Mineiro sovina! – Capítulo VII

 

   Tentando conquistar o “sogro”.
 
 
Enquanto coronel Onofre tirava seu cochilo, José Silvério apreciava o panorama a perder de vista dos cafezais, cobrindo encostas e baixadas. Um ou outro ponto de cor diferente, onde havia uma afloração de pedras, um morro mas íngreme e impróprio para o cultivo, quebrando a monotonia da paisagem. Maria Luiza e Isabel se ocuparam em deixare a cozinha arrumada para ser usada a qualquer momento em que fosse preciso. Trabalhavam de modo sincronizado, levando ao término das tarefas em pouco tempo.
Após a conclusão, Maria Luiza foi até o quarto e viu Onofre ressonando suavemente. Deixou-o quieto e veio até a varanda, sentando-se em uma confortável cadeira de balanço que ali estava colocada. Ao ver que o advogado estava ali e também cochilava, pensou em se retirar para não perturbar lhe o descanso. Ao se mover ele acordou e falou:
– Desculpe. Eu não havia percebido que a senhora estava aí, dona Maria Luiza.
– Tem nada não, doutor. Eu já ia me retirar para não lhe incomodar.
– Nada disso, senhora. Será um prazer conversar com a senhora. Eu cochilei um momento, mas não tenho o hábito de dormir após o almoço.
– Eu raras vezes também deito uns minutos. Geralmente aproveito para pegar um trabalho manual. Faço croche, bordado. Costuro um pouco, mas apenas o suficiente para o gasto.
– São atividades que mantem as mãos e mente ocupados.
– Minha filha é mais prendada. Aprendeu na escola na cidade a fazer pinturas. Está agora lá no atelier dela trabalhando no quadro que está quase pronto.
– Ela se formou em quê, senhora?
– Formou-se professor, mas não tem onde exercer a profissão. Só se for lá para a vila, mas é longe. O diploma por enquanto está enfeitando a parede apenas.
– Para as mulheres ainda é restrito o campo de trabalho. São poucas que conseguem ingressar em cursos mais concorridos. Acho que não é falta de capacidade, mas sim, incentive para enfrentar.
– A Isabel queria ser arquiteta, mas para isso ia precisar morar em Belo Horizonte e o pai, muito ciumento, não concordou com isso. Disse que tinha a fazenda para sustentar ela e não ia precisarr se arriscar na cidade grande. Sabe como é. Ele tem jeito à moda antiga. Filha é para a casa, depois casar, ter filhos e cuidar da casa.
– Um dia isso vai mudr. Por enquanto o quê fazer? E ela não se rebelou?
– Encontrou na pintura uma maneira de compensar a frustração. Viu os quadros na sala, na copa?
– Ví sim. São dela?
– Todinhos. Já pintava nos tempos de estudante e agora, todo dia ela pinta um pouco. Vai haver uma hora que não terá mais lugar para por tanto quadro.
– Nunca tentou expor alguns?
– Ela acha que não vale a pena. Diz que não são bons o suficiente para por no mercado de arte.
– Quem tem que julgar isso são as pessoas que vão apreciar. Geralmente quem faz, encontra defeitos em toda parte.
– Não vou lhe levar lá pois ela não gosta que perturbem quando está pintando. Quando sair de lá, pode conversar com ela e pedir para mostrar o que tem pronto.
– Nem pensar em perturbar a concentração dela. Não podemos olhar melhor os que estão da sala de estar e da de refeições? Olhei de relance antes, mas agora fiquei interessado em ver com detalhes.
– Acho que não há problema. Tem no corredor dos quartos também. Sem contar uma pilha guardada no depósito.
– Então ela produz bastante. Pelo visto é a timidez que a impede de expor seu trabalho. Dá licença que vou olhar detalhadamente esses aqui da sala.
Levantaram-se e foram até perto da lareira, onde havia uma paisagem grande, retratando a vista que estivera apreciando pouco antes, apenas num momento diverso. Os grãos de café estavam quase no ponto de colher. Um colorido de doer nos olhos de tão viva a cor. Um pequeno e delicado Isabel, colocado no canto inferior direito, identificava a autoria da pintura. José observou longamente o quadro e ficou encantado. Olhou de perto, de longe e admirou a perfeição do traço, a nitidez das cores que retratavam o vasto cafezal com os frutos maduros.
