Gaúcho de São Borja! – Capítulo XX

 

1.  
Preparativos para o casamento
Na terça pela manhã, bem cedo, Gaudêncio estava na estrada rumando para a fazenda Santa Maria. A ordenha da manhã ainda não terminada quando ele encostou a caminhonete nas proximidades. Maria Conceição o viu e veio ao encontro dando-lhe um abraço. Sempre que o filho se ausentava, a saudade batia forte. O rosto sorridente do filho a fez adivinhar que a missão com que ele fora a capital havia sido coroada de êxito. Em outras palavras, o casamento tinha sido marcado. Faltava apenas saber qual o dia escolhido e o local da comemoração. Ela ardia de vontade de perguntar, porém preferiu aguardar ele falar e satisfazer sua curiosidade.
Começou falando que haviam nascido vários bezerrinhos das novilhas adquiridas no mês de janeiro. Ainda não estavam aproveitando o leite, pois nos primeiros dias ainda desce o colostro o que torna o produto inservível para a indústria de laticínios. Dentro de uns 5 ou 6 dias haveria um razoável incremento na produção de leite. Mais um grupo estava na iminência de parir de hoje para amanhã. Dava bastante trabalho, mas era muito bonito ver os pequenos bichinhos começar a caminhar tropegamente, depois começar a se alimentar, aos poucos começar a se firmar e dar os primeiros pulinhos, uma e outra corridinha.
Nesse momento Pedro Paulo também se aproximou e não esperou:
– E então, filho? Casamento marcado? Podemos começar a preparar a festa?
– E vocês duvidaram?
– Não que nos duvidemos, mas sempre fica uma pontinha de dúvida, né.
            – Pode preparar a fatiota, bota nova, lenço vistoso para janeiro, papai. Satisfeito?
            – Pensei que ia ser logo. Só em janeiro? – falou Conceição.
            – É que para julho ia ser muito pouco tempo. Depois eu tenho aula, a Ângela também, não daria certo perder muitos dias. Foi a melhor época. Dia 10 de janeiro, está bem?
            – Ótimo, filho. Assim dá tempo de fazer tudo com calma. Já falou com seu padrinho?
            – Já. Ele ficou contente. Também imaginou que gente ia casar logo agora, dentro de uns dois ou três meses, mas no fim também ficou contente.
            – Qualquer dia é bom. O importante é que esteja tudo dentro dos conformes. Como manda a lei e os bons costumes.
            – Tudo na melhor ordem, mãe. Não poderia ser melhor, pode ter certeza.
            As últimas vacas terminaram de ser ordenhadas e o encarregado do serviço assumiu a conclusão de tudo. O transporte do leite logo estaria ali para levar a produção da noite anterior e a de agora pela manhã. Os três foram para a casa, onde havia água quente no fogão, a cuia preparada para o mate que logo foi cevado e rodou entre eles. Maria Conceição usou a água de outra cheleira para coar café e pôs leite para aquecer. Retirou o pão caseiro do armário, colocou sobre a mesa também o queijo, nata guardada na geladeira, melado comprado da região mais ao norte, onde se cultivava cana de açúcar. Depois sentou por uns minutos esperando o leite dar sinal de ferver. Era o momento crítico. Um descuido e derramava um bocado sobre o fogão, sujando tudo.
            Pedro se encarregou de contar as demais novidades ocorridas no final de semana. Haviam remanejado o gado de corte para outra invernada onde o pasto estava mais forte e não causaria atraso no processo de engorda. O capim na área de arroz estava bem crescido. Logo poderiam colocar o gado para pastar naquela área. Assim, na época de plantar o arroz, não haveria muito que eliminar para permitir o plantio. Além de alimentar o gado, limpava o terreno.
            Gaudêncio estava cada vez mais envolvido com suas aulas, leituras, exercícios para resolver e estudar para as provas. Havia obtido resultados muito bons no primeiro bimestre e as provas do segundo estavam próximas. Havia trabalhos por fazer, trazia livros da biblioteca da escola, outros encontrava na biblioteca municipal, ou comprava na livraria. Por graça de seu padrinho, podia dar-se esse pequeno luxo. Assim ia formando uma biblioteca própria, juntando livros de literatura e assuntos diversos. As revistas sobre agricultura que, embora poucas, traziam informações importantes e ele as reunia em ordem cronológica, separando por categoria. O que antes não merecia um mínimo de sua atenção, agora estava ocupando uma das primeiras posições.
