Meu professor de português.

Carlos Afonso assando carne para o almoço ao chegarmos a casa.

Carlos Afonso Schmitt

Meu professor de português na segunda série do ginásio/1963

No dia 24 de junho, aproveitando minha passagem pela região em visita a familiares, visitei meu estimado mestre, que não via há mais de cinquenta anos. Um problema no mapa do GPS nos fez errar o caminho, causando um consequente atraso em nossa chegada à sua residência. 

         Antes de mais detalhes, cabe recordar como o conheci. Era 1963, eu era um dos alunos internos do Seminário São José de Cerro Largo. Carlos Afonso concluíra em 1962 os estudos de filosofia no Seminário Maior de Viamão, RS. Passou um ano lecionando no Seminário Menor, visando avaliar sua vocação para o sacerdócio, para depois seguir com os estudos de teologia. Seria nosso professor de português. 

          No sábado pela manhã, após a primeira semana de aulas, ele nos surpreendeu com um teste surpresa. Chegou, mandou retirar uma folha dupla do caderno em formato brochura e ditou ou escreveu no quadro uma porção de questões relativas ao conteúdo da primeira série que havíamos cursado no ano anterior. Inicialmente ficamos espantados, mas nos tranquilizou que queria saber em que pé nos encontrávamos relativamente ao domínio da matéria passada. As questões foram respondidas do jeito que foi possível e as fisionomias dos integrantes da turma ao sair da sala demonstravam bem o estado de ânimo em que nos encontrávamos. 

          Na segunda ou terça-feira seguinte, ele trouxe os tais testes corrigidos. Chamou um a um pelo nome, fazendo a entrega dos mesmos. As cabeças iam se abaixando, dando a impressão de quererem sumir dali. Olhares curiosos para os lados tentando sondar o estado de espírito dos colegas e nenhuma palavra. Cada um estava ensimesmado, imaginando a consequência do verdadeiro desastre que significava o resultado. Ao terminar a devolução, parou diante da turma, no meio da sala e falou:

       – Eu só não vou levar em conta os resultados desse teste, se vocês concordarem com o que vou propor. 
   
        Ninguém ousou dizer palavra. Ficamos pendentes do veredito que dali a instantes seria pronunciado pelo professor. Olhou por um momento longo para todos, um a um, depois continuou:

        – Este teste deixou evidente que vocês não sabem nada do conteúdo da primeira série. Para reparar esse problema, vamos recuperar o que deveriam ter aprendido no ano passado e também aprender o que corresponde a esse ano. Ou então vou lançar as notas desse teste na primeira nota mensal. Vocês aceitam?

         Não se ouviu uma única palavra, nem murmúrio. Apenas alguns olhares furtivos de um lado e outro. Quem ousaria se opor ao que ele estava propondo? Quem queria ter na primeira nota mensal de Português um 1,5 ou algo parecido? Isso significaria certamente uma candidatura à exames finais, quem sabe uma segunda época. Adotando a máxima do “quem cala consente”, ele tomou nosso silêncio como anuência ao proposto e sem demora iniciou seu trabalho. Se queria vencer o conteúdo dos dois anos em um apenas, não havia tempo a perder. Exigiu que adquiríssemos dois cadernos para redação. Religiosamente havia um tema semanal para as mesmas. Na última aula, no sábado pela manhã, ele recolhia um caderno e devolvia o outro com a anterior corrigida. Tínhamos que reescrever as frases e palavras erradas, as expressões menos elaboradas, na forma que ele sugerira. Novo tema era passado para elaborar nova redação. 

        Foi um verdadeiro sufoco nas primeiras semanas, até que entrássemos no ritmo que a situação exigia. Houve algumas resistências mas não havia opção. Era literalmente “pegar ou largar”. A maioria pegou, obrigando os recalcitrantes a fazer o mesmo. No final do ano o prometido estava plenamente cumprido. Aprendemos até versificação, os diferentes tipos e formas de rima, os variados gêneros de poesia. Leitura, dicção, vocabulário, enfim um verdadeiro curso de todos os conhecimentos básicos da língua portuguesa. Recordo até hoje que, ao encerrar o ano, vi estampada no meu boletim uma média de 8,9 pontos em português. Comparado aos 10 pontos do ano anterior deveria me sentir diminuído. Entretanto ocorreu exatamente o oposto. Eu estava tão feliz e satisfeito com essa média que saí exultante. Ela traduzia claramente o sentimento que ia em meu íntimo. Não era, nem jamais seria perfeito em nada, menos ainda em língua portuguesa. Mas custara esforço, sacrifício e dedicação, tornando-se para mim motivo de verdadeiro orgulho. Terminado o ano, nos separamos e nunca mais nos vimos até esse dia em que o visitei em sua morada na cidade de Três de Maio, RS.
Carlos Afonso em seu gabinete de trabalho.

