Mineiro sovina! – Capítulo VI.

 

    Visitando o cliente
Domingo cedo, vestiu uma roupa elegante, sem ser formal. A visita que faria envolvia aspectos profissionais, no entanto deveria guarder uma aura de informalidade. Fez uso de um perfume discrete e marcante que lhe agradava muito. Deu um retoque no penteado, ajeitou a gola da camisa e conferiu o aspecto geral olhando-se de longe no espelho. Passou no mercado para pegar com o pai as chaves do automóvel. Aproveitou para colocar nos bolsos do blazer, um maço de cada uma das melhores marcas de cigarros e algumas caixas de fósforos. Despediu-se do pai e da mãe.
Foi até o automóvel, abriu a porta, colocou a chave na ignição, deu a partida. Aguardou alguns instantes enquanto verificava se estava tudo em ordem, o motor já aquecido, saiu dirigindo devagar, saboreando o sol radioso daquele dia, que para ele era especial. Durante cerca de quarenta e cinco minutos, percorreu estradas secundárias. Cafezais de um lado e outro ou então cercas de pastagens povoadas de animais de raça, criados na região. Em pouco, surgiu à sua frente o portal da propriedade que iria visitar. Não havia portão, mas a entrada era encimada por uma vistosa placa na qual se podia ler, entalhado em uma enorme prancha de madeira de mogno Fazenda Pires, propriedade de Onofre Pires.
Parou por alguns instantes, apreciando a soberba entrada. À sua frente se estendia, em linha reta, uma estrada bem conservada, ladeada de plantações de café em ambas as margens. A próxima safra prometia ser boa. Os cafeeiros estavam vergando os galhos sob o peso das frutas que traziam, ainda verdes, mas não muito distantes de atingir o ponto de maturação. Inspirou profundamente, premiu o acelerador suavemente e fez o Ford Corcel GT rodar em velocidade moderada para o interior da fazenda. Em minutos estava diante da imponente casa, um verdadeiro palacete, onde residia o Cel. Onofre e sua família.            Estacionou à sombra de uma árvore frondosa próxima da casa. Após desligar o motor, abriu a porta e desceu. Imediatamente ouviu a voz forte do coronel, que lhe dizia, parado na ampla varanda que circundava a frente e uma lateral da casa:
– Seja bem vindo, Dr. José. Venha tomar um café, recém coado.
            – Bom dia, coronel Onofre. Que dia lindo está hoje. Bela propriedade o senhor tem aqui. Se o resto for de acordo com o que pude ver até aqui, é uma maravilha. Só posso lhe parabenizar.
            – Bom dia, doutor., – cumprimentou o coronel quando José chegou perto e lhe estendeu a mão. – Ainda não viu nada. O que viu, é apenas uma pequena amostra do que tenho aqui. Vamos entrando, que já mandei servir o café.
Entraram e o coronel lhe indicou uma confortável poltrona, instando-o o a se sentar, enquanto ele mesmo ocupava outra igual, bem à sua frente      .
            – Isabel, minha filha, traga o café. Nosso visitante chegou. Hoje é o dia de folga dos criados, por isso é minha filha que vai nos servir o café.
Foi assim que José ficou a par do nome da filha do coronel. Quando a conhecera no escritório, não se lembrava se havia sido dito o nome da jovem. Importante era o fato de que não se lembrava do nome. Era mais provável que não havia sido pronunciado o nome dela. No mesmo instante adentraram a sala a jovem Isabel, portando a bandeja com as xícaras, açúcar e um fumegante bule de um café que espalhava seu delicioso aroma. Era sinal de que o produto usado era de excelente qualidade. Junto com a jovem, veio sua mãe, uma elegante senhora, sobriamente vestida.
            – Dr. José, esta é minha esposa, Maria Luiza. Isabel, minha, filha o senhor já teve ocasião de conhecer.
José levantou-se e apertou a mão que a senhora lhe estendia, dizendo:
            – Encantado, minha senhora. Bom dia para ti também, Isabel.
            – É um prazer tê-lo em nossa casa, doutor.
