Mineiro sovina! – Capítulo II

Mineiro sovina!
 
Capítulo II

 

Vista da cidade de Sete Lagoas.

 

Lago em uma praça em Sete Lagoas.

 

Ano novo, vida nova!
            Viajou de volta a terra natal em um avião da Varig, às vésperas do ano novo. Comemorou o início do ano de 1976 junto com a família. O pai convidou os parentes mais próximos e amigos para, junto com o Ano Novo, festejar a graduação do filho no curso de direito. No momento da passagem de ano, muitos fogos espoucaram acima da casa dos Silva, farto sortimento de champagne foi estourado, ficando as taças constantemente cheias. Muitos quitutes de que se encarregara a mãe, junto com duas tias muito próximas, fizeram a alegria dos comensais presentes em acompanhamento ao champanha que rolou farto. A casa estava cheia e demorou bastante até que, um a um começaram a voltar para casa. No dia seguinte haveria almoço em suas casas e ninguém queria estar com cara amassada de noite mal dormida.
            Na noite do dia primeiro de janeiro, José debruçou-se sobre as propostas de trabalho que havia guardado em sua mesa de cabeceira. Eram ao todo 12 convites recebidos. Não iria em princípio menosprezar nenhum, mesmo dos escritórios mais humildes. Não era de bom alvitre ser descortês com ninguém. Era altamente provável encontrar no futuro muitos desses mesmos profissionais como oponentes nas causas em que estivesse atuando. Faria a todos uma visita, ouviria a proposta que tinham a oferecer. Com todas elas em mãos, analisaria uma a uma, selecionaria aquelas que melhor se adequassem às suas expectativas. Depois junto com os pais decidiria pela melhor opção.
Colocou os cartões em ordem e estabeleceu um roteiro que iria percorrer. Teria que tirar uns três dias para completar as visitas, talvez mesmo quarto, pois não fazia ideia de quanto demoraria cada entrevista. Nem se haveria necessidade de aguardar para poder conversar com o encarregado. No Segundo dia do ano, logo cedo passou a mão no telefone e ligou para os números constantes nos cartões de visitas que haviam lhe colocado em mãos. Agendou para aquele dia três entrevistas. Haveria tempo para uma quarta, mas era preferível deixar uma folga no horário. Detestaria chegar atrasado para a entrevista. Ficaria mal visto nesse caso.
Optara por começar pelos endereços mais próximos de casa. Vestiu uma roupa sóbria, porém de corte perfeito, pegou o automóvel do pai que ele não iria usar durante o dia e se dirigiu para o primeiro encontro. Era um escritório modesto, mas bem instalado. Esperou por alguns minutos enquanto o chefe atendia um cliente importante. Foi convidado a entrar no gabinete mobiliado de modo informal e confortável. Em cerca de meia hora saia dali com uma proposta bem interessante em sua maleta. Despediu-se prometendo analisar e dar resposta em no máximo uma semana.
Era hora de ir almoçar. A mãe deveria estar olhando para o relógio a cada dois ou três minutos, imaginando por que ele estaria demorando. Não fazia muito mais de uma hora que saira de casa, mas a segunda entrevista seria apenas às 14 horas, um pouco mais distante que a primeira. Chegou em casa no momento em que a auxiliar de sua mãe nos serviços domésticos terminava de arrumar os pratos e talheres sobre a mesa. Em instantes o pai entrou vindo do Mercado que, por falta de clients nessa hora próxima do almoço, ele fechara um pouco antes.
          Ainda bem que chegaram na hora certa. Não gosto de ver a comida esfriando na mesa ou nas panelas. Requentar depois fica pior ainda.
          Sua mãe resmungona como sempre, – falou Pedro dirigindo-se ao filho.
          Resmungona eu? – indagou Elisa.
          Vocês dois não vão começar a brigar bem agora, ou vão? – disse José.
           É melhor fazer a oração e começar a comer que ganhamos mais, – disse Pedro e começou imediatamente a fazer o sinal da cruz, para depois iniciar a recitação do Pai Nosso, Ave Maria e Glória ao Pai.
Ao terminar a oração acrescentou:
          Abençoa senhor esse alimento que vamos tomar, para que fortaleça nosso corpo e mantenha o espírito animado.