Na parede oposta outro retratava uma pessoa, de perfil, provavelmente o pai, num ponto diverso, tendo como fundo outro setor dos cafezais, porém totalmente floridos. Formavam uma vista perfeita. Ali estavam as plantas iniciando o ciclo de produção, do outro lado, no ponto de colheita. Os frutos resultantes da floração mostrada aqui. As outras paredes apresentavam pinturas menores, onde os vastos terreiros de secagem do café estavam cobertos de grãos em diferentes fases de secagem. Os trabalhadores na faina de revirar constantemente, tendo em vista a secagem uniforme e impedir a deterioração dos grãos ainda molhados. Eram pinturas dignas de nota.
Na sala de refeições, os motivos eram outros. Um apresentava uma sala com lareira, confortáveis poltronas onde algumas pessoas estavam sentadas palestrando e saboreando uma xícara de café. Até mesmo o vapor desprendido pelo calor do líquido estava representado. Em outra pintura estava a entrada da propriedade. A mesma placa de madeira que o acolhera naquela manhão ao chegar, estava ali pintada com perfeição, tendo como pano de fundo a alameda de cafeeiros, dessa vez com poucas folhas, mostrando que o quadro havia sido feito na época entre a colhaita e nova floração. Estavam admirando os belos trabalhos, quando a própria autora deles apareceu no ambiente. Ficou por instantes em silêncio, vendo o olhar fixo de José sobre um dos quadros e então falou:
– Não há muito que apreciar nesses quadros, doutor. Não passo de uma principiante.
– Pode até ser principiante, não duvido. O que não deixa dúvida é a força de sua arte. Consegue traduzir a alma do que está retratando de modo muito sutil e vibrante.
– Bondade sua. Mamãe sempre quer que eu leve alguns dos meus quadros para um especialista ver e avaliar. Não creio que valha a pena. São fracos demais. Tenho muito que evoluir em minha técnica de pintura.
– Em seu lugar daria ouvidos à sua mãe e levaria uma amostra para avaliação. Depois de ouvir a opinião de alguém especializado poderá ter uma ideia do real valor do seu trabalho.
– Acha mesmo que vale a pena?
– Só tentando para saber. Em geral somos levados por nossa humildade, timidez a subestimar nossos trabalhos. Alguém que tenha uma visão neutra poderá dar uma opinião mais abalizada, apoiada na experiência e conhecimento que tem.
– Em Sete Lagoas tem algum entendido no assunto? Nunca ouvi falar pelo menos.
– Se me autorizar posso fazer uma pesquisa e saber se existe essa pessoa especializada. Faço uma visita e vejo se ela realmene tem conhecimento ou não passa de alguém curioso, aventureiro em busca de ganhos fáceis às custas de gente desavisada.
– Está vendo filha! Não sou apenas eu que acho seus quadros lindos. Dr. José também e el epode verificar se há quem possa fazer a avaliação.
– Se não houver, podemos verificar alguém na capital. O coronel pode custear as despesas para levar o material até lá e fazer a avaliação.
– Não sei se papai vai querrer gastar dinheiro com isso. Ele gosta de ver os quadros aí, mas nunca falou em vender algum deles.
– Do que oceis tão falando? – perguntou coronel Onofre, que acabara de levantar de seu cochilo.
– Os quadros pintados por sua filha, coronel. São muito bons. Eu tinha visto antes e não sabia quem era o pintor.
– O doutor está se prontificando a intermediar com algum entendido em pinturas uma avaliação dos meus trabalhos. Pode ser preciso levar alguns para a capital.
– Uai, sô! Minha fia aparecer nas revistas e jornais, numa exposição de pintura! Sei não.
– Pode acreditar, coronel. Apesar de não ser entendido no assunto, mas posso garantir que não são de jogar fora. Creio que vale a pena verificar o valor que de fato tem.