            – O prazer é todo meu, em visitar uma propriedade tão aprazível. Sua casa é decorada com muito bom gosto.
            – Boa parte disto se deve à minha filha Isabel. Recentemente fizemos uma remodelação nos móveis. Foi dela a escolha da maior parte dos móveis e dos itens de decoração.
            – O velho Onofre aqui, só era convidado a assinar os cheques para pagar as contas, sem direito a reclamar, – resmungou o coronel em sua poltrona.  
            – Pai, não reclame. Bem que o senhor gostou. Cansei de ouvir o senhor se gabar diante das visitas que recebe. O senhor fala um bocado alto. Mesmo não querendo pode-se escutar o que diz, no último recanto da casa.
            – E qual é a coruja que não gaba o seu toco? Sou igual a todo mundo.
            – Vocês dois não podem deixar as rabugices para outra hora?
            – Creio eles tem o temperamento parecido. E como dois bicudos não conseguem se beijar, fica explicada a pendenga, – disse José, enfiando sua colher na conversa.
            Acabaram todos numa sonora gargalhada.
            – Mas vamos tomar o café, antes que esfrie. O melhor café, depois de frio, fica horrível.
            – Concordo com a senhora, – atalhou José, recebendo a sua xícara das mãos delicadas de Isabel. Sorveram lentamente o líquido de aroma delicioso.
            Ao final, José falou:
– Parabéns, dona Maria Luiza. O seu café é realmente muito bom.
            – Não fui eu que fiz, foi Isabel. Pode crer, ela sabe melhor do que eu fazer um bom café. A quantidade exata do pó, a temperatura ideal da água. Ela é quem detém esses segredos.
            – Não é preciso exagerar mamãe, – replicou a jovem.
– Não é exagero. Tua mãe está com a razão. Ela te ensinou, mas você se tornou melhor do que a professora.
            – De qualquer modo, parabéns a quem fez este café. Até vou aceitar mais uma xícara. Normalmente não tomo muito café, mas este merece uma reprise, com toda certeza.
            – Pode tomar a vontade. Café é o que aqui não falta. E logo vamos ter nova safra e, pelo jeito, das boas. Deve ter visto pelo caminho a carga que tem nos cafeeiros.
            – Pois é mesmo impressionante. Os galhos estão quase quebrando de tão carregados que estão.
            – E esta é a área em que não está mais bonito. Depois iremos ver outras partes onde a carga é mais plena.
            Terminaram de tomar o café e o coronel Onofre convidou:
            – Vamos aproveitar que ainda é cedo, não está muito quente e vamos olhar o lugar que motivou a encrenca. No caminho aproveitamos para ver o cafezal que me enche de orgulho e alegria.
            – Por mim podemos ir, pois do contrário acabo bebendo o restante do bule de café e isto é muito para uma manhã.
            – Venha por aqui. Não quer aproveitar e colocar umas botas? Este seu sapato vai ficar cheio de terra, o que vai tornar difícil caminhar.
            – Se tiver algum par que me sirva.
            – Qual é o número que o senhor calça? Me parece que é do tamanho do meu.
            – Meus sapatos são número quarenta e um.
            – Pois tenho um par sob medida para o senhor.
            Saíram para os fundos da casa, onde, em uma área coberta, havia diversos pares de botas. O coronel Onofre pegou um deles e ofereceu ao convidado. Dr. José descalçou os sapatos e tratou de colocar as botas, que realmente lhe serviram perfeitamente. Enquanto isso, coronel Onofre também calçou o seu par de botas predileto. Colocou um chapéu, oferecendo um ao advogado que aceitou. Saíram e, enquanto caminhavam, o proprietário foi mostrando os detalhes de seus domínios. Passaram por um açude, onde, nas palavras do coronel, nadavam as carpas mais gordas e grandonas de toda a redondeza. Quando tinha vontade de saborear um peixe frito ou assado, era só capturar uma ou duas e estava pronta a festa.
