Alcorão – Decidi ler para entender melhor algumas coisas sobre o Islã.

Cidades sagradas do islamismo: Meca e Medina.
Muçulmanos prostrados em oração.

Devotos em torno da Caaba em Meca.

Outro ángulo dos devotos.

Peregrinação à Meca, pardais ao ninho é o nome da caminhada.

Vista noturna da mesquita em Meca. Caaba ao fundo.

Vista aérea de Meca.
O Alcorão

Livro sagrado do Islã, ou os muçulmanos.

Ditado por Mohamad(Maomé), sob inpiração de Alá.

Senti necessidade de ler esse livro, do qual tanto se fala, que milhões de indivíduos pelo mundo afora seguem, professam sua fé, seguem os ensinamentos. Em minha juventude, a formação católica me levou a encarar o Islamismo com a visão que tinham deles os cristãos da era das cruzadas. É evidente que assim os via com muita reserva e mesmo rejeição forte. Ao longo da vida encontrei muitas pessoas desse credo e nunca me fizaram qualquer mal, não me agrediram, nem ao menos tentaram me convencer de mudar minha fé. A história da vida ensinou que, da mesma maneira que existem entre eles grupos radicais, usando a motivação da “fé” para perpetrar tremendas atrocidades, conheci o lado cruel dos cristãos. Em minhas leituras encontrei narrativas de arrepiar sobre a era da Inquisição. Os julgamentos feitos baseados em provas inconsistentes, falta de defesa dos acusados e condenações a suplícios desumanos. O que nos coloca, a meu ver numa posição de empate com aqueles que muitas vezes foram apontados como carrascos. 

Especialmente nos últimos anos, cada vez mais assisti notícias de gente famosa, mudando de credo, tornando-se muçulmano, inclusive trocando de nome. Caso que me lembro agora é o de Cassius Clay, passando a chamar-se Muhamed Ali. Da mesma forma uma porção de outras figuras destacadas. Lembro que fiquei, primeiro horrorizado, depois pensativo. A enxurrada de acontecimentos da vida me levou a deixar essa análise em segundo plano, havendo coisas mais importantes e sérias com que me preocupar. Já aos 65 anos de idade, assistindo um recrudescimento das lutas de grupos islamitas pelo poder em seus países, me dispus a ler o seu livro sagrado. Queria poder argumentar com conhecimento de causa em uma situação qualquer tratando do assunto. Minha leitura foi feita em uma versão digital, no meu Kindle, disponigilizada pelo Centro Cultural
Beneficiente Árabe Islâmico de Foz do Iguaçu(http://www.islam.com.br). Versão para RocketEdition, LCC Publicações Eletrônicas, eBooksBrasil.com.

Conforme eu suspeitava, não encontrei nada semelhante ao que apregoam os radicais das diversas facções existentes pelo mundo afora. Considerando que o Islamismo surgiu nas cidades de Meca e Medina, na época denominadas Maka e Madina, onde vivia um povo considerado idólatra, pagão pelo profeta Maomé e seus seguidores. Consequentemente isso gerou conflitos frequentes. O crescimento acentuado dos adeptos da nova fé, levou a combates violentos, traições, vitórias e derrotas. Ao final triunfou a nova crença, espalhando-se aos quatro cantos do oriente, embora não houvesse em princípio perseguição a quem professasse outros credos, como os cristãos e judeus. 

Como sabemos dos livros de história, o cristianismo foi levado aos povos habitantes de outros continentes, denominados “colônias” pelos europeus invasores, apoiados em armas de fogo e navios de maior porte, permitindo a navegação de longa distância. No bojo dos navios iam os missionários encarregados de “converter” os habitantes das novas terras “descobertas”. Diga-se de passagem, grande parte das vezes essa conversão era feita muito mais pelo uso da força, do que pelo convencimento com exemplo de vida. Com o islamismo não foi diferente na época que precedeu as cruzadas. Os dirigentes políticos, também líderes religiosos, usaram a fé como mote para realizar querras de conquistas, que chegaram à Península Ibérica, onde são visíveis até os dias atuais os sinais de sua passagem. Essa ocupação durou séculos, terminando já próximo do fim da Idade Média. Em nossa língua há uma vasta série de vocábulos originários do idioma árabe. Só para citar temos alfabeto, alface, alfafa, até mesmo os algarísmos(Al Karisme) que usamos são os arábicos. 
Vista interna da mesquita. Povo nas galerias superiores.

Grande cemitério em Medina.

Vista da mesquita em Medina.
Falando do Alcorão, encontrei inúmeras citações de passagens e figuras do antigo testamento judaico/cristão como Abraão, Jacó(Israel), José do Egito, Faraó, Moises, Elias, Jó, Lot, Davi, Salomão, Jesus Cristo, Virgem Maria. Todos eles citados no texto alcorônico inúmeras vezes, não uma ou duas, mas muitas vezes. Os árabes descendem de Ismael, filho de Abraão com a escrava, uma vez que a esposa Sahra foi estéril até idade avançada e então concebeu Isaac, segundo promessa de Javé. Portanto israelenses e árabes são o que poderíamos chamar de “primos”. Talvez o fato de Ismael e sua mãe terem sido rejeitados por Abraão com o nascimento de Isaac explique de algum modo a quase irreconciliável inimizade que nutrem uns pelos outros, pelo menos em alguns nichos populacionais. 