– Seis cumbina aí. O dinheiro para a viagem eu arrumo. Só tenho uma fia e vou guardar para quem? Se é para o bem dela, num tem problema ninhum.
            – Vou me informar direito e depois aviso do que for averiguado.
            – Eu vou para coizinha fazer um café e server uns biscoitos a mode lanche da tarde, – disse Maria Luiza.  
            – Só se for para arrematar o almoço que ainda está quase inteiro aqui.
            – Vou com a senhora mãe.
            – Nóis vamo pra perto da lareira, que o frio está pegando. Parece que vai chuvê à noite.
            Em instantes estavam as mulheres na cozinha ocupadas com os apetrechos para coar o café e separar os biscoitos, além de outros doces como pé de moleque e paçoca.
            Indo para a sala de estar, sentaram-se confortavelmente diante da lareira que emitia um suave calor no ambiente. Coronel Onofre avivou o fogo e colocou mais um pedaço de lenha. Não seria necessário muito fogo. Apenas o suficiente para deixare o ambiente agradável. Ficaram alguns minutos em silêncio, antes de José Silvério criar ânimo para trazer à baila o principal motive que o trouxera ali. Não sabia exatamente como iniciar a conversa e optou por tentar cativar o candidato a sogro, com o que julgava ser algo interessante.  
Puxou do bolso um maço de cigarros, retirou-lhe o lacre e fez emergir algumas unidades pela abertura que fizera. Ofereceu um ao coronel, que o aceitou, depois retirou um para si. A seguir pegou uma caixa de fósforos, retirou um palito, riscou e acendeu o cigarro do coronel. Tomou outro palito, fez o mesmo com o seu cigarro. Após algumas tragadas, uma pequena nuvem de fumaça enchia o ambiente e ele atacou.
            – Eu vim aqui, coronel, com mais um objetivo, além de tirar as fotografias da cerca.
– Uai, sô! Qui é mais qui o senhor veio faze, doutor?
– Eu fiquei deveras impressionado com a beleza e delicadeza de sua filha, coronel. Confesso que meu coração dispara cada vez que a vejo e por isso vim lhe pedir a mão dela em namoro. Se ela me aceitar e nos entendermos, em algum tempo poderemos marcar o casamento.
            O coronel pensou por alguns instantes, olhou bem nos olhos do moço e disse:
– O senhor acha que eu sou louco?
            – Não senhor, muito pelo contrário, lhe tenho muita consideração.
– Então vou entregar uma jóia como a minha fia na mão de quem irá fazê-la passar fome! Eu não faria isso nem em sonho.
            – De maneira nenhuma. Sou advogado, estou bem encaminhado na profissão e desejo dar a sua filha a melhor das vidas que estiver ao meu alcance.
            – Vivendo como um perdulário? O senhor não vê que o cigarro é artigo muito caro para ir distribuindo por aí a qualquer um? Dispois, gastar dois paus de fósforos para acender dois cigarros, com tanto fogo ai mesmo na lareira? Não e não. Com minha fia o senhor não se casa. É mior que fique sorteira.
            – Vamos deixar esse assunto para um outro dia. Vou cuidar de alcançar sucesso na profissão e lhe mostrar que sou capaz de dar a senhorita Isabel uma vida digna. Voltaremos a falar no assunto em outra oportunidade.
            – Qui é que le parece o causo da ação contra o muquirana do meu vizinho?
            – Creio que, com as fotos que tirei, poderei instruir muito bem a petição que farei ao juiz. Quando for marcada a audiência, eu lhe avisarei.
– Desculpe o mau jeito. Sou muito observador dos detalhes. E a sua atitude hoje, demonstrou que não tem o devido cuidado com o dinheiro que ganha. Isto pode se tornar um problema com o tempo. Acaba-se gastando mais do que ganha e quando se dá conta, está enterrado em dívidas.
            – Tenha certeza que vou tratar de aprender a lição e espero que o senhor não me poupe de suas observações. Vou me tornar digno de sua confiança e então me confiará a mão de sua filha. Mas isso fica para outra ocasião.