            À todas as ocupações já existentes em sua vida, viera somar-se a preparação para o casamento. Nas próximas semanas, na ocasião de ir a cidade para algum assunto relativo à fazenda, aproveitaria para falar com o padre da matriz. Iria até o fórum pedir informações sobre os trêmites para o casamento no civil. Assim não teria surpresas quando fosse a hora de encaminhar a documentação.
            No dia da chegada, depois de colocar em dia as novidades, foi com Pedro Paulo supervisionar todos os setores da propriedade. Verificou as providências a tomar com relação ao gado de todas as categorias. Questões relativas a limites de pastagens, manejo do gado entre as invernadas, cuidados com as vacas de leite, especialmente as novilhas que estavam parindo naqueles dias. Encontrou uma quinzena de bezerros de poucos dias, boa parte de fêmeas. Os machinhos iriam fazer parte do gado de corte, no momento em que estivessem em idade de sobreviver apenas pastando. Já as fêmeas teriam seu desenvolvimento acompanhado de perto, para separar aquelas que apresentassem melhor conformação visando a reprodução. Iriam substituir as que agora produziam e iriam atingir a idade em que sua produtividade começa a declinar.
            Estava lendo em uma das revistas um artigo falando de um sistema de controle dessa parte, visando a melhoria do aproveitamento geral. Depois que dominasse o assunto e depois de se aconselhar com o veterinário da cooperativa, implantaria o sistema na fazenda. Seria uma carga a mais de trabalho, mas pelo que havia lido, traria retorno certo. Talvez, depois de casado, a esposa poderia ajudar nessa parte mais burocrática, nos momentos em que não estivesse ocupada com atividades de sua profissão. Se não fosse possível, contrataria um funcionário ou funcionária para fazer esse trabalho.
            A cooperativa estava cadastrando todos os plantadores de arroz que iriam aderir ao sistema de criação de peixes nos arrozais. Queriam saber as áreas envolvidas para fazer a previsão do número de alevinos necessários. Um convênio com a associação de pescadores havia sido firmado, estando o trabalho de ampliação e melhoria das instalações em andamento. Haveria necessidade de uma área de estocagem bem mais ampla, uma vez que previam uma elevação gigantesca da quantidade de pescado produzido. Para isso havia necessidade de conhecer com bastante precisão o volume total que poderia ser esperado ao final do ciclo.
            Eram frequentes as visitas de proprietários da redondeza à fazenda para verem com os próprios olhos e esclarecer dúvidas com quem tinha pelo menos um ano de experiência na atividade. O mês de junho foi bastante cansativo para nosso jovem estudante, administrador de fazenda, noivo e agora mesmo interessado de alguma forma em pesquisas. Tinha sede de inovações e nada que lhe parecesse interessante era deixado de lado, sem ao menos uma criteriosa análise.
            Joaquim ficava cada vez mais folgado. Bendizia o fato de ter nomeado o afilhado seu herdeiro. Ele agora assumia toda a carega de trabalho, trazendo a ele apenas as questões já mastigadas, para obter o seu aval antes de iniciar alguma mudança mais significativa. Resolveu no segundo semestre realizar mais uma viagem ao exterior. Dessa vez conheceria os países da América do Sul, começando pela Argentina, depois Chile e pelo menos as capitais dos outros. Talvez incluísse a América Central no roteiro. Procurou uma agência de viagens existente na cidade em busca de informações sobre passagens, hospedagem e lugares interessantes. Depois dessa fase, definido o roteiro, preparou-se para partir no final de agosto. Queria estar de retorno final de outubro, começo de novembro.
            Enquanto isso, no mês de julho Gaudêncio fez outra visita à capital para ver a noiva. Queria combinar a época em que ela viria para São Borja para encaminharem a documentação para o casamento. Na ocasião o general não veio no final de semana. Ficou retido em reuniões emergenciais na capital federal. Estando apenas a mãe Lourdes e a filha Ângela, aproveitaram para fazer uma excursão à região de Garibaldi e Bento Gonçalves. Sabiam que ali nessa época o clima, devido ao frio era bem agradável. Combinava boa comida, vinhos da região e lugares muito pitorescos.