A refeição transcorreu sem novidades. Todos estavam ocupados em saborear o excelente almoço preparado por dona Alice, auxiliada pela ajudante, que fazia as refeições com a família. Estava a serviço fazia muito tempo e a consideravam quase como uma filha. A única novidade ficou por conta de Lucia Helena, irmã de José. Chegou alguns minutos depois, pois estava na faculdade de pedagogia, no centro. Suas aulas terminavam na hora do meio dia. Como não ficava longe conseguia chegar ainda em tempo de almoçar com a família. Muito extrovertida e brincalhona, chegou logo provocando o irmão:
          E meu querido irmão já arrumou emprego?
          Calma maninha! Estou fazendo as entrevistas e depois vou decidir onde vou trabalhar.
          Minhas colegas estão curiosas por conhecer você. Eu falei que vou cobrar pedágio para chegar perto.
          Mas minha filha! Onde já se viu uma coisa dessas?
          Vamos aproveitar mãe. Não é todo mundo que tem um irmão bonitão como o meu e ainda por cima advogado recém formado.
          Não vai me colocar em fria, Lucia Helena. Vê lá o que você vai aprontar.
          Nada demais. Estou pensando em fazer uma tabela. Que tal: para olhar de perto CR$ 50,00, para sentir o cheiro CR$ 70,00 e para dar um beijo no rosto R$ 100,00. Do jeito que essa meninada está, arranjo fácil do dinheiro do mês.
          Garanto que nem lembrou de dividir com ele o que arrecadar. Isso é fazer uso indevido da imagem alheia, – falou o pai.
          Depois eu vejo e dou uma gorjeta para ele. Uns 20% acho que está bom.
          Vou ver o que diz a lei sobre isso. Não esqueça que sou bacharel em direito.
          Uai! Eu vou ter todo trabalho, tenho que cobrar, me preocupar para que ninguém fure a file, nem saia sem pagar. Você só vai aparecer, ficar uns minutos e pronto. Vinte está bom. Vá lá 30%.
          Acho bom parar com isso, minha filha. Seu irmão está buscando emprego e não pode aparecer por aí em nenhum escândalo. Imaginou se isso cai na boca dos reporteres de radio e televisão? Um Deus nos acuda.
          Mãe, eu estou apenas brincando. É que eu gosto de provocar meu irmãozinho. Ele é muito sério, sisudo. Até parece um velho carrancudo.
          Também não é para tanto. Apenas procure manter a linha. Se quero ser respeitado como advogado, terei que ter uma certa atitude. Não posso me permitir certas brincadeiras.
          Mas agora falando sério. Já foi a alguma entrevista?
          Acabei de chegar da primeira, pouco antes de você voltar. Se eu demorasse um pouquinho mais ia tropeçar com você na entrada.
          E a secretária, não jogou um olhar para o teu lado?
          Ela é bem passada. Deve ser muito eficiente, pois não tem nada de bonita. Pelo jeito é até casada. O que vem a ser uma vantagem. Não existe o risco de algum dos advogados se envolver com ela ou um cliente ficar caído por ela.
          Falou o profissional super competente. Eu vou descansar um pouco e depois vou para a biblioteca pública procurar um livro para fazer um trabalho. Os da faculdade estão todos emprestados e se eu quiser fazer um trabalho decente, tenho que me virar.
          Essa era a vantagem da Federal em Belo Horizonte. Não havia falta de livros.
          O problema aqui é que tem quem pegue o livro, renova o empréstimo e nunca devolve.
          Mas não tem limite de tempo para ficar com os livros?
          Ter tem, mas as bibliotecárias tem seus apadrinhados(as) e acobertam as renovações indevidas.
          Um caso sério.
          Mas não vamos discutir por isso. Se for caçar encrenca o tempo passa e meu trabalho não sai. Dá licença.
Levantaram-se todos e foram sentar um instante enquanto tomavam um saboroso café recém coado. Em alguns minutos Pedro foi até o banheiro e depois retornou ao Mercado. Estava na hora de comandar os funcionários que estariam abrindo dali a alguns minutos. Alice e a ajudante Rosa trataram de recolher os pratos, talheres e demais utensílios. Rosa foi lavar a louça e Alice, após um retoque na sua maquiagem, uma arrumação de leve no cabelo foi para junto de Pedro. No período da tarde ela se encarregava de ficar no setor de caixa e comando das entregas de compras dos clientes.
José, depois de alguns minutos, preparou-se para ir ao encontro da sua entrevista. Perguntou se Lucia Helena queria uma carona até a Biblioteca o que ela aceitou de bom grado. Percorreram a distância não muito grande até o prédio em estilo moderno que abrigava o acervo de livros, jornais, revistas e demais material impresso à disposição da população para consultas. Despediram-se e José retornou um pouco até o local onde se daria a entrevista logo mais.