            Nesse momento Isabel entrou trazendo o bule fumegante de café e a mãe Maria Luiza a seguia com uma bandeja onde havia biscoitos, páezinhos de queijo, paçoca e pés de moleque. Tudo foi posto sobre a mesa de centro e Isabel se pôs a server as xícaras luxuosas com o conteúdo do bule. Entregou a cada um a sua e ofereceu o açucareiro para que se servissem. Depois colocou a bandeja com os doces mais perto e pediu que se servissem do que lhes fosse do agrado. Serviu para si mesma uma xícara de café, sentou e se pos a sorver em pequenos goles. Tomava o café sem açúcar. De acordo com suas palavras não queria engordar.
            A conversa correu leve, falando de amenidades, notícias vindas recentemente da capital federal sobre o andamento do governo do General Ernesto Geisel. Pessoalmente coronel Onofre preferia que houvessem colocado no posto mais importante da nação um representante mineiro, mas nesses tempos era melhor manter o bico fechado, para não entrar mosca. Quem se aventurasse a falar demais, poderia enfrentar situações bastante desagradáveis. Isso era algo que não apetecia ao nosso coronel. Prezava sobremaneira sua liberdade, a propriedade e seus bens em geral. Pensava duas, três e mesmo mais vezes antes de dizer o que quer que fosse relacionado ao governo e mesmo qualquer autoridade.
            Após o café, alguns biscoitos, uma segunda xícara e um pé de moleque, José julgou ser hora de bater em retirada. Para uma primeira visita era bastante. Não convinha demorar demais para não dar impressão de ser aproveitador. Deixou combinado com Isabel fazer tudo para saber da existêncie de alguém capaz de fazer a avaliação de seus quadros. Se não pudesse ser em Sete Lagoas, seria na capital Belo Horizonte.
            – Bem coronel, dona Maria Luiza, senhorita Isabel. Já são quatro horas, o tempo passou depressa. Foi um prazer visitar sua propriedade. O almoço foi maravilhoso, seu café Isabel, e seus doces dona Maria, muito bons. Coronel, parabens pela propriedade e pela família. Tudo perfeito. Gostaria de ficar mais um pouco, mas quero chegar cedo em casa e me preparer para a semana de trabalho.
            – A pressa é sua, doutor. Nóis ficamo muito honrado em le receber em nossa casa. A porta está sempre aberta para os amigos.
            – Doutor, obrigada pelos elogios aos meus dotes culinários. Dê um abraço em sua mãe, seu pai e irmãos.
            – Obrigada pelo elogio aos meus trabalhos. Se conseguir um avaliador não sei como poderei lhe agradecer.
            – Imagine! É um prazer server a quem me recebeu tão gentilmente, me serviu café e comida tão bem preparados. Espero ser merecedor de estar aqui em outras oportunidades.
            Levantaram-se e sairam para a varanda. José estendeu a mão a todos, despedindo-se e depois foi até o automóvel. Em pouco estava a caminho de casa. Ia pensativo sobre as palavras do coronel. Não imaginara que o velho fosse ser tão “sovina” a ponto de considerer sua attitude como perdulária. Não era à toa que no resto do país os mineiros eram conhecidos como mão fechada. Os famosos mãos de vaca. Percorreu a distância sem pressa e antes do por do sol estacionava na garagem da casa de seus pais. Ouviu ruido de conversação ao se aproximar da porta da moradia. Uma tia, irmã da mãe e seu marido haviam vindo passear. Moravam num vilarejo a alguns quilômetros de distância. Certamente estariam se despedindo em pouco tempo. Habitualmente não gostavam de andar na estrada em horas da noite.
            Ao entrar foi recebido alegremente. A tia e o tio não o viam há bastante tempo e estavam orgulhosos do progresso que ele vinha obtendo na carreira de advogado. Congratularam-se com ele e lhe desejaram sucesso. Quiseram saber como havia transcorrido a visita que acabava de fazer ao cliente, aparentemente importante. Lhes informou brevemente o que acontecera, omitindo os detalhes que só a ele interessavam evidentemente.

 

            Em pouco os tios se despediram para retornar ao lar. Tinham alguns animais domésticos que precisavam ser cuidados antes de escurecer e o sol estava se pondo. 

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