            Voltaram somente na segunda-feira pela manhã. Ficou combinado que se encontrariam na Semana da Pátria em São Borja e encaminhariam os documentos. Não haveria demora e talvez Ângela precisasse perder apenas um dia de aulas, o que não representaria grandes problemas. Retornou para casa na terça-feira após o almoço. Nesse tempo as novilhas adquiridas estavam todas em plena produção de leite. Algumas das mais velhas, já um tanto decrépitas tinham sido descartadas. Não era mais compensador mantê-las no plantel. De tempo em tempo mais uma outra novilha criava, pois tinham sempre algumas provenientes das antigas produtoras de leite.
            Uma das providências a tomar seria fazer grupos de matrizes para escalonar as épocas de cria e assim conseguir manter um nível de produtividade mais uniforme durante o ano inteiro. Isso representava uma remuneração melhor do leite no período inteiro. Quem produzia bem no verão e tinha queda acentuada no inverno, era remunerado bem pela média do inverno, tendo um desconto significativo pelo volume restante. Cada centavo perdido, representava prejuízo no final do mês. Se conseguisse planejar a época de cria e produção plena das matrizes, seria possível fazer com que o volume maior fosse exatamente nos meses de inverno. Na situação ideal não haveria variação.
            Antes de embarcar para a sua viagem, Joaquim determinou ao afilhado que não deveria se preocupar com casa para morar depois de casar. Bastaria conservar o seu quarto na casa e poderiam ocupar o resto sem reservas. Ficaria mais tempo na cidade ou viajando, o que tornava desnecessária a eventual construção de uma residência para o jovem casal. Deveriam aproveitar a ocasião da vinda de Ângela em setembro para planejarem as reformas que iriam querer fazer e dar andamento ao processo. Assim, quando ele voltasse e o enlace estivesse perto estaria tudo pronto. Gaudêncio comunicou à noiva esse detalhe. Ela, no primeiro momento falou que nem iria querer reformar nada. Decidiram que falariam sobre isso na hora certa.
            O final de agosto chegou e Joaquim passou para o lado Argentino, de onde embarcou em um ônibus indo até a primeira estação da estrada de ferro. Dali viajo de trem até Buenos Aires, fazendo escalas em diversos localidades ao longo do caminho. Da capital viajou de avião à capital do Chile e depois percorreu os principais lugares dignos de serem vistos, de ônibus. Visitou as capitais dos demais países. No Perú foi conhecer Machu-Pichu. Subiu ao deserto do Atacama. Na América Central visitou a Nicarágua, Costa Rica e Panamá e México. Ficou tentado a dar um pulo em Cuba, mas desistiu no último momento. Voltou no final de outubro, quando o arroz já estava plantado e em alguns dias chegariam os alevinos. Seria um momento histórico, pois a quantidade de pequenos peixes que seriam soltos nos cultivos de arroz, era algo descomunal.
            Enquanto Joaquim viajava, chegou a semana da pátria e Ângela veio para a fazenda. A mãe por sua vez viajou para Brasília ao encontro do marido. Nos dias de sua permanência, para não causar falatórios, Maria Conceição e Pedro Paulo ficaram hospedados na casa grande, ocupando um dos quartos de hóspedes. As pequenas alterações sugeridas pela noiva foram insignificantes aos olhos de Gaudêncio. Ele esperava uma mudança mais profunda, mas não foi isso que ocorreu. Ela achou tudo muito bom. A maior mudança foi uma nova pintura, trocando a cor de algumas dependências, detalhes como o tom das janelas e portas deram um aspecto mais alegre à residência. Em pouco mais de um mês tudo havia sido feito. Ele tirou fotografias e mandou revelar. Depois enviou por correio para ela ver como havia ficado.
            Ao telefone ela lhe informou que estava perfeito. Alguma coisa que precisasse ser mudada depois, poderia ser feito com tempo e calma, sem atropelos. Iriam escolher em desembro alguma coisa no quesito móveis para harmonizar a nova pintura com a decoração em geral. A documentação havia sido encaminhada e estava tudo pronto e previsto. Os convites haviam sido encomendados no local e apenas o número necessário para os amigos e parentes da noiva foram levados por Gaudêncio em sua próxima visita, logo no começo de novembro, após a volta de Joaquim.