Estacionou e conferiu se seu aspecto estava em ordem, olhando no espelho interno do veículo. Tudo estava certo e ele, faltando cerca de 10 minutos, se apresentou na sala de espera do escritório. Era um pouco mais amplo e os móveis denotavam um certo progresso perceptível em detalhes da mobília. Apresentou-se e a secretária, uma loira sobriamente vestida, aparentando em torno de 20 anos, lhe ofereceu um estofado para sentar-se. Indagou se queria uma água, m café ao que ele agradeceu.
          Vou anunciar sua chegada ao Dr. Jorge. Talvez ele possa recebê-lo imediatamente.
          Obrigado.
Ela levantou o telefone e em instantes falava com seu chefe anunciando a presença do jovem advogado para a entrevista:
          O Dr. Jorge já vai lhe atender. Aguarde apenas um minuto.
Passados pouco mais de trinta segundos a porta se abriu e o Dr. Jorge em pessoa estava ali, recortado na porta, contra o fundo do gabinete e convidou José a entrar. Já dentro do gabinete, mais luxuosamente mobiliado que o outro, sentaram-se em confortáveis poltronas e teve lugar uma entrevista bem mais minuciosa que a da manhã. Era perceptível que o Dr. Jorge sabia exatamente o que buscava ao contratar um novo auxiliar. Suas questões eram pertinentes e abordavam questões cruciais em diversos pontos da legislação. Para José isso foi uma alegria. Estudara aprofundadamente os códigos e as leis. Estava muito bem preparado para esse tipo de questionamento. Quando perceberam havia decorrido uma hora aproximadamente.
Dr. Jorge lhe passou sua oferta de trabalho para os meses até a obtenção da sua carteira da OAB. Depois mudaria de nível, pois passaria a atuar primeiro em ações mais simples, para gradativamente subir na escala de importância. José anotou detalhadamente todos os pontos e se despediu, prometendo uma resposta para no máximo uma semana.
Saiu dali mais animado, pois dentro das perspectivas aqui a situação era bem mais vantajosa que no primeiro. Lá ficaria por um ou dois anos, talvez mesmo três, sendo pouco mais do que um contínuo de luxo, sem responsabilidades, sem oportunidades de atuar nem como assistente em ações de qualquer natureza. Encaminhou-se resolutamente para o lugar em que deixara o automóvel e foi para a outra entrevista. Ainda faltavam mais de trinta minutos o que permitia que chegasse sem pressa.
A outra entrevista foi semelhante a anterior e diferiam pouco uma da outra no tocante à proposta de trabalho. Pouco depois de 5 h da tarde estava encerrado seu dia e voltou para casa, não sem antes fazer um giro pela cidade. Nos últimos meses não tivera oportunidade de ver os bairros novos onde estava havendo um frenético vai e vem de veículos transportando material de construção, pedreiros e serventes em atividade por toda parte. Gostava de ver o progresso chegando aos lugares, casas sendo erguidas, telhados colocados, muros rebocados e depois pintados. Depois de satisfazer sua curiosidade, dirigiu-se calmamente para a casa dos pais.
Encontrou o casal atarefado em atender os clientes que passavam no estabelecimento para adquirir o necessário para as emergências, outros fazendo compras maiores para uma quinzena ou mesmo um mês. Sem demora José se pôs a ajudar no que pudesse ser útil. Sentia-se bem ajudando os pais, pois eles haviam passado anos trabalhando duro para que ele pudesse ficar na capital e apenas estudar. Não era longe, mas para ir frequentemente para casa não havia possibilidades. As estradadas ainda eram precárias e a viagem demorava bastante. Isso e os muitos trabalhos de pesquisas, atividades práticas que o curso exigia e oferecia, tornavam o tempo escasso.

Por volta das 19 horas o movimento foi acabando e trataram de fechar o estabelecimento. O dinheiro foi guardado num cofre, as portas bem trancadas, as mercadorias foram repostas para estarem na manhã seguinte prontas à espera dos primeiros clientes que se apresentassem. Era muito desagradável ver clientes procurando produtos e estarem em falta, por falta de reposição. Tudo arrumado, os empregados saíram e foram para suas casas, enquanto a família se recolhia para o descanso noturno.

Antiga estação ferroviária em Sete Lagoas.

 

Igreja lembrando passado.

 

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