Vou me ater a  comentar algumas coisas mais notáveis, pois seria preciso escrever um livro de dimensões semelhantes ao que li(1015páginas) para comentar tudo. Quem estiver interessado em ler, deverá procurar um exemplar que certamente haverá à venda em alguma livraria, ou mesmo em biblioteca. A essência da fé islâmica é, em grande parte, semelhante à judaica e cristã. Começando na crença em um Deus único. Aqui existe uma divergência com o cristianismo. Eles aceitam Jesus Cristo como um grande profeta, mas não como Filho de Deus, um dos componentes da Santíssima Trindade. Consideram isso uma heresia criada pelos cristãos. Os judeus são considerados como os que primeiro receberam a revelação, mas a subverteram, desviando-se dos verdadeiros ensinamentos transmitidos ao povo por Deus, através de seu servo Moisés. Eles aceitam inclusive a concepção virginal por parte de Maria, sem a participação de um homem, apenas não aceitam que tenha sido obra de Deus diretamente. Isso fica pouco claro nos textos que eu li. Como não aceitam que Deus(Alá) tenha um filho(Jesus Cristo), ele deveria ter usado seu poder criador e criado um espermatozóide que fecundou um óvulo no seio de Maria. Só isso explicaria o caso. 

É notável como lemos nos evangelhos que Jesus, respondendo ao apóstolo que lhe pedira:
   – Mostra-nos o pai, e isso nos basta!
   – Há tanto tempo estou com vocês e não me conheces? Quem me viu, viu o pai, porque eu e o Pai somos um. 
Se creem em Jesus Cristo como profeta, devem aceitar sua doutrina, mas parece que a aceitam no que convém ou interessa, não sei ao certo. 

Ficou-me a impressão de que, esse livro foi escrito depois que o cristianismo foi transformado em religião oficial do Império Romano. Teve início uma milenar interferência entre estado e religião. Há muitos momentos desse período que não fica claro onde começa a fé e onde começa o estado. Ficam literalmente entrelaçados de modo a tornar as relações de poder em grande parte das vezes promíscuas. Basta ver o exemplo do Cardeal Richellieu na França; um monge russo, do qual não lembro o nome no momento, que durante longos anos foi a eminência parda do império russo e tantos outros exemplos. Entretanto, se a ideia foi separar as coisas, isso não foi conseguido, uma vez que até os dias atuais na região do oriente médio e outros lugares o estado é em grande parte dominado pelos lideres religiosos. 

Outra coisa que chama atenção é a questão do casamento. É repudiado veementemente pelo alcorão o adultério. Por outro lado admite a poligamia, apesar de recomendar a monogamia. Admite o divórcio, desde que determinadas condições sejam respeitadas e isso abre ocasião a variadas interpretações, com suas inevitáveis consequências. Talvez a Igreja Católica possa usar como exemplo essa atitude e amenizar suas exigências relativas a indissolubilidade do casamento. Pode ser um caminho a seguir. Não falo de uma mudança radical e completa. Talvez uma abertura gradual e sem saltos. Não se pode saltar de um extremo ao outro de uma vez, até mesmo pelo fato de que a virtude em geral se encontrar no ponto de equilíbrio, não nos extremos. Estamos assistindo nomomento uma aparente movimantação com relação ao caso dos homossexuais, por que não fazer algo semelhante com o caso do divórcio? O mundo está em evolução constante e há necessidade de acompanhá-la, ajustar-se para não ficar à margem. 

Outra questão é o celibato dos sacerdotes. Não foi instituido por Jesus Cristo e sim pelo próprio clero, em função de razões puramente político/econômicas. Por que não mudar? Entre os muçulmanos, até o próprio profeta Maomé, foi casado primeiro com uma mulher e quando ela faleceu, acabou casado com várias ao mesmo tempo. Isso foi justificado como sendo à bem da difusão da nova fé entre as mulheres(?). Será? Não me cabe duvidar mas que fica a indagação, fica com certeza. 

Para concluir, posso dizer que, procurei encontrar algo que justificasse ações violentas em nome de Alá e não encontrei. Pensei em encontrar talvez uma ou outra referência aos profetas e outras figuras da nossa Bíblia, mas as encontrei às centenas, acho que mesmo milhares. Sinal de que somos frutos da mesma árvore, talvez de lados opostos. O lado do sol nascente e o do poente talvez? Isso justificaria tamanhas discrepâncias em nossos relacionamentos? Os nossos livros sagrados não preconizam isso. Ao contrário, todos, sem exceção, pregam o amor ao próximo, a caridade, a fraternidade. Por que será que isso é tão difícil de implementar? Será mesmo a ação do “damônio”, “satanás”, “Lúcifer”, capeta, djanho, coisa ruim ou seja lá a denominação que lhe demos o causador de tudo isso? Parece-me que nos falta em grande dose humildade, sentimentos de amor, desapego ao material. A meu ver, a principal causa de todas as desavenças entre os seres humanos é o egoísmo, traduzido em ganância, arrogância, ambição por poder. Daí derivam todos os demais atos que afligem tantos, por culpa de poucos na verdade. 

A imensa massa de seres humanos, somos mais de 7 bilhões hoje, deseja apenas ter um teto sobre a cabeça, o suficiente para se alimentar e vestir dignamente de acordo com as suas características locais. Acesso à educação, coisa inalienável na atualidade. Tenho plena convicção de que, se de fato quiséssemos, transformaríamos esse mundo em um paraíso em poucos anos. Bastaria desarmar nossos espíritos dos sentimentos de ódio, rancor, dominação sobre os outros. Prazer em subjugar o próximo. 

Seria muito bom se pudessemos criar um forum de discussão sobre esses assuntos. Eu lí o Alcorão por curiosidade, confesso, e me surpreendi com o que encontrei. Por outro lado também me decepcionei um pouco, coisa pessoal minha. Se houver quem queira, eu me disponho a fazer parte de um grupo de discussão dessa natureza. 


Fiel muçulmano em oração no alto de um penhasco, voltado para Meca.


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