            As atividades de instalação na associação de pescadores estavam a pleno vapor. Teriam ainda que fazer testes, corrigir eventuais problemas que surgissem, antes de receberem o imenso volume de pescado previsto. Ocorreu naquele ano um fluxo considerável de moradores da cidade em visita às fazendas para verem o movimento constante dos peixinhos nas águas que envolviam os pés do arroz. Formavam um espetáculo só possível de ver nesses lugares. Houve que repetiu a visita com algumas semanas de diferença, encontrando uma enorme diferença entre o tamanho dos peixes. Pareciam crescer a olhos vistos. Os próprios fazendeiros acompanhavam o desenvolvimento com curiosidade. Era algo difícil de acreditar que aqueles pequenos pontinhos escuros na água, em pouco mais de dois meses estavam muitas vezes maiores.
            O estoque de pescado feito no início do ano, estava terminado. O produto caira no gosto da população, passando a ser bastante procurado. Quando os últimos pacotes foram vendidos, os pescadores, os consumidores e comerciantes passaram a esperar ansiosos pelo dia em que pudessem novamente contar com o produto.
            Os convites para o casamento haviam sido enviados ou entregues em mãos aos convidados, as roupas para a ocasião estavam sendo confeccionadas. Muita gente mandou fazer roupas novas, elevando bastante a quantidade de encomendas recebidas pelos alfaiates, costureiras e mesmo sapateiros. Havia os que faziam sob medida as botas para muitos clientes há muitos anos e era preciso encomendar com muita antecedência. Quem queria estar com uma bota nova, reluzente e diferente sabia que precisava tratar do assunto com tempo hábil para ficarem prontas. Também havia os usuários de guaiacas, igualmente feitos sob encomenda. Uma guaiaca nova demorava alguns dias para ficar pronta. Um volume elevado, tornava a espera bem maior.
            Dessa forma, em dezembro chegaram Ângela e sua mãe Lourdes para a escolha dos móveis do quarto e alguma coisa a ser trocada no restante da casa. Gaudêncio as levou às lojas da cidade e procuraram pelos artigos que fossem de seu agrado. Como estavam ainda no começo do mês, ocorreu à ele procurar uma marcenaria e ver se haveria possibilidade de fazer alguma coisa sob encomenda, pois estava difícil encontrar o que tinham em mente. Mediante a promessa de um pagamento adicional conseguiram o milagre. O marceneiro os acompanhou à fazenda e tomou as medidas. Assim faria tudo sob medida o que daria um toque pessoal ao ambiente.
            Passaram mais tempo passeando e conhecendo a cidade do que fazendo compras. Não tinham necessidade de adquirir louças, utensílios e demais pertences da casa. Havia tudo e até em excesso. Nunca usariam tudo o que tinha naquela casa. As roupas para a cama seriam compradas na capital, onde existia maior diversidade de produtos, escolha de cores e marcas. Na volta para a capital Ângela iria experimentar o vestido e fazer as últimas provas para conclusão de seu terceiro ano de faculdade. Gaudêncio terminara de fazer as provas do quarto bimestre e fora aprovado por média. Nenhuma prova final, ou recuperação a fazer. Estava bastante envaidecido com isso e recebeu congratulações de Joaquim, bem como de Ângela ao chegar.
            Ele fez questão de levar a noiva para conhecer alguns dos professores da escola que estavam em atividade, atendendo os alunos que ainda batalhavam para conseguir sua aprovação. Os elogios que recebeu foram unânimes de todos os lados. Ângela foi convidada a fazer parte do quadro funcional da escola ou outra na cidade, quando concluísse sua formação. Ao saberem do casamento em janeiro, imaginaram que ela iria desistir da faculdade. Ficaram encantados com a solução que haviam encontrado para não pararem de estudar. Ali estava um casal que, além de se amar, olhava par ao futuro. Certamente teriam um belo porvir.