Após meia hora de caminhada, chegaram ao ponto da divisa entre as propriedades, motivo da demanda em andamento. José fez perguntas que achou pertinentes e o coronel respondeu, explicou o que o levara a entrar com o processo. José, que se prevenira com uma pequena câmera fotográfica, bateu algumas fotografias em que ficava patente a ação fraudulenta do vizinho. Elas o auxiliariam na instrução do processo. Nelas ficava evidente que a cerca fora deslocada e também mostravam o local onde o gado do vizinho invadira a propriedade do coronel, causando danos aos cafeeiros. Havia uma meia centena deles que estavam totalmente quebrados. Para sua recuperação era necessário o corte baixo e esperar a brotação nova vir. Só depois voltariam a produzir novamente.
            – Pelas fotografias vai ser mais fácil mostrar o que motiva o pedido de indenização e a volta da cerca ao local original, – disse José ao coronel.
            – Destas coisas o senhor entende mais do que eu. Tenho certeza de que vai saber tirar uns bons cobres do muquirana do meu vizinho. Eu não quero mal a ele, mas tentei conversar e ele me mandou para aquele lugar. Disse que fosse dar queixa ao Bispo, ou então ao Papa. Pode uma coisa dessas? Me causa um prejuízo dos bons e ainda não quer nem conversar! Então vamos conversar na frente do homem da capa preta. Uai! Não é à toa que sou conhecido como coronel Onofre Pires por essas bandas. Sou de ficar no prejuizo não, sô.  
            – Os seus empregados viram os fatos e podem testemunhar em seu favor?
            – Com certeza. Posso levar uns cinco, se for preciso.
            – São mais do que suficientes, – foi a resposta de José.
            Deram mais uma volta para ver outra parte da propriedade e tomaram o rumo da casa. O sol estava ficando quente e a hora do almoço estava se aproximando. Não queriam fazer as mulheres ficar esperando por eles. Se havia algo que Onofre prezava era a pontualidade da hora do almoço. Não lhe agradava chegar atrasado para esta hora.
            Quando Maria Luiza escutou o ruído dos passos na área de serviço e a conversa dos dois homens, chegou à porta e falou:
            – Mais um pouco e eu iria atrás de vocês. O assado está pronto, as saladas temperadasa. É o tempo de se lavarem e virem para a mesa.
            – Já estamos indo, mulher. É só descalçar as botas, jogar um bocado de água no rosto e nas mãos e estamos prontos. Doutor, aqui tem sabonete, toalha e a pia. Quer lavar as mãos e passar uma água no rosto? Use à vontade. 
José lavou as mãos, enxaguou o rosto, depois se enxugou com a toalha que ali havia. Foi secundado por Onofre e em instantes adentravam a sala de refeições, luxuosamente decorada, sem exageros. Uma ampla mesa em mogno, rodeada de oito cadeiras finamente torneadas e envernizadas. Sobre a mesa uma toalha de linho fino, acabada com um barrado de crochet. Os pratos eram de fina porcelana e os talheres em aço inoxidável, encrustados de filigranas de ouro. Onofre indicou a Rodrigo uma cadeira, onde o mesmo se sentou, enquanto ele sentou-se à cabeceira.
Logo entraram Maria Luiza, trazendo um apetitoso assado de pernil suíno, seguida de Isabel com a travessa de salada nas mãos. Acomodaram o que traziam sobre a mesa, retirando-se em busca dos complementos para o almoço. Pão caseiro, uma tigela com farofa, uma jarra com vinho tinto, produzido na fazenda, com as uvas cultivadas em uma encosta pedregosa que havia perto da casa. Aipim cozido ao ponto de estar quase derretendo e também maionese feita pelas mãos de dona Maria Luiza. Após terminarem de por a mesa, as mulheres sentaram-se para almoçar.
            – Vamos nos servir, doutor. Se demorarmos a comida esfria e perde o sabor.
            – É a mesma coisa que a minha mãe sempre diz. Os comensais devem esperar pela comida e não o contrário.
            Atacaram com vontade os pratos e em questão de meia hora, sobravam apenas os restos mortais do que antes fora uma refeição primorosamente preparada, apesar da simplicidade dos pratos.