 Carlos Afonso

segurando em suas mãos um exemplar de cada um dos meus livros de contos. As capas são iguais no aspecto artístico, apenas diferem no título por um detalhe do acréscimo de uma palavrinha …Dois ao final. São ao todo trinta e seis contos que relatam situações divertidas da época da colonização italiana, alemã, polonesa e outras etnias no estado do Rio Grande do Sul. Existem entremeados um pequeno número de casos ocorridos em outras paragens brasileiras. 
Carlos Afonso com os exemplares dos meus livros de contos.

        Durante anos procurei localizar Carlos Afonso, porém meus esforços foram em vão. Estava quase desistindo da busca quando me ocorreu lembrar de sua cidade natal, Alecrim, RS. Isso no dia 31 de dezembro de 2013. Imediatamente acessei o site do Google e digitei no buscador o nome da cidade. Eis que salta aos olhos o link do site da prefeitura municipal. Por ali obtive o telefone para falar com um vereador, que é sobrinho de Carlos Afonso. Foi assim que no final do dia eu estava de posse do telefone e endereço que tanto eu buscara inutilmente até aquele momento. 

Carlos, a esposa Carmen e eu, no sofá da sala do casal. 

 Naquele dia não consegui contato, pois se encontrava viajando. Esperei o dia 02/01/2014 e liguei, ansioso. Eis que ao atender do outro lado, era ele pessoalmente. Conversamos por alguns minutos, informei-lhe de que estava em Cândido Godói, em mãos de uma amiga um exemplar do meu primeiro livro, dedicado a ele. Combinamos a forma de fazer o livro chegar às suas mãos e nos despedimos, sem esquecer de trocar os endereços eletrônicos para podermos nos comunicar dali por diante. 

         Posteriormente enviei uma versão digital dos originais de meu primeiro romance A saga da família Cruz, pedindo-lhe que o lesse e escrevesse o prefácio. Ele o fez com alegria, sentindo-se honrado com o fato de eu, seu aluno de tantos anos passados, estar iniciando a carreira de escritor e lhe pedir um prefácio para um dos meus trabalhos. 

Vista noturna do exterior da casa de Carlos Afonso.

Outra vista do exterior da casa.

        Durante os anos que perdemos contato, Carlos Afonso concluiu primeiramente os estudo de teologia e foi ordenado sacerdote. Exerceu essa atividade por cerca de 20 anos, quando chegou a conclusão que queria viver outras experiências e pediu licença ao bispo, que encaminhou a solicitação ao Papa, sendo lhe concedida permissão para se casar. 


        Casou-se pela primeira vez e teve dois filhos. Nesse meio tempo foi professor e se especializou no que hoje é sua ocupação. Um desentendimento provocou a separação do casal, causando profunda depressão em Carlos Afonso. Descobriu ter contraído câncer de próstata. Foi operado e se recuperou completamente. 

        Algum tempo depois encontrou com uma antiga paroquiana, viúva há algum tempo.
Seu nome é Carmen Bourscheidt. Iniciaram um relacionamento, resultando em nova união que perdura até hoje. Juntos terminaram de educar e formar os quatro filhos que ambos tinham. Os dois, um casal, dele e duas filhas dela. Há questão de dois anos trocaram a residência em Santa Rosa por outra em Três de Maio. Ela exerce a atividade de massoterapia. 

Jardim da casa de Carlos Afonso.

       Os dois espaços de trabalho estão instalados na própria residência. Uma outra atividade que Carlos Afonso associa com a terapia holística é o uso de florais. Ele prepara em sua casa as receitas para cada paciente de acordo com as necessidades. Durante nossa permanência na casa, houve atendimento de vários clientes, especialmente por parte de Carmen. Veja abaixo as fotografias de seu ambiente de trabalho, um armário com objetos relativos às atividades dos dois. 
Armário com frascos de florais, exemplares de livros e outros objetos. 

O mesmo armário sob outro ângulo.

Local de realização das sessões de massagem de Carmen.








Foi um encontro altamente satisfatório para ambos. Carlos Afonso talvez não imaginasse alguns meses atrás que iria me rever, muito menos como escritor, por ele elogiado. Ao grande amigo, mestre e exemplo, obrigado por tudo que fez por mim no passado, continuando a servir de modelo a ser imitado nos dias de hoje.

Curitiba, 11/08/2014.

Décio Adams

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