            O mês de janeiro passou e chegou o início do ano. Poucos dias separavam o casal da hora marcada. A família de Ângela chegou no dia 5 e ficou hospedada na casa de Joaquim na cidade. Era mais conveniente. A noiva viria de uma casa e o noivo de outra. Depois de casados seguiriam para a fazenda onde aconteceria a festa, seguida de fandango e muita brincadeira. Alguns presentes começaram a chegar de diferentes procedências, sendo entregues em veículos de entrega. Os convidados faziam as compras numa mesma loja e assim a entrega era feita de uma vez, trazendo os cartões de felicitações de quem os ofertava.
            No dia marcado, uma Ângela radiante e brilhante em seu vestido simples, mas de muito bom gosto. Uma grinalda singela com algumas brilhantes pedrarias e com um véu discreto, completavam sua indumentária. O noivo estava ligeiramente desconfortável em seu terno, vestuário que poucas vezes usara até aquele dia. A camisa, imaculadamente branca e a gravata eram para ele um pequeno tormento. Mas nada lhe tiraria a alegria de estar devidamente trajado para receber por esposa a eleita de seu coração.
            A igreja estava repleta de convidades e alguns curiosos, o Padre e o Juiz estavam a postos para realizarem simultaneamente a cerimonia religiosa com a civil. No momento das palavras “pode beijar a noiva”, os dois se olharam fundo nos olhos e depois de um momento, se abraçaram carinhosamente, trocando um beijo ardente. As palmas soaram no recinto da igreja e logo iniciaram o processo de assinaturas dos documentos, a presença das testemunhas, dos pais para depois iniciarem o desfile pelo corredor até a porte, de onde o padrinho Joaquim os levaria de automóvel para a fazenda. Formou-se um longo cortejo no caminho da fazenda. Boa parte dos convidados que conheciam o caminho, iam à frente. Os demais seguiam após o carro que levava os noivos.
            Na fazenda, o grande galpão estava limpo e ornamentado para festa. Ao lado, um imenso fogo de chão dava conta de assar uma grande quantidade costelas inteiras no mais tradicional estilo gaúcho. Em uma churrasqueira próxima estavam sendo assadas as carnes diferentes como picanha, galeto, carne de porco, linguicinha e miúdos de frango. Logo na chegada os convidados eram recebidos com uma porção de linguiça assada, um copinho com vinho ou uma cerveja para acompanhar. As crianças e adolescentes tinham ao seu dispor vários tipos de refrigerantes. A chegada dos noivos foi saudada com uma ensurdecedora salva de fogos de artifício. Os músicos tocaram e cantaram Parabéns pra vocês, depois outras músicas próprias para a ocasião.
            Poesias foram recitadas, alguns pequenos discursos pronunciados e a seguir Joaquim, em nome dos pais dos noivos, convidou a todos para buscarem assento nos bancos que ladeavam as muitas mesas disponíveis. Os noivos, padrinhos, pais, amigos mais chegados, tinham uma mesa especial. Logo depois iniciou-se a tarefa de servir os acompanhamentos para a grande quantidade de carne assada. Num vaivém ininterrupto os encarregados desse serviço, levavam e traziam os enormes espetos com as costelas, cortavam a cada um o pedaço escolhido. Seguiam em frente até o momento que era visível o resfriamento. Era então levado de volta ao fogo e logo outro espeto estava nas mãos do servente sendo levado aos comensais.
            Quando ninguém mais aguentava engolir um pedacinho de carne sequer, ainda havia uma boa quantidade dela pronta para ser consumida. Foi o momento de servir a sobremesa e mais um pouco de bebida. O consumo abundante de carne e acompanhamentos, parecia neutralizar o efeito do álcool do vinho e da cerveja. Havia sim um e outro leventente alegre, nada porém que fosse preocupante. Diversas brincadeiras com os noivos foram feitas, tais como cortar a gravata e vender em pedacinhos, leiloar o sapato da noiva. Quem o arrematasse tinha o direito de colocar o sapato no pé dela. Evidentemente sob a supervisão do noivo. A grande quantidade de comida e bebida, fez efeito. Não tardou para serem vistos inúmeros dorminhocos espalhados por todos os lugares que se prestassem para tirar uma soneca.
