Escapando da enchente por um triz

Enchente no rio Uruguai

No dia 25 de junho pela manhã, por volta das 7 h 30 min. iniciamos a viagem partindo da casa de Carlos Afonso Schmitt em Três de Maio, RS, com destino a Cascavel, PR. Havia chovido a noite toda e sabíamos que o rio Uruguai na véspera estava em torno de três a quatro metros acima do nível normal. Imaginamos que ele não iria subir tão rapidamente. A distância não é muito grande, mas a estrada um tanto difícil, com trechos bastante sinuosos, íngremes declives e uma chuva ininterrupta, retardaram nosso progresso. Ao chegarmos em Barra do Guarita, cidadezinha gaúcha às margens do rio, foi assim como mostram as fotografias abaixo. 

Parados para efetuar o pagamento da tarifa da balsa.

Mal enxergávamos o rio, ficando a outra margem encoberta por nevoeiro.

Pequenos barcos levando passageiros fazendo a travessia do rio. Segundo informações nessa posição ele estava em torno de 8/9 m acima do nível. Subira pois bastante desde a véspera. Houve uma demora razoável na espera, pois a balsa precisou encostar um pouco mais acima, para dentro do rio Guarita, pois um ônibus vinha do outro lado. Só então ela pode manobrar e encostar no ponto em que esperávamos. Enquanto isso, constantemente podíamos ver troncos, galhos, detritos diversos flutuando sobre a água e descendo com a correnteza. Confesso que senti um pouco de receio, mas confiei em Deus e no conhecimento que os responsáveis pela operação do meio de travessia dispõe sobre o rio e seu comportamento em situações semelhantes. Me entretive, ora observando a água escorrendo na beira da estrada de acesso, ora a quantidade inimaginável de detritos que passavam o tempo inteiro descendo sobre a água do rio. 
Olhando a água da chuva correndo enquanto esperamos.
Troncos, galhos e detritos diversos sendo levados pelo rio.

 Foi preciso manobrar para permitir a passagem do ônibus que veio da outra margem. Desembarcou mais acima, porém precisava passar exatamente onde nos encontrávamos. Enquanto isso a balsa manobrava para se posicionar, pronta para nosso embarque. Havia a nossa frente outros dois veículos pequenos e outros atrás. Esperamos o desembarque dos demais e depois foi o momento de nos colocarmos sobre o gigante de aço que nos levaria para o outro lado daquela correnteza que se afigurava ameaçadora diante de nós. Subimos e nos posicionamos todos do lado direito da embarcação, pois não havia veículos suficientes para lotar. Era necessário garantir o equilíbrio, uma vez que a corrente vinha pelo lado direito. Dessa maneira seria evitado um possível risco de tombamento do conjunto. Todos posicionados o potente motor roncou e iniciamos a manobra de afastar da margem e depois iniciar a travessia. 

Enquanto isso os detritos continuavam seu constante movimento, como se a água do rio fosse uma gigantesca esteira rolante, transportando tudo para um lugar determinado. No início a margem oposta estava bastante encoberta pelo nevoeiro. 

Encontro das águas do Uruguai com Guarita.

O possante motor nos levou, a principio lentamente, e depois conseguindo desenvolver uma velocidade considerável. Lá fora a chuva continuava rolando, os detritos sobre a água estava por todos os lados. Aos poucos a margem oposta foi ficando meios difusa, permitindo enxergar mais detalhes do casario ali existente. Não demorou muito tempo e estávamos alcançando a outra margem. Com certeza a espera até o embarque foi bem mais longa que o tempo gasto na travessia.

Pequenos barcos continuavam levando pessoas que chegavam de um e outro lado à pé, para a margem oposta.

O que impressiona nesses momentos é a majestosidade das águas rolando indômitas, sem se importar com nada que encontram em seu caminho. Não fossem a tecnologia moderna de propulsão seria completamente impossível a travessia num momento desses.
                                               

Outra vista da margem oposta.
Visão de casas e pequenas indústrias na margem oposta.

 Aos poucos a margem oposta se aproximou e em poucos minutos estávamos a poucos metros do lado catarinense, na cidade de Itapiranga. A experiência de anos de trabalho nesse ofício levou o responsável pela manobra de atracamento a executar essa tarefa com maestria. O pequeno gigante de aço, encostou suavemente na margem do rio. Fez-se a amarração antes de liberar os veículos para descer.

Vista de rebocadores ancorados. 

 Em pouco tempo iríamos estar em solo do estado de Santa Catarina. O movimento de desembarque foi realizado com todo cuidado, pois nessas operações o embarque e desembarque são cruciais. É aí que ocorrem a maior parte dos acidentes com balsas e veículos. Nas condições presentes esse risco fica evidentemente ampliado.

Segundos antes de iniciar o desembarque.
Momento do desembarque.
Vista do meio do rio.
Iniciando a viagem em território catarinense.

Descemos, paramos em um posto de combustíveis e nos servimos das instalações sanitárias de que estávamos necessitados. Alguns minutos depois, iniciávamos a viagem rumo a Cascavel nosso destino naquele dia. Paramos para almoçar num restaurante à beira da estrada alguns quilômetros à frente. Lá fora continuava a chover sem parar e assim continuou até depois de ultrapassarmos São José do Cedro, por volta de 14 h, mais ou menos. 

Na continuação a viagem foi dificultada por verdadeiros blocos de neblina que nos envolviam subitamente e dali a pouso saíamos deles. Isso obrigava a manter uma velocidade limitada, sem contar com os problemas da estrada. Defeitos no asfalto e falta de sinalização em grandes trechos. O que estava previsto para durar em torno de umas 6, talvez 7 horas, demorou cerca de 11/12 horas, pois chegamos à casa da irmã de minha esposa, já noite fechada em Cascavel. 

Parei para pensar sobre isso depois quando vi o nível que o rio Uruguai havia atingido no máximo e percebi havermos deixado o território riograndense no momento exato. No lugar onde ficamos esperando a balsa, as águas do rio ultrapassaram esse ponto, cobrindo inclusive as instalações do posto de combustíveis onde paramos em Itapiranga. O que é digno de notar é que chegamos em nosso destino, após uma viagem bastante cansativa, com o tempo seco, sem sequer uma nuvem no céu. O resto da viagem é caso de outro dia ser contado. 

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