Com o término da refeição, as mulheres pediram licença e retiraram os pratos, talheres, as travessas e tigelas. Em pouco, puseram no lugar os pratos e talheres para sobremesa, que consistia de um delicioso pudim trazido pelas mãos de Isabel. Serviram-se do pudim, degustaram-no com prazer.
            – Um digno acompanhamento para uma refeição soberba. Parabens dona Maria Luiza e a você também senhorita Isabel. Obrigado pelo almoço.
            – Vamos tomar um cafezinho e depois iremos para a sala de estar. Vou lhe servir um licor, que garanto, o senhor nunca experimentou. É obra das mãos de minha querida Maria Luiza.
            O café foi servido e lentamente saboreado. Quando as xícaras ficaram vazias, dirigiram-se para a sala de estar, onde, a um canto, crepitavam algumas achas de lenha em uma lareira, apresar do clima relativamente quente da época. José Silvério, acomodou-se em uma confortável poltrona, forrada de fino couro, enquanto o Cel. Onofre foi até um barzinho, pegou uma garrafa com o licor, duas taças onde verteu um pouco do conteúdo da garrafa. Entregou uma ao advogado e, com a outra nas mãos, sentou-se em outra poltrona ao lado. Bebericaram lentamente o licor e José teve que admitir. Era de um sabor inimaginável. Dona Maria Luiza tinha verdadeiras mãos de fada. Nunca tinha provado um licor com sabor semelhante.
            – Coronel, sua senhora tem um poder mágico nas mãos. Este licor é algo que eu jamais tinha tido o prazer de experimentar. Faça o favor de lhe dar os parabéns.
            – É herança de família. Ela vem de linhagem residente nessa região há mais de dois sécculos, sempre lidando com gado, depois café e outras atividades.
            – Essa sabedoria precise ser tansmitida de geração em geração para não se perder. Seria bom mesmo escrever a receita e deixare para a posteridade.
            – Isso é lá com elas. Se tiverem vontade de fazer algo assim, tenho nada contra. Fico contente em ter aqui para meu consume. O dinheiro para viver e gastar vem do café. As outras coisas são acessórios.
            – Nem pensaria em questão de ganhos, mas em preserver o sabor que é único.
            – Depois vocês conversam e se elas quiser anotar, muito bem, doutor. Aceita deitar um pouco para uma sesta?
            – Não sou habituado, mas não faça cerimônia, coronel. Se tem o costume, faça sua sesta. Eu por meu turno me acomodo ali na varanda naquela rede. Faz tempo que não deito numa rede e aprecio o verde, o ar puro. O dia hoje está especial.
            – Pois entonce, fique à vontade, que eu vou cochilar um bocadinho. Um instante apenas que já é de hábito.
            – Descanse tranquilamente, coronel.
            – Com licença e esteja à vontade.
            Coronel Onofre foi para o quarto e se acomodou para o cochilo. Um hábito cultivado há muitos anos. José por sua vez foi até a varanda e verificou se não existia nenhum inseto ou coisa estranha na rede, depois deitou-se confortavelmente. Dali podia ver uma ampla área das plantações de café da propriedade de seu cliente. Nunca tivera oportunidade de observer os cafeeiros nessa fase de desenvolvimento. Formavamo um espetáculo belo. O verde escuro das folhas, contrastando com o tom levemente mais claro dos grãos que se destacavam ao longo dos caules de seus galhos.
            Passou um bom tempo ali, meditando sobre a vida bucólica que levavam os proprietários das fazendas de café. Havia a temporada da colheita, antecipada pela manutenção da limpeza, quando a faina era intensa. Mas nos intervalos a vida corria plácida e serena. Muito diversa da agitação urbana, onde desde o clarear do dia ao anoitecer havia sempre gente em constante movimento. Indo, vindo e um corre corre incessante. Até mesmo no período noturno havia movimento, menos intense é claro, mas, nas capitais, certos pontos em determinadas noites eram mais movimentadas que as horas diurnas.

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