            Quando os músicos começaram a executar toda variedade de músicas e as mesas foram removidas do centro do galpão, começou o fandango. A dança dos noivos, a dança da noiva, do noivo, igualmente leiloados entre os homens e as mulheres. O vencedor do leilão ganhava o direito de dançar a música com a noiva ou noivo, conforme o caso. As brincadeiras se sucederam tarde afora. Danças típicas, demonstrações de danças flocfolclóricaso a chula, sapateado e outras. Uma sessão de repentistas teve lugar, até que foi anunciada a hora do café da tarde. Primeiro foi cortado o bolo de casamento, muitas fotografias tiradas, filmagens feitas para guardar e mostrar aos filhos, talvez netos um dia.
            O entardecer se aproximava e os convidados continuavam a dançar e comemorar. Depois de atender a todos os amigos e convidados, os noivos conseguiram sair discretamente no meio da balbúrdia geral. Trocaram de roupas na casa e foram, no início da noite, para um hotel na cidade. Ali passariam a primeira noite de casados, aguardando o avião no dia seguinte para a capital. Dali iriam para a Europa. Lá era inverno e teriam tempo de ficarem sossegados em um quarto quente de hotel ou poderiam apreciar alguma coisa da paisagem dos montes cobertos de neve. Se houvesse disposição iriam até uma estação de esqui. Ângela falava suficientemente bem o inglês para não terem problemas de comunicação.
            Quando a grande maioria do povo percebeu os noivos haviam sumido. Iniciou-se uma procura desenfreada e nada encontraram. Tinham planejado seguir com o fandango até altas horas da madrugada, não deixando os dois se recolher. Olharam-se uns aos outros e, vendo frustrado seu intento, decidiram por vingança seguir com a festa assim mesmo. Realmente os últimos deixaram a propriedade quando o dia seguinte estava amanhecendo.
            Não havia sobrado nenhum pedaço de carne, nem garrafa de cerveja, vinho ou refrigerante. No vinal, para completar, até mesmo os biscoitos existentes, geralmente relegados ao segundo plano no quesito comilança, foram atacados. Deram cabo de tudo.
            – Ainda bem, – falou Pedro Paulo, vendo o resultado. – Não tem garrafa cheia para devolver. Estão todas vazias. A carne terminou, as bolachas, bolos e outras coisas, foi tudo comido. Não há risco de algo ser jogado fora.
            – Agora sim, meu velho! Estamos nós dois outra vez. Do mesmo jeito que começamos há tantos anos.
            – É a norma da vida, Ceição.
            – O casal começa sozinho e termina sozinho.
            – Vamos agora esperar os netos.
            – Deixa eles terem um tempo para gozarem um pouco a vida. Essa história de logo encher barriga não está mais na moda. Ela está levando pílula para evitar ter filho logo. Ainda tem um ano de faculdade por fazer. Depois eles vão pensar em ter filhos.
            – Mas esse mundo não é mais o mesmo. No nosso tempo a gente logo queria ter filho. Nós é que não tivemos sorte. Mas está muito do bom. Pra compensar vamos ter uma porção de netos.
            – Que Deus lhe ouça, meu bem.
            Na cidade, depois do sol nascer, os recém-casados estavam se preparando para irem ao aeroporto pegar o avião. Depois do almoço embarcariam para São Paulo, Rio de Janeiro e por fim Recife, antes de tomarem o caminho da Europa. Conferiram todos os documentos. Passaportes, passagens, comprovantes de reservas de hotéis, vistos dos países que pretendiam visitar. Cheques de viagem em dólares, com vários valores individuais para facilitar o pagamento de contas de diferentes valores. Levavam também uma determinada quantidade de dinheiro em dólares para despesas urgentes, quando não fosse possível usar o cheque de viagem. As malas estavam prontas, conferidas e eles chamaram um carregador para levar tudo até um taxi que os deixaria no aeródromo. Haviam se despedido de todos os familiares e estavam sozinhos nesse momento, por escolha própria.
            Pontualmente às 10h15 minutos foram chamados para o embarque. Quando os ponteiros indicavam 10h e 40 minutos o avião decolava rumo a Porto Alegre, fazendo no caminho uma escala em Santa Maria. Pouco após o meio dia desembarcavam na capital. Ali mesmo encontraram um restaurante para almoçar, pois o voo da conexão sairia às 14h 45 minutos. Não havia tempo a perder.  

            

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *