio dito passeio geral ou grande, quando passávamos o dia inteiro fora. Em uma chácara perto, ou então em alguma propriedade mais distante, quando o percurso era feito em carroceria de caminhão e a alimentação fornecida por algum benfeitor. Em geral nos ofereciam churrasco, outras era a famosa galinhada. Um arroz com frango caipira, muito bem temperado, regado a muito refresco, ou vez ou outra uma sangria, isto é, um pouco de vinho diluído em água e adoçado. Eram dias de intensa alegria. Havia os aficionados da pesca. Quando no local existisse um rio ou tanque lá iam eles com seus anzóis, iscas (minhocas ou massinha de pão). Muita vez voltavam de mãos abanando, outras traziam seus peixes, algum muçum e os limpavam, entregavam na cozinha onde eram fritos e lhes servidos na hora do jantar. Em geral retornávamos cansados, porém prontos a enfrentar mais um período de estudos, trabalhos e sem esquecer as orações nas horas certas, intercaladas com algumas outras extemporâneas.

Outra vista frontal do prédio

Vista frontal da capela com imagem de São José

Minha esposa Rita com a prima Adriane Dewes diante da gruta

Vista diferente de Rita e Adriane diante da gruta

Entrada da capela e novo acesso ao prédio hoje da UFFS
Nesse ambiente tive complementada minha formação básica para a vida, sem deixar de citar o estudo do Latim, e principalmente, um professor de português que tive a graça de encontrar. Seu trabalho foi formidável e recentemente estive em sua casa em Três de Maio. Está hoje com 74 anos, é escritor e terapeuta holístico. Posso afirmar que os anos apenas o tornaram mais experiente, pois suas demais qualidades se aprimoraram com o tempo. É igual ao vinho, quanto mais envelhecido, melhor ele fica. Trata-se de Carlos Afonso Schmitt.
Ali aprendi a conviver em grupo, com colegas de diferentes etnias, como descendentes de poloneses, italianos e outras. Uns provenientes de famílias pobres como eu mesmo, outros de lares mais abastados, dispondo de mais recursos para diversas finalidades. No entanto ali dentro, em regime de internato, não existia distinção, mesmo que alguns quisessem fazer valer sua posição social superior, costumavam ser desestimulados em suas pretensões. Éramos todos membros de uma comunidade e, tirando a parte de estudar, fazer provas, devíamos agir visando o bem comum. Não existiam privilégios dessa ou daquela natureza.
Um imenso pomar provia a maior parte do suprimento de frutas consumidas pelos alunos e também pelos servidores que passavam ali dentro a maior parte de seu tempo. A horta, onde trabalhei por cerca de um ano e meio ou dois, não lembro bem, era constituída de terra fértil, bem adubada e dispunha de água em abundância para irrigação. Assim a disponibilidade de verduras e legumes em geral era farta. Era rara a refeição em que não dispúnhamos de uma travessa de algum tipo de salada, em geral proveniente da horta.
Era comum receber doações de laranjas, melado de cana, batata doce e outros comestíveis de maior duração. Nessas ocasiões era contratado um caminhão, um grupo de alunos designado para fazer o carregamento ia junto e percorríamos um roteiro predeterminado recolhendo as doações que eram reunidas em lugares centralizados para facilitar o acesso. Participei de excursões desse tipo uma ou duas vezes. Eram dias especiais, pois fugíamos à rotina. Geralmente eram indicados alunos mais destacados, que vinham obtendo melhor rendimento nas avaliações, o que permitia deduzir que não lhes faria tanta falta a ausência das aulas de uma tarde. Teriam capacidade de recuperar o tempo perdido depois.
Deixei esse ambiente no mês de abril de 1965, aos 16 anos de idade, indo enfrentar a vida na comunidade. Havia concluído que não era minha vocação o sacerdócio. Provavelmente desde o princípio não a tive, mas com certeza os anos ali vividos foram importantes para minha vida, personalidade e atuação na vida até os dias atuais. 
Minha esposa e eu

A prima Adriane e eu

Vista mais afastada de frente

Rita e eu diante da gruta
                   
              Havia retornado a esse local em 2004, após praticamente 40 anos de ausência, para uma visita rápida. No dia 20 de junho desse ano, voltei e encontrei boa parte da antiga estrutura preservada. As mesmas pedras da gruta com suas imagens. A capela, o prédio principal, até alguns ciprestes continuam lá, com suas pontas em forma de agulha apontadas para o céu. A pracinha está lá, apenas um pouco mais rebaixada, creio devido à ação do tempo. Talvez meus olhos hoje vejam tudo em uma perspectiva um pouco diferente do que a memória trazia registrada daqueles longos anos passados. 

             

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